Part 10
--Ora, como foi! Elle chegou como Vossa Senhoria, no meu tilbury, apeou-se e entrou n'uma casa de rotula; disse que ia ver a costureira da mulher. Como eu não lhe perguntei nada, e elle tinha vindo calado toda a viagem, muito cheio de si, comprehendi logo a finura. Agora, podia ser verdade, porque é mesmo uma costureira que mora na casa da rua da Harmonia...
--Da Harmonia? repetiu Rubião.
--Máo! Vossa Senhoria está arrancando o meu segredo; fallemos de outra cousa; não digo mais nada.
Rubião olhava attonito para o homem, que de facto se calou por dous ou tres minutos, mas logo depois continuou:
--Tambem não ha muita cousa mais. O moço entrou; eu fiquei esperando; meia hora depois vi um vulto de mulher, ao longe, e desconfiei logo que ia para lá. Meu dito, meu feito; ella veiu, veiu, devagar, olhando disfarçadamente para todos os lados; ao passar pela casa, não lhe digo nada, nem precisou bater; foi como nas magicas, a rotula abriu-se por si, e ella enfiou por alli dentro. Se eu já conheço isto. Em que é que Vossa Senhoria quer que a gente ganhe alguma cousa mais? O preço da tabella mal dá para comer; é preciso fazer estes ganchos.
CAPITULO XC
--Não, não podia ser ella, reflectiu Rubião, em casa, vestindo-se de preto.
Desde que chegara, não pensou em outra cousa que não fosse o caso contado pelo cocheiro do tilbury. Tentou esquecel-o, arranjando papeis, ou lendo, ou dando estalinhos com os dedos para ver pular o Quincas Borba; mas a visão perseguia-o. Dizia-lhe a razão que ha muitas senhoras de boa figura, e nada provava que a da rua da Harmonia fosse ella; mas o bom effeito era curto. Dahi a pouco, desenhava-se ao longe, cabisbaixa, vagarosa, uma pessoa, que era nem mais nem menos a propria Sophia, e andava, e entrava de repente pela porta de uma casa, que se fechava logo... _Beati quorum tecta sunt peccata._ Assim rangia a porta em mau e litteral sentido. A visão foi tal, em certa occasião, que o nosso amigo ficou a olhar para a parede, como se alli estivesse a rotula da rua Harmonia. De imaginação, fez uma serie de acções:--bateu, entrou, lançou a mão ao gasnate da costureira, e pediu-lhe a verdade ou a vida. A pobre mulher, ameaçada da morte, confessou tudo; levou-o a ver a dama, que era outra, não era Sophia. Quando Rubião voltou a si, sentiu-se vexado.
--Não, não podia ser ella.
Vestiu o collete, e foi abotoal-o deante de uma das janellas, que dava os fundos, no momento em que uma caravana de formigas ia passando pelo peitoril. Quantas vira passar outr'ora! Mas desta vez, nunca soube como, pegou de uma toalha, deu dous golpes, atropellou as tristes formigas, matando uma porção dellas. Talvez alguma lhe pareceu «boa figura e bonita de corpo». Logo depois arrependeu-se do acto; e realmente, que tinham as formigas com as suas suspeitas? Felizmente, começou a cantar uma cigarra, com tal propriedade e significação, que o nosso amigo parou no quarto botão do collete. _Sôôôô... fia, fia, fia, fia, fia, fia... Sôóóô... fia, fia, fia, fia, fia..._
Oh! precaução sublime e piedosa da natureza, que põe uma cigarra viva ao pé de vinte formigas mortas, para compensal-as. Essa reflexão é do leitor. Do Rubião não póde ser. Nem era capaz de approximar as cousas, e concluir dellas,--nem o faria agora que está a chegar ao ultimo botão do collete, todo ouvidos, todo cigarra... Pobres formigas mortas! Ide agora ao vosso Homero gaulez, que vos pague a fama; a cigarra é que se ri, emendando o texto:
Vous marchiez? J'en suis fort aise. Eh bien! mourez maintenant.
CAPITULO XCI
Soou a campainha do jantar; Rubião compoz o rosto, para que os seus habituados (tinha sempre quatro ou cinco) não percebessem nada. Achou-os na sala de visitas, conversando, á espera; ergueram-se todos, foram apertar-lhe a mão, alvoroçadamente. Rubião teve aqui um impulso curioso,--dar-lhes a mão a beijar. Reteve-se a tempo, espantado de si proprio.
CAPITULO XCII
De noite, correu á praia do Flamengo. Não pôde fallar a Maria Benedicta, que estava em cima, no quarto, com duas moças da visinhança, amigas della. Sophia veiu recebel-o á porta, e levou-o para o gabinete, onde duas costureiras faziam os vestidos de luto. O marido acabava de chegar; ainda não descera.
--Sente-se aqui, disse ella.
Tomou conta delle; estava divina. As palavras sabiam-lhe carinhosas e graves, entrecortadas de sorrisos amigos e honestos. Fallou-lhe da tia, da prima, do tempo, dos criados, dos expectaculos, da falta d'agua, de uma multidão de cousas diversas, vulgares ou não, mas que passando pela bocca da moça, mudavam de natureza e de aspecto. Rubião ouvia fascinado. Ella, para não estar vadia, ia cosendo uns folhos; e, quando a conversação fazia pausa, Rubião era pouco para comer-lhe as mãos ageis, que pareciam brincar com a agulha.
--Sabe que estou formando uma commissão de senhoras? perguntou ella.
--Não sabia; para que?
--Não leu a noticia daquella epidemia n'uma cidade das Alagoas?
Contou-lhe que ficara tão penalisada, que resolveu logo organisar uma commissão de senhoras, para pedir esmolas. A morte da tia interrompeu os primeiros passos; mas ia continuar, passada a missa do setimo dia. E perguntou que lhe parecia.
--Parece-me bem. Não ha homens na commissão?
--Ha só senhoras. Os homens apenas dão dinheiro, concluiu rindo.
Rubião, de cabeça, subscreveu logo uma quantia grossa, para obrigar os que viessem depois. Era tudo verdade. Era tambem verdade que a commissão ia pôr em evidencia a pessoa de Sophia, e dar-lhe um empurrão para cima. As senhoras escolhidas não eram da roda da nossa dama, e só uma a comprimentava; mas, por intermedio de certa viuva, que brilhára entre 1840 e 1850, e conservava do seu tempo as saudades e o apuro, conseguira que todas entrassem naquella obra de caridade. Desde alguns dias não pensara em outra cousa. Ás vezes, á noite, antes do chá, parecia dormir na cadeira de balanço; não dormia, fechava os olhos para considerar-se a si mesma, no meio das companheiras, pessoas de qualidade. Comprehende-se que este fosse o assumpto principal da conversação; mas, Sophia tornava de quando em quando ao presente amigo. Porque é que elle fazia fugidas tão longas, oito, dez, quinze dias, e mais? Rubião respondeu que por nada, mas tão commovido, que uma das costureiras bateu no pé da outra. Dahi em deante, ainda quando o silencio era largo, cortado apenas pelo som das agulhas no merinó, das tesouradas, dos rasgados, uma e outra não perdiam de vista a pessoa do nosso amigo, com os olhos fisgados na dona da casa.
Veiu uma visita de pesames,--um homem, director de banco. Foram chamar logo o Palha, que desceu a recebel-o. Sophia, pediu licença ao Rubião, por alguns segundos; ia ver Maria Benedicta.
CAPITULO XCIII
Rubião, ficando só com as duas mulheres, entrou a andar de um lado para outro, abafando os passos, para não incommodar ninguem. Da sala vinha uma ou outra palavra do Palha: «Em todo o caso, pode crer...»--«Nem a administração de um banco é cousa de brincadeira...»--«Positivamente...» O director fallava pouco, secco e baixo.
Uma das costureiras dobrou a costura, arrecadou apressadamente retalhos, tesouras, carreteis de linha, de retroz. Era tarde; ia-se embora.
--Dondon, espera um bocado que eu vou tambem.
--Não, não posso. O senhor faz favor de dizer que horas são?
--São oito e meia, respondeu Rubião.
--Jesus! é muito tarde.
Rubião, para dizer alguma cousa, perguntou-lhe porque não esperava, como a outra pedia.
--Só espero D. Sophia, acudiu Dondon com respeito; mas o senhor sabe onde é que esta móra? Móra na rua do Passeio. E eu vou dar com os ossos na rua da Harmonia. Olhe que daqui á rua da Harmonia é um estirão.
CAPITULO XCIV
Sophia desceu logo, achou Rubião transtornado, fugindo com os olhos. Perguntou-lhe o que era; elle respondeu que nada. Dondon sahiu, o director do banco despedia-se; Palha agradecia-lhe a fineza, estimava-lhe a saude. Onde estava o chapéo? Achou-o; deu-lhe tambem o sobretudo; e, parecendo que elle procurava outra cousa, perguntou se era a bengala.
--Não, senhor, é o guarda chuva. Creio que é este; é este. Adeus.
--Ainda uma vez, obrigado, muito obrigado, disse o Palha. Ponha o seu chapéo, está humido, não faça ceremonias. Obrigado, muito obrigado, concluiu apertando-lhe a mão nas suas, e curvado em angulo.
Voltando ao gabinete, deu com o socio, que teimava em sair. Instou tambem; disse-lhe que tomasse uma chicara de chá, que lhe passava logo; Rubião recusou tudo.
--A sua mão está fria, observou o moça ao Rubião, apertando-lh'a; porque não espera? Agua de melissa é muito bom. Vou buscar.
Rubião deteve-a; não era preciso; conhecia aquelles achaques, curavam-se com o somno. Palha quiz mandar vir um tilbury; mas o outro accudiu dizendo que o ar da noite lhe faria bem, e que no Cattete acharia conducção.
CAPITULO XCV
--Vou agarral-a antes de chegar ao Cattete, disse Rubião subindo pela rua do Principe.
Calculou que a costureira teria ido por alli. Ao longe, descobriu alguns vultos de um e outro lado; um delles pareceu-lhe de mulher. Hade ser ella, pensou; e picou o passo. Entende-se naturalmente que levava a cabeça atordoada: rua da Harmonia, costureira, uma dama, e todas as rotulas abertas. Não admira que, fóra de si, e andando rápido, désse um encontrão em certo homem que ia devagar, cabisbaixo. Nem lhe pediu desculpa; alargou o passo, vendo que a mulher tambem andava depressa.
CAPITULO XCVI
E o homem empurrado, apenas sentiu o empurrão. Caminhava absorto, mas contente, espraiando a alma, desabafado de cuidados e fastios. Era o director de banco, o que acabava de fazer a visita de pesames ao Palha. Sentiu o empurrão, e não se zangou; concertou o sobretudo e a alma, e lá foi andando tranquillamente.
Convem dizer, para explicar a indifferença do homem, que elle tivera, no espaço de uma hora commoções oppostas. Fora primeiro á casa de um ministro de Estado, tratar do requerimento de um irmão. O ministro, que acabava de jantar, fumava calado e pacifico. O director expoz atrapalhadamente o negocio, tornando atraz, saltando adeante, ligando e desligando as cousas. Mal sentado, para não perder a linha do respeito, trazia na boca um sorriso constante e venerador; e curvava-se, pedia desculpas. O ministro fez algumas perguntas; elle, animado, deu respostas longas, extremamente longas, e acabou entregando um memorial. Depois ergueu-se, agradeceu, apertou a mão ao ministro, este acompanhou-o até á varanda. Ahi fez o director duas cortezias,--uma em cheio, antes de descer a escada,--outra em vão, já embaixo, no jardim; em vez do ministro, viu só a porta de vidro fosco, e na varanda, pendente do tecto, o lampião de gaz. Enterrou o chapéu, e sahiu. Saiu humilhado, vexado de si mesmo. Não era o negocio que o affligia, mas os comprimentos que fez, as desculpas que pediu, as attitudes subalternas, um rosario de actos sem proveito. Foi assim que chegou á casa do Palha.
Em dez minutos, tinha a alma espanada, e restituida a si mesma, taes foram as mesuras do dono da casa, os _apoiados_ de cabeça, e um raio de sorriso perenne, não contando offerecimentos de chá e charutos. O director fez-se então severo, superior, frio, poucas palavras; chegou a arregaçar com desdem a venta esquerda, a proposito de uma ideia do Palha, que a recolheu logo, concordando que era absurda. Copiou do ministro o gesto lento. Saindo, não foram delle as cortezias, mas do dono da casa.
Estava outro, quando chegou á rua; dahi o andar socegado e satisfeito, o espraiar da alma devolvida a si propria, e a indifferença com que recebeu o embate do Rubião. Lá se ia a memoria dos seus rapapés; agora o que elle rumina saborosamente são os rapapés de Christiano Palha.
CAPITULO XCVII
Quando Rubião chegou á esquina do Cattete, a costureira conversava com um homem, que a esperara, e que lhe dou logo depois o braço; e viu-os ir ambos, conjugalmente, para o lado da Gloria. Casados? amigos? Perderam-se na primeira dobra da rua, emquanto Rubião ficou parado, recordando as palavras do cocheiro, a rotula, o moço de bigodes, a senhora de bonito corpo, a rua da Harmonia... Rua da Harmonia; ella dissera rua da Harmonia.
Deitou-se tarde. Parte do tempo esteve á janella, matutando, charuto acceso, sem acabar do explicar aquelle negocio. Dondon era por força a terceira nos amores; devia ser, tinha olhos sonsos, pensava Rubião.
--Amanhã vou lá, saio mais cedo, vou esperal-a na esquina; dou-lhe cem mil réis, duzentos, quinhentos; ella hade confessar-me tudo.
Quando cançou, olhou para o céo; lá estava o Cruzeiro... Oh! se ella houvesse consentido em fitar o Cruzeiro! Outra teria sido a vida de ambos. A constellação pareceu confirmar este modo de sentir, fulgurando extraordinariamente; e Rubião quedou-se a miral-a, a compôr mil cousas lindas e namoradas,--a viver do que podia ter sido. Quando a alma se fartou de amores nunca desbrochados, accudiu á mente do nosso amigo que o Cruzeiro não é só uma constellação, é tambem uma ordem honorifica. D'aqui passou a outra série de pensamentos. Achou genial a ideia de fazer do Cruzeiro uma distincção nacional e previlegiada. Já tinha visto a venera ao peito de alguns servidores publicos. Era bella, mas principalmente rara.
--Tanto melhor! disse elle em voz alta.
Era perto de duas horas quando sahiu da janella; fechou-a e foi metter-se na cama, dormiu logo; accordou ao som da voz do creado hespanhol, que lhe trazia um bilhete.
CAPITULO XCVIII
Rubião sentou-se na cama, estremunhado, não reparou na lettra do sobrescripto; abriu o bilhete, e leu:
«Ficamos hontem muito inquietos, depois que o senhor sahiu. Christiano não vae lá agora, porque accordou tarde, e tem de ir fallar ao inspector da alfandega. Mande-nos dizer se passou melhor. Lembranças de Maria Benedicta e da
Sua amiga e obrigada
Sophia.»
--Diga ao portador que espere.
Dahi a vinte minutos a resposta chegou á mão do moleque que trouxera o bilhete; foi o proprio Rubião que lh'a entregou, perguntando-lhe como tinham passado as senhoras. Soube que bem; deu-lhe dez tostões, recommendando-lhe que, quando precisasse alguma cousa, viesse procural-o. O rapaz, espantado, arregalou os olhos e prometteu tudo.
--Adeus! disse-lhe benevolamente o Rubião.
E ficou parado, emquanto o portador descia os poucos degráus. Indo este a meio do jardim, ouviu bradar o Rubião:
--Espera!
Voltou para acudir ao chamado; Rubião já tinha descido os degráus; foram um ao outro, e pararam, calados. Correram dous minutos, sem que Rubião abrisse a boca. Afinal, perguntou alguma cousa, se as senhoras tinham passado bem. Era a mesma pergunta de ha pouco; o criado confirmou a resposta. Depois, Rubião deixou vagar os olhos pelo jardim. As rosas e as margaridas estavam lindas e frescas, alguns cravos desabrochavam, outras flores e folhagens, begonias e trepadeiras, todo esse pequeno mundo parecia estender os olhos invisiveis ao Rubião, e bradar-lhe:
--Alma sem vigor, acaba de uma vez com o teu desejo; colhe-nos, manda-nos...
--Bem, disse finalmente Rubião; lembranças ás senhoras. Não se esqueça do que lhe disse; precisando de mim, venha cá. Guardou a carta?
--Está aqui, sim, senhor.
--É melhor mettel-a no bolso, mas olhe não machuque.
--Não machuco, não, senhor, retorquiu o criado accommodando a carta.
CAPITULO XCIX
Sahiu o moleque; Rubião ficou passeando no jardim, com as mãos nos bolsos do chambre, e os olhos nas flores. Que tinha que mandasse algumas? Era um presente natural, e até de obrigação para pagar uma cortezia com outra. Fez mal; correu ao portão, mas já o moleque ia longe; Rubião advertiu que o luto excluia as lembranças alegres, e ficou tranquillo.
Senão quando, ao recomeçar o passeio, viu uma carta ao pé de um canteiro. Inclinou-se, apanhou-a, leu o sobrescripto... A lettra era della, tão só della; comparou-a com a do bilhete que recebera; era a mesma. O nome era o do diabo: Carlos Maria.
--Sim, foi isso, pensou elle ao cabo de alguns minutos, o portador da minha carta trouxe esta, e deixou-a cair.
E, mirando a carta, de um e outro lado, perguntava-lhe pelo conteúdo. Oh! o conteúdo! Que iria alli escripto dentro daquelle papel homicida? Perversidade, luxuria, toda a linguagem do mal e da demencia, resumidas em duas ou tres linhas. Ergueu-a ante dos olhos, para ver se podia ler alguma cousa; o papel era grosso; não se podia ler nada. Ao lembrar-se que o portador, dando por falta da carta, voltaria a procural-a, metteu-a atrapalhadamente no bolso, e correu para dentro.
Em casa, tirou-a e mirou-a outra vez; as mãos hesitavam, reproduzindo o estado da consciencia. Se abrisse a carta, saberia tudo. Lida e queimada, ninguem mais conheceria o texto, ao passo que elle teria acabado por uma vez com essa terrivel fascinação que o fazia penar ao pé daquelle abysmo de opprobios... Não sou eu que o digo, é elle; elle é que junta esse e outros nomes ruins, elle é que pára no meio da sala, com os olhos no tapete, em cuja trama figura um turco indolente, cachimbo na boca, olhando para o Bosphoro... Devia ser o Bosphoro.
--Infernal carta! rosnou surdamente, repetindo uma phrase ouvida no theatro, algumas semanas antes; phrase esquecida, que, por uma associação de ideias, vinha agora exprimir a analogia moral do expectaculo e do expectador.
Teve impetos de abril-a; era só um gesto, um acto; ninguem o via, os quadros da parede estavam quietos, indifferentes, o turco do tapete continuava a fumar e a olhar para o Bosphoro. Contudo, sentia, escrupulos; a carta, posto que achada no jardim, não lhe pertencia, mas ao outro. Era como se fosse um embrulho de dinheiro; não devolveria o dinheiro ao dono? Despeitado, metteu-a outra vez no bolso. Entre mandar a carta ao destinatario e entregal-a a Sophia, adoptou afinal o segundo alvitre; tinha a vantagem de poder lêr a verdade nas feições da propria autora.
--Digo-lhe que achei uma carta, assim e assim, pensou Rubião; e antes de lhe dar a carta, vejo bem na cara della, se fica atterrada ou não. Talvez empallideça: então ameaço-a, fallo-lhe da rua da Harmonia; juro-lhe que estou disposto a gastar trezentos, oitocentos, mil contos, dous mil, trinta mil contos, se tanto fôr preciso para estrangular o infame...
CAPITULO C
Nenhum dos habituados da casa compareceu ao almoço. Rubião esperou ainda alguns minutos, chegou a mandar um criado ao portão, a ver se vinha alguém. Ninguem; teve de almoçar sosinho.
Em geral, não podia supportar as refeições solitarias; estava tão affeito á linguagem dos amigos, ás observações, ás graças, não menos que aos respeitos e considerações, que comer só era o mesmo que não comer nada. Agora, porém, era como um Saul que precisasse de algum David, para expellir o espirito maligno que se mettera nelle. Já queria mal ao portador da carta, porque a deixara cair; ignorar era um beneficio. E depois, a consciencia vacillava,--ia da entrega da carta á recusa e á guarda indefinida. Rubião tinha medo de saber alguma cousa; ora queria, ora não queria lêr nada no rosto de Sophia. O desejo de saber tudo era, em resumo, a esperança de descobrir que não havia nada.
David appareceu emfim, entre o queijo e o café, na pessoa do Dr. Camacho, que voltara de Vassouras, na vespera, á noite. Como o David da Escriptura, trazia um jumento carregado de pães, um cantaro de vinho e um cabrito. Deixára gravemente enfermo um deputado mineiro, que estava em Vassouras e preparou a candidatura do Rubião, escrevendo ás influencias de Minas. Foi o que lhe disse aos primeiros golos de café.
--Candidato, eu?
--Pois então quem?
Camacho demonstrou que não podia haver melhor. Tinha serviços em Minas, não tinha?
--Alguns.
--Aqui os tem de grande relevancia. Mantendo commigo o orgão das ideias, tem recebido solidariamente os golpes que me dão, além dos sacrificios que todos fazemos pelo lado pecuniario. Sobre isto, não me diga nada. Digo-lhe que heide fazer o que puder. Demais, o senhor é a melhor solução da divergencia.
--Divergencia?
--Sim, o Dr. Hermenegildo, de Cattas-Altas, e o coronel Romualdo; dizem que ambos, em caso de vaga, querem apresentar-se; é dividir os votos.
--Seguramente; mas teimam?
--Creio que não teimarão, quando eu lhes mandar d'aqui confirmação dos chefes, porque foi uma das cousas que me lançaram á cara, é que eu não tinha poderes; confessei que, para aquelle caso imprevisto, não; mas que possuia a confiança dos superiores, os quaes me approvariam. Creia que está feito. Então que pensa? Pensa que trabalho aqui sacrificando tempo e dinheiro, e algum talento, para não valer a um amigo, que tantas provas tem dado de fidelidade aos principios? Oh! isso não. Hão de ouvir-me, e adoptar o que lhes proponho.
Rubião, commovido, fez ainda outras perguntas acerca da luta e da victoria, se eram precisas algumas despezas já, ou carta de recommendação e pedido, e como é que se havia de ter noticias frequentes do enfermo, etc. Camacho respondia a tudo; mas recommendava-lhe cautella. Em politica, disse elle, uma cousa de nada desvia o curso da campanha e dá a victoria ao adversario. Comtudo, ainda que não sahisse vencedor, tinha Rubião a vantagem de ficar com o seu nome suffragado; e o precedente contava-se por um serviço.
--Firmeza e paciencia, concluiu.
E logo em seguida:
--Eu proprio que sou, se não um exemplo de paciencia e firmeza? A minha provincia está entregue a um grupo de bandidos; não ha outro nome para a gente dos Pinheiros; e alem disso (digo-lhe isto com dor e em particular) tenho amigos que me intrigam, uns ganhadores, que querem ver se o partido me repelle e se me tomam o logar... Não fallemos disso! Ah! meu caro Rubião, isto de politica pode ser comparado á paixão de Nosso Senhor Jesus Christo; não falta nada, nem o discipulo que nega, nem o discipulo que vende. Coroa de espinhos, bofetadas, madeiro, e afinal morre-se na cruz das ideias, pregado peles cravos da inveja, da calumnia e da ingratidão...
Esta phrase, cahida no calor da conversa, pareceu-lhe digna de um artigo; reteve-a de memoria; antes de dormir, escreveu-a em uma tira de papel. Mas, na occasião da conversa, emquanto a repetia consigo para fixal-a, Rubião dizia que se animasse, que elle era homem para grandes campanhas. E não fugisse de caretas.
--De caretas? Seguramente que não. Nem de papões verdadeiros, se os ha. Cá os espero! Que se acautellem no dia em que subirmos! Hão de pagar tudo. Ouça-me este conselho; em politica, não se perdoa nem se esquece nada. Quem fez uma, paga; creia que a vingança é um prazer, continuou sorrindo; ha muita delicia... Emfim, contados os males e os bens da politica, os bens ainda são superiores. Ha ingratos, mas os ingratos demittem-se, prendem-se, perseguem-se...
Rubião ouvia subjugado. Camacho impunha; faiscavam-lhe os olhos. Os anathemas brotavam-lhe como da boca de Isaias; as palmas do triumpho verdejavam-lhe nas mãos. Cada gesto parecia um principio. Quando fallava com os braços abertos, ferindo o ar, era como se desdobrasse um programma inteiro. Ia-se embriagando de esperanças, e tinha o vinho alegre. De uma vez, parou deante de Rubião:
--Vamos lá, deputado; ensaie um discurso, pedindo o encerramento da discussão: _Sr. presidente..._ Vamos, diga commigo: _Sr. presidente, peço a V. Ex..._
Rubião interrompeu-o, erguendo-se; teve uma especie de vertigem. Via-se na camara, entrando para prestar juramento, todos os deputados de pé; e teve um calefrio. O passo era difficil. Contudo, atravessou a sala, subiu á mesa do presidencia, prestou o juramento de estylo... Talvez a voz lhe fraqueasse na occasião...
CAPITULO CI