Quatro Novelas

Chapter 9

Chapter 93,922 wordsPublic domain

Os dias fôram passando, os mêses decorreram lentos e monotonos, e o desespero ia-lhe tomando o coração avassaladoramente, visto que elle, o ingrato, nem uma unica palavra lhe enviara a encorajá-la e a dar-lhe esperanças. Confiando da Ama-Rita o seu segredo, conseguiu da pobre mulher--que a amava, mais do que aos proprios filhos, porque a criara com o seu leite--a promessa de receber e mandar as cartas para o namorado.

Enviou muitas, muitas, mas respostas nunca as recebeu, porque nunca elle lhas mandou.

Sentindo-se abandonada, quando mais necessario se lhe tornava o auxilio moral do homem que a enganara vilmente, e não podendo esconder por mais tempo o seu estado, foi têr com a mãe implorando protéção e piedade.

Contou tudo, por entre soluços e lagrimas, nem tentando sequer atenuar com uma desculpa a grandeza do delito, como se tivesse um prazer estranho em se torturar e deprimir, num princípio de expiação.

Quando a mãe compreendeu o verdadeiro sentido das suas palavras, possuiu-se dum desespero louco. Levantando os braços e os olhos ao céo, tomava-o como testemunha da sua ignorancia e inocencia em tão grande crime, como se o esperasse vêr cahir sobre a cabeça da pecadora que soluçava a seus pés.

Mas como do céo não baixou nenhum sinal indicador da colera divina, ella afastou-se brutalmente, prohibindo-a de sahir mais do quarto.

Escreveu então ao filho, contando-lhe em poucas palavras o que se passava e encarregando-o de procurar o amigo, e--prometendo um bom dote a Manoela--fazer com que casassem imediatamente.

Essa carta, mandada pela Ama-Rita para Manoela vêr, deixou-lhe no coração um vislumbre de esperança, naquelle desejo que todos nós temos de nos agarrar ao menor luzeiro que prediga felicidade.

Mas a resposta não podia sêr mais cruelmente aniquiladora:--o namorado de Manoela tinha casado, pouco tempo antes, com uma prima muito rica, e nunca mais pensara na criança que ia começar a expiação duma culpa que era só delle.

Não havia pois maneira de legalisar ao pequenino ente que vivia já da vida da infeliz mãe, a entrada no mundo e na familia.

Tratou-se então de esconder um facto--que seria a vergonha para todos.

Levaram-na para uma casa meio arruinada, numa propriedade distante; e foi ali, entre rochedos desolados e na visinhança lugubre dos lobos que uivavam a sua fome pelos matagais, que Manoela, entregue aos unicos cuidados e carinhos da ama, teve uma filha.

Com que dulcido encanto, depois do martirio de algumas horas, em que as velhas paredes repercutiram os seus gritos lancinantes, ella acalentou nos braços o corpinho fragil, que era uma parte do seu proprio sêr, e premia sob os seus labios febris a carnesinha arroxeada e setinea da pequenina face!

Nos olhos, que mal se abriam á luz, queria ella lêr um infinito de ternura; da boquinha, que ainda não sabia sorrir e já sabia chorar, esperava talvez ouvir palavras de justiça e consolação...

E as lagrimas iam correndo serenamente pelas suas faces desbotadas, lagrimas que eram ainda uma felicidade, que em breve deixaria de possuir.

A Ama-Rita chorava tambem, sem coragem para de pronto lhe arrancar a criança, como lhe fôra ordenado, na impotencia de todas as bôas almas para despedaçar uma ilusão alheia, principalmente quando toda uma existencia está suspensa dum sorriso de criança.

Foi ainda a mãe que a veiu arrancar desse passageiro sonho, anunciando-lhe como coisa decidida a sua entrada para o convento onde Soror Gertrudes já a esperava.

Manoela revoltou-se:--o convento, a prisão para ella, que apenas fôra uma vitima!?... Pois era tamanha a sua culpa, santo Deus!?...

--Era, sim, tão grande que já coisa alguma poderia lavar essa mancha do seu nome, recahindo sobre toda a familia. Apenas o silencio e a ausencia poderiam atenuar o mal fazendo-o ignorar do público!...

Soluçava baixinho, num grande aniquilamento de toda a vontade, escutando as palavras que sahiam frias e ásperas da bôca da mãe.

--«Bem, irei!--disse por fim Manoela, resignada--mas ao menos quero levar a certeza do seu perdão, minha mãe!...

--«O meu perdão?! Não, nunca poderei perdoar á senhora que assim desce ao nivel de qualquer camponia sem principios...

Então, sentindo-se ferida, mais pelo tom do que pelas palavras, que representavam apenas o seu orgulho de casta, a alma de Manoela levantou-se tambem com altivez.

Uma revolta surda a tomava toda, partidos definitivamente os laços que a prendiam a essa mãe que a repelia sem encontrar uma atenuante á sua culpa, sem um lampejo de piedade pela sua existencia tão cêdo anulada.

Embora! Se não lhe perdoavam os outros, absolvia-se ella a si mesma. Não conhecia o mundo; mas a sua consciencia presentia vagamente que não eram justos acusando-a duma falta que se baseava apenas no preconceito social, que entre dois cumplices escolhe, para imolar como vítima expiatoria no altar da hipocrisia, aquelle que pela inocencia e ignorancia menor responsabilidade apresenta.

Avaliando bem--agora que a vida se lhe antolhava tal qual é: cheia de deveres e responsabilidades para os fracos, livre e tolerante para os fortes e cinicos...--a perversidade moral do homem que amara, uma grande repulsa, um grande desprezo lhe invadiu o espirito por tal criatura.

Vieram então novas cartas de Coimbra nas quais o irmão, numa furia brava, contava como procurara o sedutor para o matar, como costumava matar os lobos que lhe ameaçavam os rebanhos, e não o podera encontrar.

«Apenas lhe souberam dizer: que fôra com a mulher passar a lua de mel, não lhe quizeram indicar para onde. Oh, mas havia de encontrá-lo, fôsse onde fôsse, fôsse como fôsse. Quanto á irmã, que desaparecesse--não a queria mais vêr!

Manoela sorriu, já conformada.

Tambem ella não tinha vontade de viver mais com uma familia que tão levianamente a abandonara e era agora tão cruel na condenação.

--Sim, iria para o convento o mais depressa possivel.

Mas duas condições punha á sua completa submissão: saberia onde ficava a filha, que não queria deixar entregue ao acaso, como sêr desprezivel que não merece a esmola dum afago; e fariam prometer ao irmão que não continuaria a perseguir o sedutor. Para quê?! Matá-lo era forçarem-na a lamentá-lo, quando era apenas desprezo e asco o que sentia por tanta abjéção.

Esquecessem-nos a ambos... Ella entraria desde já para o convento, sem nenhuma relutancia.

O irmão cedeu, instado pela mãe, ansiosa por vêr o caso liquidado como entendia sêr melhor, sem mais desasocegos e desgostos.

Os outros dois irmãos, não tendo entrado na confidencia, admiraram um pouco a subita vocação de Manoela, mas como lhes não desagradava inteiramente, pois ficavam assim mais á vontade,--visto que a mãe, afóra as horas de comer, raro sahia do quarto, a não sêr para a capela--aprovaram a resolução com toda a bôa vontade.

II

Desde que obteve a certeza de que as suas condições eram acatadas, Manoela ficou apática e indiferente para tudo.

Deixava-se levar sem resistencia para onde a mãe queria que fôsse. No seu espirito não havia senão ruinas e desmantelos.

Sempre melancolica, sem raiz que a prendesse á vida, parecia nem sequer se preocupar com a filha que tanto a sobresaltara de princípio e deixava especialmente entregue aos cuidados da ama.

--«Adeus Ama-Rita,--dizia-lhe na última hora--estima a minha filha como me estimaste a mim, e que Deus a faça mais feliz do que a sua triste mãe! Até... um dia--em que nos havemos de encontrar.

Mas quando esse dia?... Não sabia, não via nada claro no seu futuro.

Encostada á varanda do quarto onde tanto sonhara e tanto sofria agora, passeava os olhos amortecidos por toda a montanha que limita o horizonte, e naquella ocasião, em que a primavera tudo cobria com o seu verde manto, se afofava em cambiantes de pelucia cara.

Ao seu lado, a pobre mulher abafava os soluços que a sufocavam e limpava as lagrimas á ponta do avental.

Seguira-se a viagem, a cavalo, atravessando terras desconhecidas, onde gente espantada as seguia com a vista pelos caminhos poeirentos e pedregosos, deixando-lhe tal confusão no espirito que nunca saberia dizer por onde passara nem o que vira.

Logo á chegada, a mãe conferenciou com Soror Gertrudes, tia do marido, agora superiora do convento, que a pouco e pouco iria acabando pela morte das últimas freiras, e onde Manoela foi recebida em festa por todas essas tristonhas almas encarceradas precocemente envelhecidas.

A mãe partiu, socegada emfim, sem saüdades que a fôssem mortificar ou distrahir dos seus austeros deveres de bôa católica.

Tambem a filha as não sofreu, porque nunca se tinham compreendido nem estimado aquellas almas, que ninguem diria tão estreitos laços uniam, tal a dessemelhança que involuntariamente as separava.

Manoela parece que vinha, inteiramente, do pai, de quem se lembrava vagamente, fazendo-a saltar nos joelhos, rindo e chalaçando com todos, enchendo a casa de vida e satisfação. E um dia, subitamente, estando sentado á mêsa, do rompimento duma aneurisma morrera.

Quasi se não lembrava do facto em toda a sua nitidez, tão longinqua era essa recordação, que ficara apenas na sua alma infantil como sensação dolorosa, a primeira tristeza na sua vida tão cheia dellas.

Agora vinha encontrar, na tia, o mesmo caráter, essa amizade confiante que lhe faltara, essa alegria que tão bem fazia á sua alma dolorida.

Sentia-se envolver naquella atmosfera de paz, que nunca tinha respirado, e sentia-se bem naquelle esquecimento de tudo quanto a fizera padecer.

Os dias sucediam-se aos dias, de quando em vez cortados por noticias de casa, que recebia indiferente; o tempo ia correndo sempre igual, com as mesmas festas aos mesmos santos, as mesmas rezas, as mesmas infantis preocupações de vestidos a bordar para o menino Jesus tal ou para a Senhora de invocação diversa, o presepe no Natal, o dôce para a venda, a mesma comida sempre ás mesmas e invariaveis horas.

Mas um dia Soror Gertrudes morreu.

Manoela tinha então vinte anos. Era uma criança pela simplicidade do espirito, que ficara ingenuo e ignorante do mal, apesar de tudo, mas era uma verdadeira mulher pela reflexão e pela dôr.

Os últimos quatro anos passados naquella casa conventual tinham decorrido num meio sonho vago, que nem chegava a compreender bem.

Depois da catastrofe que lhe angustiara a existencia, a alma tinha-se-lhe afundado num como branco nevoeiro, que a deixava viver inconsciente e passiva essa vida comum sem que nella tomasse verdadeiramente parte.

Dir-se-ia um meio estado sonâmbulo de que a morte da tia, a bôa Soror Gertrudes, a vinha acordar dolorosamente.

Como ia sentir a falta dessa querida vélhinha, que lhe dera um aféto todo maternal na solidão em que a austeridade da verdadeira mãe lhe deixara o coração!

Logo ao entrar, passados os primeiros dias de surpresa, as palavras de conforto da bôa vélhinha tinham sido um grande bem para o seu espirito.

--Aconselhava-a a têr esperança--o futuro traz surpresas que não podemos prevêr.... E ella era tão nova, santo Deus, como desesperar?! Socegasse, estava entre bôas criaturas que a amavam, e ella como tia a teria sempre junto de si. Ainda que o não fôsse, estimá-la-ia na mesma, bastava sêr uma criança que a desgraça lhe tinha tão tragicamente arremessado aos braços...

Tinha razão Soror Gertrudes--Manoela era bem digna de piedade. Entrada apenas na vida, era della expulsa com vergonha, e a sua mocidade, que mal desabrochara, iria fenecer entre as paredes frias dum convento. Quebrados todos os laços que a prendiam ao mundo exterior, o que ficava dessa pobre rapariga tão admiravelmente feita para amar e sêr amada?

Sentia-se cahir pesadamente num abismo. Fechando os olhos, estendeu os braços em busca dum apoio, e encontrou a mão trémula, o sorriso alegre na sua bôca desdentada, e a face macerada da freira, que para ella teria carinhos inegualaveis.

Bem sentia ella o cancro brutal, que a ia corroendo lentamente, mas nada dizia para não afligir a sobrinha.

Sorria dolorosamente quando uma picada mais aguda a fazia levar a mão ao seio esquerdo, num gesto mecânico, quasi involuntario.

Manoela sobresaltou-se quando as dôres começaram a sêr mais amiudadas, lembrando-se da terrivel molestia que de quando em quando assaltava a sua familia paterna.

A tia socegava-a:--era um _nascido_ que tinha havia muitos anos, não seria coisa de morte...

Mas nos últimos três mêses a doença agravara-se caminhando rapidamente para o fim.

O cancro rebentara, vermelho, luzidio, enorme, deformando horrivelmente o pequenino seio esteril, branco como o marfim--esse seio que guardara com tanto recato durante sessenta anos e se mostrava agora na sua infermidade horrivel.

Quando Manoela o viu pela primeira vez, perdeu a côr, vacilou e só se conteve por um esforço de vontade, que se manifestava nella com a revolta natural contra mais esse golpe do destino.

Dahi para diante nunca mais abandonou a tia, assistindo-lhe a todo o martirisante fim, sentindo, por assim dizer, na sua alma todas as dôres que ella ia sofrendo no seu magro corpo esfacelado.

Foi-lhe infermeira solícita, disfarçando a repugnancia que lhe inspirava a ferida, que se ia arroxeando, com laivos azuis, quasi negros, numa aparencia ascorosa de podridão. Em volta a péle retesada do peito ia-se abrindo e esfarelando.

Manoela tinha sempre diante dos olhos a ferida horrivel que tão cuidadosamente tratava, e que era o fim--ella sabia-o--dessa existencia tão querida.

Por fim Soror Gertrudes nem sequer se podia assentar na cama, e ella assistiu-lhe á agonia, que durou dois longos dias,--lento quebrar de cadeias que se tinham enferrujado mas não carcomido.

Quando a superiora declarou que chamassem Soror Angelica para a substituir, porque já se não podia levantar e a morte não tardava, toda a comunidade acudiu em pranto:--era pois certo que Soror Gertrudes as ia deixar para todo o sempre?!

Foi-se prevenir o capelão, que a confessou rapidamente, tal era a inocencia dessa alma imaculada, e quando voltou com a comunhão todas as freiras e recolhidas ajoelhadas em volta do leito choravam silenciosamente, com os véos negros cahidos sobre os seus rostos de cerusa.

Manoela encostara-se á cama, e a tremura do seu corpo fazia estremecer esse leito onde a morte já se instalara triunfante.

A ceremonia prolongou-se com o perdão que a moribunda foi pedindo a uma por uma das suas companheiras, numa voz que era já um éco de outra existencia passada.

Quiz a sobrinha sempre ali, e consolava-a com a esperança dum futuro melhor. Deixava-lhe o Menino Jesus do Milagre, que fôra o seu companheiro de longos anos, desde que uma senhora freira do convento do Paraizo ali morrera e lho deixara por lembrança. E deixava-lhe tudo mais que propriamente possuia, e bem pouco era, naquella vida estreita de renúncia.

Dirigindo-se a Soror Angelica entregou-lhe a sobrinha e pediu-lhe para ella todo o seu amôr e carinhosa solicitude.

Custava-lhe muito deixá-la. Deus mandara-lhe ao fim da vida aquella suprema provação, que fôra afinal a maior felicidade de toda a sua existencia. Quando ella já se sentia cahir na cova, com tão egoista alegria, vinha aquelle aféto imenso prendê-la á terra com laços tão fortes que ao parti-los metade da alma lhe ficava cá.

Fechou os olhos: imaginaram-na morta e já os soluços se ouviam mais altos. Mas não, era apenas um dormir de extenuamento que breve durou. Ao acordar já a voz lhe estava prêsa no estertor, que causava calafrios a todas as assistentes.

Fazia esforços para falar, queria talvez dizer coisas que a sua alma, já quasi desprendida do mundo, via como nunca tinha visto emquanto a materia a segurava á terra.

Os seus olhos, dum azul pálido, como desbotado pelos anos, voltavam-se para a sobrinha numa ânsia derradeira.

Choravam todas por a vêr assim, implorando a morte que a viesse libertar do incomportavel martirio.

Manoela escondia a cabeça na roupa, soluçando e gemendo apavorada; teria fugido áquelle espétáculo superior ás suas forças, se a moribunda lhe não tivesse agarrado desesperadamente as mãos como última ancora...

A situação prolongava-se pela noite fóra, e tão pungitiva que todas se entreolhavam em pânico.

Era alta noite quando uma criada, vinda do campo havia pouco, se propôs pôr termo áquelle martirio, voltando a senhora. E explicava, muito sabida e vista nessas coisas:--que era o demonio que estava ali, não deixando morrer a senhora, emquanto estivesse deitada sobre o lado esquerdo. Vingava-se assim de não lhe poder levar a alma, que era de Deus, pela muita bondade da Madre-Superiora.

Todas acreditaram piamente na explicação da rapariga; não estava o _Livro da fundação_ cheio de factos que comprovavam as tentações e maleficios do eterno inimigo das esposas do Senhor, especialmente dirigidos contra as piedosas irmãs daquella santa casa tão rica em milagres e indulgencias?!...

Aceite o alvitre, voltaram o corpo pesado, que a morte já quasi gelava completamente, deixando-lhe apenas aquelle imenso sofrimento como despedida duma existencia de que não conhecera senão as tristezas.

Mal lhe tocaram, despediu num suspiro o último lampejo de vida, tal como aquelles cadaveres conservados intactos por anos e anos nos seus tumulos socegados e logo que se lhes toca, trazendo-os ao ar, se desfazem em pó.

III

Manoela sahiu do dormitorio logo que a tia deixara de existir.

Cambaleando, os olhos sêcos, a alma vazia, sem a sensação dolorosa da pena, como se a tivessem magnetisado para a furtarem ao sofrimento, apenas uma necessidade material a impulsionava.

Tinha sôno--havia tantas noites que não dormia!

Agora que tudo estava acabado, que não havia uma esperança a sustentá-la, estonteada, inconsciente, deixava-se vencer por esse torpôr que segue a excitação dolorosa de dias sobre dias de espétativa diante da morte. A natureza retomava os seus direitos, e a reação era tanto mais violenta quanto fôra maior o predominio do espirito sobre a materia.

Logo na pequena sala contigua ao dormitorio, que fazia de livraria, deixou-se cahir numa cadeira sem força para ir mais longe.

No dormitorio ia um vai-vem silencioso que mais parecia mover de sombras num pesadêlo. As freiras ciciavam ordens ás criadas, acendiam-se luzes, rezavam baixinho, limpavam as lagrimas que teimavam em enevoar-lhes os olhos, e levantavam com respeito a morta para a vestirem como havia de ir para a cova, com o mesmo triste habito que trouxera em vida e logo ao entrar para o convento, noviça ingenua e formosa, lhe tinham dito que seria a sua mortalha.

E assim, eternamente amortalhada, passava da tristeza de viver ao unico sôno consolador dos infelizes, porque é daquelle que se não acorda para sofrer mais.

A sua face, serenada pela morte, reflétia a suprema felicidade de não existir conscientemente num triste mundo tão cheio de desacertos e injustiças. As freiras benziam-se e murmuravam baixinho, pondo as mãos com devoção:--que o seu rosto de santa reflétia já todo o goso da bemaventurança.

Manoela, abrindo os olhos no meio sôno em que ficara embebida, viu os pés da morta calçados com as sandalias da ordem, magros e compridos, atados com uma fita para não descahirem; e, mergulhando de novo em letargo, sonhou que esses pés caminhavam por sobre o seu corpo desfeito e lhe batiam com força no coração. E a sensação foi tão dolorosa e a dôr tão forte, que acordou de vez, sentindo realmente uma pontada que lhe suspendia quasi a respiração e a fez gritar levando as mãos ao peito, sufocada.

Foi quando Soror Angelica veiu têr com ella e a condusiu para o segundo dormitorio, fazendo-a deitar na sua propria cama, encarregando uma irmã leiga de a vigiar e acompanhar. Então Manoela cahiu num sôno pesado e mau, cheio de sonhos que a faziam chorar e gemer baixinho como quem se sente estrangulado, sem poder gritar, e a que a irmã leiga punha termo chamando-a carinhosamente e abanando-a de leve todas as vezes que a sentia.

Era já manhã quando a vieram chamar para assistir aos responsos que se iam fazer no côro e para os quais toda a comunidade se preparava.

Levantou-se sobresaltada, sem nada perceber, como quem acorda dum terrivel pesadêlo e reconhece com surpresa que ainda existe na vida tal qual a deixara... Atiraram-lhe o véo para a cara, composeram-lhe o vestido, e levaram-na pelo braço, sem que compreendesse intimamente de que se tratava. Mas quando se encontrou no côro e viu a morta estendida no chão sobre um pano preto, entre quatro grossos tocheiros, os padres rezando os responsos, e toda a comunidade em volta com os véos cahidos e segurando velas acêsas, compreendeu finalmente o que se passava, a sua alma despertou para o sofrimento intenso da pavorosa realidade.

Já não havia dúvida possivel, e a noite, que se passara num atordoamento de sonanbulismo, aparecia-lhe agora em toda a sua nua e horrivel fatalidade.

Debaixo do véo que lhe cobria o rosto, as lagrimas corriam sem cessar mas já sem explosão de soluços, tão amargas e lentas que cada uma parecia vir arrastando um pedaço da sua alma esfacelada.

Procurava nessa face amada, coberta igualmente com o véo preto, o sorriso bondoso, o olhar de carinho, que em quatro anos de reclusão a tinham feito esquecer que a vida existia fóra daquellas paredes soturnas.

O véo era denso bastante para lhe velar a face, mas nada obstava a que os seus olhos halucinados vissem, debaixo do grosseiro hábito, o peito entumecido escancarando-se na repelencia da ferida.

Finda a encomendação, seguiu atraz das freiras, vélhinhas alquebradas e esquecidas pelo mundo, que assim iriam rareando, uma por uma, na longa fila que vinha do côro.

Era o último enterro a que assistia ali, porque a nova lei prohibia enterrar fóra do cemiterio público e fôra não pequeno trabalho para se conseguir das autoridades aquella excéção em favôr de Soror Gertrudes, que era conhecida e estimada em toda a terra.

Manoela tremia de pavôr observando a serenidade extatica das freiras, que não se distinguiam umas das outras, com os véos negros derrubados, as velas a arder na mão direita, hirtas e silenciosas e graves como espétros.

Lá dentro,--quem sabe?--talvez que as suas almas tremessem de frio a cada sacudidela do vento da morte que ia levando uma a uma as companheiras de muitos anos, e que nunca mais seriam substituidas.

Já no refeitorio iam faltando tantas que, ao meio dia, a hora antigamente tão alegre de jantar,--quando sobre as toalhas de linho alvejante os moringues de barro de Estremoz marcavam nas mêsas estreitas e compridas, voltadas para o pulpito, o logar de cada uma--mais parecia que a sineta chamava para um banquete de sombras.

Os padres iam compassando os responsos, rodeando a cova onde já repousava o cadaver, e cada um ia deitando uma pá de terra, seguindo-se na ceremonia toda a comunidade.

Ah, bem feliz era Soror Gertrudes que ainda encontrava um abrigo santo junto das suas irmãs, vivendo com ellas no eterno sôno, sob o abrigo das arcarias do claustro florido, acalentada pelo murmurio fresco da fonte que transbordava na sua concha de marmore. As outras--pobres dellas!--já não teriam na morte esse mesmo abrigo sagrado e seriam relegadas a mãos estranhas e indiferentes, esquecidas nesse campo desabrigado e devassado por todos os olhos profanos, que eram os novos cemiterios.

As velas tremiam nas mãos enrugadas das pobres vélhinhas.

Das trinta e três freiras que o _Livro da fundação_ dava como limite para a comunidade, homenagem piedosa aos anos de Christo, e que ao soar a hora, que para muitos fôra de redenção e para ellas de mágua, se preenchera á pressa, abreviando as profissões das noviças, já quinze dormiam insubstituidas sob as lages do claustro.

Sentindo o lento caminhar das vivas, que eram como fantasmas errantes nesse asilo guardado pela morte, sentiriam a dôce ilusão de assistirem com ellas na vida comum.

Olhavam-se apavoradas, as velhas freiras, a cada nova escolhida que a morte vinha tocar com o seu beijo gelado, e murmuravam entre si:--de qual será agora a vez?--terrificadas com a ideia de sêrem a última.