Quatro Novelas

Chapter 8

Chapter 83,906 wordsPublic domain

Desconcertada pela minha atitude, sahiu; e então, tremendo como quem comete uma áção criminosa, rasguei o sobrescrito, e li e reli cem vezes, com os olhos turvados, as poucas linhas que o Chico me escrevia:

«_Raquel:_

«Obrigado pela sua carta e pela confiança que deposita em mim. Escreva aos seus pais contando-lhe a sua tristeza e mande-me a carta que eu me encarrego de lha fazer chegar ás mãos. A Senhora D. Emilia e a mamã acrescentarão algumas palavras para dar força ás suas queixas. Todos nos interessamos pela nossa amiguinha Raquel e temos muita pena de a vêr sofrer. Creia na dedicação e aféto do seu amigo--Chico.»

Não era muito para o que eu tinha sonhado, mas era alguma coisa, era o apoio moral que me faltava.

Sentia-me protegida e amada, e isso era o bastante para me tornar feliz. Relia ainda a carta, que ia meter no seio, quando a porta do quarto se abriu de improviso e a cara detestada da minha prima apareceu perguntando-me, trocista:

--«Então a menina recebe cartas de namorados e não diz nada á gente?!...

--«Vai-te daqui para fóra!--gritei desesperada.

--«Ah, estás assim soberba com o teu Chico?! Pois eu direi á mamã, deixa estar!

--«Importa-me pouco a tua mãe, dou-lhe tanta importancia como a ti--e, empurrando-a com violencia para o corredor, fechei a porta por dentro.

A rapariga vingou-se: foi levantando um grande alarido de queixa que tudo contou á mãe. E não tinham decorrido talvez cinco minutos sem que a abominavel criatura não estivesse a bater com violencia á porta, gritando como possessa para que lha abrisse.

Com uma serenidade de que ainda hôje me surpreendo, fui abrir, e ficando entre portas perguntei, sem me alterar, o que desejava.

--«_Oh! Não ter vergonha! Menina dizer a mim você recebeu carta dum maroto e pergunta o que mim quer! Vêr esse carta já! Vergonhas, vergonhas, dar maus exemplos a meninas! Quando vier seu tio mim dizer tudo!..._

E a torrente de destemperos parecia não se estancar.

No meio daquella gritaria poude apenas levantar a voz para lhe dizer resolutamente:

--«Não lhe dou a carta, pode berrar á vontade.

Perdeu então de todo a cabeça e fez um gesto de ameaça, que me desvairou.

--«_Dá-me carta já!_

Á sua violencia respondeu a minha violencia. O meu caráter altivo, o meu temperamento indomavel, a minha educação livre, o meu proprio sangue, que vinha de herois, tudo se poderia amoldar e quebrar na luta surda e persistente de todos os dias; assim brutalmente, pela violencia, dava-se a reáção que produz a revolta.

Ergui-me duma só vez a toda a altura do meu orgulho e tornei-me soberba de energia desesperada.

--«Dar-lhe esta carta?!--E passei-lha insolentemente por diante dos olhos--Nunca! Fique sabendo, nunca! Prefiro enguli-la.

As palavras vinham-me aos labios tumultuosamente, numa abundancia que me espantava.

Então, a terrivel criatura vomitou coisas abominaveis que me insultaram infamemente e das quais--tenho hôje quasi a certeza--, na sua ignorancia do português, ella não sabia o verdadeiro sentido.

Uma onda de sangue me subiu ao rosto e me turvou os olhos; toda a candura da minha alma, todo o pudôr do meu corpo de virgindade absoluta, se insurrecionou. Fitava-a, desvairada; sim, creio que, se não recuasse e não baixasse as mãos que tentavam prender-me, a teria estrangulado. Sahi do quarto violentamente, empurrando a Eulalia, que observava sardonica a cêna que preparara com a sua baixa intriga. Ao contacto do seu corpo a minha raiva explodiu com mais furôr:

--«Vá, sua canalha!--gritei-lhe halucinada--vá chamar gente para lêr as cartas que me traz!

Estava cega, como um toiro de bôa pinta longamente encurralado, quando lhe abrem a porta do curro e entra na praça louco de furia, correndo para um e outro lado, fazendo saltar para a trincheira, como bonecos, os toureiros que de longe o irritam agitando as capas vermelhas.

A pequena agarrou-se a mim, aos gritos, mas rolou para o meio do chão com uma bofetada; e a porta da cosinha aberta, com um pontapé, que fez cahir um vidro que se estilhaçou no chão, enfiei por ella, sem bem saber o que fazer, e achei-me no jardim.

Dum pulo saltei a sebe florida que separava o nosso jardinsinho, agora abandonado, do da D. Emilia, e entrei-lhe como doida pela casa dentro.

Então cahi-lhe nos braços, soluçando perdidamente todo o meu desespero desfeito em lagrimas.

Á noite o meu tio veiu buscar-me. Deu-me conselhos, tratou-me com muita bondade, desculpou a mulher, pediu, ordenou... Nada conseguiu. Agarrei-me á mãe da Mariquinhas, e de tal maneira me impuz ao seu pobre coração de mãe tão dolorosamente experimentado que ella pediu a meu tio que não insistisse. Eu ficaria com ella emquanto os meus pais não resolvessem o incidente.

O meu tio concordou, vencido pela palavra persuasiva e dôce da minha protétora, e ao sahir bateu-me na cabeça e disse-me com ternura maguada:--«Ah, cabecinha, cabecinha louca, que herdaste, por teu mal, todo o sangue rebelde da nossa familia!

E sahiu, desculpando-me no seu íntimo, elle o rebelde doutro tempo, vencido agora pela doença e dominado, contra vontade, sabendo muito bem que o era, só para não desencadear a tempestade caseira e não aturar o genio furibundo da mulher. Pobre e querido tio! Ninguem reconheceria nesse velho alquebrado, mas ainda de soberbo e distinto porte, o heroi de tanta façanha que deixara nome entre os rapazes da escola, como mais tarde entre os colegas do exercito e companheiros de trabalhos e perigos. Era o nosso sangue, na verdade, que o fazia sorrir, quasi indulgente, quando me admoestava por tanta loucura; o nosso sangue que o fizera, quando rapaz, desafiar, sósinho, uma companhia de pequenos colegiais como elle, e que o fizera, mais tarde, responder sempre com soberba quando se julgava desrespeitado, mesmo por um superior hierarquico...

Pobre tio! Com quanta saudade recordo hôje o seu bom sorriso quando, longe da companheira, nos contava anedótas e aventuras que nos perdiam de riso. Como teria sido adoravel, sem essa servidão dum casamento abominavel, a que não soube nem poude fugir!...

Foi então que escrevi aos meus pais contando-lhe o longo martirio daquelles quatro anos em que me tinham afastado do seu carinho.

Disse-lhes o meu desespero, o meu horror á tia e aos seus métodos educativos, e recordei com pungente saudade a feliz infancia que me tinham feito a contrastar com aquelle inferno de todos os dias e de todas as horas.

E como os meus nervos sobreexcitados faziam a penna galopar pelo papel desabaladamente, estou certa que nada deixei por contar.

A D. Emilia e a mãe do Chico cumpriram o que tinham prometido; escreveram comigo para desmanchar qualquer má impressão que o meu procedimento podesse despertar no espirito dos meus pais.

Que dôces dias de serena paz eu passei ali emquanto não veiu a resposta á minha carta--que fôram os meus proprios pais que em pessôa me quizeram vir buscar.

Uma tarde o Chico entrou--vinha despedir-se. Eu trabalhava junto da janela, num bordado que a D. Emilia me dera para fazer, porque entendia que sempre as mãos deviam estar ocupadas e o espirito prêso a qualquer trabalho manual que, por insignificante que parecesse, era muito na disciplina moral do nosso sêr. Era a esse constante labôr das suas habilissimas mãos, que a bôa senhora atribuia o resistir ainda á sua dôr.

Estava só; a D. Emilia fôra dentro chamada pelo marido, quasi sempre de cama desde que se dera o grande desastre para o seu coração de pai que na unica filha poséra todo o seu aféto e esperança.

--«Que trabalhadeira estás!--disse-me o Chico, sorrindo, porque ao entrar eu nem sequer erguera os olhos, que dantes o fitavam confiantes e fraternais.

É que as palavras impudicas da estrangeira acudiam-me á memoria e tinham maculado para sempre a inocencia do meu aféto por elle.

Sorri á sua graça, mas com um sorriso tão maguado, que o Chico, vibratil e bondoso como é, logo percebeu que não estava bem. E, muito carinhoso, quiz saber se estava doente, se me doía alguma coisa.--Não, não,--respondi nervosa e sacudida--doença não tinha... mas lembrava-me o que tinham dito de ambos, e isso incomodava-me fortemente.

E elle quiz saber o que me dissera a tia, o que dera causa á grande cêna, de que ainda ria, só em pensar nella.

Cuidava que era ainda a pequena e ingenua Raquel que elle e a Mariquinhas quasi amavam como filha, e que o meu áto revoltoso fôra apenas um capricho de criança endemoninhada e voluntariosa. Mal supunha que uma alma de mulher, de subito despertada, sofria e palpitava dentro em mim.

Subitamente as lagrimas vieram-me aos olhos e começaram a correr, sem que eu as podesse estancar no lenço encharcado, que mordia em desespero.

Passara, sem transição, da insensibilidade quasi completa de quatro anos á mais disparatada pieguice.

Por nada as lagrimas me vinham aos olhos e corriam sem cessar. Desesperava-me contra mim mesma; queria vencer-me, e não podia!

O Chico, muito comovido, abraçava-me e beijava-me para me socegar, como fazia sempre, com a simplicidade carinhosa dum irmão mais velho, sem suspeitar a confusão em que eu me debatia.

Aproveitando um momento de mais calma para os meus nervos, disse-lhe para mudar de conversa:

--«O Chico vai-se ámanhã embora e nunca mais se lembrará de mim; eu tambem vou para tão longe!

--«Que tolice, nem que em Portugal haja longes!...--respondeu a rir, emquanto eu me afastava um pouco, porque as suas caricias me sobresaltavam e faziam mal.

--«Pois sim, Coimbra não é muito longe, mas os estudantes que lá andam não pensam a sério em coisa nenhuma e tudo esquecem quando lá chegam.

--«Quem te disse tal?

--«As raparigas da minha aldeia, quando cantavam:

«O amôr dum estudante «Não dura mais de uma hora «Tóca a cabra vão para a aula «Vêm as férias vão-se embora.

Quando isto é o amôr, o que fará a amizade!?

As lagrimas tinham-se transformado em riso--ria agora convulsamente.

--«Isso são cantigas! Não penses isso de mim, Raquel. Ha rapazes loucos, mas tambem os ha sérios, como eu...

--«Não acredito! O Chico vai esquecer-se de mim, e quando fôr para a aldeia nunca mais o verei nem saberei de si! Antes queria morrer!...--tornava a chorar, visionando-me só, sem vontade nem gosto para viver.

--«Ó Raquelsinha, não diga isso, não a esquecerei nunca,--que tolice! Os amigos de infancia nunca se esquecem, creia. Nem tão pouco esquecerei a Mariquinhas.

--«A essa,--solucei, num sentimento de magua mortificado com uma pontinha de inconsciente ciume--a essa não a esquecerá o Chico, não!...

--«Mas porque menos a ella do que a si?

--«Então o Chico não era namorado da Mariquinhas?!--perguntei numa ansiedade de dúvida que se deseja não vêr confirmar.

--«Ó Raquel, não diga isso! Quem lhe meteu na cabeça uma loucura dessas?!--perguntou indignado.--Então não eramos como três irmãos, três companheiros de brincadeira?!...

--«Ninguem me disse nada. Eu hôje é que pensei, depois do que ouvi lá em casa, que podia sêr que o que se lembravam comigo fôsse com ella... Ás vezes a Mariquinhas parecia que me tinha raiva, e porfim já não queria que brincassemos juntos... lembra-se?

--«Sim, é verdade. Não tinha pensado nisso. Até pediu para a não visitar quando estivesse a Raquel, porque a sua alegria a incomodava...

Pobre Mariquinhas! A sua figura esbelta e linda levantava-se a nosso lado reclamando a sua parte de aféto, mas o seu rosto pacificado pela morte já não exprimia o vago ciume com que tanto nos mortificara. A sua recordação unia-nos numa afetuosidade e numa saudade igual.

--«Mas então--disse o Chico, surpreso--a Mariquinhas supunha que nós eramos namorados?! Pobre amiga! Uma criança como a Raquel era...

--«Eu não percebi nada--respondi ingenua--nem supunha que era tão sua amiga... Nem que esta amizade era diferente... Hontem é que compreendi tudo!...

--«Mas hontem, porquê? Disseram-lhe mal de mim?!...--perguntou assomado, numa daquellas fogosas cóleras que ensombram rapidamente o rosto do meu amigo.

--«De si, não!... Foi de mim. A _estrangeira_... disse-me coisas, coisas... que só pensar nellas me faz mal!

Córei e baixei os olhos numa confusão, vendo-o sorrir, já desanuviado.

Curvando-se para mim, perguntou-me baixinho, numa caricia que estava toda na doçura da voz:

--«Disse-lhe que era minha namorada, não foi?...

Abaixei ainda mais a cabeça sobre o bordado, não querendo responder uma afirmativa que me confundia.

--«E não o quer sêr, de verdade, Raquel?... Será a minha noiva emquanto andar a estudar, e a minha mulher, a minha companheira, quando eu já ganhar dinheiro para os dois...

Sorria embevecida, olhava-o cheia de desejo de lhe dizer que sim e saltar-lhe ao pescoço, numa alegria louca; mas ficava-me calada, perturbada, sem saber verdadeiramente distinguir até onde me seria permitido mostrar o meu entusiasmo segundo as praxes que a _tia_, dizia, eu ha muito tinha desprezado impudentemente.

O Chico compreendeu; e, não precisando ouvir mais, pegou-me dôcemente na mão que conservou entre as suas emquanto conversavamos a meia voz, sorrindo enlevados, contando coisas, recordando factos, que reconhecemos nesse momento sêrem significativos daquelle desenlace.

Ha muito tempo que eu era a sua mulhersinha--recordou o Chico sorrindo--nas brincadeiras em que a Mariquinhas, já mais consciente, reservava para si sempre os papeis de rainha ou fada, que iam tão bem á sua gentil figurinha de estatueta.

Foi nessa tarde deliciosa de fim de inverno, com o testemunho das camelias brancas, que a Mariquinhas adorava, e na vespera delle ir para Coimbra e eu recolher á velha casa paterna, que nós ligámos para sempre as nossas existencias, que dissemos essas mil palavras banais que nada dizem para os outros e são, num momento unico da vida humana, as verdadeiras palavras sacramentais que ligam duas almas numa comum e deliciosa aspiração.

Foi nessa tarde, que remiu para o meu coração anos de sofrimento, que traçámos a azul e oiro o futuro ridente que hôje estamos desfrutando.

Com a vinda de meus pais, trocadas explicações e desculpas entre elles e os tios, sem que eu fôsse obrigada a vêr mais a minha façanhuda inimiga, a tranquilidade e a alegria voltaram de novo ao meu espirito, que em breve se refez e normalisou na serenidade da vida aldeã.

O Miguel, que já então era um estudante muito cuidadoso, tornou-se em breve o amigo inseparavel do Chico, que teve sempre meio de repartir as férias entre a antiga familia, que o adorava, e a nova, onde não era menos querido.

Até o Padre Zé discutia com elle pontos graves de historia romana e ficava boquiaberto com a sabedoria dos rapazes de hôje... e da qual nos riamos a valer, indo depois ás escondidas folhear o Larousse onde procuravamos citações e factos para confundir o santo velho.

A Maria Augusta, essa só pedia a Deus que a deixasse viver até vêr na capela da casa, abençoado por Deus e pelos homens, um par que era tanto do seu agrado.

E agora, realisado esse ideal,--que reuniu á mesma mêsa duas familias que ficaram sendo só uma, naquelle grande jantar de nupcias a que assistiu toda a parentela dos arredores--ella espera ansiosa porque lhe seja permitido apresentar ao Padre Zé, de capa de asperges e estola rica, um menino que hade vir breve de Paris numa condessinha de flôres, e para o enxoval do qual trabalhamos dia e noite com a mais rútila e alvoroçada alegria.

--Com o vestido de antiga seda côr de rosa e grandes ramos prateados, coberto com o véo de tule bordado, que a mamã guarda na grande arca dos enxovais, eu verei como irá lindo!...--É o que me assegura a Maria Augusta, que recorda outros batisados celebres na familia, e o meu principalmente, que, crescidinha já, por doença do padrinho, me desesperei iconoclastamente com o _sal da sapiencia_ e arranhei a cara ao padre!

Não se esqueceu de recomendar ao Chico, uma vez que elle foi a Lisbôa, que deixasse feita a encomenda dos bolos para a festa e de confeitos para a rapaziada, que assim encherá de bençãos o batisado...

Isto emquanto a bôa mamã dá volta ao bragal, desmancha lençóes e finas bretanhas, e manda ao sotão buscar o lindo bercinho em que nos criou a todos, e que já espera, forrado e engomado de fresco, pelo pequenino dôno...--ou dôna?!...

E, seja o que fôr, bem vindo será ao nosso lar e... já o jurámos: só nós o educaremos e guiaremos nos seus estudos, porque, sahindo, como poderá ser, á mãe, não será facil meter-lhe grandes sabedorias na cabeça.

Esquecia-me dizer que o meu pobre tio está emfim descansado, livre da mulher que tão amarga lhe fez a existencia, bem encafuado num mausoleu de marmore, onde ella o vai vêr a miude, naturalmente para lhe dar conselhos o reprimendas. Dizem-me que na sua opinião eu sou o mais execravel dos animais ferozes, e ainda treme de raiva só em pensar na minha negra ingratidão. A filha prepara-se para casar confecionando o enxoval e aprendendo a sêr uma admiravel dôna de casa, capaz até de ser professora numa escola de _ménagères_, mas os noivos é que, como sempre assustados com o merecimento da mulher, já lhe vão tardando um pouco.

O pai da Mariquinhas morreu, e a D. Emilia resigna-se a viver para chorar todas as lagrimas da sua bela alma pelo marido e pelos filhos, sempre vivos na sua lembrança.

Sente por nós um dôce carinho, que nos enche de reconhecimento, e todos nos juntamos na saudade da querida morta, a linda Mariquinhas, que tão íntimos e indissoluveis tornou os nossos afétos.

IV

Sacrificada

SACRIFICADA

I

Quando Manoela entrou para o convento, todas as freiras e recolhidas correram apressadas á grade do côro para conhecerem a nova companheira, de que a superiora, Soror Gertrudes, ha muito anunciara a vinda.

Falavam a um tempo, riam satisfeitas com aquella diversão, que desmonotonisava a vida fastienta de todos os dias, emquanto que ella, nervosa e pálida, as olhava assustada, como quem entrevê, sem o compreender, um mundo estranho.

Sentia-se abandonada no mundo, sem um aféto ou uma ilusão que lhe devesse dar o desejo e a alegria de viver, mas, apesar disso, aos seus dezeseis anos encantadores não sorria positivamente a ideia da prisão.

Era tão dôce o sorriso triste que lhe errava nos labios, e a sua voz, ligeiramente cantada, com o sotaque provinciano, era tão fresca e cariciosa, que as bôas freiras a consideraram desde logo um anjo do Senhor, mandado para as consolar naquelle triste fim da sua casa religiosa.

Encheram-na de presentes: uma trazia-lhe uns bentinhos, outra uma lâmina ingenua, salpicada de papelinhos doirados; rendas finas, outrora feitas na casa; dôces, especialidade do convento; coisas insignificantes, que eram no entanto toda a sua fortuna.

E ella sentiu-se assim prêsa pelo reconhecimento, integrando-se numa vida que em breve seria tambem a sua.

A mãe perguntou-lhe: se queria entrar desde logo para o convento ou ficar alguns dias fóra, para vêr a cidade.

--Não; se tinha que entrar ali, então que fôsse já. Vêr a cidade para quê?! Que lhe importava a alegria, o movimento, a luz,--aquilo que era a existencia da outra gente?

Não estava ella perdida, morta para o mundo, despedaçado tudo que tinha feito o encanto da sua propria existencia, que era agora uma coisa áparte, fóra da normalidade?!...

A mãe aprovou, contente com aquella resolução; ansiava por a vêr entregue aos cuidados da bôa tia, Soror Gertrudes, que a recebeu soluçando de contentamento e magua--alegria de têr a sobrinha junto de si, fundo desgosto pela sua imensa desgraça.

Porque era uma historia um pouco triste, a dessa rapariga, que assim vinha esconder a sua vida em flôr no silencio dos longos corredores cheios de sombra, adormentar o espirito nessa vida que já pertencia ao passado.

Manoela ficara, muito nova, sem pai, e por isso quasi inteiramente abandonada a si mesma, visto que a mãe, duma devoção estreita e dum caráter frio e áspero, entregava-se por completo á prática das suas muitas rezas e orações e deixava os filhos em plena liberdade.

A pequena, que era uma natureza delicada e emotiva, assim foi crescendo sem um carinho que lhe afagasse e dulcificasse a existencia, retrahindo-se numa aparencia de frieza melancolica.

Os irmãos, três rapazes, viviam alegremente, sem cuidados nem canseiras, caçando pelas serras, comendo e bebendo á tripa-fôrra com os companheiros, jogando o pau pelas romarias e feiras--senhores morgados de aldeia que todas as raparigas disputavam para seus pares, e dos quais todos os homens tinham como honra a convivencia.

O mais velho, bom rapaz, bronco e ingenuo apesar da sua aparencia de gosador, fôra para Coimbra por sua alta recreação, segundo o costume tradicional dos morgados beirões, e por lá se ia formando aos solavancos: _R R_ daqui, guitarradas dali, ceias e patuscadas com os amigos, sempre alegre e satisfeito comsigo e com os outros.

Ora uma vez, a pretexto de caçadas que se faziam melhores que em parte alguma pelos matagais cerrados das suas serranias, levou, para passar umas férias na aldeia, o seu mais íntimo amigo e companheiro mais certo das suas noitadas e _troupes_ em vesperas de feriado.

Cavalgando os possantes cavalos que os criados lhes levaram com tempo, juntaram-se á caravana dos mais rapazes da região e seguiram, como era costume, atravessando vilas e aldeias ao som marcial das cornetas, como um verdadeiro batalhão, que ia diminuindo, não pela morte, mas pela alegria dos que primeiro encontravam as suas casas e se despediam dos companheiros até ao fim das férias.

Fôram elles os últimos a chegar ao vasto casarão de provincia, onde a adega estava sempre aberta, as espingardas carregadas atraz da porta, e a matilha impaciente tudo invadia, roubando na cosinha, sujando as salas e quartos, batida pelas criadas em desespero, afagada pelos amos que riam das suas partidas e se sentiam muito á vontade no meio daquella desordem.

Manoela era um verdadeiro milagre de graça e pureza num meio tão vulgar e rude.

O rapaz, ao vê-la assomar ao alpendre, mal sentira a tropeada dos cavalos e descer correndo os degraus de pedra que davam acesso exterior para o andar nobre da casa, para abraçar o irmão, ficara deveras impressionado. Tanto mais que não contava encontrar, numa irmã do seu herculeo companheiro de estúrdia, tanto mimo e graciosidade de linhas, uma tal delicadeza e aristocracia nativa de porte.

Á primeira impressão de agradavel surpresa seguiu-se o desejo da posse e o projéto da conquista.

Para que essa criança, ignorante e ingenua, se prendesse a um homem que lhe falava a dulçorosa e enganadora linguagem de vulgar D. João, que para ella representava a verdade, a honra, o ideal supremo porque tantas outras têm, como ella, sofrido, não era preciso muito.

Um homem honesto ter-se-ia cautelosamente afastado, receoso de despertar uma alma tão confiada e crente, na sua ignorancia infantil; mas elle, conquistador sem escrupulos, de palidez sentimental e cabeleira romantica, cantando ao luar fados chorosos que falam de amôres infelizes com tremuras na voz e fundos ais arrastados, dedilhando a guitarra que soluça baixinho caricias de beijos gritando alto paixões estridulas... Elle, sem alma nem consciencia, viu apenas a flôr que se abria á vida e que as suas mãos brutais podiam desfolhar e arremessar depois como coisa inutil e sem importancia.

Representou, mais uma vez, a vulgarissima comedia do amôr-paixão, em que ella, a pobresita, acreditou, exatamente porque era ingenua e pura, deixando-se arrastar, sem que houvesse mão amiga que a fizesse parar a tempo na descida perigosa.

Acabadas as férias, promessas feitas e juradas, elle partiu alegre e triunfante, ella ficou abismada na mais desesperadora tristeza.

A saüdade, fustigando barbaramente a sua pobre alma mal preparada para o sofrimento, punha-lhe nas faces a palidez da morte e nos olhos arroxeamentos de incuravel doença.