Quatro Novelas

Chapter 6

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Era preciso que me levantasse cedo--vá! Isso não me custava, acostumada desde criança ás madrugadas na aldeia. Mas, depois de me levantar, não podia correr pela quinta, abrindo o apetite ao almoço suculento que me esperava na mêsa; tinha que fazer a cama, arrumar o quarto, e estudar.

Em casa, para ajudar a Maria Augusta, muitas vezes lhe tirava a vassoira das suas pobres mãos encarquilhadas, e varria, cantando festiva, auxiliando-a no fazer das camas e mais arranjos domesticos; ali, obrigada, mandada por aquella monstruosa criatura, sentia um tal desespero, um tal rancôr a referver-me na alma, que todas as minhas ideias eram negras como fuligem, todos os meus sentimentos eram maus a roçarem pela perversidade.

Encostada aos vidros da janela do meu quarto, olhava a gente que seguia o seu caminho, apressada ou vagarosa, alegre ou triste, pobre ou rica,--e a todos eu invejava com verdes invejas de reptil!...

Era preciso que estudasse três horas antes do almoço, e o meu espirito vagabundeava pelos caminhos pedregosos da minha terra, debruçava-se na ribeira onde os salgueiros reflétiam a folhagem leve e as margaridas rosadas, as pervincas azuis e os miosotis da côr do céo espreitam entre a verdura da herva tenra.... Era preciso que inclinasse sobre os livros a minha pobre cabeça pesada de sôno, e os meus olhos fechados reviam os milharais regados de fresco, as cerejas vermelhas suspensas como pingos de lacre das arvores amigas, as amendoeiras em flôr, as encostas cobertas de olivedos pálidos, os pinheiros esguios, os castanheiros arreganhando a bôca dos seus ouriços para nos darem o fruto saboroso. O meu espirito não acompanhava o pobre corpo oprimido, que se estiolava num quarto fechado, diante de estereis livros que não compreendia; não! Elle assistia, lá ao longe, á ininterrupta festa da natureza; alegrava-se com os divertimentos do campo; procurava os magustos, onde se comem as castanhas assadas na fogueira; ia aos _serões_, onde as velhas avós contam lindas historias ás raparigas, fiando á mortiça luz da candeia suspensa do velador de pau enegrecido pelos anos; evocava as ranchadas que vão ás romarias, cantando e tocando a viola e os ferrinhos, e os que vão para as feiras álacres, entre festivos e afadigados, na policromia do trajar das mulheres e na gravidade interesseira do comerciante que oferece ou compra a mercadoria e discute largamente o seu negocio...

A fuga era o unico deleitoso pensamento que se esboçava no meu cerebro. Fugir! Sêr livre! Não têr mais diante dos meus olhos a figura estupenda da mulher de meu tio, nem a face simiesca da petiza!... Era o ideal supremo que acariciava, um sonho redentor que se me fixava na cabeça por mil pontos delicados e impercétiveis. Formava com esta unica e obsessiva ideia projétos sem conto, e se não fôsse a covardia ante o escandalo, que é ainda uma servidão do nosso espirito, se não fôsse o receio atroz de sêr apanhada pela policia, vir o meu caso por miudos nos jornais, e sêr finalmente trazida de novo alí, certamente teria _feito alguma_!... Faltava-me a energia determinante dos fortes caratéres. A revolta traduzia-se pelo embrutecimento, pela apatia, pela oposição passiva dos fracos e dos ignorantes.

Fechada no quarto todas as manhãs, em vez de estudar deitava-me sobre a cama, e afiguravam-se-me as tábuas alinhadas e estreitas do této como se fôssem as tábuas do meu caixão.

Lá fóra era a vida: os pregões que atravessavam a rua solitaria numa festa ruidosa de côres, revoadas de andorinhas riscando o azul em zig-zagues caprichosos, a chilreada estúrdia dos pardais pelos telhados...

Morria de aborrecimento, e morrer, creio, foi o pensamento mais consolador que nesse tempo se alojou no meu cerebro.

Não estudava, o que era em mim um velho habito, mas com as lições do Padre Zé tinha chegado a compreender alguma coisa, e agora sentia-me sem nenhuma inteligencia, sonolenta, parada, sem sombra de vivacidade intelectual.

Tinha uns poucos de professores, pagos pelos meus pais é claro. E por sinal que eram bem generosos com o dinheiro dos outros...

O inglês ensinava-mo ella, mas eu odiava-a tanto e o meu espirito começava a achar um tal prazer em contrariar os outros, que me sublevava contra mim mesma quando começava a compreender essa lingua que ella tinha como sua.

Farta já de a saber, obrigava-a a algaraviar o português para me rir intimamente dos seus comicos disparates.

Estava assim.

Pouco sahi durante os quatro anos que durou o meu cativeiro--porque a sua companhia me desagradava cordialmente, porque os passeios por ella escolhidos eram odiosamente disparatados, e porque a sua imposição de me ensacar em verdadeiros horrores, que ella alcunhava de vestidos á inglêsa, me causava um asco invencivel.

Sem têr nunca apreciado os _laçarotes_ e as rendas esbanjadas nos vestidos provincianos das minhas antigas conhecidas, sem ambicionar a elegancia casquilha das meninas lisboêtas, o meu espirito era demasiadamente meridional, demasiado artista, para se não prender com a fórma e não se encantar pela côr e pela beleza do trajo, como de tudo quanto me pertencia e rodeava.

Assim, achava meio de me esquivar sempre que sahiam, o que era raro, pretextando estudos que nunca fazia.

De mêses a mêses, a visita ao consul inglês era o unico parentesis de luz na tristeza da minha vida. Tinha umas filhas encantadoras, algumas já senhoras, e, entre ellas, a Maud era muito gentil para mim, consolando-me e alegrando-me, nas poucas vezes em que nos avistavamos, das muitas horas de incomportavel tedio que passava naquella casa.

Maud era muito inglêsa na sua educação para censurar uma pessôa das relações da casa, mas o simples sorriso dos seus labios finos, a ligeira caricia dos seus olhos puros, era quanto bastava para me encher o coração de reconhecimento e têr na sua amizade toda a confiança.

Pobre Maud! Levada pelo destino para longe, obrigada a ganhar a sua vida pela morte dum pai afétuoso e inteligente, em que país, em que terra, em que familia, o seu sorriso honesto, a sua graça séria, serão consolo e júbilo para alguma criança infeliz, como eu era?!

Outra qualquer pessôa, por menos melindrosa e suscétivel que fôsse, não se sentiria feliz num meio em que tudo era violento e desagradavel.

A _cubana_ ralhava por tudo, nada estava feito a seu gosto, de manhã á noite lamentava têr vindo para um país de que dizia indelicadamente, grosseirônamente, os ultimos horrores:--a vida era carissima, os criados eram mandriões e inhabeis, era preciso olhar por tudo, vêr tudo, desde a roupa da lavadeira até á limpeza da casa...

Tornava desgraçada toda a gente, e não consentia que ninguem se considerasse infeliz--possuindo a rara fortuna de a têr ao lado!

Ao meu pobre tio impunha uma felicidade que elle estava longe, bem longe, de sentir. Não podia formular uma opinião sua; era obrigado a confirmar tudo quanto ella dizia, e ainda dizer-se o mais ditoso dos maridos e fazer elogios á sua alta inteligencia, bom-senso e sábia economia.

Meu pobre tio! Verdadeiramente, aquella pressão moral em que conservava o bom do velho, revoltava-me. Nunca pensei em impôr a minha vontade a ninguem, e tudo quanto seja coagir a dos outros, tirar ao sêr humano a liberdade de sentir e pensar por si mesmo, exaspera-me como violencia contra mim propria exercida.

Depois, a pequena tinha a bela qualidade de espiar e ir contar-lhe tudo quanto se dizia e fazia em casa, e por muitas vezes o que nem sequer se sonhava dizer ou fazer. Um _amôr_ de criança!

As criadas entravam e sahiam com uma velocidade de comboio expresso.

Quando mal humorada, dava-lhes bofetada e descompostura que as fazia fugir espavoridas; mas, se por outro lado lhe désse na cabeça, enchia-as de presentes e favôres. Era conforme ellas sabiam ou não lisongear-lhe a vaidade.

A última que lá conheci, talvez a mais velhaca de todas, essa soube cativá-la, e fazia quanto queria sem que ouvisse uma simples reprimenda. Adiante falarei na menina Eulalia, que entrou para muito na minha vida.

Meu tio é que escrevia para casa e lá dizia dos meus adiantamentos, que, francamente, não eram nenhuns. Ás noticias dos meus pais, tão carinhosas e prolixas, eu respondia com aquellas cartas incolôres que todas as crianças prisioneiras nos internatos, ou onde quer que lhes pônham sentinela ao pensamento, têm escrito. Cartas em que nem um vislumbre da alma infantil entreluz; cartas feitas só de palavras ouvidas, e que são o primeiro passo para a mentira social a que nos querem sujeitar, como a cães sábios sob o chicote domesticador e o mêdo... A criança, que sabe que as suas cartas serão maculadas pelos olhares indiferentes, e os seus verdadeiros sentimentos procurados nas linhas em branco da sua pobre correspondencia, perde a sinceridade, não se expande com lisura, não diz o que sente...

Os bilhetes que metia no mesmo sobrescrito de meu tio eram frios, pouco mais ou menos o que me diziam que era dever escrever:--que estava bem, que era bem tratada, que me sentia feliz... Nada do que, em verdade, eu teria desejo de dizer!

É certo que a minha alma irritada julgava-se ofendida pelo desamôr com que me tinham expulso de casa para me atirar para o poder daquella mulher, que para mim resumia tudo quanto eu podia odiar mais.

Nesse tempo não gostava de ninguem--nem de mim mesma. Era injusta, mas era humana. O animal criado em toda a expansão da sua vida material e forte, não se subjuga sem rebelião, não se obriga sem muito custo a entrar no regimen de servidões a que se convencionou chamar _deveres sociais_.

Assim, quando meu pai empreendia a longa viagem da aldeia á capital para me vêr, eu não correspondia de modo algum ao seu aféto e interesse.

Sem compreender o enorme sacrificio que faziam para me dotarem com uma educação que supunham sêr um precioso instrumento de felicidade para toda a minha vida, achava que era desamôr o que me consagravam e tão sómente desejo de me vêrem longe da sua casa, porque o meu feitio moral os desconcertara e lhes era talvez odienta a minha presença...

Ás perguntas insistentes que me fazia, vendo-me tão delgadinha e triste, o meu orgulho fazia-me responder com sistematica negativa.

Se elle se demorasse, se insistisse, a minha energia não seria mais forte do que a revolta contra o sofrimento, tão natural ao sêr humano quando novo e saudavel.

Mas o meu pai não supunha encontrar tais meandros e subtilezas no sentir duma criança que conhecera defeituosamente franca e impulsiva. Por outro lado, os negocios da casa não o deixavam demorar mais do que um dia ou dois, o que não era muito para fundir o gêlo que se formara no meu coração contrariado e amarfanhado.

Ora de estudos ia eu muito mal. Os meus professores classificavam de estupidez a minha incapacidade de satisfazer as lições, e creio bem que o era.

Não estudava, e mesmo que estudasse não compreendia.

A cabeça parecia-me de chumbo, pesava-me como o capacete dum guerreiro antigo. Não faziam nada de mim, pela certa!

A professora de desenho era a unica que tinha dó dos meus traços indecisos e me dirigia com bôas palavras, por isso fiquei sabendo um pouco mais dessa arte, que das outras, e com imensa pena de não poder fazer tudo quanto ella me dizia que seria capaz de realisar, com a minha paixão pela corréção das linhas classicas, a minha expansiva busca das côres, que ousava procurar inéditas e brilhantes na paleta de principiante...

Sentia-me infeliz, e, se verdadeiramente me quizesse queixar, não saberia bem precisar o que me maguava naquella casa. Talvez porque era tudo, desde a gente até á comida. Chegava a sêr um suplício; acostumada em casa a encher abundantemente o meu pequeno estomago voraz, ali tinha até mêdo de meter na bôca um pedaço a mais, porque via todos os olhos a pesarem e a medirem tudo o que a minha garganta oprimida conseguia deixar passar.

Por economia e por habito, eram todos frugais, e eu, por ceremonia, quando os via recusar o _roast-beef_, que se comeria frio no almoço do dia seguinte, recusava-o tambem, embora ás vezes sentisse um bom apetite de animalsinho carnivoro, que não se sente satisfeito.

O meu unico desafogo era o jardinsito, que tratava com todo o cuidado. As sementeiras iam a horas para a terra, e não lhes faltavam as regas, com a agua que eu mesmo tirava da bomba, nem a cobertura de palha, mais tarde, por causa das geadas.

Andava sempre a espreitar o crescimento das plantas tenrinhas, que mal despontavam na terra pobre de adubos vitalisadores; e quando, na primavera, as arvores que mal se desenvolviam na sombra daquelle jardinsito entalado entre predios altos, se enfloravam, toda a minha alma florescia com ellas, recordando as que lá ao longe perfumavam os campos onde a minha saudade me levava errante...

Ora o jardim era dividido do que pertencia ao rez-do-chão da esquerda por uma sebe de madeira, que eu pensara em disfarçar sob a verdura abundante duma trepadeira de folha permanente. Passava horas desembaraçando as finas hastes para as ir guiando e atando. Quantas vezes, de tanto as querer estender e espaldar, não parti grandes pedaços, que depois lamentava muito contristada! O mal de quem tem muita pressa... em contrafazer a natureza.

Ao fundo, era limitado pela parede dum outro jardim, que nunca tivera a curiosidade de procurar vêr, embora por lá sentisse as risadas de crianças mais felizes do que eu...

A tristeza até embota a curiosidade, essa fórma, embora inferior, da vivacidade intelectual. Concentrava-me no meu proprio sentir, e todo o mundo me era estranho.

Ora isto foi assim até que num dia veiu para o rez-do-chão visinho uma nova familia: pai, mãe, e filha, uma pequena encantadora, que começou a sorrir-me e a cumprimentar-me quando me via na minha faina de jardineira.

A Mariquinhas, com a sua mobilidade graciosa, falou-me uma primeira vez, a proposito de nada, só para encetar conversa. Respondi-lhe acanhadamente de principio, mas em breve toda a minha timidez desaparecera diante da sua ampla cordialidade. Conversamos, e logo á despedida nos beijamos, por cima da sebe que já conseguira vestir duma folhagem de lindo verde brunido.

Em poucos dias ficamos as maiores amigas do mundo. Pela minha parte entreguei-me com ardôr ao estranho prazer dessa amizade; agarrei-me a essa ventura com o desespero de quem se vê só, num meio irritante e hostil, sem um unico aféto a confortar um pobre coração feito para o sentimento.

A Mariquinhas era a unica e amimada filha duns pais, que a tinham só a ella, duns poucos que no seu ninho tinham batido azas palpitantes de alegria e esperança e a morte lhes levara numa impiedosa e cega colheita.

Era em casa uma pequenina rainha, que não abusava é certo da sua autoridade, antes punha uma suprema graça nas suas ordens e caprichos.

Hôje, recordando bem as suas feições, que o tempo já quasi deliu na minha memoria, acho que não devia sêr, talvez, uma formosura, mas nesse tempo era para mim tudo quanto conhecia de mais puro enlevo.

Magrinha, elegante, duma finura de traços angelicais, tinha a pálida beleza das camelias delicadas, que as fortes chuvas do inverno desfolham rapidamente.

Era muito instruida, uma pequena e encantadora sábiasinha, que sorria, maternalmente conselheira, da minha supina ignorancia.

Já quasi mulher, um tudo-nada garrida, vestindo divinamente os lindos vestidos da sua escôlha, ella materialisou no meu espirito o ideal duma santa ou dum anjo salvador, que Deus tivesse mandado ao meu purgatorio.

Porque... esquecia-me mais esta: a mulher de meu tio era protestante, mas da última hora. Com todo o fanatismo dos neófitos e a sua terrivel mania de impôr as suas ideias e de prégar as suas convicções, todos os dias me ensinava e explicava o evangelho, á sua moda, isto é: analisando-o e adaptando-o á vida quotidiana, com uma banalidade desesperadora.

Na minha aldeia nunca ouvira falar em evangelho senão no latim do Padre Zé, á missa, quando a minha mãe nos dava a consolação de nos pôrmos de pé. Mas estava acostumada a conversar com o Anjo da guarda como se fosse um irmão, e no rosto delicado das esbeltas Santas góticas, que ornavam as paredes da nossa velha igreja, lia enlevadoras historias que ellas me sorriam...

Arrancar a uma pobre alma de meridional, apaixonada pela côr e pela fórma, o olôr dos incensos subindo em dolentes preces para um céo recamado de oiro e pedrarias, onde lindas crianças cantam e tocam flautas e guitarras maravilhosas, onde florescem jardins ideais, e correm fontes inesgotaveis de perfumes suaves; tirar-lhe a ilusão magnifica duma vida embalada pela esperança do milagre, e dar-lhe em troca a frieza do raciocinio, a clara e positiva significação das palavras, a simplicidade da fórma despida do encanto da arte, será por certo de muito bons resultados futuros--e foi-o para o meu espirito, que se habituou ao rigoroso cumprimento da verdade--mas nesse tempo constituia um sacrificio a mais a juntar aos muitos outros.

Pois a Mariquinhas encarnou para a minha imaginação mortificada, o anjo meu companheiro e protétor. Pela sua mão seguiria por sobre a _fragil ponte_ que representa o dificil caminho da virtude, nas imagens popularisadas pela oleografia barata, em que o guarda angelico guia uma criancinha, com a sua mala de viagem a tiracolo, pela áspera senda do bem...

Fôram os dias bons da minha permanencia naquella casa.

Não sei como a terrivel _cubana_ se não opôs á nossa convivencia, embora distanciada, apenas entretida pelas fugitivas palestras trocadas a mêdo por sobre a sebe que as minhas trepadeiras iam vestindo e matisando com uma floração polícroma.

Lembro-me agora que a Mariquinhas, com a sua viva inteligencia cultivada no convivio da sociedade, compreendera desde logo de quanta vaidade e orgulho se enchia a enorme criatura, e sabia lisongeá-la com leves delicadezas, das quais eu nem sequer compreendia o alcance, na minha inteireza selvagem.

Hôje, era uma linda flôr mandada pela pequena para a mamã pôr no seu logar, á mêsa; ámanhã, noticias lidas por acaso nos jornais sobre coisas passadas em Inglaterra ou nos Estados-Unidos; depois, uma corréta atenção aos discursos que lhes algaraviava, quando acontecia vê-la da janela.

Com tão pouco, a Mariquinhas vencera a resistencia feroz daquella fortaleza e achava-se senhora da situação. Nunca pensei que eu teria, talvez, conseguido o mesmo se o orgulho--que é uma virtude que nos nobilita, mas torna dificil a vida social--não me fizesse olhar com desprezo para esses processos que me punham numa dependencia moral que me irritava. Decididamente a Mariquinhas era muito melhor politica; onde o meu temperamento voluntarioso punha energia revoltosa, a doçura do seu espirito, tão levemente ironico quanto profundamente conhecedor das fraquezas alheias, usava o suborno da lisonja, que a todos conquista e agrada.

Apesar das familias não têrem nunca encetado relações que as tornassem do mesmo convivio,--porque a mãe da Mariquinhas detestava a _espanhola_, como lhe chamava--conseguira a criança, com as suas blandicias de lisboêta amavel, que me deixassem ir passar algumas tardes a sua casa.

Era um banho dulcissimo de calma para o meu espirito, que fermentava em sublevações concentradas mas nem por isso menos violentas.

A D. Emilia era uma destas almas bôas e sãs, tal qual a da minha mãe, modestas no cumprimento religioso duma existencia que nunca teve dúvidas nem sobresaltos de consciencia. O seu espirito era simples, e os seus olhos diziam na clara expressão o que ás vezes os labios não se atreviam a proferir, com receio de ir infelicitar os outros com uma observação menos resignada... ou mais verdadeira.

Conversar com a bonissima criatura era abrir o coração e deixar correr as palavras livremente, numa fluencia de ribeira múrmura e limpida deslisando por campo sem obstaculos; ouvi-la era escutar o carinhoso conselho duma rara alma humana que nunca se tinha poluido numa mentira.

Ah, como o meu coração se aliviou da tristeza imensa em que se afundava, contando-lhe a minha vida; e como ao contar-lha precisei verdadeiramente o _mal de viver_, que me vencera e arrastava para o desespero! E como ao escutar-lhe a palavra mansa e insinuante, compreendi, e melhor apreciei, a modesta e nobre missão da minha pobre mamã!...

O pai da Mariquinhas parecia viver só para tornar felizes as duas criaturas, que eram todo o seu cuidado e amôr. Aposentado do seu logar de lente duma escola superior, passava os dias estudando e lendo no seu gabinete cheio de livros, que já lhe invadiam a secretária, que a filha todas as manhãs lhe ia enflorar com lindos ramilhetes que ella mesma cortava e ageitava nas jarras.

Que suave e dulcida existencia! E como a vida corria sem se sentir entre aquellas três criaturas, tão estreitamente unidas pelo amôr, sem violencias nem coáções... Que diferença da nossa casa, onde a mulher de meu tio queria impôr não só a sua autoridade absoluta, o que já seria abominavel, como os seus gostos e sentir e toda a sua maneira particularissima de vêr as coisas!

Aquella atmosfera pacificadora fazia-me bem, domesticava-me o coração que se tinha tornado feroz no odio e na desconfiança.

A unica receita eficaz para se sêr amado sinceramente é amar; era a que usavam os meus amigos, e por isso venceram a minha rudeza e fizeram com que os amasse com todo o entusiasmo da minha alma apaixonada.

Com o refrigerio daquelle contacto a vida tornou-se-me menos pesada; suportava melhor a desgraça desde que tinha quem me compreendesse e lamentasse. Pobre criança expatriada, que eu era,--naquelle meio tão estranho e adverso!

Passado o sofrimento que nos crucifica, tirados do logar em que fômos martirisados, olhando a frio para o que nos fizeram sofrer, é que verdadeiramente compreendemos e sentimos a dôr, mas com um sentir retrospétivo que se torna tanto mais agudo quanto maior é a convicção do que foi a nossa miseria.

Durante o sofrimento a sua propria vehemencia nos atordôa e dá um anestesico moral, que é a unica compensação para os que têm sentido pesar sobre si a infinita maldade humana.

Quantas vezes, lendo a historia do passado, não nos atravessa o espirito a dúvida de que fôsse possivel ao fragil organismo humano resistir aos ferozes martirios fisicos e morais que as paginas ensanguentadas de todos os povos nos mostram; mas, olhando em roda de nós, sabendo o que se faz ainda hôje e que a tirania já não pode esconder ao nosso conhecimento, porque os protestos dos condenados resôam mais alto na consciencia humana ou os nossos ouvidos se apuram mais para os escutar, convencêmo-nos de que é um facto esse embrutecimento sensacional que pela propria violencia da dôr atenua a mesma dôr, que quasi nos insensibilisa á força de sofrer.

É o motivo porque hôje pasmo da resistencia passiva que eu fiz ao martirio daquelles quatro anos de educação inquisitorial. Ou não fôsse a minha tia uma legítima descendente dos _hidalgos_ inquisidores que civilisaram a ferro e a fogo os infelizes seus conquistados!

Ora na casa a que pertencia o jardim que confrontava com o fundo dos nossos, vivia uma familia das relações dos meus amigos,--fôra até a causa delles virem morar para o nosso lado, soube-o depois.

A Mariquinhas falava-me muitas vezes no Chico, que vivia do outro lado do muro e era filho da grande amiga de infancia da sua mamã. Dizia-me que nessa ocasião passava elle as férias no campo, e que quando voltasse eu veria como era gentil e bom companheiro de brinquedos.

E falava com tal entusiasmo do seu pequeno amigo, um belo estudante já quasi a terminar o curso do liceu, que o meu aféto--confesso--se sobresaltou, e um dia perguntei-lhe ansiosa:

--«Ó Mariquinhas, tu gostas mais do Chico do que de mim, não gostas?!...

Teve um fino sorriso incompreensivel para a minha ingenuidade lôrpa e respondeu-me com o ar ironico duma verdadeira mulher:

--«Elle é um rapaz, e tu uma rapariga.

--«E isso que tem para sêres mais sua amiga?

--«Tem tudo. Não é a mesma coisa.