Chapter 4
O Manoel afastou-se por fim--a velha já o enjoava com as suas historias. E, ao sahir dali, pensava com funda melancolia em todo o passado extinto, nessa alegria radiosa que não voltaria mais. Da sua vida, tão profundamente abalada, nem a si mesmo sabia dar conta.
Quando subia vagaroso e preocupado a rua estreita e ingreme, os seus olhos poseram-se com sobresalto na Maria do Próspero, que caminhava em sentido contrario, cabisbaixa, os braços cahidos ao longo do corpo, os olhos pisados postos no chão, o fato em desalinho de quem perdeu o gosto e a garridice.
Que mudada estava! Nem parecia a mesma,--não a reconheceria por certo fóra dali.
O rapaz, olhando-a, sentiu subir-lhe do largo peito um soluço doloroso.
Meteu-se na sombra duma porta e deixou-a passar, avergada ao pêso da tristeza e do remorso do seu pecado sinistro.
Estremecia de horror como se a visse ainda na noite demoníaca, cuja lembrança o perseguia como uma ideia fixa de monomaníaco.
Como podia ser feiticeira uma rapariga tão linda, tão alegre, tão sincera?!...
Mas era-o, tinha a certeza, porque a vira abraçando o _homem vermelho_ de negros pés de forquilha, e porque a Gertrudes lho afiançara havia instantes.
Todo o pavôr daquella noite tragica o tomou de novo, e involuntariamente evocou o _sabbat_ infernal:--as luzinhas bailando, entrechocando-se, e afastando-se num compasso rítmico; as gargalhadas que soavam como crucitar de corvos; os olharapos correndo, com o seu unico olho a furar-lhes a testa; os lobis-homens galopando, no seu fadario triste; avejões, diabitos galhofeiros, lémures, trasgos, duendes, feiticeiras, e, sobre tudo, como ferro em braza a causticar uma chaga, a recordação da cêna em que a Maria abraçava o _homem vermelho_ e lhe servia de estrado.
Era de endoidecer!
Quando despertou desse pesadelo de acordado, já a Maria ia longe, andando lentamente, acurvada pelo imenso desgosto de vêr o Manoel tão diferente do que fôra, e sem razão nenhuma que ella lhe désse!
Se ao menos soubesse explicar o motivo porque tão cruamente a repelira durante toda a doença, quando ella passava as noites sem se deitar, sempre pronta á primeira voz,--uma verdadeira filha para a Clara do Rezadeira, que já lhe queria como tal!...
Alguns mêses depois, os sinos da antiga igreja matriz repicavam freneticamente mostrando o entusiasmo do sacristão pelo casamento do Manoel com a Terezinha da Zéfa do Padre.
A noiva ia radiante, mais linda do que nunca. Os olhos brilhantes, os labios ardentes, as faces ligeiramente córadas pela felicidade inesperada que a chamava á vida, quando ia já caminhando para a morte, ao compasso monotono do tear subindo e descendo no contínuo trabalho.
Satisfeito e feliz, tambem o Manoel ia, triunfante, com o seu fato preto de pano fino, o seu chapéo lustroso, a sua fina camisa engomada a primôr, ao lado da noiva--uma santinha do altar!, dizia a Gertrudes benzendo-se.
Tambem elle se sentia alegre e despreocupado, sem pensar na pobre Maria do Próspero, que curtia sósinha, num desespero tôrvo e sem remedio, a sua derrota miseravel.
Quando a Gertrudes Zarôlha começou a espalhar o que se passara, o que vira o Manoel na noite em que viera mais tarde da feira, por se têr demorado a conversar com uns amigos na taberna do Geitoso, a Maria teve um violento acesso de cólera, uma rubra indignação, que estava na logica da sua forte e sadia natureza. Quiz bater na velha, que fugiu espavorida, gritando-lhe que fosse perguntar ao Manoel--e elle lhe diria tudo quanto vira...
E ella fôra logo, forte da tranquilidade da sua consciencia, certa de que elle estaria ao seu lado para a defender de tão absurda acusação...
Mas quando ouviu da bôca delle a confirmação dos ditos da velha, quando elle lhe atirou com despreso o epíteto de _feiticeira_, sucumbiu. Ficou quieta, a olhá-lo pasmada, sem encontrar uma palavra para se defender, cheia de dúvidas e de desânimo... Sem a confiança do Manoel, o que podia fazer?!
E desandou dali, com grossas lagrimas a rolarem-lhe pelas faces, e um aperto na garganta que a estrangulava.
Fechou-se em casa; e, sem ninguem que a consolasse, nenhuma alma compassiva que a ajudasse a levantar daquelle abismo em que a propria consciencia desaparecia sob a sugestão alheia, rebolou-se pelo chão, rasgou o fato, atirou contra as paredes a cabeça que sentia perdida e desvairada, soltou gritos que lhe despedaçavam o peito, até que, exausta, ficou como morta no meio da casa. Ao voltar do trabalho é que o pai a levou para a cama, limpando, num repelão, á camisa suja de suor e poeira, uma lagrima que teimava em rebolar-lhe pela face encarquilhada e dura.
--A sua pobre filha, a alegria da sua vida--em que estado a encontrava! Maleitas ou mau olhado, espirito ruim que lhe entrara no corpo e já a não largaria...
Quando voltou a si, pesou bem a desolação da sua vida, e chorou toda a sua esperança, a sua alegria como a sua mocidade exuberante que tinham fugido espantadas diante daquella noite negra e sem fim.
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Emquanto os sinos cantavam na manhã clara, de sol radioso e céo azul em festa, as alegrias do casamento da Terezinha com o Manoel da Clara, a caldeirinha magica tilintava o seu risito escarninho e macabro e todos a consideravam com admiração e respeito pelo sobre-natural.
A Maria, agora feiticeira conhecida e apontada por todos, já não canta nem vai ás romarias.
Nos trabalhos do campo, as mulheres e as crianças afastam-se della apavoradas, e os homens, lamentando-a, não têm coragem de vencer esse pavôr.
Um brilho ardente de febre queima sempre os seus lindos olhos negros, que vagueiam inquietos, num mêdo doentio e tragico.
Atormentada de visões, mordida de maus olhados, mêses inteiros prêsa de delirios histericos, sente-se, na verdade, transportada nas azas do vento para sitios ermos em que luzinhas saltitam em rondas buliçosas, lobis-homens passam em cavalgadas doidas para se irem espójar nas encruzilhadas sinistras, moiras encantadas tecem em teares de oiro contando as saudades antigas da sua vida humana, e olharapos, duendes, lémures e trasgos povôam as noites horrificas de _sabbat_.
III
Diario duma criança
DIARIO DUMA CRIANÇA
Creio que não é bem exáto o titulo que escrevi no alto da página. Isto não é verdadeiramente o _Diario duma criança_, não é, mas sim a minha vida toda recordada dia por dia, hora por hora, com uma precisão de factos e sensações de que o Chico muito se admira.
Decerto não sou muito velha--fiz em março vinte e dois anos--mas, assim mesmo, elle acha extraordinario como os episodios da minha infancia se me fixaram na memoria tão vivamente, e os posso recordar com tanta nitidez, como se a minha alma tivesse a receptibilidade mecânica de um fonógrafo.
Não pensei nunca em escrever; sei, tão pouco, que nenhuma novidade pode trazer ao mundo a minha prosa descuidada e frouxa.
Fui sempre pouco estudiosa e nenhuma honra dei aos meus professores. O Chico, que é um sábio, é que me disse, uma tarde, resumindo toda uma longa palestra em que eu lhe contei os mil incidentes de vida estranha em que o meu pobre espirito se debateu até chegar á dôce paz da nossa felicidade de hôje:
--«Se tu escrevesses isso tal qual o contas, fariamos um belo estudo de psicologia infantil!...
Eu, que adoro o meu Chico, não o queria desgostar, mas escrever tudo quanto sentia, tudo quanto me lembrava têr sofrido, parecia-me tão dificil!... Vida toda feita de sensações e estranhêzas de caráter, quem poderá têr interesse em conhecê-la?!
Oh que coisa tão custosa de realisar, este desejo, quasi imposição, do Chico!...
As minhas memorias são leves fios de aranha que não servem para urdir e tecer utilmente uma sólida obra caseira.
Escrever o _Diario_ da minha infancia, eu que nunca tive paciencia de rabiscar cartas muito grandes--a não sêr para o Chico!...
Depois, sei unicamente escrever o que sinto, e os escritôres--dizem--não fazem assim. O Chico sente os versos que faz tão lindamente, mas esse... oh esse é outra coisa!
Por muito tempo discutimos, mas, como o senhor meu marido é adoravelmente teimoso e eu não sei ainda contrariá-lo, deixei-o ir uma noite destas ao teatro, recusando-me a acompanhá-lo a pretexto de ter sôno, e quando voltou, eram duas horas da manhã, entreguei-lhe o manuscrito, que leu sem descansar, tal qual o mandou imprimir logo no dia seguinte.
Isso é que me custou!... Porque, depois de o escrever duma só vez, e sem hesitar diante duma unica palavra que não correspondesse ao meu pensamento, deixando correr a penna nervosamente, em galopada doida, quando as recordações vinham em montão, chamadas umas pelas outras, numa lufada de quasi vertigem, sempre imaginei que elle emendaria aquilo e lhe daria uma fórma mais corréta.
Mas--qual historia!--o querido _infame_ teve o descaramento de se rir na minha cara e de me responder:
--Que se o emendasse estragaria tudo!
Foi assim que sahiu, tal qual o escrevi, numa hora de febre.
Chamo-me Raquel. Creio que este nome é hereditario na minha familia, porque a minha avó e a mãe da minha avó eram tambem Raquel. Não sei. De genealogias, como de tudo mais, entendo pouco.
O mais longe que posso recordar na minha existencia humana, vejo-me feliz.
Era uma grande casa de aldeia, a nossa. Havia ali de tudo quanto pode desejar uma criança acostumada á simplicidade da vida campestre.
Os pateos eram habitados por uma multidão de animais domesticos, que nos conheciam bem, de tanto milho que ás escondidas lhes deitavamos.
Eu era a mais velha, e os meus quatro irmãositos seguiam-me alegremente pelos campos fóra, como um rebanho segue o pastor. Nada nos era defêso, nem parede que não tivessemos escalado, nem arvore que não conhecessemos como os nossos dedos. Os frutos eram vigiados desde que as arvores se cobriam de prometedoras flôres, e antes, muito antes da familia os vêr em casa, já nós tinhamos feito a nossa primeira escôlha. Quando a nossa pobre _burrica_ descansava do fatigante trabalho da nóra, iamos desamarrá-la da manjedoura, saltavamos-lhe para cima, e fazíamo-la trotar pelos caminhos pedregosos da aldeia como um _pur-sang_ trotaria nas avenidas areadas dum luxuoso parque.
Felizes tempos!... Mas, no fim de contas, eu era uma rapariga; ás vezes lembrava-me disso, e nem sempre estava disposta a fazer de general no exercito _fraternal_.
Muitas vezes mesmo, o instinto do meu sexo pedia-me brincadeiras mais socegadas: queria _governar casa_, _sêr a mãe_, exercer a minha atividade de mulher trabalhadeira e que conhece o seu logar. Chamava então as pequenas da minha idade e brincavamos _ás dônas de casa_: improvisando os nossos lares em qualquer recanto do jardim, servindo de baixela fragmentos de loiça, _cosinhando_ pétalas de flôres e hervas que tinhamos mais á mão; indo ao tanque lavar a roupa das bonecas, _as nossas filhas_; carregando a agua com a cantarinha em equilibrio sobre a _rodilha_, no alto da cabeça; tendo as nossas disputas e conversas como viamos ás _senhoras visinhas_, lá no povo. Ralhavamos com os _homens_, os meus irmãositos--porque entravam tarde, andavam por lá com os amigos...
Na aldeia não havia meninas _finas_, e então arranjara as minhas amigas e companheiras nas humildes filhas dos nossos caseiros e serviçais.
Tinha os seus modos desempenados, os seus gostos simples, e, apesar disso, não me parecia com ellas!
Sempre me hade lembrar o que escandalisava meus pais quando afirmava perentoriamente: que de todas as casas da vila proxima, onde as havia muito bôas, era a mais humilde de todas a que mais me agradava.
Cuidaram que era uma perversão do meu senso estético, mas vendo-a ha pouco, já depois de mulher, confesso que não mudei de opinião. É que sentia intuitivamente o pitoresco que os nossos artistas andam hôje procurando com tanto afan...
Na verdade a casinha térrea, construida sobre a rocha onde tinham cavado os degraus, com seu alpendre e o seu pé de videira a ensombrá-lo, era duma originalidade, na sua singeleza primitiva, que me encantava.
Nunca, como tantas crianças na minha idade, me lembrei de imitar a mamã, as tias, ou as senhoras das nossas relações. Nada! Só procurava sêr aquilo que nunca conseguiria, por mais esforços que empregasse.
Melhor fôra que tivesse conseguido o meu desejo e ficasse como as outras raparigas da minha aldeia: uma perfeita camponeza, cheia de saude e de alegria, sem mais cultura do que a dellas!...
--Meu Deus! A delicada ternura do Chico compensa-me de muitos desgostos passados, abre-me um caminho largo a uma existencia toda inundada de sol; mas, quando penso em quatro anos da minha existencia, sinto em mim uma tão grande repercussão de dôres passadas, que não sei quanta bondade lhe será precisa para mas fazer esquecer!...
Emquanto eu suportei todos os tormentos que uma pobre criança pode sofrer, sequestrada de tudo quanto lhe rodeou e acariciou os primeiros anos; emquanto o meu espirito, sacudido pelas lutas mais violentas, angustiado pelas mais sombrias dúvidas, se abria á compreensão duma vida que dizem superior; emquanto o meu coração aprendia na dôr os infinitos cambiantes dos sentimentos complicados; a Rosita, a Maricas, e a Anninhas da méstra--as queridas companheiras da minha infancia--cresciam e faziam-se bôas e laboriosas mulheres, cheias de vida e saude, sem incompreensões mortificantes do seu proprio coração.
Quando ellas me viram voltar á aldeia, tristemente grave, empalidecida pela dôr, adelgaçada pelos anos, o trajar cuidado de quem não desconhece os preceitos da elegancia, não compreenderam as lagrimas que bruscamente me vieram aos olhos e correram impetuosas pelas faces, como vaga interior vencendo todos os diques.
Imaginaram--as pobres!--que eu tinha saudades das amigas de Lisbôa e as desprezava a ellas. Oh não, mil vezes não! Tinha uma pungente saudade do tempo em que o meu espirito, não fatigado, se comprazia nas suas conversas simples, e em que os seus gostos naturais eram tambem o meu gosto.
Chorava desesperadamente a minha alegria, para sempre tocada de mal incuravel; tinha desprezo--e muito--por essa educação que me roubara quatro anos de vida feliz e proveitosa, dando-me em troca uma ignorancia mais completa do que a sua! Porque as minhas amigas e companheiras de infancia sabiam muita coisa util, e eu apenas me podéra convencer de que não sabia nada--o que é altamente desconsolador.
Como já disse, durante a infancia considerei-me feliz. A minha mãe era bondosa, como muita gente o é, porque assim tinha nascido, pela mesma fatalidade psicologica que a podia têr feito nascer uma criminosa. Mas juntava a essa inconsciente bondade muita justiça e bom-senso.
Cuidava escrupulosamente do amânho interior da nossa casa, não deixando as criadas levantar mão dos serviços, com uma disciplina que invejariam muitos instrutores de recrutas. Rezava as orações obrigatorias de cada dia; cabeceava á bôca da noite, antes de se acender o candieiro para o serão; e depois de espertar era a última a deitar-se em casa, depois de vêr todas as portas e apagar todas as luzes--não, fôsse o inimigo sonso que se lhe metesse algum ladrão em casa, ou as raparigas se descuidassem com o lume! De manhã era a primeira a madrugar, para a mesma labuta de todo o ano,--que era afinal a de toda a sua vida.
De sabedorias para si, importavam-lhe pouco, mas queria-as para mim, que no seu entender devia tornar-me uma verdadeira _menina educada_: tocando piano, ataviando-me com geito de quem sabe, que não privasse com as _raparigas da rua_, que lêsse romances para têr umas luzes de historia, que bordasse a matiz e a escama de peixe ou a casca de castanha, cantasse ao piano em francês ou italiano, soubesse, emfim, estar numa sala...
Duma tão grande infelicidade que a unica filha tinha modos de rapaz, detestava o piano, adormecia a lêr os mais pateticos romances, e fazia a cabeça doida ao padre José, que nos dizia a missa na capela da casa e toda a semana carregava com a pesada cruz de nos iniciar nos misterios da lingua portuguêsa.
Ralhavam comigo, mas, por mais que ralhassem, não conseguiam fazer-me compreender a possibilidade de estar perfilada numa cadeira a receber as visitas na sala, como via as filhas do recebedor e as do medico da vila quando vinham á nossa casa. Francamente, abominava as adoraveis meninas, que ficavam com sorrisos murchos ao cimo da escada, recusando-se a seguir-nos á quinta com mêdo de estragar os lindos vestidos á moda, esses vestidos aparatosos, cheios de fitas e rendas, que usam na provincia as meninas ricas.
Eu, que era uma selvagem incapaz de tolerar um colête justo ou umas botas apertadas, que pedia para que me cortassem o cabelo para não sofrer os penteados, que só gostava dos vestidos depois de afeitos ao corpo pelo uso, olhava com verdadeiro assombro aquellas meninas modelos.
Ás vezes, a minha bôa Maria Augusta tentava apertar um pouco os cordões do colête,--«para me tornar elegante»--mas eu protestava tão energicamente que tinha de desistir logo, dizendo-me arreliada:
--«Ó menina, é preciso sofrer para sêr formosa!
--«Pois sim, espera por essa... Eu nem quero sofrer nem quero sêr formosa!
Uma vez levantei-me cedo, estava uma manhã gloriosa de inverno, deste inverno tão nosso, em que o azul do céo é limpo, puro e transparente como se fabricado fôsse pelo mais escrupuloso dos artistas e da mais preciosa das porcelanas.
Em casa apenas as criadas traquinavam na cosinha, encetando a labuta do dia, e a Maria Augusta abria janelas e portas para a limpeza do rez-do-chão.
Acordara cedo; a chilreada dos pardais madrugadores era o meu despertador.
O sol começava a aureolar o cume dos montes, e, como a nossa casa ficava ao cimo dum vale, depressa me inundou o quarto duma luz rosea que enchia de alegria os meus olhos e me fazia cantarolar e rir sósinha, como se estivesse no maior divertimento.
E vesti-me á pressa, com grande abundancia de gestos, batendo na agua fria, que atirava para a cara com as mãos em concha, satisfeita e feliz como se uma alma nova despontasse em mim.
Em baixo, a Maria Augusta e as outras criadas festejaram o meu sorriso jubiloso, a minha madrugada feliz.
Correndo para o pateo, comecei por dar liberdade a toda a capoeira que ainda permanecia fechada, por soltar o Tigre que os criados já tinham acorrentado á sua grilheta diurna, e fui á estrebaria vêr a nossa bôa Cacilda, a burra, que me cumprimentou com um zurrar festivo.
Iniciando assim o que a Maria Augusta chamava irreverentemente a série dos meus disparates, não parei no principio, o que seria prova de pouca independencia de caráter... Desprender a Cacilda e trazê-la para a horta, para que ella podesse saborear á vontade as couves que o velho hortelão guardava avaramente dos seus dentes de apreciadora, pareceu-me a coisa mais natural do mundo.
Depois, ella bem almoçada, e naturalmente tão alegre como eu e como o Tigre, que a seguiamos satisfeitos de a vêr escolher uma a uma as mais tenras folhas da horta, achei tambem natural, como um simples remate de tal festa, que fôssemos dar um passeio até á mata.
Chamando a Cacilda, acariciei-lhe o pescoço, dei uma volta á corda na mão, e dum pulo fiquei-lhe montada sobre o dorso como um rapaz.
Um pequeno assobio ao Tigre preveniu-o da minha resolução, e ahi vamos nós todos três, alegres e felizes, porque o céo estava limpido e o sol brilhava, porque o ar era puro e os campos reverdeciam numa jovialidade de primavera proxima.
A meio da carreira sobreveiu-nos um obstaculo inesperado, na vera pessôa do bom padre Zé, que já voltava das suas arvores em cata do almoço, e fez estacar a Cacilda com os seus gestos e gritos indignados.
--«Para onde vai a menina assim montada?!
--«Dar um passeio á mata. É para abrir a memoria e o apetite--respondi-lhe a rir.
--«Mas isso não são modos de menina bem educada!--apostrofou-me aflito.
--«Eu não sou _menina_, nem _bem educada_!--retorqui-lhe numa gargalhada.
--«Se a mamã sabe!....
--«Não lhe diga nada, que eu já volto.
E, dando um sinal á Cacilda, partimos a galope, deixando o bom do padre no mais profundo pasmo.
Agora são os medicos os primeiros a preconisar ás senhoras essa maneira de cavalgar, e não tardará que a moda a impônha como a última palavra do _chic_. Como a razão é intuitiva e se faz sentir na inteligencia liberta da criança!
Mas á volta é que fôram ellas! Tinha levantado um verdadeiro temporal de protestos e queixas com os meus átos, tão espontaneos e naturais quanto me pareciam humanos e justos...
Pois não seriam elles meritorios: abrir as prisões, soltar os presos, dar de comer aos que tinham fome, e em seguida premiar-me a mim mesma indo passear?!
Não o entenderam assim em casa, lá porque as galinhas tendo encontrado aberto o portão do quintal tinham acabado a destruição da horta, que a Cacilda encetara com tanto brio! O hortelão parecia doido e a minha pobre mamã benzia-se assustada, temendo que eu tivesse o diabo no corpo.
Fui chamada ao escritorio, áquelle escritorio de paredes revestidas de velhos livros onde o meu pai recebia os caseiros, fazia a sua escrituração, e lia, a maior parte das vezes, os seus in-fólios mofentos.
O caso era realmente grave, mais do que poderia presumir, para que assim se tivesse apelado para a autoridade paterna...
Assentado na larga cadeira antiga, de coiro lavrado e braços abertos num carinhoso aféto, onde elle descansava as suas finas mãos de intelectual, diante do pesado bufete de pau santo torneado em três cordas, como um juiz austero, o meu pai admoestou-me severamente por tanto disparate e terminou por dizer:--que me tornava o escandalo da familia e assim não podia continuar...
E como esta outras muitas fiz, que não acabaria se as fôsse a contar todas.
A mamã queixava-se da minha extrema ignorancia e incapacidade de sêr apresentada diante de gente, o que o meu pai corroborava dizendo por seu turno:--sêr absolutamente preciso, e muito urgente, mandar vir uma professora que tomasse conta de mim e me sujeitasse a uma «disciplina de ferro».
--Que não, isso que não!--acudia a minha mãe--não queria estranhas metidas em casa a vêrem e a ouvirem tudo quanto se faz e em pouco tempo a saberem mais da nossa vida do que nós proprios. Nem a gente pode falar á sua vontade, nem têr as suas coisas, porque emfim não ha casa que as não tenha, sem que tudo se saiba e se comente... Depois, ceremonias, _niquices_, exigencias... nada, isso não!
--«Pois é o unico meio:--opinava o papá triunfante--uma senhora que lhe fale uma lingua estrangeira e que a sugeite a um regimen invariavel.
--«Nada, um colegio é ainda o melhor; mete-se lá a pequena e fica-se livre de cuidados.
Meu pai hesitava,--tinha lá as suas ideias contra os internatos--e estou em crêr que me preferia ignorante, como a _Zéfinha da horta_ ou a _Teresita do barbeiro_, a têr que me mandar para um colegio.
Os meus irmãositos todos se afligiam quando se ventilava a magna questão, que os ameaçava da minha ausencia, e eu, sem bem saber o que preferia, ia gosando alegremente os dias na bela paz da minha aldeia florída e ensoalhada.
Mal suspeitava que a desgraça estava a bater-me á porta--e mais terrivel do que podia imaginar! Parece-me estar a vêr entrar na cosinha de grande chaminé, onde se enxugava o _enchido_ e as castanhas secavam no _caniço_, a mulher dos recados que fôra á vila buscar o correio, e me dizia, alviçareira:
--«Olhe, menina, aqui vem uma carta para a mamã. É do seu tio Manoel; já lhe conheço a letra.