Chapter 3
Assim continuaram em conversa larga, cheia de combinações e reticencias, que muito as interessava, emquanto a Terezinha dentro de casa trabalhava na teia branca, que parecia sempre a mesma, eterna como as suas máguas.
O tear monotonamente fazia subir e descer os _pentes_ com um barulho sêco e igual, emquanto ella levantava a sua vózinha agradavel de soprano numa toada melancolica:
--«Eu heide amar uma pedra, Deixar o teu coração; Uma pedra não me deixa, Deixas-me tu sem razão».
E ao dizer a quadra, que parecia sahir-lhe do proprio coração, os olhos enturvecidos de lagrimas fitavam a estampa ingenua que elle lhe trouxera da Senhora do Castelo, a grande romaria de setembro.
Todos os anos lá ia--era o costume--e tambem a Maria do Próspero, que punha nos ranchos um contínuo esfusiar de gargalhadas terçando galhardamente com os mais afamados _piadistas_ as armas perigosas da chalaça e da resposta á letra.
Cantavam ao desafio, ella e o Manoel. Tinham fama por todas aquellas redondezas, e, mal as suas vozes se trocavam num principio de duelo, os auditores cercavam-nos e apertavam-nos num círculo de admiração excitando-os com risos e ápartes.
Tambem era o par certo em todas as romarias--talhados um para o outro!
A Maria era alta e desempenada! A sua tez, dum moreno intenso, fôra brunida pelas soalheiras ardentes e curtida pelas ventanias agrestes. A bôca, sempre aberta em riso, era vermelha e fresca como cerejas maduras, e os dentes brancos e agudos cravavam-se com delicia no pão de milho, sua unica escôva.
As saias, rodadas em balão, faziam-lhe mais altas as ancas já de si redondas e fortes; o cabelo, em duas tranças pregadas, enchia-lhe a cabeça como uma touca de veludo negro.
Quando punha o cáchené vermelho e amarelo de grandes ramagens verdes, o chale em bico traçado deixando livre o braço esquerdo, a chinela branca pespontada na ponta do pé, nenhuma como a Maria do Próspero para arrebanhar admiradores.
Depois, sempre satisfeita, radiava em plena expansão dos seus vinte anos sadios, vividos em plena natureza.
Nas ceifas, ao ardôr dos sóes caniculares, mangas arregaçadas mostrando os braços trigueiros e musculosos; ou no gesto mecânico de juntar as paveias e sobraçar os mólhos, tinha a harmonia escultural e grave duma Céres fecunda.
Nas vindimas, era a primeira dos ranchos, vermelha do môsto que corre como sangue generoso, a bôca escancarada em risos e cantigas... Tinha um aspecto quasi tragico e uma beleza perturbante e assustadora de bacante.
Pela apânha da azeitona, quando os campos amanhecem brancos da geada que toda a noite cahira manso e manso, tudo uniformisando sob a sua alvura de sudario, e o frio corta as mãos, que se _engatinham_, e entorpece os dedos que mal se podem dobrar, ella motejava de todos, sempre na frente, cantarolando e rindo, enchendo de ânimo os mais desanimados, encorajando os mais entanguecidos pela friagem.
Sempre pronta para o trabalho, a Próspera, em todas as sáfaras e com todos os tempos!
Mas, tambem, não faltava ás romarias e ás feiras das cercanias, com o seu lenço berrante, o casaquito branco engomado a capricho, e a sua alegria saudavel, que fazia bem vêr.
O Manoel não resistia áquella força que chamava a sua força, áquella exuberancia de mocidade que atrahia a sua mocidade. Quando a via, nem sequer pensava na Terezinha, que se ia finando lentamente ao compasso triste e monotono do seu tear caseiro.
E, no fim de contas, para falar a verdade, a Maria era tambem uma bôa rapariga, que nunca tivera outro conversado. Nem havia lingua danáda de velha de soalheiro que se atrevesse a debicar nos seus créditos. Alegre, sim; rir com todos, vá! Mas atrevimentos não os consentia a ninguem. E tinham-lhe respeito--que a sua mão era lésta, e um sopapo da Próspera não era brincadeira!
Só o Manoel gosava da sua confiança e só com elle tinha as suas _graças_ e brincalhotices mais livres, o que mais o afervorava naquelle amôr crescente que o ia conquistando dia a dia.
Á noite, nas esfolhadas, quando o luar é môrno e as flôres têm um perfume mais intenso, corriam um atraz do outro, batiam-se fortemente, e cahiam ás vezes sobre a palha ainda quente do sol, com um cheiro sêco que entontece.
As gargalhadas seguiam-nos de todos os lados da eira, as chalaças cruzavam-se no ar como morcegos de pesado e estonteado bater de azas:--Eh lá, Maria, vê se tens mais força do que elle! Isso é que era um riso, o valentão deixar-se bater por uma mulher!...
--«Talhados um para o outro--isso é que não havia dúvida, nenhuma!
--«A Zéfa do Padre que se deixasse de querer casar a sobrinha com o Manoel.
--«Bôa rapariga, lá sobre isso não havia duas opiniões; mas a Maria é que estava a calhar para um homem de trabalho, uma mocetona daquellas que era capaz de voltar um campo sósinha.
Os homens votavam pela Maria, bela mulher para tudo e forte como uma torre. As mulheres, essas eram pela Terezinha, delicada e amavel, pondo sorrisos de aquiescencia onde a outra só tinha ruidosas gargalhadas de troça.
Era ella que lhes talhava e cosia á máquina, sem paga, as chitas pobres, mas apesar disso tão dificilmente compradas, e lhes ajustava os coletes de linho grosso que tão irmanados lhes erguiam os seios até á raís do cólo:--«Ora, sempre era _outra loiça_! Podia lá comparar-se! Bem se via que tivera outra criação, lá em casa da fidalga, que a tratara como filha.
--«Que elle gostasse della, vá! Agora da Maria, uma cachopa como as outras!...
O Manoel, ainda indeciso, mas já a inclinar-se para a Maria, irritava as mulheres que se ofendiam com a insolente alegria da rapariga, que andava radiante com o seu ar de triunfo certo.
A velha Gertrudes Zarôlha vivia sobre brazas, nos últimos tempos.
Com meias palavras ou redundancias enigmaticas conseguia sobresaltar o coração do rapaz, mas não desviá-lo duma paixão que se harmonisava inteiramente com o seu modo de sêr moral e fisico.
--«Casar com a Maria--dizia a velha á bôca cheia--era até um pecado!...--e benzia-se com gestos de apavorada, que não explicava mas punha de sobre-aviso as consciencias timoratas.
Por uma noite de verão, sinistra pelo negrume de nuvens carregadas de eletricidade e prometedoras de fortes aguaceiros que toldavam o céo, voltava o Manoel da Clara da vila proxima onde assistira á feira.
Um calôr asfixiante pesava como chumbo no abandono pungente da paisagen lugubre. Os pinheiros esguios tinham um murmurio mais triste e vago, como soluços suspensos de almas em pânico, e o olival verde negro destacava-se no fundo, apertando como num cilicio doloroso a pobre terra que se dependura de fraguedos rudes, sempre ameaçada pela montanha que a cavalga e lhe limita o horizonte, cortando-lhe toda a esperança de se expandir por ali, como o pecado véla e corta toda a esperança da alma piedosa...
O Manoel, que tinha ficado um pouco para tarde, conversando com uns amigos na taberna do Geitoso, vinha assobiando alegremente, caminhando despreocupado e sem grande pressa.
Ao passar pela _Fonte do Inferno_... diabo!... que ouviu elle?! Um rumôr confuso de gargalhadas, que aflavam no ar como grasnar longinquo de corvos...
Mêdo?.... Elle não tinha mêdo, mas desde que acontecera aquella historia da casa dos Carneiros... _Crédo! Abrenuncio!_
--E não se benzeu, o Manoel, como lhe cumpria fazer, ao lembrar-se de coisas daquellas!... A tropa é que estraga os rapazes, está visto...
Agora, as gargalhadas já soavam mais perto... diria mesmo que ouvia a Maria do Próspero.
--Mas naquelle sitio, áquella hora!... Quem se atreveria?!...
--Em casa dos Carneiros,--lembrava-se involuntariamente--aquelle barulho de cadeias a arrastar, os ferros em braza que vinham cahir aos pés da gente da familia, o vozear sinistro que se escutava em toda a aldeia e trazia apavorados os mais valentes... Deus do céo, que terror fôra na terra toda! Já ninguem dormia nem descansava. Muitas mulheres tiveram então _espiritos_ que os padres e os _bentos_ esconjuravam, e se batiam com elles como forças iguais.
--Só depois que o senhor Vigario velho se resolveu a sahir, de capa de asperges, para benzer a casa endemoninhada, é que tudo socegou...
O Manoel já não assobiava, e ia olhando de soslaio para o Camborço, pedraria escalvada suspensa por milagre sobre o abismo e que a toda a hora parece desabar e soterrar as pobres casas de pedra solta tisnadas pelo tempo.
Um ventito picado e quente levantou-se então, trazendo o rumôr distinto de vozes, gritos surdos e gargalhadas abafadas...
O Manoel era destemido; apesar da má fama do sitio, tido como logar de maleficas reuniões diabolicas, resolveu-se a transpôr o pequeno muro que separava o caminho da _Fonte do Inferno_, a propriedade de mais estimação dos velhos fidalgos.
Primeiro, não viu nada; depois, vaga e confusamente, luzinhas que saltavam e atravessavam-se corriam e perseguiam-se, juntavam-se e tornavam a afastar-se...
Um calafrio lhe percorreu o corpo e sentiu na espinha dorsal uma sensação desagradavel que o fez tremer. O Manoel era valente,--nisso não podia haver dúvida!--mas é que aquilo que via tão realmente como se á luz do sol olhasse as suas proprias mãos eram as feiticeiras, tal qual a sua mãe as tinha visto tambem quando em pequenino esteve ameaçado de sêr chupado por ellas...
Entre curioso e medroso--já agora não sahiria dali sem vêr o que aquilo era.
Acercou-se da eira onde a ronda sinistra era mais febril...--Jesus, que coisa horrivel!--Olharapos corriam vertiginosamente, que mais pareciam voar, na noite negra, com o seu unico olho flamejante no meio da testa, lanterna magica das profundezas do averno!...
Um lobis-homem passou a galope, no seu fado triste, procurando alma christã á qual podesse, antes da meia-noite, entregar a sua cruz martirisante. Se elle o tivesse topado!... Até os cabelos se lhe punham de pé.
As luzinhas continuavam correndo alígeras, voando na escuridão dura da noite.
Surrateiramente foi-se aproximando da eira onde chamejavam em halucinado rodopio... A pouco e pouco ia-as distinguindo na sua fórma humana, girando buliçosas e gárrulas.
No meio da roda--cruzes! como podia aquilo sêr?!...--o Diabo passeando altivo, vestido de encarnado e de chapéo guisalhante, poisando os pés de forquilha sobre as cabeças das feiticeiras, que riam sarcasticamente.
Dessa vez o Manoel não poude deixar de rir, tão patusca lhe pareceu a cêna.
Ah! mas quando elle viu com os seus proprios olhos--tão certo como haver a luz do sol que nos alumia!--adiantar-se uma das luzinhas e, tornando rapidamente á sua figura de mulher, aparecer-lhe a Maria do Próspero, tal qual ella!... E quando a viu chegar ao pé do _homem vermelho_, estender-lhe os fortes braços roliços e trigueiros, abraçá-lo com ardôr, não poude retêr um surdo grito de raiva.
Aquelles braços, que só o pensar nelles lhe fazia febre; aquella mulher, que o trazia prêso havia tanto tempo e com a sua honestidade alegre e simples conseguira o seu respeito e o seu amôr, estava ali em frente delle abraçando outro! E esse outro--Deus do céo, que até a sua alma tremia!--esse outro era o proprio Diabo em pessôa!
Tremia de desespero e horror por essa criatura, que não passava afinal duma feiticeira.
Uma tremura nervosa e um frio de gelo o faziam vibrar todo. O sangue subia-lhe á cabeça, punha-lhe zoeiras nos ouvidos, halucinando-o.
As luzitas recomeçaram a dansa, numa _farandola_ de _sabbat_, correndo e saltando, num delirio de gargalhadas frias como entre-chocar de ossos numa dansa macabra.
Ao Manoel parecia-lhe que tudo dansava á volta delle, que elle mesmo se sentia voar num rodopio de entontecer. Agora o Diabo, sentado num trôno luminoso de feiticeiras, os pés de bode torcidos e negros a descansar sobre o formoso corpo de Maria, como se fosse um estrado, lia um grande livro de capas encarnadas. A cada folha que voltava, sahia uma nuvem de diabitos fantasticos, saltitantes, folgazões como garôtos ao sahir da escola, que iam juntar-se ás feiticeiras, e tudo corria, voava, num cabriolar estonteante e doido.
Uma das luzes aproximou-se então do Manoel, que ficara empedrado na contemplação da cêna que o atordoava e lhe tirava toda a sensação da vida, e rapidamente se fez mulher. Ficou boquiaberto, pois a bruxa era nem mais nem menos do que a Gertrudes Zarôlha, a velha amiga e confidente da Zéfa do Padre.
Se tivesse pensado melhor não se teria espantado tanto, pois essa era tida e havida por tal desde que o compadre Marques, o alfaiate, a encontrara feita galinha, lá para as bandas da vila, arrastando após si uma ninhada de frangas, as discipulas que ia exercitando pela noite alta. Admirou-se:--uma galinha tão tarde fóra da capoeira!?--e dando-lhe com o metro partiu-lhe uma aza. Logo a Gertrudes tornou á sua fórma natural e lhe pediu que se calasse, pois em paga do seu silencio lhe daria todos os anos uma camisa nova.
Mas o que é certo é que toda a gente soube do caso, sob segredo, e elle nem por isso deixou de receber anualmente a bôa camisa de pano de linho.
A Gertrudes quedou-se diante do Manoel: feia e engelhada, a bôca vasia de dentes, o cabelo esbranquiçado e crespo a fugir do lenço de chita, uma cavidade vermelha no logar do olho direito perdido não se sabia por que desastre.
--«Ai, Manoel, pobre rapaz, desgraçado!... Se o Senhor te visse, estavas perdido neste mundo e no outro!...
Elle olhava-a emparvecido, numa confusão labirintica de ideias, que não explicava nem compreendia.
--«Ouves, Manoel?--continuava a velha bruxa.--Eu sou tua amiga, não te quero vêr perdido. Olha, escuta, toma sentido no que te vou dizer: O _Senhor_ vai perguntar quem corre mais, para lhe entregar a caldeirinha que veiu hôje do inferno para a nossa missa. Tu hasde dizer que corres como o pensamento, agarra nella, e foge. Corre quanto podéres! Só estarás em segurança agarrado á corda do sino da igreja, depois do galo preto romano cantar pela terceira vez depois da meia-noite. Corre, corre quanto podéres, e livra-te de olhares para traz, oiças o que ouvires, sintas o que sentires. Ainda que te chamem pelo teu nome, não olhes nem páres,--olha que depende dahi a tua salvação e a tua vida!
Afastou-se saltitando, outra vez luzinha, a misturar-se com as outras na dansa macabra.
O Manoel ficou estarrecido, mas o proprio mêdo lhe deu energia bastante para responder com segurança á pergunta que o _homem vermelho_ fazia em voz tão formidavel e soturna que toda a natureza estremeceu de pavôr e os corvos no visinho cemiterio grasnaram agoirentamente.
Tendo gritado, no meio de vozearia geral, como lhe ensinara a Gertrudes Zarôlha,--«corro como o pensamento!»--agarrou na caldeirinha magica que estava no meio da roda e desatou a correr com quanta força tinha, em diréção á igreja, cujo campanario singelo donde pendia a corda do sino era agora a sua unica esperança de salvamento.
Mas, fosse porque o conhecessem pelo andar ou fosse por penetração diabolica e subtil, o que é certo é que, logo que voltou costas, uma grita ensurdecedora lhe chegou aos ouvidos. Sentiu-se perseguido por toda uma canalha de demonios, fúrias vêsgas e feiticeiras esguedelhadas, pequeninos trasgos e enormes gigantes, que ardendo em sêde do seu sangue e da sua alma christã lhe corriam no encalço.
Via-se quasi perdido, sentia-se quasi agarrado por enormes braços descarnados e com unhas aduncas e enclavinhadas, que se lhe cravavam na carne como tenazes... Chamavam-no pelo seu nome, ouvia coisas pânicas, e ora o insultavam com palavras que se desprendiam como pedradas de funda, ora o seduziam com promessas tentadoras.
E dizia mesmo que essas vozes sedutôras, que se misturavam ás outras brutais e agressivas, eram ditas pela bôca vermelha e fresca da Maria...
Mas, fiel á recomendação da Gertrudes, corria numa ânsia ofegante, num desespero de loucura. Na cabeça enfebrecida duas unicas ideias se lhe espetavam, como navalhas agudas:--a Próspera abraçando o _Senhor_, como lhe chamara a Zarôlha, e o campanario humilde onde estava a sua salvação.
Não compreendia nem via mais nada, e nada mais lhe interessava no mundo. Mas chegaria a tempo de poder agarrar a corda do sino antes do galo preto romano cantar pela terceira vez á meia-noite?!...
Já as pernas lhe fraquejavam, a cabeça andava-lhe á roda, e os gritos satanicos, que mais e mais se avisinhavam, davam-lhe a certeza do seu triste fim, se não conseguisse chegar.
Mas já estava perto--num último arranco, estava salvo!
Se fosse vinte passos mais longe não poderia resistir. Quando deitou a mão á corda do sino, que deu na noite negra uma badalada lugubre, o galo preto romano soltava pela terceira vez a sua voz clara e sonora de espancar visões e pesadelos.
Um gargalhar surdo e um rumôr de maldições e pragas perderam-se no ar, emquanto o Manoel cahia pesadamente no chão, agarrado ainda á corda do sino que tremia nas suas mãos crispadas. Ao lado tombara a caldeirinha tilintando numa vózita escarnicadora.
Para quem duvide do caso, lá está ella na igreja matriz, da pequena terra triste, cortada na rocha bruta, estrangulada entre pinhais melancolicos e oliveiras de folhagem eternamente sombria.
Lá anda ella, cheia de agua benta, tilintando sempre a sua vózinha escarnecedora e fantastica, acompanhando enterros de cavadores tisnados que na terra encontram o seu unico repouso, e criancinhas frageis que vão para o céo aspergidas com a agua benta da caldeirinha infernal...
Lá anda, muito serena, orgulhosa do seu metal desconhecido forjado nas profundezas ardentes do mundo sobrenatural, a acompanhar o senhor vigario na visita anual em dia de Páscoa alegre e florída:--«Bôas festas, bôas festas, santas festas!, sorri no seu arzinho petulante.
De madrugada, quando os homens iam para o trabalho, encontraram o Manoel ainda desmaiado, agarrando-se á corda do sino como naúfrago a táboa salvadora.
Levaram-no para casa, alvorotando toda a vila com o extraordinario caso. A Clara de Rezadeira,--coitada!--mal viu o filho, o seu Manoel, estendido como um cadaver sobre o leito de cabeceiras embutidas, para onde os homens o atiraram já cansados da caminhada com semelhante pêso, ia morrendo tambem, sufocada pelo sangue cujos impetos o pobre coração mal podia regular.
Mas o mestre barbeiro afiançou a cura para breve, dando uma picadélasita no braço do rapaz--que era de humôr muito quente, e apanhara algum golpe de sol lá pela feira.
A febre sobreveiu e teve-o entre a vida e a morte, dias e noites ardendo num fogo de que o delirio e a agitação eram o corolario logico. O que elle via, os sonhos e os pesadelos que lhe enchiam a pobre cabeça enfebrecida, mal o compreendiam os seus enfermeiros. E todo aquelle mal se agravava e a agitação chegava ao delirio furioso dum louco se por acaso a Maria do Próspero chegava á porta, a pedir noticias ou a querer ajudar a tia Clara nos arranjos domesticos.
Ninguem podia compreender tal horror á rapariga, nem ella, que se consumia e chorava sem consolação por vêr a mudança brusca do seu Manoel.
Quando se levantou estava pálido, cambaleava, e uma tristeza profundissima lhe encovava os olhos.
No primeiro dia em que sahiu, o seu cuidado foi logo ir procurar a Gertrudes Zarôlha, que encontrou sentada á porta da casa, fiando e conversando com o gato preto gordo e pesado, seu unico companheiro e amigo.
O Manoel não esteve com ceremonias, foi direito ao fim. Contou á velha tudo quanto tinha visto na _Fonte do Inferno_ quando viera tarde da feira, e exigiu explicações completas sob a ameaça duma sóva se ella não quizesse dizer a verdade.
Ao principio a Gertrudes indignou-se, pôs as mãos no peito, jurou a sua inocencia e negou que fosse feiticeira.
--Na _Fonte do inferno_?!
--O Manoel que não sonhasse em tal--_crédo!_ _cruzes, canhoto!_ Fôra aquelle patife do Próspero que levantara aquella calúnia e dizia a quem o queria ouvir--que fôra ella quem chupara o filho da fidalga...
Mas o Manoel atalhou:--não negassse a Senhora Gertrudes; tinha-a elle visto, ora essa! Querer dizer-lhe que não era verdade uma coisa que elle mesmo vira, com aquelles mesmos olhos que a terra havia de comer?!... Demais, não tinha nada com a sua vida nem o contaria a ninguem, pois até lhe estava muito agradecido por o têr ensinado a livrar-se de tamanho perigo. Agora o que queria saber era a verdade--sobre a Maria do Próspero. Seria ou não certo tê-la visto abraçar o _Senhor_?... Seria ou não certo o sêr ella feiticeira a valer?! Podia têr-se enganado... podia-a têr confundido com outra... Ás vezes, e como foi ao longe...
Era a última esperança, e a ella se agarrava com todo o afinco de quem não quer perder uma dôce ilusão.
E pensava, horrorisado, que aquilo poderia sêr verdade e teria que deixar de pensar na Maria, agora que a paixão por ella chegara ao halucinamento, hesitante entre o amôr e o odio.
Quanto daria para que a Gertrudes lhe désse a certeza de que os seus olhos o tinham iludido, quanto daria!... Tornar a têr na Maria a confiança que tinha dantes; podê-la levar para a sua casa, como ainda na vespera lhe dissera a mãe, que morria pela rapariga--tão trabalhadeira, tão desembaraçada e bôa... Não tinha nada, mas isso o que importava? Ella, a Clara do Rezadeira, não se importava nada com isso e aconselhava-lhe a que escolhesse antes uma rapariga de trabalho do que uma com dinheiro, que nada vale quando dá em mãos que o não sabem guardar nem aumentar.
Como elle esquecia, evocando a formosa rapariga, a pálida Terezinha, que lentamente se ia definhando e morrendo aos poucos, ao compasso surdo e monotono do seu tear!...
Mas a Gertrudes foi impiedosa. A pouco e pouco começou a dizer tudo; primeiro timidamente, tenteando o assunto, depois entusiasmando-se, contando detalhes, dizendo coisas que arrepiavam e indignavam o Manoel.
Era certo e mais que certo sêr a Maria feiticeira! Havia pouco tempo que aprendera, mas já a consideravam das mais finas e das mais queridas do _Senhor_.
--O lobis-homem que tinha visto--mas isso em grande segredo, porque tinha medo de levar alguma sóva--era o Próspero velho. Andava com o fado ha tantos anos! Não tinha sorte nenhuma, coitado!
Que de historias lhe contou, e elle ouviu pasmado, vencido por aquella verdade irrefutavel:--a Maria era feiticeira!
A Gertrudes comentava com gestos curtos e vozes de confidencia:--Ora essa! De que se admirava? Sempre lhe dissera que não era mulher capaz para um homem de brio e de honra.
Tinha-lhe odio, o odio implacavel das velhas criaturas despresiveis aos que têm a insolencia da alegria, da juventude e da beleza. E então, depois que a rapariga dissera numa sacha, entre as gargalhadas do rancho, que não queria estar ao pé della porque lhe podia dar quebranto ou chupá-la como fizera ao filho da fidalga, a Gertrudes não a podia tragar.
--Se fosse com a Terezinha,--continuava convencedora--com essa era de sua aprovação. Uma rapariguinha tão recolhida, sem uma _nota_, sem más palavras para ninguem, e sempre tão bôa, tão condoïda! Mesmo um anjo do céo!
O Manoel calava-se, abismado no seu desgosto, não podendo seguir-lhe a tagarelice nem dizer uma palavra que lha fizesse estancar. De quando em quando, uma palavra ou outra feria-lhe o ouvido, chamando-o á realidade, aos repelões, sobresaltando-lhe ainda mais a alma amarfanhada.
Por vezes já a imagem da Terezinha, com a sua esbelteza delicada, o seu vestido escuro de luto aliviado, o sorriso maguado da sua bôca virgem de beijos, se começava a esboçar na sua memoria. Via-a córada como a romã quando acertava de lhe dirigir a palavra, sofredora e resignada quando o sabia mais prêso pelos encantos de Maria; lembrava-a fugindo arisca da porta para o espreitar da janela, mal assomava ao cimo da rua com os seus ares triunfantes, bamboleando-se com a importancia de janota de aldeia.--«Coitadinha! Gostava tanto delle! Emquanto esteve doente, nunca ella deixou apagar a lampada á Senhora do Castelo...