Quatro Novelas

Chapter 2

Chapter 24,066 wordsPublic domain

Luis sentira então, ao correr pela carreira principal, tão comprida que ao fundo deixava de se avistar a casa, uma sensação de posse, que o fazia agora sorrir.

Lembrava-se bem como Eduarda estava melancolica naquella tarde de outôno, olhando o desmoronamento que lhe parecia um começo de destruição--porta escancarada por onde entrariam todos os desastres... Presentimentos de alma extremamente vibratil, ou acaso sem nenhuma significação, quem pode ao certo dizer o que determinados estados de espirito representam?!

Ali tambem havia mudança... Luis começou a sentir a ansiedade da dúvida. Tinham plantado vinha nesse campo, que dantes ondulava num verde tenro pelas primaveras, e pelos verões era um manto de oiro, com as espigas acurvadas ao pêso do grão já maduro.

Entrou pelo fundo do quintal, que no seu tempo tinha apenas um pequeno muro como signal de posse e agora se alteara numa hipótese de muralha orgulhosa.

Seguindo pela rua mais larga, ia recordando, uma por uma, as arvores do pomar. Uma certa pereira que se erguia em roca, toda florida e branca como fogaça, e era a primeira a amadurecer as suas peras magnificas; uma rua de aveleiras baixas e tufadas, donde apanhavam ás mãos cheias as avelãs ainda em leite, que eram dum verdadeiro apetite... Depois lembrava-se dumas certas ameixas, muito rôxas e carnudas, que ainda lhe faziam crescer a agua na bôca. E a nespereira imensa que sombreava a horta, com grande desespero do velho Antonio hortelão... e a enorme cerdeira, que tinha uma historia engraçada, que os pequenos sempre contavam ao ouvido dos visitantes e os fazia desenhar gestos de nojo, o que lhes provocava uma esfogueteada de risos!?... E tantas outras que eram mais conhecidas, como suas irmãs, que iria abraçar piedosamente numa despedida derradeira.

Se fosse tempo de lilazes, como teria gosto de levar um grande mólho de flôres para a mãe! Sim, roubaria, porque ao seu inconsciente criterio isso não lhe parecia um roubo: se o quintal era o seu, o mesmo que tinha deixado anos antes, que mal poderia haver nisso?!

Apressou o passo até avistar a grande nogueira, plantada no ano do nascimento de Eduarda, e que já no seu tempo era uma bela arvore que desafiava a cubiça do rapazio que de fóra namorava as suas verdes nozes de bôa casta. Se não fosse noite poderia vêr no tronco rugoso as iniciais do seu nome, que Eduarda tinha aberto, na vespera da sua partida para o colegio.

Mas ao chegar junto á arvore, donde se descobria todo o quintal, não poude reprimir um gesto de pavôr.

Ah, para que viera ali, numa febre apreensiva de lembranças,--para reviver uma vida que já não existiria mais, para materialisar uma saudade que já não poderia sêr realidade... para quê?!...

Bem lho dissera Eduarda, aconselhando-o a não dar ao passado mais do que a melancolica e vaga recordação que merece, e lembrando-lhe o dever de caminhar para a frente, de viver, como ella, uma nova vida mais nobre e mais cheia de ideais, que a faziam até abençoar esse desastre material que a libertara de preconceitos e costumes seculares...

Mas elle sofria verdadeiramente e intensissimamente; era uma dôr material como a de lhe cortarem um pedaço do seu proprio corpo, ao vêr que tambem o pomar não soubera resistir á mudança de proprietario, na sua passividade de natureza vegetativa.

Oh, as lindas arvores de fruto, as ruas de plumeiras decorativas,--inuteis para o criterio mesquinho do vulgo--os crisântemos estrelados, os lirios rôxos, as roseiras já grossas como arvores, tudo, tudo fôra sacrificado ao ignobil desejo do lucro. Tudo desaparecêra, para dar logar á vinha!

Como sofria com tal hecatombe, e como sentia no seu proprio sêr os gemidos doloridos das suas plantas mortas, cujas almas erravam ali sem dúvida--elle ouvia-lhes e compreendia-lhes as queixas esparsas naquelle ar triste de cemiterio...

Vinha: toda a horta, todo o pomar, o seu proprio jardinzinho cultivado com tanto disvelo!

Um soluço lhe subiu do peito oprimido, e as lagrimas vieram-lhe, sem querer, aos olhos ardentes.

O quintal tinha pouca agua, sim, elle sabia isso,--fôra até a grande preocupação da familia--estando numa encosta que declivava dôcemente até ao ribeiro... Mas nunca lá tinha morrido nada com sêde; pelo contrario, as arvores desenvolviam-se a olhos vistos.

Todo o desespero das coisas fatalmente irremediaveis o sacudia e fazia halucinadamente padecer.

A vinha! Como detestava essa planta, de que transformam em subtil veneno o dôce e aromatico sumo do seu fruto, e que estropia mais criaturas e faz correr mais sangue e mais lagrimas pelo mundo do que exercitos em campanha!

Como se tornava odiosa aos seus olhos essa planta, que torce convulsamente para o céo os braços descarnados de esqueleto, e como a desejaria queimar, numa furia vingativa de inquisidor!

Luis amaldiçoava mil vezes essa planta, que é tão estimada, porque representa a cupidez explorando o vicio.

Diante dos seus olhos, embaciados pelas lagrimas, todos esses troncos nus se animavam e viviam dançando numa roda selvatica de possessos.

Como detestava entranhadamente, sagradamente, a vinha!

Não lhe lembrava, por certo, a alegria rubra e ruidosa das vindimas, quando elles iam todos, pelos poentes fulvos dos lindos outônos da sua terra, ás propriedades de fóra, e voltavam atraz dos carros que as dornas a transbordar faziam chiar doridamente, ora enterrando-se na areia solta das azinhagas orladas de silvas, ora trambulhando pelas lages e pedras dos caminhos carreteiros.

Nem sequer recordava o delicado e suave perfume a resêda da vinha em flôr, quando na primavera as noites são frescas e os rouxinois cantam pelas ramarias os lirismos dos seus amôres e as romanzas dos seus noivados.

Via sómente os esqueletos tristes que tinham expulso as suas arvores amadas, as suas flôres escolhidas, as esbeltas trepadeiras, tudo emfim que fazia o encanto daquelle pedaço de natureza que fôra uma parte da sua propria alma e deixara de existir para sempre.

Luis abraçou a nogueira, numa última expansão de sentimental, beijou-a devotamente, como a uma velha amiga que se lhe tivesse conservado fiel ao coração, e afastou-se lentamente daquelle logar que fôra de martirio para a sua alma, como a mêsa de operações dum hospital onde se amputa um membro infermo.

Ainda de longe olhou para traz, e, num instintivo movimento, tirou o chapéo num último adeus á leal amiga que o vira nascer e fôra a unica que lhe soubera conservar a ilusão do passado.

Um adeus, um último e enternecido adeus, e tudo tinha acabado.

Foi quasi com indiferença que de novo transpôs o muro, sorrindo para o pinhal que marulhava como as vagas de vagabundo mar, e que era o mesmo ainda. Esse não tinha mudado.

Quando o comboio se pôs em marcha para o internar de novo na sua vida do presente, depois daquella tentativa de viver pela recordação um passado sepulto, Luis sentia a impressão estranha de que a terra que deixava não era aquella em que tinha vivido uma tão importante época da sua vida.

Essa, parecia-lhe ter desaparecido completamente, como se a tivessem rasgado do mapa e a tivessem substituido por uma outra vila burguesinha, cheia de sol e de gente palradora e vasia, a mexer-se e a dançar indefinitamente.

Quasi a dormitar seguia vagamente essa gente, ia escutar-lhe as palavras para rir do mesmo riso banal, e ficava silencioso, sem nenhuma impressão de alegria ou tristeza.

Depois... tudo se foi diluindo, aos poucos, e adormeceu profundamente, revendo de novo a terra antiga, com varandas revestidas de trepadeiras perfumadas, silencios religiosos, as arvores, as casas, os costumes, e a gente que era dantes...

II

A Feiticeira

A FEITICEIRA

«La peur qui met dans les chemins Des personnages surhumains La peur aux invisibles mains qui revet l'arbre D'une carcasse ou d'un linceul Qui fait trembler comme un aïeul Et qui vous rend, quand on est seul, Blanc comme un marbre.»

MAURICE ROLLINAT.

De todos os rapazes da aldeia era o Manoel da Clara o mais querido das raparigas.

Fôra sempre um belo rapaz de afugentar rivais, mas, desde que viera da tropa e de lá trouxera aquelle ar desdenhoso de feliz D. João, aprendido no convivio dos camaradas presunçósos e mulheres de vida airada, parece que as enlouquecia.

Acostumado a ajustar a farda, como apertava bem a cinta de lã preta ou carmezim, que parecia trazer espartilho, o démo do rapaz!

Os sapatos com o lustro bem puxado, que pareciam de verniz; o chapéo garbosamente descahido sobre a esquerda; a ponta do cigarro atraz da orelha; e o lenço, com flôres e uma legenda bordadas a côres vivas, a sahir da pequena algibeira da jaqueta, as mais das vezes levada ao hombro; o Manoel era na verdade a nata da rapaziada do logar.

No meio dos outros, com as suas caras rapadas de lôrpas, valentes mas sem a elegancia dos gestos disciplinados pelo exercicio regular, o seu pequeno bigode de cidadão retorcia-se aos domingos com uma petulancia irresistivel.

Nas feiras e romarias, firmado no varapau metido debaixo do braço, toda a vaidade satisfeita a brilhar-lhe nos inquietos olhitos garços, desafiava toda a concorrencia desagradavel. Ás raparigas iam-se-lhes os olhos nelle, e mediam-se com o rancôr de rivalidades latentes.

E valentão!?--como aquilo poucos! E, como sempre, era a superioridade material da força e da coragem o que mais o fazia valer aos olhos de primitivas femeas, oferecendo-se orgulhosamente ao vencedor, ao macho forte e soberbo.

Quando o Manoel, com um rapido piparote atirava para a nuca o chapéo móle de largas abas, dava um passo atraz, fazia girar o varapau em sarilho sobre a cabeça, e torcia a bôca espumante num esgare de raiva... podiam fugir delle!

Contavam-se na aldeia as valentias do Manoel com o mesmo entusiasmo e ufanía com que se contariam as de um heroi da historia, um heroi autêntico, de que a tradição nos deixasse o nome e a memoria de largos feitos.

Uma vez era todo o povo de Infias que se juntara para o desafiar, raivosos por uma questão de mulheres de que o Manoel era afortunado protogonista, e que elle _enfiara_ pela serra abaixo--que até parecia que o vento os levava.

«Ó Manoel, lembras-te?...

«E daquella vez na romaria da Senhora dos Verdes?...

«E na feira, quando foi da compra dos meus bois?!...

As perguntas, as respostas, as diferentes versões e comentarios, envolviam o Manoel num côro de louvôres, que elle recebia mal disfarçando a vaidade num meio sorriso modesto emquanto ia enrolando o cigarro entre os dedos fortes onde brilhava um anel de cobra, o encanto e a inveja dos mais rapazes.

No jogo da bola, ao domingo, no terreiro da igreja, nenhum o excedia, como ninguem era capaz de o vencer numa partida de chinquilho ou no jogo do pau. Um valentão, um rapaz ás direitas, sempre pronto a fazer um favôr, riso franco, coração nas mãos para os amigos; ninguem emfim mais digno da estima dos seus patricios e ninguem que de facto fosse mais estimado do que o Manoel da Clara.

Álêm de todos estes merecimentos fisicos, que o superiorisavam, ainda era senhor de algumas belgas, e unico herdeiro da meação da mãe, a viuva do Rezadeira, que ajuntara o seu peculiosito na _casa dos fidalgos_. E era uma mulher de trabalho, a velha Clara do Rezadeira, que só tinha olhos e coração para o filho, o seu enlevo e orgulho. Primeiro do que ninguem, como o galo da manhã, saltava da cama, onde a asfixia dum coração emperrado mal a deixava socegar, e começava a labuta de todos os dias: amassando o pão, chegando ao forno a prevenir a forneira, cosinhando a vianda para os cevados, chamando a gente para o trabalho, despachando serviço, ralhando com um, combinando com outro, e sem nunca perder de vista a panela onde se cosiam as batatas para o caldo verde que o seu Manoel havia de comer antes de sahir, na sua tigela bem meada de brôa. Mal elle aparecia, ainda espreguiçando-se e os olhos mal abertos mas já risonho e feliz como soberano que se julga crédor de todos os afétos e homenagens, a vélhota aprontava tudo num ápice, rindo e ralhando num visivel contentamento de quem se revia no rapagão, que era o seu filho.

É claro que não havia rapariga na aldeia e arredores á qual não agradasse a ideia de poder vir a sêr a mulher estimada do Manoel, a senhora do seu coração e do rico bragal de linho que a velha mãe guardava avaramente nos grandes arcazes de madeira de fóra, grossamente chapeados de ferro.

Elle ria-se com todas, o patife, querendo gosar o mais possivel a sua situação de desejado, sem até ahi mostrar preferencias comprometedoras por nenhuma.

Mas, entre todas, havia duas que nos últimos tempos mais preocupavam o Manoel, com grande contentamento da mãe que ansiava por o vêr casado com rapariga que fosse do seu calhar:--só assim morreria descansada, pois uma cabeça alevantada como a delle precisava bem do arrimo duma bôa mulher de trabalho.

Por felicidade, as duas raparigas que o Manoel trazia debaixo de vista agradavam por igual á velha Clara--assim tinha liberdade para á vontade consultar o coração.

Uma, Maria Tereza--a Terezinha, como lhe chamava quando acertava de a topar no seu caminho--era afilhada da _fidalga_ e lá pelo palacio se tinha criado com mimos e delicadezas que as outras não conheciam. Era com uma graça toda senhoril que punha os olhos no chão e enrubecia como romã bem madura quando elle a fitava de frente, bem de frente, como fazia ás mais, sem conseguir com isso chamar-lhes o sangue ao rosto, mas fazê-las explodir em jocundas gargalhadas. O seu andar lento e ondulado dava um realce de elegancia exotica ao seu corpo delgado de anemica, flôr tristemente desabrochada entre paredes sombrias e velhas coisas impregnadas da melancolia dos tempos passados. Como era a unica que na terra sabia lêr, eram tambem os seus os unicos olhos que na missa se não levantavam do livro para andarem em leilão pela igreja á procura dos rapazes, que lá de longe, e de soslaio, não perdiam o grupo buliçoso da raparigada.

A madrinha queria-lhe muito, era o que todos afirmavam, e se não tivesse morrido nem a Terezinha sahia do palacio, onde era respeitada como filha da casa, e, talvez, se a morte não fosse repentina, tivesse ficado senhora daquella fortuna, quem sabe!?... Tem-se visto coisas mais raras. E melhor teria sido para a terra, pois a casa dos fidalgos, que fôra sempre abrigo de miseraveis como consolação de desgraçados, mal a senhora morgada fechara os olhos fechara-se tambem á pobreza, com uma crueldade que revoltava toda a gente.

Os herdeiros, uns primos em último gráu legal, souberam da sua morte sem testamento e acorreram de Lisbôa em marchas forçadas. Mas, tudo liquidado á pressa, apartaram gulosamente, para figurarem nos salões da capital, as preciosidades que enchiam e decoravam o velho solar. Durante alguns dias não se ouviu senão o martelar dos carpinteiros fazendo e pregando caixotes e não se via senão a moderna condessinha, muito prática em antiqualhas preciosas, abrir portas e armarios, percorrer os salões e os sotãos, dar volta ás paredes e ás bojudas cómodas de floreados embutidos, que seguiram com os candelabros, as joias, os quadros e os Sèvres ricos como os incontaveis Chinas para o sorvedoiro de Lisbôa. Depois, mal o Conde, com o seu ar mais chic de fadiga, deu por terminadas as contas e entregues as propriedades ao feitôr trazido das lezirias ribatejanas como pessôa de inteira confiança, fugiram atemorizados pela tristeza pesada e humida que resumbrava o casarão quasi deshabitado havia anos, desde que a fidalga se tolhêra de todo e passava os dias nos aposentos mais ensoalhados onde fizera a sua habitação e a da Terezinha, que lhe lia os autôres predilétos e a arrastava na cadeira de rodas pelas ruas ensombradas pelos buxos seculares do jardim.

Verdade seja que a Senhora Condessa, sabendo o amôr que a velha prima dedicava á afilhada e a docilidade e o desinteresse com que ella a servira e cuidara até ao fim, ofereceu-lhe o logar de sua criada de quarto e obrigou o marido a pôr em seu nome algumas propriedades arredadas ou a arbitrar-lhe o seu valôr em dinheiro, coisa duns cem mil réis, para os seus alfinetes, o que a tornaria na aldeia uma pequena morgada.

A Terezinha agradeceu cheia de reconhecimento a generosa munificencia da condessinha, a quem serviu, como ella nunca fôra servida, até á última hora que se demorou no palacio. Depois, quando se viu fóra do ninho onde a sua alma se emplumara e o seu corpinho debil de criança pobre crescêra e se tornara de mulher perfeita, sentiu-se como que isolada num vasto campo deserto.

Mas, séria e ponderada como era, tomou logo a mais acertada resolução: indo viver com a tia, a Zéfa do Padre, uma que fazia belos dôces e fôra por muitos anos ama do velho abade. E para encher os dias, tão longos agora quanto lhe pareciam pequenos dantes a rodear de cuidados a madrinha paralitica, metêra-se a tecedeira. Em breve era a melhor, sem favôr, que havia na terra.

O seu tear, no monotono bater do pedal e correr da lançadeira, só parava aos domingos e algumas horas da noite.

Aquella vida de reclusão mais lhe amaciava a pele e dava um tom ligeiramente empalidecido ás suas feições miudas.

--«Mas era alegre dantes!... Agora, _dês_ que o _Manél_ da Clara veiu de soldado e entrou de atentar nella, é que de mais em mais se vai definhando, que nem já parece a mesma. Louvado seja Deus, que só trabalhos e desgostos me chegam _pró_ fim da vida.

Dizia isto a Zéfa do Padre á Gertrudes Zarôlha, velha conhecida dos longinquos tempos da mocidade, assentadas á porta, com a roca á cinta e o fuso girando e torcendo o linho cuspinhado pelas suas bôcas palreiras.

--«Mas então aquelle desaustinado não diz nada cá á nossa cachopa?!...

--«Qual historia! Que eu saiba, ainda não lhe disse fala _pró_ bem nem _pró_ mal.

--«Que desaforado! O que elle precisava sei eu!... Uma rapariga como a nossa Terezinha!... Crédo, santo nome de Jesus! Mal empregada é ella para tal libertino, que veiu mesmo perdido da tropa!...

--«Lá isso, ó Gertrudes, mau rapaz não é elle, e tem o seu bocadinho...

--«Ah, mas tem uma cabeça mais leve! No nosso tempo parece que não eram assim, ó Senhora Zéfa! Quando algum pretendia duma rapariga, dizia-lho, e estava acabado, iam _prá_ igreja os banhos!...

--«Ora, eu sei lá! Haveria de tudo. Estas coisas esquecem muito, e o nosso tempo já lá vai ha tanto!...

--«Ai eu cá lembra-me perfeitamente, que o meu _home_ assim fez. Foi até numa cava; calhou eu ficar ao pé delle, e fômos ao desafio. Como eu é que ganhei, elle então deu-me um abraço muito grande e disse-me assim:--Ó Gertrudes, és uma mulher _duma cana_; ámanhã se tu quizeres vou falar ao senhor abade e _vame-nos a botar os pregões_. E assim é que foi...

--«E eu que ainda me lembra do senhor abade vir p'ra casa a rir muito e a contar o caso á minha tia--que Deus haja! Ainda ella então andava rija e _féra_, coitadinha.

--«Mas vocemecê já lá estava, pois não estava?

--«Pois estava, desde a idade de oito anos que fui p'rá companhia da minha tia até á idade dos cincoenta em que aquelle santo rendeu a alma a Deus! Ficou-me nos braços...

--«Coitadinho! Tão bom homem, tão sério, era como o nosso pai de todos. Veja lá se tudo não vai a peor! Olhe-me para o desatino em que este anda por ahi, com as raparigas e as mulheres dônas de sua casa, atraz, sempre em cantorias, e em rezas novas, que nem podem agradar a Nosso Senhor...

--«Já o dizia o senhor abade: a religião deve sêr a consolação da nossa vida e não o seu unico fim. Mas essa jesuitada entrou por toda a parte com este rapazelho do seminario--e bem mal têm já feito e hão de fazer ás familias!... O senhor abade bem dizia, bem dizia... E bastantes desgostos teve nos últimos tempos, que lhe amarguraram o resto dos dias... Coitadinho! Assim Deus lhes perdôe, que eu não posso tragá-los. Até me custa ouvir a missa daquelle avejão--Deus me perdoe se péco!

--«E o que me diz ás amizades delle com os feitôres da fidalga?! Ella toda _trinques_, caminho da missa logo de madrugada; as filhas de güelas abertas com as tais _onzenices_ de cantorias na igreja, e mais florinhas p'rá qui, e mais rendinhas novas nas toalhas do altar, confissão a cada passo... Eu nem sei, eu nem sei!...

--«E o marido? Vocemecê hade ouvir alguma coisa--está ali á beirinha da casa...

--«Ora o marido!... Tambem gosta muito daquellas coisas, e reza e canta e leva o padre p'ra casa a jantar e a tomar o chá, as mais das vezes.

--«_Eia!_--vivem como fidalgos!

--«Aquelles grandes excomungados! No tempo da fidalga, graças a Deus ninguem batia áquella porta com fome que não trouxesse uma consolaçãosinha; agora nem um chavo! Tudo querem para elles, aquelles ladrões!... Parece que ainda estou a vêr a Terezinha ir a correr contar á fidalga e vir logo com uma abada de pão ou de fruta, ou umas batatinhas, ou uma tigelinha de papas e o bocadinho de carne!...

--«Pobre Terezinha, tão mimosa foi da madrinha e agora tão triste a vejo!

--«Mas aquelle maroto não lhe dizer nada é o que me dá no gôto!...

--«Elle passa por ahi ás tardes, e ri-se para ella... Quando vai a alguma romaria sempre lhe traz uma prenda e um cravo com um verso _bem calhante_, mas nada mais! Ella então é uma tôla pelo rapaz! Mas quando o vê faz-se encarnada como um pimentão, põe os olhos baixos, e nem sequer o salva.

--«Ora essa! Tem sua graça, tem!

--«Eu nem posso explicar isto. Que a minha Tereza--não é por sêr minha sobrinha--não é de engeitar... é a melhor cachopa cá da terra.

--«Ora isso, nem se fala! Compara-se lá! Basta saber lêr e têr a _inducação_ que teve. É a flôrsinha da nossa vila.

--«Pois isto dá-me cuidado, dá! E não é pouco... A pequena só me tem a mim no mundo, e eu estou velha e cansada; queria-a vêr arrumada antes de fechar os olhos. E com o _Manél_ da Clara do Rezadeira gostava, lá isso gostava: a mãe é rapariga do nosso tempo, e elle tem alguma coisa de seu, e no fundo não é mau rapaz. Mas então!... Parece bruxaria.

--«Ai senhora Zéfa, não pônha mais na carta. Isso hade sêr, hade! E não é mais nada senão coisas daquella atrevida da Maria do Próspero! Aquilo sempre fôram de má raça. Até o pai... hade saber! Não?! Pois eu lho conto. Crédo, santo nome de Jesus! Cada vez que me lembra até os cabelos se me põem em pé. O que aquelle malvado disse de mim, que sempre entrei em casa da fidalga, que Deus tem, com toda a franqueza!...

--«O que foi então?

--«Ai não sabe?! Aquele grande diacho, Deus me perdôe! Então não disse elle que eu é que chupara o morgadinho, o filho da senhora fidalga!? Aquella aventesma!... Nem que eu não soubesse!... Bom, calo-me, que é melhor...

E mudando de tom, muito confidencial e amigavel:

--«Posso dizer-lhe de certeza: a Maria do Próspero conversa com o _Manél_ e parece que o traz enfeitiçado. Olhe que lhe ouvi eu dizer--que primeiro estava ella, que já o namorava ha muitos anos, ainda antes de elle ir para a tropa, e que nunca a _lesma_ da Terezinha o havia de apanhar! Desculpe, senhora Zéfa, aquilo é uma atrevida, uma doida!... Pois de que raça ella é!...

--«E o que é certo é que vai levando ávante o seu intento; tem artes do demonio!...

--«Deixe estar, deixe estar... Eu sei cá umas coisinhas que hãode voltar o _Manél_, oh se hãode!... Assim eu tivesse uma coisa que lhe pertencesse... Coisa de vestir era melhor... Punha-lhe a pedra de ara e dizia a oração... É coisa certa.

--«A Terezinha tem um lenço que elle lhe deu, mas fosse lá falar-lhe nisso!... Toda se zangava, não acredita nestas coisas...

--«Pois são bem verdadeiras...

--«O outro dia ensinei-lhe que cruzasse as pernas mesmo de pé quando a atrevida da Maria passar por ella... Desatou a rir!

--«Ah, isso é uma coisa certa para livrar do mau olhado de quem nos quer mal. Sabe o que era muito bom? Era fazer á pequena um defumadoiro com hervas colhidas na manhã de S. João... É o alecrim, o funcho, a dedaleira, o rosmaninho, o sabugueiro... Se quizer, eu tenho lá.

--«Muito obrigada. Assim ella quizesse!... Bem se fazia um defumadoiro que a livrasse daquelle enguiço.