Chapter 10
Soror Claudea, com o seu olhar sombrio e desvairado, seguia a ceremonia funebre com tremuras convulsivas no seu corpo magro de que a loucura histerica fizera uma bôa prêsa.
Dantes tambem morriam, é certo, mas a cada cova que se fechava abria-se a porta a uma noviça que tomava o véo preto, e no simbolico número se ia conservando sempre a comunidade.
Manoela soluçava agora, vendo cahir a última pedra que a separava para sempre da bôa tia, que era a sua unica grande afeição no mundo--tão diluida tinha na memoria a lembrança do passado que a filha era apenas uma vaga recordação, tão pouco pungitiva como a que lhe ficara do pai, que mal conhecera.
Soror Angelica ficara superiora sem quasi se proceder á ceremonia da eleição, tanto se impunha a todas a sua inteligencia, a sua energia, e a sua cultura, rara entre as senhoras daquella casa de regra áspera e humilde.
A nova superiora era uma bôa e valiosa amiga para Manoela, considerando como um dever estimá-la tal qual o fizera Soror Gertrudes, que tão solenemente lha entregara.
Mas Soror Angelica era um espirito mais varonil e energico, e, se dava amizade segura e protéção incondicional, não tinha como a tia de Manoela os carinhos e as delicadezas dum espirito que tinha ficado menineiro apesar da esterilidade duma vida sem familia propria.
A nova superiora era respeitada por todas; a antiga tinha sido amada e era chorada como uma bôa mãe.
Se Soror Angelica tivesse nascido anos atraz, seria uma dessas preladas temidas e escutadas por todos, porque sabiam fazer valer a força do seu direito e pesar a influencia das familias, da fortuna e do nome profano de todas as suas governadas, em qualquer questão que as interessasse.
Se tivesse nascido alguns anos mais tarde, seria, em qualquer campo para onde dirigisse os seus passos, uma criatura representativa, uma destas influencias que todos procuram captar para o seu lado porque em toda a parte entra com o valôr da inteligencia, da energia e da tenacidade, qualidades sempre raras em todos os tempos.
Superiora sem importancia num convento desapossado de todos os seus rendimentos e que existia apenas emquanto vivessem as últimas freiras--como existe, sustentado pela hera que o reveste, o velho muro em ruinas--Soror Angelica era um desacerto porque era uma força inutilisada.
Desde que ficou naquelle quasi isolamento, o espirito de Manoela começou a acordar, a debater-se para sahir do torpôr em que esses quatro anos amimalhados lhe tinham adormentado a alma.
Essa loucura ardente da fé que despreza o presente pela vaga esperança dum futuro cheio de delicias, já por vezes a compreendia, exaltada pela devoção e pelas leituras misticas que a superiora lhe indicava. O caminho que leva á sarça em fogo onde se consomem as pobres almas doentes, que dão as Santas Terezas de Jesus, já por vezes se abria diante da sua imaginação inátiva e do seu coração amoravel tão implacavelmente impelido pelo destino para a solidão e o desamôr.
Naquelle meio de apertada devoção, no silencio dos grandes corredores pontuados de capelinhas milagrosas, o seu espirito inclinava-se para um misticismo apaixonado e obsessivo, como tudo seria naquella alma de peninsular temperada e subtilisada pelo sofrimento, que vencera sem queixa.
Andava vagarosamente pelos claustros lageados, sentindo-se prêsa dum respeito supersticioso por essas pedras que cobriam corpos macerados de santas; tinha sorrisos silenciosos, gestos vagos de corpo apenas vivo pela esperança de se consumir em breve e reviver só em espirito purificado.
Á hora das orações rituais, assentava-se com as companheiras nos cadeirões de pau santo, que se defrontavam em duas filas sobrepostas e dantes eram só destinados ás professas, e pensava que a vela benta que as separava era a alma de cada uma das freiras que ardia no amôr apaixonado do Senhor seu Esposo e seu Deus.
O bruxoleamento da luz sobre as paginas do livro de oficios, que seguia por dever, tinha para a sua mente enfebrecida a significação clara dum suspirar de espirito aspirando á eterna bemaventurança.
Ali, naquelle côro grande como uma capela, revestido de azulejos policrómos, cheio de santos e relicarios preciosos, que irradiavam na meia obscuridade das suas doiraduras e pedrarias, numa luz quasi de sonho, Manoela gastava os seus longos e inuteis dias.
O côro era, como tinha sido sempre desde que se fundara aquella casa, o unico luxo, o cuidado e gosto de todas aquellas almas privadas doutras delicadezas e distráções feminis. Privadas até de irem á igreja, que Manoela contemplava extatica pelas grades estreitas, revivendo a vaga recordação que lhe ficara do dia da entrada, quando os seus olhos enevoados pelas lagrimas a tinham visto sem lhe poderem dar o verdadeiro valôr.
O convento nem se via de fóra, construido em quadrado por traz da igreja que o guardava, imperturbavel e austera como sentinela incorruptivel da fé.
A igreja era magnifica, nada dizendo com a humildade da regra nem com a modestia do resto da casa: duma traça arrojada, em que as colunas em marmore côr de rosa subiam em cordas espiraladas, até se juntarem na cúpula alta e sonora.
As janelas, do nosso gotico rendilhado a que se chama _manoelino_, conservavam ainda restos dos antigos vitrais, que deviam ter sido dum brilho e colorido que encheriam de encanto as naves silenciosas.
Os paineis, que a rodeavam, sobresahiam das largas molduras doiradas e entalhadas, pelo colorido um pouco frio e o desenho convencional e rigido do estilo que se impunha no tempo em que uma grande dama da côrte se lembrara, apaziguando talvez recordações importunas duma mocidade cheia de dôces culpas, de fundar aquella santa casa onde, propositadamente, só á igreja fôra dada a magnificencia e o fausto devidos ao Senhor omnipotente, dispensador de todas as graças, arbitro de todo o julgamento. Para as Esposas, as virgens oferecidas como vítimas expiatorias do pecado deleitoso da fundadora, a humildade, o desconforto, e a asperesa da regra.
Contemplando a igreja, Manoela sentia-se amar um Deus imenso e magestoso, arrastando purpuras e fazendo refulgir as joias da sua corôa imperial por catedrais goticas de naves resoantes, cheias de grandezas e misterio. Prostrava-se ante o seu trôno de luz nessa côrte celestial tão fantastica e deslumbrante, que lhe descreviam as almas crédulas e os livros piedosos.
O Christo torturado, empalidecido e humanisado pela dôr, não o compreendia ali, no luxo e na grandeza da arte, como o poderia compreender na igreja humilde da sua modesta aldeia.
Ali era um Deus para camponezes e para as almas simples; aqui era um Deus aristocratico e soberbo que se impunha aos grandes e aos poderosos.
Prêsa naquelle deslumbramento, que a fazia viver uma existencia á parte, Manoela assim iria gastando a existencia se não viesse um banal incidente chamá-la a si, chamando-a á vida com novos interesses e novos deveres a cumprir.
Ama-Rita, a bôa mulher que nunca a esquecêra, escrevia-lhe uma longa carta, de letra tortuosa, quasi ininteligivel, que ella decifrava a custo. «Só passados sete anos lhe escrevia, porque a senhora lho tinha prohibido e, não sabendo escrever, não confiava em ninguem da terra para fazer uma coisa contra a sua ordem. Agora era a sobrinha, a Luisa da Roda, que o fazia. A menina devia lembrar-se della, eram da mesma criação, tinham brincado bastante em pequenitas... Viera de servir, mas tão doente que o mais certo era não poder voltar. Podiam confiar nella e emquanto vivesse não teria a menina falta de cartas».
Manoela tinha os olhos rasos de lagrimas ao pensar na pobre rapariga, talvez tisica, que tinha sido sua companheira de infancia, dessa breve infancia que lhe vinha, numa lufada sã, evocada por essa mal redigida carta de camponia. Era um pedaço da sua rude terra, que a urze e o rosmaninho incensavam.
Depois, as noticias alongavam-se:--este que tinha ido para o Brazil, aquelle que voltara da tropa, casamentos, bátisados, mortes... e porfim, numa linha só, como misteriosamente, a causa primaria de se ter escrito aquella grande carta:--«A menina criava-se muito bem; a menina era muito linda».
Mais nada... E, no entanto, que mundo novo de pensamentos e de paixões essas poucas palavras desenrolavam diante dos olhos e do coração da triste reclusa!
O seu espirito, adormentado numa crise de misticismo para que a predispunha o meio ambiente, reagia agora com toda a energia, porque a sua alma não era feita para vagas abstrações; antes fôra, era, e seria sempre, uma mulher humana, nascida para viver e sentir humanamente a vida, com todas as suas amarguras e alegrias compensadoras.
A filha!... Quasi a tinha esquecido, naquelle viver sem consciencia de si propria, que fôra a sua existencia ali.
Como podera resignar-se durante tanto tempo só com a certeza de que esse pequenino anjo, que era a carne da sua propria carne, vivia, nessa terra longinqua e áspera, sob os cuidados da velha Ama-Rita? Sentia remorsos e agradecia intimamente á bôa serviçal, que assim a chamava á vida lembrando-lhe o cumprimento do seu dever.
Relendo aquella frase incolôr, sentia que dentro da sua alma se ia levantando outro altar, criando uma nova religião, que mal sabia como era dificil de harmonisar.
Encostada ás grades da janela do dormitorio, para onde viera na ânsia de se encontrar a sós com a sua propria alma, olhava o campo que se estendia num verde luminoso, com um castelo ao fundo, na imponencia de cenografia espétaculosa.
Na cerca a nóra gemia e a agua cahia no tanque donde era tirada para as regas.
Esse murmurar da agua corrente evocava-lhe o passado distante, a sua terra, o fiosinho de agua transparente a deslisar por entre os choupos, ao fundo da sua quinta, e aquella pequenina enseada onde se ia esconder, num desejo calmo de solidão, a olhar a agua saltando de pedra em pedra num grande esforço de quem vem exausto de longa caminhada.
Recordava, com tanta saüdade que chegava a sêr uma dôr material, essa época tão afastada para o seu espirito que já parecia têr pertencido a outra existencia, as horas que passara ali sósinha, idealisando um futuro de poesia e de romance, como o idealisam sempre as mulheres que uma educação racional não preparou para entrar na vida pela porta ampla e sem mentidos encantos da realidade.
Recordando todo esse passado, para sempre morto, a sua alma tão cruelmente torturada e tão profundamente humana acordava num alvoroço.
Chamavam-na para a vida, e ella vinha toda inteira, corpo palpitante, coração sangrento pronto a entregar-se a um novo ideal.
Desde esse dia nunca mais deixou de pensar na filha, que se tornou a sua obsessão; sentia-lhe a vózinha de choro chamando-a mãe; via-lhe o pequenino rosto, que idealisava duma pureza de linhas que só igualariam os anjos das pinturas rafaelescas; tremia com a ideia de que podia uma doença cruel arrebatá-la sem que a tivesse uma vez sequer acalentado nos braços.
Já não rezava como dantes, mas ainda passava no côro as melhores horas da sua vida, ajoelhando-se de preferencia diante duma grande Virgem que a lenda dos seus milagres tornava célebre em toda a cidade.
Dizia a crónica:--que essa imagem viera de Candia com destino a Espanha e fôra por milagre trazida á cidade. Recebida entre musica e fogos de artificio, foi levada em procissão e confiada ás freiras que tinham fama de mais virtudes entre todos os conventos da terra. De tal maneira se avigorou a fé nos milagres da formosa imagem que raro era o dia em que a irmã rodeira não recebia, de pobres criaturas sofredoras, bilhetes e cartas implorativas dirigidas á Virgem para sêrem colocadas sob a sua guarda. A crença no milagre, o último refugio dos fracos que não podem resistir á dôr, fizera da bela Senhora uma consoladora permanente como dispensadora desse beneficio inestimavel para a maior parte dos sêres humanos: a ilusão.
Tambem Manoela se afervorava na devoção pela milagrosa imagem; mas o motivo que a arrastava até aos seus pés e a prostrava agora em extasis era mais humano do que mistico. É que diante dessa Virgem, que era uma mulher que a escultura traçara com toda a verdade, sustentando nos braços um pequenino Jesus, filho humano e verdadeiro, que ella, humanamente mãe, acariciava com a doçura do seu olhar veludoso e a caricia dum sorriso angelical, sentia a sua alma pacificada, sentia-se irmanada no mesmo sentimento.
Essa mulher, mãe dum Deus, não a perturbava, porque era bem mulher, bem maternal, para compreender o sobresalto do seu coração, a saüdade que a sufocava por esse pequenino corpo adoravel, leitoso e macio, que apenas podera vêr e beijar á nascença. Aspirava pela caricia dos seus braços roliços e da sua boquinha perfumada; morria de paixão por esse entesinho dealbante, que lá longe ia crescendo e vivendo rudemente entre camponêses, que mal a saberiam amar.
IV
Num inverno humido e triste em que o claustro, a igreja e o palratorio chegaram a sofrer uma inundação que muito assustou a comunidade, Manoela tremia arrepiada sob o mantéo curto das recolhidas, e pensava com horror no frio que arroxearia as pequeninas mãos da filha que se aninharia ao canto da lareira fumarenta da miseravel casa onde se criava, por essa invernia inclemente que tudo abafava sob a nevada deslumbrante.
Sentia o pavôr da sua almasinha trémula, quando os lobos esfomeados rondassem o povoado, acossados da montanha pela neve, e as ovelhitas timidas se aconchegassem no curral balando tristemente.
Ah, ella não podia acostumar-se á ideia de que a filha, a sua querida filha, viveria assim eternamente sem conforto nem os mimos que para ella sonhava.
Já por vezes tinha tentado convencer a mãe, levá-la ao esquecimento e á tolerancia pelas suas humildes súplicas, mas nada até ahi a tinha demovido do seu proposito de conservar em misterio a existencia daquella criança que a seu vêr não era do mesmo sangue que das suas veias tinha passado ás da filha, e da filha á neta, na continuidade fatal da natureza.
Manoela insistia, pedia ainda; mas a força instintiva do amôr maternal, que a impulsionava agora, começava a fazê-la admitir a revolta contra esse poder que a natureza naturalmente afrouxa, porque assim o acha necessario para a conservação da especie, embora os homens o tenham querido fortalecer com as suas leis e costumes antinaturais.
Soror Angelica, como superiora e como amiga, continha-a e aconselhava-a a conformar-se com a vontade de Deus...
--«Depois,--dizia-lhe ella, um dia, aspirando deliciada a flôr perfumosa duma angelica que se abria num vaso colocado na varanda da sua céla de superiora, mimo gracioso duma das suas amigas da cidade--depois, Soror Manoela, de que lhe serve ir contra a vontade de sua mãe?!... Não é ella a senhora da casa?... Não é ella que tem só o poder do dinheiro?»
--«É a senhora, porque nós, os filhos, assim o queremos; mas não sabe, Madre Angelica, que temos direito a puxar pela herança de meu pai e exigirmos a nossa parte?... Por pouco que seja, dar-me-ha o bastante para viver com a minha filha...
Por menos que Manoela soubesse das leis que governam os homens, sabia o bastante, pelas relações mundanas entretidas entre o convento e a sociedade, para conhecer o direito que a tornava senhora da sua pessôa e da sua fortuna.
--«Revoltar-se, Soror Manoela, cuida que isso lhe daria felicidade?!... Santo Deus! Os pais representam na terra a autoridade divina. Triste daquelle que no pecado procura a coragem bastante para lhe fugir!...
--«No pecado?...--murmurou Manoela, limpando as lagrimas.--E não será maior pecado o meu se deixar morrer ao abandôno a minha filha, esse pobre anjo que não tem culpa nenhuma de têr sido chamada á vida?!...
--«Sim, é uma grande culpa que sua mãe levará ao tribunal supremo, mas quanto maior não seria a sua, minha pobre filha, se levasse a de rebeldia e de orgulho filial!... Não chore! Tenha resignação; se soubesse quantas lagrimas têm chorado outros que... que... que por fim se resignaram a não viver senão com a esperança na morte!...
E Soror Angelica desviou-se um pouco, abafando no lenço um soluço que não poude vencer.
--«Madre Angelica?!...--interrogou ansiosa a recolhida.--Porque chora? Tambem, como eu, sabe o que é sofrer o pêso duma vontade alheia, que esmaga o coração?
--«Ah, minha filha, se sei!... Não queira, Soror Manoela, sofrer como eu sofri... como nós sofremos... a tirania duma ordem, que despedaçou duas existencias!...
A freira, que tinha sido uma das últimas professas, não era ainda muito velha, mas o seu rosto, amargurado agora pela recordação, evocava um tal passado de dôres e sacrificios, que Manoela, inconscientemente, curvou-se para lhe beijar as mãos, que juntava num gesto de imploração extrema, numa prece em que ia toda a sua alma de mistica e de sofredora.
Depois, mais socegada, sentando-se junto da mêsa de trabalho, convidou a recolhida a sentar-se num pequeno escabelo e disse:
--«Soror Manoela, o que lhe vou dizer julgava-o para sempre sepultado no fundo da alma, tão esquecido e longinquo como se o lêra duma outra infeliz, num desses livros da nossa santa casa. Mas Deus Nosso Senhor inspirou-me a ideia de lho contar para que nesse exemplo Soror Manoela encontre força para resistir á tentação diabolica que a impele á revolta contra a vontade de sua mãe. Soror Manoela, houve numa terra linda do Alemtejo uma familia que juntava aos seus pergaminhos de fidalguia uma grande fortuna em terras e dinheiro. Era pai e filho no tempo em que... em que os conheci. O pai era o tipo acabado da nobreza altiva e autoritaria; o filho a bondade, a inteligencia e a docilidade numa só criatura humana reunidas. Em pequenino ficara orfão de mãe, entregue aos cuidados duma velha parenta que o educara e cuidara como um perfeito cavalheiro.
O seu gosto e a sua alegria estavam só nos livros que folheava sem descanso e na penna com que se servia para versejar... ás escondidas. Só uma pessôa sabia do seu _crime_, como elle lhe chamava, a rir...--e Soror Angelica sorriu tristemente para esse fantasma saudoso da mocidade.--Era uma pupila, do pai, orfã e morgada como elle. Oh, Soror Manoela, se soubesse como se compreendiam e se amavam aquellas duas almas que o destino parecia impelir uma para a outra!... Ambos novos, ambos sem um coração de mãe que lhe tivesse sido refugio e consolação, ambos ricos, ambos filhos unicos e ambos sentindo os mesmos prazeres, e tendo os mesmos gostos simples e modestos. Oh! deixassem-nos lêr as lindas historias de cavalaria que a velha prima alinhava com amôr na bibliotéca do seu quarto; deixassem que elle lhe recitasse as suas poesias emquanto ella matisava um bordado, sob a protéção carinhosa da vélhinha, que lhes queria como a filhos gemios do seu coração... e eram felizes. O que lhes faltava? Apenas a idade para que o pai consentisse no casamento, que via tambem com olhos complacentes.
--«E casaram?...--perguntou Manoela, seguindo com vivo interesse a linda historia de amôr que lhe rasava os olhos de lagrimas, a ella que do amôr tivera apenas uma fugaz e mentida visão.
--«Não, não casaram--respondeu a freira, sorrindo, apesar da dolorosa contráção da sua face marfinea.--Não lhe disse que o morgado era um homem ainda novo e belo, apesar dos seus quarenta anos? Pois era... Ao contrario do filho, montava com garbo um cavalo andaluz, que ninguem domaria como elle, só com a pressão dos joelhos e a firmeza da sua mão de rédea; sabia aprumar-se numa sala diante dos cavalheiros e curvar-se, como ninguem, num requinte de gentileza, diante das senhoras; jogava como um verdadeiro fidalgo, sem que ninguem podesse perceber-lhe no rosto se perdia ou ganhava... emfim era querido e procurado por todos e convidado com o maior empenho pelas familias aristocraticas da provincia e da capital. A quantas formosas raparigas não teria sorrido a ideia de o têrem por marido e quantos pais o não teriam desejado para genro? Elle ria-se dessas pretensões e estava bem convencido de que o seu destino estava traçado em vêr a felicidade do filho e receber os netos para herdeiros e continuadores do seu nome. Mas, um dia, o morgado viu uma senhora que se apoderou do seu coração, e desde logo deixou de se pertencer. Era uma mulher formosissima e igualmente rica, mas dum orgulho que nada havia que podesse igualar. Apaixonou-se tão loucamente que desde a hora em que a viu até que a morte o levou nunca mais teve vontade nem pensamento que não fôsse a della ou por ella inspirado. Apresentou-se como pretendente á mão da orgulhosa fidalga, e, apesar da sua idade e da concorrencia de muitos outros candidatos, foi aceite.
A ambiciosa calculava o valôr das fortunas reunidas e optara pela pretensão do morgado, que lhe dava margem a viver na opulencia e grandeza que sonhara. Mas... o morgado tinha um filho, o herdeiro da casa, o futuro morgado e senhor, que mais tarde, morto o pai, a esbulharia dos seus direitos de posse, nada deixando para os filhos que podesse vir a têr.
--«O que fez então?
--«Oh, a desventurada sabia bem conciliar as coisas; só não soube conciliar a felicidade propria com a dos outros!...
--«Casou com o filho?
--«Não, que horror! Pôs como condição para o casamento com o morgado que o filho... se fizesse padre.
--«Oh, que sacrilegio! E o morgado aceitou?!
--«Assim foi. Em vão o filho e a pupila lhe pediram, de joelhos, que os deixasse casar; em vão elle ofereceu a sua desistencia ao morgadio. Ricos seriam os dois--com o seu trabalho e a fortuna de... da pupila do pai. Tudo debalde! Elle foi implacavel, porque ella o foi tambem. A lei só lhe garantia a posse do morgadio para os filhos se o verdadeiro morgado fôsse frade ou padre...
--«Que desespero! Que mulher tão má! E depois, Madre Angelica?...
--«Depois... elle foi padre!
--«Oh!... E ella?
--«A noiva?
--«Sim, a noiva do rapaz.
--«Essa cuidou morrer de desgosto, mas deu-lhe o Senhor coragem para resistir á doença do corpo e á da alma e... professou tambem.
--«Freira? Resignada, resignados ambos?... Que almas eleitas, meu Deus? Mas... morreram?
--«Elle morreu. Dorme ha muito na paz de Deus. O seu corpo ficou, a seu pedido, no claustro do convento que fundou quando ficou herdeiro da fortuna...
--«Como?! Então sempre foi morgado?
--«Sim. A maior dôr foi essa!...
Soror Angelica encostou a cabeça á mão e as lagrimas escorregaram-lhe por entre os dedos, uma a uma.
--«Mas porque não fugiram? Para que se sujeitaram a essa lei odiosa?!
--«Porque elle era o pai. E os filhos não podem ir contra as suas ordens terminantes. Sugeitou-se, sacrificou-se, pela felicidade paterna. Mas... pouco tempo depois a nova morgada, apesar de rica, autoritaria e feliz, não poude resistir á fatalidade. Logo ao dar á luz o primeiro filho morreu, cheia de pavôr do castigo, consolada e amparada pelo homem que sacrificara ao seu orgulho e ambição. Mêses depois, o filhito que ficara o herdeiro da fortuna morreu tambem deixando o pai consumido de remorsos, envelhecido e triste, e herdeiro de toda a casa. E aqui tem porque, sendo padre o filho mais velho, sempre este ficou o infeliz herdeiro de toda essa fortuna maldita.
--«Então não acha, Madre Superiora, que foi absurda, que foi até um crime essa obediencia que destruiu duas vidas?
--«Soror Manoela--e a voz da freira tinha uma entoação grave, que nunca lhe conhecera, como se fôsse o éco apenas duma alma pairando muito alto--esse absurdo não deixou remorsos nas almas que se irmanavam e se amavam até ao infinito. Elle morreu sorrindo e perdoando; ella... vive na esperança duma vida melhor, sem que--graças a Deus!--tivesse sentido ainda a dôr amarga de ter causado o mal alheio.
--«Amarem-se dessa maneira, têrem diante de si a vida, e matarem por suas proprias mãos toda a esperança de felicidade, Senhor! Como tiveram coragem? Eram decerto duas almas santas--não se podem tomar como exemplo... E não posso, não posso seguir o seu conselho, Madre Superiora! Se os velhos são egoistas e impiedosos, os novos têm direito a reclamar a sua parte de felicidade na terra.