Quadros de historia portugueza
Chapter 6
Albuquerque, porém, não era sómente guerreiro. O homem que fundou e firmou o imperio portuguez do Oriente, subjugando Ormuz, Goa e Malaca; que planeou a ruina completa do poder mussulmano com o desviar o curso do Nilo e destruir a casa de Meca; que deixou, emfim, tal memoria entre os vencidos, que elles vinham depois diante do seu tumulo invocal-o, pedindo-lhe justiça, era uma d'essas intelligencias eminentes, que abraçam por inspirações subitas e fecundas todos os ramos do saber humano; era um desses nobres espiritos, que, perseguidos pela incredulidade, pela inveja, pelo terror, pelo odio, por todas as paixões mesquinhas dos que os não podem comprehender, conseguem, todavia, elevar-se radiantes acima de tudo quanto os cérca. Profundo conhecedor das boas doctrinas politicas não quiz confiar á sorte das batalhas o emprehendimento de novas conquistas antes de assentar o dominio de Goa em bases seguras e duradouras, começando assim a realisar o programma pacificador, que devia pôr magestoso remate á nossa grandeza na Asia. Admittiu, pois, vassallagem aos indigenas; prometteu segurança e protecção aos mercadores estrangeiros; recebeu embaixadas e homenagens da maior parte dos soberanos indiaticos; mandou cunhar moeda em nome de D. Manuel; melhorou e refez as fortificações; promoveu com dadivas e promessas casamentos entre os portuguezes e as mulheres da ilha; dirigiu de tal modo as cousas que dentro de pouco tempo esta povoação importantissima parecia que desde muitos annos estava sujeita ao imperio portuguez; e só depois de lançar á terra essas sementes de grandeza e de prosperidade é que continuou a cadeia de feitos de armas, que lhe mereceu dos adversarios o nome de leão dos mares, e que o eleva, no conceito dos historiadores, com Cesar e Bonaparte, á altura d'esses gigantes de acção, a que chamâmos heroes.
XII
Defensa de Mazagão
1562
Portugal, chegado ao fastigio do poder no reinado de D. Manuel, não podia escapar ás leis da humanidade e ás vicissitudes dos grandes imperios. A seiva da arvore social exhauria-se no bracejar immoderado, e nessa lucta temeraria contra nações poderosas e soberanos traiçoeiros, contra linguas, costumes, interesses, religiões e preconceitos diversissimos, o que admira, attenta a nossa pequenez e a extensão illimitada das conquistas, é que a estrella das nossas victorias não declinasse mais depressa do zenith para o occaso. Não foi, todavia, sem gloria essa mesma decadencia, porque os poucos portuguezes, que dispersos pelo mundo defendiam as colonias, animosos na desgraça como na fortuna, só as cederam depois de porfiada lucta, e diante de adversarios contra os quaes não vale audacia nem esforço; acabando de se gastar mais por fomes de assedios que por armas de peleja, e buscando honroso tumulo nos rotos pannos de muros das desmanteladas fortalezas.
Mas não é da prolongada agonia do imperio portuguez na Asia e na Africa, que por ora temos de tratar; chamam-nos factos e successos realisados n'uma épocha em que ainda a nação se julgava cheia de vitalidade e vigor, posto que os primeiros symptomas de decrepidez já fatalmente se tivessem apresentado na perda de Cabo Aguer, e sobretudo no desamparo de Safim, Azamor, Arzilla e Alcacer em tempo de D. João III.
Sabendo o scherif Muley-Abdalá, rei de Marrocos, de Fez, de Terudante, de Suz, e de muitos reinos e provincias d'Africa, que a fortaleza de Mazagão estava mal provida de artilheria e munições de guerra, e guardada apenas por poucos arcabuseiros, determinou conquistal-a. Era nesse tempo Mazagão um ponto verdadeiramente importante. Situada nas praias do Atlantico, o mar banhava-lhe os muros, deixando-lhe nos fossos sufficiente altura de agua, e tornando-lhe facil receber da metropole soldados, viveres e toda a especie de soccorros. Podia, pois, considerar-se excellente base de operações, e o padrasto mais de receiar para a visinha cidade de Marrocos.
Com estas circumstancias as tentativas dos sarracenos para se apoderarem da fortaleza, tentativas frequentemente repetidas e sempre mallogradas, eram faceis de explicar. Desta feita, porém, parecia certa a victoria, e por isso o scherif encarregou a seu filho Muley-Hamet, moço brioso e valente, o mando de numerosas tropas, que um historiador italiano desse tempo avalia em duzentos mil homens, mas que, conforme calculam escriptores tambem coevos, a poucos mais poderiam subir de cento e cincoenta mil. Fosse como fosse, era espantoso o numero em comparação com o dos portuguezes, e havia sobretudo entre essa gente, em parte collecticia e desordenada, muitos cavalleiros e infantes habituados á guerra e á disciplina, e habeis capitães encanecidos nos cargos da milicia e no tumulto dos combates.
Acampado o exercito a curta distancia de Mazagão, começaram os trabalhos do cerco, e com tal actividade e enthusiasmo, que em poucos dias se elevou defronte da fortaleza uma grossa trincheira, onde os mouros assentaram as baterias com grave damno dos cercados. Estes por seu lado não estavam ociosos, e Rui de Sousa de Carvalho, capitão mór na ausencia de seu irmão Alvaro de Carvalho, accudia com diligencia a remediar o que faltava na fortificação, mandando ao mesmo tempo jogar a artilheria contra os trabalhadores do campo, e determinando por vezes sortidas e escaramuças, em que o impeto dos portuguezes, repentino e devastador, conseguia sempre assombrar a turba dos inimigos.
Soou depressa no reino a noticia do cerco, e desde logo muitos cavalleiros e soldados quizeram participar dos riscos da empreza. Posto que os habitos de luxo e as riquezas adquiridas na Asia tivessem de certo modo amortecido as virtudes politicas dos nossos maiores, não estava o caracter portuguez ainda gasto, como moeda velha, cuja marca o roçar de muitos annos houvesse já extincto; e o ardor de patriotismo, que então se revelou, recorda os actos mais heroicos da nossa edade média. Moços illustres, a quem os brios sobrepujavam os annos, embarcavam-se furtivamente; fidalgos velhos, exaltados por bizarria sublime, emprehendiam a jornada de que aliás estavam isentos pela edade e longos serviços; muitos imploravam como mercê e recompensa affrontarem os combates e a morte; outros, reputando em pouco o sacrificio da vida, levavam ainda á sua custa navios cheios de soldadesca e munições. Havia como que uma embriaguez de enthusiasmo, o esforço convertêra-se em delirio, e o espirito religioso associado á cubiça de renome abrazava com tal intensidade os animos, que foi preciso que a rainha D. Catherina, regente na menoridade de seu neto D. Sebastião, prohibisse com penas severas novos embarques, e desse terminantes ordens para que não partissem mais navios.
Entretanto os mouros preparavam-se para o assalto, disparando a artilheria contra a fortalesa, e procurando ao mesmo tempo cegar o fosso com faxina; e supposto que os tiros, os arremeços e as materias escandecentes, que sem tregoa choviam das ameias, ferissem e inutilisassem muitos dos que se empregavam n'aquelle trabalho, venceu, afinal, a constancia dos sarracenos, que conseguiram não só entulhar a cava, senão levantar proximo á muralha um grande terrapleno, que emparelhou com a maior altura do baluarte, a ponto que assaltantes e defensores pelejavam corpo a corpo, braço contra braço, á espada e lança varada, como em desafio ou batalha campal. Nem assim, porém, poderam os mouros entrar na fortaleza. Alvaro de Carvalho, que fôra dos primeiros que chegára do reino, combatia á frente dos seus soldados, onde mais acceso ia o fervor da batalha, sem todavia esquecer o officio de capitão; e o nobre exemplo e a emulação de esforço tornavam invenciveis os portuguezes.
Frustradas as tentativas de assalto, começaram os cercadores a minar o principal baluarte; presentido o perigo pelos de dentro, procedeu-se logo á contramina; e desta maneira as duas estradas subterraneas desembocaram uma na outra, e os sitiadores topando ahi com os sitiados travaram renhida lucta, em que por algum tempo se ouviu sómente o tinir das espadas e alfanges, o bater das alavancas e alviões, e rapidos gemidos de agonia abafados pelo praguejar dos que pelejavam. Quem quer que, todavia, olhasse para os dous grupos, poderia facilmente prever a qual delles pertenceria a victoria. De um lado os mussulmanos, transbordando de colera por verem descoberto o ardil de que se tinham valido, mais cuidavam de ferir que de guardar-se; do outro os christãos, aproveitando a estreiteza das galerias, que de algum modo neutralisava a desproporção de forças, combatiam com a serenidade e confiança de quem evita o perigo sem o temer. Era a lucta do furor e da intelligencia; indubitavel, pois, o desfecho. Não conseguindo quebrar aquella muralha de homens, ligados pela cadeia fortissima da disciplina e do renome, os sarracenos recuaram desesperados; e os portuguezes, ficando senhores da obra, utilisaram-n'a desde então em damno dos cercadores.
Seria longo descrever todas as scenas desta defensão heroica, lances e episodios pasmosos, que a muitos parecerão hoje fabulas sonhadas. Baste saber-se que durante quasi dous mezes os defensores da fortaleza, combatendo peito a peito nos adarves, sustentaram o apertado cerco, e detiveram no repetido acommettimento os innumeraveis assaltantes. Estes, quebrados os animos pelas difficuldades imprevistas, fallavam já de levantar o sitio, mas Muley-Hamet, que na sua soberba tinha crido facil o triumpho, quiz proseguir na empreza, e no dia 1 de maio deram os mouros ultimo assalto.
Durou elle largas horas, mais ardido e sanguinolento, mais bravo, mais atroz, mais pavoroso do que nenhum outro tinha sido. Ao principio diante dos sitiados, firmes e immoveis como rochedos, cahiram e despedaçaram-se os esforços successivos dos esquadrões da mourisma; depois as duas hostes, revolvendo-se, enlaçando-se, confundindo-se como as ondas em sorvedouro profundo, formaram quasi um grupo unico, ennovelado, convulso, monstruoso; emfim, já o sol se inclinava para o occaso, e ainda a victoria estava indecisa. Assaltantes e defensores, julgando-se instrumentos de missão divina, tinham um só pensamento, uma esperança, uma vontade, um intuito, o da gloria da sua crença se triumphassem, o da palma do martyrio se morressem.
A noite veiu pôr termo ao combate e juntamente ao cerco. Baldadas todas as tentativas para submetter a fortaleza, o desalento apoderou-se dos sarracenos, e Muley-Hamet, sem tentar mais fortuna nem feito de importancia, levantou o campo d'ahi a poucos dias.
Desde então até que o poderoso ministro de el-rei D. José a cedeu por tractado aos marroquinos, foi sempre Mazagão o ponto a que se dirigiram as correrias, os acommettimentos, os asfaltos da flor das tropas muslemicas; mas o nome dos defensores que luctaram como heroes, e em frente de cuja firmeza expirou constantemente a furia dos adversarios, jazem ignorados ou esquecidos, porque a guerra que durante tres seculos sustentámos em Africa, theatro onde até mais tarde se patenteou nobre e desinteressado o esforço portuguez, não teve Barros nem Coutos que a escrevessem.
XIII
Desastre de Alcacer-quibir.--Reinado do cardeal D. Henrique.
1578 a 1580
As recordações da patria são como as memorias de familia; tem o quer que é saudoso e sancto, que occupa suavemente as largas horas da solidão, que attenua muitas dores do espirito, que povoa a alma de mais entes para amarmos, e que engrandece e vigora o sentimento de nacionalidade, suscitando, com as virtudes e façanhas dos nossos antepassados, o altivo e nobre desejo de imital-os. Ás vezes, porém, esse fallar de avós comprime-nos de amargura o coração, quando nos commemora certas epochas, em que a patria, ludibriada e abatida, viu desfazerem-se uma apoz outra todas as suas grandezas; epochas tanto mais desastrosas, quanto a degeneração e ruina, que assignalam, contrasta com o poder e fortaleza de outros tempos. A historia portugueza, aliás tão formosa e invejada, não está isenta dessas paginas de luto, e uma dellas, e por certo a mais triste, é a que lembra os reinados immediatamente anteriores á dominação castelhana, espaço de poucos annos que bastou ás glorias de Portugal para descerem do apogeo ao occaso.
O reinado de D. Sebastião é notavel por um facto unico, a derrota de Alcacer. O projecto de submetter as terras da Berberia, berço das nossas conquistas de alem-mar, não era tão louco como a desgraça o apresentou, e devia encontrar favor na vontade popular, porque assentava nas tradições e rancores de uma guerra de seculos, e na conveniencia incontestavel de se alargar o territorio portuguez pelas fronteiras costas africanas. A nação, comtudo, sentia-se cançada e pobre para a ousada tentativa, e ainda que assim não fosse, invalidavam-lhe as probabilidades de victoria, por um lado a cega vaidade do monarcha, por outro a tenebrosa politica de D. Philippe II, cuja desregrada cubiça contava por alliadas uma astucia e actividade inexcediveis.
Em tal estado de cousas, esmorecidas as grandes virtudes guerreiras da edade média, julgou-se necessario que o monarcha, antes de se aventurar longe da patria á sorte das batalhas, aguardasse que a febre da discordia consumisse politica e moralmente as forças dos sarracenos; mas até nisso foram mal logrados todos os bons planos de fortuna, porque o imperio de Marrocos, apesar das luctas intestinas, e das perturbações e males causados pelas oppostas parcialidades, não decahira a tal ponto, que não podesse resistir com vantagem a uma invasão estrangeira. Muley-Moluk, homem de extraordinarios talentos militares e politicos, e de um denodo a que a escola do infortunio associára a prudencia, tinha derrubado do throno seu sobrinho Muley-Hamet, que, frustradas todas as tentativas para recuperar o poder, implorára por fim o soccorro dos portuguezes. Essa alliança, porém, convertêra uma contenda domestica n'uma lucta de religião e de liberdade, guerra sancta que dava aos soldados africanos a força que resulta sempre do fanatismo religioso e do amor da independencia, natural em todos os povos; e Muley-Moluk fizera-se depressa estimado da maior parte dos mussulmanos, não tanto pela firmeza com que restabelecêra a ordem e administração do estado, como pela repugnancia que, conforme é facil de suppôr, excitára nas multidões a liga do rei desthronisado e dos seus parciaes com um povo inconciliavelmente inimigo por antagonismo de crenças e de raças.
Eram 4 de agosto de 1578 quando o moço rei portuguez, despresando o voto cauteloso dos principaes capitães, determinou romper a peleja contra o poderoso exercito dos mouros. Ao principio conseguiram os nossos manifesta superioridade. A cavallaria que acompanhava o rei, intrépida posto que pouco numerosa, e o terço de aventureiros romperam e desbarataram, logo do primeiro impeto, a vanguarda dos adversarios, que, incapazes de sustentar o violento embate e de resistir frente a frente, se dispersaram, fugindo, pela extensão da planicie; Muley-Moluk, buscando com heroico esforço reanimar os seus, cahira moribundo nos braços dos alcaides; e os clamores de alegria com que os christãos se arremessavam á refrega, como se o dar e receber a morte fosse o prazer de um torneio, diffundiam o temor no centro dos infieis, que mal obstariam á furia da torrente, se o grosso das nossas tropas, aproveitando o ensejo, se empenhasse com egual denodo n'aquelle repto tremendo. Mas em vez d'isso uma voz de desalento, produzindo nos cavalleiros e peões um daquelles terrores panicos, de que não faltam exemplos nem até entre os soldados que uma severa disciplina prepára para a victoria, mudou n'um instante o aspecto da batalha. Os arabes, conhecendo a desordem no arrayal contrario, e cobrando novos brios com o auxilio das forças de reserva, voltaram a disputar o terreno, que quasi haviam cedido sem combate, e em breve o sangue europeu regou abundantemente os aridos campos de Alcacer.
Então, quando as fileiras dos velhos soldados de Castella, da Italia e da Alemanha já debalde tentavam ordenar-se, e era grande a confusão e o susto nos terços dos portuguezes, precipitaram-se contra o nosso exercito as ondas dos cavalleiros mahometanos, e apoz elles a turba dos alarves, que do alto dos visinhos montes observavam o resultado da peleja, para baixarem, como aves carniceiras, sobre os restos dos vencidos. Desde esse momento os signaes de derrota tornaram-se dolorosamente certos para os nossos, que, todavia, ainda combateram só com o fito na desesperada empreza de soccorrerem o soberano, facilitado-lhe os meios de retirar-se a salvo.
D. Sebastião, porém, nascera com animo altivo e coração generoso. Os mimos com que fôra tratado desde o berço; a educação acanhada que recebêra na adolescencia; as maximas de castidade que o privaram dos affectos puros e sanctos de familia, affectos que suavisam os caracteres mais duros; as suggestões dos validos, que, despertando-lhe pensamentos ambiciosos, lhe devoravam o socego, a reflexão e a mocidade; e finalmente, como é certo, as intrigas e mesquinhos enredos da côrte haviam excitado as más paixões, que fermentaram terrivelmente no seu coração de mancebo, mas não tinham de todo prevertido os nobres sentimentos da sua alma. Vendo a batalha perdida, não quiz sobreviver aos seus, e, arrojando-se como leão onde quer que o combate era mais acceso, recusou sempre com altivez o entregar-se ou fugir. Afinal cahiu ou desappareceu no meio da multidão, e com a sua falta expirou o vigor nos peitos mais esforçados. O resto foi uma larga carnificina com que os mouros, senhores do campo, saudaram o triumpho, humilhando a intrepidez e constancia dos cavalleiros e homens de armas portuguezes.
Chegada a Lisboa a noticia do tragico desfecho da jornada de Africa, e duvidosos os animos sobre o destino do monarcha, foi entregue o governo do reino ao cardeal D. Henrique, velho insensato e timido, tão sequioso como incapaz do poder; e Portugal despenhou-se então sem amparo na mais afflictiva phase da sua longa existencia. As virtudes militares e politicas de nossos maiores, e sobretudo as antigas leis do paiz, em completa harmonia com as suas necessidades e indole, haviam-nos até esse tempo conservado livres do jugo de Castella, cuja tenaz ambição nunca deixára de olhar para esta pequena faixa de terra como para uma provincia rebellada; mas o estabelecimento do regimen absoluto sobre as ruinas da monarchia liberal da edade média; o espirito de intolerancia, que, perseguindo e expulsando os judeus, privou todos os dominios portuguezes do trabalho, do conselho e dos capitaes de uma raça intelligente e activa; a sede do ouro, que fez desestimar a agricultura e industria do solo natal pelo engôdo das faceis riquezas que se adquiriam na India e no Brasil; os desacertos economicos e administrativos do governo da metropole, e dos seus delegados na Asia, na Africa e na America; e por fim a ultima catastrophe nos campos de Alcacer-quibir tinham produzido a irremediavel e extrema decadencia, que nos obrigou a curvar o collo ao despotismo estranho.
Durante o curto reinado do cardeal D. Henrique, os animos estiveram sempre alvoroçados com os receios, cada vez maiores, ácerca da successão. O prior do Crato, o duque de Bragança e D. Philippe II eram os pretensores que contavam maior numero de probabilidades, mas nenhum dos dous portuguezes possuia as forças necessarias para tomar sobre os hombros a empreza de D. João I, em quanto que o rei de Hespanha, dotado de caracter energico e de uma perfidia sem limites, tinha todo o poderio de vastissimos dominios para combater e debellar as resistencias que encontrasse. Essas não foram longas nem obstinadas.
O velho cardeal rei, pouco favoravel no principio a D. Philippe II, em breve mudou de resolução, compellido não menos por apprehensões pusillanimes, do que pela cubiça e pelo odio, que foram as paixões permanentes dos largos annos da sua vida. A principal aristocracia, antepondo os calculos interesseiros ao nome illustre de seus avós e á propria dignidade, não duvidou pactuar com os procuradores de Castella, que, á força de ouro e promessas, arrastaram a nacionalidade portugueza ao mercado das traições infames, dos enredos miseraveis, das torpes vinganças, das abjecções ignavas. O povo, irreflectido e variavel como o mar, que ora freme colerico e se despedaça em vagalhões gigantes, ora se espreguiça brincando com os flocos de espuma que lhe saltam no dorso; o povo, dilacerado pela fome, pela peste e pelos desastres da guerra, não podia senão murmurar, porque os seus soldados, os seus capitães, os seus jurisconsultos, os seus magistrados, os seus bispos, os seus principes, tudo quanto no reino havia de nobre e rico por illustração e por linhagem, ou tinha já desertado para o partido estrangeiro, ou se conservava indeciso não obstante os riscos da patria. Finalmente a persuasão commum de que a paz, individual e domestica, só poderia conseguir-se com o sacrificio completo da independencia politica tirava ás almas mais robustas aquella tenacidade fria, aquella firmeza de vontade, que não mede os obstaculos e para a qual não ha impossiveis.
Debalde nas côrtes, que se reuniram primeiro em Lisboa e depois em Almeirim, côrtes que já eram apenas pallido reflexo de representação nacional, alguns homens intrepidos e probos protestaram eloquentemente contra a imbecilidade e corrupção dos poderes publicos; debalde a voz auctorisada de Phebo Moniz, alto exemplo de virtudes publicas no meio da prostituição geral, instou com os procuradores dos povos e com o moribundo monarcha para que não se entregasse o reino ao dominio estrangeiro, e se respondesse com energia ás ameaças de D. Philippe II; debalde, emfim, a plebe, que é a ultima onde se desvanece o aferro á terra da patria, dava visiveis signaes de supportar de máo grado a ruina que lhe preparavam; a força moral da nação tinha desapparecido, e a força material, que aliás é sempre illusoria quando falta a unidade do pensamento e o ardor do enthusiasmo, havia-se dissipado, a pouco e pouco, na extensão desmedida das conquistas, até acabar de todo nas planicies d'Africa.
Assim, apenas fallecido D. Henrique (31 de janeiro de 1580), os governadores do reino, nomeados anteriormente, dissolveram as côrtes, receiando que podessem ser o centro onde se alimentasse energica resistencia aos interesses de Castella; e a acceitação do filho de Carlos V para rei de Portugal foi definitivamente resolvida. Pouco depois um exercito de vinte mil homens, capitaneados pelo duque de Alva, o sinistro _pacificador_ dos Paizes Baixos, entrava no Alemtejo para lavrar com a espada o epitaphio das liberdades portuguezas; e o monarcha odioso, denominado o demonio do Meio-Dia n'uma epocha em que os progressos da civilisação ainda não tinham diffundido a brandura do tracto entre os homens, conseguiu tomar posse do seu novo reino, tendo só que vencer a fraca opposição de uma parte do povo, e desses raros cavalleiros que, no meio de gente gasta e prevertida, conservaram sempre os nobres sentimentos de integridade e patriotismo.
NOTAS
Pag. 9
«Fundação da monarchia»
Neste quadro e em parte do seguinte tentámos resumir em breves paginas o que está admiravelmente exposto nos tomos 1.º e 2.º da Historia de Portugal, do sr. A. Herculano. Sem este facho brilhantissimo ser-nos-hia decerto impossivel sahir da confusão e obscuridade, em que se involvem os primeiros tempos da monarchia.
Pag. 21
«Penetrando até o coração do Al-Gharb»
Em quatro grandes divisões, conforme a geographia arabe, se repartia a Peninsula: Al-Djuf, o norte; Al-Kiblah, o meio dia; Al-Sharkiah, o oriente; Al-Gharb, o occidente. Com este nome, por isso, se designava n'aquelle tempo a vasta extensão de territorio, que comprehende hoje as provincias do Alemtejo a Algarve, e que, juntamente com uma porção da Extremadura hespanhola e acaso da Andaluzia, formava os estados dos emires de Badajoz.
Pag. 30
«Nos herdamentos, nas maladias, nos páramos»