Quadros de historia portugueza

Chapter 4

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Logo que falleceu D. Affonso V, o primeiro acto de D. João II foi a convocação das côrtes em Evora, onde lhe prestaram homenagem os senhores, villas e cidades do reino. Ahi começaram os golpes profundos na propriedade, na jurisdicção e em toda a especie de regalias das classes privilegiadas; reformas cujo fim capital era abater a nobreza e em parte o clero, invalidando-lhes duas poderosas armas, a que dá a riqueza e a que provém da opinião. Exigiu-se, pois, dos alcaides e donatarios nova fórma de menagem, chamaram-se a exame as cartas de mercês e doações, cerceou-se muito a jurisdicção criminal, que os fidalgos exerciam em suas terras quasi sem peias nem termo, e ampliou-se o direito de appellação para as justiças reaes.

Os nobres não souberam encobrir o descontentamento. Educados na guerra e na côrte de D. Affonso V, habituados a illimitado poder dentro dos seus coutos e honras, unidos, em fim, pela communidade de interesses e de perigos, de boa e de má fortuna, offenderam-se de que o rei ousasse tomar-lhes contas das violencias de um valimento, ao qual a impunidade de largos annos quasi dera fundamento legitimo. D. Fernando, duque de Bragança e de Guimarães, marquez de Villa Viçosa, conde de Ourem, de Barcellos, de Arrayolos, de Neiva e de Penafiel, senhor de trinta villas, e por nobreza e possessões o principe mais illustre das Hespanhas, foi escolhido como chefe dos descontentes, e isto bastou para o seu tragico fim. As expressões arrogantes dos fidalgos contra a quebra dos seus fóros, os alvitres suggeridos a alguns procuradores do povo, as vãs ameaças, os secretos conluios, e até os actos inoffensivos e indifferentes, tudo foi traduzido, decifrado, envenenado e exposto com as côres necessarias para que D. João II podesse, de um só lance, satisfazer os aggravos de rei e as vinganças de homem. Prevenido a tempo dos riscos que o cercavam, o duque de Bragança não soube ou não quiz evital-os; e em vez de se refugiar em Castella, asylo fiel contra a cólera do monarcha, dirigiu-se á côrte, que então estanciava em Evora, e ahi foi recebido com taes demonstrações de contentamento e affecto, que chegou a julgar-se tão seguro ao lado do seu implacavel inimigo, como no palacio de Villa Viçosa no gremio dos seus parciaes.

Não tardou, todavia, que a confiança se lhe convertesse em arrependimento, e que ao bater a hora da desgraça, conhecesse por dolorosa experiencia que um coração como o do monarcha, abysmo insondavel de perversidade e hypocrisia, podia disfarçar odios, mas não sabia esquecel-os. Indo n'um dia, ao cahir da tarde, despedir-se de D. João II para voltar ás suas terras, conduziu-o este a uma casa apartada, onde, certo de que não vibraria já em vão o golpe, lhe disse que convinha ficasse preso até se averiguarem as suspeitas do crime de rebellião que lhe imputavam. Vendo o perigo que corria o duque, muitos fidalgos offereceram dar a el-rei suas alcaidarias em refens pelo nobre vassallo; e porque, ao tempo em que essas propostas foram feitas, ainda D. João II receiava as consequencias do terrivel lance que tentára, quasi conveiu em acceital-as. Apenas soube, porém, que as comarcas, villas e fortalezas que mandára cobrar tinham sido entregues, e que de Castella não havia a temer clamores importunos, mandou logo que o caso se visse e determinasse por justiça. Assim se exprimem os dous panegyristas do principe perfeito, Ruy de Pina e Garcia de Resende, pobres homens cujo espirito cortezão nem sempre soube esconder a tenebrosa astucia e a suprema perversão moral do heroe dos seus fastos.

A justiça fez-se vingança, e a execução significou sómente um assassinio judicial, fria e solemnemente resolvido. Accusado por testemunhas vis e por inimigos inexoraveis, julgado tumultuariamente por juizes não seus pares, aos quaes a presença do rei coagia além d'isso o voto, o amigo e conselheiro de D. Affonso V foi condemnado sem o ouvirem, e entregou a vida ao cutello do algoz, no meio dos brados e doestos de uma multidão sem piedade nem pudor, que de toda a parte corrêra frenetica para assistir ao cruento espectaculo. N'esse mesmo dia (20 de junho de 1483), e depois de ter ficado exposto o cadaver por espaço de uma hora, os conegos da sé de Evora sepultaram no mosteiro de S. Domingos os restos do homem, que fôra por muito tempo talvez o arbitro do reino.

Á conjuração, por ventura chimerica, succedeu outra verdadeira. O desgosto dos grandes, durante algum tempo sopeado pelo temor ou pela esperança, convertêra-se em odio profundo. Decididos a vingarem a morte do duque de Bragança, e a restabelecerem os fóros e immunidades da nobreza, accordaram que o meio mais adequado aos seus intentos era assassinarem o monarcha. O duque de Vizeu, o bispo de Evora, seu irmão D. Fernando de Menezes, Fernão da Silveira, D. Gutterres Coutinho, D. Alvaro e D. Pedro de Athaide, o conde de Penamacor e Pedro de Albuquerque eram os cabeças da insurreição; o bispo de Evora, porém, é que, como a aranha no centro da têa, urdia e combinava os planos. D'ahi lhes proveiu a ruina, porque o incauto prelado não soube prever a traição, e foi justamente essa falta, que destruiu todos os seus calculos. Fiado na apparente amisade de Diogo Tinoco, cuja irmã seduzira, revellou tudo a esse homem, não se lembrando de que lhe dava assim ensejo de vingar offensas, que não podia ter esquecido; e o aviltado cavalleiro preveniu logo Antão de Faria, camareiro do rei e seu privado, e, encontrando-se depois com o proprio D. João II no convento de S. Francisco em Setubal, relatou-lhe circumstanciadamente os projectos dos conspiradores.

Agradecendo a Tinoco com dadivas e promessas o serviço que prestára, o rei recommendou-lhe inviolavel segredo, e continuou, como se tudo ignorasse, abalançando-se indefenso no meio dos conjurados, oppondo dissimulação a dissimulação, e enganando com fingido affecto aquelles de quem mais se temia. Era a calmaria que antecede a procella. No seio das trevas o filho de D. Affonso V ia aperfeiçoando os planos de vingança, e por isso aguardava sem impaciencia o dia propicio em que podesse colher no fôjo os seus mortaes inimigos.

Este finalmente chegou. Depois de terem por vezes tentado em vão assassinar o rei, os fidalgos assentaram esperal-o em Setubal, ao desembarcar vindo de Alcacer, e realisarem então o seu intento. D. João II, porém, que lhe presentia os movimentos, fez o caminho da Landeira por terra, bem acompanhado pelos ginetes de Fernão Martins, e pelos besteiros e espingardeiros da guarda; e chegando a Setubal no dia 22 de agosto de 1484, mandou logo na manhã seguinte chamar o duque de Vizeu, que pousava em Palmella. Resolvêra, emfim, tirar a mascara, e a explosão devia ser tanto mais terrivel, quanto fôra duradoura e profunda a necessidade de conservar latente, debaixo de superficie de gelo, o ardor de odio intenso e concentrado.

Entrando o duque no palacio ao anoitecer, chamou-o el-rei ao aposento que lhe servia de guarda-roupa, e ahi, accusando-o de traição, o matou ás punhaladas, na presença de alguns cavalleiros, que para assistirem a esse acto tinham sido convocados. Na manhã seguinte via-se sobre um estrado, no centro da egreja matriz da villa, o cadaver do duque de Vizeu, com o rosto descoberto e dez feridas de punhal. D'ahi a poucos dias o bispo de Evora, preso na camara da rainha, morria envenenado no castello de Palmella; D. Fernando de Menezes, D. Pedro de Athaide e Pedro de Albuquerque eram degollados na praça publica; e D. Gutterres Coutinho expirava ás mãos do carrasco no fundo de um calabouço. Emfim, passados cinco annos, Fernão da Silveira, a quem a nobre dedicação de um amigo salvára do patibulo, cahia assassinado em França por mandado do rei de Portugal.

A negrura de semelhante proceder é evidente; e se as cousas da terra podessem despertar o profundo somno dos mortos, os cadaveres d'esses homens deveriam muitas vezes apparecer á consciencia de D. João II, tornando ainda mais penosas as desgraças, que lhe enlutaram o coração durante os restantes annos do seu curto reinado.

VIII

Primeira viagem de Vasco da Gama á India

1497 a 1499

Julgam profundos historiadores que os descobrimentos além do cabo Bojador, posto que encetassem para o reino uma grande epocha de gloria e prosperidade, foram talvez a causa capital da rapida e angustiosa decadencia a que chegámos nos fins do seculo XVI. Entretanto não seremos nós que condemnaremos esse espirito aventuroso e intrepido, que levou os nossos marinheiros e soldados a practicarem tantos feitos assombrosos de ousadia, de abnegação, de patriotismo. Das victorias que alcançaram já nem existem tropheus, das nações que se prostraram ao seu esforço indomavel são outros hoje os senhores, do respeito e temor em que os tinha o mundo apenas resta a lembrança, e todavia a maravilhosa narração das façanhas d'aquellas eras, das homericas batalhas de poucos homens contra exercitos, das expedições e conquistas que ergueram uma nação pequena e pobre ao fastigio da soberania e da opulencia, ainda nos alvoroça o coração de enthusiasmo e amor patrio, não obstante as preoccupações prosaicas e calculadoras do seculo em que vivemos.

O descobrimento do caminho maritimo para a India é, sobretudo, um d'aquelles factos extraordinarios, de que o espirito mais penetrante mal póde medir a extensão. Não fallando já dos paizes e regiões incognitas que acrescentámos á communhão europea, do aperfeiçoamento da navegação e do commercio, do novo e immenso mercado que abrimos a todas as industrias, do ascendente da classe média que eficazmente fomentámos, basta dizer-se que ás victorias dos portuguezes na India deve talvez a Europa não ter succumbido ao jugo mahometano. Ao passo que nós e os castelhanos nos preparávamos para dilatar os ambitos do mundo conhecido, hastear por toda a parte a cruz, e estabelecer em redor d'ella uma transformação social; ao passo que as outras nações christãs, agitadas por muitas e diversas causas, se entretinham em luctas feudaes de castello com castello, e de paiz com paiz; os mussulmanos iam crescendo em poder, as suas dynastias radicavam-se desde o Indostão até o Mediterraneo, os seus navios sulcavam todos os mares, o monopolio do commercio asiatico constituia os povos em vassallagem dos seus mercados, e os seus exercitos, animados pelo amor da guerra e pelo fanatismo da crença, ameaçavam de nova invasão os estados da christandade. Veneza, a rainha do Adriatico, ousava a custo contrastar em parte a influencia de Constantinopla, mas esse obstaculo depressa desappareceria se as conquistas dos portuguezes não viessem produzir no mundo completa metamorphose mercantil e politica. Malaca e Ormuz, os dous principaes emporios das producções indianas, abriram seus portos sómente aos novos dominadores; as armadas turcas e as do Achem e Jaoa, os exercitos de Cambaya e Cananor, as forças do Samorim, dos reis de Dekan, do Hidalcão e do soldão do Egypto não conseguiram arrancar das nossas mãos o imperio da Asia; e as nações mussulmanas, perdido o principal elemento da sua força, foram-se desmembrando, fundindo, esvaecendo, e eil-as as que restam, fracas e decrepitas, alongando humildemente os olhos para o occidente, na esperança de que os filhos do christianismo estendam um braço que ampare os representantes e sectarios do propheta.

Foi essa a epocha da nossa gloria mais esplendida. Quem examinasse então um mappa cosmographico, desde a linha que distingue a Europa e a Africa até ao cabo da Boa Esperança, quasi não encontraria ilha, promontorio, costa, golpho ou enseada, onde a fama do nome portuguez não guardasse por si só a conquista; e montando o cabo veria tremular o pendão das quinas nos pontos mais importantes do Oriente, e ainda nos remotos archipelagos que depois se deviam chamar a Oceania. Antes d'essa epocha, porém, houve uma lucta, que durou perto de um seculo, e que votou ás paginas da historia universal e ao applauso da posteridade a memoria d'esses homens valorosos, que alteraram os destinos do mundo em proveito do christianismo, da civilisação e da politica. Os descobrimentos de Gonçalves Zarco e Tristão Vaz, de Gil Annes, de Nuno Tristão, de Gonçalo de Cintra, de Lançarote, de Gonçalo Velho, de Antonio de Nolle, de João de Santarem, de Pedro d'Escobar, de Diogo da Azambuja, de Diogo Cão, de Bartholomeu Dias e João Infante foram como que os preliminares dos grandes commettimentos. D. Manuel, subindo ao throno no anno de 1495, resolveu continuar a empreza de seus antecessores, porfia magnanima que tantos sacrificios tinha já custado. Ao infante D. Henrique haviam-se devido os primeiros trabalhos e tentativas que prepararam o descobrimento da India; D. João II fundára na Africa o imperio portuguez, e deixára ao seu successor abundantes materiaes para o estabelecer na Asia; ao monarcha venturoso estava destinada a missão de traduzir n'um facto estupendo este vasto projecto.

Vigorosa foi, comtudo, a resistencia que D. Manuel encontrou nos seus conselheiros. Reprovavam estes o descobrimento como origem infallivel de ruina, lembrando os riscos de mar e terra, o acanhamento do reino e de seus recursos, a vastidão e difficuldade da conquista, e propondo que a vida energica da metropole se applicasse exclusivamente a explorar as possessões adquiridas, o que aliás era já difficil encargo para um povo tão pouco numeroso. Mas nem duvidas nem suggestões abalaram a vontade do monarcha, que, na febre do enthusiasmo que o incitava á tentativa, como que antevia a aurora do triumpho. Encarregou, pois, de executar a empreza a Vasco da Gama, filho do alcaide mór da villa de Sines, Estevão da Gama, e, entregando-lhe em acto publico a bandeira, determinou a partida.

Prestes a armada, que se compunha de duas naus, _S. Gabriel_ e _S. Raphael_, da caravella _Berrio_, e de um navio de mantimentos, embarcaram-se em Restello todos os que deviam ir na expedição, e que seriam cento e sessenta homens entre marinheiros e soldados. Magestoso espectaculo offereceram então aquellas praias. Era o dia 8 de julho de 1497. O sol esplendido banhava de luz o Tejo, as suas margens e a pobre ermida da Senhora da Invocação de Belem, ermida que o infante D. Henrique mandára construir para animar a devoção dos maritimos, e que depois tinha de converter-se no grandioso templo dos Jeronymos. D'ahi sahia uma procissão, guiada pelos freires da ordem de Christo, e seguida de grande concurso de povo, que consternado tinha vindo despedir-se dos audazes navegadores. O fito que attrahia a multidão provinha do enlevo que excitam sempre as tentativas arrojadas, e esse sentimento achava-se ahi concentrado como no seu grande fóco, ancioso pelas contingencias da viagem, afflicto pela probabilidade das catastrophes, engrandecido pela communicação rapida, electrica, fascinadora, irresistivel de tantos espectadores. Tristes estavam todos, excepto os que partiam, porque a esses animava o fervor e alvoroço da empreza, não obstante irem cruzar mares nunca navegados, dobrar promontorios, evitar restingas, resistir a tempestades e correntes, domar barbaros de Africa, combater os mouros, procurar, emfim, o desconhecido com todos os seus encantos e esperanças, mas com todos os seus assombros e perigos.

Desfraldadas as velas partiram-se de foz em fóra, aportaram a Cabo Verde, entraram na bahia de Sancta Helena, e depois de montarem o cabo da Boa Esperança com menos tormentas e riscos do que os marinheiros temiam, e de passarem pela aguada de S. Braz, pela costa do Natal, pelo rio dos Bons Signaes, chegaram, no fim de quasi oito mezes de viagem, a Moçambique, d'onde logo desaferraram algumas barcas, ahi chamadas zambucos, que vieram abicar ás naus. Guarneciam-n'as muitos indigenas, e entre elles alguns brancos que pelos trajos e linguagem se conheceu serem mouros. Por um d'elles, natural de Fez, mandou Vasco da Gama ao xeque d'aquella terra, dizendo que se dirigia á India, e que para esse fim lhe pedia um piloto. Prometteu o xeque satisfazer o pedido e veiu visitar os navegantes, porque, a despeito das informações obtidas, cuidava ainda que seriam turcos; conhecendo, porém, que eram christãos, determinou destruil-os, e quando, desfeitos os varios ardis que para a traição empregára, se viu constrangido a entregar um piloto, instruiu-o para que em vez de guiar os navios procurasse perdel-os. A fortuna, todavia, que no meio dos seus caprichos se inclina a proteger os que muito ousam, salvou os portuguezes, que no dia 7 de abril de 1498 chegaram a Mombaça, cidade importante e para esses tempos civilisada, onde tambem escaparam a graves perigos. Em Melinde, em fim, o rei, não obstante o antagonismo de crenças e de raça, entendeu que devia soccorrer os estrangeiros, e com esse intuito acolheu-os sem perfidia e deu-lhes um habil piloto que os levasse á India.

Vinte e tres dias depois de terem partido de Melinde suppozeram os marinheiros ver terra. Já por vezes, em dias anteriores, se lhes tinha affigurado o mesmo, e haviam estremecido de contentamento e esperança; mas o tempo mostrára sempre que taes imagens eram apenas hallucinação, e a alegria se lhes transformára em profunda tristeza, porque cousa alguma abate mais os animos do que essas alternativas de illusões e desenganos, que são como os sarcasmos do destino. Desalentados, pois, e fitos sombriamente os olhos no horisonte, os mesmos homens, que com tão escassos recursos, e estando ainda na infancia a arte nautica, se haviam affoutado aos abysmos com desassombrada resolução, trepidavam agora, e quasi que sentiam as angustias do desespero. D'esta vez, porém, apresentava-se a realidade incontestavel, e não tardou muito que distinctamente se conhecesse a proximidade de um continente vastissimo. Appareciam afinal essas praias da India, que eram já para os atrevidos navegadores o sonho, o enlevo, a paixão que a todos avassallava, paixão que fôra crescendo com os obstaculos até constituir a idéa fixa, o pensamento constante d'aquellas almas energicas.

Chegada a noite tornou-se necessario virar de bordo, porque fôra perigoso no meio das trevas entestar com a terra, mas no dia seguinte, ao romper da manhã, corria a armada ao longo da costa com vento bonançoso. Uma cadeia de montanhas, tendo por corôa as nuvens, sobresahia em distancia; por entre florestas de palmeiras divisavam-se soberbos edificios; o Oriente, emfim, o recesso dos mysterios, a região dos prodigios, cujas fabulas nebulosas eram ainda inferiores ás maravilhas que já se presentiam, patenteava-se com toda a magestade da sua vegetação opulenta. Avisinhavam-se n'aquella costa tres povoações: Calecut, Capocate e Pandarane. Os marinheiros, tomando a segunda pela primeira, por engano de Canacá, o piloto indiano, dirigiram as naus a Capocate, pobre aldeia de pescadores; mas, sabendo ahi qual das povoações era Calecut, foram lançar ferro na enseada da cidade.

Considerava-se n'esse tempo Calecut uma das mais importantes escalas commerciaes da India, e era sem duvida a mais poderosa de todas as terras do Malabar. Viam-se girar no seu commercio os diamantes e pedras preciosas das ricas minas de Narsinga e do Pegú, as perolas de Kalckar, o oiro de Sumatra, o ambar das Maldivas, o marfim, a porcelana, as sedas e damascos da China, o sandalo de Timor, o algodão, o anil, o assucar, as especiarias mais apreciadas, tudo, emfim, quanto póde contribuir para o uso e delicias da vida. Capital do reino do mesmo nome, constituia Calecut a séde do sacerdocio e do imperio; tinha, além de innumeraveis casas feitas de madeira e cobertas de palma, muitos palacios, templos, arcos e torres soberbas; e estendia-se por largo espaço, contendo, segundo o computo dos naturaes, cerca de duzentos mil habitantes. Fundada com pouco poder, havia ganho dentro de breve tempo aquelle grande esplendor, e o seu rei, a que chamavam o Samorim, era o mais respeitado e temido entre os monarchas do Indostão.

Annunciada a vinda dos portuguezes, recebeu-os o principe com affago, deu audiencia a Vasco da Gama, e declarou acceitar a alliança do rei de Portugal, promettendo que na frota lhe enviaria embaixadores. Os mouros, porém, costumados de longo tempo aos lucros commerciaes d'aquella terra riquissima, e receiando que a influencia dos portuguezes não lhes consentisse de futuro nem protecção, nem accordo, nem tregoas, nem misericordia, começaram a urdir traições, tentando persuadir o Samorim de que os navegantes eram piratas miseraveis que levariam o terror do seu nome aos confins do imperio, como já em Moçambique e Mombaça tinham deixado vestigios de crueldade e perfidia; e de que ainda quando fossem subditos de monarcha poderoso, eram decerto homens orgulhosos e ávidos, que não pretendiam, sob as apparencias de paz e amisade, senão a conquista e posse exclusiva do solo descoberto. Convenceu-se facilmente o principe indiano, e desde logo se lhe transformou a boa vontade, dissimulando apenas o seu odio para encontrar ensejo favoravel de colher ás mãos os estrangeiros.

Debellados, todavia, os tramas pela intrepidez e astucia de Vasco da Gama, levantaram ancora as naus, e depois de quasi tres mezes de demora n'esse paiz inimigo, seguiram viagem para Portugal, tendo que vencer de novo graves perigos, e perdendo tantos a vida com as febres, que dos cento e sessenta homens que partiram poucos mais de sessenta regressaram á patria.

Em Portugal a noticia do descobrimento da India encheu de enthusiasmo todo o reino. Estavam depostos os temores, patente o caminho, encetada, em summa, a nova cruzada de religião, de guerra, de industria e de gloria, que ia devassar as barreiras da antiga civilisação oriental. Justificára-se o firme proposito que vencêra as apprehensões anteriores, e D. Manuel, depois de premiar Vasco da Gama e os famosos companheiros, acrescentou aos titulos do seu dictado os de senhor da conquista, navegação e commercio da Ethiopia, Arabia, Persia e India.

O soberbo mosteiro dos Jeronymos foi o padrão erguido á grandeza do emprehendimento, á fortuna do resultado, ao favor da providencia; a torre de S. Vicente de Belem, edificada quasi no mesmo periodo, tornou-se a testemunha gloriosa do immenso poder que depois alcançámos, e que ao passo que avassallava o imperio da Asia, vencia na Berberia as bellicosas turbas agarenas, cravava marcos de posse em quasi tres mil legoas da costa oriental da Africa, e dava á Europa a primazia entre as outras partes do mundo, abrindo caminho á grande revolução intellectual, moral, politica, mercantil e guerreira, que tornou o seculo XVI talvez a epocha mais maravilhosa da historia da civilisação.

IX

Descobrimento do Brazil

1500

No anno seguinte ao da volta de Vasco da Gama encarregou D. Manuel a Pedro Alvares Cabral, senhor de Belmonte e alcaide mór de Azurara, o mando de uma armada de treze velas, que devia na sua derrota correr a costa de Sofala, visitar o rei de Melinde, chegar a Calecut, e proseguir na empreza, a um tempo mercantil e guerreira, iniciada com tanta fortuna pelo primeiro descobridor. Era a frota magnifica e poderosa, e tinha como capitães entre outros, além de Pedro Alvares Cabral, Nicolau Coelho, que fôra na anterior expedição, e Bartholomeu Dias, o primeiro que ousára dobrar o cabo da Boa Esperança, e que no seio das suas tormentas ia encontrar d'esta vez o perpetuo somno da morte.