Quadros de historia portugueza

Chapter 3

Chapter 33,857 wordsPublic domain

Pequeno e fraco na origem, Portugal é apenas um condado, que ameaçam ao mesmo tempo o já então vastissimo imperio de Leão e Castella, e o poder ainda formidavel dos bellicosos sarracenos, e todavia não só lhes resiste com intrepidez e constancia, mas até ousa invadir o territorio dos seus dois temiveis inimigos, conservando sempre hasteado o pendão da nacionalidade. Depois, logo no começo da monarchia, os portuguezes, movidos pelo amor da patria, affecto que amadurecêra e se radicára nos animos de um modo indestructivel, conquistam uma grande parte da Hespanha mussulmana, terra abundante de população, enriquecida pela industria, cheia de villas e cidades importantissimas, fortificada por todos os meios que a experiencia d'aquelles tempos ensinava, e defendida por homens naturalmente esforçados, e aos quaes o aferro á terra natal e o fervor religioso ainda, como é de crer, multiplicavam os brios. Depois estabelecem-se em larga escala os concelhos; promove-se a vinda de colonos; povoam-se granjas e aldeias; arroteam-se charnecas e mattos; repairam-se e abastecem-se castellos; organisa-se a milicia, a administração, a magistratura judicial, a fazenda publica; consolidam-se intimas allianças com algumas das maiores nações, e dá-se sufficiente vigor ao espirito municipal, que em parte alguma talvez, durante a edade media, teve mais viva influencia no progresso da civilisação. Em seguida, apenas Portugal se vê collocado vantajosamente com relação aos varios povos da Peninsula, já não lhe basta a certeza da sua inviolabilidade, e confiado nas proprias forças e destinos, eil-o que se apressa em ir pagar ao islamismo, no solo abrazado de Africa, a divida da invasão e os trances do jugo estranho.

Reinava então em Portugal D. João I. Ao monarcha inconstante e frivolo, cujos defeitos como homem bastam para escurecer os actos do legislador, succedêra o principe mais popular que se encontra nas nossas dynastias de imperantes; a um rei hereditario um rei eleito. Ganha a victoria de Aljubarrota, recuperadas uma a uma as praças de guerra, de que o soberano estrangeiro se havia assenhoreado; firmada, emfim, a paz com Castella depois de longos annos de lucta frenetica, começaram os infantes a instar com D. João I para que emprehendesse conquistar Ceuta, a famosa cidade que desde o tempo dos romanos até ao fim do reinado de Witiza fôra dependencia de Hespanha; conquista que lhes daria ensejo de alcançarem com honra o grau de cavalleiros, e que dilataria ao mesmo tempo os limites do imperio e os da fé. Folgou com a idéa o monarcha, a quem os annos não haviam amortecido o pensamento fixo de gloria, a que devem attribuir-se quasi todos os actos da sua vida, mas não quiz resolver-se sem pesar cuidadosamente os perigos e vantagens do commettimento, que não se limitava ao assalto de uma praça, aliás bem defendida e guardada, mas que era de feito um repto aos infieis, que, inflammados em brios nacionaes e em fanatismo ardente, formariam cem exercitos poderosos e intrepidos contra os temerarios invasores.

Reflectiu, pois, em todas essas circumstancias; ponderou o voto dos guerreiros illustres, a censura dos conselheiros leaes, as preoccupações populares; avaliou com exacção a importancia dos esforços e a escacez dos recursos; viu que ia travar uma lucta em que todo o odio e valor da raça inimiga haviam de empenhar o ultimo alento; mas lembrou-se de que era preciso não deixar esquecer aos seus soldados o duro mister da guerra, de que o unico systema consequente e legitimo de engrandecimento para o reino era alargar-lhe os limites pelas fronteiras costas africanas, de que celebraria assim com um feito memoravel o occaso da sua venturosa carreira, e decidiu-se por fim á expedição mais determinado, mais perseverante, mais enthusiasta do que os proprios filhos. Conciliando, todavia, a confiança na sua fortuna com as admoestações da prudencia, tratou dos apercebimentos adequados á magnitude da empreza, e para evitar suspeitas que de certo trariam raiz de taes preparativos, resolveu que se aproveitasse o pretexto da pirataria com que os hollandezes infestavam as nossas costas, e se reclamasse satisfação do conde de Hollanda com ameaças de guerra. Fernão Fogaça, veador do principe, homem astuto, cauteloso e atrevido, foi enviado a Hollanda para proclamar em embaixada publica os aggravos e exigencias do soberano portuguez, e revelar secretamente ao conde a verdadeira causa da sua vinda. Prestou-se este ao disfarce, lisongeado pela demonstração de confiança, ou por ventura aterrado com a lembrança de que as ameaças podessem ainda traduzir-se em factos, e o artificio produziu o desejado effeito de socegar até certo ponto as populações de Hespanha e Africa, posto que não tanto que os reis de Castella, de Aragão e de Granada não mandassem immediatamente embaixadores a Portugal, renovando todas as garantias de paz e amizade.

Preparado tudo, levantou ancora do porto de Lisboa a poderosa armada aos 25 de julho de 1415, não obstante haver fallecido poucos dias antes D. Philippa de Lencastre, chamada pelo povo a boa rainha, e a cujas virtudes e desvelos deveu acaso Portugal a mais generosa prole, que tem rodeado um throno. Partiu em demanda das praias sarracenas; em desaffronta dos gravames n'outro tempo padecidos; em nome da raça romano-gothica contra o islamismo que lhe lançára a luva; da supremacia da civilisação christã contra as caducas instituições politicas, estribadas nas doutrinas falsas ou incompletas do koran. Partiu, sem que nem um leve estremecimento pelo futuro quebrantasse o enthusiasmo dos que iam participar dos riscos da empreza; o excitamento religioso, o espirito aventureiro, a emulação de esforço, e em muitos ainda a cubiça, menos hypocrita que n'estes nossos tempos, erguiam com demasiada força aquelles animos para que lhes consentissem vacillar.

O mysterio da expedição, na qual tomavam parte os grandes, os nobres, os infantes, o herdeiro do throno e o proprio monarcha, assustou de novo toda a costa de Africa, e não menos a de Hespanha, que ainda occupavam mouros; mas sobretudo as terras de Gibraltar, por se verem abertas e mal defensaveis. Em breve, porém, se dissiparam esses receios, porque, consultados em Algeziras os principaes capitães, foi fixado o dia 12 de agosto para se caminhar contra Ceuta.

Ahi de feito surgiu a frota no dia designado, mas depois de duas tentativas de desembarque, que o temporal estorvou, foi constrangida a voltar para Algeziras. O contratempo desanimou alguns. Eram esses de voto que não se tentasse outra vez o desembarque em Ceuta, que para gloria bastava já o arrojo da empresa, e que se não deviam tornar ao reino sem tingir as mãos em sangue inimigo, se dirigisse a armada a Gibraltar, que n'aquella conjunctura se offerecia como facil conquista, e que daria campo aos valentes para mostrarem esforço, ao passo que satisfaria as ambições do povo e os interesses da patria. Nenhuma consideração, todavia, dissuadiu D. João I do intentado proposito. Perseverante como o homem que, apontando fixamente ao alvo, não desvia nem por um momento a arma senão depois de acertar, desprezou os avisos cautelosos, que aliás já não poderiam ser acceitos sem desaire, e, como é facil de suppor, foi a vontade do monarcha que afinal prevaleceu.

Entretanto os mouros, attribuindo a medo a demora dos portuguezes, trataram de despedir as tribus numidas que os tinham vindo auxiliar, Soldadesca indisciplinada e feroz, que nem só entre os inimigos deixava largos vestigios de ruinas e estragos; mas ainda ellas mal tinham sahido, quando no dia 20, ao declinar da tarde, se dirigiu contra a cidade toda a armada christã. Confiados na fortuna, os habitantes de Ceuta pareciam desprezar a procella que de perto os ameaçava, e quando a noite desceu com denso manto de trevas, illuminaram-se as casas em signal de torva alegria.

Com a primeira luz da manhã seguinte a gente da armada, mettendo-se nas fustas, dirigiu-se para a cidade, e os infantes D. Henrique e D. Duarte, saltando em terra com cento e cincoenta soldados, começaram a peleja com os mouros que fóra das portas os desafiavam, terçando lanças, arremessando azagaias, e animando-se uns aos outros com pragas e insultos contra os invasores, intelligiveis para estes pelos gestos de rancor dos que as proferiam. N'aquelle primeiro impulso os alfanges sarracenos cruzaram as espadas portuguezas com todo o estrepito do enthusiasmo guerreiro, com todo o ardor do excitamento religioso, com todo o fogo de uma colera por muito tempo concentrada. Dir-se-ia, ao ver a furia do combate, que só adejaria a victoria sobre um dos campos quando tivesse cahido sobre o outro a total ruina. No entanto foram desembarcando mais soldados portuguezes, e, havendo já na praia trezentos homens escolhidos, apertaram estes com os mouros, que, levados mais pelo temor que pelo perigo, voltaram costas retirando-se para a cidade. Lembraram-se então os infantes de que n'aquelle mesmo dia poderiam talvez dar fim á empresa, evitando assim o trabalho e combate incessante de semanas e mezes, que naturalmente resultaria de um longo assedio, e os perigos a que se expunham n'uma terra callidissima, onde de certo recrudeceria a peste que de Lisboa os seguíra. Decidiram, pois, entrar na cidade com os que fugiam, e, lançando mão do ensejo que o caso offerecia, perseguiram rijamente os mouros, arrancando-os de todas as posições, e fazendo-os apinhar sobre as portas.

Ahi foi terrivel o recontro e disputada tenazmente a victoria. O apertado revolver das armas formava uma selva de ferros, atravez da qual já quasi não era possivel abrir caminho sem galgar por cima dos cadaveres amontoados, que embargavam os passos dos vivos; nem os invasores desistiam nem os da cidade affrouxavam, e de um e outro lado os contendores haviam chegado áquelle paroxismo de furor, que faz desprezar a vida para só cuidar em produzir a morte. Por fim, não obstante o muito que os defensores trabalharam, não poderam cerrar as portas, nem tolher entrarem os nossos de involta com elles. Os portuguezes dividiram-se então em dous bandos; D. Duarte, capitaneando um d'elles, foi subindo aos logares altos e fazendo-se senhor de todos até chegar á maior eminencia da cidade; D. Henrique tomou por outras ruas; e ambos encontraram porfiada resistencia, porque aos habitantes de Ceuta, reduzidos á defensiva, o affecto, que nos costuma prender ao lar domestico, redobrava alento e brios. Afinal, porém, essa mesma resistencia acabou; os vãos esforços da população mussulmana para salvar Ceuta foram os clarões derradeiros da lampada que se extinguia. A audacia dos infantes e dos que os seguiam, a cobardia do chefe sarraceno, Salat-ben-Salat, que fugiu apenas soube ter sido entrada a cidade, e o habito da victoria, que, desde a batalha das Navas de Tolosa, os proprios mahometanos, consideravam como devendo tarde ou cedo pertencer definitivamente aos inimigos da sua crença, facilitaram a conquista de uma das povoações de Africa mais de receiar para os povos christãos do mediterraneo. El-rei, tendo posto em terra toda a sua gente, mandou fazer alto, e logo que soube estar a cidade de todo ganha, deliberou começar a combater o castello. Depois, impellido pelo enthusiasmo religioso, entrou n'uma mesquita, e ahi de joelhos agradeceu a Deus esse feliz resultado de uma tentativa que a muitos parecêra loucura. Recebendo então a noticia de que o castello estava sem defensa e despejado, mandou arvorar na mais alta torre o estandarte real; e os raios do sol, que se escondia no occidente, já não encontraram a bandeira de islam, derribada n'esse dia para nunca mais se erguer sobre os muros da soberba Ceuta.

Assim, por meio de uma victoria alcançada em poucas horas, dilatou D. João I as fronteiras da monarchia pelos territorios africanos, principiando a realisar o grande pensamento dos reis chamados da primeira raça, e abrindo caminho aos vastos projectos, ás atrevidas empresas, aos descobrimentos e conquistas, que deram a esta nossa boa terra portugueza uma epocha de gloria e predominio, das maiores que o mundo tem visto.

VI

Regencia do infante D. Pedro.--Combate de Alfarrobeira

1439 A 1449

O cadaver do virtuoso D. Duarte havia descido ao sepulchro, onde, emfim, repousava das amarguras de tão curto como desditoso reinado. Para a menoredade de seu filho Affonso V, que então contava seis annos, ficára regente do reino a rainha D. Leonor. Esta, sentindo a necessidade de buscar na côrte seguro esteio contra a má vontade dos subditos, que lhe não perdoavam ser mulher e estrangeira, e sobretudo ter contribuido com solicitações e conselhos para a funesta empresa de Tanger, procurou associar ao imperio o infante D. Pedro, duque de Coimbra, promettendo-lhe ao mesmo tempo o casamento do rei com sua filha D. Isabel, e julgando prendel-o assim pelo esplendor da invejada alliança. Em breve, porém, instigada pela cubiça do poder, que foi a paixão predominante dos ultimos annos da sua vida, ligou-se com o conde de Barcellos, filho natural de D. João I, e á frente dos seus parciaes, aproveitando todos os pretextos, tentou de dia em dia coarctar a auctoridade do infante.

Então o povo de Lisboa começou a alborotar-se, e depois de muitos tumultos e desordens proclamou regente e defensor do reino o duque de Coimbra. Suppondo que pouco duraria um poder, assente em tão movediço alicerce como é o favor da plebe, a rainha acolheu-se a Alemquer, onde se fez forte; mas as côrtes, reunindo-se immediatamente, confirmaram a nova regencia, e resolveram que a educação d'el-rei e de seu irmão fosse confiada a D. Pedro.

O estado da nação n'aquella épocha era, na verdade, lastimoso. Parecia que uma estrella aziaga tinha constantemente presidido aos destinos do fallecido monarcha. A peste assolava o reino; a miseria publica tomava todos os aspectos; o infante D. Fernando, heroe e martyr, jazia captivo em Africa; as prophecias de mestre Guedelha, o astrologo judeu, realisavam-se fatalmente; e as gloriosas recordações de Aljubarrota e de Ceuta tornavam ainda mais duros os flagellos com que a fortuna, como que arrependida de ter sempre protegido D. João I, se vingára em crueldades sobre o seu successor. Por cumulo de infortunios o prior do Crato, o conde de Barcellos e outros fidalgos, poderosos em influencia e valor, julgaram opportuno o ensejo para realisarem projectos de ambição, e proclamando a resistencia em nome da viuva de D. Duarte, constrangeram o regente a empunhar as armas para os conter. Apezar de tudo, porém, D. Pedro dirigiu com tal prudencia o leme do estado, que dentro de pouco tempo desvaneciam-se os fumos da discordia, e Portugal respirava á sombra das leis, dilatando as forças e engrossando as riquezas no seio de perfeita bonança.

Chegado el-rei aos quatorze annos, edade em que, segundo o fôro de Hespanha, qualquer principe devia haver inteiramente posse do seu reino e senhorio, quiz o duque de Coimbra entregar-lhe o supremo poder, que D. Affonso, ainda não pervertido por suggestões calumniosas, recusou acceitar. A inveja, comtudo, não se enfreia nem com as ligações de familia, nem com as obrigações de gratidão, simples vinculos moraes que a historia tem muitas vezes mostrado serem fracos para conter a violencia das paixões; e as intrigas do conde de Barcellos, já então elevado á dignidade de duque de Bragança por aquelle mesmo contra quem conspirava, fizeram com que o moço rei exigisse pouco depois ao infante os fios da administração, para os sujeitar ás influencias de uma nobreza aventurosa, insoffrida de todo o jugo, mais habituada aos enredos da côrte que ás pesadas occupações do governo, e incapaz por isso de sustentar com lealdade, energia e destreza os interesses da monarchia.

Tornados d'este modo reis de facto na resolução das questões mais importantes, os conselheiros de D. Affonso V sentiram recrudecer ainda a aversão contra o principe, cujo caracter generoso e firme os havia confundido ou humilhado. Ha almas impiedosas, abysmo de odios violentos e de paixões profundas, que, no momento em que se realisa a ventura por largo tempo sonhada, se deixam, todavia, subjugar por estranho sentimento de benevolencia; n'outras, porém, a perversidade é singular genero de fome que quanto mais damno causa mais appetece, é lodaçal que até entre formosas paizagens impregna a atmosphera de miasmas pestiferos. No regaço da fortuna continuaram, pois, esses homens a malquistar o infante com o monarcha, que, apesar de ter já casado com sua prima D. Isabel, entrou a afastar o sogro e a dar-lhe claros signaes de que condescendia sem hesitar com as villezas d'aquelles, por quem mostrára sempre decisiva predilecção. Dotado de indole altiva e pouco soffredora, lasso do serpeiar flexuoso dos cortezãos, D. Pedro, em vez de permanecer junto do sobrinho a fim de lhe expungir da mente as perfidas calumnias, retirou-se logo para Coimbra, deixando d'esse modo livre o campo aos adversarios para a seu salvo satisfazerem rancores, que o tempo cada vez mais exacerbára.

Debalde correu então á côrte a defender o irmão o infante D. Henrique, que já n'essa quadra residia em Sagres; debalde o conde de Avranches, D. Alvaro Vaz de Almada, o mais illustre cavalleiro da Peninsula, alma grande, generosa, leal e intrepida, reptou os accusadores do duque de Coimbra, nenhum dos quaes se atreveu a levantar o guante; debalde interveiu a propria rainha, procurando entre lagrimas e caricias reconciliar o marido com o pae. Tudo foi inutil. Dominado pela contumacia dos validos e cego pelo orgulho dos verdes annos, D. Affonso V prohibiu ao sogro que voltasse á côrte, e como este se recusasse a entregar as armas que possuia em Coimbra, allegando que necessitava dellas para se defender dos seus inimigos, declarou-o rebelde e partiu contra elle á frente de um poderoso exercito.

Este procedimento do monarcha operou no animo de D. Pedro uma revolução moral, d'essas que só as grandes crises podem produzir; foi sobresalto, embate, transformação repentina de todas as suas idéas e sentimentos. Entretanto, aconselhando-se com aquelles em que principalmente confiava sobre o que havia de fazer, acceitou o aviso do conde de Avranches; e, partindo de Coimbra com diminuta hoste, determinou buscar o sobrinho e genro, pedir-lhe justiça contra os que o infamavam, e se a moderação e firmeza não bastassem, rota a ultima barreira, repellir a força com a força, arvorando o pendão negro da revolta.

Chegando proximo a Alverca, assentou D. Pedro arrayal nos plainos de Alfarrobeira em sitio assás defensavel. Ahi o encontrou el-rei, e logo o cercou completamente, mandando ao mesmo tempo apregoar por seus arautos, que seriam tidos por traidores todos os que não desamparassem o infante. Essa intimação, todavia, não produziu o ambicionado exito, e pelo contrario alguns cavalleiros e soldados, movidos por nobre sentimento de generosidade, vieram unir-se áquelle que o soberano tratava como rebelde. Emquanto isto succedia, e talvez fosse possivel evitar o funesto conflicto dos dous bandos, um acontecimento fortuito apressou o desfecho do terrivel drama.

Os bésteiros e espingardeiros do exercito real, abrigados uns pelo denso arvoredo que sombreava o ribeiro de Alfarrobeira, collocados outros no cimo de um outeiro que dominava o acampamento, começaram a varejar com tiros o arrayal do infante. Vendo este os seus leaes companheiros immolados sem combate nem gloria, mandou disparar algumas bombardadas, uma das quaes acertou perto da tenda de el-rei. Então a briga empenhou-se decisivamente. De uma parte estava um troço de homens intrepidos, aos quaes a desesperança augmentava o esforço; da outra um exercito numeroso e aguerrido, contra cujo poder seria impossivel a resistencia. Como se não bastasse, porém, a desegualdade entre os dous contendores, o infante, ferido por uma setta que lhe varou o corpo, tombou por terra logo ao principio da peleja, e com a sua morte feneceu em redor d'elle todo o esforço dos animos mais robustos. Sómente o conde de Avranches, que havia jurado não sobreviver a D. Pedro, luctou denodadamente contra os de el-rei, já senhores da victoria. Cegos de furor, cavalleiros e peões arrojavam-se e cahiam diante d'aquelle vulto, como os vagalhões de mar tempestuoso se arremessam e desfazem em frente dos rochedos da costa. No meio de larga clareira, só, impavido e magestoso, D. Alvaro derribava a seus pés quantos d'elle se aproximavam, e parecia, como o Campaneu de Stacio, ameaçar os deuses e os homens. Afinal, perdidas as forças, baqueou por entre os inimigos, que a poder de golpes depressa o acabaram.

O sangue do infante, vertido n'esta carnificina, a que mal podemos dar o nome de batalha, não ficou inulto. Da filha do duque de Coimbra nasceu o principe que tomou sobre si a obra terrivel da expiação. O cadafalso de D. Fernando de Bragança vingou o assassinio do infante D. Pedro, e mais uma vez se realisou a terrivel sentença biblica, que ameaça punir nos filhos as iniquidades dos paes.

VII

Conspiração da nobreza contra D. João II

1481 A 1484

Nos ultimos annos de D. Affonso V a aristocracia tinha chegado ao apogeo do predominio, e as instituições feudaes, que se haviam mesclado com a nossa primitiva organisação social, achavam-se enraizadas e vigorosas, parecendo poder resistir perpetuamente aos esforços do povo e do monarcha. Já D. João I, o rei de boa memoria, quizera destruir a quasi independencia dos orgulhosos barões, que governavam nos seus solares como senhores absolutos, não hesitando, sob quaesquer pretextos, em arvorar o estandarte da revolta, e até em combater contra a patria; mas os principes, que se lhe tinham seguido, haviam governado com tal frouxidão e timidez, que a nobreza retomára o antigo valimento, e preparára-se para defender a todo o custo os seus fóros e prerogativas. Foi então que subiu ao throno D. João II, alma energica, robusta e negra, que conseguiu debellar o poder dos fidalgos, apoiando-se no braço do povo, e enfraquecer o braço do povo, pesando depois sobre elle com toda a força e intensidade do poder da corôa.

A uma falta absoluta de escrupulos juntava D. João II grande firmeza de genio, extraordinaria sagacidade e o retrahimento bastante para occultar, debaixo de um aspecto frio e de sorrir forçado, o ardor de violentas paixões. Os chronistas, que escreveram sob o patrocinio dos immediatos successores d'este soberano, chamaram-lhe o principe perfeito. Poucas vezes, porém, escriptores cortezãos e lisongeiros têm respeitado menos a verdade dos factos. Retrato vivo do seu contemporaneo Luiz XI de França, manifestou sempre, quer nas leis geraes, quer nos actos proprios e espontaneos, a influencia de um pensamento capital, a que sujeitou todos os affectos e considerações; e esse foi o de alluir de vez a preeminencia e immunidade dos grandes vassallos da corôa. No seu reinado tem de ir tambem buscar o historiador a fixação das fórmas politicas, que ressumbram em toda a legislação subsequente, e a que poderemos chamar a transfiguração do absolutismo em despotismo, como a estructura social anterior se póde igualmente considerar um meio termo entre a monarchia e as instituições representativas.

Tal era o inimigo com que a nobreza tinha de combater para conservar a sua preponderancia nos negocios publicos, inimigo formidavel não só pelo seu caracter, mas ainda pelo prestigio que o rodeava, e pelas circumstancias que favoreciam os planos da sua politica. O throno, affagando as sympathias democraticas do terceiro estado, que já começava a conhecer a sua força, lançava mão do instrumento mais seguro para assentar o poder em bases solidas. O resultado, pois, da lucta não podia ser duvidoso. Nos paizes governados pela vontade de um só homem, quando á pressão enorme d'essa vontade se associa a opinião popular, o pensamento que vive no animo do principe e das multidões, quer justo quer iniquo, hade triumphar infallivelmente, e a lucta dos que lhe resistem pode ser grande e nobre, mas é inutil esforço.