Prosas barbaras com uma introducção por Jayme Batalha Reis.

Part 4

Chapter 43,856 wordsPublic domain

Ás vezes o grande mar embalava-se preguiçoso, emquanto as ondas pequenas--as pobres ondas!--soluçando, choravam sobre a areia.

XIII

Houve um tempo em que andavam exiladas dos logares humanos as estatuas, que tinham feito a lenda da belleza antiga. Eram de marmore pallido, e a sua nudez era doce e melodiosa.

Outr'ora, no tempo dos idyllios divinos, quando ainda vivia o grande Pan, e havia deuses debaixo das estrellas, ellas viviam entre os jogos, as choreias, a luz e as flores: brancas, como as espumas ionias; serenas, como a lua de Delos; melodiosas, como a voz das sereias.

Agora andavam perseguidas e errantes pelas florestas sonoras, e envolvidas na consolação immensa, que sáe do canto das aves, e da frescura das plantas.

Ás vezes um cavalleiro, batalhador escuro, que voltava das cidades de oiro e de coral, encontrava uma das brancas peregrinas, como uma apparição de languidez e de tristeza, evocada pela musica das ramagens. E se elle por acaso deixava mergulhar nos seus olhos os raios brancos e avelludados dos olhos de marmore, ao outro dia os caminheiros, os que vão de noite cantando á molle claridade das estrellas, encontravam, junto das grandes arvores pensadoras, um corpo inanimado e livido, como aquellas creanças das lendas, a quem as bruxas chupam o sangue!

Esta historia é de ha seiscentos annos--e de hontem á noite...

XIV

Por fim, tu eras simplesmente uma alma preguiçosa e uma pelle macia.

Todos os teus pensamentos se moviam n'uma comedia extravagante e solta.

Abafavas burguezmente a musica do teu corpo em chailes pesados e largas saias: e a seda dos teus vestidos tinha um fremito indefinido de sarabanda--e de cachucha.

XV

Eu andava perdido pela floresta escura e sonora. As estrellas, como grandes olhos curiosos, espreitavam atravez da folhagem. Eu era o tenebroso, o inconsolavel, o viuvo. Errava pela floresta, e a espaços cantava uma canção vagamente triste como o susurro dos cyprestes:--depois dizia palavras iradas, e asperas como os cardos;--e mais adiante uma oração indefinida enchia-me todo o coração, e saía-me pelos labios, como uma açucena branca que se abre dentro de um copo, e que o enche.

E por cima de mim, ó meus amigos! ó minha bem amada! os ramos estendiam-se para os mil e mil pontos do infinito, como para mostrar ás cantigas, ás iras e ás orações todas os caminhos do ceu.

XVI

Tu pensavas que o teu amor me envolvia mollemente como um largo vestido de seda, todo forrado de arminhos.

E um dia, ó minha bem amada de cabellos côr de amora! viéste despir-m'o de golpe, com um rosto colorido de risos.

Mas o vestido estava collado ao corpo--vinte vezes collado ao corpo: e tão rapidamente o tiraste, que me rasgou pedaços de carne, e levou-me jorros de sangue, e arrancou-me os cabellos, e deixou-me, ó minha bem amada de braços d'aço! como uma forma longa, vermelha e indefinida!

XVII

Quando te amava e pensava em ti, via-te soberba como o mundo, e eras para mim a terra, o ceu e o mar. Agora vejo que tinha razão; porque és tão varia como o ceu, tão fria como o mar, e tão dissoluta como a terra.

XVIII

Eu abri aquelle coração, que era delicado, pequeno e feminino. Descobri lá dentro vagamente uma floresta medonha, que se debatia e rugia, como uma multidão de doidos sinistros, todos vestidos de ramos e de folhas: na sombra andavam os olhos redondos e famintos dos lobos: por cima da folhagem mugidora esvoaçava, baloiçada por ventos immensos, uma confusão de sombras, que uivavam e se arrepelavam, e rasgavam com os ossos dos cotovelos as carnes molles, e lambiam o sangue que escorria das orbitas sem olhos, e davam beijos selvagens, enroscadas e desfallecidas em voluptuosidades mais morbidas do que os orvalhos da lua.

Depois fixei o coração da minha bem-amada, e vi-o outra vez delicado, pequeno, e feminino;--e tão feminino, tão pequeno, e tão delicado, que lhe dei um beijo!

XIX

Eu ia para baixo dos arvoredos, para junto dos rios--e olhava para as nuvens.

Tudo me parecia despovoado e apenas como a sombra de uma vida distante.

Outr'ora--ó lendas de encantos e de amores! ó rondas aereas das nixes por entre a musica dos cannaviaes! ó ondinas humidas! ó danças nebulosas das wilis! ó espiritos gentis e vaporosos, que andaveis nos aromas das violetas! ó elfos pequenos, que adormecieis dentro do calice dos lirios brancos, embalados como n'um berço! ó dôces e enganadoras creaturas, que povoaveis e alumiaveis tudo como estrellas romanticas!--outr'ora os rios, o ceu e os arvoredos encobriam-vos, ó invisiveis! mas como em tecido fino, que deixa passar todos os aromas e todas as côres.

E agora os rios, o ceu, os arvoredos estão desertos.

Os arvoredos só contam, como velhos palradores, historias de gigantes, loucas legendas de combates e feitiços, e as aventuras das filhas da folhagem.

O ceu tem apenas nuvens, que erram lentas e pesadas como os pensamentos serios d'um craneo immenso.

Os rios vão sempre cantando e fugindo, como os amores da mulher.

XX

Andamos todos soffrendo. Passamos lentos, desconsolados e alumiados pelo sol negro da melancolia. Nem largos risos, nem bençãos fecundas. A esperança fugiu para além das estrellas, das nuvens e dos caminhos lacteos. Nos corações nascem amores sombrios e loucos. E tudo porque um dia nasceu uma creança estranha, que foi alimentada com um leite morbido como a lua, e envolta n'uma tunica livida como a morte!

XXI

Onde estará ella agora--a minha bem-amada, aquella creança de olhar profundo?

Era n'aquellas almofadas que ella se recostava: era por alli que ella passava--e as flores do tapete, sob a pressão dos seus pés, viviam e perfumavam.

A pé! a pé! meus desejos! Acordae, acordae, e ide buscar-m'a! Accendei todas as estrellas, e ide procural-a pelos caminhos escuros! Desgrenhae os cabellos verdes das florestas! Assoprae a espuma das ondas! Dispersae as multidões! Quebrae os encantos! Ide procural-a pelos astros! Despedaçae as tendas aereas, onde vivem os sonhos!

Ide, ide, ó meus desejos todos! Eu ficarei esperando solitario e silencioso, como um pombal d'onde fugiram todas as pombas.

XXII

«Perdi a minha bem-amada, e todo o ceu está negro, e nem ha estrellas que me consolem! Só resta morrer.»

E o corpo diz á alma:

«Adeus para sempre! Ó exilada divina, tu vaes morrer! ó flôr dos sonhos, tu vaes desfazer-te com todos os teus aromas! Lembras-te, filha, como eu velava por ti? Eu andava pallido e triste quando tu soffrias: e, quando te alegravas, andava córado e vestido de risos. Ás vezes tu deixavas-me e subias serenamente a torre esguia de marfim, onde habita o ideal: e eu, em baixo, esperava sem olhar, sem voz e sem movimento: e quando descias, illuminada e séria, eu escondia-te voluptuosamente--a ti, ó santa! a ti, ó purificada! E agora vaes morrer: e nunca mais te verei, ó minha vaporosa filha! Eu vou andar errante e perdido no mundo, por entre a materia enorme. Vou andar nas arvores e nos astros, nas ondas do mar e na luz dos comêtas, nas rosas e nos olhos das mulheres lascivas. Vou talvez cobrir as maiores tristezas vivas, ser a folhagem dos cyprestes e o farrapo dos mendigos! E tu vae sumir-te, ó alma doce e dolorosa!»

E a alma dizia ao corpo:

«Não chores. Davia ser assim. Tu és são e forte: eu sou delicada, indefinida, dolente. Adeus, e perdôa-me. Fui desdenhosa comtigo. Queria ver-te frio e mudo. Queria que fugisses d'aquellas mollesas, que são feitas da voz perdida das sereias. Ás vezes queria, na minha ideal seriedade, que te desfizesses em orvalho e pó, para eu poder ir fundir-me na minha immensa alma de luz. Mandava todos os meus desejos para aquelle paraizo de sombras, onde anda a alma de Ophelia.

«E quantas vezes, ó meu corpo bem-amado, eu não seduzi os teus olhos a que seguissem as viagens immensas das estrellas! Então não sabia ainda, que havia de cair e desfazer-me, como uma gotta de agua! Adeus! Em breve não te lembrarás mais de mim.

«Ha-de nascer-te uma outra filha, e depois outra, e outra. E tu has-de estreital-as apertadamente, ou ellas se chamem _alma_ como eu--ou se chamem _aroma_--ou, então, se chamem _som_.

«Adeus! Escuta: se nas tuas peregrinações atravéz da materia, encontrares os átomos _d'aquella que eu tanto amei_, não te juntes com elles; porque, se vos juntardes no calice d'uma flôr, a flôr ha-de mirrar-se;--se fôr na luz d'uma estrella, a estrella ha-de apagar-se;--se fôr nas aguas do mar, o mar ha-de gelar-se...»

MACBETH

Foi no tempo de Philippe II, tragico môcho do Catholicismo, que Shakspeare creou o seu drama épico de Macbeth.

É desde então que aquella figura, que exhala noite e humidade, erra pelo enorme ceu negro, livida no meio das tempestades, alumiada e crescida por um estranho reflexo de saques e de incendios, em quanto os abutres, os corvos, os milhafres, os gaviões, as corujas vôam em circulos sobre a sua tragica cabeça esguedelhada.

As outras imaginações nocturnas do poeta, que se chamam Hamlet, Lear, Othello e pisam com pé tragico o sólo augusto da epopeia, todas têm junto de si o dôce corpo de uma mulher para lhes embalar no seio as angustias tenebrosas, como n'um leito mysterioso, para lhes fazer subir por vezes ao rosto a serenidade augusta do bem.

Essas fórmas femininas andam impalpavelmente, como radiações de luz, em redor d'aquellas terriveis cariatides do mal: ellas derramam-se sobre aquellas almas nocturnas, como umas auroras vivas, cheias de meiguices, d'orvalhos, de claridades, de fecundos descanços, purificadoras e transfiguradoras.

Assim Ophelia, humida dos beijos da agua, segue o seu dolente e lacrimoso Hamlet; Desdémona derramou o seu perdão, como um oleo santo, sobre a agonia flammejante de Othello: e Cordelia estira os seus braços como azas de benção, e, com gestos de coroação, ampara a cabeça desvairada do velho rei Lear. Macbeth, esse vae seguido na sombra pelos seus negros vassallos--os incendios, as pestes, os derrubamentos.

Macbeth é o mal-phantasma. Elle não é d'aquelles lobos que andam, pela noite da historia, dilacerando as liberdades e as patrias. Não.

É uma energia inconsciente e fatal. Um pouco mais mergulhado na sombra, seria o egual de Satan. Quando a sua corôa reluz na escuridão, parece que as constellações devem seguir aquelle reflexo terrivel, curiosas de saber que sombria aventura vae elle tentar contra o Homem. Porque é certo que elle provoca a attenção do infinito, e tem mysteriosas affinidades na noite.

Elle atravessa todo aquelle drama como um espectro.

Quando as Ondinas saíam fóra da agua a namorar os moços formosos debaixo dos platanos, denunciavam-se, as pobres, porque a orla do seu vestido estava sempre ensopada d'agua. Macbeth é assim: debalde se cobre de purpuras, e se assenta aos banquetes, e falla de manobras de guerra com os seus capitães tenebrosos, e se queixa que lhe foge o somno, para parecer humano: os que se approximam d'elle empallidecem, porque a extremidade do seu manto tem uma orla sulfurosa.

Elle ouve a predicção das soberanias flammejantes da bocca esverdeada das feiticeiras, que se dão, lascivas, aos beijos do vento, por cima das folhagens, e se somem nos esvaecimentos tenebrosos, riscando a noite de sangue. Ao atravessar pelas horas negras os seus terraços, entrevê o luzir dos punhaes: não póde sentar-se aos banquetes resplandecentes, entre os risos sonoros, sem vér diante de si, com a lividez dos que fizeram a viagem maldita, o espectro de Banquo, d'onde se exhalam os castigos. Por fim, quando toda a Escocia sangra, porque passou Macbeth esmagando as cidades, assolando os campos, enegrecendo o ceu com o fumo--luto dos incendios--não são os exercitos que o vencem: a natureza ouviu as queixas humanas, os brados de justiça que saíam dos postes, das queimadas, das forcas, dos cemiterios, ouviu a alegria estridente dos abutres, dos córvos e dos milhafres--e destaca então uma floresta, que vae com ruido tragico esmagar o homem sinistro. N'este castigo, Shakspeare é maior que Eschilo. Eschilo, quando vê Prometheu pregado no Caucaso, olha desvairado, e vendo lá em cima a serenidade de marmore dos deuses de nomes sonoros, vem, pallido, ajoelhar junto d'aquelle rochedo ideal e santo como um altar; e, suffocado, apenas póde fazer um gesto supplicante ao velho Mar, para que mande as suas Oceanides consolar o vencido enorme.

Shakspeare, porém, quando vê Macbeth matar os reis, matar o povo, derrubar os capacetes heraldicos, matar os instinctos, matar os Macduffs, matar as creanças d'olhar divino, as mulheres de seios fecundos, matar a patria--corre desvairado, toma uma floresta e vem esmagar a feroz creatura sob um desabamento da santa natureza: e aquelle castigo passa com o ruido terrivel do carro da justiça.

Este Adão do mal tem uma Eva monstruosa--Lady Macbeth. Lady Macbeth é a serenidade do mal. Ella, com a sua attitude soberana e barbara, tem a vaga semelhança d'uma Juno homerica. Tem em si toda a grandiosa rigidez, todas as frias austeridades da natureza do norte.

Ella é a energia selvagem, que de longe conduz as batalhas. Ella passa no drama como sacerdotisa do mal, predestinada e serena: até ás vezes parece fluctuar, no seu olhar frio, não sei que funebre resignação: as coleras e os castigos têm quasi piedade d'aquella mulher esteril. Ella não tem o amor, não tem a consolação, não tem a melancolia, não tem a maternidade. Alguem, feroz e desconhecido, lhe tirou aquelles amollecimentos onde ha lagrimas, para lhe poder conservar a attitude hirta e rigida do mal.

Lady Macbeth é como uma estatua do crime, feita de marmores e de bronzes, e erguida ao longe n'uma lividez silenciosa, tendo por pedestal a noite. De vez em quando concebe, com lascivos estremecimentos d'alma, as oppressões e as violencias, e vem então lenta, deixa caír da sua mão estendida as agonias e as destruições, accende com um olhar as sinistras queimadas pela planicie, e volta para os lados da noite e da humidade, arrastando o seu manto, que faz a cada passo como que uma onda negra e humida de sangue, que a segue.

E no emtanto, quando ella passa, o olhar perde-se na contemplação perigosa d'aquelle busto forte, d'aquelles braços de aço, d'aquella testa que tem reflexos de opala, d'aquelles cabellos poderosos de um negro flammejante, d'aquelle seio de fórma barbara. E então abre-se na alma, como uma grande flôr do mal, um desejo, negro e reluzente. Aquelle olhar attráe como uma profundidade cheia de echos, de vapores humidos e de mugidos de aguas. E a alma, esquecida da justiça e do bem e dos pudores da piedade, quer atravessar as brumas do mal que cercam aquella mulher e palpar os brocados luzentes e recamados que a vestem, destrançar-lhe os cabellos pelas molles sombras e dissolver-se n'aquelle olhar negro, como uma flôr se dissolve num vinho forte. O coração ri-se dos gemidos da Escocia e do ultimo high-lander, que morre contemplativo, tocando as árias da sua montanha na ultima cabana, e lastima unicamente Macbeth porque tem para matar--só um Duncan. Suffoca o peito a negra lembrança de um desfallecimento lascivo, n'aquelles braços de marmore pallido, salpicados de sangue. A contemplação d'aquella terrivel Lady Macbeth, em Shakspeare, deixa o corpo frouxo e tremulo, como se sobre elle se estendesse a nudez de uma deusa.

Foram estas figuras tenebrosas que Verdi quiz revelar no seu poema musical de _Macbeth_.

Ha, sem duvida, na obra immensa de Shakspeare creações que devem dar a sua alma, a sua vida, a sua paixão, a esta musica moderna, vestida de sensualidades pesadas, coberta com velludos de prégas molles e silenciosas. Porque em Shakspeare ha tudo: ha os corpos disformes feitos de lôdo: os corpos transparentes feitos de pulverisações de luz; os corpos luminosos feitos de argillas ideaes: ha almas tão puras como musicas de constellações, tão terriveis como as fulgurações do desespero, tão voluptuosas como os beijos vermelhos do sol. Elle semeou alli, com mão augusta, as energias, o amor, as enervações, os ciumes, as angustias, as melancolias, a duvida, a paternidade, a covardia--eu sei?... Ha toda a sorte de vestidos, sêdas, farrapos, lutos, purpuras, sudarios; umas cabeças têm corôas flammejantes, outras cabeças têm corôas de violetas: aquellas creações têm nos labios o lyrismo, a ode, a imprecação, a satyra, a chocarrice: ha architecturas, tormentas afflictas, arvoredos sagrados, luares e apparições. Assim caminha enorme aquella obra, tentando a grande aventura da immortalidade! Para dar a vida e o sopro ideal a esta creação immensa, é necessario que venha a architectura, a decoração, todos os coloridos, os vestuarios, o lyrismo, e sobre tudo a melodia e a orchestra.

A musica deve ser a voz de tudo aquillo que alli está silencioso, sem ter a faculdade de se exprimir, e nós termos a possibilidade de o comprehender,--a voz das estrellas, das pedras, das nuvens, das flôres, de tudo o que, desde as hervas molhadas até ás vias-lacteas, falla muito indefinidamente e com vibrações muito sobrenaturaes, para que o nosso extasi as possa escutar. Quando Julietta suspira ao seu balcão, desejando que o corpo do seu Romeu, depois de morto, seja dividido em pequenas estrellinhas, para que todas as mulheres se namorem da noite, em roda d'ella, as flôres, as vegetações, aquellas molles divindades núas, que se chamam as nuvens, o arfar brando do seio da noite que cria as aragens, a floresta divina de que nós apenas vêmos as pontas das raizes, que são as estrelas--tudo se balança n'aquella evaporação de amor que exhala a alma da languida mulher, luminosa na escuridade do seu jardim, como um diamante no seio d'uma negra: e toda a natureza está cheia de confidencias, de murmurações e de córos. Diante dos pudores, das indefinidas meiguices, das sentimentalidades da alma de Ophelia, diante dos pensamentos de Hamlet, incertos e revoltosos como as ondas, como os ventos, como as nuvens que no ar se fórmam e se desmancham, o lyrismo do celeste William empallidece como um heroe derrubado: e então a musica vem, na sua ideal serenidade, dolorosa e branca, revelar todas aquellas vibrações celestes.

E estas imaginações radiosas dos poetas devem entrar antes nos poemas musicaes do que as figuras historicas.

São aquellas creações maravilhosas que nos enlevam, que nos fazem soffrer, que nos transfiguram a alma.

Que importa que agonise Maria Stuart, e a dôce Maria Antoinette, e Beatriz de Cenci, e a idyllica Ignez de Castro? Nós vemos estes desaparecimentos de astros, com os olhos enxutos, attentos á justiça de bronze da historia: e, se nos interrogam sobre aquellas fatalidades, mostramos lá em cima o grande azul constellado.

Mas que Julietta se definhe e que lance, chorosa, o seu olhar fulgurante pelo espaço, para allumiar a fuga de Romeu até Mantua; que Desdémona diga a _canção do salgueiro_, onde se morre de amor; que appareça entre os lutos reaes o enterro virginal de Ophelia, nós vamos, desgrenhados e afflictos, perguntando por que caminhos mysteriosos sóbe lá cima, até á radiosa bondade divina, o côro supplicante das lagrimas.

No emtanto, parece que as imaginações terriveis e ferozes dos poetas não pódem ser nobremente transportadas para a musica: e quando os maestros querem subir aquelles escarpamentos divinos, cáem, sem fòlego, junto da montanha sagrada: e só recobram a paixão, a alma, o lyrismo, o sopro divino, diante das creações femininas, lúcidas figuras feitas de cheiros suaves onde habita a alma dos deuses, e de petalas macias, e de vapores de luz.

Sem fallar em Gounod, que não comprehendeu a grande figura de Fausto, mas pôz divinas vibrações nos labios de Margarida, o grande Rossini não pôde erguer-se até á região onde desvaira a alma de Othello, e ficou-se a chorar um chôro celeste com Desdémona, debaixo do salgueiro.

Assim tambem Verdi, o luminoso Verdi, não comprehendeu aquellas trevas, que Shakspeare derramou na alma de Macbeth.

Verdi, o musico querido dos mexicanos, dos americanos, dos russos e de nós outros, os portuguezes, é, realmente, o unico compositor italiano verdadeiramente sério que ficou, depois do desgraçado Donizetti; Rossini retirou-se da arte.

Verdi tem um talento vigoroso, apaixonado mesmo, mas falta-lhe o lume santo, o desvairamento ideal, o deus, aquelle sôpro de que falla a _Biblia_. A sua musica é profundamente materialista: é uma melopêa energica e estridente: é uma melopêa colorida e pesada: ha mesmo o quer que seja de rigido e de metallico n'aquella sonoridade sensual: elle sabe excitar as sonoridades materiaes, mas não consegue arrancar a alma do seu vestido de carne e leval-a, núa e possuida do infinito, pelas regiões das surpresas radiosas.

Todo o enthusiasmo que Verdi tem alimentado na Italia, provém do momento grave em que se revelou.

N'esse tempo a Italia revolvia o poema convulsivo da sua reconstituição: os italianos, que tinham adormecido n'aquella rede tecida com os raios do sol, que se chama a preguiça, começavam a erguer-se e a experimentar os seus musculos frouxos e amolecidos de amor e de sonhos. N'esse momento Verdi foi pela Italia com um canto poderoso, em que os libertamentos batiam as azas. Aquella musica apaixonada, ardente e vermelha, enrijava as enervações e couraçava as energias: e a Italia seguia com idolatria o poeta, que lhe soprava na alma, com o amor das epopeias, o amor das liberdades.

No Norte, quando a Allemanha, no tempo de Napoleão, começou a pensar no seu passado, como no deus porque havia de bradar no dia das batalhas, apparece uma musica nacional, a de Spohr e Weber, que canta as velhas poesias da Allemanha, melodias feitas quasi dos cantos populares, que diziam, outr'ora, á tarde, nas encruzilhadas da Floresta Negra, rhapsodos errantes: e quando a grande patria, ouvindo as caçadas de Samosel pelas florestas da Thuringia, os estremecimentos dos elfos vaporosos pelos prados Hyrcinios, e todas as velhas mythologias do Rheno, vivendo, soffrendo, voando, susurrando n'um livre canto, ergueu-se terrivel, entoou tambem, ella, o velho canto de Luthero, couraçado de ferro, e atirando para longe a sua roca de Margarida, ficou, sevéra e illuminada, esperando junto do Rheno, tendo a um lado o espectro da honra e a outro lado o phantasma da justiça.

Verdi, ou instinctivamente ou intencionalmente, fez em parte, no Sul, o que tinham feito os poetas do Norte: nem todos aquelles enthusiasmos foram fecundos: as duas patrias sangram ainda: e as flautas tristes do Norte, e as guitarras gemedoras do Sul só sabem aquelle chôro lento e doloroso de Rama, quando perdeu a esposada da sua alma: e não é verdade que a esposada dos povos é a liberdade? Pobre Italia! Pobre Allemanha! Deus vos envolva n'um olhar de benção e de repouso, n'este tempo em que estamos, que é a vespera das agonias!

Mas, voltando ao _Macbeth_, é certo que Verdi fez d'aquella figura desvairada um heroe italiano, melodioso e mau. Por toda aquella opera anda errante um terror transparente e molle. Será porque a musica, a meiga errante do espiritualismo, não póde comprehender aquellas duas almas pavorosas saídas da noite e pesadas de materia? Não sei. O certo é que aquella opera parece uma transfiguração do velho Macbeth: parece que o velho heroe livido entrou n'este tempo moderno, amolleceu-se em voluptuosidades, perdeu-se em melancolias, teve as febres silenciosas da alma e assim, frouxo, doente, dessorado, vem com Lady Macbeth contar a sua velha legenda tragica sobre uma scena resplandecente. Com effeito, aquella opera faz saudades do drama de Shakspeare: era alli que Macbeth erguia o seu rosto erriçado de barbas, e invocava Hecate de tres cabeças: era por aquelle terraço, onde mugia o vento, que elles atravessavam, esguedelhados e convulsivos, para a camara de Duncan.