Portugal enfermo por vicios, e abusos de ambos os sexos
Chapter 3
Ah mantos, mantos! tempo abençoado, Em que tudo se via respeitado! Inda que ouço dizer a alguns espertos, Que os olhos estão hoje muito abertos. Tomára perguntar-lhes: Que tivemos Desta grande esperteza, que hoje vemos? Andarem raparigas pelas praças De noite, e dia expostas a desgraças? Mãis, e filhas chegando a tal estado, Que não temem do mundo o máo olhado? Agourar os cometas, que apparecem? Vêr Balões, que no ar desapparecem? Não dar credito a nada, que se lê; Porém dos Repertorios fazer fé? Viver de muitas tramas, e illusões? Usar-se pantalonas por calções? O cabello sem pós, chapéo redondo? Fallar, sem fundamento, com estrondo Nos Barcos de vapôr, e seu destino? No rapé ordinario, grosso, e fino? Não me devo metter n'outras materias; A decencia me pede lhes dê ferias. E viviamos nós tão atrazados? Traziamos os olhos bem fechados! Porém não sei de que he que quando havião Esses olhos, que d'antes não se abrião, Havia a boa fé, humanidade, Consciencia, moral, honestidade, Nos Officios Divinos devoção, Sério, respeito, boa educação: Disto nascião genios de ternura, Juizo, compaixão, amor, candura; Hoje notão-se, como raridades Encontrarem-se destas qualidades. Por todo o mundo espiritos inquietos Andão-se levantando como insectos, Não abração a paz, nem o socego, O de olhos mais abertos anda cego, Sendo desta mania o fim primeiro O saciar de sangue, e de dinheiro.
Portugal, Portugal! eu te lastimo, Porque he tudo verdade quanto exprimo! Eu vejo homens casados namorando, Que se vão por solteiros inculcando; Ás mulheres dos mais arrastão aza, E ardem se o mesmo mal lhes vai por casa, Sem se lembrarem que estas influencias Trazem comsigo tristes consequencias, E que fazer aos mais nunca devemos O que para nós outros não queremos.
Eu vejo huma menina das d'agora, Que por casar não quer estar hum' hora, E que inda que naufrague, e vá ao fundo Parece-lhe fugir-lhe já o mundo; Que até já de doze annos vejo muitas Fazendo aos chichisbéos certas perguntas, Dirigidas sómente a casamento, Que ás vezes se converte n'hum tormento; Quando algum dia poucas se casavão, Em quanto os dezenove não contavão. Mas que ha de ser, se a mãi de pequeninas Quer que pisquem os olhos as meninas! E fica por gracinha da criança O saber namorar muito em lembrança. Com esta educação se desenvolvem, Té que de graça a sério se resolvem, E sem que esperem ser fruta do tarde, Vão sujeitar-se ao jugo (Deos as guarde.)
Eu vejo certos genios de Senhoras, Que variando estão todas as horas, Muito doudas no modo de pensar, Por isso bem não podem acertar. Se adormecem mui fixas n'hum intento, Acordão já com outro pensamento: Fazem desta inconstancia mesmo alarde, O que são de manhã, não são de tarde. Em muitas se descobre este defeito, O qual tomão os homens muito a peito; Porque não sabem, vendo esta incerteza, Quando a mulher he falsa, ou tem firmeza, Quando zomba, entretem, ou falla serio, Ou se anda louca, de juizo aério.
Vejo algumas de genio impertinente, Que postas a fallar matarão gente Com gritos, que se mettem nos ouvidos, Que muitas ensurdecem os maridos. Surdos devião elles todos ser, Para o luxo das filhas, e mulher, Prendas, e dotes n'huma Dama boa No luxo não estão, sim na pessoa. Nossas avós, que em moças se casárão, De luxo com excesso não usárão; E se alguma comsigo mais gastava, Lindas sedas do Reino he que comprava: Das quaes, inda depois de ser usadas, Se fazião cubertas aceadas; E não podre filó com bordadura, Que tres, quatro lavagens só atura, Comprado por hum mimo rico e guapo, Que no fim de seis mezes he hum trapo; E o dinheiro a cahir pela invenção, Apezar da barriga não ter pão. Luxo no frontespicio he que apparece, Em tudo o mais pobreza se conhece.
Tambem do compromisso he a partida: E porque a gente seja bem servida, Vêm o opio do chá tambem por luxo, Ou agoa quente de enxagoar o buxo; Que não passando de agoa, e de fatia, Leva hum par de tostões: quem tal diria! E para que se bote a conta a tudo, Vamos vêr o que leva por miudo. Aparelho aceado, igual bandeja, Porque o brio da casa alli se veja: Perola, Aljôfar, ou Hisson, e Uxim; Carvão, manteiga, e assucar não ruim; Criadas de trazer, e de levar; Agoa a ferver até isto acabar. Anda a Dona da casa sem descanço Dando por toda a copa o seu balanço; Se de humas cousas tem, ha de outras falta; No aparelho o gatinho ás vezes salta; O estrondo, que elle faz, ouve-se fora, Parte á cozinha em sustos a Senhora: Vê seis, ou sete chavanas quebradas, E por desgraça são das emprestadas. Dá co'hum páo na criada, e mais no gato; Põe-se a moça a chorar, juntando o fato. Este o risco, este o trem, he esta a lida, Para pão com manteiga, agoa fervida! Ah tempos, tempos! Como estaes mudados! Onde estão as merendas dos estrados? Onde a crespa salada, e a ella junto O saboroso paio, o bom presunto? Perdeste, Portugal, costumes taes, E com elles perdeste os cabedaes! Querendo só com chá em abundancia, Que he tudo fórma, e nada de substancia, Crear todo o vigor, de que careces Nestas enfermidades, que padeces.
Vejo tambem Senhoras mui teimosas, E nas teimas, que tem, tão caprichosas, Que por levarem só a sua avante, Levantão testemunhos n'hum instante. Accelerão-se, gritão, e esbravejão, Só porque accreditadas melhor sejão. Se alguem as desmentio, temos historia, He offensa, que fica de memoria; Porque quem commetter tal attentado, Conte ficar por ellas mal olhado; Que huma mulher tem tanto de extremosa, Compassiva, amoravel, carinhosa, Como tem de raivosa, e vingativa, Delirante, indomavel, cega, e altiva, Se offendida se vê, ou tem ciume, Parece que dos olhos lhe sahe lume, E n'hum tal frenesi a pobre cai, Que d'alli a morrer mui pouco vai. Tambem as modas lhes vão dando a morte; Pois vejo-as em Janeiro áspero, e forte, De panninho, e de chitas armadinhas, De caças, de filós, ou de sedinhas: De dia em dia passão constipadas, Por isso vemos tantas descoradas, Com dôr de peito, com tossinha secca, Com pertinazes dores de enxaqueca. O homem no anno tem quatro estações; As Senhoras não tem senão verões. Elles abafão-se, ellas põem-se á fresca; Que he quando o reumatismo mais se pesca. Algum dia o baetão, panno, ou veludo Da Senhora era o trajo mais sisudo, Com que de inverno andava reparada Dos grandes frios, e áspera geada; E inda, além de ser isto uso decente, Raras vezes se via huma doente, Hoje agoas ferreas, ares de Bemfica, Banhos de mar, remedios de botica, Vão as Senhoras pondo em tal frescura, Que vão fartas de fresco á sepultura.
Ora pois, Portugal, eu te lastimo! E só para teu bem he que te intimo, Visto haver já mui pouco quem te entenda, Que tenhas nos abusos mais emenda. Quem a qualquer faisca acode logo, Não vê arder em casa hum grande fogo. Talvez por eu dizer isto, que sinto, Apezar de saber-se que não minto, Muita gente dirá que cuide em mim: Que deixe Portugal, e o Mundo assim; Que por mais que me empenhe na reforma, O Mundo não se afasta desta norma. Eu isso lhe concedo, não lho nego; Porém se em verso, e prosa assim lhe prégo, He para no sermão fazer-lhe certo Que o sei conhecer bem, e bem de perto.
E tu, ó Portugal, se inda te illudes, Os vicios confundindo co'as virtudes, Enlevado na moda, e nos abusos, Esquecido dos teus antigos usos, Filosofias novas não abraces, Com estes modernismos não te enlaces; Modifica os costumes, que te arrastão, Que inda o pouco, que tens, isso te gastão: Faze que resuscite de huma vez O honrado, e bom caracter Portuguez: Faze que as Bellas Letras possão inda Mostrar aos nacionaes a face linda, Que raiando de novo, como a Aurora, Dêm aos genios enfermos a melhora. E talvez possa então a mocidade Criar-lhes mais amor, mais amizade; Que n'hum espasmo tal, nesta inação De tão perniciosa educação, A tudo, quanto he bom, se perde o gosto, Nem de hum livro se lê sequer o rosto.
A mesma encantadora alta Poesia Appreço já não tem, como algum dia: Então era por todos estimada; Hoje está, como tudo, desgraçada. Feliz tempo de antigos Portuguezes! Camões, Sá de Miranda, Sá Menezes; Hum Castilho, huns Andrades, hum Ferreira, Castro, Teive, Bernardes, e Silveira; George de Monte-Mór, Franco Barreto, Do almo Virgilio Traductor completo; Candido Lisitano Mestre da Arte, Hum Bacellar, que em meu louvor tem parte; Hum Matos Traductor do grande Tasso, Educado das Musas no regaço; Homens de gosto, de arte, e natureza, Honra da Lingoagem Portugueza! Nos escriptos de então se descobria A sentença, a doçura co' a harmonia. Mais proximos a nós muitos respeitão Outros mil, cujas obras nos deleitão: Hum Tarouca, hum Penalva, hum Ericeira, De quem a alada Fama he pregoeira; Hum Gregorio de Matos bem sabido, Hum Alexandre, hum Pinto Renascido, Frei Simão, nos seus versos implicado Com este Renascido mal fadado; Hum Lobo Leiriense, Cunha, e Pina, Hum Padre Bras, que em graça não declina; Hum Duarte Ferrão muito erudito, Que produzio o Metrico Palito; (Se delle o proprio nome este não he, Conheça-se em Reitor da Nazaré;) Hum Brito de Vianna, hum Meliseu, Pimenta jovial no que escreveu; Hum Vilella, hum Basilio, hum Paradiz, Hum Gonzaga, hum Garção, douto Diniz; Claudio, Quita, Alvarenga, Hum Amaral, Hum Bandeira bastante social; O Sabio, e inimitavel Tolentino, Que aprendeo a viver no seu ensino; Bocage, Pimentel, Curvo Semmedo, O actual Orador Padre Macedo; Hum Padre Nascimento, hum Quintanilha, Com quem Apollo fez igual partilha; Dias em Bellas Letras eminente, Figueiredo no Cómico eloquente; Hum Torres, hum Massuellos, Lara, Azedo, Moraes, e outro estimavel Figueiredo: Cujos Nomes a Febo enchem de gloria, A Fama os leva ao Templo da Memoria.
Matos, que desde a idade juvenil Se casou com a Musa Pastoril: Tudo quanto escreveo hoje se preza; Por mostrar huma rara natureza. Dois Ribeiros, Brandão, hum vago Lobo, Que de critico a fama lhe não roubo; O celebrado Abbade de Jacente, Hum Theodoro com elle contendente; Hum Caldas Brazileiro, no improviso Engraçado, modesto, e com juizo: Sempre em qualquer assumpto discorria, Deixando, satisfeita a companhia: Se delle algum rival ha por desgraça, Aponte-me segundo, que isto faça!
Dois Barunchos, Otone, e mais Coutinho, Que acertárão das Musas no caminho; Hum Medina, hum Novaes, Maya, e Delgado; Hum Bersane no Lirico affamado, Severino, e Soares Portuense, Hum Maximo, que o iguala, se o não vence; Hum engenhoso Barros, que em viveza Prodigio mostra ser da natureza; Hum Cabral Transmontano ás Musas dado, Nobrega, que viveo tão desgraçado; Hum Guerreiro, e Belmiro, que honra o Douro: Todos a C'rôa tem do Febeo Louro.
Mais tres Vates, a quem faltou a vista, (Que remedio não ha, que lhe resista.) Hum Thomaz, hum Martins, novo Castilho, Qualquer delles de Apollo digno filho. Mas se dos olhos toda a luz perdêrão, No juizo outras luzes accendêrão. Hum Araujo, hum Lopes, hum Moniz, Mayo e Lima, que já ferir me quiz: Que inda apezar do ataque, que me fez, Jamais de o elogiar perderei vez; Que ataques de Poeta, inda os maiores, Como foguetes são de jogadores. Estes Genios harmonicos, que pinto, Lá no Premesse tem lugar distinto,
Hum Durão Padre Mestre Graciano Com Estro divertido Americano. Serra, Ferreira Lobo, o bom Forjaz, E o Beneficiado Velho Vaz (O consoante aqui me deo conselho, Para pôr Velho Vaz, e não Vaz Velho.) O Conego José São Bernardino, Filho tambem de Apollo, homem de tino; Campello, os dois Malhões, Mello, e Raposo, Carvalho, igual ao jovial Barroso; H[~u] Costa, h[~u] Bingre, h[~u] Camera, h[~u] Verné, Quintella, Xavier, Padre Soye. Dois Botelhos Professo, e Secular, Hum Antonio Ricardo, hum Aguiar. Estes Vates, que aponto, se conhecem, E huma eterna saudade nos merecem: Qualquer delles crédor de melhor sorte, «E outros, em quem poder não teve a morte.» Quasi todos nas obras, que deixárão, Seus Nomes sem vaidade eternizárão. Destes Vates mui poucos vivos são, E todos elles honrão a Nação. Confesso que hoje tenho a maior gloria Em trazer estes Genios á memoria. Mas que serve escrever grandes volumes, Se estão prevaricados os costumes! Quatro velhos, que lêm estes Authores, São os que inda lhes dão justos louvores; Que estes meninos de hoje (coitadinhos!) Estudão n'outras classes de livrinhos, Livrinhos, com que o demo quiz campar, Para as bolsas de todo entisicar. Pouca gente conhece, ou avalia O trabalho, que dá qualquer Poesia. Lêr, e rir bem se vê não custar nada; Compor empreza foi sempre arriscada; E por isso estimar-se mais se deve A penna, que em qualquer assumpto escreve.
Portugal, Portugal! eu te lastimo, Se com verdades taes te não animo! Sem se lêr, nada bom póde fazer-se; Edificios não ha sem alicer-se. Quem lê, e estuda a fundo sem jactancia, Dissipa as densas nuvens da ignorancia. Se já puzeste as Armas em descanco, Vai dar nas Livrarias hum balanço: Escolhe, compra, e lê; porque a lição Ha de accender-te as luzes da razão: Ella ensina, interessa, ella diverte, E póde dar juízo ao mais inerte. E se, seguindo a ordem, que me espera, «Eu nunca mais serei quem d'antes era,» Recordando o que eu digo alguns instantes, Portugal, tu serás qual eras d'antes.
* * * * *
_As cousas todas veja aqui mudadas Em tristes as que ledas ser soyão As tristes muito mais tristes tornadas._ Bernard. Cart. VI.
SONETO.
Soffreo Lysia hum Tremor de terra horrendo,[5] Seguio-se-lhe depois Traição ferina,[6] Rebateo de hum Leão furia, e rapina,[7] E pouco a pouco foi a fronte erguendo:[8] Por morte do seu Rei ficou gemendo,[9] E o Céo, por consolalla, lhe destina Soberana immortal quasi divina,[10] Que em paz o Povo seu ficou regendo: Hum Monstro de ambição, e de vingança[11] Surge do centro do sulfureo Averno, Perde a Europa o equilibrio da balança: Restaura Portugal seu bom Governo; Mas não vêr o seu Rei!.. Esta lembrança[12] O põe banhado em pranto, e em luto eterno.
Ao Author se mandou pelo Correio carta sem nome, datada de 22 de Julho do presente anno de 1819, na qual se lhe pedia, com o maior empenho, quizesse decifrar o seguinte Epitaphio enigmatico; e que na primeira Obra, que désse á luz, puzesse a sua definição.
Suspeita-se porém que a carta veio de pessoa gorda; e ou fosse escrita por basofía, ou por divertido ataque ao Author, seja qual for o motivo, elle vai a satisfazer.
_Epitaphio Enigmatico._
Ci git le fils, ci git la mere, Ci git la fille avec le pere, Ci git la soeur, ci git le frere, Ci git la femme, et le mari, Et ne sont que trois corps ici.
Responde o Author: Que logo que o filho seja hermaphrodito, temos neste aborto da natureza filho, e filha, irmão, e irmã em hum corpo só. No pai, e mãi temos marido, e mulher, que são dois corpos: por morte de todos, jazem só tres no tumulo.
Por outra: Tendo hum homem huma filha, e deíxando-a ainda criança, para ir viajar, quando voltou, casou com ella, por hum acaso, ignorando ser a mesma, que deixou de pequenina; e vindo a ter hum filho della, e a morrer todos tres pela ordem do tempo, indo todos á mesma sepultura, fica bem claro que alli se achão filho, e mãi, filha, e pai, irmão, e irmã, mulher, e marido, tudo em tres corpos.
Estimará o Author ter acertado, ou que algum dos seus curiosos Leitores descubrão melhor intelligencia, com tanto que não seja a que vem explicada no primeiro tomo do Divertimento de Estudiosos pag. 59, onde se acha este mesmo Enigma mais resumido; porque aponta, seis pessoas, e dá enterrados só dois corpos, como se vê no seguinte:
Cy gist le pere, cy gist la mere, Cy gist la soeur, cy gist le frere: Cy gist la femme, e le mary; Et n'y a que deux corps icy.
_Divertim. de Estud. Tom. I. pag. 59._
Agora roga o Author ao Amigo, que lhe escreveo a mencionada carta, queira decifrar-lhe tambem os Enigmas, Advinhação, e Charades, que se seguem, e que se não tirárão de Livros.
_1.º Enigma._
Eu sou hum Mundo sem gente, Figuro em qualquer trabalho; Humas vezes não sou nada, Outras vezes muito valho: Eu entro no Purgatorio, E tambem vou ao Inferno, Entrada tenho no Ceo, E estou ao lado do Eterno: Os Anjos de mim dependem, Os Virtuosos, e os Santos; No Mundo, sem ser aranha, Ando sempre pelos cantos.
O que isto será * O Leitor o dirá. *
_2.º Enigma._
Vinte e hum homens se embarcárão, Temporal os apanhou; Morrêrão vinte afogados, Temos hum, que se salvou: Este seguio a viagem; Mas comsigo sempre achou A conta dos mesmos vinte, Com que na praia embarcou; Que por sinal de amizade, Que sempre se praticou, Alguns as mãos apertavão Aos socios do que escapou.
Desejava-se saber * Dos vinte quaes vem a ser. *
_3.º Enigma._
Comprárão-se doze, Mas seis estruidos, E forão por doze, Os seis repartidos: Com partes iguaes Os doze ficárão; Porém os perdidos Aqui não entrárão: E faz esta conta Ser certa, e ser boa, Caber huma inteira, A cada pessoa.
Para melhor perceberes * Resta saber soletrar; * Depois disto conheceres, * Luzes podes alcançar * Vastas, para me entenderes. *
_Adivinhação._
Julgão-me todos riqueza, Porém ando esfrangalhado; E quem me vê neste estado, He que mais me estima, e preza: Minha mulher, sem benzer De quebranto, os mais defende; E quem de mófas se offende, A vai a outro off'recer: O ser branco, ou ser vermelho, Não me faz algum destrôço; Tanto me estimão em moço Como depois que sou velho.
Fita os olhos no que digo, * Gostarás disto comigo. *
1.ª Charade.
Se o principio do meu nome Vem d'Astro de claridade, He bem, que, sendo celeste, Seja o meio a caridade: E que o fim, de igual razão, Vos denote a compaixão; Vindo unido a defender, Vossa vida, e vosso ter.
Solta as redeas ao discurso, * Dá combinação, ás cousas; * Do Sabio he este o recurso. *
2.ª Charade.
A primeira, e segunda he mui veloz; Sendo aguda a terceira afflige, e mata; E quem reúne as tres, faz-se hum algoz.
Cabe na mente do esperto * Saber o quanto te digo; * Dorme, sahirás deste apêrto. *
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Amigo, escusas cançar-te; Por ter de ti compaixão, Nos versos, que tem estrella, Acharás a explicação.
Se Acrosticos não entendes, (O que não he natural,) He por que tens a cabeça Formada de pedra, e cal.
CATALOGO
_Das Obras impressas de José Daniel Rodrigues da Costa._
* Rimas I. e II. Tomo. * Theatro Cómico de pequenas Peças. * Almocreve de Petas, dividido na 2.ª impressão, em 3 Tomos. * Comboi de mentiras. * Espreitador do Mundo novo, em que vem as 6 partes dos Opios. * Barco da Carreira dos tôlos. * Jôgo dos Dotes. * Hospital do Mundo. * Camera Optica. * Tribunal da Razão. * Revista dos Genios. * Roda da Fortuna. * Os Enjeitados da Fortuna. * O Poema do Balão aos Habitantes da Lua. * E esta de Portugal enfermo por vicios, e abusos.
_Do mesmo Author se imprimírão avulsos os Folhetos seguintes._
* Quadras alegres aos Annos do Serenissimo Senhor D. Pedro Carlos, em 1804. * Quintilhas ao mesmo Senhor, em 1805. * Ditas ao mesmo assumpto, em 1806. * Quadras divertidas ao mesmo, em 1807. * Espelho de jogadores. Este Folheto vem tambem impresso na Revista dos Genios.
_Obras do mesmo Author, impressas do anno de 1808 por diante, ao vasto, e calamitoso assumpto da invasão dos Francezes em Portugal._
* Protecção á Franceza I. e II. Parte. * Partidista contra Partidistas. * Resposta á Proclamação, que em Hespanha fez o General Augereau. * Cantigas Patrioticas. * Surriada a Massena I. e II. Parte. * Conversação Nocturna das Esquinas do Rocío de Lisboa. * Carta de parabens, com hum Dialogo dos dois Generaes Francezes Filippon, e Bertier. * Encontro na Eternidade dos dois Generaes Francezes Marmont, e Bonnet. * Silva ao memoravel Lord Wellington. * Testamento engenhoso do Dom Quixote da França, ao partir para a Russia. * Canto funebre na sentida Morte da nossa Soberana a Senhora D. MARIA I.
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As pessoas curiosas podem esperar pela Parte II. desta Obra, para poderem então mandalla encadernar, junta com o Poema do Balão aos Habitantes da Lua, que assim lhes ficará hum Livro de 8.º completo.
_Vende-se esta Obra na Loja de Francisco Xavier de Carvalho, defronte da Rua de S. Francisco da Cidade; na de Antonio Manoel Polycarpo da Silva, junto ao Senado; na de Antonio Xavier Moreira, da Impressão Regia debaixo da Arcada; na de João Henriques, no principio da Rua Augusta; na de Antonio Pedro, na Rua do Ouro; na de Luiz José de Carvalho, aos Paulistas; e em Belém, na da Viuva de José Tiburcio. Preço 240 réis._
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[1] ... A desejada vinda dos nossos Soberanos.
[2] _Ameijoadas_, são noites perdidas: tirada esta palavra do Diccionario novo dos Tafues.
[3] _Patusca_, palavra tirada do mencionado Diccionario apenso.
[4] Hum tremor imaginario, com que em 20 de Agosto do presente anno de 1819 se intimidou parte do Povo de Lisboa, tomando em diverso sentido o que lhes dizia o Reportorio naquelle mez.
[5] O grande Terremoto do 1 de Novembro de 1755.
[6] O horroroso attentado na infausta noite de 3 de Setembro de 1758.
[7] A guerra da Hespanha contra Portugal em 1761.
[8] A reedificação da Cidade de Lisboa.
[9] A morte do sempre memoravel Rei o Senhor D. JOSÉ I.
[10] O feliz Reinado da Fidelissima Senhora D. MARIA I.
[11] O Tyranno do Mundo, assollador dos Povos, Napoleão Bonaparte.
[12] O nosso amabilissimo Monarcha o Senhor D. JOÃO VI.
Notas de transcrição:
O texto aqui transcrito, é uma cópia integral e inalterada do livro impresso em 1819.
Mantivemos a grafia usada na edição impressa, tendo sido corrigidos alguns pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a leitura do texto, e que por isso não considerámos necessário assinalá-los. Mantivemos inclusivamente as eventuais incoerências de grafia de algumas palavras, em particular quanto à acentuação.
Nesta versão electrónica, em texto simples, não é possível representar alguns caracteres usados no livro impresso. Usamos como substituto desses caracteres os seguintes marcadores:
[~u] = u com til por cima, corresponde aproximadamente a "um";