Portugal enfermo por vicios, e abusos de ambos os sexos

Chapter 2

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Portugal, Portugal! eu te lastimo! Com pena de te vêr, meus versos rimo! Eu agora he que bem tenho alcançado Quanto de tudo estás necessitado! Pois perdeste a sciencia, engenho, e arte, Que te deo sempre fama em toda a parte. Hoje vejo o teu mal, que não melhora, Se tudo o que precisas vem de fóra. Tens nos Collegios Mestres Estrangeiros, Tens de muitas Nações cem mezinheiros, Que com pós, e com balsamos subidos Vão as bocas limpando aos presumidos; E ainda não se dando por contentes, Té nos querem levar da boca os dentes; Equilibrios, Balões, e Peloticas, Urso, e Macacos com trezentas nicas, Figurinhas gesso, outras de cera, Nynfa, que n'harpa em dedilhar se esmera; A Menina, que falla pendurada, A boa Dançarina escripturada, Que hum par de mil cruzados vem buscar; E nós he que ficamos a dançar! Outra, que tem a voz quasi divina, Como já se chamou á Zamparina; Outro, que engole espadas brancas, pretas, Como nós engulimos estas petas; E outras mil subtilezas deste lote; Vistas de praça, ou sala, ou camarote, Com armadilhas taes vem esta gente Na vagante esperar a grossa enchente, E carregando vão, como as formigas, Quanto podem tirar destas fadigas! Só Portuguezes nunca tenho visto, Que vão aos outros Reinos fazer disto. Estrangeiras Modistas se apresentão, Com letreiro á janella do que inventão; Que as Modistas de cá, bem que trabalhão, Á vista das de fóra já não calhão. A si se accolhe o pobre aventureiro; Porque lhe basta o nome de Estrangeiro, Para abrir loja, e ser afortunado. Veio do seu paiz esporeado, Chegou aqui, poz loja de vestidos; E ficão os tafues mui bem sortidos. Tem fato para magro, e para gordo, Té desapparecer, pondo-se a bordo: Caridade em tal gente sempre luz, Pois vem a Portugal vestir os nús. Mas dizem muitas lingoas mal dizentes Que elles não vestem; vem despir as gentes. Nada tem escapado, ou esquecido, Para o metal, que tinhas, ser sumido. Nós gememos em quanto os outros luzem; Té barricas de pinos se introduzem; Porque o pino de fóra, por mais duro, Deixa o tacão mais forte, e mais seguro. Se até vejo substancias combinadas, Nos paizes estranhos preparadas, Para pôr bom cherume nas panellas, E fazer hum bom molho ás cabidellas: E disto haverem lojas em Lisboa, Que por caixeira tem Madama Grôa! Eu inda espero vêr na Barra entrados Navios com almoços já temp'rados; Que ha de ser huma cousa bem acceita Vir já prompto o Café, torrada feita! Porém nós he que disto culpa temos, Porque de nós apreço não fazemos. Até he riso vêr, termos trocado O traje, que entre nós foi sempre usado, Pelos trajes de todas as Nações, Que abandonão çapatos, e calções. Nem a meia comprida já governa, Anda dentro da bota nua a perna, Como eu a boa gente tenho visto; Os Mouros pouco mais fazem do que isto. Vejo entrar em lugares mui sisudos Velhos, e moços, quaes pintos calçudos, Pantalonas; polainas de Galegos; Só resta usarem calças, como os Gregos. Confessemos que he este o nosso fraco; Que arremedar he o uso do macaco.

Eu vejo pela classe dos Livreiros Lucros tirarem só os Estranjeiros. Que direi de Edições, que vem de fóra? Façamos aqui pausa por agora. Só sei que a mocidade, com deleite, Bebe em taes livros venenoso leite; E os Livreiros de cá postos ás moscas; Que as obras Portuguezas são mui toscas; O sainete não tem, nem a belleza, Que mostra qualquer obra, se he Franceza. Arte de cortar callos sem tisoura, Modo de conservar a barba loura, As Cartas de Madama Patulher, A Novella da Meza sem Talher: Instrucções, e Preceitos de Dentistas, Invento de crear galos sem cristas. O caso he ser Francez o tal livrinho, Que he da meza d'agora o melhor vinho. Livreiro Portuguez apenas vende Cartas, por onde o A, B, C se aprende, Bilhetes, com que Boas Festas damos, Outros de Enterro, que he que mais gastamos, Letras de Cambio, Pautas, Taboada, Roteiros de Pilotos, e mais nada. Parece que ninguem já hoje estima Composições em Prosa, nem em Rima. Acabou todo o gosto da Leitura, Tudo vejo mudado de figura. Nas obras, que se imprimem, (não se crê) Ha tal, que assigna, accoita, e não as lê! N'hum destes o trabalho se perdeo, Que não póde achar gosto ao que não lêo.

Portugal, Portugal! tu tens comtigo Immensa gente, de quem és abrigo, Que devendo-te mil obrigações, Mostrar-te sabem só ingratidões. A primeira, que vejo praticar-se, He nada, do que he teu, hoje estimar-se. Fabricantes de cá morrem de fome; A sedinha estrangeira he que tem nome. Não valem nada Artistas Portuguezes; Os de fóra são só as boas rezes. As obras do Paiz não são perfeitas, Não tem fama, ou valor, são mal acceitas; Mas a quinquilheria de armação, Se he de fóra, tem logo estimação, E serve para o luxo, e para a moda, Que Damas, e Tafúes tudo se engoda Com estas bugiarias de tecidos De pedraria falsa, ouros fingidos; Té vemos entre tantas bagatellas Os Mouros com caixotes de chinelas, E tão bem feitas como os seus narizes, Que bem mostrão ser obra de aprendizes. Todos tem aqui seu manancial, Até ficarmos todos sem real. N'outro tempo hum Fidalgo desta Côrte, Homem de bom pensar, e de bom porte, Puxou por huma caixa rica, e boa, Feita por certo Ourives de Lisboa. Todos os circumstantes, que se achavão Sentados ao jantar, vendo-a, pasmavão Por tanta perfeição, lavor, e arte, Que se lhe descobria em toda a parte. Na mente de ser obra estrangeirada, Foi por todos a caixa elogiada. Logo o dono da casa mui gostoso, Porque ficasse o Ourives mais famoso, Conhecer mesmo alli a todos fez Mão d'obra ser de Ourives Portuguez. Apenas semelhante voz se larga, Como quem prova cousa, que lhe amarga, Hum notava d'alli certo defeito, Outro lhe achava falta de preceito. Então o bom Fidalgo decisivo Os reprehendeo dizendo: Eis o motivo, Porque a nossa Nação tanto padece, E entre as outras Nações nunca florece; Nós he que assim fazemos desgraçados Homens, que devem ser eternizados; E estes devem queixar-se com razão, Vendo dos seus o premio, que lhes dão.

Portugal, Portugal! eu te lastimo! Porque sou próle tua mais te estimo! Pois não entro no rol das almas fracas, Que a tudo, e a todos vírão as casacas! Eu vejo formigueiros de usurarios, Que vão muito subtís por modos varios Movendo sagazmente a real mola, Até tudo ficar pedindo esmola. Some-se pouco a pouco o numerario, Todos vão lendo o mesmo breviario; Para a vida mui poucas cousas bastão, As superfluas são as que mais gastão; O luxo, os appetites, as vaidades, A grande emulação das amizades: Só porque usa Fulana, e traja assim, Querêllas desbancar he logo o fim: Isto em todas as cousas se está vendo, Donde nasce o calote, e empenho horrendo; Que inda vendo que os lucros não acodem, Todos querem fazer mais do que podem: Por isso hoje bons trastes são vendidos, Que se herdárão de Avós mais comedidos; Se estes das sepulturas resurgissem, Talvez ficassem doudos do que vissem! Destruindo-se assim, sem reflexão, Cousas que tinhão tanta estimação; Que antes do que as penhoras as escalem, Vão pela terça parte do que valem; E ainda compradoras custa a achar, Porque todos estão a jejuar. Grande cousa he viver hoje demente, Para não dar valor ao que se sente! Inquietações, costumes, tempo, e mundo, Tudo atira c'os os homens para o fundo Porque por mais que nadem na desgraça, Velhice, Doença, e Morte, os ameaça: No que passamos, temos o presagio De ninguem escapar deste naufragio: Porém no mar dos damnos a tormenta, Nem o Ceo, nem a terra he que a fomenta: Huns aos outros nós mesmos atormentamos, Com coração de bronze, flagellamos: Só o proprio interesse he que nos guia E pene quem penar nesta ingrezia. Assim dando se vai cabo de tudo, Té acabarmos todos em agudo: Todos vamos ficando como espetos, Em tristes descarnados esqueletos, Huns de calvas á mostra, outros tapadas, Que a urgencia faz cabeças escalvadas; Seguem-se os estupores, e malinas, Paralysias, mortes repentinas. Nunca vi tantos homens com achaques Pelas repetições destes ataques. Nestes tempos só vive satisfeito O homem de baixa esfera, porque o peito Não toma nem fortuna, nem desgraça; Com o pouco, que tem, com isso passa; Pois não pezão sobre elle obrigações De familias com certas sujeições. O homem de bens, de honrados sentimentos Vive sem ter resurça hoje em tormentos; Vive, mas hum viver apouquentado, Com a fome, e miseria sempre ao lado. Porque hum pai de familias com despeza, Vendo os recursos todos em fraqueza, Se nas faltas, que sente, mais discorre, Chora, pasma, esmorece, abate, e morre. Ora seja em desconto de peccados, Irmos todos á cova entisicados! Para não carregarmos aos irmãos, Que andão tambem (coitados!) pouco sãos.

Eu vejo cambiar, vender dinheiro, Que põe quem compra, e vende de poleiro; E os pobres opprimidos, arrastados, Que estes são quasi sempre os cambiados. E pegou em Lisboa o novo officio, Com a capa de ser hum beneficio: Tudo especulações destes Senhores Compassivos, civís rebatedores, Que pudérão achar seguro meio De mostrar não querer suor alheio; Porque _in verbo_ papel a conta he justa, Pois o vendem por menos que lhes custa; E mostra na consciencia ser exacto Quem compra caro, e vende mais barato. Disto nossos Avós nunca tiverão; Forão-se, não sabendo o que perdêrão. Parece que por manha, ou por estudo, Se esconde o ouro, e prata, cobre, e tudo, A fim de com tal fome, e taes empates, Não se acabar a praga dos rebates. Lembro-me que na minha mocidade Tinha o dinheiro a mesma validade; Hoje o Papel Moeda dominante Sempre o recebo em quarto minguante; Pois se em metal o quero vêr tornado, Logo he por _manos limpias_ maquiado. Porém do mal o menos, feliz eu, Se alcançasse em Papel tudo o que he meu. Se o dinheiro se vende assim patente, Tambem se vende gente á mesma gente. O Commercio afrouxou, todos se chorão, Vendo que de fortuna não melhorão. Tem atacado a Praça em viva guerra Tantos Piratas, que ha por mar, e terra. São entre nós fazendas genuinas. Chinelas, suspensorios, lamparinas, Papeis de castiçaes, graixa a tostão, Caixas de obrêas, bolas de carvão. As escôvas, que dão lustros mimosos, Porque inda não estamos bem lustrosos. Só nisto he que se faz algum negocio, Tudo o mais pede chuva posto em ocio.

Eu vejo homens hypócritas tratando Negocios de ir os outros depennando Com fallas divinas, astutas manhas, Com Deos na boca, e o demo nas entranhas. Não querem encarregos para a morte, Por isso se regulão desta sorte. He desta gente o calculo seguinte; Tudo que vale cem, comprar por vinte. Alminhas boas, que andão entre nós! Que do dinheiro são sempre hum cadoz. Eu rio quando vejo estes beatos, Sanguisugas, e esponjas de contratos; De olhos meios fechados a fallarem, Até os seus int'resses ultimarem; Mas depois dos ajustes serem feitos, Abrem os olhos tortos, ou direitos, Ora pondo-os no chão, ora no Céo, Que este he da hypocrisia o grande véo: Té que lhe chega ás vezes neste estudo Revéz, em que o diabo leva tudo.

Portugal, Portugal! eu te lastimo! E quando te analyso, desanimo! Destes estratagemas, e usos novos Provém os muitos damnos dos teus Povos, Eu vejo certos homens presumidos, E nos cargos, que tem, tão embebidos, Que por viverem fartos sem desgraça, Assentão que são feitos de outra massa, E mostrão se a fallar todos inchados, Que parecem perús enchouriçados, As palavras soltando, como Oraculo, Decidindo por si em todo o obstaculo: Tratando os que lhes são inferiores, Com soberba, impostura, e dissabores, Sem verem que huma falla mais ardente Dobra o flagello ao triste dependente; Que tem de hum bom Despacho a qualidade A resposta civil de humanidade.

Eu vejo homens de grandes ordenados, Que fazem os dos outros ser quartados; Os que elles tem, sempre achão ser pequenos, Mas querem que o dos outros fique em menos; Que o triste pão, que o empregado come, He que augmenta a despesa, e que faz nome; Mas o que elles desfrutão inda occulto He huma bagatella, não faz vulto. Não maculo ninguem, porém ha disto, Como eu por muitas vezes tenho visto. Isto com alvo certo não se entende; Quem tiver este vicio, que se emende, E singular fazer-se não intente Á custa do flagello da outra gente.

Eu vejo té nas mesmas Irmandades Disputarem-se em meza qualidades; E nos públicos actos distincções, Como se a Deos servissem gerações; Quando a Igreja é a Mãi do rico, e pobre, Do velho, e moço, do plebéo, e nobre. Porém assombrar isto me não deve; Se ha Juiz de irmandade, que se atreve A separar na Igreja o challe, e a manta Da capa e lenço; isto mais espanta.

Eu vejo gente mui temente a Deos, Que até quer penetrar segredos seus. Prognosticando está tremor de terra,...[4] Bem como se o tremor fosse huma guerra, Que os homens entre si movem, se querem, Só pelos seus caprichos defenderem. Se o Repertorio désse hum tremor certo, Tinhamos hum Profeta descuberto; Que os fundos mineraes em quem bem pensa, Pódem casar co' os astros sem dispensa; Nem Deos castigo algum ao mundo envia Por calculos geraes d'Astrologia. Mas he para pasmar vêr que houve gente Tão crédula, tão frouxa, tão demente, Que para o campo grande se ausentava Com susto do tremor, que se esperava! Como se taes estragos, e ruinas Houvessem de ter vesp'ras, e matinas. Com effeito o tremor foi grande assumpto Para gente, que espera inda hum defunto. Em fim houve no campo nova feira, Onde a gente passou a noite inteira Em huma companhia historiada. A noite das fogueiras em Almada Não se passa com mais satisfação! Foi huma noite mais de São João! Com medo do tremor, que não havia, Na vespera fugião já de dia Para o campo lindissimas mochachas Com os seus taboleiros de bolachas. Homens de quartas de agoa se ajuntárão, Que apezar do seu medo, inda lucrárão. De guitarras sómente havia falta, Que he com que nas Gavotas mais se salta. Não se fazia Terço, ou Oração, Porque o susto pôz tudo em confusão. Se viesse instrumento, tarde, ou cedo, Perdião as meninas mais o medo. De acabar com os homens já são horas; Vamos ajustar contas ás Senhoras.

Eu vejo o luxo as bolsas devorando, E as Fabricas estranhas sustentando, Pondo a nossa Nação empobrecida Co' appetite das modas illudida. Cada mez huma cousa de outro gosto, Que a maridos, e pais lhes dá de rosto. E as tafulas cahindo a todo o risco, Bem como o passarinho cahe no visco: Vestidos de magnifico valor, Chailes, e mantas de mimosa côr. Muitas diversidades de filós, E outras taes tentações: pobres de nós! Eu vejo muita cousa vir de França, Enfeites, que de os vêr a vista cança; Té cabelleiras vem para Senhoras, A quem as calvas são mui devedoras, Feitas de coifa elastica, e mui preta, Com hum monête, em ar de maçaneta: Porém estes modernos penteados. De cabellos puxados, repuxados, As cabeças vão pondo em tal figura, Que fazem seja calva a formosura. De França nos vem outra corriola, De que usão as Senhoras como estola: He numa tira elastica de rufos, De espaço a espaço tem tambem seus tufos, E chamão-lhes da moda as inventoras Os modernos caprichos das Senhoras: Custão a tres mil réis, outros a mais; E assim com estas cousas, e outras tais, Vem o sagaz, e o lepido estrangeiro, A trocar aqui trapos, por dinheiro. Resta virem de França bem bordados, Elasticos cueiros perfumados, Que ha de ser hum aceio bem acceito Para tanta criança que ha de peito. A filha da arrastada vendedeira Quer trajar á fidalga, e ser primeira. Leiteiras, e outras taes eu tenho visto, Que de todas as modas são hum misto; Atrás de hum burro de ceirão cançadas, De rufos, e de folhos enfeitadas, Que vão com estas vãs tafularias Vendendo leite, nabos, melancias; Mas no que esta gentalha tem errado He não conhecer bem o seu estado; Querendo co'a mais louca presumpção Huns, e outros mostrar o que não são: Procedendo huma tal desigualdade Da falta de juizo, e honestidade. E porque não ha nisto meio termo, Te vejo, Portugal, bastante enfermo! Da fórma que isto indico, não insulto; Mas póde percebello o mais estulto.

As nossas circumstancias, nosso estado Pedem hum viver hoje acautelado. Os tempos para o rico, e para o pobre Já são de pouca prata, e muito cobre. Ninguem póde fazer hoje thesouro, He hum milagre o vêr quartinho em ouro: Muito faz quem com boa economia Se sustentar hum dia, e outra dia; Que se entrudos fizer amiudados, Ha de ter muitos dias de finados. Luxo na mêza, luxo no vestido, Pelas funções hum luxo desmedido, No fim se lhe acha o erro que desgosta; Por isso tantas náos tem dado á costa!

Eu vejo reviver nos nossos dias Das velhas as ridiculas manias De verem cousas más, pregando peças, A pedir Missas, a ultimar Promessas, Deixando-as as visões, que lhes fallárão, Tão doentes do susto, que mamárão, Que se queixão de dores nas barrigas, Talvez por hemorroides, ou lombrigas. Huma diz que observou, outra que vio, Outra que até na cama lhe bolio. Ha pouco em certa casa huma donzella Levantou por medrosa huma balella, Porque sentio á roda do seu leito Andar hum ermitão muito direito. Logo huma desdentada velha tia Respondeo, que de noite ella sentia Jogar-se pela salla muito a bola, E outras vezes tambem tocar viola: Que guardava comsigo este segredo, Porque a familia não tomasse medo. Acudio a criada delampeira, Levantando na casa igual poeira, Dizendo que ella vio na chaminé Hum pretinho pequeno posto em pé: Que vira fora de horas na cosinha A cantar, como gallo, huma gallinha, E que lhe forão pôr o seu capote, E côco de esfregar dentro do pote. Mas tudo isto fazia hum tal criado, Que andava da criada namorado; Porque o dono da casa com disfarce, Macaco velho, por desenganar-se, Foi-se na carvoeira introduzir De noite, sem ninguem o presumir; E vendo na alta noite bem a fundo Duas almas, que inda erão deste mundo, Que era o moço co' a moça conversando, Ao encontro sahio, mas perguntando: Que querião d'alli, ou a que vinhão? Ou se restituições algumas tinhão? Que trazia hum arrocho exp'rimentado, Para lhes acabar aquelle fado. E depois de molhar a sua sopa, Impoz pela manhã, com vento em pôpa, As duas cousas más, e nesse dia Á familia pagou igual quantia.

Tambem em Campolide hoje acontece Hum caso, que aos das velhas se parece. Pois houve hum pobre alarve, que morrêo, E a seu filho em fantasma appareceo, Determinando a venda de huma vacca, Para pagar o panno da borjaca, Que escava ao mercador inda devendo, Por cuja causa andava padecendo. O filho foi fallar-lhe, por esperto, Porém veio de lá de horror cuberto; Cahio na cama trémulo, e doente, Que inda concorre a ir vêllo muita gente.

As cousas más serão cousa mui boa, Huma vez que appareção por Lisboa; Porque havendo nas casas esta fama, Foi-se dos Senhorios a derrama, Que vão a excesso tal subindo a renda, Que não ha já com casas quem se entenda; E se o inquilino pede huma equidade, Tirão-lhe seis tostões por caridade. Porém motins de noite nos sobrados, Fantasmas de lençoes pelos telhados, Deitada a fama destas pataratas, Só assim se acharão casas baratas.

Eu vejo das Tafulas a mania No luxo, com tão grande bizarria, Que parece, que perdem da lembrança Da vida á morte a funebre mudança; Engolfadas na moda dos vestidos, Nas guarnições, nos fôlhos, e franzidos, Não lhes vem hum instante ao pensamento Da guerra, fome, e peste o abatimento. Quem vê, que pelo mundo ha destes p'rigos, Deve temellos mais, como castigos Das vaidades, caprichos, soberbias, Desmazelos, excessos, fantasias; E pôr a tanto luxo hum meio termo, Que serve de enfeitar hum corpo enfermo. O tempo em consumir-nos he veloz, Não respeita Toukins, Rendas, Filós; He preciso pensar, com seriedade, N'um tempo de huma tal calamidade! Reformando-se vidas, e costumes, Que este tempo não he de antigos Numes, Huns fabulosos Deoses, que illudião Os povos, que a seu gosto he que os fazião. Vigia sobre nós a MÃO ETERNA, Que nos castiga, ampara, e nos governa; Escandaliza aos olhos da razão, Tanta desenvoltura, e perdição.

Tocando nas que são de baixa esfera, Esta gente tambem não se modera; Raparigas de brutos o retrato, Nutridas só, de vicios, sem recato, Criadas sem algum regulamento, Nem querem trabalhar para o sustento; Não buscão de servir decentes meios, Não querem aturar genios alheios; Quando muitas, que em casas tem servido. Fortunas tem achado, e bom marido; Mas querem exceder os seus limites, Sustentar luzimentos, e appetites, Nos péssimos int'resses embebidas, Se fazem desgraçadas, e perdidas, Máos exemplos de Mãis, Pais inhumanos, He que põem estas tristes em taes damnos; A Mãi, que a filha achar por manha tonta, Huma tunda lhe dê, por minha conta.

Vejo muitas Senhoras pela rua, Como se andassem pela casa sua, De sáia, e de jaleco sem mais nada, A cabeça composta de palhada, Na mão o indispensavel, n'outra o leque, Andando como doudas, téque téque: E isto sempre com tal desembaraço, Que hum passo não alcança o outro passo. Sem chaile, manta, capa, nem capote, Tendo a desenvoltura por hum dote: Perdida assim aquella gravidade Das sérias Portuguezas d'outra idade. Não digo, nem direi que he uso em todas Os excessos ridiculos das modas, Inda ha muitas familias commedidas, Honestas, sérias, graves, bem regidas. Fallo da que na rua encontro só, Sem Mãi, tia, cunhada, nem avó: Bem como a expatriada taverneira, Que partio do seu reino aventureira, Para pôr em Lisboa em qualquer parte Tasca com hum fogão, e hum estandarte; E que sem mais decencia, nem reparo, Vai ás praças comprar o seu preparo, Com vestido de chita, nús os braços, Touca de folhos liza, ou com seus laços. Por isto os homens todos mais se atrevem, Quando fallando estão, ou quando escrevem Contra hum sexo, que sempre foi perfeito, Mas que em parte vai tendo algum defeito Nos trajes, que adoptou á estrangeira, Com a capa de ser tudo á ligeira.