Portugal e Marrocos perante a historia e a politica europea
Chapter 3
Mas a par de tal emblema em terra mauritana, alli tem Portugal, acima de qualquer outro paiz, outros titulos para ser considerado, quaes são os que se revelam nas muralhas de tantas praças maritimas, em cujos derrocados baluartes ainda hoje se conservam salientes os escudos d'armas portuguezas, como testemunho d'aquelle alto valor e esforço que alli se amestrou para depois cumprir os grandes feitos do Oriente. Para além de Ceuta e Tanger, ao poente do Spartel e a dois dias das costas de Portugal, lá o estão assim attestando, Arzilla, Alcacer e Azamor, todas sobre o fronteiro Atlantico, até Mazagão tão desastradamente votada ao abandono em 1763 pelo despotico governo do Marquez de Pombal, quando de preferencia desviava suas vistas para as colonias do Brasil, a troco de tão erroneo abandono d'aquella ultima reliquia da conquista na Mauritania, e padrão de que até alli se dilatára o territorio de Portugal.
Ha impressões moraes que não escapam até áquelles cujo viver é quasi subordinado ao regimen brutal da força que lhes atrophia o espirito. Conhecem os mouros marroquinos que se nós fomos os primeiros em ir n'outras epocas combatel-os no seu ninho africano, a isso fomos com titulos mais legitimos e mais justificados, do que outros que mais pelo adiante e até em nossos dias os tem ido molestar, ás vezes mais por pretextos de prepotencia frivola, do que por justo desaggravo de offensas.
Os velhos resentimentos e antagonismos extinguiram-se de ha muito, cedendo o logar ás relações pacificas.
Já no seculo passado, reinando D. José I, a embaixada que em 1773 foi enviada a Marrocos assentar pazes, recebeu alli demonstrações de deferencia, e honrarias, que a outras nações não eram concedidas. Mantidas essas relações durante o seguinte reinado de D. Maria I, ainda ellas se perpetuaram regendo el-rei D. João VI a ponto que, querendo a côrte de Vienna pôr termo ás desavenças que entre ella e o imperio Marroquino se suscitaram, recorreu aquella ao governo Portuguez, como medianeiro para as compôr amigavelmente.
As relações pacificas e o trato commercial entre Portugal e Marrocos nunca mais foram alterados. Não será pois a Portugal que convenha ou pertença o rompel-as prepotentemente. Mas o que não deve esquecer, nem perder-se de vista, é a idéa, de que quando o destino d'aquelle Estado tiver de obedecer a outras influencias que hajam de promover o seu desmembramento, existe um conjuncto de circumstancias politicas que constituem outras tantas disposições aproveitaveis, para que sem ser a causa directa d'essa versão, não seja indifferente aos seus resultados. Quem já foi adiante de outros e não quizer ficar atraz d'elles, deve pelo menos ir a par.
A epoca das conquistas, tomando por pretexto unico o antagonismo de crenças ou o resentimento de armas, é já passada. Hoje estão em campo na politica outras luctas de interesses e de preponderancia. Vae decorrido o tempo em que a guerra se considerava mais um fim do que um meio. Tem-se visto porém adoptar uma politica nova, que como meio conducente a seus fins, aceita os factos e d'elles faz regra de direito pela medida da conveniencia.
Quando os presentimentos que ácerca do destino de Marrocos se vão fundando não só em supposições, mas em probabilidades que se hajam de realisar; quando houvesse de soar a hora da partilha como resultado de uma expropriação inevitavel por utilidade Europea ou por honra da civilisação, ao menos que ella seja effectuada de modo que a equidade não tenha a queixar-se da justiça.
E Portugal sob o ponto de vista historico, geographico e politico, deveria e poderia preparar-se para estar no caso de aspirar á competencia a que seus titulos possam dar-lhe direito.
A historia o ensina, a geographia o indica, a boa politica o aconselha.
A historia; porque foi Portugal quem alli primeiro poz pé e assentou dominio, como alargamento de territorio, e como um serviço então prestado á humanidade pelos resultados que d'ahi advieram. Desde Ceuta até Mogador, estão os padrões que assim attestam.
A geographia o indica, porque as columnas de Hercules, onde o Mediterraneo termina e o Atlantico começa, marcam e dividem o limite até onde as nações fronteiras d'aquem mar, teriam razões para disputar preferencia e competencia.
A politica o aconselha, não só porque a geographia o indica, mas tambem por isso que, se as questões de supremacia entre as nações do Mediterraneo, podessem dar a estas competencia para promover um desenlace que trouxesse o _delenda Mauritania_, como ha vinte seculos ellas sentencearam o _delenda Carthago_, outro elemento de politica internacional e de preponderancia de nações, não toleraria facilmente que o engrandecimento de alguma d'aquellas se estendesse sobre o Atlantico, dando logar á formação de um vasto dominio que traria a reproducção e os perigos do _summum jus, summa injuria_.
A Inglaterra, que no Mediterraneo tem seus postos de vigilancia, não poderia vêr com bons olhos, que a sua preponderancia maritima e continental houvesse de ser contrabalançada por uma tal dilatação de imperio que fizesse qualquer nação um potentado, e que assim justificasse seus ciumes e suas rivalidades. Mas haveria uma versão que as poderia evitar; um desenlace que neutralisaria aquelle desequilibrio; uma partilha que não encontraria taes perigos. Essa versão seria, a que restituisse a Portugal o que já fôra seu por conquista de armas sobre inimigos, mas que n'estas condições seria restituição pelo pacifico assentimento de amigos, e como justa retribuição de passados feitos.
As antigas columnas de Hercules seriam a moderna delimitação, não já do _mare internum_, mas sim da parte que caberia ás duas nações da peninsula fronteira, Hespanha e Portugal, aquella sobre o Mediterraneo, esta sobre o Atlantico.
Quando entre as especulações da politica européa se torne um ponto assentado e decidido a partilha da preza, não póde ser disputado a Portugal o direito eventual a ter n'ella quinhão.
Habilitar pois Portugal á eventualidade de rehaver o que já lhe pertenceu, e que por direito de preferencia melhor lhe deve ser restituido, é o bello ideal que se affigura como sendo o caminho para o levar a uma posição digna, desassombrada e considerada na communidade europea; e tal seria aquella versão mediante a qual, sem desperdicio de forças em aventurosas e longiquas expedições que revelam uma sobreposse de dominio com espirito exclusivista, e que muitas vezes significam esforços improficuos, complicações em politica externa, e até prejuizo não compensado em cabedal e vidas, e sómente para disputar palmos de terra em regiões inhospitas e sáfaras, melhor ensejo lhe désse para aproveitar taes forças e vontades, convergindo-as para mais perto e melhor caminho, e onde a posse e dominio seriam mais proveitosas em todo o sentido material e moral.
E poderá Portugal acertar no caminho a que o levariam aspirações taes como as que constituem o ideal acima indicado?
É este, como se viu, um ponto mui vago para exame; uma idéa d'onde podem germinar mais amplos concebimentos; um calculo politíco que póde subordinar-se a muitas probabilidades e eventualidades. Póde mesmo ser um sonho; mais do que isso, um delirio de visionario. Mas assim como Calderon de la Barca diz em seus versos sublimes, _la vida es sueño_, tambem ha sonhos que sem serem delirios, podem ser justas aspirações de quem tem vida; e desde que é licito conceber estas, tambem não é vedado o manifestal-as.
O bello ideal, esse sentimento que faz com que muitas vezes o nosso espirito se assemelhe a uma bussola moral, que percorre um horisonte cujos rumos são os vôos da nossa phantazia: esse bello ideal que em muitos casos é como um sonho passageiro que a reflexão bem depressa dissipa, tambem algumas vezes nos sorri á idéa com a perspectiva de o vêr tornado em realidade.
O bello ideal ahi fica assim consignado, talvez como imagem poetica, todavia como caso para meditação prosaica.
A perspectiva d'estas aspirações, será pois um vôo de imaginação, de breve duração e desengano certo, ou poderá ter visos de se tornar um pensamento persistente e uma feição susceptivel de realidade?
Poderá ser, e poderá não ser.
Na dependencia em que está de tantas eventualidades, a decisão pertence ao futuro. Mas quando para justificar taes aspirações, não bastasse a solicitude em vigiar as phases politicas do presente, e aguardar com previdente hombridade os acontecimentos futuros, bastariam os titulos que Portugal tem na historia de seu passado, facho de luz gloriosa que não se póde apagar, e que lhe dá direito á consideração das potencias de cuja cooperação possa tornar-se dependente a solução do grande problema.