Part 9
Impondo duração além das eras Numen te eriges, fanfarrão Bocage, Envesgando raivoso o vasto mundo Ante o teu throno serpeando a medo: Usurpador de louros soberanos, Ah! não aviltes o Apollineo solio Em que é dado reinar a augusto vate, Que equilibrando na invenção madura Potente phrase, se abalança aos astros, Até c'os deuses practicar suberbo. Os titulos sagrados me apresenta, Com que alardêas profanando Apollo: Esse idyllio, que tens em gran portento, Pensas te salva da vorage eterna? Fale o Tritão, que tu fizeste amphibio, Pondo-o na terra, namorando a nympha. Sonetos, glosas lhe attrahis louvores, Cheios de vento, que empanturra o Paula; Pêcco epigramma, que afugenta o riso. Fabulas tuas, traducções franjadas; Essas cantatas de Parny são roubos, Em que sedento de invenção campêas. Mas, Tantalo phebêo, em vão cubiças Á custa alheia eternisar teu nome. Busco debalde acção nas obras tuas, Que o desejado fim demande altiva; És emprestado vate: Italia o diga, Fale a Gallia tambem, d'onde saquêas Sem ter pejo os relampagos de gloria. Tentas medir-te c'o suberbo Ovidio, Na apoquentada epigraphe acoutado D'essa sem par metamorphose eterna, Aonde o triste pensamento enjôa, Pela enfadonha somnolenta phrase! Nas satyras não falo venenosas, Em que impera a calumnia, socia tua, Ou te divertes com tremendas caras, Com trombas, que se vão sumindo em lenços, Ou proferindo, como sempre, á tôa Mais outros chochos palavrões ensossos, Com que ha pouco louvaste o Ersaunio vérme, Porque falar só d'elle é dar-lhe a vida. Tu lhe mandas sequer desprenda um verso, Um pensamento eu só te peço ao menos, Que nas azas do metro e sentimento Não toque ouvidos só, como os teus versos, Mas subito alvorote o peito arfando; Eccho de auctores, pequenino Elmano, Sonoroso, monotono, apoucado, Que não sabes tirar pulsando a lyra Som, que arremede a voz da natureza, Hyperbolico auctor desesperado D'oucas repetições as obras matas, Coalhas a podre, insupportavel massa. Metrico impulso te flammeja a mente; Mas olha inda o declive em que és por ora De remontar á brilhadora esphera! Para colhêr no Pindo egregio louro Não basta deslizar canoro acento, Soltando de improviso o dique ás vozes. Mas debalde minha alma se afadiga, Que os meus conselhos só te valem risos; Porém desabafei, mostrei-te aos pangas, Que embasbacados te lauream nume, Qual o pastrano camponez papalvo, Pasma, encarando da cidade os nadas.
PAG. 129 — SONETO XIX.
A respeito da origem d'este soneto contou-se-nos que tendo Bocage sido iniciado em uma das LL∴ Maçonicas, que n'aquella epocha existiam em Lisboa (de que era Ven∴ Bento Pereira do Carmo, e Orad∴ José Joaquim Ferreira de Moura, ambos deputados ás Côrtes de 1821 e 1823, e bem conhecidos na historia politica dos nossos tempos modernos) frequentára durante alguns mezes aquella associação, assistindo ás suas reuniões, até que desavindo-se um dia com os II∴ por qualquer motivo que fosse, em um accesso do cholera rompêra extemporaneamente n'este soneto, que rasgou depois do escripto; mas alguem o tinha já copiado, aliás succeder-lhe-ia o mesmo que a tantas outras producções do auctor, irremediavelmente perdidas.
_Doctor macaco_ — José Joaquim Ferreira de Moura tinha effectivamente uma physimiomia _amacacada_ como ainda se mostra do seu retrato, e gaguejava algum tanto, segundo dizem os que o conheceram.
PAG. 130 — SONETO XX.
Tanto este como os que se seguem, XXI, XXII, XXIII, e XXIV acham-se impressos no tomo I da já citada edição de Bocage; mas pareceu acertado reproduzil-os por conterem variantes, como se verá da respectiva confrontação de cada um d'elles com o que lhe corresponde. Lá se encontrará tambem a indicação dos seus assumptos, que por superflua deixamos de trasladar aqui.
PAG. 135 — SONETO XXV.
Na collecção de Couto, já por vezes mencionada, vem este soneto com o seguinte titulo, que fielmente copiamos:
«Em dialogo, a certo Fidalguinho que, pedindo vir com licença a Lisboa da guerra do Russillon por cá se deixou ficar; até que o obrigaram a voltar: o estylo é rasteiro, attentas as pessoas que falam.»
PAG. 136 — SONETO XXVI.
A proposito d'este soneto, ajuntaremos aqui outros de assumpto analogo, que todos têm sido em diversos tempos attribuidos a Bocage, mas que de certeza sabemos lhe não pertencem. O primeiro é de Fr. José Botelho Torrezão, frade paulista, fallecido em 1806; — o segundo de José Caetano de Figueiredo, official maior que foi da Junta do Commercio; — o terceiro de Francisco Manuel do Nascimento. Dos outros não podemos assignar ao certo os nomes de seus auctores.
Do throno excelso nos degraus sagrados D'Assiz o patriarcha ajoelhára; E consta que d'esta arte se queixára Ao Deus, que rege o céu, e move os fados:
«Grande Deus, com que pejo relaxados «Vejo os filhos, que outr'hora abençoára! «Já entre elles o vicio se descara, «Já de Christo não são, da fé soldados!
«Eu te rogo, senhor, que aos loucos brades, «E lhe avives a fé no paraiso!…» Riu-se Deus, e lhe disse: — Não te enfades:
— Frades não fiz, de frades não preciso; Quando o mundo souber o que são frades, Ha de extinguil-os, se tiver juizo.
* * * * *
Encontrei certo Leigo franciscano, Com os olhos no chão, pedindo esmola; Dos hombros lhe pendia alva sacola, Celeiro, que dá pão p'ra todo o anno:
Queria o leigo armar-me um bello engano, E fazer-me cahir na corriola; Mas eu, que sigo esta moderna eschola, Só chicote darîa ao tal magano:
Como é possivel que a nação contente Mantenha ufana, e liberal soccorra A tão inutil, e ociosa gente?
Elles têm que comer á tripa-forra; Eu, por mais que trabalhe, ando indigente: Se o torno a encontrar, dou-lhe co'a porra!
* * * * *
Christo morreu ha mil e tantos annos; Foi descido da cruz, logo enterrado; E inda assim de pedir não têm cessado Para o sepulchro d'elle os franciscanos!
Tornou a resurgir d'entre os humanos; Subiu da terra ao céu, lá está sentado; E á saude d'elle sepultado Comem á nossa custa estes maganos:
Cuidam os que lhes dão a sua esmola Que ella se gasta na funcção mais pia..... Quanto vos enganais, oh gente tola!
O altar-mór com dous cotos se allumia; E o fradinho co'a puta, que o consola, Gasta de noute o que lhe dais de dia.
* * * * *
Padre Frei Cosme, vossa reverencia Se engana, ou enganar-nos talvez tenta: Quem as riquezas dá, quem nos sustenta, Não é de Deus a summa providencia?
Pois logo com que cara ou consciencia Esmola pede, e arrepanhar intenta Para o Senhor da Paz, ou da Tormenta? Tem Deus do home' acaso dependencia?
Tire a mascara pois, largue a sacola, E deixe o povo, a quem impunemente Em nome do Senhor escorcha, e esfola:
Á viuva deixe a esmola, e ao indigente; E não queira; hypocrita farçola, Foder á custa da devota gente.
* * * * *
Lingua mordaz, infame, e maldizente, Não ouses murmurar do bom prelado: Inda que o vejas com Alcippe ao lado, Amiga não será, será parente:
Geral da Ordem, prégador potente, No jogo padre-mestre jubilado, E tambem caloteiro descarado Pode ser que o repute alguma gente:
E que te importa que fornique a moça? Que pregue o evangelho por dinheiro? Que em vez de andar a pé ande em carroça?
Talvez que n'isso seja um verdadeiro Dos monges exemplar, da Serra d'Ossa, Pois que dos monges é hoje o primeiro.
PAG. 137 — SONETO XXVII.
Conforme a opinião de alguns, este soneto é do desembargador Domingos Monteiro d'Albuquerque e Amaral; — outros porém affirmam ser de Bocage. Os leitores assentarão o juizo que melhor lhes parecer.
PAG. 139 — SONETO XXIX.
Tanto este, como o que adiante segue sob n.° XXXII, andam em algumas collecções attribuidos ao Abbade de Jazente.
PAG. 144 — SONETO XXXIV.
Para perfeita intelligencia d'este soneto, que de outra sorte ficaria talvez impenetravel á percepção dos leitores, ajuntaremos aqui resumidamente a historia que forneceu o assumpto de tal composição, a qual não deixa de ser curiosa, e vae fielmente extrahida dos apontamentos, que a esse respeito nos foram communicados.
HISTORIA MARAVILHOSA DA INTITULADA BEATA D'EVORA.
Junto á porta de Alconchel, na cidade d'Evora, vivia em companhia de seus paes uma beata, moça de vinte e dous annos, e de muito bons bigodes, chamada Anna de Jesus Maria. Esta serva do senhor fora por algum tempo confessada de fr. João de Santa Euphrasia, da ordem dos Carmelitas descalsos, e morador no convento dos Remedios da mesma cidade; porém morrendo este, tomou-a debaixo da sua direcção espiritual um fr. Felix, que passados tempos teve de ausentar-se da cidade, e antes da sua partida traspassou a beata a outro masmarro da sua ordem. Este ultimo, satisfeito em extremo de tão bella acquisição, dava a Deus continuos louvores por tel-o ali enviado, a fim (segundo elle dizia) de dirigir e encaminhar para a bemaventurança aquella alma predestinada, cujas singulares virtudes apregoava por toda a parte á bocca cheia. Depois de terem ambos abusado por algum tempo da credulidade e fanatismo, não só do vulgo ignorante, mas até de individuos de mais elevada esphera, que por suas circunstancias deveriam julgar-se fora do alcance de tão ridiculas suggestões, entenderam o frade e a confessada que podiam levar a audacia mais longe, e concertaram entre si uma farça, de que esperavam colher um resultado maravilhoso. Começaram pois a assoalhar entre os seus conhecimentos que por divina revelação fora annunciado á beata que no dia de S. Miguel, 29 de Septembro de 1792, pelas nove horas e meia da noute havia de infallivelmente morrer; querendo Deus chamal-a a si no proprio instante em que completava os seus vinte e dous annos. A noticia d'esta especie de prophecia espalhou-se velozmente por toda a cidade; isso era o mesmo que os interessados desejavam; e grande numero de pessoas, preoccupadas pela opinião de virtude da sanctinha, aguardavam anciosamente o cumprimento da promessa divina. Chegado que foi o dia, em que devia realisar-se o vatecinio, o Arcebispo D. Joaquim Xavier Botelho de Lima, que era, ou fingia ser um dos que mais acreditavam nos embustes da beata, e do seu director, quiz authenticar o milagre, em modo que não ficasse logar para as duvidas dos incredulos. Mandou por tanto sahir da casa da sancta o padre confessor, e o prior do convento, seu fiel companheiro; e ordenou a quatro clerigos da sé que alternadamente assistissem dous e dous á beata, dia e noute, até chegar a hora prophetisada, para serem testemunhas do seu miraculoso transito.
Cumpriram os clerigos a determinação do prelado; e tudo correu na melhor ordem. Porém vendo que o praso promettido era passado, e que a sanctinha se conservava de perfeita saude, sem que apresentasse o mais leve indicio de uma morte proxima, entenderam que deviam retirar-se; despediram-se d'ella, e abalaram para suas casas. Ainda bem não tinham cruzado a porta, e já o pae da menina corria apoz elles, a annunciar-lhes que n'aquelle mesmo instante dera a alma ao creador! — Voltaram attonitos os bons clerigos, pezarosos sem duvida de não terem presenciado o prodigio; acharam-na com effeito já amortalhada no habito de Sancta Theresa; e para ser mais cabal o milagre, tinha as mãos e pés estigmatisados, com chagas similhantes ás do nosso divino redemptor! — Quem ousaria ainda duvidar da verdade, depois de tão claramente manifestada? Os clerigos promptamente se persuadiram, e correram logo a levar ao Arcebispo a noticia do successo.
Entretanto appareceu o padre confessor, declarando aos circumstantes, que já começavam a affluir, ter sido elle o que mesmo do convento impozera preceito á sancta para que morresse, logo que os clerigos sahissem; por quanto sem permissão d'elle o não podia fazer. Apresentou-se em seguida a communidade de cruz alçada, e começou a altercar com o parocho de S. Antonio ácerca de quem levaria aquelle bemdicto corpo para a sua egreja. O povo amotinado corria em chusma para a casa da beata; todos pretendiam ver com os proprios olhos tão estupenda maravilha… Eis que o frade começa a prégar com grande ancia, preconisando a defuncta pela maior de todas as sanctas nascidas em Portugal; narrou um milhão de suas virtudes, e milagres; affirmou a todos que Deus estava n'ella; disse-lhes que a adorassem; e finalmente, para mais enthusiasmar os pios ouvintes, volta-se para a bisbilhoteira, que jazia amortalhada, e diz-lhe: «Anna! Em virtude da _sancta obediencia_ abre os olhos!» (E ella os abriu, tamanhos como duas cebollas). «Anna! Cruza os braços!» (E a defuncta, que os tinha estendidos, os cruzou effectivamente). «Anna! Abençôa os que aqui estamos!» (E ella assim o fez). — Mandou-lhe que declarasse onde estava: ella respondeu que já tinha ido ao céo, e que lá encontrara fr. João de Sancta Euphrasia, que estava dizendo missa, o qual lhe dera a chuchar metade do calix! — Finalmente satisfazia com presteza a tudo quanto o frade lhe ordenava. Os espectadores enternecidos á vista de tantos prodigios, e lavados em lagrimas, começaram humildes a beijar-lhe os pés, tocando lenços, contas, e veronicas nas suas chagas. Repicaram-se os sinos por todos os campanarios da cidade; começaram de affluir em tropel os coxos, cegos, e paralyticos, que vinham com muitas lagrimas implorar o remedio para seus males: mas infelizmente para elles, sahiam como entravam.
Crescia de ponto a devota multidão, e com ella a desordem, até que as auctoridades tractaram de providenciar, mandando vir tropa, que poz fora a todos, com promessa de voltarem, ficando a final sós na casa o pae, e a mãe com a supposta defuncta. O official que commandava a tropa, tendo-se retirado para baixo, chegou porém passado algum tempo casualmenle á porta: e como ouvisse rumor de vozes no quarto onde jazia a sancta amortalhada com tochas accezas, empurra a porta de repente, e acha-a sentada muito á vontade, conversando sem cerimonia com o pae e a mãe! — Ella mal que o viu, estendeu-se novamente, e deixou-se morrer outra vez, querendo sustentar a impostura; e os paes com toda a presença d'espirito contaram ao official que sua filha lhes estava declarando o logar em que no convento dos Remedios queria ser sepultada. Aquelle, que já desconfiava de tanta maranha, deu logo parte do facto ao Arcebispo. Vieram medicos, e acharam-na mais viva que o azougue!
Descoberta a impostura, o povo amotinou-se novamente; mas d'esta vez com o intento de dar cabo da beata, a quem não podiam perdoar a illusão em que haviam cahido. A final foi mandada presa para o recolhimento de Sancta Martha. O reverendo padre confessor fugiu, e todos os seus confrades foram suspensos das ordens, e degradados para um convento do Algarve. Tudo porém ficou impune; porque passado algum tempo a beata sahiu do recolhimento, e casou com um soldado, e os frades regressaram para o seu convento, não se falando mais em tal.
Se a devota pantomima tivesse ido para diante, é provavel que mudariam a moça para alguma cella, e que d'esta sahissem para a roda netos de Sancta Theresa: como o corpo havia necessariamente de desapparecer do logar do deposito, os frades fariam crer á pobre gente que ella subira ao céo em corpo e alma. Que novo ramo de commercio tão lucrativo para a communidade, e tão proveitoso para as beatas bonitas! E quantas d'estas se terão engolido no mundo!
Além do soneto de Bocage, que deixamos transcripto no texto, a que apresente nota serve de illustração, outros mais appareceram ao mesmo assumpto. Os seguintes, que não deixam de ter seu merecimento, attribuem-se a Miguel Tiberio Pedegache:
I
De c'rôa virginal a frente ornada, Em lugubres mortalhas envolvida, A beata fatal jaz estendida, De assistentes contrictos rodeada:
Um se tem por já salvo em ter chegada Ao lindo pé a bocca commovida; Outro protesta reformar a vida; Porém ella respira, e está corada!
Que é sancta, e que morreu, com juramentos Affirma audaz o façanhudo frade, E que prodigios são seus movimentos:
O devoto auditorio se persuade: Renovam-se os protestos, e os lamentos; Triste religião! Pobre cidade!
II
Acredite, sentado aos quentes lares Nas noutes hynvernosas de Janeiro, Lendo em Carlos Magno o sapateiro As proezas crueis dos doze Pares:
Cream que vem as bruxas pelos ares A chupar as creanças no trazeiro; Comam quanto lhes diz o gazeteiro, De casos, de successos singulares:
Porém que uma beata amortalhada, Com a cara vermelha e corpo molle, E sancta, por um frade apregoada;
Que respire, que os braços desenrole, E seja por defuncta acreditada, Isto sómente em Evora se engole!
* * * * *
Voltando ao soneto de Bocage, digamos aqui alguma cousa com referencia ás distinctas personagens n'elle commemoradas.
_Heróe de bola chata, etc._ — Era D. José da Costa, marechal de campo, e governador d'Evora, que por morte de seu irmão mais velho veiu a ser conde de Soure, e tenente general. Foi elle o primeiro que com sua filha bastarda D. Maria José tiveram a honra de ser abençoados pela sancta beata, e de lhe beijarem os pés, tocando seus lenços nas chagas, que ahi se offereciam á veneração dos fieis, feitas prodigiosamente por meio do nitrato de prata!
_Falso pastor etc._ — O Arcebispo D. Joaquim Xavier Botelho de Lima, do qual acima falámos.
_O respeitavel Cunha etc._ — Antonio da Cunha Souto-maior, sargento mór do regimento de cavallaria d'Evora, que não obstante ser tido por homem instruido e desabusado, foi o segundo que teve a alta ventura de beijar o pé á sancta!
PAG. 146 A 162 — SONETOS XXXVI A LII.
Todos os sonetos comprehendidos nas paginas e sob os numeros indicados, foram por nós trasladados ha quasi trinta annos de um quaderno, que continha promiscuamente obras de Bocage, e de Pedro José Constancio, mas sem a devida separação; tornando-se por isso difficultoso, se não impossivel, discriminar com certeza entre ellas as que pertencem a um ou outro dos dous poetas; muito mais quando os estylos de ambos offerecem ás vezes tal similhança, que deixa indeciso o juizo mais experimentado.
Por conseguinte pareceu preferivel a idéa de os reproduzir aqui na sua totalidade; o leitor poderá fazer a respeito de cada um as observações que a sua critica lhe suggerir, e estremal-os-ha como for do seu agrado.
Pedro José Constancio, a quem indubitavelmente pertencem alguns dos sonetos a que nos referimos, foi bacharel formado em canones pela universidade de Coimbra, filho de Manuel Constancio, cirurgião da camara da Rainha D. Maria I, e conseguintemente irmão do nosso conhecido escriptor Francisco Solano Constancio. Falleceu antes de 1820, e conviveu no seu tempo com a maior parte dos poetas contemporaneos, particularmente com Bocage, e José Agostinho. Homem de vida extravagante, e desregrada soffria por vezes ataques de alienação mental, chegando a apresentar-se nú em pleno dia ás janellas da casa onde morava, no deserto da rua larga de S. Roque! Compoz grande numero de poesias, quasi todas licenciosas, e entre estas um poema allusivo á _fornicação dos cães dentro nas egrejas_, que sendo denunciado ao Intendente Geral da Policia por Pedro Alexandre Cavroé, deu logar á reclusão do poeta por alguns dias na cadêa do Limoeiro; e poderia ter peores consequencias, se não interviessem os rogos e empenhos de alguns amigos, que se interessaram por elle para com o Intendente. Enfermidades geradas pelos excessos venereos a que se dava, sem escolha nem reserva, o levaram a um estado valetudinario, attenuando-lhe as faculdades, e tornando-o incapaz de toda a applicação. Victima de seus desregramentos falleceu antes de completar quarenta annos de edade.
Entre as poucas composições suas, que se imprimiram, ha um soneto, que por engano foi inserido como de Bocage pelo editor do 4.° tomo das Obras poeticas d'este poeta, que sahiu á luz em 1812; posto que, mais bem aconselhado, o mesmo editor o expungisse depois na segunda edição do referido volume feita em 1829. Crêmos que os leitores não desgostarão de aqui o verem, pois que n'outra parte se não encontra.
SONETO
Para illudir o suspirado encanto, Por quem debalde ha longo tempo ardia, «Um ninho achei, oh Lesbia (eu lhe dizia) «Como é dos páes delicioso o canto!»
Assim doloso me expressava, em quanto Um alegre alvoroço em Lesbia eu via; «Ah! onde o deparaste?» (ella inquiria) «Vem (lhe torno) comigo ao pé do acantho:»
Por um bosque me fui c'os meus amores, Pergunta aos ramos pelo implume achado, E respondendo só vão meus furores:
Conhece… quer fugir ao laço armado, Na encosta a vérgo, que afofavam flores, Beijo-lhe as iras… fique o mais calado.
PAG. 165 — DECIMAS A UM TABELLIÃO.
Serão estas decimas effectivamente de Bocage! Ha quem o affirme, e quem o negue. Na duvida as deixamos ir; mas persuadimo-nos de que em qualquer dos suppostos, os leitores não nos levarão a mal a insersão d'ellas no presente volume.
PAG. 169 — DECIMA II.
Para intelligencia do equivoco em que o poeta fundou o pensamento d'estes versos, ahi vai copiado o titulo, ou explicação, que lhes poz A.M. do Couto ao inseril-as na collecção, a que por vezes temos alludido.
«Feita por occasião de Bocage estar hospede em casa de um amigo, e trazendo-lhe a criada para seu almoço um prato de papas de milho.»
PAG. 170 — DECIMA I.
Diz o referido Couto, que esta decima — «fôra improvisada a certo rancho de feias, que se iam banhar no Tejo em maré vazante.»
PAG. 171 — IMPROVISO.
Deu occasião a este improviso o facto de ter sido o Saunier preso em certa noute pela ronda do bairro como suspeito. No que toca a este individuo, e á sua historica gravata, veja-se o que se diz no tomo III da nova edição das Poesias de Bocage a pagina 414.
Alguem quiz, não sabemos com que razão, attribuir estes versos a Bersane; mas outros, que se dizem bem informados, sustentam que são de Bocage. Não achamos que o assumpto valha a pena da discussão; para ahi os lançamos, e os leitores ajuizem d'elles o que lhes parecer.
PAG. 172 — ELEGIA etc.
Dizemos a respeito d'esta peça o mesmo que dissemos das «Decimas ao Tabellião» (pag. 165) isto é, que não ha certeza de que Bocage fosse o seu auctor; mas achamos-lhe merito sufficiente para que os leitores não desestimem encontral-a aqui impressa pela primeira vez.
FIM.
INDICE DAS POESIAS QUE SE CONTÉM N'ESTE VOLUME.
Pag.
Ribeirada, poema 5 A Manteigui, poema 19 A Empreza Nocturna 29 Epistola a Marilia (_Pavorosa illusão etc._ ) 35 Fragmento de Alceu 43 Arte de Amar 47 Cartas de Olinda e Alzira (VII) 61 Sonetos (LII) 109 Miscellanea 163 Elegia á morte de uma Alcoviteira 172 Notas 177 «Refutações á _Pavorosa_ 180 «Sonetos etc. contra Bocage 199 «Sonetos contra frades 205 «Sonetos á beata d'Evora 213 «Soneto de P.J. Constancio 216
* * * * *
Nota do Transcritor:
Erros tipográficos de ortografia, pontuação e indentação óbvios foram corrigidos; quaisquer outros erros ou inconsistências foram mantidos como no original.
Texto rodeado de carateres de "underscore" representa texto em itálico (_itálico_).