Poesias Eroticas, Burlescas, e Satyricas de M.M. de Barbosa du Bocage não comprehendidas na edição que das obras d'este poeta se publicou em Lisboa, no anno de MDCCCLIII.

Part 5

Chapter 53,627 wordsPublic domain

Tu não podes saber, querida Alzira, Com que alegria as cubiçadas lettras Da tua Olinda foram recebidas! Não o podes saber, nem eu dizer-to. Que pura locução, que Amor ensina! Quam diff'rente linguagem da que falam Os livros, que me dá o meu Bellino! N'elles descubro o sensual estylo Que a modestia revolta, e que não quadra Ás puras sensações, que Amor excita. Phrase brutal, sem arte, e sem melindre, Qual despejada plebe usar costuma; N'elles de Amor os gostos enxovalha Mysterioso véo, que arrancar ousam Com mão profana d'ante o sanctuario Que Amor encerra, e d'onde o deus occulto Manda aos mortaes um cento de venturas. D'elles o numen foge, e por castigo Leva apoz si deleites, que não provam: Em vez de graças mil, de mil prazeres Priapeo tropel impios incensam. Dá-me tedio a lição de escriptos torpes, Onde o prazer fugaz, lassos os membros, Sob mil fórmas em vão se perpetua. Lassos os membros, lassos os sentidos, Debalde esgotam, soffregos de gostos, De impudicicia innumeraveis gestos. Morre a chamma, que amor mutuo não sopra; Como é vil a expressão, e é vil o goso Que uma _Thereza_, que outras taes francezas Em impuros bordeis gabar se uffanam! Foi-me preciso, Alzira, usar do imperio Que a um fraco sexo deleitosos modos Fagueiros, ternos emprestar costumam, Para do amante meu obter a custo De obscenas producções o sacrificio, Que o coração corrompem, e devassam Puros desejos, sentimentos doces. Mostrei-lhe que o prazer esmorecia De amavel illusão sem os preludios; E que, apezar dos seus vivos protestos, Se os sentidos assás lisonjeava, Mil emoções gostosas embotando, Impellido a gosar continuamente, Escravo do prazer na sua amante Não fartaria hydropicos desejos: Ardentes Messallinas buscaria, Entre os braços das quaes mais facil era Á vida termo pôr, que saciar-se. Cedeu às minhas supplicas, e agora Grato me diz — que se elle da ventura O caminho me abriu, eu n'elle o guio: Assim, quando os sentidos fatigados De amor se negam a esgotar delicias, Mana do coração inexhaurivel Prolifica virtude, que os alenta. Assim de gostos perennaes correntes Franquêa Amor, a quem o não profana: De Amor os gosos são como o diamante, Que, sem o engaste que tocar-lhe véda, Perdera a polidez, perdera o brilho. Ame o lascivo o mau, o torpe o obsceno: Eu em tuas expressões aprendo, Alzira, Como a ternura impera nos sentidos: E d'um, e d'outro regulando as forças, De amorosos tropheos requinta a gloria. O sensual atolla-se nos vicios, Cujo infesto vapor todo o corria De lançar-lhe no tumulo o esqueleto; D'outra arte aquelle, que libar suavisa Nectar, que Amor esparge aos seus validos, Das rugas, e das cans não teme o estrago; Que nos ultimos annos pode ainda Em seu transporte Amor beijar na face. Mas que exiges de mim? Pensas, Alzira, Que a rude Olinda como tu descreva A emmanação dos gostos, que se provam Quando o primeiro amor os desenvolve Da terna virgem no innocente peito? Reclamas a candura, de que usava Antes de me illustrar de Amor o facho? Ousas mesmo increpar-me de artificio, Porque eu não sube delicada têa Urdir aos olhos teus, porque eu não sube As effusões de amor envolver n'ella, E, qual me envias, dar-te digna offerta? Basta, tu mandas; vou obedecer-te. Tenho ante os olhos instrucções sobejas Para pintar o quadro dos deleites Que de dous entes n'um absortos brotam. Tu me dás os pinceis, o molde, as côres; E no meu coração, prezada amiga, Fecunda o goso meigos sentimentos, Que só acabarão, se amor acaba!… Que chimericos ceos fórma a impostura!.. Aonde móres delictas se promettem Que as de um amante, d'outro ao lado unido? Eu sonhava illusões, antes que fosse Nos mysterios de amor iniciada. Errava de um em outro labyrintho, D'onde os conselhos teus, amada Alzira, E Amor, dando-me o fio de Ariadna Me fizeram sair: deixam-me forças Para abafar o monstro, que meus dias Tinha de funestar com vãos temores, Filhos do erro vil, da fraude abortos. Qual vaguêa nas trevas sem acordo Perdido o tino, afflicto o caminhante, D'alta terra entre as faldas pedregosas, Ou de invia selva na espessura vasta; Aqui tropeça, ali se encontra, e bate, Macera as mãos, o rosto, e tenteando Um pé lhe escapa, cai, rola-se o triste, E n'um barathro crê despedaçar-se; Eis improvisa luz assoma ao longe; Attenta o infeliz, toma-a por norte, E dos p'rigos, que o cercam, se vê salvo: Taes tuas lettras para mim brilharam Na escuridão fatal, que me envolvia. Não espaçou Amor ditoso prazo Para no gremio seu a tua Olinda Bemfazejo accolher. Vira eu Bellino Passar uma, e mil vezes, attentando Com interesse em mim, attentei n'elle, Em seu terno olhar, e meigos gestos; Vi que um amante o ceo me destinava: Em breve os olhos meus lhe responderam Ás mudas expressões, que os seus diziam: Em breve as suas cartas, de amor cheias, Fizeram dar egual calor ás minhas, Accendendo os meus férvidos transportes. N'uma cerrada noute, quando ao somno Estava tudo entregue, Amor velando No meu peito, e no seu, a vez primeira Nos ajuntou em fim: elle exultava De indizivel prazer: eu me sentia Na agitação maior de gosto, e susto. Ao dar-lhe a mão, para o guiar de manso Té ao aposento meu, subito fogo Calou-me as vêas, penetrou-me toda. Mas quando, já fechados um com outro, Vi que seus gestos, mais que suas vozes, Sua ternura ousada me exprimiam, Lembrou-me o p'rigo, a que me havia exposto. Tarda lembrança, que cedia a embates De ignoto medo, que o rubor gerava! Queria eu impedir-lhe ardentes beijos, Mas vedavam-no as chammas, que accendiam; E ás primeiras caricias insensivel, Luctando entre o pudor, e entre o desejo, Em mil contrarias reflexões absorta, Meu silencio e inacção a empresas novas De maior valor, Bellino excitaram: Confesso, que devéras quiz oppôr-me A seus intentos no primeiro instante: Porém pouco tardou que abrazeada Em chammas voluptuosas, resistindo A seus esforços, mais lhe franqueava Facil accesso a proximos triumphos. Sentado junto a mim, lançando um braço Em redor do meu collo, até cingir-me. E obrigar-me a chegar ao seu meu rosto; Com a mão sobre os peitos inquieta, Que ao crebro palpitar os apressava; E os labios discorrendo os olhos, faces, Té fixal-os nos meus, ou por entre elles Confundindo os alentos, lançar chammas Dentro em meu coração, qual facho acceso; A ardente lingua sua unindo á minha, Ou, sobre o seio meu calando a bôca, N'elle impressos deixar seus proprios beiços. Com mão mais temeraria, do vestido Pela abertura a occultos attractivos Indo o fogo atear… Ah! que eu não pude Mais resistencia oppôr a seus desejos! Apenas leve fisga separando Um dedo seu, que um raio parecia, Tocou o sitio onde os deleites moram, Subito, alvorotados uns com outros Travando estranha lucta, me levaram Onde, fóra de mim, quasi sem vida, Só quanto então gosei, gosar podia. Dos membros todos foram engolphar-se As sensações ali; e só tornaram A ser o que eram, quando ao mesmo tempo Sua potencia intrinseca exhalando; Fiquei de todo languida, e abatida: O perverso Bellino attentos olhos Nos meus então fitando, quiz ler n'elles De que ficções minha alma se occupava. Foi extremo o rubor, que de improviso Minhas faces tingiu: lancei-lhe os braços, Escondendo meu rosto no seu peito, Por não poder suster-lhe as doces vistas. A minha terna acção atraiçoou-me: Que o maligno, pegando-me do rosto Com ambas suas mãos, mais me encarava; De confusa me ver folga, e se ufana, Com beijos mil parece devorar-me; Entre os seus braços mais e mais me aperta, E pouco a pouco sobre mim se inclina: Minha cabeça no sophá encosta, Meus pendentes pés trava, e os submette Entre os seus mesmos té que, em fim, de todo Senti do corpo seu o pezo grato. Meu leito era defronte: mas Bellino No largo canapé circ'lo bastante Habil athleta achou para o combate. Perplexa, em mil affectos engolphada, Irada, enternecida, em cruel lucta, Meus sentimentos todos labutavam: Um timido pudor activos fogos Contrariava em vão, em vão retinha Ignotos medos, soffregos desejos: Suspensa, e curiosa eu esperava Gostosa scena, em que prolixas noutes Pensando o que seria, despendêra. Em quanto d'esta sorte embellezado Me tinham taes idéas, já Bellino No phrenesi maior de gráu, ou força, Os meus secretos votos preenchia. Em torno da cintura levantados Meus trajos inferiores, sobre os joelhos Sentindo os de Bellino desprendidos, Alargando-me os pés, tomando entre elles Vantajosa attitude a seus projectos, Franqueando co'a mão facil entrada Á chammejante lança, que tocava O mesmo sitio, que invadíra o dedo: Forcejou para ferir-me com seus golpes, Com impeto tamanho, com tal raiva Que nem dos gritos meus se commovia, Nem podia o meu pranto apiedal-o; C'o forte impulso as movediças carnes Levava-me ás entranhas; da ferida Corria o sangue, mas sem que podesse Ao ferro assolador achar bainha. Seus dedos sanguinarios finalmente D'uma, e outra parte com vigor sustendo Flexiveis membros, redobrando as forças Da valente impulsão, a cruel lança Rompeu cruento ingresso… traspassou-me. Que dor, Alzira!… Dei tão alto grito Que Bellino depois disse o assustára, Bem que fosse de meus páes distante o quarto. Sem sentidos fiquei, em quanto o amante Os trophéos da victoria recolhia; E só tornei a mim, quando ao meu sangue Suave irrigação veiu mesclar-se, A agitações de gosto a dor cedendo, De gosto inexhaurivel, que provára. N'um momento apertada com Bellino, N'activa sensação toquei com elle A meta das delicias, transportada De muito mais prazer do que a dor fôra. N'este instante convulsa, e delirante, E como se um espasmo supportasse, Intirissada toda, os meus alentos Senti reconcentrar-se n'um só ponto. Findava o meu amante, inda eu gosava (Comprimindo-o comigo) altas venturas, De que sedenta então não poderia Fartar-me assás: meus braços exhauridos, Meu collo, e pés, eu toda fatigada Do vehemente tremor, em que lidára. Caí prostrada, quasi semi-morta. Quando a meus olhos (que caligens densas Tinham coberto) a luz tornou de novo, Volvi-os sobre o amante, de tal sorte Que ao vêl-o já supplice o instigava: Não ficava ocioso n'este tempo, Que no exame gastou do entrado forte, Pasmado dos estragos, que fizera, E dos despojos, que lucrava alegre. Da machina, que a praça expugnou firme, A estructura e altivez eu divisando, Custava-me a atinar como podéra Plantar-se o obelisco no reducto estreito. Bellino minhas vistas comprehendendo, Fez-me sentir, forçando-me a tocal-o, Marmorea rigidez, côr escarlate, Fórma, e calor de obuz, que disparava. Quando submisso, da peleja lasso, O vi depois sem o estendido conto, Brancas roupas trajava, mais humilde: Mas agora, affrontado, arremeçando Monarcha ufano, a purpura do collo, Com furor ao combate se aprestava. Reverberou seu fogo em minhas faces, E a vêa e vêa d'ellas espalhado De todo o corpo me filtrou os membros. Da lascivia ao pudor jungindo o pezo, Fez-me Bellino levantar, e tendo Elle sentado unidos os joelhos, Sobre elles me sentou, e franco accesso Da lança abrindo á ponta, a foi de manso No riste pondo, té que a meio conto N'elle embebida, sobre si de todo Levando o pezo meu, entrou de modo Que fiquei té ás visceras varada. A introducção tão forte pouco affeitos Meus delicados membros se avexaram: Mas curvando-me um pouco, e com justeza, Achei convir ao estojo o instrumento; Cuja palpitação, sem ajustar-nos, Em cadencia reciproca alliada, Bastava a provocar gosto indizivel, De modo que sem mais fadiga eu pude, Na grata posição Bellino immovel, Attingir o prazer mais saboroso, Nadar em mil deleites engolphada: Aqui, amada Alzira, essa virtude Que appellidam pudor, foi-me odiosa. De seus grilhões liberta, possuida De um venereo furor, impaciente De comprimir a mim o charo amante, Arranquei-me da lubrica attitude, Sobre elle me arrojei, toda anciosa De me identificar c'o meu Bellino; Estreitada com elle, abandonada De amor á raiva, que ambos incendia, Sobre mim o arrastei junto do leito, Onde ao meu peito o seu, aos seus meus labios, Do corpo os membros todos enlaçados Misturando nos osculos o alento, Nos osculos libando doce nectar, Em tal agitação, que aos ceos alçar-me, E abater-me aos abysmos parecia; Ávida de absorver a grossa lança, De soffrer-lhe a rijeza diamantina, E de arrostar-lhe os golpes incessantes, Sentindo o instante em que violento impulso De celeste effusão marcava o termo, Nas mãos, e nos pés sós firmando o corpo, Tanto me impertiguei, que o meu amante Sustive sobre mim, suspenso, em quanto Aos finaes paroxismos succumbindo Ao meu uniu seu ultimo gemido, E dentro das entranhas abrazadas Lançando-me torrentes d'almo influxo, submersa me deixou n'um mar de gosos. Julgas, Alzira, que entre tanto gosto Na assidua compressão me não doiam As maceradas meliadrosas carnes? Ah! que esta dor pelo prazer vencida Irritava emoções deliciosas, Sobre-elavava ás sensações mais gratas. Qual sequioso cervo, repassado Da calmosa avidez, suaves gotas Rabido anhela, e quanto é mais soffrida Ardente sêde, tanto mais ensopa Uma, e outra vez insaciaveis fauces: Não d'outra sorte flagellados membros Da dor pungindos de crueis combates, Balsamica emoção consoladora Com avidez seccavam insoffridos: A elluvião prolifica eu sentia, Pruridos divinaes, e estremecendo Á melliflua impressão, perennaes gosos Bastante tempo apoz gosava ainda. N'este instante expirou dentro em minh'alma Temor nefando, que immolava ao culto. Nova moral raiou de Olinda aos olhos; Eu tive em pouco rispidos preceitos, Ameaças crueis, com que ralavam Meus annos infantís. Doeu-me, Alzira, De ver tanta belleza definhada Da hypocrisia victimas infaustas; Aponta a edade, em que é d'amor forçoso As delicias gosar; em que almo viço Como nas plantas, n'ellas assignalam: Grata reproducção comsigo abafam, Envenena-se o germen da natura, Infecção purulenta as vai minando, Que seus dias termina, ou os condemna A languida existencia: abate o corpo, Abate o esp'rito corruído o alento. Innovámos a acção, eu, e Bellino, E eguaes em forças, sem perder coragem, Nenhum de nós cedeu, bem que durasse Algumas horas o combate acceso: Mas da noute feliz o longo manto Que os mysterios de amor commette ás trevas, Com roseos dedos a invejosa Aurora Cruel abrindo, faz dentro em meu peito A escuridão entrar, que em torno tinha. Foi-me odiosa a luz, que affugentava De mim com o amor perennes delicias. Uma e outra vez Amor tem facultado Ao constante Bellino, á terna Olinda Outros, como estes, prosperos momentos: São de tormento para mim os dias Que tel-o junto a mim debalde busco: Para elle o tempo que sem ver-me gasta, Figura-lhe de um seculo a distancia. Já Hymenêo houvera de enlaçar-nos, Se o mundo, Alzira, o mundo, que não cuida Senão em machinar sua ruina, De longo tempo não tivesse urdido Iniquas tramas, horridas ciladas, Que ao homem (digno premio de sua obra) Barreiras põe na estrada da ventura. Retrocede o infeliz d'um a outro lado, Negras voragens abre ante os seus passos Tropel de Furias, que comsigo arrasta, Filhas do Erro, que animou insano. A Fortuna que foi comigo larga, Negou seus dons a meu querido amante. Elle não conta nobres ascendentes, De quem meus páes se dizem oriundos: É quanto basta, para erguer muralhas De alcance, entre elle e mim, inacessiveis: O ditoso hymenêo não me é preciso, O hymenêo, apparato de teus votos, Para entre os braços seus tecer affouta Indissoluveis nós c'o meu Bellino: Sou d'elle, é meu: os homens que se ralem. Alzira, tu, que a amor meu peito abriste, Abre meus olhos á Natura inteira: Eu quero n'ella ver os meus destinos; Só n'ella eu quero divinaes verdades Solicita explorar, viver só n'ella: Cumpre as gratas promessas, que me fazes, Deva a ti só a tua Olinda tudo. Não ha para os christãos um Deus diff'rente Do que os gentios teem, e os musulmanos? O que a razão desnega, não existe: Se existe um Deus, a Natureza o offerece; Tudo o que é contra ella, é offendel-o. Devo eu seguir o culto, que me apontam As impressões da propria Natureza? Tenho uma religião em pratical-as? Que mundo é este pois, prezada Alzira? Teem os homens levado o seu arrojo Té forjarem um Deus na ousada mente, Traçar-lhe cultos, levantar-lhe templos, Attribuir-lhe leis, que a ferro, e fogo Extranhos povos a adorar constrangem, Immolando milhões á gloria sua? Nos labios teem doçura, e probidade, No coração o fel, a raiva: os monstros São máus por condição, ou máus por erro? Não, eu não posso, Alzira, d'este enigma Romper o denso véo: minhas idéas Jazem n'um cahos de horrida incerteza: Hesitar me não deixes por mais tempo: Minha instrucção confio aos teus cuidados; D'amizade o esplendor dá-te a mim toda; Acaba de fazer-me de ti digna.

SONETOS.

I

Tendo o terrivel Bonaparte á vista, Novo Annibal, que esfalfa a voz da Fama, «Oh capados heróes! (aos seus exclama Purpureo fanfarrão, papal-sacrista):

«O progresso estorvai da atroz conquista «Que da philosophia o mal derrama!…» Disse, e em férvido tom saúda, e chama, Sanctos surdos varões por sacra lista:

D'elles em vão rogando um _pio_ arrojo, Convulso o corpo, as faces amarellas, Cede triste victoria, que faz nojo!

O rapido francez vai-lhe ás canellas; Dá, fere, mata; ficam-lhe em despojo Reliquias, bullas, merdas, bagatellas.

II

Lá quando em mim perder a humanidade Mais um d'aquelles, que não fazem falta, Verbi-gratia — o theologo, o peralta, Algum duque, ou marquez, ou conde, ou frade:

Não quero funeral communidade, Que engrole _sub-venites_ em voz alta; Pingados gatarrões, gente de malta, Eu tambem vos dispenso a charidade:

Mas quando ferrugenta enchada idosa Sepulchro me cavar em ermo Outeiro, Lavre-me este epitaphio mão piedosa:

«Aqui dorme Bocage, o putanheiro: Passou vida folgada, e milagrosa; Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro.»

III

Esse disforme, e rigido porraz Do semblante me faz perder a côr; E assombrado d'espanto, e de terror Dar mais de cinco passos para traz:

A espada do membrudo Ferrabraz De certo não mettia mais horror: Esse membro é capaz até da pôr A amotinada Europa toda em paz:

Creio que nas fodaes recreações Não te hão de a rija machina soffrer Os mais corridos, sordidos cações:

De Venus não desfructas o prazer: Que esse monstro, que alojas nos calções, É porra de mostrar, não de foder.

IV

N'um capote embrulhado, ao pé de Armia, Que tinha perto a mãe o chá fazendo, Na linda mão lhe fui (oh ceos!) mettendo O meu caralho, que de amor fervia:

Entre o susto, entre o pejo a moça ardia: E eu solapado os beiços remordendo, Pela fisga da saia a mão crescendo A chamada sacana lhe fazia:

Entra a vir-se a menina… Ah! que vergonha! «Que tens? — lhe diz a mãe sobresaltada: Não pode ella encobrir na mão langonha:

Suffocada ficou, a mãe corada; Finda a partida, e mais do que medonha Á noute começou da bofetada.

V

No canto de um venal salão de dança, Ao som de uma rebeca desgrudada, Olhos em alvo, a porra arrebitada, Bocage, o folgazão, rostia o França:

Este, com mogigangas de creança, Com a mão pelos evos encrespada, Brandia sobre a roxa fronte alçada Do assanhado porraz, que quer lambança:

Veterana se faz a mão bisonha; Tanto a tempo menêa, e súa o bicho, Que em Bocage o tezão vence a vergonha:

Quiz vir-se por luxuria, ou por capricho; Mas em vez de acudir-lhe alva langonha Rebenta-lhe do cú merdoso esguicho.

VI

Não lamentes, oh Nise, o teu estado; Puta tem sido muita gente boa; Putissimas fidalgas tem Lisboa, Milhões de vezes putas teem reinado:

Dido foi puta, e puta d'um soldado; Cleopatra por puta alcança a c'rôa; Tu, Lucrecia, com toda a tua prôa, O teu cono não passa por honrado:

Essa da Russia imperatriz famosa, Que inda ha pouco morreu (diz a Gazeta) Entre mil porras expirou vaidosa:

Todas no mundo dão a sua greta: Não fiques pois, oh Nise, duvidosa Que isto de Virgo e honra é tudo peta.

(D.)

VII

Tu, oh demente velho descarado, Escandalo do sexo masculino, Que por alta justiça do Destino Tens o impotente membro decepado:

Tu, que em torpe furor incendiado Soffres d'impia paixão ardor maligno, E a consorte gentil, de que és indigno, Entregas a infructifero castrado:

Tu, que tendo bebido o menstruo immundo, Esse amor indiscreto te não gasta D'impia mulher o orgulho furibundo:

Em castigo do vicio, que te arrasta, Saiba a inclita Lysia, e todo o mundo Que és vil por genio, que és cabrão, e basta!

VIII

Vai cagar o mestiço, e não vai só; Convida a algum, que esteja no Gará, E com as longas calças na mão já Pede ao cafre canudo e tambió:

Destapa o banco, atira o seu fuscó, Depois que ao liso cú assento dá, Diz ao outro: «Oh amigo, como está A Rita? O que é feito da Nhonhó?»

«Vieste do Palmar? Foste a Pangin? Não me darás noticias da Russu, Que desde o outro dia inda a não vi?»

Assim prosegue, e farto já de gu, O branco, e respeitavel camarim Deita fora o cachimbo, e lava o cú.

IX

Arreitada donzella em fofo leito Deixando erguer a virginal camisa, Sobre as roliças coxas se divisa Entre sombras subtís pachocho estreito:

De louro pello um circulo imperfeito Os papudos beicinhos lhe matiza; E a branda crica, nacarada e liza, Em pingos vérte alvo liquor desfeito:

A voraz porra as guelras encrespando Arruma a focinheira, e entre gemidos A moça treme, os olhos requebrando:

Como é inda boçal perde os sentidos; Porém vai com tal ancia trabalhando, Que os homens é que vem a ser fodidos.

X

Esquentado frisão, brutal masmarro Girava em Santarem na pobre feira; Eis que divisa ao longe em couva ceira Seus bons irmãos seraphicos de barro:

O bruto, que arremeda um boi de carro Na carranca feroz, parte á carreira, Os sagrados bonecos escaqueira, E arranca de ufania um longo escarro:

N'alma o sancto furor lhe arqueja, e berra; Mas vós enchei-vos de intimo alvoroço, Povos, que do burel soffreis a guerra:

Que dos bonzos de barro o vil destroço E presagio talvez de irem por terra Membrudos fradalhões de carne e osso!

XI