Part 7
«Funestos são, diz Cárril d'outros tempos, «Os ditos de Swáran!»--«Sim, funestos, «Responde Cuthullin, lhe hão de ser elles. «Mas ergue a voz, ó Carril, e reconta «Os feitos do passado. Com teus cantos «Nos abrevia a noite; em nós desperta «O gôso da tristeza. Heroes infindos, «E mil virgens amantes hão passado «Na terra d'Inisfail. Doces resôam «Os cantos do infortunio que se elevam «Nas rochas d'Albion quando emmudece «O rumor da caçada, e ás vozes d'Ossian «Se casa o murmurio das correntes.»
«No tempo que passou, começa o bardo, «Os guerreiros do oceano a Erin vieram. «Numerosos baixeis galgando as ondas «Aportaram d'Erin ás mansas praias. «Os filhos d'Inisfail se levantaram «Dos escuros broqueis sustando a raça. «Militava no exercito Caírbar, «Dos homens o primeiro, e o joven Grúdar, «De garbosa figura. Desde muito «Que entre si contendiam pela posse «Do immaculado touro que mugia «Na campina de Golbum; desde muito «Que a morte viam nos agudos ferros. «Contra os filhos do mar um tempo unidos «Combateram a par, venceram juntos. «Quem na montanha possuia a gloria «De Caírbar e Grúdar? Mas, oh pena! «Porque mugia o immaculado touro «Na campina de Golbum? Mal que o viram «De novo a sanha lhes brotou nos peitos.
«Sobre as margens do Lúbar combateram: «Grúdar cahiu sem vida. Então Caírbar «Caminhou para o valle onde Brassolis, «Sua irmã formosissima, entoava «O canto da tristeza. Ella narrava «As façanhas de Grúdar, o mancebo «De seu intimo affecto; ella chorava «Seus perigos no campo, e sua volta «Esperava com ancia. O branco seio «Lhe transluzia sob as roupas leves «Como a lua entre nuvens; e mais doce «Era seu canto que os gemidos da harpa. «Em seu bem adorado tinha a mente, «E seus olhos gentis fallavam d'elle. «--Quando virás emfim?--ella dizia; «--Quando virás, ó poderoso em guerras?--
«--Guarda, lhe diz o irmão, guarda, ó Brassolis, «Este escudo sangrento: vae fixal-o «Da minha sala no elevado tecto. «É o escudo de Grúdar!--Mal que o ouve «A donzella estremece, e a côr perdendo, «Sem tino, eil-a que parte. Envolto em sangue «Na planicie de Cromla vê o amante, «E junto d'elle, vacillando, expira. «É este, Cuthullin, é este o sitio «Em que repousam ambos! Estes cedros «Lhes brotaram nas campas, e saudosos «Do furor das tormentas os defendem. «Formosa era Brassolis na planicie! «Elegante era Grúdar na montanha! «Hão de os cantos dos bardos memoral-os, «E ao remoto porvir levar seus nomes!»
«Suave é tua voz, suave, ó Cárril, «Diz o chefe d'Erin. São apraziveis «Os contos do passado, como o orvalho «Da amena primavera quando brilha «Pelos campos o sol e a nuvem leve «Revôa nas collinas. Ao som da harpa «Celebra o meu amor, a luz serena «Da solitaria estrella de Dunscaith. «Canta a gentil Bragela, a terna esposa «Que saudosa deixei na ilha das nevoas. «Que fazes, doce amiga? acaso elevas «Sobre a rocha escarpada a bella fronte, «E meus navios descobrir procuras? «O mar se agita ao longe: a branca espuma «Por minhas vélas tomarás acaso. «Recolhe-te que é noite, amor querido: «Em teu cabello o vendaval murmura. «Aos meus paços festivos te recolhe, «E pensa em outros dias. Aos teus braços «Não poderei voltar sem que serene «A tormenta da guerra. Falla, ó Cónnal, «Falla-me d'armas só: quero as saudades «De meu seio expulsar, quero esquecêl-a.»
«Dos guerreiros do oceano te acautela, «Responde o lento Cónnal. Sem demora «Manda escoltas nocturnas que vigiem «O campo do inimigo. Sou de voto, «Ó Cuthullin, que a pelejar não vamos «Sem que Fíngal, dos homens o primeiro, «Aporte ás nossas praias, sem que brilhe «Como os raios do sol em nossos campos.»
Sobre o escudo d'alarma bate o chefe, E o nocturno esquadrão se põe em marcha. O restante do exercito no campo Ao sereno da noite se adormece. Dos derradeiros mortos os espectros Divagavam em torno e fluctuavam Entre as nuvens sombrias. Longe, ao longe Por sobre a escura solidão de Lena Funereas vozes murmurar se ouviam.
FIM
INDICE
PAG.
A Camões 5 O Outomno 12 O Noivado do Sepulchro 16 Desejo 20 Boabdil 22 Canção 26 Á Patria 29 Rosa branca 34 Enfado 38 Anhelos 41 O Filho Morto 45 Socrates 47 A*** 51 Ultimos momentos d'Albuquerque 52 A ti 59 Infancia e Morte 61 O Canto do Livre 64 Saudade 67 Amor e Eternidade 70 O Escravo 72 O Anjo da humanidade 78 Partida 85 Canto de Primavera 87 Catão 90 Imitação do Islandez 98 Á Morte do meu amigo Licinio F. C. de Carvalho 100 O Mendigo 105 A Vida 108 Desengano 116 Agar 118 Maria, a ceifeira 125 O Firmamento 127 Tristeza 134 A Mãe e a Filha 137 O Mosteiro da Batalha 139 Desalento 147 Consolação 150 O Bussaco 154 A Fonte dos Amores 159 A um Theatro Academico 162 N'um album 164 Visão do Resgate 165 Versões d'Ossian: Ao sol 187 Colma 189 Fíngal 193
End of Project Gutenberg's Poesias, by António Augusto Soares de Passos