Poesias

Part 1

Chapter 14,008 wordsPublic domain

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POESIAS

POESIAS

POR

A. A. SOARES DE PASSOS

QUINTA EDIÇÃO

*PORTO*

EM CASA DE CRUZ COUTINHO--EDITOR Caldeireiros, 18 e 20

1870

TYPOGRAPHIA DO JORNAL DO PORTO Rua Ferreira Borges, 31

A CAMÕES

Ai do que a sorte assignalou no berço Inspirado cantor, rei da harmonia! Ai do que Deus ás gerações envia Dizendo: vae, padece, é teu fadario, Como um astro brilhante o mundo o admira, Mas não vê que essa chamma abrazadora Que o cerca d'esplendor, tambem devora Seu peito solitario.

Pairar nos céos em alteroso adejo, Buscando amor, e vida, e luz, e glorias, E vêr passar quaes sombras illusorias Essas imagens de fulgor divino: Taes são vossos destinos, ó poetas, Almas de fogo que um vil mundo encerra; Tal foi, grande Camões, tal foi na terra Teu misero destino.

A cruz levaste desde o berço á campa: Esgotaste a amargura até ás fezes: Parece que a fortuna em seus revezes Te mediu pelo genio a desventura. Combateste com ella como o cedro Que provoca o rancor da tempestade, Mas cuja inabalavel magestade Lhe resiste segura.

Foste grande na dôr como na lyra! Quem soube mais soffrer, quem soffreu tanto? Um anjo viste de celeste encanto, E aos pés cahiste da visão querida... Engano! foi um astro passageiro, Foi uma flôr de perfumado alento Que ao longe te sorriu, mas que sedento Jámais colheste em vida.

Sob a couraça que cingiste ao peito Do peito ancioso suffocaste a chamma, E foste ao longe procurar a fama, Talvez, quem sabe? procurar a morte. Mas, qual onda que o naufrago arremessa Sobre inhospita praia sem guarida, A morte crua te arrojou á vida, E ás injurias da sorte.

De praia em praia divagando incerto Tuas desditas ensinaste ao mundo: A terra, os homens, té o mar profundo Conspirados achavas em teu damno. Ave canora em solidão gemendo, Tiveste o genio por algoz ferino: Teu alento immortal era divino, Perdeste em ser humano:

Indicos valles, solidões do Ganges, E tu, ó gruta de Macau, sombria, Vós lhe ouvistes as queixas, e a harmonia D'esses hymnos que o tempo não consome. Foi lá, n'essa rocha solitaria, Que o vate desterrado e perseguido, Á patria ingrata, que lhe dera o olvido, Deu eterno renome.

«Cantemos!» disse, e triumphou da sorte. «Cantemos!» disse, e recordando glorias, Sobre o mesmo theatro das victorias, Bardo guerreiro, levantou seus hymnos. Os desastres da patria, a sua quéda Temendo já no meditar profundo, Quiz dar-lhe a voz do cysne moribundo Em seus cantos divinos.

E que sentidos cantos! d'Ignez triste Se ouve mais triste o derradeiro alento, Ensinando o que póde o sentimento Quando um seio que amou d'amores canta; No brado heroico da guerreira tuba O valor portuguez sôa tremendo, E o fero Adamastor com gesto horrendo Inda hoje o mundo espanta!

Mas ai! a patria não lhe ouvia o canto! Da patria e do cantor findava a sorte: Aos dous juraram perdição e morte, E os dous juntaram na mansão funerea... Ingratos! ao que alçando a voz do genio Além dos astros nos erguera um solio, Decretaram por louro e capitolio O leito da miseria!

Ninguem o pranto lhe enxugou piedoso... Valeu-lhe o seu escravo, o seu amigo: «Dae esmola a Camões, dae-lhe um abrigo!» Dizia o triste a mendigar confuso! Homero, Ovidio, Tasso, estranhos cysnes, Vós que sorvestes do infortunio a taça, Vinde depôr as c'rôas da desgraça Aos pés do cysne luso!

Mas não tardava o derradeiro instante... O raio ardente que fulmina a rocha, Tambem a flôr que n'ella desabrocha, Cresta, passando, co'as ethereas lavas: Que scena! em quanto ao longe a patria exangue Aos alfanges mouriscos dava o peito, De misero hospital n'um pobre leito, Camões, tu expiravas!

Oh! quem me dera d'esse leito á beira Sondar teu grande espirito n'essa hora, Por saber, quando a mágoa nos devora, Que dôr póde conter um peito humano; Palpar teu seio, e n'esse estreito espaço Sentir a immensidade do tormento, Combatendo-te n'alma, como o vento Nas ondas do oceano!

O amor da patria, a ingratidão dos homens, Natercia, a gloria, as illusões passadas, Entre as sombras da morte debuxadas, Em teu pallido rosto já pendido; E a patria, oh! e a patria que exaltáras N'essas canções d'inspiração profunda, Exhalando comtigo moribunda Seu ultimo gemido!

Expirou! como o nauta destemido, Vendo a procella que o navio alaga, E ouvindo em roda no bramir da vaga D'horrenda morte o funeral presagio, Aos entes corre que adorou na vida, Em seguro baixel os põe a nado, E esquecido de si morre abraçado Aos restos do naufragio:

Assim, da patria que baixava á tumba, Em cantos immortaes salvando a gloria, E entregando-a dos tempos á memoria, Como em gigante pedestal segura: «Patria querida, morreremos juntos!» Murmurou em accento funerario, E envolvido da patria no sudario Baixou á sepultura.

Quebrando a louza do feral jazigo, Portugal resurgiu, vingando a affronta, E inda hoje ao mundo sua gloria aponta Dos cantos de Camões no eterno brado; Mas do vate immortal as frias cinzas Esquecidas deixou na sepultura, E o estrangeiro que passa em vão procura Seu tumulo ignorado.

Nenhuma pedra ou inscripção ligeira Recorda o gran cantor... porém calemos! Silencio! do immortal não profanemos Com tributos mortaes a alta memoria. Camões, grande Camões, foste poeta! Eu sei que tua sombra nos perdôa: Que valem mausoléus ante a corôa De tua eterna gloria?

O OUTOMNO

Eis já do livido outomno Pesa o manto nas florestas; Cessaram as brandas festas Da natureza louçã. Tudo aguarda o frio inverno; Já não ha cantos suaves Do montanhez, e das aves, Saudando a luz da manhã.

Tudo é triste! os verdes montes Vão perdendo os seus matizes, As veigas os dons felizes, Thesoiro dos seus casaes; Dos crestados arvoredos A folha sêcca e myrrhada, Cahe ao sôpro da rajada, Que annuncia os vendavaes.

Tudo é triste! e o seio triste Comprime-se a este aspecto; Não sei que pezar secreto Nos enluta o coração. É que nos lembra o passado Cheio de viço e frescura, E o presente sem verdura Como a folhagem do chão.

Lembra-nos cada esperança Pelo tempo emmurchecida, Mil aureos sonhos da vida Desfeitos, murchos tambem; Lembram-nos crenças fagueiras Da innocencia d'outra idade, Mortas á luz da verdade, Creadas por nossa mãe.

Lembram-nos doces thesoiros Que tivemos, e não temos; Os amigos que perdemos, A alegria que passou; Lembram-nos dias da infancia, Lembram-nos ternos amores, Lembram-nos todas as flôres Que o tempo á vida arrancou.

E depois assoma o inverno, Que lembra o gêlo da morte, Das amarguras da sorte Ultima gota fatal... É por isso que estes dias Da natureza cadente, Brilham n'alma tristemente Como um cyrio funeral.

Mas animo! após a quadra De nuvens e de tristeza, Despe o luto a natureza, Revive cheia de luz: Após o inverno sombrio, Vem a florea primavera, Que novos encantos gera, Nova alegria produz.

Os arvoredos despidos Se revestem de folhagem; Ao sôpro da branda aragem Rebenta no campo a flôr; Tudo ao vêl-a se engrinalda, Tudo se cobre de relva, E as avesinhas na selva Lhe cantam hymnos d'amor.

Animo pois! como á terra, Tambem á nua existencia, Vem, após a decadencia, Ás vezes tempo feliz; E a vida gelada, esteril, Que o sôpro da morte abala, Desperta cheia de gala, Cheia de novo matiz.

Animo pois! e se acaso Nosso destino inclemente, Em vez de jardim florente, Nos aponta o mausoléo; Se a primavera do mundo Já morreu, já não se alcança, Tenhamos inda esperança Na primavera do céo!

O NOIVADO DO SEPULCHRO

BALLADA

Vae alta a lua! na mansão da morte Já meia noite com vagar soou; Que paz tranquilla! dos vaivens da sorte Só tem descanço quem alli baixou.

Que paz tranquilla!... mas eis longe, ao longe Funerea campa com fragor rangeu; Branco phantasma, semelhando um monge, D'entre os sepulchros a cabeça ergueu.

Ergueu-se, ergueu-se!... na amplidão celeste Campeia a lua com sinistra luz; O vento geme no feral cypreste, O mocho pia na marmorea cruz.

Ergueu-se, ergueu-se! com sombrio espanto Olhou em roda... não achou ninguem... Por entre as campas, arrastando o manto, Com lentos passos caminhou além.

Chegando perto d'uma cruz alçada, Que entre os cyprestes alvejava ao fim, Parou, sentou-se, e com a voz magoada Os eccos tristes acordou assim:

«Mulher formosa que adorei na vida, «E que na tumba não cessei d'amar, «Porque atraiçôas desleal, mentida, «O amor eterno que te ouvi jurar?

«Amor! engano que na campa finda, «Que a morte despe da illusão fallaz: «Quem d'entre os vivos se lembrára ainda «Do pobre morto que na terra jaz?

«Abandonado n'este chão repousa «Ha já tres dias, e não vens aqui... «Ai quão pesada me tem sido a lousa «Sobre este peito que bateu por ti!

«Ai quão pesada me tem sido!» e em meio, A fronte exhausta lhe pendeu na mão, E entre soluços arrancou do seio Fundo suspiro de cruel paixão.

«Talvez que rindo dos protestos nossos, «Goses com outro d'infernal prazer; «E o olvido, o olvido cobrirá meus ossos «Na fria terra, sem vingança ter!

--«Oh nunca, nunca!» de saudade infinda Responde um ecco suspirando além... «Oh nunca, nunca!» repetiu ainda Formosa virgem que em seus braços tem.

Cobrem-lhe as fórmas divinaes, airosas, Longas roupagens de nevada côr; Singela c'rôa de virgineas rosas Lhe cerca a fronte d'um mortal pallor.

«Não, não perdeste meu amor jurado: «Vês este peito? reina a morte aqui... «É já sem forças, ai de mim, gelado, «Mas inda pulsa com amor por ti.

«Feliz que pude acompanhar-te ao fundo «Da sepultura, succumbindo á dôr: «Deixei a vida... que importava o mundo, «O mundo em trevas sem a luz do amor?

«Saudosa ao longe vês no céo a lua? --«Oh vejo, sim... recordação fatal! --«Foi á luz d'ella que jurei ser tua, «Durante a vida, e na mansão final.

«Oh vem! se nunca te cingi ao peito, «Hoje o sepulchro nos reune emfim... «Quero o repouso do teu frio leito, «Quero-te unido para sempre a mim!»

E ao som dos pios do cantor funereo, E á luz da lua de sinistro alvor, Junto ao cruzeiro, sepulchral mysterio Foi celebrado, d'infeliz amor.

Quando risonho despontava o dia, Já d'esse drama nada havia então, Mais que uma tumba funeral vazia, Quebrada a lousa por ignota mão.

Porém mais tarde, quando foi volvido Das sepulturas o gelado pó, Dous esqueletos, um ao outro unido, Foram achados n'um sepulchro só.

DESEJO

Oh! quem nos teus braços podéra ditoso No mundo viver, Do mundo esquecido no languido goso D'infindo prazer.

Sentir os teus olhos serenos, em calma, Fallando d'além, D'além! d'uma vida que sonha minha alma Que a terra não tem.

Eu dera este mundo, com tudo o que encerra, Por tal galardão: Thesouros, e glorias, os thronos da terra, Que valem, que são?

A sêde que eu tenho não morre apagada Com tal aridez: Podésse eu ganhal-os, e iria seu nada Depôr a teus pés.

E só desejando mais doce victoria, Dizer-te: eis-aqui Meu sceptro e sciencia, thesouros e gloria: Ganhei-os por ti.

A vida, essa mesma daria contente, Sem pena, sem dôr, Se um dia embalasses, um dia sómente, Meu sonho d'amor.

Isenta do laço que ao mundo nos prende, A vida que val? A vida é só vida se o amor n'ella accende Seu doce fanal.

Aos mundos que eu sonho podésse eu comtigo, Voando, subir; Depois, que importava? depois no jazigo Sorrira ao cahir.

BOABDIL

ULTIMO REI MOURO DE GRANADA

De Granada nas torres já se ergue O pendão de Castella temido; Boabdil, o rei mouro vencido, Deixa a terra em que ha pouco reinou. Do Padul ás alturas chegado, Fez parar o seu timido bando, E o corcel andaluz volteando Taes adeuses á patria mandou:

«Ai Granada, lá ficas entregue «Para sempre aos guerreiros de Christo! «Quem teus fados houvera previsto, «Ó sultana de tanto poder? «Acabou-se o dominio dos crentes «N'este solo tão bello de Hespanha; «Não ha força de heroica façanha «Que nos possa das ruinas erguer.

«De Toledo, de Cordova, e Murcia, «De Jaên, de Baêza, e Sevilha, «Eras tu, ó gentil maravilha, «Que inda as glorias fazias lembrar. «E perdemos-te, ó flôr do occidente, «Do Xenil ó princeza formosa! «E curvamos a fronte orgulhosa «Nós, os filhos valentes d'Agar!

«Deus o quiz! nossa raça punindo «Fez baixar o seu anjo da morte, «E das iras d'Allah no transporte «Baqueou nossa altiva nação! «Nossos odios civis nos perderam, «N'este abysmo fatal nos lançaram, «E nem mesmo o valor nos deixaram «De morrermos com nosso pendão.

«Ó guerreiros das eras passadas, «Vencedores da Hespanha descrida, «Lá n'esse eden feliz da outra vida, «Vossas faces cobri de rubor! «Este braço que ousou vossos louros «Arrastar ante os pés de Fernando, «Não ousou n'este peito nefando «Embeber um punhal vingador!

«Deshonrado, do throno banido, «Que me resta por sorte futura? «Uma vida cobarde e obscura «No paiz em que outr'ora fui rei... «Nunca, nunca! o destino contrario «D'além-mar nosso berço me aponta: «Lá irei resgatar-me da affronta, «Lá dos bravos a morte haverei.

«Para sempre adeus pois, ó Granada! «Adeus, muros, e torres vermelhas «Que brilhaes como vivas centelhas «Nas verduras de tanto jardim! «Adeus, paços e fontes d'Alhambra! «Adeus, altas, soberbas mesquitas! «E vós, thronos das luas proscriptas, «Ó Comares, ó forte Albaicim!

«Para sempre, ai, adeus! té á morte «Viverás n'este peito, ó Granada! «Mas debalde, ó mansão adorada, «Que estes olhos jámais te hão de vêr... «Acabou-se o dominio dos crentes «N'este solo tão bello de Hespanha; «Não ha força de heroica façanha «Que nos possa das ruinas erguer.»

Disse, e o pranto nas faces corria Do rei mouro, dos seus que restavam. Longe ao longe as trombetas soavam Em Granada já feita christã: Era o canto d'alegre triumpho Em redor dos pendões de Fernando; Era o grito d'Allah desterrando Das Hespanhas os crentes do Islám.

CANÇÃO

Que noite d'encanto! Que lucido manto! Que noite! amo tanto Seu mudo fulgor! Oh! vem, ó donzella; Não temas, ó bella, Que á noite só vela Quem sonha d'amor.

A luz infinita Dos astros, crepita, Arqueja e palpita, Serena a brilhar: Assim o teu seio, De casto receio, De timido enleio, Costuma pulsar.

A lua, qual chamma, Que os seios inflamma, Fanal de quem ama, Desponta no céo; E a nitida fronte Retrata na fonte, E estende no monte Seu candido véo.

E a fonte murmura Por entre a verdura, E ao longe d'altura Lá desce a gemer: Que sons, que folguedos! Parece aos rochedos Dizer mil segredos D'infindo prazer.

Silencio! o trinado Lá solta enlevado, Das noites o amado, Da selva o cantor; E o hymno que entôa No bosque resôa, E ao longe revôa Gemendo d'amor.

O facho da lua Co'a sombra fluctua, Avança e recua No chão do jardim; Nas azas da aragem, Que agita a folhagem, Recende a bafagem Da rosa e jasmin.

Que noite d'encanto! Que lucido manto! Que noite! amo tanto Seu mudo fulgor! Oh! vem, ó donzella; Não temas, ó bella, Que á noite só vela Quem sonha d'amor.

Á PATRIA

AO MEU AMIGO A. C. LOUSADA

(1852)

Esta é a ditosa patria minha amada. Camões--_Lus._

«Esta é a ditosa patria minha amada!» Este o jardim de matizadas flôres, Onde os céos com a terra abençoada Rivalisam nas galas e primores.

Este o paiz das tradições brilhantes, Onde cresceu a palma da victoria, Onde o mar conta ás praias sussurrantes Longinquos feitos d'extremada gloria.

Esta a nação de laureada frente, Esta a ditosa patria minha amada! Ditosa e grande quando foi potente, Hoje abatida, sem poder, sem nada.

Patria minha, que tens, que em desalento Vergas a fronte que alterosa erguias? Porque fitas o gélido moimento, Perdida a força dos antigos dias?

Que fizeste do genio destemido Com que domavas esse mar profundo, E sorrias das vagas ao rugido, Ignotas praias descobrindo ao mundo?

Onde está esse vasto capitolio De tuas glorias, o soberbo oriente, Lá onde erguida em triumphante solio Empunhavas teu sceptro refulgente?

Então eras tu grande! os reis da terra Derramavam-te aos pés os seus thesouros; O mar saudando teus pendões de guerra, Gemia ao pêso de teus verdes louros.

Então de lanças e d'heroes cercada, Avassallando a India e a Africa ardente, A cada golpe da valente espada Mais uma palma te adornava a frente.

Então prostradas mil hostis phalanges, Retumbava o fragor de teus combates Desde as praias de Ceuta além do Ganges, Fazendo estremecer o Nilo e Euphrates.

Então eras tu grande! hoje esquecida, Um ecco apenas de teu nome sôa; Nos braços da victoria adormecida, Perdeste o sceptro e a magestosa c'rôa.

Os fortes pulsos entregaste aos laços Da tyrannia e rude fanatismo, E descahidos os potentes braços, Caminhaste sem forças ao abysmo.

Um livro apenas te ficou, ó triste, Por epitaphio da passada gloria; Tudo o mais acabou, já nada existe De tanto resplendor, mais que a memoria.

Das quinas os pendões já não revoam, Aguias altivas, sujeitando os mares; Teus gritos de victoria, ai! já não soam Na Lybia e nos gangeticos palmares.

Nações obscuras quando o mundo inteiro Já tuas glorias aprendido tinha, Vendo apagado teu ardor guerreiro, Arrancaram teu manto de rainha.

E repartindo entre ellas seus pedaços, E soltando depois feroz risada, Disseram ao passar, cruzando os braços: «Oh! como essa nação jaz aviltada!»

E teus heroes nas tumbas inquietos, Vendo insultadas tuas altas glorias, Agitaram seus frios esqueletos, Despedaçando as lapides marmoreas.

E cada qual das pregas do sudario, Erguendo a dextra que empunhára a lança, De pé sobre o jazigo funerario, Com torva indignação bradou: vingança!

Debalde! ao vêrem sem valor as quinas, Elles murmuram nas geladas campas: Tu, quem sabe? ditosa te imaginas, E em tua historia mil baldões estampas.

Nação que dormes do sepulchro á borda, Ergue-te, surge como outr'ora ovante! Teu genio antigo, teu valor recorda, E aprende n'elle a caminhar ávante!

Se longos annos d'oppressão funesta Te pesaram na fronte hoje abatida, No seio de teus filhos inda resta Fogo bastante para dar-te vida.

Longe da senda que gerou teu damno, Desata o vôo por espaços novos; E o ardor que te levou além do oceano, Além te levará dos outros povos.

Ah! possa, possa ainda a meiga aurora D'esse dia feliz brilhar-me pura! Possa esta lyra, que teus males chora, Dar-te cantos de gloria e de ventura!

Mas ah! se negra pagina sombria Tens de volver em teus crueis fadarios, Se o archanjo das ruinas ha de um dia Pairar sobre os teus restos solitarios:

Terra da minha patria, ouve o meu brado, Se inda da vida me restar o alento, Tu que foste meu berço idolatrado, Sê minha tumba em teu final momento!

ROSA BRANCA

Eu amo a rosa branca das campinas, A branca rosa que ao soprar do vento Languida verga para o chão pendida.

Como a rosa dos valles, pura e bella Nos campos da existencia ella floria, Como a rosa dos valles que inda envolta No orvalho da manhã, desdobra o calix Ao sol nascente, perfumando as auras. A idade das paixões mal despontava Em seu meigo horisonte. Estava ainda No declinar da melindrosa infancia, D'essa quadra feliz em que a existencia É sonho encantador, em que os momentos Se deslizam na vida como as aguas De brando arroio, humedecendo os prados. Mas quão formosas já, quão seductoras, Por entre as graças da mimosa infancia, As graças juvenis lhe transluziam!

Com as socias da infancia ao vêl-a ás tardes Vagando em seu jardim, vós a dissereis A açucena viçosa entre as boninas, Ou, entre os lumes da siderea noite, A estrella da manhã. E, todavia, Ignorava o poder de seus encantos: No mundo que a cercava, outras imagens, Outros amores não sonhava ainda, Além de sua mãe que a idolatrava, De seu pequeno irmão, de suas flôres.

E eu amava aquelle anjo como se amam Os sonhos d'innocencia d'outra idade, Ou como essas visões, que nos enlevam, De mundos d'harmonia a que aspiramos.

Vi-a uma vez, ao descahir da tarde, No jardim assentada ao pé da fonte, Olhando o tenro irmão, que em seu regaço Depozera as boninas que ajuntára. No regaço tambem, junto das flôres, Repousava, serena dormitando, A pomba que ella amava, e que sem medo Viera procurar tão doce ninho. Nunca a meus olhos se mostrou tão bella, Tão cheia d'innocencia. D'alvas roupas Suas fórmas angelicas cingidas, Se desenhavam, em gentil contorno, Nas verdes murtas que o jardim ornavam:

Parecia qual cysne repousando Entre a verdura, de seu lago á beira. Uma rosa nevada, como as roupas, Lhe adornava as madeixas côr da noite, As formosas madeixas que n'essa hora Contrastavam mais negras, e mais bellas, Co'a leve pallidez que reflectia, Em seu rosto adoravel e sereno, O clarão melancolico da tarde. Com terna languidez a face meiga Recostava na mão, curvado o braço, Em quanto com a outra ora afagava Sua pomba querida, ora os cabellos Compunha ao doce infante, que, sorrindo, Uma após outra lhe mostrava as flôres.

Ao vêl-a assim formosa, ao vêr o grupo Que fazia com ella o par mimoso, A mente arrebatada afigurou-m'a Celeste archanjo que baixára ao mundo A recolher as orações da tarde, E que o infante e a pomba achando juntos, E a innocencia do céo vendo na terra, Dos irmãos se esquecêra e alli ficára.

Archanjo d'innocencia, ai foge, foge! Não te illuda este mundo onde poisaste, Este mundo fallaz, de ti indigno, Que tuas azas de brancura estreme

Com seu veneno talvez manche um dia. Archanjo d'innocencia, ai foge! foge! Procura teus irmãos, revôa á patria!

E fugiu, e voou. No mesmo sitio, Uma tarde tambem junto da fonte, A mãe a foi achar sósinha e triste. A suas plantas uma rosa branca Jazia desfolhada: era das flôres A flôr que mais queria. Ao vêr ao lado A mãe que idolatrava, estremecêra. Pobre innocente! receiou acaso Não poder por mais tempo disfarçar-lhe Seu cruel padecer. A ardente febre Lhe devorava o seio, e não gemia. Mas seu dia chegava... A exhausta fronte Lhe pendeu sem alento, e immersa em pranto, No regaço da mãe sumiu a face, Que já cobria a pallidez da morte. Tres dias depois d'este a flôr mimosa Que as grinaldas celestes invejavam, Cahia desfolhada no sepulchro.

Eu amo a rosa branca das campinas, A branca rosa que ao soprar do vento Languida verga para o chão pendida.

ENFADO

Dos homens ai quem me dera Longe, bem longe viver! Junto de mim só quizera, Como eu sonho, um anjo ter. Que esse anjo surgisse agora, E o mundo folgasse embora Em seu nefando prazer.

Que vista! cede a innocencia Á voz do crime traidor; Folga a devassa impudencia, Nas faces não ha rubor. Traz o vicio a fronte erguida, E a virtude, sem guarida, Geme transida de dôr.

Vão ao templo da cubiça, Vão todos sacrificar: Consciencia, fé, justiça, Tudo lhe deixam no altar. Devora-os a sêde d'ouro; O seu deus é um thesouro, Porque o viver é gosar.

E que importa que o infante Morra á fome, e o ancião? Que importa que gema errante O proletario, sem pão? Oh! que importa que o talento Esmoreça ao desalento? Que val do genio o condão?

Proclamou-se a lei do forte: A lei do fraco é gemer. Ai do triste a quem a sorte Fez entre espinhos nascer! É um dogma a tyrannia, A liberdade heresia, A servidão um dever.

Que tempos, que tempos estes! Quem ha de viver assim N'um mundo que rasga as vestes Do justo, no seu festim? Quem ha de? mas esperança! Um dia foge, outro avança, E a redempção vem no fim.

Hoje, porém, quem me dera Longe dos homens viver! Junto de mim só quizera, Como eu sonho, um anjo ter. Que esse anjo surgisse agora, E o mundo folgasse embora Em seu nefando prazer.

ANHELOS

Que immenso vacuo n'este peito sinto! Que arfar eterno de revolto mar! Que ardente fogo, que jámais extincto Sómente afrouxa para mais queimar! Ai! esta sêde que meu peito rala, Talvez a apague mundanal prazer: Alli ao menos poderei fartal-a, Ou n'um lethargo sem paixões viver.

Mas d'essa taça já provei... não quero! Quero deleites que inda não senti... A lucta, os riscos d'um combate fero! Talvez encantos acharei alli.