Petronio Peça livremente extrahida do romance Quo Vadis de Henryk Sienkiewicz
Part 5
Gozar, beber, contemplar as fórmas divinas que repoisam a meu lado e adormecer, emfim, n'um sonho, cercado de rozas. Fiz já as minhas despedidas a Cezar. Ouvide o que lhe mandei dizer, no meus adeus. (tira um rolo e lê) «Sei, divino Cezar, que me esperas impacientemente e que para premiares a minha ida para junto de ti, não duvidarias dar-me o comando das tuas guardas e fazer de Tigelino um almocreve, officio para que parece ter sido creado pelos Deuses! Pelo Hades e em particular pelos manes de tua mãi, de teu irmão, de tua mulher, juro-te que me é impossivel ir. A vida é um thesoiro de que eu sube extrahir as mais preciosas joias; mas tem coisas, tambem, que confesso sou incapaz de suportar até ao fim! Não vás pensar que me indignou o assassinato de tua mãi, de teu irmão, de tua mulher; que me revoltei contra o incendio de Roma; que me offendeu o teu processo de matar todos os homens honrados de teu imperio! Não; mas por largos annos ainda, deixar-me esfolar os ouvidos pelo teu canto, vêr as tuas pobres tibias escoicear nas danças pirricas, ouvir-te tocar, declamar, recitar a teu modo--pobre poeta d'agua dôce--semelhante perspectiva é superior a minhas fôrças. Resolvi morrer! Roma tapa os ouvidos; o universo cobre-te de gargalhadas! E, eu? eu não quero mais envergonhar-me de ti! O ladrar de Cerebero ser-me-ha menos penoso: não sou amigo d'elle, não tenho de córar pela sua voz! Goza e passa bem, mas deixa-te de musica! assassina, mas não faças versos! envenêna, mas para-te de dançar! incendeia as cidades, mas deixa em paz a cithara! Tal é o conselho do teu amigo, Petronio.» (dá o rolo ao escravo) Queima esta carta e manda entrar o médico.
NERVA
... Mas é a morte!
LUCIO
E, nós...?
PETRONIO, rindo sereno
Nada receieis. Nenhum tem necessidade de dizer que ouviu ler esta carta. (Faz signal ao medico que entra. Este passa-lhe no pulso uma anilha de oiro e com um estylete abre-lhe a veia radial).
EUNICE
Senhor, se os Deuses me dessem a immortalidade, se Cezar me desse um imperio, para te deixar, eu não faria nunca! Tenho pois o direito de ir comtigo... concede-m'o!
PETRONIO
Tu amas me, verdadeiramente, divina! Vem commigo, pois, se assim o queres.
EUNICE, alegre, estendendo o braço ao medico
Abre. (O medico faz o mesmo. O sangue corre. Eunice inclina se sobre o peito de Petronio).
PETRONIO
Phalerno! (Um escravo deita-lh'o) Servide antes, ás damas, o xaroposo Careno, ou o opalino Chio, que convida a amar! (Inclina se para Eunice) Não queres tu, Divina, que bebamos, na tua taça, pela ultima vez, aos Deuses, por toda a felicidade que nos deram?
EUNICE
Sim, meu senhor. (Bebem os dois).
O INTRODUCTOR
Marcos Venicio e Lygia.
PETRONIO
Bem vindos! (Ao medico) Não posso morrer ainda; estanca-me o sangue. (O medico liga-lhe o pulso, rapido).
MARCOS, entra
Salve senhores! salve Petronio.
TODOS
Salve Marcos!
TODOS
Salve Lygia!
NERVA
Salve, formosa Lygia!
PETRONIO aos dois que chegam junto d'elle
Salve! Salve! (Os escravos trazem duas cadeiras. Marcos e Lygia sentam-se). Que vieste fazer a Cumes, Marcos?
MARCOS
Escrevemos-te. Queriamos que fosses passar comnosco uns tempos na nossa casa da Sicilia. A tua carta entristeceu-nos. Resolvemos vir-mos buscar-te. És preciso á nossa ventura!
PETRONIO
Admiro o teu coração: como me admira que dois noivos se possam lembrar d'um amigo ausente.
LYGIA
Tu és para nós muito caro. Devemos-te a maior parte da nossa felicidade!
PETRONIO
Foi o vosso Christo quem vos salvou! (Levemente ironico).
LYGIA
Não rias...
PETRONIO
Oh, não; mas é preciso confessar que Ursus e o povo romano tambem fizeram alguma coisa para o caso.
MARCOS
Vem comnosco, Petronio.
PETRONIO
Não, feliz esposo da princeza Aurora: se eu tivesse desejo de ir para onde me queres levar, eu não o poderia fazer. Se alguma coisa depois da morte--ao contrario da opinião de Pyrrhon--subsiste e vive, a que animava o corpo da minha bella, de cabellos d'oiro, a minha Eunice, espera-me! (Indicando-a) Está morta! (Arranca a facha do pulso e aperta Eunice contra o peito).
MARCOS
Petronio!
LYGIA
Meu amigo!
PETRONIO
Não vos afflijaes! Para vós nasce a aurora da vida, para mim, pôz-se já o sol, cerca-me o crepusculo! Tinha de ser: conheces Néro, comprehendes o resto. Vivi como quiz, morro como me apraz! Não vos afflijaes! A morte é um episodio da vida! Já vês, Marcos, que te enganas, se pensas que só o teu Deus dá a tranquillidade na morte! Vê como morro tranquillo. Platão diz que a virtude é uma musica e a vida do sabio uma harmonia! Se assim é, vivi e morro virtuoso. (Toma a taça) Permitte, virtuosa Lygia, que me despeça de ti, com as palavras com que te saudei, na primeira vez que nos vimos. «Vi durante a minha vida povos sem conto, mas uma mulher que te egualasse, eu não vi nunca!» (Aos dois) Se eu tenho uma alma, ella irá poisar junto á vossa casa, na forma d'uma borboleta, ou, como querem os egypcios, na de um falcão. Só, assim, irei. (Levantando a taça e todos) O ultimo brinde aos noivos. (A voz enfraquece levemente) Que a terra de Sicilia se metamorfoseie para vós n'um jardim dos Hesperides, que os Deuses dos campos, dos lagos, das fontes, façam nascer as flores sob os vossos pés, e que em todos os acanthos dos vossos pyristilos vivam e noivem, eternamente, as pombas brancas! (Bebe e todos. Inclina-se a beijar a cabeça d'Eunice).
O INTRODUCTOR
Um servo de Numa.
PETRONIO
Outro?
O SERVO
Nobre Petronio. Chego de Roma a toda a brida, mandado por Numa, meu senhor, dizer-te...
PETRONIO
O quê?
O SERVO
Revoltou-se Vindex, com as legiões da Galia. A guarda pretoriana, amigos, escravos, todos abandonaram Cezar. Todos fugiram do palacio e o deixaram só! Só, de mêdo, suicidou-se!
PETRONIO
É tarde! (Desmaia e morre sobre a cabeça de Eunice).
MARCOS
Que dôr!
VOZES
Mortos! O bom Petronio! A bella Eunice!
MARCOS
Sabeis, vós, amigos, o que morreu? O mundo romano: a Graça e a Belleza!
LYGIA, joelhando
Ó Christo! tende piedade das suas almas!
(O PANNO DESCE, LENTO)
FIM DO TERCEIRO E ULTIMO ACTO