Petronio Peça livremente extrahida do romance Quo Vadis de Henryk Sienkiewicz

Part 2

Chapter 23,819 wordsPublic domain

Comprende-me a Grecia. Em Roma, sei-o bem, chegam a censurar-me por cantar em publico; como se a arte divina pudésse manchar a purpura dos Cézares!

PETRONIO

Voltaremos?

NÉRO

Certamente. Tu sabes que as profecias me dão a soberania do Oriente e do Egypto. Fundarei alli um imperio luminoso de arte, de sol, de poesia, de realidade transformada em sonho, de vida transformada n'um perpetuo gozo! Quero esquecer Roma e collocar o centro do mundo entre a Grecia, a Asia e o Egypto. Viver a vida, não dos homens, mas dos Deuses. Vogar atravez do Archipélago, em galéras d'oiro, á sombra de vélas de purpura, embriagar-me de sol, de poesia! Ser, ao mesmo tempo, Apollo e Osiris! Reinar ... viver... sonhar...!

PETRONIO

Eis o sonho d'um Cezar!

NÉRO

Uma realidade! No Egypto levantarei monumentos, ao lado dos quaes as pyramides hão-de parecer brinquedos de creanças! Farei construir uma esphinge, sete vezes maior do que a de Memphis, que olha para o deserto, semelhando-a a mim! E, os seculos futuros não fallarão d'outra coisa: do monumento e de Néro!

LUCANO

Pelos teus versos tu te erigiste, já, um monumento, não sete, mas setenta vezes maior do que a de Chéops.

NÉRO

E, pelo meu canto?

PETRONIO

Se tu pudésses levantar uma estatua,--como a de Memnom--, que ao nascer do sol o fizesse ouvir, durante seculos, os mares do Egypto coalharam-se-hiam de navios, onde as multidões, das tres partes do mundo, viriam embriagar se, esquecer a vida, ouvindo a tua voz!

(Néro, radiante, bebe e todos o acompanham)

NÉRO

E... emfim, desposarei a Lua, que é viuva, e serei verdadeiramente um Deus!

PETRONIO

E, cazar-nos-has com as estrellas, para formarmos a constelação de Néro! (A Vitelio, gordissimo, que está de pé, na meza do centro, de taça em punho, ébrio) Cazarás Vitelio com o Nilo para gerarem hipopótamos.

TIGELINO

E a mim, que destino me dás?

PETRONIO

Cezar pode dar-te o deserto e serás rei... dos chacaes.

TIGELINO, aparte

Insolente!

(Cezar falla em segredo com Petronio. De repente pôe no olho uma esmeralda e olha Marcos e Lygia. Marcos diz segrêdos amorosos, todo curvado.)

MARCOS, alto

Como eu te amo, Lygia! (apertando-lhe o pulso)

LYGIA

Deixa-me, Marcos, fazes-me mal.

MARCOS

Oh! divina, ama-me muito! (beija-lhe o pulso) muito!

ACTÊA

Cezar está a olhar-vos.

MARCOS

Que me importa?

ACTÊA

Tu brincas com a vida, Marcos; não bebas mais.

MARCOS

O Phalerno é tão dôce e Lygia tão bella! (Offerece-lhe a taça; Lygia recuza; Marcos bebe)

NÉRO, deixando de olhar, depõe a esmeralda na meza

Petronio, quem é a dama que se senta ao lado de Marcos Vinicio?

PETRONIO, asustado

A rapariga... o refem que mandaste buscar a caza dos Plaucios.

NÉRO

Ah! De que povo é?

PETRONIO

Dos Lygios.

NÉRO

Deve ser bella... Vinicio enche-a de galanteios.

PETRONIO

Cobre um tronco velho d'oliveira com um vestido feminino e Vinicio achal-o-ha admiravel. A mocidade! Muito magra. Uma cabeça de dormideira n'um pé esguio. A ti, estheta divino, que prezas na mulher sobretudo a haste, aposto--por muito difficil que seja julgar das proporções d'uma mulher sentada--aposto que já lhe viste o defeito?...

NERO, piscando os olhos para vêr

Não tem ancas.

PETRONIO

Nenhumas. (malicioso)

SENÉCION

Não sei o que questionavas, mas sou da opinião de Cezar.

PETRONIO

Fazes bem. Eu estava dizendo a Cezar que tu tinhas uma certa inteligencia: Cezar affirmava que eras estupido como um burro! (gargalhadas)

NÉRO, rindo exageradamente, inclina o pollegar para o chão

E está dito!

VATINO

Seja como fôr, eu creio nos sonhos. Séneca um dia disse-me que tambem acreditava... como Plinio.

CALVIA

Sim? Pois a noite passada sonhei que era Vestal.

NERO, rindo, batendo as palmas, o que todos imitam

Bravo!

CALVIA

E, então? São todas velhas e feias, as vossas vestaes. Só Rubria tem fórma humana. Assim, ao menos, seriamos duas. Ainda que Rubria, na primavera, tem a pelle cheia de manchas rôxas.

SENÉCION

De que são?

CALVIA

Ella é que sabe... e os médicos.

LUCANO

É o abrir dos botões. Flôres do amôr!

PETRONIO

Calvia, onde deixaste a cabelleira loira, das... vestaes?

CALVIA

Tu és um impertinente.

PETRONIO

Não era o que me chamavas, uma noite, no lago d'Agripa.

CALVIA

És capaz de dizer que te não resistí, satyro? Que não estiveste a meus pés?

PETRONIO

Para os encher d'anneis. (Calvia olha instintivamente os pés: todos riem)

VITELIO, cambaleando

O meu annel. (rí estupidamente)

NÉRO

De que diabo rí esta barrica de cêbo?

PETRONIO

O riso é proprio do homem. Vitelio quer provar-nos que não é um porco.

VITELIO

O annel... perdí o meu annel de cavalleiro... O annel que me veio de meu pai...

PETRONIO

Que era sapateiro.

Vitelio, rindo parvamente, procura o annel no colo de Calvia.

CALVIA

Que queres? O atrevido.

NIGIDIA

Elle não perdeu o que procura.

LUCANO

E... ainda que o ache não será capaz de o usar.

(Os escravos reenchem as taças. Ouvem-se vozes. Vinho. Phalerno.)

LYGIA

O jantar durará muito, ainda, Marcos?

MARCOS

Inda agora começou. Não estás bem?

LYGIA

Sim... mas... morre-se com calor... com os perfumes...

ACTÊA

Toma o meu leque. Queres um vinho geládo?

LYGIA

Ó não. Queria sahir.

ACTÊA

É impossivel.

Néro, que tem estado a comer e beber bem e a conversar com Petronio, levanta-se. A musica emudece. Terpros e Diodoro, correm com as citharas. Néro faz gesto negativo.

SENÉCION

Pela arte e pela humanidade!

NÉRO

Não estou em voz. Onde está Poppêa?

UM ESCRAVO

Doente; não pode vir.

NÉRO

Chamai-a (o escravo sahe)

PETRONIO

Faze desta festa um festim, divino Cezar: canta!

LUCANO

Cezar, não sejas implacavel.

VATINO

Não sejas implacavel!

VOZES

Sê magnanimo, Cezar!

NÉRO

O meu medico prohibiu me de cantar, hoje.

SENÉCION

Poupa a tua divina garganta, Cezar. Que seria de Roma e da Grecia se a tua voz se enublasse!

NÉRO

Recitarei o meu hymno novo. Se, mais tarde, puder, cantarei.

TODOS

Graças, Cezar.

Entra Poppêa, sumptuosa e bella.

VOZES

Salve, divina Augusta! Salve, ó Deusa! Salve, divina!

NÉRO

Um momento, bella Poppêa. Vou recitar o meu novo hymno a Vénus. Precizo de têl-a diante.

LYGIA

Ó Marcos, é possivel! Poppêa, a sanguinaria, é esta mulher de uma belleza divina?!

MARCOS

Sim, é bella; mas tu és cem vezes mais! Bebe um golo, para que eu ponha os meus labios no sitio dos teus! (Offerece-lhe a taça, que Lygia recusa)

Faz-se silencio profundo. Musonio, o poeta, encosta-se a uma cadeira e adormece, emquanto Nero recita. Este vê-o.

NÉRO, recitando

Embalde pretendi deixar a escravidão, Que nos impôe o amôr! A Deusa luminosa Que accende, em Chypre, o facho da paixão Por sobre a humanidade; altiva, desdenhosa Arrancou-me do peito o coração, E foi depôl-o aos pés, da mais formosa Das Romanas, Poppêa, a minha amada!

Da Vénus Aphrodite a incandescente lava Passou pela minh'alma! As intimas ternuras, Só pode soluçar a minha lyra escrava Do seu divino olhar, das calidas alvuras Do seu colo de neve, da bôcca onde os Prazeres Moram em ninho rubro entre desejos... Uma lyra que chora a pedir beijos!

Vem, amada Poppêa, e escuta a Deusa: Sê como ella, de quem tens a fórma, Caritativa e dôce! Abre o teu leito Aos segrêdos do amôr, ao eterno gozo! Eu sou um Deus! que troca a divindade, Do mundo o senhorio, a magestade, Pelo logar do esposo!

TODOS

Ó poeta divino! Salve!

TODOS, com palmas e gritos

Ó voz divina!

Ó immortal!

Ó Jupiter!

Ó artista divino!

Ó resplandecente!

Salve! Salve! Salve!

POPPÊA, vem beijar magestosamente a mão de Néro

Obrigada, Cezar! (sahe)

Mulheres choram, homens fazem gestos exagerados de espanto: o éphebo Pitagoras vem joelhar-se ao pé do leito de Néro e fica. Sentam-se de novo alguns convivas, outros ficam de pé.

PETRONIO, empunhando a taça

A Cezar olimpico! (Todos bebem)

NÉRO, consultando

Petronio?

PETRONIO

Os versos são admiraveis. Lucano deve estar amarello de inveja! Querel-os-hia peores, para poder fazer-lhes um elogio que os valesse.

LUCANO

Maldito o destino que me fez contemporaneo de Cezar! Elle me eclipsa como a luz do sol a luz d'um candieiro!

NÉRO, a Tigelino, mostrando-lhe Musonio adormecido

Faze-me dormir Musonio, o estoico, por uma vez.

TIGELINO, deitando veneno n'uma taça

Lentamente?

NERO

Não.

ACTÊA

Musonio adormeceu emquanto Néro recitava!

LYGIA

É um crime?

MARCOS

De lesa-magestade.

LYGIA

E vão acordal-o?

MARCOS

Para dormir outra vez... para sempre!

TIGELINO

Eh! Musonio? eh! filosofo?

MUSONIO, aparvalhado

Que é? Que queres? Maldito cão!

TIGELINO

Cezar, chama-te. (Musonio, levanta-se)

NÉRO

O quê sonhavas?

MUSONIO

Que Cerebero me ladrava, raivosamente.

NÉRO

Tu vês, Vatino, é preciso acreditar nos sonhos.

TIGELINO

Petronio brindou a Cezar olimpico. Todos beberam; faltas, tu!

Musonio, percebe, e hesita em pegar na taça.

TIGELINO

Vamos: a Cezar olimpico.

Musonio, olha Cezar, que o fita com a esmeralda; bebe, vacila e cahe morto.

LYGIA, levantando-se

Que horrôr!

Dois escravos levam-no

ACTÊA

Tem coragem. Senta-te.

NÉRO

Os gladiadôres? (Entram Croton e Timon) Croton, não te esqueças de que és o mestre da minha escola. E tu, Timon, mostra-nos, se podes, como se substitue um mestre.

Os gladiadôres luctam. O interesse cresce.

NÉRO

Bravo, Croton.

PETRONIO

Bello grupo para marmore.

MARCOS

Bravo! Timon.

CALVIA

Que bellas fórmas!

PETRONIO

Vestal, silencio!

NÉRO

Não é uma bella arte?

PETRONIO

A mais bella, depois do canto e da musica.

NÉRO

Hei-de de experimental-a, tambem.

PETRONIO

Sereis invencivel!

Croton dominou Timon. Agarra-lhe a garganta e vai estrangulal-o.--Á voz de Néro: abraça-o e ergue-o.

NÉRO

Alto! Bravo, Croton! (applausos) Exercita-te, Timon. Por momentos tiveste a victoria. Tens qualidades. Vai e não te esqueças de que me deves a vida.

TIMON

Ella é vossa, divino Cezar!

NÉRO

Dai-lhe de beber. E, a mim; por Bacho, que não hei-de engulir a sêco esta aza de pavão de Samos. (deitam-lhe vinho) Que comes, tu, Calvia?

CALVIA

Una bocado de cabrito de Ambracia.

NÉRO

Estás em familia! Petronio, estás triste? A tua vista tem fome de graça e de belleza. Tigelino, mostra-nos a graça assyria.

Tigelino sobe. Ouve-se o côro bachico. Dançarinas assyrias, semi-núas, de cabeças ornadas de flôres, envoltas n'um véu ligeiro, braços e tornezellos com braceletes d'oiro, entram dançando com o côro. Os convivas comem e bebem, conversando em segrêdo. Côro e danças esmorecem lentamente. Os escravos dão vinho ás bailadeiras. Algumas sentam-se. Todos estão bebedos, excepto Lygia e Actêa. Durante as danças as luzes das salas esmorecem.

SENÉCION, de pé

Eu creio nos Deuzes. Dizem que Roma ha-de morrer! Ha quem diga que ella morre já! A falta é dos rapazes que não tem fé e sem fé não ha virtude.

VATINO

Quem é que diz de Roma vai morrer?

SENÉCION

Os filosofos.

VITELIO

Má raça, essa, dos filosofos.

LUCANO, com Nigidia no colo

Não ames nunca um filosofo, Nigidia! Ama os poetas. A filosofia é uma adega cheia de ôdres... os filosofos. Quanto mais ôccos, maiores são. Disse-o não sei se Epicteto.

NIGIDIA

Nunca disse isso, Epicteto.

LUCANO

Não? Pois podia dizel-o; porque disse tolices muito maiores. Então, digo-o eu.

SENÉCION

Não, Roma não morre! Teriamos de morrer todos! Nunca mais beber vinho! (chora sobre o colo de uma bachante.)

BACHANTE

Não chores, imbecil... que te fazes feio. Dorme antes. (empurra-o levemente. Elle cahe debaixo d'uma meza e fica.)

LUCANO, enrolando-se na hera d'uma amphora

Eh! lá, Bachantes, aqui está um Fauno!

NÉRO

Pitágoras, vem cá! (a Petronio) conheces alguma coisa mais bella? (beija as mãos do éphebo) Hei-de cazar comtigo! Mãos tão bellas, nunca vi. Vi... já... quando? (lugubre) Eram de... minha mãe! (pausa e espanto) Eram de minha mãe... Sim, d'Agrippina! (baixo) Dizem que pelas noites de luar pelas aguas da Baïa... vagueia como que á procura... não se sabe de quê! Se encontra uma barca desapparece; mas o pescadôr que a viu, morre!

VATINO

Nos Deuses não acredito... mas nos espectros... sim. Nos espectros!

NÉRO

E, todavia celebrei, grandiosamente, aos Deuses tumulares! Não a quero vêr... Cinco annos! cinco annos! Matei a, mas fui forçado a isso! Matava-me ella, se não o faço! Se eu tivesse morrido não me tinheis ouvido, hoje!

TIGELINO

Graças, Cezar, por nós, pela cidade, pelo mundo!

NÉRO

Não a quero vêr! (gritando) Vinho! e que esses timbales rujam!

LUCANO

Eu sou um Fauno! É é é... cho... ó ó ó. Os faunos amam as florestas! Nos jardins de Néro ha bosques profundos! Nigidia, levanta-te... acorda... vamos para o bosque!

NÉRO

Tem razão Lucano; abraza-se, aqui! Vamos para os jardins! Agora, sim, agora, vou cantar. Trazei vinhos! Terpnos, Diodoro, as citharas. (obedecem) Quero dançar tambem. E archotes... quero luz... muita luz... tudo bem claro, que a não quero vêr!

CALVIA

Quem?

NÉRO

A mulher das mãos brancas... como as de Pitágoras! (reparando em Actêa que acabou de fallar com Ursus o gigante que fica atraz de Marcos e Lygia) Ó bella e generosa Actêa! dá-me o teu braço. Vou cantar, para ti, uma canção á Lua! Á casta Lua, serena como tu, velada e meiga!

ACTÊA, acceitando-lhe o braço

Senhôr, sou a vossa escrava.

NÉRO

Não; és uma estrella do meu céu! Um comêta que só apparece, de longe em longe! (sobem todos)

MARCOS, agarrando brutalmente Lygia

Dá-me os teus labios! Hoje ou amanhã... que importa? Para que esperar? És minha! Cezar roubou-te para mim!

LYGIA

Marcos...

MARCOS

Para mim! Ha quanto te quero! Um dia em caza dos Plaucios, vi-te no banho... núa! Não o sabias? Como és bella! Sahias da agua como a Vénus das espumas... Um sonho! Pedi-te a Cezar que te mandou buscar... Amanhã vaes para minha caza... Dá-me os teus labios! (força para beijal-a) Dá-mos, já, agora.

LYGIA, recuando aflicta

Marcos, não te conheço... tem piedade!... não, nunca...!

MARCOS

Piedade? não; amôr! És minha, quero beijar-te... quero a tua bôcca! Dá-m'a! (agarrando-lhe brutalmente a cabeça) Ó dá-m'a, por Jupiter! ou...

O escravo Ursus agarra-o pela cinta e atira-o sobre o leito.

LYGIA

Es tu? (atira-se-lhe ao colo e fica suspensa)

URSUS

Não tenha mêdo... sou eu! (leva-a a colo)

MARCOS, levantando-se tonto

Lygia! Lygia! (vai a querer seguil-a, e cambaleia) Por Hercules! (ampara-se a uma assyria que bebe) Que é? que foi?

ASSYRIA, dando-lhe a taça

Um sonho! Bebe!

Marcos bebe e cahe sobre o leito.

URSUS

Eis os senhores do mundo! (sahe, levando Lygia).

No jardim ouve-se a musica. As luzes esmorecem. Um ou outro bebedo levanta a cabeça aos sons da orchestra e torna a deixal-a cahir. As rosas sahem sempre. O panno desce, lento.

FINAL DO 1.º ACTO

ACTO SEGUNDO

QUADRO TERCEIRO

Caza de Vinicio. O tablium ornado com flôres. Perfumadôres no chão.

PETRONIO

Estavas bebedo, hontem. Não gostei de te vêr. Andaste como um carroceiro dos montes Albanos. Não sejas nunca tão sôfrego. Lembra-te que um bom vinho deve ser bebido lentamente. Porque escravo a mandaste buscar?

MARCOS

Por Altacino.

PETRONIO

É de confiança?

MARCOS

Da maior. (passeia agitadíssimo) Que demora!

PETRONIO

E, faze por lhe alcançares as bôas graças. Pôe-na de bom humôr, para lhe destruires o máu effeito das brutalidades de hontem.

MARCOS

Que demora!

PETRONIO

Sê generoso, que ella merece-o. É bella! Sê magnanimo!

MARCOS

Deviam, cá estar, ha meia hora.

PETRONIO

De certo. Queres tu, para matar o tempo, que te falle das prophecias de Appolonio de Tyana, ou das maximas de Aristóteles, meu mestre, o estheta maximo?

MARCOS

Não... Deviam já ter chegado.

PETRONIO

Está dito... Deviam já ter chegado.

MARCOS

Malditos escravos. Teem as pernas ankilosadas por falta de exercicio. Terei de os fazer correr diante das varas.

PETRONIO

Elles não são o amante que espera. Tu não tens paciencia, nem serenidade. É precizo ser distincto, sempre! E, depois, não se traz assim uma princeza, uma filha do rei da Lygia.

MARCOS

Tu zombas?... se fôsse comtigo!

PETRONIO

Agradeceria aos Deuses o fazer-me prelibar, mais amplamente, uma posse divina.

MARCOS

A demora não é natural... Eu vou vêr...

PETRONIO

Não percas a tua bella linha esthetica. Espera; não sejas vulgar. (ouve-se ruido) Tanto mais, que me parece que chegam. (o ruido augmenta. Á porta apparecem quatro escravos. Dois d'elles com os rostos ensanguentados)

MARCOS

Onde está Lygia?

OS ESCRAVOS

Ai, Senhôr!; ai, Senhôr!

MARCOS

Onde está Lygia? (avança furioso)

OS ESCRAVOS

Vê o sangue, Senhor! Vê o sangue!

UM ESCRAVO

Defendêmo-la, até á ultima.

MARCOS

Que é d'ella?

UM ESCRAVO

Raptaram-na!

MARCOS

Ah! miseravel. (atira-lhe uma taça á cabeça) Gulon?

GULON, apparece

Senhôr.

MARCOS

Cem varadas a cada um.

OS ESCRAVOS

Senhôr, piedade!

MARCOS

Até a morte! (os escravos sahem, em grita, adiante de Gulon)

PETRONIO

Está doido! Vamos ter carnificina. Repugnam-me os talhos. Vale. (sahe)

MARCOS, postrado, senta-se

Mas quem poderia roubar-ma? Quem? Plaucio? Ai d'elle, se o foi! Ai d'elle!... Pedirei a Cezar a sua morte!... E, se foi Cezar? Pelas furias! se foi Néro n'uma das suas nocturnas «pescas de Perolas,» como elle lhes chama?! E, quem podia ser senão, elle, Néro? Quem ousaria oppôr-se á sua vontade? Viu-a hontem, apeteceu-lhe... roubou-ma! Cezar diverte-se comigo! Por Écate, por Érebo, por vós ó Deuses do lar, (toma terra n'um vaso e espalha-a pelo o chão) juro que quem quer que foi, escravo ou imperadôr, mendigo ou Cezar, mato o! (ao introductor, que apparece) O meu manto.

O INTRODUCTOR

Actêa deseja fallar-vos.

MARCOS

Actêa? Em bôa hora. Venha. (A Actêa, que entra, agarrando-lhes as mãos) Onde está Lygia?

ACTÊA

Vinha perguntar-t'o.

MARCOS

Não sei; roubaram-ma no caminho. (junto do rosto d'Actêa, com os dentes cerrados) Actêa, se tens amôr á vida, se não queres ser causa de desgraças, cujo alcance nem podes conhecer, diz-me a verdade: foi Cezar quem m'a robou?

ACTÊA

Cezar não sahiu hontem do palacio.

MARCOS

Pela memoria de tua mãi, por todos os Deuses, Lygia não está no Palatino?

ACTÊA

Pela memoria de minha mãi, Lygia não está no Palatino, nem foi Cezar quem t'a robou.

MARCOS, cahindo na cadeira, com a cabeça nos punhos

Então foram os Plaucios! Ai d'elles!

ACTÊA

Aulo Plaucio procurou-me, hoje, a saber de Lygia.

MARCOS

Hypocrisia! Se não soubesse d'ella ter-me-hia procurado a mim.

ACTÊA

Tambem procurou.

MARCOS

A mim?

ACTÊA

De manhã.

MARCOS

Não o vi, nem me fallou.

ACTÊA

Os teus servos contaram-lhe o acontecido. (Pausa) Não, Marcos, o que aconteceu, aconteceu por vontade de Lygia.

MARCOS

Tu sabias que ella queria fugir?

ACTÊA

Sabia que ella não consentiria em ser tua concubina!

MARCOS

E... tu? que tens sido toda a tua vida?

ACTÊA

Eu?... És pouco generoso! Eu era uma escrava!

MARCOS

Seja como fôr. Cezar deu-ma! Descobril-a-hei nem que seja debaixo da terra. Farei d'ella o que eu quizer! A minha concubina... porque não? A minha concubina! Nem que seja precizo chicoteal-a, de dia e de noite! Dal-a-hei, ao ultimo dos meus escravos! Mandal-a-hei atrelar a um moinho da costa d'Africa. Procural-a-hei, eu. Procural-a-ha Cezar, inda que seja precizo empregar todas as legiões.

ACTÊA

Tu deliras...! Tem cautella em não metter Cezar, na busca, porque te arriscas a perdel-a para sempre, no dia em que elle a achar.

MARCOS

Como?

ACTÊA

Ouve, Marcos. Hontem, antes de jantar levei Lygia, para a distrahir, a passeiar nos jardins. Encontrámos Poppêa e a pequena Augusta, sua filha e filha querida de Néro, nos braços da ama negra. Á tarde a creança cahiu doente e Lilith, a ama, diz que foi a estrangeira que a enfeitiçou! Se a creança melhora, tudo esquecerá: se peóra Poppêa será a primeira a accusar Lygia de feiticeria e, encontrada, não terá salvação!

MARCOS

Talvez que ella enfeitiçasse a creança... e a mim tambem!

ACTÊA

A negra diz que a pequenita se pôz a chorar logo que passou por nós. É certo, ouvi. Mera coincidencia. Procura-a; mas antes das melhoras da creança não falles de Lygia. Seus olhos choraram, bastante, de mais... por ti!

MARCOS

Por mim? Disse-t'o ella?

ACTÊA

Eu o vi. As suas lagrimas eram sinceras e a sua dôr sentida. Como velei por ella no palacio de Cezar, quiz valer-lhe, se pudesse, ainda, junto de ti.

MARCOS

Como?

ACTÊA

Invocando a tua generosidade para ella.

MARCOS

Zombas de mim: se não sei onde pára...

ACTÊA

Ainda o podes saber: deixa-a em paz.

MARCOS

Não posso.

ACTÊA

Desposa-a.

MARCOS

Nunca!

ACTÊA

Não é uma escrava, é um refem de guerra: os refens são sagrados.

MARCOS

Concorreste, já vejo, para o rapto?

ACTÊA

Talvez.

MARCOS

Contra, Cezar.

ACTÊA

Não; contra ti.

MARCOS

E, dás-lhe razão?

ACTÊA

Defendo-a.

MARCOS

Tu ama-la?

ACTÊA

Quanto ella merece.

MARCOS

Porque te não paga, como a mim, o amôr com o desprêzo.

ACTÊA

Homem cégo, ella amava-te.

MARCOS

A mim? Que amôr é esse que prefere a vida errante, a indigencia do dia seguinte e talvez uma morte miseravel, a uma vida de riquezas e de alegria? Que amôr é esse, que tem mêdo do prazer e sêde dos sofrimentos? É que ella me odeia, do coração!

ACTÊA

Como imaginaste captival-a? Em vez de te inclinares diante dos seus pais adoptivos, os Plaucios, e de lh'a pedires para esposa, por surpreza, roubaste lh'a. Era a filha d'um rei, quizeste fazer d'ella a tua concubina! Feriste-lhe os olhos inocentes com o espectaculo da orgia, sem comprehenderes que aquella creança candida preferiria a morte á deshonra! Sabes tu quaes são as suas crenças? sabes que Deus adora? e se esse Deus não é melhor do que essa Vénus impudíca e essa Isis que os Romanos veneram, no seu impudôr? Que te importou tudo isto? A pobre creança, quando fallava de ti, córava: amava-te! Como lhe pagaste a aspiração pura do primeiro amôr? Enchendo-a de espanto, tratando-a como a uma escrava, insultando-a!

MARCOS

Eu não a insultei!

ACTÊA ironica

Generoso senhôr... vilmente! Venceste os Parthas, tu? Que é agora um coração de mulher para um famoso guerreiro? Enganaste-te: é mais facil vencer os barbaros. Amava-te; é possivel que te despreze, agora!

MARCOS

Que me importa? Amo-a eu; quero-a, hei-de tel-a.

ACTÊA

Se ella te não amar, essa satisfação deve ser bem mesquinha. O amôr de dois é um misterio divino: o de um só: uma torpeza! Nobre consul, adeus!

PETRONIO, entrando: a Actêa que vae a sahir

Salve, divina Actêa.

ACTÊA

Salve, galante Petronio.

PETRONIO

Dou-vos graças pela bondade com que tratastes Lygia.

ACTÊA

Fiz o meu dever. Ella tem a candura d'uma virgem e a graça das pombas...

PETRONIO

Que vôam.

ACTÊA

Officio de quem tem azas. Adeus. (sahe)

PETRONIO

Sabes alguma coisa de Lygia? Actêa a que veio?

MARCOS

Saber d'ella... Não sahiu da cidade. Os meus escravos vigiam as portas. Ella ou o tal gigante, hão-de apparecer.

PETRONIO

Tens sorte em que não seja Cezar o raptadôr. Trago-te uma boa nova.

MARCOS

Qual?

PETRONIO

Eunice, a minha escrava,--desde hontem que reparo que é verdadeiramente bella!--conhece um homem capaz de a descobrir.

MARCOS

Quem é?

PETRONIO

Um tal Chilon, médico, sabio, feiticeiro, ou o que é, que lê o destino e prediz o futuro. Mandei-o chamar e trago-t'o. Queres fallar-lhe?

MARCOS

Que venha.

Petronio faz signal para dentro. Chilon entra. É um corcovado, tunica no fio, esburacada, barba e cabelleira intonsas. Sandalias velhas, etc.

CHILON

Salve, senhores nobilissimos!

MARCOS

Aproxima-te. Sabes bem do que queres encarregar-te?

CHILON

Pelo o que em toda a Roma se falla, não é difficil de adivinhar. Roubaram aos teus escravos, nobre senhôr, Lygia, ou Calina, filha adoptiva dos Plaucios. Encarrego me de t'a descobrir, na cidade ou fóra, onde estiver.

MARCOS

Que meios tens para isso?

CHILON

Os meios tens, tu, senhôr. Eu só possúo o genio.

PETRONIO

É homem para a descobrir.

MARCOS

Previno-te de que se me enganas para me apanhares dinheiro, mando-te desfazer com varadas.

CHILON