Perolas e Diamantes: Contos Infantis
Chapter 4
Dictas que foram estas palavras, o sapão deu-lhe uma beterraba ôca puxada a seis ratos brancos.
Ao ver tão curiosa carruagem, o pobre rapaz perguntou com certa tristeza:
--Que faço a isto?
--Agarra um de meus filhos--respondeu o sapo--e mette-o dentro d'esse carro.
A esta indicação, pegou ao acaso n'um dos sapinhos e metteu-o na beterraba; mal ahi foi collocado, o bicharôco ficou transformado n'uma menina de formosura maravilhosa, a beterraba n'uma luxuosa equipagem e os seis ratos em tres parelhas de cavallos brancos de neve. Em seguida, o mocinho subiu para a boléa, abraçou a moça e depressa seguiu para o palacio. Os dois irmãos mais velhos chegaram d'ahi a pouco, mas faziam tão mau juizo da escolha que o mais moço faria, que ficaram satisfeitos com a primeira camponia que lhes appareceu e que levaram a palacio. D'esta vez ainda--o que não é para assombros--o monarcha disse:
--É ao mais moço de meus filhos que pertencem as rédeas do governo apoz minha morte!
O que é certo é que pela terceira vez ainda os dois irmãos tentaram murmurar contra a resolução do pae e pediram para que--em ultima experiencia--fosse proclamado rei aquelle cuja mulher saltasse pelo meio de uma argola suspensa a meio da sala. E propondo isto accrescentaram:
--As camponezas facilmente saltarão, são bastante fortes para estes exercicios; quanto a essa arveloa, fraca e delicada, cae e parte a cabeça.
Muito instado, o rei cedeu a esse capricho que começou.
As duas camponezas foram as primeiras a saltar, mas, pezadas e gordas como eram, caíram, partindo braços e pernas. Ao contrario, a moça trazida pelo mais novo formou salto tão elegante, que atravessou graciosa e rapidamente a argola e caiu em pé.
Ante esta ultima experiencia ficou decididamente reconhecido como herdeiro ao throno.
Effectivamente, assim que o velho monarcha fechou os olhos, foi acclamado rei e ainda agora se fala da sabedoria com que n'esse paiz governou.
O violinista
Em epochas muito longinquas, o povo de uma grande capital--cujo nome nos não occorre--erigiu um lindo templo dedicado á padroeira dos musicos--Sancta Cecilia, segundo a tradição.
Eram das côres mais vivas e vistosas as flôres escolhidas para cobrir o altar, a roupagem da sancta toda em prata filigranada e os sapatos executados em ouro, pelo mais habil ourives-cinzelador que vivia n'essa cidade. A egreja estava sempre replecta de devotos e peregrinos. Em romagem, entrou lá certo dia um infeliz violinista, macillento, esquálido e franzino. Como a caminhada fôra longa, o pobre estava fatigado e no seu alforge já não havia uma migalha de pão nem na sua algibeira um ceitil para o comprar.
Apenas entrou no templo, principiou a dar uns acordes de violino tão suaves, tão expressivos, tão melodiosos, que a sancta enterneceu-se tanto com a sua pobreza e com aquella musica maviosa, que--ao elle findar--se baixou, descalçou um dos sapatos de ouro e deu-o ao infeliz menestrel, que, doidamente alegre, bailando, cantando e chorando, ao mesmo tempo, se encaminhou para uma ourivesaria com o fim de o trocar por dinheiro.
O joalheiro, porêm, conhecendo o sapato como sendo o da sancta, prendeu o violinista, levando-o ao juiz. Formaram processo, foi julgado e condemnado á pena ultima.
Approximára-se o dia da execução; os sinos tocavam plangentemente, e o triste cortejo pôz-se em marcha, acompanhado a canticos dos frades que, apezar d'isso, não deixavam de ouvir-se os lindos acórdes que o infeliz condemnado tirava do seu maravilhoso violino; era uma ultima concessão que lhe havia sido dada, até soar o derradeiro instante. O cortejo parou mesmo defronte do templo da sancta e, assim que alli chegou, o pobre musico supplicou que o conduzissem ao altar da sancta, afim de tocar o seu ultimo acorde melodioso.
Os frades e os chefes dos soldados que o escoltavam, concederam-lhe essa graça, e o violinista entrou, ajoelhou-se aos pés da padroeira dos musicos e, com os olhos marejados de lagrimas, principiou a tirar deliciosos acórdes do seu violino.
O povo, então, attonito e admirado, notou que Sancta Cecilia se baixava, descalçava o outro sapato e o mettia nas mãos do pobre musico. A este maravilhoso espectaculo, todos os circumstantes levaram em triumpho o violinista, puzeram-lhe na cabeça uma corôa entrecida de flôres, e os magistrados dirigiram-lhe as mais solemnes e as mais honrosas homenagens.
Indice
Carta-prefacio O violino maravilhoso João no auge da alegria Pelle d'urso Aventuras de João-Pequenino Os tres cabellos d'oiro do Diabo O sapateiro e os gnomos As tres pennas O violinista