Perolas e Diamantes: Contos Infantis
Chapter 3
O lobo não quiz ouvir mais, nem se fez rogado, nem se quer foi preciso dar-lhe o recado mais d'uma vez; metteu-se pela cosinha e comeu á tripa-fôrra. Quando, porêm, quiz sair, foi-lhe impossivel. Tirou o ventre de miserias, de tal maneira que não houve meio de passar pelo cano. João-Pequenino--que tudo previra começou a fazer um grande barulho no corpo do lobo, aos pulos e em altos gritos; o lobo pedia-lhe:
--Vê lá se estás quieto! Tu assim acordas meio mundo!
--Deixa-me cá... Tu comeste até que te regalaste; agora sou eu que me divirto a meu modo!--e continuou a gritar tanto quanto podia.
Acabou por accordar a familia, que veiu pressurosa olhar para a cosinha pelo buraco da fechadura. O pae e a mãe ao verem que estava alli um lobo, armaram-se: o pae com um machado e a mulher com uma fouce.
--Fica para traz--aconselhou o marido á mulher quando entraram na cosinha, eu vou matal-o com o machado, mas se o não matar d'um só golpe, tu abres-lhe a barriga!
João-Pequenino--ao conhecer a voz do pae--pôz-se a gritar:
--Sou eu, meu pae, sou eu que estou na barriga do lobo!
--Graças!--exclamou o pae louco de contente.--Ora até que emfim que o nosso filho foi encontrado!...
E disse logo á mulher que puzesse de parte a fouce não fosse ferir o João-Pequenino. Em seguida com faca e tesoura abriu a barriga do lobo d'onde saltou lesto o nosso sympathico João-Pequenino.
--Não pódes calcular, filho,--exclamou o pae--os sustos que temos tido com a tua sorte!
--Acredito, pae... mas olhe, eu fartei-me de correr mundo; felizmente que já vejo a luz do dia!
--Onde tens tu estado?
--Ora, onde tenho estado! Estive n'uma toca de rato, na cavidade de uma arvore, no feno, na barriga de uma vacca, no estrume e por fim na barriga de um lobo! Agora estou com os meus queridos paes!
--E nós não te tornariamos a vender por dinheiro algum d'este mundo!--disseram os paes abraçando-o e apertando-o contra o coração.
Deram-lhe de comer e vestiram-lhe outro fato, pois o primitivo vinha em estado lastimoso, o que é natural, attendendo aos sitios pouco limpos por onde viajára o nosso João-Pequenino.
Os tres cabellos d'oiro do Diabo
Era uma vez uma pobre mulherzinha que deu á luz um filho, e como elle tivesse nascido n'um folle, não tinha ainda visto a luz do dia, e já prediziam que aos quatorze annos casaria com a princeza. Pouco tempo depois appareceu na aldeia, vindo incognito, o rei, que, perguntando que novas havia, ouvira dizer:
--Não ha muitos dias nasceu um rapazinho n'um folle, o que indica vir a ser muito feliz, demais que já lhe auguraram casamento com a princeza, quando chegasse aos quatorze annos.
O rei--que não tinha bom fundo--ficára agastado com a previdencia; pediu para lhe indicarem a morada dos paes do rapaz, para onde se dirigiu com sorrisos. Em seguida falou assim:
--Sois pobres, por isso peço que me confieis o rapaz, a quem arranjarei um bom futuro.
Os paes, a principio, recusaram similhante proposta; mas o desconhecido offereceu-lhes uma grossa maquia em ouro; lembrando-se elles da predicção de que, tendo nascido n'um folle, nada de mau lhe podia acontecer, resolveram acceitar, separando-se do filho.
Assim que d'alli saíu, o monarcha metteu o rapazinho n'uma caixa, que amarrou á sella do cavallo e continuou sua derrota. Não tardou a encontrar um ribeiro, com certa fundura, para onde atirou a caixa, exclamando:
--E assim livro minha filha de casar com tão desgraçado pretendente!
Mas o mais curioso é que a caixa não naufragou, bem pelo contrario singrou o rio ao sabor da corrente como se fôra um barquinho, sem que uma só gotta d'agua lhe entrasse dentro. A caixa correu á tona d'agua a uma distancia de duas milhas da cidade; ahi encontrou um obstaculo: as rodas de um moinho, onde encalhou. Um moço de moleiro, que por casualidade se encontrava a curtos passos d'alli, viu-a e rebocou-a com uma fateixa, crente de que encontraria uma riqueza. Abriu-a, pressuroso, mas a riqueza appareceu-lhe na figura de um menino esperto e risonho. Levou-o aos amos que, como não tinham filhos, bem contentes ficaram com o achado, e disseram em côro:
--É Deus que nol-o envia!
Por conseguinte, tomaram-n'o á sua conta e educaram na practica das boas acções o orphãosinho. Passados annos, o soberano, fugindo a um temporal, refugiou-se certa tarde em casa do moleiro, a quem perguntou se o rapaz que tinha alli era seu filho.
--Não--responderam o moleiro e a mulher.--É um menino abandonado, que ha quatorze annos veiu trazido pela corrente dentro d'uma caixa até á calha do moinho; o moço, que estava perto, puxou-a e trouxe-a para terra.
A estas declarações, o rei percebeu logo que o rapaz não podia ser outro senão o menino que nascêra n'um folle, e tanto que perguntou:
--Digam-me: este rapaz não podia ir fazer-me um recado, levar uma carta á rainha minha mulher? Dou-lhe duas moedas de ouro por este pequeno trabalho.
--Quando vossa magestade quizer!--redarguiram de prompto moleiro e moleira.
Em seguida mandaram pôr a postos o rapaz.
O rei, entretanto, dirigia esta carta á rainha:
«Apenas o rapaz, portador d'esta, ahi chegue, dá-te pressa em mandal-o matar e enterral-o em seguida; o resto será resolvido no meu regresso.»
O mocinho partiu com a carta e chegou pela noite a uma grande matta; por entre a escuridão avistou uma luzinha. Seguiu n'essa direcção e depressa parou perto de uma cabana. Entrou e viu sentada uma velha, sózinha, ao pé de uma lareira. Ao vêr o rapaz ficou tranzida de medo, e gritou:
--D'onde vens e para onde vaes?
--Venho do moinho--respondeu--e vou ao palacio levar uma carta á rainha; como, porêm, me perdi na matta, muito grato me seria passar aqui a noite.
--Infeliz creatura!--redarguiu a velha.--Vieste ter a uma caverna de salteadores, que, se aqui te encontram, são muito capazes de te darem cabo da pelle!
--Venha quem vier, de nada me arreceio; estou bastante fatigado para que possa continuar a jornada.
Dictas estas palavras, sentou-se n'um banco e adormeceu.
D'ahi a pouco appareceram os salteadores que perguntaram irritados quem era aquelle intruso.
--Ora--retorquiu a velha--é um pobre moço que se perdeu na matta e a quem recolhi por dó; foi encarregado de levar uma carta á rainha.
Os salteadores apoderaram-se da carta, partiram-lhe o sinete e leram, vendo pelo conteudo que, apenas chegasse, o portador seria executado. Esta circumstancia tão mal os impressionou que o capitão da quadrilha rasgou-a e escreveu outra em que dizia que apenas o portador chegasse lhe fizessem o casamento com a princeza.
Feito isto, deixaram-n'o dormir socegadamente no banco até o dia seguinte; quando acordou, restituiram-lhe a carta e indicaram-lhe a estrada real.
Entretanto, a rainha apenas leu a carta, que passára como escripta pelo rei, ordenou grandes festas para o casamento da filha com o rapaz nascido n'um folle. Como este era perfeito, amoravel e dotado de bom coração, a princeza vivia feliz e satisfeita.
Passado tempo, o soberano regressou ao palacio, e, com grande espanto seu, viu que a predicção se realizára do rapaz nascido n'um folle, casar com a princeza.
--Como foi isto arranjado?--perguntou á rainha.--Havia dado outra ordem na minha carta!
A rainha apressou-se a mostrar-lhe a carta afim de se certificar do que havia escripto. O rei leu-a, e viu que fôra trocada. Perguntou ao rapaz o que havia feito da carta que lhe confiára, e como é que havia trazido outra.
--Não sei!--respondeu o rapaz. Só se me foi roubada na noite que passei na matta; aproveitando-se do meu somno.
O rei tornou irritado:
--Não me serve essa desculpa, e tanto que minha filha não te pertence, emquanto me não trouxeres do inferno tres cabellos d'ouro da cabeça do diabo; satisfeita esta condição, restituo-te a princeza.
O soberano, falando assim, cuidava que ficaria livre d'elle de uma vez para sempre. Como resposta, o rapaz nascido n'um folle disse ao rei:
--De boa vontade acceito a sua proposta de trazer os tres cabellos d'ouro, tanto mais que não me arreceio do diabo!
Dictas que foram estas palavras, despediu-se e pôz-se a caminho.
Esta estrada ia ter a uma cidade, ás portas da qual estava uma sentinella que lhe perguntou em que elle poderia ser-lhe util e o que é que sabia.
--Sei tudo--respondeu o rapaz nascido n'um folle.
--N'esse caso, pódes-nos indicar com facilidade a razão porque a fonte do mercado d'onde corria vinho, hoje não deita nem uma gotta d'agua?
--Depois o direi--respondeu o nosso viandante.--Espere que eu volte.
Em seguida, continuou o seu caminho até chegar ás portas d'outra cidade. A sentinella, que estava no seu posto, perguntou-lhe egualmente em que é que elle podia tornar-se util e o que é que sabia.
--Sei tudo...
--Por conseguinte, só tu nos podes prestar um grande serviço em nos dizer qual o motivo porque a arvore da praça, que antigamente nos dava maçãs d'ouro, hoje nem sequer folhas apresenta.
--Quando voltar darei explicação--respondeu.
E lá foi andando, andando até que chegou a um largo rio que precisava atravessar. O barqueiro, que estava proximo, perguntou-lhe tambem em que é que elle lhe poderia ser prestavel e o que é que sabia.
--Sei tudo!--retorquiu o viajeiro nosso conhecido.
--Pois tu é que estás nas melhores condições para me dizer qual a causa porque é que ando a remar n'este barquinho de um lado para o outro sem que possa livrar-me d'este encargo.
--Dir-t'o-hei á volta--respondeu.
Assim que se viu na margem opposta, reparou logo na bocca do inferno. Estava escuro, e chegava-lhe ao nariz o cheiro da fuligem. O diabo não estava em casa. Só lá estava a mãe, sentada n'uma larga poltrona que perguntou ao arrojado mocinho:
--Que queres tu d'aqui?--e olhava-o com certo ar de sympathia.
--Queria possuir tres cabellos d'ouro da cabeça do diabo, pois que se não os consigo, fico sem a minha noiva.
--É querer muito--retorquiu a velha--porque se o diabo entra e te vê aqui, não ganhas para o susto; mas tenho pena de ti e por isso te auxilío.
Quando acabou de falar, transformou-o n'uma formiga e aconselhou-o:
--Mette-te n'uma das prégas da saia, pois estás seguro do perigo.
--Está bem, mas eu desejava tres respostas a tres perguntas: qual a razão porque uma fonte que antigamente deitava vinho, agora nem uma gotta d'agua deita; porque é que uma arvore que d'antes dava maçãs d'ouro, agora nem folhas tem; e, finalmente, qual o motivo porque um pobre barqueiro tem de remar d'uma banda para a outra, sem que se substitua.
--São problemas com certa difficuldade de solução, mas ouve com attenção e não dês palavra; escuta com cuidado as respostas que hão de coincidir com o arranque dos tres cabellos de ouro.
Ao anoitecer, voltou o diabo. Ainda bem não tinha posto o seu pé-de-cabra dentro do inferno, e já notava um certo cheiro que lhe era estranho.
--Cheira-me a carne humana--dizia elle fungando.--Alguma cousa ha aqui que não é costume!
E poz-se a esquadrinhar por todos os cantos, mas nada encontrou. A mãe, então, ralhando-lhe, disse:
--Ainda agora arrumei a casa e andas tu a pôr tudo em polvorosa; não tens outro cheiro que não seja o de carne humana! Anda d'ahi, senta-te e come, que o teu mal é fome!
Depois de ter comido e bebido bem, sentiu-se cançado, collocou a cabeça no regaço da mãe, a quem pediu para o embalar. Não tardou a adormecer, roncando que nem um porco e assobiando como uma locomotiva. A velha aproveitou esse ensejo para lhe arrancar um cabello d'ouro.
--Ai!--fez o diabo--que faz mãe?
--Ora, deixa-me cá: tive um sonho terrivel, e por isso é que te arrepellei.
--Com que sonhou então?
--Sonhei que uma fonte que antigamente dava vinho, agora nem agua deita. Porque será?
--Se soubesse!--respondeu o demo.--Debaixo d'uma pedra vive um sapo; assim que o matem, a fonte continuará a deitar vinho.
A velha tornou a embalál-o e d'ahi a pouco Satan resonava e assobiava em alto ruido, e com tal força que até as vidraças estremeciam. A velha, vendo-o assim, arrancou-lhe o segundo cabello.
--Ui!--gritou sobresaltado o rei dos infernos--que pezadello foi esse mãe?
--Não te apoquentes, filho, foi um outro sonho que tive.
--E de que constava elle?--interrogou Belzebuth.
--De uma arvore que antes produzia maçãs d'ouro e que actualmente está despida de folhas. Qual a rasão do caso?
--Ora, é bem simples! tornou o demonio. É um rato que roe a raiz.
Matem-n'o que a arvore continuará a dar maçãs d'ouro; do contrario, o rato continuará na sua obra de destruição e a arvore definhará. Mas deixe-me socegado com sonhos; se me torna a acordar, não tenho outro remedio senão faltar-lhe ao respeito.
A velhota ameigou-o com boas palavras, e continuou acalentando-o, até que o viu de novo ferrado no somno; então, arrancou-lhe o terceiro cabello. O diabo deu um pulo, soltou um grito e ia-se zangando devéras com a mãe, mas esta cortou-lhe os impetos, dizendo:
--Oh, filho, quem é que é superior aos sonhos!
--Que sonho foi esse para assim me despertar! Decerto é muito curioso!
--Sonhei que um barqueiro se lastima bastante em andar de uma banda para outra sem que seja substituido.
--Porque é um asno chapado!--exclamou Satanaz--Ao primeiro passageiro que lhe peça para atravessar a margem, não tem mais do que entregar-lhe os remos e pirar-se!...
Agora a velha, que já tinha arrancado os tres cabellos d'ouro e que tinha na mão a chave dos tres enigmas propostos, deixou em paz o diabo, que dormiu a somno solto até madrugada.
Logo que o demonio saíu dos lares, a velha pegou na formiga, deu de novo figura de gente ao rapaz nascido n'um folle, e disse-lhe:
--Aqui tens os tres cabellos de ouro; quanto ás respostas dadas pelo diabo ás perguntas que formulaste, creio que as ouviste.
--Certamente que as ouvi e não me esquecem.
--E assim alcançaste o que querias--continuou a boa velha.--Agora pódes tornar para d'onde vieste.
O mocinho agradeceu muito o auxilio que a velha lhe havia prestado e saíu do inferno bem contente por haver conseguido os seus fins. Assim que chegou perto do barqueiro, este lembrou-lhe logo o cumprimento da promessa que lhe fizera.
Mas o rapazito, que era bastante sagaz, respondeu:
--Conduze-me á outra margem, que então te direi o que has de fazer para te vêres livre d'aqui.
Logo que pôz o pé na outra margem, o rapaz cumpriu a palavra:
--Apenas se apresente um novo passageiro para que o ponhas na outra margem, entrega-lhe os remos e sáfa-te.
Seguiu a sua róta, e depressa chegou ás portas da cidade, onde existia a arvore esteril; a sentinella aguardava o rapaz para que não se esquecesse do promettimento.
--Matem o rato que róe a raiz da arvore, se querem vêr a arvore carregadinha de maçãs de ouro--aconselhou o moço.
A sentinella, grata com a resposta, compensou-o com dois burros carregados d'ouro. Para encurtarmos razões, o rapaz nascido n'um folle depressa alcançou as portas da cidade, onde havia a fonte que estava sequinha. Aqui, repetiu tambem á sentinella as palavras do diabo:
--Debaixo de uma pedra está um sapo; assim que o matarem, continuará a fonte a dar vinho abundantemente.
A sentinella agradeceu muito e, em paga, deu-lhe tambem dois burros carregados d'ouro.
O rapaz nascido n'um folle estava, d'alli a pouco, em presença da noiva, a quem abraçou, e que ficou contente em tornar a vêl-o. Foi levar ao rei os tres cabellos d'ouro do diabo; e o soberano, ao vêr os quatro burros carregados de ouro, demonstrou claramente a sua alegria, dizendo:
--Agora que satisfizeste todas as condições, tens minha filha por tua mulher. Mas dize-me, meu caro genro, como é que arranjaste todo esse ouro?
--Atravessei um rio, cuja margem é de ouro, em vez de areia. Foi ahi que o apanhei.
--É muito difficil fazer egual colheita?--perguntou o monarcha, cujos olhos scintillavam de cubiça.
--É facilimo tomar tanto quanto se deseje--continuou o rapaz nascido n'um folle.--Ha um barqueiro proximo; peça-lhe que o conduza á outra margem, e d'esta maneira póde trazer os saccos que quizer cheios de ouro.
O monarcha, mordido pela ambição, depressa se pôz em marcha. Chegado á margem do rio pediu ao barqueiro para o levar á outra margem. O barqueiro apressadamente disse ao rei para entrar no barco, e assim que chegaram ao outro lado do rio, o barqueiro entregou-lhe os remos e saltou lesto para terra.
--E ainda lá está o rei feito barqueiro?--perguntarão os meus amaveis e gentis leitorzinhos.
--Está e estará até que expie, por completo todas as suas culpas.
O sapateiro e os gnomos
Era uma vez um sapateiro que, por vicissitudes da vida, empobreceu tanto que só conseguira comprar material sufficiente para um par de sapatos. De noite talhou a pelle para no dia seguinte os concluir; como era bom, deitou-se tranquillamente, orou e adormeceu.
No dia immediato, ao erguer-se, ia pegar na tarefa, mas achou em cima da mesa o par já feito. Ficou altamente surprehendido, mas não comprehendia o que o facto queria dizer. Pegou nos sapatos e viu-os, examinou-os de todas as fórmas e feitios, mas defeito algum lhes encontrou, tão bem acabados estavam; eram o que se chama uma obra prima, um encanto.
Entrou-lhe em casa um freguez, a quem agradaram tanto os sapatos que os comprou mais caros do que costumava, e com este dinheiro o sapateiro arranjou material para outros dois pares. N'essa mesma noite os talhou para no dia seguinte os concluir, quando, ao despertar, os viu já promptos; d'esta vez, ainda, não faltaram compradores e, com o producto da venda, pôde conseguir material para quatro pares.
No dia seguinte os quatro pares estavam promptos; finalmente, tudo o que talhava de vespera lhe apparecia feito de manhã, ao acordar; de modo que, sem grande trabalho, se achou remediado.
Uma noite, porém, pelas proximidades do Natal, quando acabára de talhar os sapatos e se ia deitar, disse para a mulher:
--E se nós velassemos esta noite para vêr quem é que nos ajuda?
A mulher approvou a ideia, e, deixando a candeia accêsa, escondêram-se n'um armario onde havia roupa e na qual se occultaram á espera dos acontecimentos. Ao dar a meia noite, dois bonitos gnomos entraram no quarto, sentaram-se na tripeça do sapateiro e, pegando na pelle talhada, com as pequeninas mãos ajustaram, coseram e bateram sola, com tanta agilidade e presteza que era um gôsto vêl-os.
Trabalharam sem descanço até que deram fim á tarefa, e desapparecêram n'um ai!
Na manhã immediata alvitrou a mulher:
--Estes gnomosinhos enriquecêram-nos, e nós devemos mostrar-lhes a nossa gratidão; elles devem sentir frio, sem nada que os tape. Sabes do que me lembrei? Fazer-lhes três camisinhas, calças, collete e casaco para elles vestirem e umas meiasinhas para calçarem; e para completar o brinde, tu fazias-lhes uns sapatinhos.
O marido concordou com a mulher, e deram logo principio á obra, e, decorridas bem poucas horas sobre tão sympathica resolução, á tarde, estava tudo prompto; collocaram, pois, marido e mulher, as suas prendas em cima da mesa, justamente no sitio em que era costume pôrem nos outros dias a obra talhada, e escondêram-se para verificarem o que os gnomos faziam. Meia noite a dar e elles a apparecerem para dar começo á tarefa; mas em vez dos sapatos cortados para elles fazerem, como tinha succedido nos dias antecedentes, encontraram essas vestimentas, o que lhes causou admiração, que d'ahi a pouco cedeu o logar a uma grande alegria. Vestiram os fatos com presteza, viram que lhes ajustavam como uma luva e começaram a dançar, a saltar por cima das cadeiras e dos bancos, e a cantar saíram.
Desde então, nunca mais os viram. O sapateiro, porém, continuou a ser feliz emquanto viveu, tendo tudo quanto ambicionava.
As tres pennas
Era uma vez um rei que tinha tres filhos; os dois mais velhos eram alegres e palradores, e o mais moço de poucas falas e muito acanhado, razão por que o tinham na conta de simples.
Quando o monarcha chegou a velho, quiz fazer testamento; mas viu-se bastante embaraçado por não saber a qual dos tres filhos legar a corôa. Certo dia, porêm, chamou-os e disse-lhes:
--Ponham-se a caminho, e aquelle que trouxer o tapete mais finamente tecido é que ficará sendo rei por minha morte.
Dizendo isto, para evitar qualquer má vontade dos irmãos, andou alguns passos além do palacio e, fazendo voar tres pennas, indicou-lhes:
--Cada um de vocês deve encaminhar-se na direcção que estas pennas levarem.
A primeira penna voou para o oriente, a segunda para o occidente e a ultima volitou uns segundos e foi caír a alguns passos de distancia.
Por, isso, o mais velho tomou o caminho da direita, o do meio voltou á esquerda e o mais novinho--troçado pelos mais velhos--encaminhou-se para o sitio onde caíra a terceira penna.
O pobre moço, apoquentado e triste, deitou-se no relvado. De repente notou uma porta subterranea no logar em que a penna caíra. Abriu-a e reparou n'uma escada, que se aventurou a descer. Uma vez em baixo, deu de rosto com outra porta, em que bateu. Então ouviu uma voz que--em phrase cabalistica--a mandou abrir.
Quando a porta girou nos gonzos viu-se um enorme sapo, de envolta com uma porção de sapinhos. O sapão perguntou ao rapazito o que é que desejava, ao que o interpellado retorquiu:
--Não seria facil arranjar-se um tapete bonito e finamente tecido?
Palavras não eram dictas e já o sapão gritava a um dos sapinhos, que, n'um pulo, lhe trouxesse um cofre.
O sapinho assim fez; o sapão abriu-o e tirou de dentro um tapete tão ricamente tecido como nunca no mundo se havia visto egual, com o que presenteou o rapazinho, que agradeceu muito e se pôz em marcha.
Ora, os dois irmãos reflectiram de si para si que o irmão era tão palerma, que se escusavam de cançar muito para toparem com um tapete decerto superior ao que elle conseguisse.
Assim deitaram a mão ao primeiro panno de lã grosseira que uma guardadora de porcos trazia, e vieram entregál-o ao rei. Pouco depois, appareceu o irmão mais novo com o magnifico tapete.
O regio personagem, no auge da surpreza, exclamou:
--O reino pertence ao mais moço!
Os irmãos é que não estiveram pelo ajuste e observaram ao velho pae, que tal resolução era impracticavel, pois o irmão não passava de um pateta; taes rodeios arranjaram, taes razões, que o monarcha, já fatigado de tanta loquella, não teve remedio senão tentar segunda experiencia.
--Será rei por minha morte aquelle que me trouxer o mais valioso annel.
Conduziu novamente os tres filhos a alguns passos distantes, do palacio e fez voar tres pennas, cuja direcção deviam tomar. Como da primeira vez, os dois mais velhos partiram para o oriente e occidente; quanto á penna do mais moço volitou tambem por segundos e foi caír d'alli a poucos passos.
Ao contrario da vez passada, o rapaz não entristeceu, mas apressou-se a descer a escada pela porta subterranea, em direcção á casa do sapão que, de chofre, lhe perguntou o que queria, respondendo em seguida:
--Não será facil arranjar-se um bonito e valioso annel?
O disforme batrachio mandou buscar o cofre e tirou-lhe de dentro um annel riquissimo, e tão artisticamente cinzelado, que ourives algum do mundo seria capaz de apresentar outro do mesmo gôsto.
Ora os dois irmãos, rindo-se ao pensar que o simples mocinho havia de conseguir um annel precioso, não se deram a grandes trabalhos, certos de que se sairiam melhor do encargo do que aquelle, e assim arrancaram a primeira argola que viram presa n'uma parede e que servia para segurar os animaes, e foram ter ao palacio dál-a ao rei. O velho monarcha nem sequer teve que comparar, exclamou:
--É ao terceiro que faço rei!
Entretanto, os dois mais velhos convenceram tão bem o velho rei da nullidade do irmão que o monarcha consentiu em fazer terceira tentativa, a ultima. Decidiu-se que herdava o throno o que trouxesse a mulher mais formosa. Como das vezes passadas, as tres pennas foram deitadas ao ar e tomaram as mesmas direcções.
O moço-simples desceu pela terceira vez a casa do sapão.
--Não seria desejar muito, pedir uma formosa mulher?
--Caspité!--exclamou o grande batrachio.--Uma formosa mulher?! E porque não has-de têl-a?!