Perolas e Diamantes: Contos Infantis

Chapter 2

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--Nasci dentro de algum folle com certeza; pensou de si para si--tenho sorte em tudo!

Entretanto como já andava desde manhã sentiu-se fatigado; estava com fome, mas nada tinha com que a matar, por ter comido todo o farnel quando da troca da vacca. Custou-lhe a andar e volta e meia tinha que parar para descançar; as pedras faziam-lhe muito pezo e disse com os seus botões que era bem bom que não as levasse, pois que lhe impediam andar mais ligeiro. Arrastando-se conforme pôde, chegou proximo de uma fonte ficando contente por encontrar com que molhar as guellas e crear alento para a caminhada.

Não querendo estragar as pedras, pôl-as no rebordo da fonte e curvou-se para encher o barrete da limpida agua que corria da bica; mas, tocando-lhes sem dar por isso, as pedras rebolaram e caíram com grande ruido dentro d'agua.

João, assim que as viu desapparecer, saltou de contentamento e, ajoelhando-se, agradeceu a Deus, com os olhos marejados, a mercê que lhe havia feito de o livrar d'aquelle peso.

--Era esta a unica cousa que me incommodava! Não creio que haja rapaz mais feliz do que eu!

E de coração ao largo, não possuindo mais cousa alguma, pôz novamente pernas a caminho e só parou quando topou com a porta de casa de sua mãe.

Pelle d'urso

Em epochas bastante afastadas houve um rapazito que sentou praça e desde então mostrou heroicidade, sendo o primeiro a avançar ao chover das balas. Emquanto durou a guerra, tudo lhe correu ás mil maravilhas; mas assim que se assignaram as pazes, o nosso soldado recebeu a soldada que lhe cumpria e o commandante da columna, a que o mancebo pertencia, disse-lhe que fosse para onde lhe aprouvesse, pois no regimento já não era preciso. Os paes haviam morrido, e o infeliz, n'estas condições, não tinha patria. Não sabendo a quem recorrer, foi ter com os irmãos pedir-lhes albergue emquanto não havia novo rompimento de hostilidades. Ora, como os irmãos eram muito ruins responderam-lhe:

--Em que poderemos empregar-te? Em nada nos poderias ser util! Tracta de te arrumar algures.

Ao pobre soldado só ficára a espingarda; pôl-a ao hombro, e resolveu correr mundo. Depressa chegou a uma charneca, onde vegetava um numero de arvores muito limitado. Sentou-se cabisbaixo á sombra e começou a matutar na triste situação a que se via reduzido.

--Estou sem dinheiro--pensou--só conheço o officio das armas, e agora que estão feitas as pazes, este officio de nada me póde servir, e o meu fim é morrer de fome.

De repente, ouviu um ruido; voltou-se e viu, defronte de si, um desconhecido, com um casaco verde; estava vestido com esmero, mas tinha pés-de cabra.

--Eu sei o que te falta--disse-lhe o estranho personagem--Conceder-te-hei tantas riquezas quantas queiras, mas é necessario que não sejas medroso, pois n'esse caso não estou para tentar fortuna.

--Soldado e medo são cousas que não se casam--respondeu o rapaz--Podes tentar.

--N'esse caso, olha para traz!--tornou o diabo feito homem.

O soldado olhou e viu um enorme urso que avançava para elle urrando.

--Ah! elle é isso?! Espera lá que já te vaes calar de vez!--e o soldado assim falando apontou e fez fogo tão certeiro que a bala entrou no focinho do pesado animal que caiu redondo, sem um gemido.

--Está provado que não te falta coragem! Falta ainda outra condição para o contracto.

--Desde o momento em que não seja cousa alguma contraria á minha saude, estou disposto a tudo o que quizeres.

--A condição é esta: durante sete annos não te lavarás, nem farás a barba, nem te pentearás, nem cortarás as unhas e, por ultimo, nem resarás. Se te agrada a proposta, dou-te um fato e um manto que não tirarás senão ao cabo d'esses sete annos. Se morreres entretanto, cairás em meu poder; se, pelo contrario, viveres muito tempo, conquistarás a liberdade e serás rico o resto de teus dias.

O soldado reflectiu no perigo que corria, mas, como varias vezes havia affrontado a morte, decidiu-se a arriscar a vida na empreza, e acceitou o alvitre. O diabo despiu o casaco verde, que fez vestir ao soldado, accrescentando:

--Desde que vistas este casaco não te ha de faltar dinheiro; mette a mão na algibeira e verás que te não minto.

Dicto isto tirou a pelle ao urso morto e presenteou com ella o soldado a quem disse:

--Este é que é o teu manto; servir-te-ha de cama, porque não te é permittido deitar-te sob lençoes. Como consequencia d'este nosso contracto todos te chamarão _Pelle d'urso_.

Ao terminar a indicação, o demo sumiu-se.

O soldado vestiu o casaco, metteu a mão á algibeira e achou o que o estupendo personagem lhe dissera; em seguida, envolvendo-se na pelle d'urso, pôz-se a caminho, mostrando-se sempre e em toda a parte bondoso e esmoler. O primeiro anno correu bem, mas ao segundo anno já era um monstro; o cabello tapava-lhe os olhos completamente; a barba parecia um grosseiro boccado de feltro; os dedos afuselavam-se em garras e o rosto estava tão sujo que se houvesse semeado n'elle qualquer planta, esta não deixaria de se desenvolver. A sua presença afugentava toda a gente; como, porêm, por todos os logares em que passava, elle distribuia esmolas aos pobres, pedindo-lhes que orassem por elle, afim de que não morresse antes de sete annos, e como usava pagar depressa e bem, nunca ficára ao relento, e tinha sempre quem lhe désse dormida.

No meiado do quarto anno, chegou a uma estalagem, mas o estalajadeiro recusou-se a dar-lhe gasalhado; este homem nem mesmo consentiu que o estranho hospede fosse dormir para a estrebaria, receoso de que a presença de similhante exemplar da especie humana lhe espantasse os cavallos. Comtudo _Pelle d'urso_ metteu a mão na algibeira, tirando um punhado de dinheiro, e o estalajadeiro á vista do diabolico iman curvou-se á imperiosa ambição e consentiu que o estranho viandante ficasse n'um pessimo quarto interior, e ainda sob condição de que não se mostraria a pessoa alguma, temendo sempre que a casa, por aquelle dever de hospitalidade, perdesse os créditos.

Emquanto _Pelle d'urso_, sentado sósinho no humilde casinholo, pensava tristemente na lentidão dos annos que ainda tinha a passar sob aquelles medonhos trajes, ouviu queixumes e suspiros que partiam d'um quarto proximo. Como era dotado de bom coração--e sem se lembrar do pedido do hospedeiro--abriu a porta e viu um velho que chorava a bom chorar e que, dolorosamente, punha as mãos na cabeça. _Pelle d'urso_ acercou-se do companheiro de estalagem que se ergueu subitamente querendo fugir. Ao ouvir, porêm, a voz da estranha creatura, serenou, e a sua conversa amavel fêl-o animar a confiar-lhe as maguas que o affligiam. Os seus recursos iam diminuindo a olhos vistos; as filhas e elle estavam sujeitos a soffrer as maiores privações, e tão pobre era que não podia pagar hospedagem ao estalajadeiro, razão pela qual o iam prender.

--Se outro não é o vosso cuidado, consolae-vos--disse _Pelle d'urso_ ao ouvir a narrativa do velho--A mim não me falta dinheiro.

Chamou o estalajadeiro e pagou-lhe tudo o que o velho lhe devia, entregando a este uma bolsa recheadinha d'ouro.

Quando o velho se viu tão facilmente livre de apoquentações, não teve palavras para exprimir o seu grande reconhecimento; ao cabo de algum tempo, disse a _Pelle d'urso_:

--Siga-me; as tres filhas que possuo são perfeitas maravilhas de belleza; auctorizo-o a escolher uma para mulher. Assim que souberem da boa-acção que practicou em meu favor, serão as primeiras a acceder ao meu desejo. Realmente, o seu aspecto é exquisito e pouco attrahente, mas a que escolher saberá disfarçar a primeira impressão que é, decerto, desagradavel.

A proposta agradou a _Pelle d'urso_, que de muito boamente acompanhou o velho. Apezar de afastados de casa, a primeira filha ao vêl-o fugiu, transida de medo, aos gritos. A segunda--valha a verdade--não fugiu senão depois de o ter bem examinado dos pés á cabeça.

--Como posso eu acceitar por marido um ser que não tem aspecto humano? Marido por marido, então antes preferia o urso pardo que ultimamente se exhibiu pelas ruas, que dava ares de homem, vestindo um rico manto e de luvas calçadas! Era feio, mas facilmente me habituaria a vêl-o.

Quando coube a vez da mais novinha esta disse:

--Meu pae, este homem deve ter um bom coração, pois que duvida alguma teve em livral-o de apuros; se, para lhe provar a gratidão de que está possuido para com elle, lhe prometteu noiva, não se dirá que a sua palavra se não cumpre.

Que alegria não transpareceria no rosto do pobre soldado, se não estivesse tão velado pelo cabello! O seu coração rejubilou ao ouvir as boas palavras da linda moça! Tirou do dedo um annel que trazia, partiu-o em duas metades e deu uma das partes á rapariga, tendo antes d'isso o cuidado de escrever o nome na parte que deu á promettida e o d'ella na metade com que ficou. Feito isto, despediu-se dos seus novos conhecimentos, dizendo-lhes:

--Tenho ainda de correr mundo durante tres annos; se voltar ao cabo d'esse tempo casamos; se não tornar, a sua palavra está desligada do compromisso, pois é prova segura de que morri; rogue a Deus para que me conserve a vida.

A infeliz namorada vestiu-se toda de negro, e sempre que se lembrava do seu promettido as lagrimas corriam-lhe abundantes. As irmans não se cançavam de a motejar e escarnecer.

--Acautela-te ao extenderes-lhe a mão, não vá elle dar-te a pata!--dizia-lhe a mais velha.

--Sê prudente, pois os ursos são traiçoeiros, e ainda que lhe agradasses, póde muito bem ser que depois te devore!--fazia côro a segunda irman.

--Tens de fazer-lhe todas as vontades, senão dá urros!--tornava a primeira.

E accrescentava a do meio:

--Sim, sim... e olha que a cerimonia deve ser bem divertida, pois os ursos dançam alegremente.

A pobre creatura conservava-se alheia aos motejos que lhe não faziam diminuir o sentimento que nutria pelo bemfeitor de seu pae. Entretanto _Pelle d'urso_, percorrendo varios logares, continuava practicando o bem e semeando dinheiro a rôdo em esmolas, na esperança de que os mendigos rogariam por elle. Chegou finalmente o ultimo dia dos sete annos de caminheiro.

Tomou o caminho da charneca e foi sentar-se no mesmo sitio em que se havia sentado sete annos antes. Pouco tempo esteve só, pois que, segundos depois, sentiu soprar o vento e viu na sua frente o diabo olhando-o tristemente; em seguida restituiu ao viandante o seu antigo traje, recebendo em troca o casaco verde que lhe cedêra.

--Não te apresses--disse _Pelle d'urso_--primeiro tens que me arranjar convenientemente.

Se a lembrança agradou ou não ao demo é cousa que não podemos averiguar, mas o que é certo é que, com vontade ou sem ella, não teve outro remedio senão ir buscar agua, lavar _Pelle d'urso_, cortar-lhe o cabello e as unhas, penteál-o e fazer-lhe a barba. Limpo e arranjado, _Pelle d'urso_ voltou ao seu aspecto de soldado valente; nunca fôra tão formoso.

Assim que se viu livre do diabolico personagem de uma vez para sempre, o heroe do nosso conto sentiu-se leve que nem uma penna. Rapido se encaminhou para uma povoação proxima, comprou uma andaina de velludo, sentou-se n'uma elegante carruagem puxada a duas parelhas de cavallos brancos, e deu ordem ao cocheiro para se dirigir a casa da noiva. Pessoa alguma o reconheceu; e o futuro sogro, imaginando-o um alto personagem, fêl-o entrar para o gabinete em que permaneciam as filhas. Convidou-o a sentar-se entre as mais velhas que tiveram o cuidado de offerecer-lhe vinhos generosos, doces dos mais finos, emfim fizeram tudo o que puderam para lhe agradar, e dizendo em segredo, entre si, que nunca tinham contemplado personagem tão perfeito. Comtudo a noiva, coberta de lucto, permanecia sentada defronte d'elle; não erguia os olhos nem dizia palavra. Por fim, o desconhecido--para nós bem conhecido--pedindo ao velho se consentia ser esposo de uma das filhas, as duas mais velhas levantaram se como se mola as impellisse, e foram paramentar-se com os mais ricos vestidos que possuiam, pois qualquer d'ellas estava crente de que era sobre si que incidia a escolha do desconhecido personagem. Ora, este apenas se viu só com a futura, tirou da algibeira metade do annel que conservara preciosamente, metteu-a n'um calice que encheu de vinho generoso, apresentando-o á fiel menina que o acceitou e, depois de o beber, notou no fundo a metade do annel; sentiu pulsar o seu coração; tomou a outra metade que trazia pendente de um collar que lhe envolvia o pescoço, approximou as duas e viu que se ajustavam perfeitamente. Por então o rapaz disse:

--Sou o teu noivo, o noivo que ha tres annos viste coberto com uma pelle d'urso, mas graças a Deus recobrei a minha fórma primitiva.

Ao concluir, apertou-a nos braços, e beijou-a na testa. N'essa occasião, entraram as duas irmans muito tafulas nos seus vestidos, e ao verem que o personagem já estava compromettido com a mais moça, é que se lembraram de que não podia ser outro senão _Pelle d'urso_, de quem tão pouco haviam feito. Ficaram tão corridas de vergonha e de invejoso ciume que fugiram do gabinete: uma deitou-se a um poço, e a outra enforcou-se na primeira arvore que encontrou.

Á noite bateram á porta; o noivo foi abril-a e reconheceu pelo casaco verde o diabo que lhe disse:

--Fiquei sem a tua alma, é certo, mas em compensação appareceram-me duas!

Aventuras de João-Pequenino

No tempo em que Deus andava pelo mundo, estava um pobre lavrador aquecendo-se á lareira emquanto se lastimava á mulher, que perto d'elle fiava, desgostoso por não ser contemplado com filhos.

--Que socego--accrescentou--vae n'esta casa emquanto que em outras então tanto barulho ha causado pela alegria e pelos risos da pequenada!

--Tens razão--appoiou a mulher, suspirando.--Oxalá tivéssemos um só, embora tão pequenino que quasi se não visse. Isso me bastaria para nos alegrar e querer-lhe iamos de todo o coração.

A boa mulher, alguns dias passados, principiou a andar doente, e ao cabo de sete mezes foi mãe d'um menino tão bem formado que se disséra de todo o tempo, mas muito pequenino. Ao vêl-o, a mãe não se conteve que não dissesse:

--É exactamente como nós o haviamos desejado; não deixa, apezar de mais pequeno do que um dedal, de ser o nosso filhinho.

Por via d'isso toda a parentella lhe ficou chamando João-Pequenino. Crearam-n'o tão bem quanto puderam; não cresceu mais, ficando sempre do mesmo tamanho em que nascêra. Era muito vivo, muito esperto; e tinha uns olhitos muito brilhantes; e bem cedo mostrou o tino e actividade sufficientes para levar a bom-effeito qualquer empreza a que se abalançasse.

O camponez, certo dia, apromptava-se para ir cortar madeira á matta visinha e disse para comsigo:

--Bem precisava eu de quem me conduzisse a carroça.

--Pae--gritou João-Pequenino--eu guio a carroça, se quer; não se assuste que chegará a tempo.

O homem desatou a rir:

--Isso é impossivel! Se és tão pequenino, como has de segurar a redea ao cavallo?

--Isso não faz ao caso, pae! Se a mãe vae atrellar o cavallo, eu metto-me na orelha do cavallo e ensino-lhe o caminho a seguir.

--Pois então, experimentemos.

A boa da mãe metteu o cavallo á carroça, e introduziu João-Pequenino na orelha do animal; e o João-ninguem gritava todo o caminho: Vá, cavallo! mas tão distinctamente que o animal andava como se na realidade o guiasse algum carroceiro; d'esta maneira chegou a carroça á matta, indo pelos melhores caminhos.

No momento em que a carroça torneava uma sebe, e se ouvia a voz do rapazinho: vá, cavallo! passaram dois individuos desconhecidos que exclamaram estupefactos:

--É celebre! Uma carroça que anda á voz de um carroceiro que não se vê!

--Alguma cousa ha de extraordinario; sigamos o vehiculo para vêr onde pára!

Continuou a carroça no caminho que levava até parar no sitio onde havia arvores caídas. Assim que João-Pequenino avistou o pae, gritou:

--Então, pae, guiei ou não guiei a carroça? Agora põe-me no chão.

O lenhador, segurando com uma das mãos a redea, serviu-se da outra para tirar de dentro da orelha do cavallo o rapazito a quem pôz no chão; o rapazinho sentou-se n'um feto.

Os dois desconhecidos, ao vêrem João-Pequenino, não sabiam que imaginar, de tal maneira ficaram extacticos com o rarissimo phenomeno. Falaram em segredo e resolveram:

--Este exemplar póde trazer-nos uma fortuna, se quizermos expôl-o a troco de alguns cobres em qualquer povoação; não será mau comprál-o.

Em seguida encaminharam-se para o camponez, e propuzeram-lhe:

--Quer vender-nos esse anãosinho sob a condição que cuidaremos muito d'elle?

--Não,--respondeu o interrogado--é meu filho e por dinheiro algum eu me desfaria d'elle.

João-Pequenino, porêm, que percebêra e ouvira bem toda a conversa, trepou pelas pernas do pae á altura do hombro e segredou-lhe:

--Pae, acceite a proposta, que eu em breve estarei de volta.

Ante esse conselho de João-Pequenino, o pae cedeu-o aos homens por uma valiosa moeda de ouro.

--Onde queres tu collocál-o?--perguntaram entre si.

--Ora, ponham-me na aba do chapéu; assim posso vêr tudo quanto se passa em volta de mim e não ha meio de me perderem--alvitrou João-Pequenino, accrescentando:--Mas, cuidado, não me deixem cair.

Os homens assim fizeram; João-Pequenino despediu-se do pae, e foram-se embora com o rapazinho. Fartáram-se de caminhar até ao cair da tarde; n'essa occasião o boccadinho de gente gritou-lhes:

--Parem, que preciso de descer!

--Deixa-te estar no meu chapéu; não estejas com cerimonias, porque os passarinhos tambem me fazem isso muita vez!

--Não, não quero!--insistiu João-Pequenino--ponham-me depressa no chão.

O homem pegou no João-ninguem e pôl-o no chão n'um relvado á beira-estrada; João-Pequenino depressa alcançou umas moutas e de repente encafuou-se n'uma toca de rato que buscára de propósito.

--Boa viagem, meus senhores, continuem o caminho sem a minha companhia--lhes gritou, rindo. Quizeram agarrál-o, fazendo cócegas na toca de rato com palhinhas--como é de uso fazer-se aos grillos, mas perderam o tempo e o feitio, pois que João-Pequenino cada vez se mettia mais para dentro da toca, e a noite visinhava-se, de modo que foram obrigados a ir para casa, fulos e com as mãos a abanar.

Quando já iam longe, João-Pequenino saiu do improvisado esconderijo. Arreceou-se de seguir viagem á noite, por meio de campos, porque partir uma perna não é difficil. Felizmente avistou uma cavidade no topo de uma arvore, exclamando:

--Louvado Deus, já tenho casa para dormir.

Quando ia a pegar no somno, ouviu a voz de tres homens que abancaram por baixo da arvore, ceando e conversando:

--Como havemos de proceder para roubar a esse rico parocho toda a sua fortuna?

--Eu lhes digo!--dirigiu-se lhes a voz invisivel.

--Quem está ahi?!--gritou um dos ladrões verdadeiramente aterrorizado--Ouvi uma voz!

Calaram-se para escutar, quando João-Pequenino se tornou a ouvir:

--Tomem-me á sua conta, que eu os ajudarei n'essa _piedosa_ tarefa.

--Onde é que estás?

--Procurem na arvore, no sitio d'onde parte a voz.

Os ladrões encontraram-n'o por fim e exclamaram:

--Pedaço de gente, como é que tu nos pódes ser util!

--Ora, de um modo bem facil: metto-me pelas grades da janella que ha no quarto do parocho e vou-lhes passando tudo o que quizerem.

--Pois bem, seja!--accederam os ladrões--Vamos á experiencia!

Assim que chegaram ao presbyterio, João-Pequenino introduziu-se no quarto, e em seguida começou a gritar com toda a força dos pulmões:

--Querem tudo o que está aqui?

Os ladrões amedrontados disseram-lhe:

--Fala mais baixo que acordas toda a gente!

João-Pequenino fazendo ouvidos de mercador, cada vez gritava mais:

--O que é que vocês querem? É tudo isto?

A creada, que dormia no quarto pegado áquelle em que o heroe da historieta se encontrava, ouviu este ruido, levantou-se da cama e pôz-se de ouvido á escuta; os malfeitores haviam desapparecido, mas cobrando animo e, suppondo que o rapazito só os queria amedrontar por mera brincadeira, voltaram á carga, e disseram-lhe devagarinho:

--Tem mais tento: passa-nos alguma cousa, anda! João-Pequenino, se gritava até então, agora quasi que berrava:

--Vou dar-lhes já tudo; aparem as mãos!

D'esta feita, a creada ouviu tudo perfeitamente; saltou da cama e correu para a porta. Os gatunos ao presentirem gente deram ás de villa Diogo, como se o Diabo lhes tivesse dado azas; a creada, não ouvindo mais cousa alguma, foi accender uma candeia. Quando appareceu, João-Pequenino, sem que ella o tivesse enxergado, foi esconder-se no palheiro. A creada, depois de ter pesquizado todos os cantos á casa sem que nada visse, tornou a deitar-se, suppondo que tudo o que ouvira fôra sonho.

João-Pequenino tinha-se aninhado no feno, onde arranjára uma boa caminha em que contava dormir até manhan, indo em seguida para casa dos paes que a essa hora deviam estar em sobresaltos. Não pararam porém, aqui as aventuras d'este ratão; havia de passar ainda por bem maus boccados. A creada ergueu-se ao luzir do buraco para dar ração ao gado. A primeira cousa que fez foi ir ao palheiro buscar forragem, d'onde tomou uma braçada de feno com o infeliz João-Pequenino lá mettido muito ferrado no somno. E tão bem dormia que não deu por cousa alguma e quando despertou viu-se na bocca de uma vacca, que o enguliu com um boccado de feno. A primeira impressão que sentiu foi a de se julgar caido num moinho de pisoeiro; mas depressa comprehendeu onde é que realmente estava. Evitando o metter-se por entre os dentes, deixou-se escorregar pela garganta até ao estomago. O compartimento em que se encontrou parecia-lhe estreito, sem janella, e onde não havia sol, nem luz, nem sequer candeia! A casa em que morava desagradava-lhe bastante, e o que mais complicava a sua critica situação, era a quantidade de feno que lá se armazenava, estreitando mais ainda o pouco espaço em que se continha. Por fim, não podendo mais suster-se do terror que d'elle se apossára, João-Pequenino gritou o mais que poude:

--Basta de feno, basta de feno que eu não posso mais... abafo!

A moça do parocho, que n'esse momento estava precisamente a mungir a vacca, ao ouvir a voz sem que visse quem falava, mas que reconhecia pela que a tinha acordado durante a noite, assustou-se tanto que saltou do banco em que estava sentada, entornando o leite. Foi de caminho, a toda a pressa chamar o parocho para lhe dizer:

--Senhor cura, a vacca fala!

--Tu ensandeceste, rapariga?--tornou o padre, emquanto que despreoccupadamente se dirigia para o estabulo, para se certificar do que ouvira.

Não tinha ainda o parocho franqueado o portal quando João-Pequenino gritou de novo:

--Basta de feno... que eu atabafo!

O terror apoderou-se então do padre, que suppondo a vacca enfeitiçada, ou que tinha o diabo mettido no corpo, disse que era preciso dar cabo d'ella. Abateram-n'a, e o estomago, onde o pobre João-Pequenino se via prisioneiro, foi lançado para o estrume.

O rapazito viu-se em pancas para se desenvencilhar do mal-cheiroso sitio em que se conservava, e apenas conseguiu ter a cabeça desembaraçada, uma nova desgraça o veiu ferir, uma aventura inesperada. Um lobo esfaimado atirou-se ao estomago da vacca, e, chamando-lhe um figo, enguliu-o d'uma assentada. João-Pequenino não descoroçoou.

--Talvez--pensou com os seus botões--este lobo seja sociavel.

E de dentro da barriga, em que estava novamente preso, gritou-lhe:

--Bom lobo, vou ensinar-te o sitio onde ha uma excellente prêsa.

--E onde fica isso?--perguntou o lobo.

--N'esta e n'aquella casa; pouco trabalho tens: basta-te deslizar pelo exgotto da cosinha; ahi encontrarás bons boccados, como toucinho, chouriço á discreção; que mais queres? E olha que te não levo nada pelo conselho!

E assim o experto João-Pequenino lhe deu os signaes certos da casa do pae.