Perolas e Diamantes: Contos Infantis
Chapter 1
Irmãos Grimm
PEROLAS E DIAMANTES
EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL SOCIEDADE EDITORA
LIVRARIA MODERNA RUA AUGUSTA, 95 LISBOA-MDCCCCVIII
PEROLAS E DIAMANTES
VOLUMES PUBLICADOS
DA
BIBLIOTHECA DAS CREANÇAS
A 200 réis br. e 300 enc.
I--_Contos de Fadas._
II--_Novos Contos de Fadas._
III--_Terceiro Livro de Contos de Fadas._
IV--_Historias da Carochinha._
V--_Historias phantasticas (Aventuras do Barão de Münchhausen)._
VI--_Céu Azul._
VII--_Contos Côr de Rosa._
VIII--_Palhetas de Oiro._
IX--_Lendas ao Luar._
X--_Perolas e diamantes._
NO PRÉLO
XI--_Contos do Natal._
EM PREPARAÇÃO
XII--_Escrinio de joias._
BIBLIOTHECA DAS CREANÇAS
X
IRMÃOS GRIMM
Perolas e Diamantes
CONTOS INFANTIS
COLLIGIDOS POR
HENRIQUE MARQUES JUNIOR
LISBOA LIVRARIA MODERNA Rua Augusta, 95 1908
_A meu irmão Paulo consagro estes simples contos infantis, cujo encanto mais tarde avaliará._
HENRIQUE
XVI-IX-CMVII.
_Carta-prefacio_
_... Sr. Henrique Marques Junior._
Pede-me V. algumas palavras para acompanhar o decimo volumesinho da sua encantadora bibliotéca infantil; e eu, abrindo uma excéção aos meus hábitos, de bom grado lhe envio o que deseja para abrir as suas «_Perolas e diamantes_.»
E digo abro uma excéção, porque até hoje me tenho sistematicamente recusado a prologar livros alheios, assim como para os meus jámais tenho pedido prologos a outros camaradas. Mas isto não quer dizer que V. tenha andado mal fazendo-o, pelo contrario tem feito muito bem em vista do assunto de que se trata e das pessôas autorisadas que tem chamado a depôr no tribunal da opinião publica. Isto porque a questão pedagogica, a que se liga a litteratura infantil, tem tantos controvertores que sobre ella ainda não se póde, com segurança, dogmatisar preceitos e sistemas.
Muitos pedagogistas, e eu estou com elles, estimam a literatura infantil muito variada e imaginosa e aceitam como util o conto tradicional, o conto fantastico, emfim.
Entre muitas razões que para isso apontam é o prazer excécional que esses contos despertam na criança, e vêr que com elles, mais do que com outros, se desperta e desenvolve no espirito infantil o gosto da leitura.
Outras, pessôas gradas e ponderadas que desejam educar as crianças como quem cria flores perfeitas para determinados resultados já previstos pela sciencia, protestam contra a fantasia e querem só a _verdade_...
Como se nós podessemos explicar a um pequenino espirito que se entre-abre á luz o que é uma geleira, uma borboleta, um trasatlantico sem o auxilio de fantasia!
Comprehenderá a criança melhor que um homem possa descer ao fundo glauco das ondas revestido d'um escafandro do que vá aos infernos buscar o cabello de ouro do diabo?...
Para ellas tudo são surpresas, tudo maravilhas.
Acrescentando ainda que os contos educativos e moraes para o serem, igualmente são fantasiados e para a maior parte das crianças é tão longiqua, tão extraordinaria uma viagem á Suissa ou á Italia, como uma passeata dada com as _botas de sete leguas_ do gigante.
Por mais que se queira, não é possivel fugir á fantasia, que é afinal a parte intelectual e superior da vida; o ponto está em que se canalise devidamente a atenção e o gosto infantil e se lhe vá anotando o que de impossivel se conta para os entreter.
Os psicólogos estão muito enganados; não são os contos fantasticos que desenvolvem as imaginações desvairadas: a criança logo que começa a raciocinar sabe muito bem discernir até onde chega o possivel e onde se entra no limite do impossivel. Tem até graça uma observação que tenho feito entre as crianças do meu conhecimento--e não são poucas as que tenho estudado--a criança mais fantasista, mais imaginosa, mais creadora de sonhos de acordado, é a que menos lê, a que menos se interessa pelas criações alheias. As ponderadas, as serenas, as positivas, aceitam esse acepipe como um prazer do espirito e não desvairam com elle.
Veja-se e compare-se a riqueza fabulosa das literaturas infantis das raças frias do norte, em comparação com as das raças latinas.
Veja-se como lá a fantasia se expande livremente e como são familiares a toda a gente os contos e fabulas tradicionaes.
Por cá abusa-se do sentimentalismo como se fosse qualidade que désse mais condições de resistencia ao ser humano.
E... para terminar, que o espaço é pouco, dir-lhe hei que considero bem o incluir a serie graciosa que acaba de enfeixar sob o sugestivo titulo de «_Perolas e diamantes_,» verdadeiras joias preciosas do escrinio magnifico dos mestres suprêmos que foram, no genero, os irmãos Grimm.
Não esquecerei nunca o deslumbramento, o encanto que senti ao lêr, pela primeira vez, estes contos, e a anciedade com que acompanhei o _homem-urso_ na sua dolorida peregrinação enfeudado ao diabo... desejava falar n'esta pequenina collecção destacando um por um dos seus lindos episodios, mas... tenho que cinjir-me ao pequeno espaço que me é dado.
Termino, pois, dizendo-lhe: em nome das crianças portuguêzas agradeço o cuidado que tem tido em lhes escolher lindos contos para seu prazer, e em nome das mães pedindo-lhe que não desanime na empreza.
A literatura portuguêza é ainda pobre, apezar do que ultimamente se tem feito; precisamos mais e mais...
As crianças tudo merecem, ellas que nos lêem com tanto enthusiasmo e tão sinceramente nos estimam.
Creia-me
_Anna de Castro Osorio._
Setubal, 16-3-908.
O violino maravilhoso
Era uma vez um homem muito rico, mas muito avarento, que tinha como creado um rapaz honesto e activo, como não haverá muitos; todas as manhans o moço se erguia ao romper da alva e só se deitava ao ultimo cantar do gallo.
Quando havia algum trabalho mais penoso, ante o qual todos recuavam, o rapaz fazia-o, contente, satisfeito e sem sombra de azedume.
Logo que acabou o primeiro anno de permanencia em casa do avarento, que não estipulára soldada, não recebeu um ceitil de paga, pensando de si para si que o moço, não tendo dinheiro, não se tentaria com outra collocacão. O rapaz calou-se e continuou a trabalhar como d'antes; ao cabo de dois annos, o avarento nada deu e o rapaz permaneceu no seu mutismo.
Ao fim do terceiro anno, o rico, espicaçado pela consciencia, metteu a mão ao bolso para remunerar o fiel creado, mas, raciocinando, arrependeu-se e tirou a mão vasia. O rapaz exclamou então:
--Patrão servi-o tres annos o melhor que me foi possivel; agora quero vêr mundo e por isso peço que me pague as soldadas que me deve.
--Tens razão--respondeu o rico avarento--fiquei sempre muito satisfeito com o teu trabalho e a tua boa-vontade, e por isso vou remunerar-te como mereces. Aqui tens tres escudos novos; é um por cada anno que me serviste.
O rapaz, que andava sempre alegre e que era d'uma grande simplicidade no que respeitava a dinheiro, julgou ter recebido uma fortuna que lhe permittiria viver vida folgada por largos annos.
Disse adeus ao antigo patrão e foi-se embora, atravessando montes e valles, cantando, saltando e alegre que nem um passarinho.
Ao acercar-se d'um monte, viu sair um velhinho muito corcovado que lhe gritou:
--Olé companheiro, não pareces levar em conta de pesares a tua vida?!
--Que ganho eu em me apoquentar?--retorquiu o moço--Tenho na algibeira a soldada de tres annos de trabalho.
--E a quanto monta essa fortuna?
--A tres escudos novinhos, muito luzidios. Olha, sentel-os trincolejar, quando lhes toco com as mãos?
--Ora ouve cá--tornou o gnomo, de bom coração como se vae vêr. Eu estou muito velhinho, e forças para trabalhar já não tenho; tu, que és novo e forte, estás ainda em bom tempo de ganhares a vida.
O rapaz, que era de boa indole, apiedou-se do velho gnomo e fez-lhe presente dos tres preciosos escudos que tanto prazer lhe davam.
--Como és esmoler--expressou-se então o genio bom em figura de gnomo--dou-te licença para que me peças tres cousas que são a paga dos teus tres escudos.
--Então, pois sim!--fez o rapaz incredulamente--Isto que tu queres fazer é só do dominio das phantasias para entreter creanças. Mas, emfim, sempre quero experimentar. Desejo então: uma espingarda que acerte logo no que eu alveje; um violino que tenha a virtude de forçar a bailar todos quantos me oiçam; e, finalmente, que toda e qualquer pessoa me conceda, sem mais a quellas, a graça que eu pedir.
--És modesto no pedir--retrucou o gnomo que, curvando-se, tirou do monte uma espingarda, e um bonito violino que se podia metter na algibeira. Aqui tens--continuou o gnomo ao dar-lh'os--e fica sciente de que serás servido sempre na primeira graça que solicitares.
O rapaz, jovialissimo, continuou a sua róta. Depois de caminhar um boccado deparou-se-lhe um judeu, muito feio, com barbas de chibo muito compridas e que estava absorto a ouvir o canto de uma avesinha.
--É extraordinario que um animal de tão pequeno talhe possua um trinado tão cheio. Quanto não daria eu para o ter engaiolado!
--Posso satisfazer o teu desejo--disse o rapaz que tinha ouvido as ultimas palavras, e apontando a espingarda ao passarinho este caiu atordoado em cima dos espinhos.
--Vá lá, seu maroto, vá lá buscar o passarinho.
--Tractas-me com crueldade--respondeu o judeu--mas não deixo de agradecer-te e vou apanhar a avesinha.
Em seguida metteu-se pelos espinhos custando-lhe a abrir caminho. De subito o rapaz teve uma estupenda lembrança: principiou a dar arcadas no violino. Logo o judeu ergueu as pernas e começou a saltar, a pular, a torcer-se todo, ficando preso nos espinhos dos ramos, em que se achava e que lhe espicaçavam a cara, arrancando-lhe as barbas; ficou com o vestuario todo rasgado e a cara a escorrer sangue.
--Ai, ai!--lastimava-se o infeliz judeu--Socega, aquieta-te, não toques mais n'esse amaldiçoado instrumento; aqui não é logar proprio para baile!
O azougado moço não fazia caso do pedido pensando com os seus botões:
--Este rabino esfolou tanto infeliz em quanto poude, que é justo que seja esfolado agora!
E de novo tomou o violino tirando accordes mais ligeiros. O pobre judeu, forçado a acompanhar o compasso, pulava e saltava; a cara cada vez estava mais ensanguentada, o fato desfazia-se em farrapos e o pobre velho gemia de dôr. A subitas gritava:
--Apieda-te de mim, pelas barbas de Abrahão, que em paga te darei uma bolsa cheia de dinheiro que trago commigo.
--Alegras-me tanto com essa boa-nova que vou guardar o dinheiro. Antes, porém, quero dar-te os meus parabens pela maneira graciosa e original por que danças! É uma perfeição!
O judeu então, entregando-lhe a bolsa que promettêra, suspirou immenso, emquanto que o alegre moço continuou a andar, cantando. Quando já o não avistou, o rabino, não podendo conter o seu rancor, exclamou:
--Musico das duzias, estás a contas commigo. Grande marau! Has de pagar-me a partida mais cara do que ossos!
Tendo com essa fala dado vasão ao seu odio, seguiu por atalhos e alcançou a cidade mais proxima antes que o rapaz apparecesse. Uma vez lá, foi queixar-se ao juiz n'estes termos:
--Venho aqui pedir justiça, senhor, para um maroto que me atacou maltractou e roubou o que eu trazia. A prova de que não minto é olhar-me a maneira porque vem o fato e a minha cara. Forçou-me a dar-lhe a bolsa que trazia cem moedas d'ouro, que eram todo o meu peculio, as economias que consegui com o meu trabalho, o unico bem que possuia. Faça todo o possivel para que esse thesouro me seja restituido.
--Foi com alguma arma que o gatuno te pôz assim?--perguntou a autoridade.
--Nada, não senhor. Agarrou-me e agatanhou-me. É ainda moço, e traz uma espingarda e um violino; com estes dados facilmente se conhece.
O magistrado pôz em campo os guardas, que depressa viram o indigitado marau, que muito tranquilamente se encaminhou para essa localidade. Deram-lhe voz de prisão e trouxeram-n'o ante o magistrado e o judeu, que repetiu a accusação.
--Não toquei n'essa creatura nem com um dedo--defendeu-se o rapaz--assim como não lhe tirei á força o dinheiro que elle trazia; offereceu-me da melhor vontade para que eu não tocasse mais no violino, cujos accordes o faziam nervoso!
--É mentira!--exclamou o rabino--Está a mentir impunemente!
--Está resolvida a questão?--ajuntou o magistrado--pois é caso extraordinario um judeu dar de mão beijada uma bolsa com ouro, só por não ouvir um boccado de musica. Pois senhor: a sentença do seu mau acto está lavrada: vae ser enforcado immediatamente!
O verdugo--que se havia ido chamar, segurou o innocente moço, conduziu-o á forca, que já estava erguida na praça principal onde accorreu toda a cidade em pezo, e o rabino fôra o primeiro a mostrar-se fazendo menção de soccar o pobre condemnado, verberando:
--Marau, vaes ter a recompensa que te é devida!
O moço conservou-se muito tranquillo; subiu sosinho a escada appoiada á forca; ao chegar ao topo, virou-se para o juiz já togado, que viera vistoriar o patibulo e solicitou-lhe:
--Antes de ter o nó na garganta, concede-me um derradeiro favor?
--Concedo--respondeu o magistrado--desde o momento em que não seja o perdão!
--Nada d'isso é, pois não sou tão exigente... desejava apenas tirar uns ligeiros accordes do violino!
Ao ouvir taes palavras, o rabino deu um estridente grito de susto e pediu encarecidamente ao juiz que não consentisse!
--Qual a razão porque não hei de conceder a graça que este homem me pediu, se é a unica alegria que por instantes posso dar-lhe? Tragam-lhe o violino.
--Ai, meu Deus!--lamentou o rabino ao querer fugir, mas sem que lhe fosse possivel abrir caminho pela compacta massa de povo que enchia a praça.
--Dou-lhe uma peça d'ouro--prometteu elle no auge da aflicção--se me amarrar com força ao pau da forca!
N'esse instante, porém, o rapaz deu o primeiro toque no violino. O magistrado, o escrivão, o beleguim, os guardas, emfim tudo o que compunha o corpo da magistratura da terra, os circumstantes, o proprio judeu, tiveram um estremecimento; ao segundo toque, todos ergueram as pernas, o proprio verdugo desceu a escada e collocou-se em pé de dança.
O moço então--ao vêl-os n'aquella pouco parlamentar attitude--tocou o mais possivel, e agora os vereis: o povo fazia cabriolas; o juiz e o judeu saltavam como que movidos por molas; rapazinhos, velhos, magros, gordos, tudo dançava; se até os cães se erguiam nas patas de traz e dançavam como todos! O condemnado deu uns accordes mais fortes e n'essa occasião era inexplicavel o movimento: pareciam possessos de algum espirito ruim, batendo com as cabeças umas nas outras, pizando-se, acotovellando-se, atropellando-se. Gemiam com dores, e o magistrado, afflicto, fatigadissimo, pediu:
--Não toques mais que eu perdôo-te! Foi o que o moço quiz ouvir, visto que, concordando que o gracejo fôra longo, parou e guardou o violino no bolso, desceu os degraus e veiu postar-se em frente do rabino que, esfalfado, extenuado exhausto, se sentára na rua, respirando a custo.
--Agora és tu quem vaes confessar a proveniencia da bolsa que me déste, com peças d'ouro. Não mintas, de contrario pego novamente no violino e tornas a dançar uma farandola!--taes as palavras que o rapaz dirigiu ao judeu, que confessou terrificado:
--Roubei-a, roubei-a, tu tiveste jus a ella pela tua honestidade; dei-t'a para que não tocasses mais no violino!
Apparecendo o juiz, já um pouco refeito do cançasso, inqueriu do que se havia passado e provando-se á evidencia que tinha havido roubo, mandou enforcar o rabino.
João no auge da alegria
Era uma vez um rapaz que dava pelo nome de João e que esteve a servir durante sete annos n'um logarejo de provincia. Ao cabo d'esse tempo, despediu-se do patrão e disse-lhe:
--Patrão, terminou o meu tempo de serviço para que fôra chamado, mas, desejando regressar para casa de minha mãe, precisava que me pagasse o meu salario.
--Como fôste sempre fiel e honesto--respondeu o patrão--mereces boa paga; e, pronunciando estas palavras, deu-lhe uma barra quase tão grande como a cabeça do seu antigo creado.
João tirou o lenço da algibeira, embrulhou n'elle a barra, pôl-a aos hombros e metteu pernas a caminho em direitura á casa da mãe. Andando sempre, ainda que custando-lhe a andar, por causa do peso do fardo, viu passar a seu lado um viandante trotando satisfeito n'um bonito e fogoso corcel.
--Que bom ha de ser andar a cavallo!--exclamou João em tom alto.--Aquelle homem vae alli commodamente sentado, não dá topadas nas pedras, não estraga as botas e anda sem que dê por isso.
--Mas olha lá, ó rapaz--respondeu o viandante que lhe ouvia a exclamativa--porque é que vaes a pé?
--Porque assim me é necessario--tornou João--Levo uma trouxa muito pesada que tem de ir para casa; é ouro, é certo, mas pesa-me como chumbo e quasi me custa levantar o pescoço!
--Queres tu entrar n'uma combinação commigo?
--Queres tu entrar n'uma combinação commigo?--aventurou o cavalleiro, que fizera estacar o animal--Faze troca: eu cedo-te o meu bonito cavallo dando-me tu a barra d'ouro!
--Com o maximo prazer! Advirto-o, porêm, de que o carrego é pesado!
O viandante depressa se desmontou do ginete, ajudou João a montar-se e em seguida tomou a barra, dizendo ao ingenuo moço, emquanto lhe dava as guias:
--Assim que desejes andar tão veloz como o vento, basta dares um estalido com a lingua e gritares: upa, upa!
João ficou louco de contente, apenas se viu escarranchado no cavallo, e partiu a rapido galope. Ao fim de certo tempo, lembrou-se d'ir mais depressa ainda, e, dando um estalido com a lingua, incitou: upa upa! O animal, comprehendendo a indicação, largou n'uma corrida desenfreada, dando grandes upas e taes foram elles que o alegre João, não podendo suster-se no dorso do animal, caiu estatelado no meio da estrada, quasi á beira d'um poço. O cavallo continuou a correr, mas um aldeão que vinha em sentido inverso, trazendo uma vacca, agarrou-o pela redea e assim o levou para juncto de João que, levantando-se, estava a vêr se havia soffrido algum desastre com o trambulhão.
--Olha que asneira, montar a cavallo! Arrisca-se a gente a deparar um animal como este que nos atira de pernas ao ar! Nunca mais caio n'outra. Agradeço o seu favor, mas não me fale no cavallo; se fosse uma vaquinha, isso então era outro cantar; basta levál-a deante de si, com certo geitinho; e não é só isso: dá tambem o leite com que se faz a manteiga e o queijo que nos sustenta. Que não faria eu para assim possuir um animal!
--Se faz n'isso muito empenho--alvitrou o aldeão eu não ponho duvida em a trocar pelo seu cavallo.
João açambarcou logo a ideia, cheio de satisfação; o aldeão montou o animal e depressa se eclipsou.
João tocou a vacca, que ia na sua frente muito devagar, emquanto ia magicando nas vantagens da troca que acabára de fazer:
--Desde o momento em que me não falte uma fatia de pão, e com certeza não será isso o que me ha de faltar, posso, quando a fome me aperte, comer manteiga ou queijo, se tiver seccuras, munjo a vacca, e bebo um excellente leite. Que mais podes ambicionar, ó Janeco?
Ao acercar-se d'um albergue, parou e querendo possuir alimento para sempre, deu cabo de toda a comida e gastou os derradeiros escudos n'uma cerveja. De seguida, tornou a pôr-se a caminho da casa precedido pela pachorrenta vacca.
O sol estava a pino e escaldava o rapaz e João, encontrando-se n'um sitio desarborizado, sentiu tanta sêde que se lembrou de beber leite; para esse fim, amarrou a vacca a uma sebe e, descarapuçando-se, começou a mungir o animalejo, mas por mais esforços que empregasse não conseguiu uma gottinha de leite. Como era leigo no assumpto, magoou a vacca que, com a dôr, lhe deu um coice que atirou longe João, que com a dôr desmaiou.
Por felicidade, acercou-se um homem que levava, n'um carrinho de mão, um porco ainda pequeno.
--Que diabo foi isso?--perguntou o homensinho, ajudando-o a pôr em pé.
João narrou-lhe o succedido; o homem do porco offereceu-lhe a borracha, dizendo-lhe:
--Ande, beba-lhe um gole para o pôr firme! E quer saber? A vacca está velha; boa apenas para puxar a uma carroça ou então para ir para o matadouro. Por esse motivo não é para admirar que lhe não conseguisse tirar leite.
--Oh co'a breca!--exclamou João, arranjando o cabello que se havia emmaranhado com a queda--Quem o diria! O que é verdade é que, matando-se, a vacca ainda alimenta muita gente, mas como acho a carne pouco saborosa, não me servia. Agora se fosse um porquito! Isso era ouro sobre azul! Eu então que sou doido por chispe com feijão branco e chouriço de sangue!
--Ah, sim?!--lembrou o homem--Então tome lá o porco em troca da vacca!
--Deus o ajude!--acceitou João dando a vacca; puxou o porco pela corda que o segurava no carrinho.
Á medida que ia andando, ia pensando, que tudo lhe corria em maré de rosas; mal tinha uma contrariedade e logo lhe desappareceu. N'isto dá de rosto com um rapazinho que levava debaixo do braço um gordo pato. Deram-se os bons dias e começaram de conversa. João narrou os seus feitos, gabando-se da sua ventura; em compensação, o rapazito disse que o pato era uma encommenda para um baptisado que tinha logar na proxima localidade.
--Tome-lhe o peso--aconselhou o rapazelho, agarrando o pato pelas azas--Pesa bem, não é assim?! Não é caso para espantos, pois ha mais de dois mezes que foi para a engorda. Quem o cosinhar póde gabar-se de apanhar uma excellente enxundia!
--E é verdade que sim!--appoiou o nosso João--Está gordo que é uma belleza! Comtudo, o meu porquinho tambem não está mau!
O rapazito calou-se, mas não fazia outra coisa senão olhar para um lado e para o outro inquieto; em seguida, meneando a cabeça, disse:
--Quer saber uma cousa? Roubaram não ha muitas horas um porco a uma das auctoridades da terra por onde eu agora fiz caminho. Está-me cá a parecer que é esse mesmo, sim, quasi que ia jurar! Que mau boccado lhe fariam passar se o vissem com elle. O menos que lhe faziam era mettêl-o n'uma enxovia muito escura!
João, muito assustado, exclamou:
--O meu amigo é que me póde valer n'estes apuros! Desde que conhece os cantos á villa, nada mais facil que occultál-o; dê-me o pato que lhe cedo por troca o porco.
--Corro grave risco com a transacção--hesitou o moço--mas para o livrar das mãos da justiça, acceito-a!
Agarrou a corda e, puxando pelo porco, depressa se esgueirou por um atalho. O nosso heroe, descuidado e alegre, continuou a andar, raciocinando:
--Fazendo bem as contas, eu ainda ganho com a troca: a carne do pato é muito saborosa e com as pennas faço uma almofada.
Depois de haver transposto a derradeira localidade antes de chegar á sua aldeia natal, notou um amolador parado com a sua roda que fazia girar cantando.
João estacou e ficou a olhar para o que o homem estava fazendo; em seguida, dirigiu-lhe a palavra.
--Pela sua alegria se vê que tudo lhe corre no melhor dos mundos possiveis!
--Certamente, todo o officio é ouro em fio, um bom amolador anda sempre endinheirado. Onde comprou esse bello pato?
--Comprar não comprei... foi uma troca que fiz! troquei-o por um porco.
--E o porco?
--Foi em troca d'uma vacca!
--E a vacca?
--Trocada por um cavallo!
--E o cavallo?
--Por uma bola d'ouro do tamanho da minha cabeça!
--E esse ouro?
--Foi a paga que recebi de sete annos de serviço!
--Sim, senhor!--exclamou o amolador--Não se perde! Se não mudar de tactica ainda ha de junctar muito dinheiro.
--Parece que sim!--retorquiu João--Que hei de agora fazer para o conseguir?
--Faça-se amolador. É-lhe necessaria apenas uma pedra de amolar... o resto depois vem com o andar dos tempos. Tenho aqui uma; já está um pouco gasta, mas para lh'a vender não, troco-a pelo pato. Convem-lhe?
--Se convêm!--acceitou logo João--Se succeder, como diz, que nunca me ha de faltar dinheiro, serei um rei pequeno, sem cuidados, sem ralações e sem trabalho!
Entregou em seguida o pato ao amolador, que lhe deu uma pedra de amolar e uma outra que apanhára do chão.
--Olhe--disse para o heroe do conto--aqui tem mais uma; esta é magnifica para fabricar uma bigorna e endireitar pregos. Tome sentido n'ella.
João tomou as duas pedras e lá se foi muito contente, com os olhos brilhando de alegria.