Pero da Covilhan: Episodio Romantico do Seculo XV
Chapter 6
Um dia chamou Pero da Covilhan, e disse-lhe:
--Vou fazer uma longa viagem, e muito me prazia levar-vos commigo; mas tenho por melhor deixar-vos ao serviço do principe, que muito vos quér tambem.
Ao que Pero da Covilhan respondeu:
--Que magua immensa o meu coração sente ao ouvir voss'alteza! É dever meu cumprir as ordens, que me dais; mas, se no vosso real desagrado ainda não cahi, concedei-me a grande mercê de não regressar a Portugal, sem que vá com o meu rei e Senhor.
--Não. E confiar-vos-hei um segredo, que vos explicará a minha recusa, dando-me algum allivio o desabafo.--Quando enviuvei, prometti deixar o mundo, e metter-me em religião, logo que o principe, meu filho, estivesse em edade de reger o reino. Entretanto surprehendeu-me a empreza de Castella, e, presumindo eu, que era servir a Deus e da Sua vontade, defender a justa causa da princeza, minha sobrinha, procedi, como todos sabem. Fiado nas promessas d'el-rei de França... vim a esta nação, onde tenho esperado, que os successos das guerras, movidas por sua alteza, lhe permittissem dar-me afinal o soccorro promettido... Vejo infelizmente, que taes guerras cada vez mais se accendem, e os meus negocios cada vez mais se enredam, por isso entendi, que Deus me avisava de haver chegado o tempo de cumprir o meu voto. E, como creio que os principes, que vivem e morrem na regencia de seus estados, com difficuldade se salvam, unicamente me pésa, não ter tomado a resolução de deixar o mundo e as suas pompas, quando Portugal estava em paz, pois de mim dava melhor exemplo, e excusava as censuras de muitos, que não deixarão de attribuir á falta de valor, e talvez a outras causas pouco honrosas, desistir eu da empreza começada. Sirvam esses mal fundados juizos de desconto a meus peccados. Estou deliberado a resignar a corôa, e a partir para a Terra Santa, onde purificarei as minhas crenças, e passarei o resto de meus dias em uma clausura.
Pero da Covilhan caíu de joelhos aos pés de D. Affonso, e exclamou!
--Que fazeis, Senhor!... Pois tendes animo de deixar na orphandade tantos filhos vossos, que mais não são todos os portuguezes?!... Se não quizerdes proseguir na empreza de Castella, não podereis ainda, uma e muitas vezes, mostrar ao mundo quanto valeis, combatendo novamente os infieis, e alargando os dominios de além-mar?!... E não será isto porventura entregar-vos ao serviço de Deus, com proveito e gloria de voss'alteza e da nossa patria querida?!...
D. Affonso V obrigou o môço escudeiro a levantar-se, e tornou-lhe muito impressionado:
--Cumpro a vontade de Deus!... Ao principe ficam bem entregues os destinos da nação, e de certo elle voltará ás terras da Africa, onde o barbaro mouro experimentou já a rija tempera da sua espada. Vós lá sereis tambem a confirmar a destreza e bravura, com que pelejastes nos plainos de Toro. Crêde, que o vosso novo rei vos terá sempre em grande estima, porque lh'o mereceis, e continuareis a merecer, e nem eu, nem elle, nos esquecemos do perigo, a que vos exposéstes, para ir a buscar-me a Castro Nunho.
Ao pronunciar as ultimas palavras, o monarcha abraçou Pero da Covilhan, que seguidamente lhe beijou a mão, e saíu da sua presença muito commovido.
Com effeito, Pero da Covilhan podia ser util ao desfallecido rei na sua peregrinação e exilio, já porque era mui intelligente, já porque fallava com facilidade o arabe e outras linguas; mas D. Affonso V, despojado de grandezas, não tinha com que galardoar os merecimentos do moço escudeiro, por isso preferiu deixa-lo ao serviço do principe.
Antes do alvorecer do dia seguinte, que era o 24 de setembro de 1477, o rei saíu a cavallo, como costumava, acompanhado por dois moços da camara e dois de estribeira, depois de ter ordenado ao seu capellão, que o fosse esperar a meia legoa de distancia, em um sitio, onde effectivamente se encontraram. D'aqui fez voltar para Honfleur um dos moços de estribeira com a chave do cofre, que continha os seus escriptos, e com ordem de serem lidos, por quem da sua comitiva estivesse presente.
Entretanto já os portuguezes, e M. de Lebrét, que por ordem de Luiz XI acompanhava D. Affonso V para o servir, haviam notado, que elle tardava em regressar do seu passeio.
Pero da Covilhan, que conhecia os designios do rei, presumia unicamente, que elle os tivesse posto em pratica; mas a ninguem revelava esse pensamento. Conservava-se triste, como quem compartilhava da geral inquietação, sem gesto ou palavra, que o trahissem.
Chegou emfim o moço de estribeira. Abriu-se o cofre, e n'elle foram encontradas cartas escriptas por D. Affonso V. Era uma para Luiz XI, na qual pedia desculpa do incommodo, que lhe causara; recommendava-lhe os portuguezes, que deixava em França; e expunha-lhe os fundamentos, que o determinavam ao ingresso na vida monastica. Outra para o principe D. João, dando-lhe conta da sua malfadada viagem, e ordenando-lhe com paternal affecto e justificada instancia, que se fizesse acclamar immediatamente rei. Outra, participando ao reino a sua abdicação, e determinando-lhe obediencia ao principe real, como o proprio e verdadeiro monarcha. E finalmente outra aos da sua comitiva, da qual nomeava chefe, para todos os effeitos, o conde de Faro.
Finda a leitura de todas, foram as destinadas a Portugal remettidas logo ao principe por via do seu camarista Antão de Faria, que tão celebre se tornou mais tarde no seu reinado, e que tinha vindo a França tratar de negocios do Estado com D. Affonso V. Em virtude d'estas cartas, foi D. João acclamado rei de Portugal, no alpendre da egreja de S. Francisco em Santarem, aos 10 de novembro de 1477.
Tendo-se limitado o moço de estribeira a cumprir as ordens, que trouxera, e não sabendo prestar informação alguma ácerca do destino, que levaria o regio fugitivo, atrigáram-se os portuguezes em busca-lo por toda a parte. M. de Lebrét, por seu turno, empregou emissarios com igual fim, depois de communicar a Luiz XI, quanto se passava, e de dirigir graves accusações aos portuguezes, pela negligencia com que serviam, e acompanhavam o seu soberano.
Decorridos poucos dias, foi descoberto o paradoiro do monarcha por um cavalleiro normando, chamado Roberto Le Boeuf. Era em uma pequena aldeia da Normandia. D. Affonso V estava a dormir, e Le Boeuf acordou-o, para melhor o reconhecer. Não dissimulou o rei a sua identidade. O cavalleiro fez logo reunir a gente do lugar, para que vigiassem a regia habitação, e não consentissem a pessoa alguma o sair d'ella. Expediu mensageiros a Luiz XI, aos portuguezes, que estavam em Honfleur, e a M. de Lebrét, participando a todos aquella nova. E, finalmente, não só tratou com acatamento, mas serviu com zelo igual o seu prisioneiro.
O conde de Penamacor, que era o primeiro camarista de D. Affonso V, e tinha declarado não voltar sem seu amo a Portugal, appareceu logo junto do rei. Encontrando-o mui pertinaz, em levar ávante o seu proposito, de se dirigir á Palestina, esperou pelo conde de Faro, e pelos restantes fidalgos da comitiva, para o demoverem. Deixou-se emfim D. Affonso V vencer das instancias dos seus, e de uma carta muito consoladora, que Luiz XI lhe escrevera. Teve, porém, pejo de entrar em Honfleur, e demorando perto do lugar, em que elle estava, a bahia de Hougue, para aqui se dirigiu com o seu sequito, a fim de sair da França, onde se sentia sobre brasas.
Embarcou seguidamente em uma carraca, mandada fretar por elle, e de Honfleur desceram os navios francezes, que Luiz XI fez por aprestar a tempo de a comboiar, confiando o commando da frota a Jorge de Bicipat, cognominado _o Grego_.
O rei de França continuava a encobrir com vãs honrarias, e ostentações de respeito pelo monarcha portuguez, a perfidia com que politicamente o trahia. E D. Affonso V fazia-se á véla para Portugal, sem levar no coração magnanimo resentimento algum, contra quem o havia constantemente logrado, antes até alimentando a esperança, de que Luiz XI sempre viria a prestar-lhe soccorro para concluir a empreza de Castella! Voltara-lhe esta preoccupação, depois que recebeu a ultima carta do seu amigo e alliado...
D. Affonso V era muito instruido, e tinha grande predilecção pelos que cultivavam as lettras; por isso, durante a viagem, algumas vezes ordenava a Pero da Covilhan, que lhe recitasse romances e outras composições poeticas de Castella; com o que o rei-cavalleiro muito folgava. Para todos tinha sempre o gentil soberano uma palavra amavel; e, no tom de familiaridade que lhe era peculiar, aos portuguezes descrevia com rara exactidão e lucidez, quanto vira de notavel nos lugares, que percorrera, e ao capitão da frota exalçava as qualidades de Luiz XI, pondo ao mesmo tempo em relêvo a hospitalidade da nação franceza.
Sobreveiu um temporal, que deu causa a não poderem alguns navios aguardar a conserva. Perderam-se dos restantes, e abicaram primeiro do que elles á bahia de Cascaes. Não lhes tomaram, porém, grande deanteira, pois mal tinha corrido em Lisboa, onde estava D. João, a nova, de que seu páe chegaria préstes, logo este aportou á mesma bahia.
Certificado D. Affonso V, de que o principe tinha sido acclamado, foi surgir a Oeiras.
No dia seguinte desembarcou, sendo recebido em terra por seu filho, que mesmo alli depôz em suas mãos as redeas do governo e o sceptro, que por obediencia havia empunhado.
A este tempo era já muito reduzido o numero de partidarios de D. Joanna. O arcebispo de Toledo obteve perdão dos reis catholicos, e recuperou a sua graça. O proprio Beltran de La Cueva recebia mercês d'estes principes e servia-os. A cidade de Toro estava em poder de Isabel; e Castro Nunho, depois de apertado cêrco, em que a defensa heroica de Pedro de Mendanha teve profundamente abalado o poder castelhano, rendeu-se afinal aos adversarios de D. Affonso V com permissão d'este, enviada ainda de França ao alcaide lealissimo, e precedendo taes condições, que foi quasi affrontosa a victoria para o exercito sitiante.
Mezes depois celebrou-se o tratado de paz e alliança, de 9 de outubro de 1478, entre os reis de Castella e Luiz XI, ficando annulladas quaesquer confederações, ligas e amisades existentes ou futuras da França com Portugal, assim como de D. Luiz XI com D. Joanna, asserta rainha de Castella.
Apesar de tão categoricos desenganos, D. Affonso V, incitado por alguns magnates de Castella, que publicamente se diziam seus inimigos, mas estavam com elle na melhor intelligencia, persistia na idéa de atear a guerra, e concluir o casamento com sua sobrinha. A especulação dos castelhanos não passava despercebida a Isabel, inspirando-lhe cuidado e receio; por isso não cessavam as hostilidades tanto por parte de Castella como de Portugal, com grande e manifesta ruina das duas nações. A paz era de absoluta necessidade para ambas, e n'isto convieram emfim as partes interessadas.
Para entabolar as negociações, avistaram-se na villa de Alcantara, em Castella, a rainha D. Isabel e sua tia a infanta D. Beatriz, viuva do infante D. Fernando duque de Vizeu, as quaes combinaram, que fossem ajustadas as pazes em Portugal. Com effeito, a 4 de setembro de 1479, celebrou-se em Alcaçovas o tratado de paz perpetua entre D. Affonso V e os reis catholicos. Estipulou-se além de outras clausulas, que o principe D. João, filho dos reis de Castella, casasse aos sete annos por palavras de futuro, e aos quatorze por palavras de prezente, com D. Joanna, a qual receberia de arras vinte mil florins de Aragão, fóra os rendimentos necessarios para manter o seu estado; e, recusando-se o principe a concordar n'este casamento, a princeza não só seria indemnizada, mas ficaria livre para poder dispôr de si.
Era um meio honesto de esbulhar de seus direitos a desditosa filha de Henrique IV, pois tal consorcio nunca se realisaria.
Para segurança d'esta clausula, D. Joanna, tinha de ser posta em terçaria na villa de Moura, em poder da infanta D. Beatriz, e, não querendo, devia entrar em um dos cinco mosteiros portuguezes da ordem de Santa Clara, conservar-se ahi o tempo do noviciado, findo o qual era obrigada a optar pela profissão ou pela terçaria.
No mesmo tratado estatuiu-se, que o infante D. Affonso, filho do principe D. João, logo que fosse em edade de sete annos, se desposasse com a infanta D. Isabel, filha primogenita dos reis catholicos, devendo esses infantes ser tambem postos em terçaria nas mãos da infanta D. Beatriz.
Este enlace era a principal garantia da paz tão desejada pelos reis de ambos os paizes para pôrem termo á desconfiança, com que se tratavam, originada de conveniencias e paixões particulares, mas filiando-a especiosamente na reciproca offensa dos interesses nacionaes.
Agora repare o leitor no que diz Ruy de Pina, chronista coevo d'estes successos, e profundo conhecedor das intrigas e ambições, de que foi victima a innocente princeza D. Joanna:
«Estando (a princeza) em Santarem, e cumprindo-se os seis mezes de sua liberdade, ella não com menos força alheia que tristeza sua propria, e com dolorosas lamentações suas e de todos os seus deixou o titulo de rainha e tomou o de D. Joanna, e despiu seu corpo dos brocados e sedas que trazia e vestiram-na em habitos pardos de Santa Clara, tirando-lhe da cabeça a corôa real de Castella e Portugal de que era intitulada, e cortando-lhe d'ella seus cabellos como a uma pobre donzella, e por maior seu aggravo e magua não lhe deixando os servidores de seu gosto e vontade, nem menos cousa que tivesse imagem d'estado. E o primeiro mosteiro em que assim entrou, foi Santa Clara da dita villa de Santarem. E na execução d'estas cousas porque a necessidade de outras muitas assim o requeria, o só e principal ministro era o principe; porque el-rei D. Affonso seu páe de muito anojado e envergonhado d'ellas, de todas se escusou, e as deixa inteiramente á disposição e ordenança do filho, a cuja vontade el-rei n'aquelle tempo mostrou ser muito inclinado e sujeito. Mas se o principe no cumprimento d'estas cousas excedeu o modo contra a senhora D. Joanna, por ventura mais do que per razão, piedade e temperança se lhe devia, e isto pela gloria e contentamento que tinha do casamento do infante seu filho se não desfazer, que não era sem alguma esperança da successão de Castella, a desventurada fortuna como crú algoz do rigoroso e severo juizo divino, pela culpa do principe, se a tinha, lhe deu logo a pena com o triste e mortal apartamento dos innocentes principe e princeza, depois de novamente casados, sobre que tanto fundamento de honra e segurança fazia. Porque o mesmo lugar de Santarem, que contra a senhora D. Joanna foi o talho d'esta primeira crueza, se tornou a ser o principio d'esta sua vingança; porque o principe D. João depois de ser rei á vista da mesma excellente senhora, viu a subita e desastrosa morte do principe D. Affonso, seu filho, e a quem á primeira pareceu, que, sendo vivo, os reinos de Portugal sem os de Castella não bastariam, elle o viu logo morto, e de uma pouca de terra para sempre sujeito e contente, e a triste e innocente princeza sua mulher antes de bem casada se viu logo ser viuva, privada do verdadeiro titulo que tinha, e trocados os brocados ricos e hollandas delgadas que trazia, com pobre burel e grossa estopa em que foi logo vestida, nem ficaram por cortar seus cabellos dourados com accidental proposito de religião, sendo apartada das pessoas mais de sua conversação e servida por servidores alheios, comendo no chão e em vasos de barro, privada em todo de todo estado, entrando n'estes reinos esposada, coberta d'ouro e de preciosa pedraria, em cima de ricas facas e trotões á vista de todos. Mas vós lagrimas que na lembrança d'esta dôr aqui apontaes soffrei-vos um pouco, cá pera outro mais proprio lugar estais reservadas. Nem a culpa do solemne mas simulado e cauteloso juramento, que el-rei e a rainha de Castella fizeram sobre o casamento d'esta senhora com o principe seu filho, não ficou sem triste pena e mortal perda e sentimento seu, porque Deus em cujo desprezo pareceu que se fez, não padece engano por castigo, do qual vimos que tambem elles viram a não madura morte do principe innocente moço seu filho, vivendo pouco mais tempo d'aquelle, em que com esta senhora prometteram e juraram de casar; porque elle já então era casado com madama Margarida, filha do rei dos romanos, e a tinha já em seu poder, sem de nenhum d'estes principes de que os reis de Castella e de Portugal tanta esperança e fundamento faziam, ficar algum legitimo herdeiro descendente que os succedesse e herdasse, e foram seus herdeiros os transversaes mais chegados».
Depois da profissão da _Excellente Senhora_--tratamento dado a D. Joanna tanto que vestiu o habito de clarista--D. Affonso V quiz abdicar e recolher para sempre ao mosteiro do Varatojo por elle fundado; mas a morte antecipou-se a frustar-lhe esse ultimo designio. A 28 de agosto de 1481 exhalou o derradeiro alento na mesma sala do paço de Cintra, onde se ouvira o seu primeiro vagido.
A Excellente Senhora sobreviveu-lhe muitos annos, cumprindo resignada a sentença fatal do seu destino, que foi servir sempre de joguete nas mãos de ambiciosos, e de temeroza arma politica a seu primo D. João II.
Em 1482 interessou-se Luiz XI pelo casamento da desditosa princesa com Francisco Phebo, rei de Navarra. Mais tarde Fernando V, apenas enviuvou, rojou-se a seus pés, e solicitou-lhe a mão de esposa, como em outro lugar deixámos referido. Não podendo, porém, ella olvidar, nem um momento, que era a legitima successora da coroa de Castella, recusou com nobre altivez as propostas d'este seu algoz e diffamador de sua mãe, preferindo conservar-se solteira, até que deixou de existir em 1530, com sessenta annos de edade.
Foi sepultada na egreja de Santa Clara, de Lisboa, e tão esquecida a quizeram, que nem um epitaphio lavraram sobre a lousa que a cobriu. E, como o terremoto de 1755 arrasou essa egreja e o convento annexo, lá desappareceram misturadas com os destroços dos dois edificios as cinzas da pobre princeza.
Malfadada condição a sua!
Não logrou D. Affonso V ser o unificador da grande nação hespanhola, e ao filho de D. João II foi tambem vedado herdar as duas corôas da peninsula, para realizar, conforme as aspirações de seu páe, a reconstituição da velha monarchia wisigothica, terminada no primeiro quartel do seculo VIII pela batalha de Guadalete.
Por lei, e pela propria dignidade da monarchia, o throno de Castella era patrimonio da filha de Henrique IV; e, se fossem justos os pretextos, de que se serviram, para lh'o arrebatarem das mãos, a segurança e a estabilidade de todas as dynastias podiam considerar-se problematicas.
O que mórmente achanou o caminho do throno a Isabel, foram as leviandades e torpezas de um rei inepto e devasso; mas nada póde lavar a macula de rebelde, com que ella conspurcou o seu nome para sempre.
Foi uma ruim causa que produziu bom effeito. O consorcio de Fernando de Aragão com Isabel preparou o successo transcendente da unidade hespanhola, realisada mais tarde por Carlos V, e os reis catholicos elevaram a Hespanha ao mais alto grau de prosperidade.
Acabaram-se as turbulencias dos magnates, e restabeleceu-se emfim o poder da realeza.
VI
_PESQUIZAS_
Por morte de D. Affonso V todos os creádos da sua casa tomou D. João II para si com muito amor e agasalho, conforme testemunha Garcia de Rezende. Pero da Covilhan pertencia áquelle pessoal, e, como pelos serviços prestados em Castella e França havia conquistado a estima do novo monarcha, para logo ascendeu esta á quasi intimidade de valido.
Convem notar, que D. João II ao seu serviço preferia ter cavalleiros particulares a grandes e senhores; ou fosse por manifesta má vontade contra estes, ou porque, fazendo creaturas suas os que possuissem iguaes qualidades e menos poder, esperava que o servissem com maior fidelidade e menos ambição, por carecerem mais do seu rei, e serem mais faceis de contentar. Sobretudo tinha na melhor conta os seus companheiros de armas em Toro, aos quaes louvava por vezes a dedicação e valor, cujo testemunho lhe deram, e por isso a todos elevou e distinguiu sempre, entrando a maxima parte d'elles em o numero dos quatro mil _vassallos d'el-rei_, que creou, como lhe requereram as côrtes reunidas em Evora a 12 de setembro de 1481.
Pero da Covilhan vivia, pois, na côrte de D. João II e fazia parte da sua guarda.
Nem antes, nem depois, ainda houve outra côrte mais brilhante em Portugal. O rei, para descançar das fadigas da administração, mostrava grande prazer de achar-se rodeado de cortezãos dotados de boas prendas, e com elles folgava, estimulando-os a exhibi-las na presença das formosuras insignes, que compunham o apparatoso e galante sequito da rainha D. Leonor.
Assistia jubiloso aos saráus do paço, nos quaes até ás vezes, depois de vêr dançar com primor a _retorta mourisca_ pelas damas trajando ao uso arabe, deixava-se adormecer no regaço de alguma d'ellas. Era o primeiro emfim a lembrar os desafios poeticos, as _côrtes de amôr_, o _jogo dos naipes_, e tantas outras diversões proprias de uma sociedade elegante, de cujas aventuras amorosas se não fazia mysterio.
Maria Thereza era uma das mais gentis entre as donzellas, que a rainha educava para suas damas, e que podemos denominar os botões de rosa do real _jardim de formosura_, como depois Gil Vicente chamou ao estrado das damas de D. Leonor.
Bella e muito viva, mais de um dos seus admiradores a requestava em verso. Ella, porém, sempre desdenhosa, sorria d'esses requebros, torturando assim os apaixonados moços. Alguns alcunhavam-n'a de desvanecida, outros de suberba, despeitados todos por se verem repellidos. Não logravam comprehender muitos d'elles, herdeiros de boas casas, que uma menina pobre se mostrasse tão esquiva, tão reservada, quasi fria, n'aquelle meio tão aquecido pelo calor da mocidade; em aquelle bulicio, que a intimidade no trato, e o desprendimento na linguagem tornavam tão jovial e affectuoso, como fielmente no'-lo reprezenta o _Cancioneiro Geral_, de Garcia de Rezende.
Um dia Pero da Covilhan, ao passar por ella, disse-lhe quasi a medo:
--Amo-vos!...
Maria Thereza córou, e tamanha perturbação sentiu, que não poude articular uma palavra.
Pero da Covilhan desappareceu, e ella, recobrando a serenidade, disse comsigo mesma:
--Deve-me ter talvez achado bem ridicula!... Não só ridicula; mas traduziria o meu enleio por baixeza d'alma, pensando que não agradeci a sua galanteria por elle não ser fidalgo, e eu filha e neta de fidalgos!...
Esta idéa foi um desespero para Maria Thereza, que não encontrava desculpa alguma para o seu silencio. Até pelo seu espirito passou o receio de que Pero da Covilhan a desprezaria, pois estava convicta de que fôra desprimorosa para com elle, e de que uma palavra polida é sempre facil de responder.
Quando pouco depois avistou Pero da Covilhan, não poude fallar-lhe; mas retribuiu com um sorriso da mais ineffavel candura a gentileza, com que elle a cortejou. A divina semente, que germinava occulta em seu coração, cresceu de subito e floriu. Do encontro de duas almas, que se attráem, é que salta a faisca sagrada.
Durante algum tempo, não houve entre ambos correspondencia, que não fosse a dos seus olhares que se cruzavam; mas bastava essa para se comprehenderem. Os olhos são o espelho da alma, e descobrem, sem o sentirmos, todos os segredos, que lá guardamos.
Foi Pero da Covilhan mandado chamar pela rainha. Maria Thereza, mal soube a novidade, esperou-o á entrada dos aposentos de sua ama, e quando elle surgiu, disse-lhe:
--Aguardava-vos, para dissipar qualquer temor que porventura tivesseis... Como não é costume, havia de surprehender-vos a ordem da rainha, minha Senhora?...
--Certamente!... E graças pelo vosso cuidado em me prevenir, pois me tinha occorrido, que sua alteza desconfiasse, que vos cortejo, e não o levasse a bem...--respondeu Pero da Covilhan, ainda mal refeito do sobresalto, que lhe causou a inesperada apparição de Maria Thereza, que para o tranquillizar lhe affirmou:
--Sua alteza nada sabe ainda. Como, porém, não tenho segredos para minha real ama...