Pero da Covilhan: Episodio Romantico do Seculo XV
Chapter 5
Os castelhanos avançaram com denodo sobre a hoste do principe, mas obrigou-os a recuar uma descarga dada pelos espingardeiros do arcebispo d'Evora D. Garcia de Menezes. Aproveitando a hesitação, em que ficou o inimigo, a nossa cavallaria, como se fôra uma forte muralha de lanças, animada de extrema velocidade, carregou impetuosa, irresistivel, sobre as fileiras dos castelhanos, esmagando quantos tentaram quebrar-lhe o rompante. Aos primeiros golpes, esse punhado de bravos, com o principe real á sua frente, paralysou, desorganisou, pôz na mais completa debandada os melhores alfarazes de Castella. Ainda superior á carnificina, que em breve lapso juncou de cadaveres o terreno, foi o effeito moral d'esse choque violentissimo, que percutiu até a reserva do inimigo. E por isso Fernando de Aragão--um moço de vinte e seis annos!--que, para não expor a vida á contingencia de um golpe do seu adversario, se collocára a respeitosa distancia, mal viu approximar-se a hoste victoriosa do principe, fugiu a unhas de cavallo para Zamora, sem tempo de reparar, se com effeito lhe seguiam a pista, e salvando-o a sua boa fortuna de ser apanhado por alguns dos nossos cavalleiros, que correram sobre elle.
Na ala direita D. Affonso V não póde cruzar tambem a sua espada com a do rei da Secilia, porque a não vê na sua frente; mas não lhe soffre o animo tê-la embainhada, e lança-se no combate.
Ribombam as descargas das espingardas, contendo os impetos da cavallaria; rechinam as settas, atravessando os ares; estoiram as lanças arremessadas com furia; retingem-se de sangue as espadas nos crébros golpes; relincham os ginetes, discorrendo pela campanha, alliviados do peso dos cavalleiros, que cairam ou mortos ou agonisantes; resoam, similhando rugidos de feras, as vozes dos combatentes; soltam gritos de dôr cruciantissima os feridos, sem que possa acudir-lhes a caridade, e servindo antes de estimulos para a vingança; é emfim renhida, desesperada, horrivel a refréga. Não cessa do ardor, com que começou de accender-se, e a victoria duvida, se ha de inclinar-se á parte da multidão, ou á do esforço.
Corre o Cardeal Mendoza a reforçar o duque de Alva, e o arcebispo de Toledo em auxilio de D. Affonso V. Oitenta espingardeiros castelhanos a cavallo--o que para a nossa hoste era uma novidade--dão uma descarga, que fez hesitar um momento a cavallaria portugueza; mas, apesar de ter o adversario empregado aquelle ultimo recurso, sem duvida reservado para o momento decisivo, logo recrudesceu mais viva e encarniçada a peleja.
Partem-se as lanças, e as espadas são agora as armas dos combatentes no ultimo choque.
D. Affonso V, sereno, indifferente ao perigo, parecia ter assentado expôr ás contingencias d'este dia a decisão da causa, que se impugnava. Era pois a morte ou a gloria o escopo unico d'aquelle
«Que a suberba do barbaro fronteiro Tornou em baixa, e humillima miseria.»
Quiz arremessar-se ao meio das fileiras contrarias, mas os cavalleiros portuguezes e castelhanos, que junto d'elle estavam, percebendo-lhe a intenção ao vê-lo preparar o corcel, detiveram-n'o; e, fazendo-lhe vêr a superioridade numerica do inimigo a par do denodo, com que nos pleiteava o campo, apertaram-n'o com o seu conselho mais fortemente, do que as espadas castelhanas, obrigando-o a metter a sua na bainha.
Como entre D. Affonso e Toro muita gente contraria envolvia já parte dos nossos, não sem grande risco saíu o monarcha do campo, e foi acolher-se a Castro Nunho, fortaleza, que lhe era fiel, e não ficava mui distante: acertada resolução esta, pois facilmente d'alli voltaria a Toro, que não era provavel o inimigo sitiasse n'aquella noite; e poderia entretanto planear com Pedro de Mendanha, alcaide de Castro Nunho, a desforra do ultimo conflicto.
Mendanha era poderoso. Pagava soldo a trezentos cavalleiros; recebia das cidades de Burgos, Avila, Salamanca, Segovia, Valladolid e Medina certa quantia, para que lhes não fizesse guerra, e todos os grandes da sua visinhança tinham o cuidado de manter e conservar as mais amigaveis relações com elle. Por isso D. Affonso V, na conjunctura difficil, em que se encontrava, praticou um acto de boa politica, indo ter com um homem de tanto valor, e que lhe era dedicado. É claro, que nem pela cabeça lhe passou a idéa, de que o principe real fosse derrotado, tal era a confiança que depositava no valor de seu filho e no dos companheiros, que lhe deu.
Ambos os reis, cuja lite se debatia, haviam pois abandonado o campo, um porque fugiu, o outro porque o não deixaram empenhar-se na refrega. Ficou victorioso d'elle o principe D. João, que mandou recolher os feridos e os prisioneiros, sendo d'este numero o conde de Alva de Liste, tio de Fernando de Aragão.
Da hoste de D. Affonso V tinham fugido muitos para Toro; mas, porque estava fechada a porta da ponte, e sómente se abriu mais tarde para entrar o principe, vadearam o rio, pagando quasi todos com a vida a sua temeridade, pois que elle ia de monte a monte. Os golpes do ferro inimigo não victimáram tantos, como a corrente impetuosa do Douro. Foram outros, mais prudentes, unir-se ao principe, e entre esses o escudeiro Gonçalo Pires, levando a bandeira real, que por instantes tremulára na mão de um castelhano.
Era o estandarte das quinas, o symbolo glorioso da nossa nacionalidade, que tinha sido confiado ao alferes-pequeno Duarte de Almeida, e lhe arrebataram depois de uma lucta titanica.
Singulares contrastes!
Encontrámos a victoria, onde fomos em menor numero. Padecemos a injuria, onde dois dos nossos praticaram façanhas, que por si só bastariam para immortalisar o valor portuguez. Uma d'ellas deu a Gonçalo Pires o appellido de _Bandeira_; a outra, o cognome de _Decepado_ a Duarte de Almeida.
«Cercado por toda a parte Sua espada se partiu. Por guardar seu estandarte, D'arma o estandarte serviu: A dextra mão jaz por terra, O seu guante a não guardou; O pendão na sextra aferra, E a mão perdida vingou: Outro golpe lhe sepára A sextra mão que segura A bandeira, que jurára Conservar intacta e pura: Nem assim perde a bandeira, N'hastea dura os dentes crava, Quando lança traiçoeira Seu ginete lhe prostava: Cahe no chão o cavalleiro Sem vida, quasi expirando, E ficou prisioneiro D'illustre rey Dom Fernando. Mas a bandeira regada Pelo sangue portuguez, Por Goncal'Pires livrada Breve foi, logo outra vez.»
Assim descreve Ignacio Pizarro os dois gloriosos feitos. O de Duarte de Almeida é sublime de heroismo! Com feridas tão rasgadas, que cada uma era larga porta para sair a vida, e sobrada para entrar a morte, o honrado cavalleiro resiste sempre! Cáe emfim; mas não quer a Providencia, que por aquellas feridas se esgote sangue tão generoso, e sirvam antes de bôcas, para affirmar esforço tão desusado.
A bravura de Gonçalo Pires foi igualmente inexcedivel, pois _per força e como homem de bom coraçam a tomou a hun Souto-Mayor Castelhano que a levava_ (a bandeira), _e o prendeo sobre sua menagem_,[5] abrindo a golpes de espada caminho por entre os cavalleiros, que já iam correndo na companhia d'aquelle em direcção a Zamora.
Tinha o principe resolvido não levantar o arraial, senão passados tres dias, ou aguardar a manhã para de novo accommetter o inimigo, por isso mandou accender fogueiras, e tocar trombetas e atabales.
O duque de Alva estava indeciso, e todavia era mister tomar uma deliberação.
Entretanto um pequeno grupo de biscainhos, pertencentes á peonagem mercenaria do exercito de Fernando de Aragão, conversava sentado sobre umas pedras, descançando ao mesmo tempo das fadigas do dia.
--Cães de portuguezes!--grunhia um.--Por causa d'elles fizeram de nós morcêgos!...
--Eu estou com uma sêde, que de um trago enxugava agora a maior adéga de Malaga!--tornou no mesmo dialecto um cavalleiro, que se approximava, levando o cavallo á mão.
--Se os mouros consentissem... sempre é bom accrescentar--observou o outro, sem nenhuma curiosidade de saber, quem era o seu interlocutor, pois lhe fallava no seu dialecto.
--Pêrros de Mafoma, que nos não vemos livres d'aquelles malditos!--exclamou o cavalleiro.--Mas, Virgem Santissima! o que estaremos nós aqui a fazer?--perguntou o primeiro, como se uma idéa fixa estivesse a verrumar-lhe o entendimento.
--Á espera naturalmente, que nos mandem recolher a Zamora...
--Já não é sem tempo. Para lá fugiu o rei, logo no principio da escaramuça.
--Fugiu, não direi... Retirou...
--Pois seja assim; mas a rainha é mais homem do que elle. Não saia do campo sem dar meia duzia de cutiladas. Ella sim!... Ahi está o da _Beltraneja_, que não desmaiou tão depréssa. É verdade, que depois tambem se foi safando. Vi-o eu por aqui fóra a mata cavallo. Na direcção, que levava, ia talvez para Castro Nunho, que tem voz por elle.
--Sim, é o mais certo;--replicou em tom indifferente o cavalleiro.
Um signal de trombetas no campo castelhano pôz termo a este dialogo. Os biscainhos partiram a incorporar-se na sua hoste; o cavalleiro montou a cavallo, e saíu a galópe para os lados de Castro Nunho.
Acabaram as hesitações do duque de Alva. Ao ver, que os nossos se concentravam no acampamento sem apparencia de receosos, valeu-se do silencio e sombras da noite, e retirou com o exercito para Zamora.
D. João permaneceu ainda mais tres horas no campo, tomando-as pelos tres dias destinados a celebrar a victoria, conforme o conselho do arcebispo de Toledo; dividiu depois a sua hoste em duas fracções, uma com a bandeira de D. Affonso V, outra com a sua, ambas desfraldadas; e, sem mostrar préssa na marcha, como quem ia triumphante, recolheu a Toro.
Foi recebido com affectadas manifestações de jubilo, pois maior era o interesse de todos pela vida de D. Affonso V, cuja sorte se ignorava, do que pelo rezultado do encontro dos exercitos belligerantes no campo de Pelayo Gonçalo. E tal ponto attingiu a consternação, abafada pelo receio de melindrar o principe envaescido do seu triumpho, que o duque de Guimarães, com a sua liberdade e franqueza habituaes, rompeu o silencio.
--Não merece--exclamou alto e bom som--o nome de cavalleiro, quem abandona o seu rei, e o não segue na vida ou na morte!
E, dirigindo-se unicamente ao principe, perguntou-lhe:
--O que fizestes d'el-rei, vosso Senhor e páe?
Proferidas estas palavras, que nunca mais esqueceram a D. João, appareceu Pero da Covilhan, e disse ao principe:
--El-rei, vosso Páe, e meu Senhor, manda-vos participar, que vivo e são está, por isso sejais tranquillo.
--E onde está el-rei, nosso senhor?!...--perguntou com alvoroço o principe real.
--Em Castro Nunho.
--Quem nos trouxe tão bom recado?
--El-rei, meu Senhor, a mim proprio o deu.
A nova espalhou-se logo por toda a cidade. Foi celebrada com toques de trombetas e atabales, repiques de sinos, e outras demonstrações de alegria, feitas pela classe popular. E sem demóra igualmente mandou o principe sair para Castro Nunho uma guarda de honra composta de numerosos cavalleiros, a fim de acompanharem D. Affonso V a Toro.
Entretanto carecia Pero da Covilhan de explicar a sua presença junto do rei, pois, desde o cêrco da ponte de Zamora, militava na hoste do principe, havendo-se distinguido pela sua destreza e bravura na gloriosa refrega, em que conquistou novo brilho a intrepida cavallaria portugueza.
Preveniu o principe a explicação, perguntando ao moço escudeiro:
--Como soubéstes, que el-rei, meu páe, estava em Castro Nunho?
--Facilmente, meu senhor--respondeu Pero da Covilhan com a maior naturalidade.--Quando caíu a noite, comecei de inquietar-me, por vêr, que em nosso campo não havia de el-rei novas, nem mandados. Ancioso de buscar sua alteza, era dominado por um triste presentimento. As trévas da noite, e a confusão que reinava no campo contrario, poderiam talvez favorecer quaesquer pesquizas, que eu tentasse. Lembrei-me, de que me auxiliaria a facilidade, com que fallo os dialectos de Hespanha, e fui á ventura.
--Esquecestes, porém, que vos arriscaveis a perder a liberdade ou a vida--atalhou o principe.
--Não me occorreu, com effeito, a idéa d'esse perigo, pois a que imperava unicamente no meu animo era a de servir bem a el-rei e a voss'alteza.--A poucos passos do nosso acampamento apeei-me, e, quando caminhava na direcção da margem do rio, ouvi fallar uns biscainhos. Abeirei-me d'elles. Eram bésteiros do inimigo, que estavam em descanço. Quasi não repararam em mim. Tomaram-me naturalmente por seu convisinho, e, trocando comigo algumas palavras, um d'elles affirmou ter el-rei retirado do campo para os lados de Castro Nunho. Corri logo a verificar isto, e lá entrei hoje ao romper d'alva. O resto sabe já voss'alteza. Agora, meu Senhor, peço-vos perdão de me ter afastado do acampamento sem licença de voss'alteza.
--Perdoado estais, que digno de louvor é o acto por vós praticado; e, se alguma culpa houvesseis, resgatada fôra já pelo valor e brio, com que pelejastes a meu lado.
--Beijo as mãos de voss'alteza por mais esta mercê...
Não olvidaram D. Affonso V e seu filho a lealdade e dedicação de Pero da Covilhan, como veremos.
O principe, depois de conferenciar com seu páe em Toro ácerca da desgraçada guerra, para que tanto contribuira com o seu conselho, regressou a Portugal; e o rei cavalleiro proseguiu na sua aventura, sem pensar que o revéz de Toro fôra o occaso de sua gloria guerreira. Fernando em Cantalapiedra, e Isabel no caminho de Medina, ter-lhe-iam caido nas mãos, se a fortuna, para elles tão prodiga, não fosse para o seu competidor tão adversa.
Desanimou um pouco, emfim, aquelle que nos sertões da Africa nunca temera a morte.
Uma vez unicamente havia desembainhado a sua espada na peninsula, para ser instrumento de uma tragedia ominosa. Era chegado o momento da expiação. Appareceu-lhe talvez a sombra do infante D. Pedro, a jurar vingança eterna do sangue derramado em Alfarrobeira.
Justiça da Providencia!
V
_ADVENTO DA UNIDADE HESPANHOLA_
Estava D. Affonso V com desalento igual á falta de confiança, que tinha nos meios, de que dispunha, para accelerar o suspirado exito da sua temeraria empreza, quando chegaram a Toro D. Alvaro de Ataide e o Licenciado João d'Elvas, que vinham communicar-lhe o resultado da sua missão junto de Luiz XI. Era grande o contentamento dos embaixadores, por terem a convicção, de que não fôra illudida por vãs promessas a sua boa fé ao tratarem com o rei da França. Não lhes occorria, que os principes não contráem, nem conservam amisades com sacrificio de seus interesses; e talvez ignorassem, que Luiz XI tinha por maxima: _quem não sabe dissimular, não sabe reinar_; e que, por elle ser assás astucioso e perfido, lhe chamavam _a raposa_.
Lograram effectivamente celebrar, aos 8 de setembro de 1475, o tratado de liga offensiva, no qual a França se comprometteu a coadjuvar Portugal na conquista dos reinos de Castella e Leão; e obtiveram a confirmação e renovação dos antigos tratados de paz e amisade entre estes dois ultimos reinos e o da França, por Luiz XI de uma parte, e da outra por D. Affonso V, rei de Castella.
O nosso monarcha, porém, receoso, de que o seu alliado não cumprisse as estipulações dos tratados, por haverem augmentado para os reis da Secilia as probabilidades do triumpho, resolveu passar a França, e negociar pessoalmente com Luiz XI, a quem se offereceria por medianeiro da paz com o duque de Borgonha.
Regressou, pois, a Portugal, com sua sobrinha. O principe, seu filho, pôz o maior cuidado em dissuadi-lo do proposito que trazia; mas a ambição cegava-lhe o entendimento, e a esperança de realizar os seus desejos, de vingar-se da affronta de Toro, não dava lugar ao receio de arriscar mais uma vez a sua reputação.
Querendo passar mais além, do que lhe permittia a fortuna, saíu para França o allucinado rei, depois de ter embarcado no porto de Lisboa, em uma urca, na conserva da qual iam quinze navios com dois mil e duzentos homens.
A esquadra fez-se á vela com destino a Marselha; mas por causa do tempo foi arribar a Collioure, onde D. Affonso, depois de receber os cumprimentos, que Luiz XI lhe enviára por um official de sua casa, com ordem de dispôr tudo para a jornada do regio hospede, despediu os navios. Ao seu serviço ficou unicamente o pessoal indispensavel, de que fazia parte Pero da Covilhan, seu escudeiro predilecto depois do conflicto de Toro.
Do porto de Collioure pôz-se o rei de Portugal a caminho de Perpignan, e teve aqui a mais pomposa recepção official, levando-se a homenagem ao requinte de abrirem todos os carceres e soltarem os presos lá retidos.
De Perpignan expediu a Luiz XI um fidalgo da sua côrte, encarregado de notificar-lhe a sua chegada, e de pedir-lhe a designação do sitio, onde deviam conferenciar. Como a escolha d'este recahisse em Tours, D. Affonso V, seguiu por Narbonne, Montpellier e Nimes. Aqui deixou a estrada ordinaria, a fim de tomar para Lyon por Pont-Saint-Esprit, onde lhe veiu ao encontro o duque de Bourbon, acompanhado de numeroso cortejo, e antecipando-se a uma deputação, que por parte de Luiz XI déra, passados dias, as boas vindas em Roanne ao augusto viajante. Dirigiu-se depois a Bruges. N'esta cidade demorou-se algum tempo, fazendo-lhe companhia novos enviados do rei de França, que o entretiveram a mostrar-lhe fortalezas, apraziveis estancias, e, entre outras cousas, um rico e antigo livro na bibliotheca de uma abbadia de benidictinos. Era o _Lancelote do Lago_, romance de cavallaria escripto em latim, na leitura do qual os paladinos dos seculos XII e XIII aprendiam com enthusiasmo a imitar algum dos fabulosos cavalleiros da _Tavola Redonda_. Poderia inflammar tambem o espirito aventureiro de D. Affonso V, a quem o velhaco de Luiz XI por si, ou por intermedio de seus agentes, procurava divertir do proposito, que o levava a França, e por isso lhe prodigalisava todo o genero de distracções.
Chegou o monarcha portuguez a Tours. Á entrada foram-lhe entregues as chaves da cidade pelos regedores d'ella, os quaes incorporados aos dignitarios da côrte franceza, lhe fizeram uma recepção solemne, e o seguiram até os aposentos, que lhe estavam destinados.
Unicamente cinco dias depois saiu Luiz XI do castello de Plessis-lez-Tours, onde residia, e foi encontrar-se com o seu hospede. Sabendo D. Affonso V, que elle o buscava, quiz descer á rua, ou ao menos ir até á escada do palacio recebe-lo, o que lhe foi impedido por dois principes, que Luiz XI havia mandado adeante para regularem o ceremonial da entrevista.
A meio de uma sala avistaram-se os dois soberanos. O rei de França «vinha com um só barrete na cabeça, tendo já d'ella tirado um chapéo e duas grandes carapuças, e trazia solto um saio curto de mau panno, e á cinta uma espada d'armas muito comprida, e umas botas calçadas, e nos pés as esporas do mesmo jaez da espada, e ao pescoço uma béca de chamalóte amarello, forrada de cordeiras brancas muito grosseiras, e suas calças brancas entretalhadas de muitas côres.
«E ambos os reis com barretes nas mãos se abraçaram, inclinados os joelhos muito baixos.
«E tendo o rei de França assim abraçado o monarcha portuguez, com os olhos no Céo disse, que dava muitas graças a Nossa Senhora e a S. Martinho, porque a um tão pobre homem, como elle era, fizeram tanta mercê, que a seu reino e casa o viesse vêr e visitar um tamanho rei, que elle sempre desejava tanto vêr, e ter por irmão e amigo, e que porém elle não crêsse, que era vindo em reino estranho, mas como proprio seu, porque assim se faria n'elle todo seu prazer e serviço, como nos de Portugal.
«E com isto acabado se recolheram á camara, á entrada da qual, sobre quem se cobriria primeiro, houve entre ambos grandes e louvados debates.»[6]
Que farçante este senhor Luiz XI! Fez-se esperado, para afinal apresentar-se humilde até á repugnancia!
Depois de conferenciar com esse frascario, D. Affonso V partiu de Tours para Paris, tendo sido antes enviados a Roma embaixadores de ambos os monarchas, com o fim de solicitarem dispensas para o de Portugal poder casar com sua sobrinha, a princeza D. Joanna.
Pouco se demorou em Paris. Aconselhado por Luiz XI, dirigiu-se, no coração do inverno, á baixa Allemanha, a fim de se avistar com o duque de Borgonha, então empenhado na tomada de Nancy ao duque de Lorena, com quem estava em guerra. Sobre um rio coberto de gêlo abraçaram-se os dois soberanos, e alli mesmo disse D. Affonso a Carlos o Temerario, que o seu proposito era congraça-lo com o duque de Lorena, pois da paz entre ambos resultaria, que Luiz XI, por se vêr desobrigado de mandar vigiar a fronteira franceza, mais facilmente apoiaria a justa causa de D. Joanna, e poderia uma boa parte das tropas borgonhezas concorrer tambem para o bom exito da empreza de Castella.
O filho de Philippe o Bom, ao vêr a ingenuidade com que seu primo lhe apresentava os seus projectos, respondeu-lhe indignado, que Luiz XI era homem sem virtude e sem fé, e o andava illudindo, pois ao passo que o aconselhára a vir a Nancy, nas suas costas mandava tropas numerosas a soccorrer o duque de Lorena. E terminou Carlos de Borgonha por convidar o primo a tomar parte na defesa de Pont-à-Mousson contra o duque de Lorena, a quem esperaria deante de Nancy para lhe dar batalha.
Ante esta pratica, excitando á guerra, quem levava o animo inclinado á concordia, houve D. Affonso V por mais acertado voltar para Paris, e assim fez.
Carlos de Borgonha foi morto em combate. Estava Luiz XI livre do seu inimigo mais implacavel, e, como o abutre, que paira no alto a vigiar a presa, até o momento de se despenhar e lançar-lhe as garras, caíu logo sobre o ducado, e apoderou-se das cidades de Somme e de Borgonha propriamente dita. O sagaz, mas perverso filho de Carlos VII, tinha agora mais facilidade de resolver o problema, que sobre todos o preoccupava: a unificação da França. Lançando mão de todos os meios, mórmente dos diplomaticos, no intuito de annexar a Borgonha ao territorio francez, foi residir em Arras, a fim de seguir de perto os passos de seus agentes.
Entretanto regressavam de Roma a Paris os embaixadores com a resposta de Sixto IV. Na côrte pontificia havia-se aberto uma grande campanha diplomatica, adversa ao casamento de D. Joanna. Ao passo que o rei de Napoles, e outros principes, conspiravam a favor dos reis da Secilia, a curia duvidava das promessas feitas pelo rei de França ao de Portugal; mas, parecendo-lhe, que a morte do duque de Borgonha deixava Luiz XI em melhores circumstancias de honrar a sua palavra, resolveu sagazmente a questão, concedendo a dispensa no caso de Luiz XI se decidir formalmente a prestar auxilio ao rei de Portugal, e fazendo assim o soberano francez supremo juiz da demanda. Attendeu os delegados de Luiz XI, deixando implicitamente insinuado aos reis da Secilia, que tratassem com essa potencia; e não os delegados de Affonso V, por quanto a estes pôz uma condição, cujo cumprimento confiava ás diligencias do seu soberano, que era o mais interessado no negocio. Sempre habil e cautelosa a curia romana.
A Luiz XI mandou logo D. Affonso V dizer, que desejava conferenciar com elle a respeito da resposta mandada pelo papa; e concordou-se por isso no encontro dos dois monarchas em Arras.
Realisou-se a entrevista, ficando Luiz XI de participar ao rei de Portugal a sua resolução definitiva. Esperou este alguns dias em uma abbadia de conegos regrantes, que fôra designada para seu alojamento, e recebeu emfim uma resposta, que o esclareceu ácerca da doblez e politica tortuosa de Luiz XI.
Voltou o desilludido monarcha seus olhos para Portugal, e seus passos para Rouen. Aqui se deteve grande parte do verão na esperança de embarcar-se, até que desceu a Honfleur, onde se apparelhavam os navios para o transportar e á sua comitiva. N'este porto permaneceu ainda quasi todo o mez de setembro. Sempre merencorio e sombrio, entregava-se de preferencia a exercicios religiosos dispendendo tambem parte do tempo em escrever, e com o maior cuidado logo guardava o escripto dentro de um cofre, cuja chave trazia comsigo.