Pero da Covilhan: Episodio Romantico do Seculo XV

Chapter 3

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Entretanto Henrique IV partia com o marquez de Vilhena para Andaluzia, afim de receber umas cidades, que se administravam por seu proprio arbitrio; e depois de ter feito jurar solemnemente a sua irmã, que não casaria, fosse com quem fosse, antes de elle regressar. A infanta, porém, aconselhada pelo arcebispo de Toledo, protestou secreta e intimamente, que faria o que bem lhe parecesse; e logo escreveo ao rei de Aragão, dizendo-lhe, que consentia em unir-se a seu filho, mediante certas condições, que seriam propostas pelos emissarios, de quem ella encarregára a negociação. Mui vexatorias para o decoro do reino e do principe as consideravam os conselheiros do soberano aragonez; com tudo o matrimonio realisou-se. Correo logo que não estava valido, por se ter celebrado sem a dispensa pontificia, tão reclamada pelo proximo parentesco dos conjuges; mas como não havia escrupulos, nem difficuldades para o arcebispo de Toledo, este não hesitou em faltar á verdade, affirmando, que a curia romana lhe enviára muito a tempo o breve indispensavel.

Quando Henrique IV recolheo a Madrid, recebeu dos sublevados uma exposição, na qual lhe participavam o consorcio da infanta, e as condições, em que se effectuára; sem deixarem, para maior ludibrio, de solicitar o perdão do seu rei, por haverem, sem seu beneplacito, preparado e conseguido tão auspiciosa união. Ao mesmo tempo Isabel dirigio a seu irmão uma carta affectuosissima, em que lhe communicava a sua mudança de estado.

Era o cumulo da insubordinação e da impudencia!

O desforço de Henrique IV consistio em reunir um simulacro de côrtes no valle de Lozoya, onde, perante a rainha e sua filha, fez declarar solemnemente, que era irrito e nullo o acto de se haver jurado em Toros de Guisando, a infanta D. Isabel por herdeira do throno, em virtude de concessão feita por elle monarcha, pois lhe fôra esta arrancada á força, e offendia os direitos de sua legitima filha. Assistiram a essa assembleia alguns delegados de Luiz XI, que celebraram por procuração o casamento de D. Joanna com o irmão d'aquelle soberano. As cidades, que se prezavam de leaes, sendo Sevilha uma das primeiras, deram a tudo seu assentimento; mas o noivo da princeza não chegou a cumprir a palavra, que por meio de poderes especiaes havia empenhado.

Por conselho do marquez de Vilhena, Henrique IV voltou-se para D. Affonso V, a quem propôz o casamento com D. Joanna, a qual levaria em dote os reinos de Leão e Castella; porém, o monarcha portuguez, mais receoso dos artificios de Vilhena do que das difficuldades do assumpto, deo largas ao negocio, e Henrique IV entretanto tentou ainda procurar para genro o infante D. Henrique de Aragão, filho de outro, que, cincoenta annos antes, havia sido o primeiro perturbador de Castella.

Começou o anno de 1474.

Henrique IV estava em Segovia, e o alcaide d'esta cidade, Andrés de Cabrera, teve artes de fazer, com que o soberano se avistasse no alcaçar com a infanta D. Isabel. O rei, por sua natural bonhomia, recebeo a irmã, que não solicitou, nem esperou permissão para apresentar-lhe o marido. Era D. Isabel, na phrase de um legado de Sixto IV, sobradamente animosa e discreta, para deixar de conseguir o que desejasse, por isso não tratou de desculpar-se, senão de commover o irmão a ponto de lograr induzi-lo, a que no dia de Reis lhe désse e ao marido uma prova publica de affecto, indo á missa com elles, e voltando com grande comitiva ao alcaçar. Aqui tinha o alcaide farto e delicado almoço. O rei comeo com sua irmã e cunhado, e ao cair da tarde sentio-se tão mal, que foi mister leva-lo em braços para o palacio. Em quanto esteve de cama não cessaram as deligencias, para que declarasse sua irmã por herdeira do throno. Negou-se a isso constantemente. O marquez de Vilhena advogava a causa de D. Joanna, o arcebispo de Toledo a de D. Isabel; e ao passo que esta infanta se mostrava tranquilla e disposta a sustentar a todo o transe suas pretensões á successão, D. Fernando pelo contrario, não parava em parte alguma, como quem sentia na consciencia um pêso, de que não podia alliviar-se.

Depois do almoço de Segovia, Henrique IV nunca mais gozou saude, até que falleceo em 12 de dezembro do anno a que nos estamos referindo. Dois mezes antes tinha morrido o marquez de Vilhena, a quem succedeo seu filho D. Diogo, que assistio com o cardeal Mendoza, o conde de Benavente e o prior de S. Jeronymo, fr. João de Macuelo, aos ultimos momentos do rei em Madrid.

Apenas o prior confessou e ministrou a Sagrada Eucharistia ao monarcha moribundo, perguntou a este o cardeal:

--V. A. deixa testamento?

--Deixo--respondeo Henrique IV.--O meu secretario Juan de Oviedo o apresentará.

--E quem são os vossos testamenteiros?--continuou o cardeal.

--Á excepção do prior de S. Jeronymo, ficam nomeados os presentes e o conde de Plasencia.

--E a quem deixa V. A. por herdeira do throno?--insistio ainda Mendoza.

--A minha filha D. Joanna--replicou o monarcha serena e firmemente.

Seria grave offensa á memoria de Henrique IV suppôr, que na hora tremenda, em que elle se preparava, conforme a sua fé, para dar conta das suas fraquezas ao Omnipotente, saisse de seus labios uma mentira!

Ainda quentes os restos do mallogrado monarcha, D. Isabel fez-se acclamar, em Segovia, rainha de Castella e Leão, mandando celebrar um solemne _Te-Deum_, como se acabasse de alcançar o maior triumpho. Seguidamente foi áquelle mesmo alcaçar, onde havia entrado mezes antes em companhia de seu esposo e do rei defunto, sentou-se junto d'aquella mesa, em volta da qual os tres almoçaram, e prezenteou o alcaide Andrés de Cabrera com o mesmo copo de ouro, de que se servira D. Henrique.

Parece um sarcasmo!

Em geral os historiadores e chronistas hespanhoes defendem e exalçam a successão de Isabel a Catholica, servindo-se, para combater a legitimidade e o direito da princeza Joanna, dos mesmos pretextos, de que lançaram mão os rebeldes.

Não é d'este modo, que deve comprehender-se a missão da historia.

Póde o historiador alardear a sua erudição e os seus talentos; se o seu criterio, porém, não fôr imparcial e desapaixonado, sacrificará a verdade, que é a alma, a belleza da historia, e a honra suprema, de quem a escreve.

O facto de ter D. Fernando o Catholico, depois de viuvo, pretendido desposar-se com a princeza D. Joanna, por si só bastaria, para lavar a nodoa, com que macularam a reputação da mulher de D. Henrique.

Mas a tumida onda sediciosa não envolveu unicamente os povos de Castella; saltou a fronteira portugueza, e arrastou na resaca o nosso D. Affonso V, que no conceito de Camões,

_Fôra por certo invicto cavalleiro,_ _Se não quizera ir ver a terra Iberica._

III

_NOVO ESCUDEIRO_

Após o passamento de Henrique IV, todas as esperanças dos partidarios de D. Joanna firmavam-se no heróe de Arzilla; e as de D. Isabel no apoio de Aragão principalmente. Estava préstes a travar-se a lucta, em que devia afinal decidir-se da sorte das duas contendoras, collocadas em circumstancias mui diversas.

Isabel, ainda em vida de seu irmão, soube preparar-se a tempo; Joanna era uma creança inexperiente, filha de uma senhora sem prestigio, e sem a necessaria energia para collocar-se á frente do movimento, que se operava a favor da justa causa da princeza de Castella.

Tambem a morte veiu surprehender a infeliz viuva no inicio das hostilidades, de sorte que sua filha, orphã prematura de páe e mãe, ficou inteiramente á mercê da versatilidade caracteristica de seus parciaes. Estes, mais por acudir á vingança de seus odios particulares, e ao accrescentamento de seus patrimonios, do que por zelo do bem publico, ou amor de justiça, trataram de comprometter D. Affonso V, para lhes saciar a cobiça.

Estava o rei de Portugal em Extremoz, quando lhe chegou ás mãos o testamento, em que seu cunhado Henrique IV declarava ser a princeza D. Joanna sua filha, e a nomeava herdeira dos reinos de Castella e Leão, pedindo outrosim a D. Affonso V, que acceitasse a governança d'elles e casasse com a sobrinha.

Ouviu D. Affonso sobre o assumpto o parecer de seu filho, bem como o dos grandes e principaes do reino, a quem consultou mais talvez pelo respeito ás praxes estabelecidas, do que resolvido a seguir qualquer conselho, que contrariasse o seu reservado intento. A fim de saber não só quantos e quaes eram os magnates castelhanos legitimistas, como de certificar-se da valia d'elles, enviou a Castella Lopo de Albuquerque, seu camareiro-mór, depois conde de Penamacor.

A esse tempo chegava D. Juan de Guzman a Extremoz, onde foi recebido pelo monarcha.

Não podia ser mais a proposito esta visita, e D. Affonso folgou muito com ella, dando ao seu hospede cordialissimo agasalho, como naturalmente pediam a lhaneza e affabilidade do rei, que captivava com o seu trato grandes e pequenos.

Entregou-lhe o recem-vindo uma carta, em que o duque de Medina Sidonia o apresentava a D. Affonso, garantindo a approvação antecipada a quanto entre ambos ficasse assentado.

Terminada a leitura do escripto, começou Guzman por dizer:

--Não ignora voss'alteza, quanto é lastimoso o estado de Castella. O reino sem direcção, nem governo, combatido por todos os principios de dissolução, caminha rapidamente para uma ruina tremenda, e nas mãos de voss'alteza está o poder evita-la.

--São esses os meus desejos;--replicou D. Affonso--mas, como sabeis, a empresa não é facil, por isso careço de inteirar-me da lealdade dos que se propõem pugnar pela justiça e direitos da princeza, minha sobrinha.

--Da parte de meu irmão--tornou Guzman--venho eu prestar homenagem a voss'alteza, a quem elle jura servir em tudo, obrigando-se a auxiliar, tomar e reconhecer por seu legitimo rei e Senhor, se voss'alteza se desposar com a senhora D. Joanna, e fôr sem demora tomar posse do governo de Castella.

--O duque é digno dos meus louvores, e mais ainda pela fórma, como procede, offerecendo-me occasião de conhecer-vos, para muito vos estimar.

--Mercê a voss'alteza, meu Senhor. Em breve poderei talvez provar-vos a gratidão do meu animo, onde tambem o seu esforço mais se manifeste.

--Praz-me ouvir-vos, e ver-vos tão deliberado!

D. Juan de Guzman cortejou D. Affonso, e disse-lhe com aprimorados ademanes de cavalleiro:

--Espéro, que meu irmão me confie o comando de dois mil cavallos, que desde já põe ao serviço de voss'alteza.

--É contingente valioso esse--observou D. Affonso.

A respeito das forças, com que poderemos contar devo em breve ser definitivamente informado pelo marquez de Vilhena.

--Assim o creio. Talvez a demora dos seus esclarecimentos dependesse da resposta de meu irmão.

--Porquê?

--Á hora da minha partida para Portugal recebeu o duque uma carta de D. Diogo, na qual lhe perguntava com quantos cavallos concorria, pois desejava enviar a voss'alteza uma nota das tropas castelhanas, com que poderiamos entrar em campanha, e a Luiz XI a da totalidade do exercito.

--E o marquez communicava tambem ao duque o computo dos já inscriptos?

--Sim, meu Senhor. Anda por dezoito mil cavallos; devendo, porém, este numero elevar-se, quando constar a entrada de voss'alteza em Castella, pois muitos dos cavalleiros, que até agora não adheriram, o farão immediatamente.

D. Affonso V não poude occultar o jubilo, que lhe causou esta nova de ter já por si em Castella tão importantes forças; e com a sua habitual familiaridade affirmou a D. Juan de Guzman:

--Eu tenho muita confiança nos cavalleiros castelhanos. Não os ha mais briosos certamente.

--Mercê por elles, meu Senhor.

--Agora aqui vos deixo para serdes recebido pelo principe, que muito gostará de conversar comvosco.

É fácil de presumir, sobre que versaria principalmente a palestra, sabendo-se do interesse, que mostrava o principe D. João em seu páe acceitar o papel, que Henrique IV lhe distribuira no testamento.

D. Juan de Guzman poucos dias se demorou em Portugal; foi, porém, o tempo sufficiente para D. Affonso e seu filho conhecerem e apreciarem o pagem, que viera na comitiva. D'elle fizeram grandes gabos ao fidalgo sevilhano, o qual, mais talvez por alardear philaucias de familia, do que por enaltecer as qualidades do môço, ou por ambas as razões, referiu em resumo: que da Covilhan costumava ir a Sevilha o páe do pagem commerciar e conquistára grandes creditos. Tendo afinal estabelecido a sua residencia n'aquella cidade, onde era geralmente estimado, accedeu ao pedido, que lhe fez o duque de Medina Sidonia, de deixar-lhe educar o filho, então muito creança ainda, mas dotado já de singular viveza. Como fallecesse o mercador, pouco depois, e já viuvo, ficára o pagem inteiramente confiado ao amparo do duque. Possuia prendas muito estimaveis, poderia em breve ser um excellente cavalleiro, e chamava-se Pero da Covilhan, por causa da sua procedencia.

Esta narrativa ainda mais aguçou a D. Affonso e ao principe o appetite de terem o pagem ao seu serviço; e D. Juan de Guzman já havia reconhecido isso na maneira como lhe fallavam d'elle.

Na vespera do seu regresso a Sevilha, perguntou Guzman a Pero da Covilhan:

--Quereis ser pagem do rei de Portugal?

--Tudo quanto sou--respondeu Pero--devo ao senhor duque, por isso não tenho animo de separar-me d'elle.

--Esperava essa resposta;--volveu Guzman--mas se eu vos pedir, que fiqueis?

--Obedeço, porque de vossa mercê sómente recebo ordens e não pedidos.

--Meu bom Perico!--exclamou affectuosamente Guzman.--Muito me custa deixar-vos cá; mas o senhor D. Affonso, que, dentro em pouco será rei de Castella, mostra desejos de ser vosso amo, e eu tenho-os de o bem servir; por isso entregar-vos-ei a elle, certo de que meu irmão assentirá ao meu proposito.

No dia seguinte saiu D. Juan de Guzman para Sevilha. D. Affonso V dirigiu-se a Evora, levando no seu sequito a Pero da Covilhan, já escudeiro, servido de armas e cavallo, sem embargo de não ter completado ainda vinte annos.

O rei antes da partida despachou o seu Arauto Lisboa com cartas para Luiz XI, a quem communicava a resolução que tomára, de receber por esposa a princesa D. Joanna, e de entrar em Castella com um grande exercito, pois a isso o estava convidando a maior parte da grandeza castelhana. E sob o pretexto de recear, que na jornada sobreviesse ao seu Arauto algum accidente ou enfermidade, que o retardasse, escreveu de novo ao rei de França, insistindo agora principalmente em demonstrar os legitimos e inauferiveis direitos da rainha D. Joanna. Ponderava habilmente, que o não ser d'elles esbulhada, era conveniencia de ambos os monarchas, por quanto, se Fernando se apoderasse de Castella, viria a ser um vizinho formidavel e perigoso, tanto para Portugal, como para França.

Procurava assim conciliar com acertada politica as boas graças de Luiz XI, que mui interessado era, em que no throno de Castella estivesse um principe capaz de manter e conservar as antigas confederações e allianças d'esse reino com a França; mas contra todos em geral e sem excepção.

N'este ponto offerecia-se a difficuldade de ser Portugal alliado da Inglaterra, antiga inimiga da França, e querer Luiz XI, que Portugal ficasse comprehendido no tractado a celebrar com Castella.

De certo modo veiu o nosso monarcha a prestar-se ás vistas politicas de Luiz XI; o que determinou este a promulgar uma carta patente sobre o soccorro, que dava a D. Affonso V, nomeando sire d'Albret commandante de um exercito destinado a invadir Guipuzcoa e Biscaia.

Com quanto o duque de Bragança tivesse já dado lealmente por escripto o seu parecer--que foi archivado a seu pedido, para constar no futuro--ácerca da entrada do exercito portuguez em Castella, D. Affonso, antes d'este se pôr em marcha, conversou ainda particularmente com o duque a respeito do assumpto.

--Insistis na vossa opinião?--perguntou o monarcha ao duque de Bragança.

--Certamente, meu Senhor--respondeu o duque.

--Ora dizei-me: não deverei eu confiar nas declarações categoricas, que por Lopo de Albuquerque me enviaram os grandes de Castella?

--Mais acertado fôra, Senhor, desconfiar d'ellas. Reparai bem, que esses mesmos, que vos chamam agora para sustentar os direitos de vossa sobrinha, são os que atraiçoaram a D. Henrique, seu rei natural, depondo-o do governo do reino.

--Assim é. Mas não acreditais, que elles reconhecendo a justiça que assiste a minha sobrinha, queiram resgatar com uma nobre acção seus anteriores desatinos, sem embargo de esperarem tambem receber de mim grandes mercês?

--O que me parece é, que a obediencia por elles jurada depende unicamente da sua ambição, e vem acompanhada de mais interesse, do que de fidelidade e constancia; por isso, se a sorte das armas começar a ser desfavoravel a voss'alteza, depressa abandonarão a vossa bandeira.

--Sei, que como amigo me fallais; mas a vossa prudencia é agora descabida. Pois os nobres de Castella arriscar-se-iam por ventura a grandes perigos, offerecendo-me espontaneamente seus serviços, se duvidassem do seu e meu triumpho?!

--De tudo são elles capazes, meu Senhor, que os não ha mais voluveis. Mas superiores em poder e em numero são-lhes os mais avisados e prudentes, tendo ao seu lado o povo, que unanimemente acclamou D. Isabel por sua rainha. E uma acclamação, como esta, é vantagem muito grande no começo dos reinados, servindo até de justificar as pretensões mais duvidosas.

--Não ignoro quanto o poder de Castella excede o de Portugal; mas conto não só com os homens do meu reino, que são muito valentes, senão com outros tantos castelhanos, como de mais nações, que de boa vontade engrossarão o meu exercito.

--E a D. Isabel não virão soccorros da Secilia, tanto em dinheiro, como em armas, navios de guerra, cavallos e provisões? Aragão dar-lhos-ha decerto; e até a Italia, pois são senhores d'ella, e primos dos reis da Secilia, o rei de Napoles D. Fernando, e o duque da Calabria, seu filho.

--Sim, estão os meus adversarios bem aparentados; mas não os temo apesar d'isso, e eu tambem _não nasci das pedras_.[3] Conto igualmente com amigos e parentes; tambem me não falta dinheiro, _que é mais fiel que todos os parentes e amigos_, e tenho sobretudo a Deus em meu auxilio.

--Não pretendo demover voss'alteza do proposito, em que está; permitti, porem, que vos lembre ainda a reciproca aversão de Castella e Portugal, filha de um odio inveterado entre os dois povos; e o perigo de expôr a felicidade e a paz do vosso reino á inconstancia e capricho dos grandes de Castella. Não olvide tambem voss'alteza, que, durante a vida de seu cunhado, não queria ouvir fallar do casamento de voss'alteza com sua sobrinha, e que, acceitando-o agora, obriga o mundo, sempre prompto a desacreditar as acções dos principes, a murmurar e attribuir esta guerra a algum odio reservado...

--Sem embargo d'isso, estou resolvido a entrar em Castella.

--Acato a deliberação de voss'alteza, e peço-lhe me conceda licença, para ter em alguns lugares d'esse reino póstas prestes a salvar a real pessoa de voss'alteza e a minha, se necessario for.

A vigorosa argumentação do duque de Bragança, para combater o designio de Affonso V, fez suspeitar o principe D. João, de que fôra inspirada por D. Isabel, proxima parenta do duque; suspeita essa, que dominou sempre o animo do principe, e foi mais tarde tão fatal á casa de Bragança.

D. João oppôz-se apaixonadamente áquelle parecer, por estar convencido de que o senhor de Villa Viçosa pretendia atalhar, a que D. Affonso V aproveitasse o ensejo propicio, que se lhe offerecia, de dilatar os dominios da corôa, e unificar os reinos da peninsula. Era vivamente applaudido por alguns fidalgos portuguezes, que observavam o invariavel preceito, de não soffrerem os principes contrariedade a seus gostos. Preferiam por isso ser aduladores, especie de péste endemica das côrtes, para a qual se não descobriu ainda remedio.

O duque de Bragança havia previsto, quanto ia passar-se em Castella; e os successos, como veremos, bem mostraram ser mais difficil illudir a prudencia, do que lisonjear um principe.

Falleceu o duque, antes de se pôr em marcha o nosso exercito, e seu filho primogenito D. Fernando, duque de Guimarães, que lhe succedeu em suas grandezas, tomou parte na expedição com seus irmãos, vassallos e dinheiro, sem que lhe entibiasse o zelo e a generosidade, com que servia o seu legitimo rei, consideração alguma pelo parentesco, que tão estreitamente o ligava aos principes do partido contrario.

Até aqui havia D. Affonso V reinado com muita gloria e auctoridade, sendo alvo da estima e veneração dos principes seus contemporaneos, alguns dos quaes consumiam seus patrimonios e forças em guerras civis e domesticas, em quanto elle as expendia em activar o influxo civilisador da religião catholica, e ampliar a soberania de Portugal, havendo passado tres vezes a Africa, onde seus cavalleiros mais acendraram a fama luzitana, e elle mostrou sempre a alteza de animo, de que era singularmente dotado.

A inclinação e gosto, com que se occupava na conquista da Africa pela Barberia, faziam-n'o olvidar a grandeza dos descobrimentos do Oceano, iniciados pelo infante D. Henrique seu tio. Quem sabe, porém, se elle continuaria a obra do solitario de Sagres, uma vez que não fosse impellido pela generosa idéa de reparar uma affronta, feita a sua irmã, e de soccorrer uma orphã innocente e desamparada?

E seria sómente esse o pensamento, que o levou a Castella?

Se o leitor, em alguma hora de seu desenfadamento, compulsasse os codices da preciosa collecção pombalina, que possue a Bibliotheca Nacional de Lisboa, em um d'elles encontraria a seguinte lembrança muito instructiva:

«Sendo antes destas tres escreturas atras contheudas trautado casamento delRei Dom Affonso o quinto, padre delRei nosso Senhor e sobre elle com a Rainha Dona Isabel, que na era presente reinava, foi com embaixada a Castella o Arcebispo de Lisboa Dom Jorge grandemente, que hoje he Cardeal de titolo de Sam Pedro Marceleni, e está em corte de Roma privado e amado do Papa Innocencio, que foi Cardeal malfetano, e asi outros embaixadores, e vindos outros de Castella ao dito Rei sobre o mesmo caso, esta senhora Rainha Dona Isabel se casou com elRei de Cecilia e Principe d'Araguam, filho delRei Dom João d'Araguam, que primeiro foi Rei de Navarra, o qual casamento fez por mão do Arcebispo de Tolledo dom Affonso Carillo, e do Almirante avoo do dito Rei da parte de sua mãi, e fique em memoria que o fez porque o dito Senhor Rei Dom Affonso _a não quiz, querendo ella muito_, e depois elle a quisera e ella como as molheres naturalmente sam vingativas o não quiz quando elle quisera, e folgou de lhe dar competidor e de o anojar, como na verdade foi, _ca desta mesma causa naceo sua entrada em Castella com o titolo de sua sobrinha_, filha delRei Dom Amrique per dar trabalho á Rainha Dona Isabel, e se vingar della, e como as cousas de sua entrada sobcederão fique do Coronista ao carguo.»