Pero da Covilhan: Episodio Romantico do Seculo XV

Chapter 2

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Na capella é esperada a duqueza com o seu sequito gentilissimo pelas moças da camara, e pelo sacerdote, que celebra a missa, ouvida por aquella pequena côrte.

Em seguida serve-se o almoço, depois do qual a duqueza, acompanhada de suas donzellas e de alguns fidalgos, dos mais apontados em garbos de cavallarias, em esmeros de atavios, e em chistes de conversadores, passeia a cavallo no seu suberbo palafrem. Hoje, todavia, recolheu-se aos seus aposentos, e não deu o seu passeio habitual.

Deixemos, pois, entregue ás suas meditações a virtuosa senhora. Naturalmente algum novo acto de caridade projecta, para juntar aos muitos, que tão justamente lhe tem grangeado o santo e doce nome de _mãe dos pobres_.

E, emquanto o duque falla com o irmão, acompanhe-me o leitor ao pateo principal do palacio.

É um quadrilongo regular, cercado de galerias, superior e inferiormente, decoradas com arabescos do mais fino gosto, sendo seus arcos em fórma de ferradura, graciosamente entalhados e sustentados por dezenas de columnas de ordem composita e de marmore alvissimo. O pateo é ajardinado, tendo no centro uma fonte, cuja agua crystalina cáe dentro de um tanque largo que a circumda; e os canteiros são separados uns dos outros por lousas de marmore branco.

Na galeria superior sente-se rir e folgar. São as donzellas da duqueza. O sol não as incommoda, porque todo o vão do pateo está coberto com um grande toldo. Uma d'ellas, desviando-se das companheiras, vê no jardim, perto do tanque, um pagem, e pergunta-lhe com ineffavel meiguice:

--Estais a despedir-vos das flores, Perico?...

--Quem sabe, se tornarei a vê-las!...--respondeo o pagem com pronunciado acento de tristeza.

--Pois porque não haveis de voltar?...

--Deus o sabe; mas diz-me o coração, que nunca mais verei Sevilha!...

--Tem cousas o vosso coração!... Deixai-o cá, para não vos ir atormentando com presagios pelo caminho...

As outras donzellas, que tiveram curiosidade de saber, com quem a sua companheira conversava, accorreram no momento em que Pero fazia esta pergunta á sua interlocutora:

--Se eu podésse arrancar o coração do peito, de quem poderia confia-lo, na certeza de que ficaria bem guardado?

--De mim!--exclamam todas a um tempo.

--Como elle não póde repartir-se,--ponderou o pagem--entrega-lo-hia a Beatriz.

--Sois mui gentil, Perico!--tornou esta. Graças pela preferencia...

--Não fostes vós, quem me propôz não o levar comigo?...

--Sem duvida!... É, porém, essa a unica razão da vossa escolha?...

--Não m'o pergunteis... Se tivesse aqui um alaúde, cantar-vos-ia agora ao som d'elle:

_Con dos cuidados guerreo_ _que me dan pena y sospiro;_ _el uno quando no os veo,_ _el otro quando vos miro._[1]

--Bellissimo, Perico!...--bradaram as donzellas com viva demonstração de alegria.

--Que gracioso sois!--accrescentou Beatriz e perguntou: mas porque esquecestes a guitarra, que é mais maneira, e vos lembrastes do corpulento alaúde, como lhe chamava o arcipreste de Hita?

--Vejo, que conheceis os versos de Juan Ruiz...--observou o pagem.

--Quem haverá ahi, que os não tenha ouvido recitar aos trovadores e aos jograes?!... A proposito vinha agora recordar aquelles, em que o arcipreste descreve a recepção de D. Amor... Se quereis ter uma igual, quando regressardes, recitai-os, Perico!...

--Careceis dos nossos rogos?...--atalharam as outras donzellas.

Convem notar, que os duques de Medina Sidonia, á similhança dos reis de Castella, mantêem uma côrte poetica. Fazer versos está na moda, por isso são poetas os grandes senhores: almirantes, condestaveis, duques, marquezes, condes e reis. A verdadeira e legitima poesia conservava-se no estado latente, desde o reinado de D. Pedro, o Cruel. Passou depois á côrte, e fez-se cortezã. Com tudo não havia perdido completamente o favor popular o romance brioso e sentido.

Os melhores poetas, que frequentam a casa Medina Sidonia, são versados na lingua arabe, e sabem numerosas lendas d'este povo de poetas. Conhecem a escola provençal, e é-lhes familiar a litteratura. Os romances castelhanos, e as mais bellas composições poeticas de Hespanha, anteriores ao presente seculo XV, todos os cavalleiros d'aquella côrte sevilhana recitam com applauso de damas e donzellas. O marquez de Santilhana, que por lá surge de quando em quando, ao passo que por todos é escutado com affectuoso enthusiasmo, estimula os moços, repetindo-lhes esta maxima: «a sciencia não embóta o ferro da lança, nem afrouxa a espada na mão do cavalleiro.»

N'este meio social tão distincto, é que tem sido educado o pagem, e a familia Medina Sidonia dispensa-lhe os maiores carinhos.

Tirado, pois, a terreiro pelas donzellas, assume um certo ar de gravidade, parecendo ao mesmo tempo, que do seu olhar vivissimo saltam chispas de luz e de graça, e exclama:

--Attenção!... Vae fallar Juan Ruiz!...

Quando, porém, se propunha recitar o engraçado episodio, pôz termo ao animado colloquio o apparecimento do irmão do duque a uma porta da galeria inferior.

O pagem dirigiu-se logo a D. Juan, de quem recebeu uma ordem, e em virtude d'ella saiu apressadamente do pateo. As donzellas retiraram tambem logo da galeria.

Junto das cavallariças um velho mendigo, de compridas barbas brancas, de olhar scintillante e modos altaneiros, em que se traduz o seu orgulho de raça, inflexivel sempre, até sob o jugo do infortunio, tem feito as delicias de eguariços e lacaios, ora tocando sanfona, ora narrando historias de bandidos e de feitiços dos mouros de Granada. A famulagem tinha tempo para tudo. Não se tratava então de apparelhar ginetes, para ir no encalço dos Ponces, inimigos irreconciliaveis dos Guzman, apesar do seu proximo parentesco; unicamente cincoenta cavallos estavam arreados, e promptos a enfrear á primeira voz.

São quasi cinco horas da tarde. D. Juan de Guzman despede-se do irmão, que lhe mostra uma carta de D. Diogo Lopes Pacheco, marquez de Vilhena, recebida momentos antes, e abraçando-o diz-lhe: «D. Affonso que conte com dois mil cavallos».

Passados poucos minutos as donzellas da duqueza sóbem a um torreão do palacio, para vêr sair a garrida cavalgada, em que vae caminho de Portugal D. Juan de Guzman.

Para maior luzimento do numeroso prestito de escudeiros e lacaios, com o qual D. Juan pompeava, o duque não só pôz ao seu serviço o discreto pagem, que o leitor conhece, mas deu-lhe tambem por companheiro um dos mais disértos trovadores da sua côrte.

Ao lado dos azemeis, que conduzem possantes mulas pittorescamente ajaezadas e carregadas de bahús com a bagagem, caminham uns romeiros, encostados ao seu bordão, e com a murça da esclavinha ornada de conchas e vieiras. Por intervenção da duqueza, haviam alcançado licença de jornadear com D. Juan até Portugal, devendo d'aqui passar a Santiago de Compostella, onde se dirigem, e d'este modo evitar os caminhos de Hespanha ora tão infestados de bandidos e salteadores.

As donzellas demoraram-se no torreão até se desfazer, lá ao largo, a ultima nuvem da poeira, que envolvia cavalleiros e peões; mas já não logravam distinguir um só d'elles.

--Quem sabe, se Beatriz desejaria descortinar unicamente o pagem?... Talvez. Nada, porém, communicou ás companheiras, que podésse denunciar esse desejo.

--E Perico?... Levaria porventura gravada no coração a imagem de Beatriz?... Começaria a feri-lo deliciosamente o espinho da saudade?... Ou a lembrança de entrar no seu paiz, que, desde muito creança não tornára a vêr, e em cuja côrte teria ensejo de exhibir as singulares prendas, de que era dotado, apagar-lhe-ia da memoria os venturosos dias de Sevilha?...

Ao leitor cordato afiguram-se decerto inopportunas taes perguntas, feitas com o fundamento unico da scena, que presenceámos no pateo.

Tem razão. Esse galanteio innocente, proprio da mocidade dos participes, dos costumes da época, e até da indole das encantadoras filhas da Andaluzia, não auctoriza a procurar mysterios no que tão natural se apresenta.

--Sabe o leitor o que logo ao começar da jornada está provocando os gabos de experimentados escudeiros?

--É a destreza, com que Pero, o gentil pagem, manda o rinchão fouveiro que monta. A cada galão do corcel sorri-se desdenhosamente, e com seus ditos joviaes e maliciosos é o enlevo da comitiva.

Ditosa mocidade!...

Se voltassemos ao palacio dos duques, encontrariamos talvez Beatriz a exercer o galante ministerio de _juiza_ em alguma _côrte de amor_.

E cá fóra veriamos o velho mendigo no mesmo lugar ainda, cantando ao som da sanfona:

«Rosa fresca, rosa fresca, tan garrida y con amor; quando vos tuve em mis braços, no vos supe servir, no, y agora que os serviria no vos puedo aver no.[2] ............................ ............................

II

_CONSPIRAÇÃO_

Se o leitor tem folheado a historia de Henrique IV, de Castella, póde poupar-se á leitura d'este enfadonho capitulo, no qual vamos condensa-la, para melhor intelligencia do que mais ao deante se dirá.

Esteve Henrique IV casado sete annos com D. Joanna, irmã do rei de Portugal D. Affonso V, sem ter successão; até que, em 1462, a rainha deu á luz uma menina. Foi baptisada esta com muita pompa, e geraes demonstrações de regosijo, pelo arcebispo de Toledo, D. Affonso Carrillo, sendo madrinha a infanta D. Isabel, irmã do rei, e padrinho, por procuração, Luiz XI de França. Pouco depois, reunidas côrtes em Madrid, n'estas foi jurada herdeira do throno a recem-nascida, a que se havia dado o nome de Joanna, e ninguem protestou contra o juramento.

Era a esse tempo mordomo-mór do palacio D. Beltran de la Cueva, que de pagem da lança passou logo a exercer essa alta dignidade, havendo sido igualmente agraciado com o titulo de conde de Ledesma. Mostrava-se este mui solicito no serviço da rainha, mas não fazia mais do que cumprir as ordens do monarcha, de cujo favor e privança gozava com inveja e despeito de muitos, que não queriam reconhecer-lhe meritos para tanto.

Os negocios do Estado eram dirigidos pelo arcebispo de Sevilha;--o verdadeiro soberano, pois que D. Henrique passava seus dias caçando e divertindo-se.

D. João II, rei de Aragão, andava em guerra com seu filho D. Carlos de Viana, a quem não queria entregar o senhorio de Navarra, que pertencia a este, por morte de sua mãe; e com Luiz XI, para retomar o Roussillon, que lhe havia empenhado por avultada somma de dinheiro.

Aos parciaes da justa causa de D. Carlos pertencia Henrique IV, e aos do rei usurpador, o arcebispo de Toledo e alguns grandes de Castella.

O marquez de Vilhena, D. João Pacheco, dizia-se amigo de Henrique IV; e, como era mui artificioso e dado a soltar só meias palavras, foi a Saragoça tratar da paz e boas relações de Aragão com Castella.

No seu regresso a este reino convidou, sem detenças, o arcebispo de Toledo e seus sequazes, para uma reunião secreta, que se realizou em um valle proximo de Alcalá de Henares.

Ahi o marquez rompeu, sem mais preambulos:

--É forçoso guerrear sem treguas Beltran de la Cueva.

--Não se me afigura empresa difficil...--acudio em tom pausado e sisudo o arcebispo de Toledo.

--Convenho;--replicou Vilhena--mas ainda é numerosa a parcialidade do rei, e tem á sua frente o arcebispo de Sevilha...

--E a nós,--atalhou, recachando-se, o prelado toledano--embóra inferiores na quantidade, ninguem sobrelevará na coragem e na perseverança com que luctaremos. Demais... o rei é fraco, e o arcebispo de Sevilha...

--Sim, esse...--condescendeo o marquez, engulindo um pensamento, cuja execução de ninguem confiava.--Lembrai, pois, um plano, e contai com o rei de Aragão.

--Quereis um, que fira mortalmente o rei e o valido?... Ahi váe em poucas palavras: invistamos contra a honra da rainha!

Advirta-se, que o arcebispo de Toledo era um d'aquelles prelados da edade media, nascidos antes para brandir a espada acerada do guerreiro, do que para menear o cajado pacifico do apostolo.

O marquez de Vilhena comprehendeo logo toda a perfidia do seu interlocutor, e, occultando cautelosamente o assombro, que lhe produziram as suas palavras, perguntou sem hesitação:

--Como?...

--Divulgando, que a infanta D. Joanna é filha de Beltran de la Cueva--respondeo serenamente o arcebispo.

--E acredita-lo-hão?... Talvez muitos o ponham em duvida... Como sabeis, o facto de ter o rei estado sem successão, durante sete annos, póde explicar-se com o similhante de seu avô Henrique III, que esteve oito. Álem d'isso a todos é bem prezente ainda a scena de ciume da rainha, que, batendo com um chapim na sua dama D. Guiomar de Castro, expulsou-a ao mesmo tempo do alcaçar de Madrid, sem evitar, que a sua rival esteja vivendo hoje tão entonada, por ser amante do rei, e dispensadora de mercês, aos que preferem ganha-las com humilhações perante tal mulher, a conquista-las ás lançadas aos mouros...

--E d'esses factos o que se conclue?... O primeiro á lembrança de ninguem acóde. O segundo tem uma explicação natural no orgulho offendido. Álem de que o vulgo não deixa de crêr ás cegas em todas as accusações feitas aos potentados, e até as avulta enormemente... Accresce, que para o genero d'esta não ha defensa possivel, e, dado o escandalo, já o monarcha se não attreve a mostrar-se em publico, sem correr o risco de ser apupado...

--N'essas circumstancias deixará a infanta de ser a herdeira presumptiva da corôa...--contestou pausadamente o marquez.

--Sem duvida!--atalhou de prompto o arcebispo, a quem pareceo divisar no marquez de Vilhena certo ar de indecisão.

--Melhor é, pois, desthronar já D. Henrique!...

--Óra até que chegámos ao ponto, por onde deviamos ter começado!--exclamou o arcebispo com mal contido júbilo, e, compondo o aspecto, de seu natural severo, accrescentou: e quem hade impedir-nos de o realizar?...

--Pois bem!... Mas antes de tudo o monarcha assignará as pazes com o rei de Aragão, afim de evitar, que continue a suspeita de qualquer accordo nosso com a côrte aragoneza...

--É habil esse lance!...--ponderou o arcebispo--Comtudo não vos esqueçais do arcebispo de Sevilha...

--Seguramente...

--Vejo, que nos comprehendemos...

--Resta saber, quem nos convirá no throno, cuja dignidade tratamos de restaurar...

--O infante D. Affonso; por isso mesmo que é uma creança tão debil e apoucada, como seu irmão. Agrada-vos?...--concluio o arcebispo, sorrindo ironicamente.

--É uma creança que substitue outra...--observou Vilhena.

--É; mas D. Henrique retirou-nos a sua confiança, e D. Affonso hade obedecer ás nossas inspirações...

Das reticencias d'este dialogo é licito inferir, que os interlocutores não confiavam demasiadamente um no outro. O arcebispo de Toledo era insolente e audacioso. O marquez de Vilhena, mui solérte em intrigas palacianas, fazia consistir a sua força na brandura da sua linguagem, e sabia-lhe melhor ganhar a victoria por meio de traças ardilosas, e palavras melicas. Não pretendia álem d'isso desaggravos tão cruentos, como o arcebispo; mas teve de concordar com elle, e com os outros conjurados, em espalhar pela lama as jóias mais bellas de uma corôa, para a tornar ludibrio do mundo!

O que mais resolveram tão inclitos varões, em seu conluio, i-lo-hão mostrando elles para gloria sua.

Henrique IV, apesar dos reparos, que pôz na concordia com o rei de Aragão, assignou as pazes propostas pelo marquez de Vilhena. Parece, porém, ter-lhe servido de aculeo a sua condescendencia, para manifestar, mais do que nunca a sua intimidade com o conde de Ledesma.

Foi novo aggravo aos conspiradores; por isso correo logo de bocca em bocca o nome de _Beltraneja_, posto por elles á innocente infanta, e perfida injuria disparada ao pundonor de sua mãe.

Os amigos do monarcha, cobertos de pejo, indignaram-se de ver caidos na baixeza, de propalar em tamanha infamia aquelles, que se diziam _grandes de Castella_!

Procurou o rei attrahir de novo ao seu partido o marquez de Vilhena, por saber quão perigosa era a sua inimisade, e este aproveitou o ensejo, para lhe propôr a demissão do metropolitano de Sevilha. Não só conveio n'isto o timido monarcha, mas ordenou tambem a prisão do prelado. O marquez avisou do rescripto a sua victima, que passou logo para o bando dos descontentes!

Seguidamente intentavam os conjurados surprehender o rei em Madrid e apoderar-se d'elle. A vigilancia do conde de Ledesma frustrou a tentativa. Acudiram de outra vez a Segovia, quando o monarcha alli foi; compraram a camareira Maria Padilla, que velava junto do dormitorio, e pareceu-lhes ageitado o lance; mas baldou-se ainda o attrevido designio.

De Burgos dirigiram ao desditoso rei uma reprezentação, em que lhe diziam, com inqualificavel despejo, have-lo induzido o conde de Ledesma a fazer jurar por herdeira do throno D. Joanna, chamando-a princeza sem o ser; pois que não era sua filha bem o sabiam elle e o conde!

O rei tremeo ao lêr estas palavras. Afigurou-se-lhe conjurar todos os perigos, concertando o enlace de sua filha com o infante D. Affonso, e accedendo, a que Beltran de la Cueva renunciasse o mestrado de Samtiago, por que tanto suspirava o marquez de Vilhena.

Consentio, pois, em que fosse jurado herdeiro da corôa seu irmão, uma vez que casasse com a princeza D. Joanna; e o conde de Ledesma, por seu turno, entregou nas mãos do rei a sua demissão de mestre de Samtiago, não por se considerar indigno de exercer esse alto cargo, mas para em tudo servir D. Henrique. Em compensação foi elevado a duque de Albuquerque.

Tão alta mercê exasperou mais a protervia dos colligados, que logo ergueram em uma planicie, cerca dos muros da cidade de Avila, um cadafalso, sobre o qual collocaram uma cadeira, em que assentaram um manequim, figurando D. Henrique de sceptro na mão e corôa na cabeça. Leram muitas queixas contra o rei, e em seguida o arcebispo de Toledo tirou a corôa do boneco; o marquez de Vilhena, o sceptro; o conde de Plasencia, a espada; o mestre de Alcantara, o conde de Benavente e o de Paredes, os restantes ornatos da realeza; e todos arrojaram, a pontapés, do cadafalso abaixo o vulto desataviado!

O infante D. Affonso foi posto por elles no mesmo lugar, todos lhe beijaram a mão, e aclamaram rei de Castella e Leão.

Pobre creança, que não tinha a consciencia de ser n'aquelle acto um mero instrumento da villania dos turbulentos vassallos de seu irmão!

Em outros paizes menos familiarisados com as rebelliões, esta teria abalado profundamente a opinião publica; e, se não fôra a inepcia e covardia de Henrique IV, que era o desespero dos bravos, a parte sensata do reino teria feito estalar a sua indignação contra os conjurados.

Esse apparato theatral de Avila produziu um grande escandalo, sem dar um grande golpe, e logo depois mallogrou-o completamente a recepção enthusiastica, feita á princeza D. Joanna em Saragoça.

Começou o marquez de Vilhena por esta razão a nadar entre duas aguas, mostrando-se desejoso de dar conselhos ao rei; e, como o arcebispo de Toledo lhe lançasse em rosto esse procedimento, fingio-se doente, a ponto de receber o sagrado viatico, nomear aquelle prelado seu testamenteiro, e pedir-lhe, que fosse patrono de seus filhos. Deixou assim de arrogar-se, em seu entender, a responsabilidade de certos actos, e preparou novas alicantinas.

O irrequieto arcebispo foi pôr cerco a Simancas; mas do alto das muralhas da velha cidade os sitiados escarneceram-n'o, chamando-lhe D. Opas;--o que significava compara-lo com o typo mais repugnante dos homens conhecidos por traidores.

Outros grandes de Castella, embora pouco satisfeitos com a marcha dos negocios do Estado, acudiram ao serviço do rei, por comprehenderem que se ventilava um processo de honra publica; todavia não pudéram evitar, que Henrique IV caisse na fraqueza de tratar com os sublevados uma suspensão de armas por cinco mezes, dando azo a despedir-se das duas parcialidades gente, que foi infestar as povoações, a ponto de provocar a fundação das _Hermandades_, para perseguir os malfeitores.

Os povos passavam de um partido ao outro, com uma volubilidade sómente comparavel á dos magnates. Tudo era confusão no meio da cafila de potentados, cobiçosos de dar leis, e pouco amigos de sujeitar-se a ellas.

O arcebispo de Sevilha e o marquez de Vilhena offereceram ao rei os seus serviços, se elle consentisse, em que a infanta D. Isabel, sua irmã, casasse com D. Pedro Giron, irmão do marquez. Com a filha de Vilhena, D. Beatriz Pacheco, estava ajustado o casamento do principe D. Fernando, filho do rei de Aragão, que estimava esse enlace, o qual se não realizou por se oppôr tenazmente o almirante de Castella, avô materno do principe.

A infanta D. Isabel começou a seguir os rebeldes por toda a parte, sem fazer esforço algum de voltar para onde estava seu legitimo rei.

O legado pontificio fulminou sentença de excommunhão contra os nobres e senhores, que não prestassem desde logo obediencia á auctoridade real, deixando de impedir, seu livre e expedito exercicio; mas o arcebispo de Toledo, principal caudilho dos sediciosos, rio-se com elles do interdicto, dizendo, que appellariam para um concilio. E mandaram logo a Paulo II uma embaixada, participando-lhe, que tinham acclamado o infante D. Affonso rei de Castella e de Leão. O papa respondeo, que em vez de attrairem as bençãos do Céo sobre o infante, chamavam sobre elle os castigos eternos e a morte; e que com o seu exemplo a liga provocava todas as classes á desobediencia.

D. Affonso falleceo de repente, na tenra edade de quinze annos, e os conjurados offereceram a coroa á infanta D. Isabel, que a não aceitou, por não poder intitular-se rainha, em quanto seu irmão D. Henrique vivesse... Entretanto, porém, desejava ser jurada herdeira do throno, em competencia com D. Joanna, a quem chamou _supposta_ filha do monarcha.

Annuio D. Henrique a effectuar-se esse juramento, com a condição de sua irmã não casar sem elle o consentir. Sacrificou d'este modo a propria honra e a da rainha, sua mulher, sendo injustamente postergados os interesses da innocente infanta, sua filha.

Do juramento anteriormente feito a D. Joanna, foi absolvido o reino pelo legado pontificio, o qual não attendeo os protestos da rainha contra tudo quanto se accordou em opposição aos direitos de sua filha, porque havia recebido o encargo de apaziguar dois litigantes, e, sendo-lhe impossivel desatar um nó, julgou mais prudente corta-lo.

Agora todo o ardor dos turbulentos se concentrou na escolha de marido para D. Isabel.

O almirante de Castella queria, que a infanta se desposasse com o seu neto D. Fernando, para ter em Aragão um auxiliar poderoso; o marquez de Vilhena oppunha-se, não para obstar á união das duas corôas, senão para olhar pelo engrandecimento da propria casa, pois lhe haviam proposto antes o enlace d'aquelle principe com uma filha sua. De sorte que, ainda mal apagadas umas discordias, surgiam logo outras.

Era esta a politica dos magnates rebeldes. Convinha-lhes ter sempre a corôa sob a sua influencia, por isso eternisavam as parcialidades, buscavam em tudo elementos de perturbação, e a auctoridade real era incessantemente um joguete em suas mãos.

Podésse muito embóra a pusilanimidade de Henrique IV, ou a sua falta de previsão e dignidade no poder, fomentar o germen das sedições; nada d'isso, porém, as justificava: serviram unicamente de deixar na historia de um povo illustre uma pagina indecorosa.

O casamento de Fernando com Isabel foi para o pae d'esse principe uma nova campanha, que tratava de vencer, comprando a pêso de ouro os grandes de Castella.