Pero da Covilhan: Episodio Romantico do Seculo XV
Chapter 14
Maria Thereza cahiu de joelhos aos pés da rainha, e beijou-lhe as mãos, regando-lh'as de lagrimas. D. Leonor deixou resvalar por sobre a formosa cabeça da sua predilecta, as que lhe borbulharam dos olhos...
Eram duas almas diamantinas, que se confundiam em um crysol, formado do mesmo affecto finissimo.
Fôra a rainha D. Leonor encarregada do governo do reino, por carta patente de 24 de março de 1498, durante a ausencia do rei D. Manoel, que passára com sua mulher a Castella, a fim de serem jurados herdeiros d'esta monarchia; e logo, a 15 de agosto do mesmo anno, a piedosa regente instituiu a Misericordia de Lisboa. Não satisfeita com erigir esse monumento, que por si só bastaria para immortalisa-la, é infatigavel no caminho do bem, alumiada pelos esplendores da fé, e profundamente inspirada nos estremecimentos de amor, com que a sublime virtude da caridade commovia a sua alma a trasbordar de candura.
Creou albergarias em Obidos e Torres-Vedras, fundou o convento da Annunciada em Lisboa, e na mesma cidade o hospital de Sant'Anna, sobrando-lhe ainda tempo para dar protecção ás lettras e ás artes, pois á sua munificencia indefessa se deviam monumentos preciosos da nossa typographia, que tentava então os seus primeiros ensaios em Portugal.
Mas de todas as suas instituições religiosas a mais querida e por isso mais velada pela fundadora, foi o mosteiro da Madre de Deus, que D. Leonor mandou edificar em Xabregas, e que tantas preciosidades artisticas possuia.
N'elle professou Maria Thereza, preferindo aos mimos e regalos da côrte as asperezas da vida monastica, em ordem tão apertada, como aquella a que se votou.
Antes da profissão, pediu Maria Thereza á rainha, que fizesse chegar ás mãos de Pero da Covilhan a seguinte carta, da qual foi, com effeito, portador o P. Francisco Alvarez:
_Pero da Covilhan_
Sois um benemerito, Deus, que é remunerador, hade recompensar os vossos sacrificios.
Vou ámanhã professar. Vou ser clarista no mosteiro da Madre de Deus, fundado em Xabregas pela nossa Santa Rainha a Senhora D. Leonor. Na minha clausura, onde espéro servir melhor a Deus, do que se ficára no mundo, lembrar-me-hei sempre de vós nas minhas orações, e o Eterno Páe, a quem nada póde esconder-se, attender-me-ha, por ver a intenção pura, com que lh'as dirijo.
Elle vos acompanhe sempre!
Adeus.
_Maria Thereza._
Perto da sua querida pupilla residia a rainha no seu palacio em Xabregas, onde entregou a sua alma ao Creador; e no claustro do mosteiro, á porta da casa do capitulo, foram cobertos seus venerandissimos restos por uma singela lapide, na qual se lia unicamente;
AQUI ESTÁ A RAINHA D. LEONOR.
Que mais era preciso, para não esquecer o nome, de quem foi, toda a sua vida, exemplar inestimavel das mais peregrinas virtudes?!
As estatuas, ou os grandes monumentos sepulcraes, se quasi sempre testemunham a vaidade de quem os erige, nunca fazem esquecer os erros do glorificado.
O monumento da rainha D. Leonor está no coração dos povos de Portugal, que tantos beneficios teem recebido e continuam a receber das Misericordias.
As relações do nosso paiz com a Abyssinia estabeleceram-se definitivamente no seculo XVI, e conservaram-se até o seculo seguinte.
Affonso de Albuquerque, sendo governador da India, teve o grande pensamento de unir-se ao Préste, com o fim de divertir a corrente do Nilo, para a banda do mar Vermelho, junto da peninsula de Méroé, entre aquelle rio e o Atharah, abrindo um novo leito, e entulhando aquelle pelo qual descia para o Egypto. D'esse modo esterelizaria os campos egypcios, que eram os principaes graneis do sultão ottomano.
E Christovam da Gama, á frente de um punhado de bravos, partiu de Massuah a 9 de junho de 1541, e correu em soccorro do Préste, ameaçado pelo scheick de Zeila.
D'esse heróico filho de Vasco da Gama diz um historiador nosso: «era o primeiro, que tomava o fato ás costas, e com esta fragueirice e vontade acrescentava a dos outros soldados, para que trabalhassem dobrado sem o sentir.»
Foi desbaratado e morto pelos adversarios do Préste; mas os valentes portuguezes, que escaparam, tiveram pouco depois a gloria de vingar a morte do seu illustre capitão, derrotando completamente o inimigo.
Aureos tempos!...
Maria Thereza revelou a sua vasta illustração, publicando algumas obras em latim,[12] e sendo por isso aurora brilhantissima da renascença das lettras em Portugal.
Todas as tardes ia sentar-se a uma das janellas do mosteiro, e de lá contemplava o Tejo...
Quando voltavam as náus da India, perguntava talvez ao formoso rio, se com ellas teria vindo alguma saudade de Pero da Covilhan!...
E depois da morte de D. Leonor, quando retirava da janella, ia ajoelhar sobre a sepultura da rainha, orava alli, durante algum tempo, no maior recolhimento, e deixava a lapide orvalhada de lagrimas!...
NOTAS
A
PAG. 3.--«... _de encobrir com a mantilha um dos seus formosissimos olhos_». Como referimos no Cap. XI, o _tarbah_ das musulmanas serve-lhes de abáfo e tambem lhes véla o rosto, não deixando algumas vêr senão um dos olhos. É de presumir, que as andaluzas herdassem d'ellas este costume.
B
PAG. 26.--«..._a ponto de provocar a formação das Hermandades_». Estas confrarias politicas, instituição popular da edade media, excluiam por essencia o influxo da auctoridade real e serviam não só para manter a segurança publica, senão que velavam egualmente pela conservação dos fóros e liberdade dos povos e communidades que as formavam. Eram uma força importantissima, que os reis catholicos habilmente aproveitaram depois, fazendo depender do governo do Estado a disciplina e constituição d'ella. Organisando as capitanias e mais tropas da _Hermandad_, aquelles principes lográram ter um corpo permanente de exercito, prompto a conter em respeito o poder dos magnates. Foi um ensaio de milicia nacional, paga immediatamente pelos povos, e que muito contribuiu, para que a corôa se emancipasse da influição e dependencia da mais incommoda e turbulenta oligarchia.
Muito antes de conflicto do Toro já existia a «_santa hermandad_», e não foi «organisada contra as tropas portuguezas», que depois d'elle se limitavam a saquear as terras, a praticar actos de bandidos, como erradamente affirma o Sr. Oliveira Martins em _O Principe Perfeito_.
C
PAG. 33.--«_Não é d'este modo, que deve comprehender-se a missão da historia_». Clemencin, referindo-se aos historiadores e chronistas ácerca do silencio de uns e das diminutas noticias de outros, em assumpto de tanta monta, como a successão á corôa de Castella por morte de Henrique IV, diz: «o fallar tinha inconvenientes, e a relação inteira e veridica do succedido podia offender a pessoas auctorisadas e poderosas».
É evidente o corollario d'esta affirmativa tão imparcial, como sensata.
D
PAG. 47.--«... _o principe D. João casasse com a princesa de Castella, D. Joanna_». Zurita, que tão parcial se mostra na descripção do encontro de Toro, e tão affecto a D. Fernando, o Catholico, diz, que D. João II, sendo principe, muito desejou a entrada de D. Affonso V em Castella; mas «condemnou depois o máu conselho d'elle, em não haver acceitado os primeiros casamentos d'aquelle reino: que era casar el-rei com a Infante D. Isabel, e elle com a princeza D. Joanna». Zurita, Anales de Aragon, tom. IV, liv. XIX, cap. XVIII.
Em fins de 1463 ou principios de 1464, avistando-se em Gibraltar os reis D. Henrique e D. Affonso, trataram de casar D. Isabel com este Diogo de Clemencin, Mem. de la Real Acad. de la Hist., tom. VII.
E
PAG. 69.--«... _a bandeira real, que por instantes tremulara na mão de um castelhano_». O sr. Oliveira Martins em _O Principe Perfeito_ mostra, não dar crédito ao caso do escudeiro Gonçalo Pires haver, com effeito, recobrado o estandarte real, e affirma simplesmente, que Pedro Vaca o tomou. Ignorava de certo, que existe em Torre d'Eita, povoação pouco distante de Viseu, uma familia illustre, a qual representa legitimamente o seu antepassado Gonçalo Pires, por isso usa do brazão e appellido de Bandeira, concedidos a elle, como recompensa do seu brilhante e heroico feito de Toro.
É conseguintemente falso, que na veiga de Bisagra a multidão apinhada visse passar os reis catholicos em procissão, levando como tropheu o estandarte real portuguez a varrer as ruas.
F
PAG. 90.--«_D. Affonso V era muito instruido, e tinha grande predilecção pelos que cultivavam as lettras_». O sr. Oliveira Martins amesquinha com tão rematada injustiça o páe de D. João II, que dotando-o de um _genio incoherente e curto no alcance_, concede-lhe a primasia em organisar uma bibliotheca no paço, mas... unicamente _por seguir a móda_; e occulta o facto de ter sido o sympathico heróe de Arzilla o primeiro rei, que tratou, de que se escrevesse em lingua latina a historia portugueza.
Singular criterio!
G
PAG. 100.--«..._cortezãos dotados de bôas prendas_». Talvez o leitor compulsasse já um livro intitulado Viagem por Hespanha e Portugal no seculo XV, de Nicolaus von Popplau, cavalleiro da casa de Frederico III, imperador da Allemanha.
Nas poucas paginas consagradas ao nosso paiz, o auctor, que por cá andou nos ultimos mezes de 1484, capitula de incivis, de ignorantes e de insensatos tanto nobres, como plebeus. Considera os portuguezes, em geral, incapazes de bons costumes e sem bondade. Ás mulheres, dá-lhes os olhos negros e furiosos.
Nas taes paginas, porém, encontra-se a explicação do máu humor, com que foram escriptas. Relaxo, pois, ao meu despreso a estolida aldravice.
H
PAG. 154.--«..._depois de ter descoberto a costa do Labrador_». Quem primeiro tornou publico este facto, foi o illustrado e benemerito michaelense, sr. Ernesto do Canto, no _Archivo dos Açores_, vol. XII, pag. 529; e confirmou-o, exhibindo um documento no seu opusculo _Quem deu o nome á Terra do Labrador_.
Mais tarde o mesmo academico publicou outro documento comprovativo, que foi extrahido da Chancellaria de el-rei D. Manoel, e fornecido pelo indefesso investigador, o erudito general sr. Jacintho Ignacio de Brito Rebello.
I
PAG. 155.--«... _a quem a patria não fez ainda a devida justiça_». Em a _Noticia Preliminar_, que precede o _Esmeraldo de situ Orbis_, publicação dirigida pelo douto academico sr. Raphael Basto, para a commemoração do quarto centenario do descobrimento da America, mostra o sr. Basto, com trechos de uma carta de Pero Vaz de Caminha e do Roteiro de Duarte Pacheco, ser acertado, não attribuir a mero acaso o descobrimento da terra de _Vera Cruz_. Como temos, ha muito, esta opinião, folgámos de vêr, que para ella pende o sr. Raphael Basto, a cujas investigações persistentes e conscienciosas muito deve já a historia portugueza.
J
PAG. 155.--«... _da geração e linhagem dos Machados_». É digno de reparo que a familia Barcellos adoptasse o brazão, que lhe pertencia por linha materna, parecendo assim reputar de menos valia as flores de liz, que seus maiores, por linha paterna, ostentavam legitima e vaidosamente gravadas no seu escudo.
A varonia dos Pinheiros é, como a dos Machados, illustrissima, não só pela sua antiguidade, mas pela sua régia ascendencia. Sobre isto são accórdes todos os nossos genealogistas.
Se com os Machados se ligáram os Azevedos, os Cunhas, os Vasconcellos, os Silvas, os Castros, os Val de Reis, os Montebellos de Hespanha; com os Pinheiros aparentaram-se numerosas familias nobres, como os Alvitos, os Galveias, os Alcoforados, os Lacerdas, os Pereiras de Bretiandos; de modo que se diffundiu por quasi todas as mais antigas casas do reino o sangue das duas familias.
A preferencia pelo brazão dos Machados explica-se talvez, por serem estes mais opulentos na ilha, do que os Pinheiros, e todos os parentes d'aquelles procurariam contribuir, para perpetuar o nome, que muito os distinguia aos olhos de seus conterraneos. E tanto os Barcellos iam n'essa esteira, que nem os fez desviar d'ella a honrosissima carta, com que o rei D. Manoel premiou tão liberalmente os serviços do navegador Pedro de Barcellos. Não apreciáram até devidamente o valor particular d'essa mercê.
D. Manoel não quiz estimular apenas os descendentes do agraciado, e aquelles a quem constasse; era natural suppôr, que no animo do rei pesaria a circumstancia, de pertencer o filho de Pedro de Barcellos a uma familia, que tantos serviços prestára á casa de Bragança, e d'isto podia ser informado o monarcha pela rainha D. Leonor, sua irmã.
De certo não ignorava, e por isso não esquecia a viuva de D. João II, que Pedro Esteves, avô de Pedro de Barcellos, se creára no paço de D. Affonso, primeiro duque de Bragança, e d'alli fôra a Salamanca estudar direito civil e canonico na Universidade, onde o graduaram de doutor _in utroque_. Voltando para Portugal, tornou-se notavel pelo seu grande entendimento, summa prudencia, bom conselho, profundo conhecimento das lettras, e as suas muitas virtudes e qualidades o fizeram conciliar os affectos de todos os principes do seu tempo.
Era cavalleiro da casa de el-rei D. Duarte, e nenhum negocio da de Bragança se tratava, sem que elle fosse ouvido, mostrando-se sempre tão imparcial e recto em seus conselhos, que o infante D. Pedro, quando regente, o chamou para seu lado.
Seu páe, Estevam Annes, _o Môço_, fôra educado na casa do condestavel D. Nun'Alvares Pereira, seu parente, e acompanhou, desde muito novo, em todas as grandes e famosas emprezas o glorioso vencedor da batalha dos Atoleiros.
Mas, para maior lustre e gloria dos Barcellos, o navegador Pedro Pinheiro de Barcellos, ou Pedro de Barcellos, como officialmente o denomina a carta de D. Manoel, foi bisavô do Beato João Baptista Machado, que, renunciando o morgado e casa de seus páes, entrou na Companhia de Jesus, e foi martyrisado no Japão em 22 de maio de 1617.
O representante legitimo d'esta familia Barcellos, da ilha Terceira, é o antigo fidalgo sr. Francisco de Paula de Barcellos Machado Bettencourt. D'este e de sua mulher e prima, já fallecida, a sr.ª D. Maria Isabel Borges do Canto, era filha D. Francisca Emilia de Barcellos e Canto Bettencourt do Carvalhal Brandão, raro modêlo de virtudes, alliadas a uma intelligencia e a uma illustração sãs, que se lhe serviram de ornamento proprio, tambem contribuiram, para honrar mais ainda a sua estirpe nobilissima.--Foi a mãe, sobre todas carinhosa e desvelada, de meus filhos.
Fica assim patente a razão, por que Pedro de Barcellos apparece na côrte de D. João II, e justifica-se o tratamento de primo, que Maria Thereza lhe deu, não para desdenhar os seus requebros, mas para congelar-lhe os enthusiasmos.
ERRATA
PAG. LIN. ONDE SE LÊ LEIA-SE
3 27 pessue possue
51 14 _couto_ _conto_
100 4 _vasallos_ _vassallos_
103 2 ineperada inesperada
113 9 Torentino Florentino
121 30 pratimonio patrimonio
Nas pag. . Tóro Toro
[1] Canc. Gen.
[2] Canc. Gen.
[3] Hist.
[4] Camões.
[5] Ruy de Pina.
[6] Ruy de Pina.
[7] Canc. ger.
[8] Misc., Garcia de Rezende.
[9] Historico.
[10] Historico.
[11] Historico.
[12] Historico.
Notas de transcrição:
O livro impresso continha no seu final, uma errata à impressão. Os erros apresentados nessa errata, assim como pequenas gafes detectadas durante a transcrição, e que não afectam o significado do texto, foram corrigidos nesta edição electrónica. Não foram deixadas marcas das correcções aplicadas.