Pero da Covilhan: Episodio Romantico do Seculo XV
Chapter 12
A côrte compunha-se do _Bellátimoche goytá_, mordomo-mór; do _Tecácase Bellátimoche-goytá_, pequeno mordomo-mór; dos dois _Betendet_, os validos do imperador; do _Titaurári_, que fazia o officio de marechal; e outros dignitarios de menor categoria. Além d'isso frequentava diariamente a tenda imperial o _Abima_, que quer dizer páe, e era o metropolitano da egreja ethiopica, enviado pelo patriarcha Kopta da Alexandria. A esse bispo, unico da Abyssinia, devia obediencia, mas tinha grande auctoridade, o _étch'égé_, prelado do numeroso clero regular, e officialmente prior do convento de Debra-Libanos, em Chôa, fundado pelo _abima_ Tekla Haimanot. Logo abaixo, senão quasi a par do _abima_, havia o _Labeata_, padre de nomeação imperial. Junto do soberano funccionavam os _Azages_ e _Umbares_, dezembargadores e ouvidores do imperio, sem escrivães, nem tabelliães, por serem verbalmente averiguadas e julgadas na presença das partes todas as suas demandas, e do mesmo modo proferidas as sentenças. Não havia as papelladas de nossos autos, a que B. Telles chama pégo immenso de trapaças.
O livro da lei, _Fitha Negoust_, compunha-se de textos mal traduzidos do codigo Justiniano, amalgamados com prescripções religiosas. Antes de serem ouvidas as testemunhas, iam á porta principal da egreja, prestar juramento na presença de dois clerigos, que tinham ahi incenso e brazas. A pessoa que jurava, punha as mãos na porta, e um dos clerigos dizia-lhe: «falla verdade, e se jurares falso, assim como o leão traga a presa no bosque, assim seja tua alma tragada do diabo; e assim como o trigo é quebrado entre as pedras, assim os teus olhos sejam moidos dos diabos; e assim como o fôgo queima a lenha, assim a tua alma seja queimada no fogo do inferno e feita pó; e se verdade disseres, a tua vida seja alongada com honra, e a tua alma góze do paraizo com os bemaventurados». A cada uma d'estas maldições e bençãos respondia o que jurava: amen.
O povo era de pouca verdade, ainda que jurasse, a não ser, que fizesse o juramento pela cabeça do imperador, ou que fosse ameaçado da excommunhão, que sobre tudo temia.
As tendas do imperador, á excepção da rôxa, que sómente armavam nos dias festivos e para as grandes recepções, eram brancas e cercadas por umas cortinas de algodão preto e branco em xadrez, as quaes formavam como que um muro, e em volta giravam muitas sentinellas.
Quando o acampamento mudava de local, iam á distancia de um tiro de bésta, na frente da comitiva imperial, os quatro leões, dois a dois, com gargalheiras de ferro, a cada uma das quaes prendiam symetricamente quatro cadeias do mesmo metal, um pouco compridas. Tiravam-n'as dezeseis homens, quatro por cadeia; sendo oito adeante e oito atraz do leão, de modo que este podia andar unicamente na direcção dos homens que o antecediam.
Em seguida caminhavam os cem homens com azorragues, e, dando em vão com a comprida correia presa ao pequeno cabo do açoite, ouvia-se um forte estalido, que fazia afastar a gente.
Após estes marchavam na cadencia de passo accelerado, setenta porteiros de maça, vestidos uniformemente, com camisa e calção de seda, apertado por um cinto do mesmo tecido, cujas pontas chegavam ao chão; aos hombros uma pelle de leão, e sobre esta um collar de ouro mal lavrado, tendo engastada muita pedraria falsa.
O altar, em que diziam missa ao Préste, e a pedra de ara, eram levados por clerigos nos braços, indo adeante um diacono, tangendo uma campainha.
O _Titaurári_ escolhia o lugar do arraial, assignalando com uma lança cravada no terreno o centro da área, que deviam occupar as tendas imperiaes. Detraz d'aquella, em que dormia o soberano, á distancia de um tiro de bésta, ficava a da cozinha, da qual levavam a comida em tijellas e panellas de barro preto mui fino, postas em bandejas conduzidas por pagens, e tudo debaixo de um pallio.
Pouco afastada das tendas do imperador era a da egreja, e na frente d'aquellas as dos tribunaes, seguindo-se em circuito as do pessoal da côrte. Nas restantes, assentadas e arruadas por sua ordem, alojavam-se mais de duzentas mil pessoas, bem como cavallos e mulas, em numero superior a cem mil; tudo como se fôra uma cidade populosa, onde não faltava, o que para uma povoação em taes condições se tornava mister.
As costas de todas as tendas eram para o oriente, e as portas para o poente.
As pessoas pobres dormiam sobre o seu _Neté_, que era um coiro de boi, extendido no chão, e que lhes servia tanto de cama como de lençol. Como cobertor empregavam a sua capa, que podia ser de panno branco, ou simplesmente uma pelle de carneiro, leão ou tigre.
Assim como o arabe não larga o turbante, o abexim nunca se separava voluntariamente da capa. Quando se dava até o caso de ser preso por haver commettido algum delicto, o encarregado de o levar á presença do juiz, para evitar que se evadisse, apenas tomava a precaução de atar á sua a capa do captivo; se este fugisse, abandonando a capa, reconhecia-se implicitamente culpado, e, logo que tornasse a ser preso, puniam-n'o sem julgamento prévio.
Muitos dos mais abastados possuiam catres precintados de correias, sobre as quaes extendiam o coiro de boi, e os cobertores eram duas colchas de seda. O travesseiro consistia em uma forquilha de páu, chamada _bercutá_, onde não recostavam a cabeça, porque esta ficava em vão, mas o pescôço, para não amachucarem os cabellos, que traziam sempre muito enfeitados.
Como os senhores se assentavam ordinariamente sobre alcatifas, e os mais sobre esteiras, as mezas, onde comiam, eram muito baixas, de fórma redonda, e não havia toalhas nem guardanapos. Limpavam-se ás _ápas_, espécie de pão de varias farinhas, em que entravam a do _teraux_ e a do _cousio_, e que tambem lhes servia de alimento.
Sobre as _ápas_ collocavam as iguarias, sem outros pratos; mas, vindo estas com môlho, eram servidas, com as indispensaveis papas, em tigellas de barro preto, as quaes cobriam com umas tampas conicas de palha fina, chamadas _escambiás_.
Assavam a carne sobre as brazas, e, quando comiam crua a de vacca, embebiam-n'a com fel da mesma rez. Chamavam _berindó_ a este amargo manjar, um dos mais delicados da sua mesa.
Tinham para bebida nacional, de que sómente usavam depois das refeições, o hydromel; que constava de cinco ou seis partes de agua, uma de mel, e uma porção de cevada torrada, que fazia ferver a mistura, lançando-se depois n'esta uns pedaços de páu, denominado _sardó_, que em cinco ou seis dias de infusão modificava a doçura do mel.
Para a meza do imperador, transportava-se o hydromel, por occasião das mudanças de arraial, em cem jarras pretas de seis canadas cada uma, tapadas com barro e selladas, e denominavam-se _gombos_. Os portadores d'ellas iam escoltados por muitos homens d'armas.
Como abundava por toda a parte o mel e a cêra, d'esta faziam vellas, com que se allumiavam, e preferiam aquelle ao assucar, por isso unicamente se serviam da canna para alimento.
Á excepção de pepinos, melões e rabanos, que se não davam em parte alguma do territorio abyssinio, havia todas as fructas e legumes conhecidos, sendo escassa a producção de hortaliças.
Além de grandes creações de vaccas, ovelhas e cabras, era extraordinaria a quantidade e variedade das aves, sem faltarem as codornizes, as rôlas, os patos bravos, os tordos, as andorinhas, os rouxinóes e as gallinhas do mato. As perdizes, de tres castas: umas, como grandes capões, da mesma côr e feição das nossas, salvo terem os pés e bicos amarellos; outras, corpulentas como gallinhas, com os pés e bicos vermelhos; e as restantes, do tamanho das nossas, differindo d'ellas sómente na côr pardacenta dos bicos e pés.
Appareciam tambem coelhos e lebres.
Tirante o arraial do imperador, nenhuma povoação merecia o nome de cidade, nem de villa. Tudo eram aldeias maiores ou menores, em geral abertas; e unicamente cercadas de uma parede ensôssa, as que ficavam fronteiras dos gallas, os mais temiveis inimigos dos abexins, pois com perpetuas correrias lhes assolavam os campos, e nem semeal-os deixavam.
Algumas das maiores povoações, declaradas inviolaveis, serviam de refugio. Respeitadas por todos os partidos nas guerras civis, tinham o nome de _gueddam_ e seus governadores o de _alikas_.
A situação das aldeias era, ou nos extremos das planicies, ou nos cumes de algumas montanhas. As casas, commummente redondas e terreas, com as paredes formadas de estacas muito juntas, e cobertas de palha, ou com açoteas em vez de telhado. As dos mais ricos differiam um pouco, por terem as paredes de pedra ligada com argamassa, e o vigamento do tecto ser de aguieiros de cedro tão unidos, que serviam de forro, effectuando-se essa união por meio de cordões de varias côres, que produziam bello effeito. Em terreno fechado com cêrca de pedra ensôssa até á altura de seis ou sete palmos, e d'ahi para cima com sébe muito bem tapada, feita de ramos de arbustos espinhosos, que davam flôres muito delicadas, oito ou mais d'aquellas casas constituiam a vivenda muito aprazivel dos senhores.
Os abyssinios provêem de uma mistura de povos diversos, por isso os orientaes lhes chamam _hobesch_. Raça esbelta, elegante e vigorosa, de rosto oval, nariz adunco, muitas vezes bem talhado, bôca rarissimamente guarnecida de labios grossos, cabello mal encrespado, a pelle mais ou menos aspera, não molle e assetinada, como a da raça negra; corre-lhes nas veias sangue do egypcio antigo, do bérbere, no sentido mais lato d'esta palavra, do _foulah_ ou _peulh_--raça vermelha, do arabe e do africano puro. N'esta mistura dominam successivamente, segundo as regiões, os typos secundarios mais proximos, _bedjas_, _somali_, _galla_ e o syro-arabe, por isso, além do preto, a côr da pelle varia muito, encontrando-se o moreno em todos os tons, e até o branco; este, porém, exangue e sem graça.
Eram os abexins boa gente de guerra, excellentes cavalleiros, creados e curtidos nos trabalhos, soffredores da fome e da sêde. A vida, dos que se não occupavam nos labores agricolas, era a guerra. N'esta se creavam de pequenos, e n'esta envelheciam. Mui simples o seu uniforme. Um calção leve, e pouco largo, de algodão, seguro por uma faxa do mesmo panno enrolada á cintura. Uma capa de egual tecido mais encorpado, e sobre ella uma pelle de panthéra negra ou de leão. Calçavam alparcatas, e andavam nús de braços e pernas, pois o calção mal cobria estas até ao joelho.
Em geral a plebe não usava calçado, e o seu vestuario reduzia-se a umas bragas de algodão e uma capa, que podia ser uma pelle ou um largo panno tambem de algodão.
Muitos abexins vestiam calções mouriscos, que desciam recramados até ao artelho, onde os apertavam, sendo de damasco ou velludo do joelho para baixo, e d'alli para cima, como ficavam cobertos pela cabaya, faziam-n'os de teada. Os calções dos grandes da côrte ajustavam-se ás pernas, e as cabayas, como as dos baneanes, abertas até á cinta, eram abotoadas com botões miudos. Em um collarinho cozido a umas mangas estreitas e compridas, a ponto de recramarem, tudo feito de bofetás de Cambaya ou de um fustão azulado da mesma proveniencia, consistia a camisa, ou antes o simulacro d'ella. Alguns substituiam aquelles tecidos por tafetá ou setim, e, quando vestiam cabayas turquescas de velludo, ou de brocadilho de Mecca, não se cobriam com capa, que era de panno fino da terra ou de bofetá.
Quando vinha de suas terras um nobre, chamado á côrte pelo Préste, emquanto andava nú da cinta para cima, e sómente com uma pelle sobre os hombros, _ainda não estava na graça do Senhor_; mas logo que fallasse com o Préste, e saisse da sua tenda vestido, _já estava na graça do Senhor_.
Todos andavam em cabello, que deixavam crescer, para fazerem penteados caprichosos. As mulheres encaracolavam algum, com o qual emmoldoravam graciosamente o rosto, e usavam solto o restante, que lhe cahia fartamente sobre os hombros.
O armamento da milicia compunha-se de uma rodella de pélle de bufalo; dois zargunchos: um estreito para o arremesso nos primeiros encontros, outro largo, com que esgrimiam na lucta; maças de páu duro e pesado, denominadas _bolotás_; punhaes, que tambem serviam de arma de arremesso; e lanças curtas para os cavalleiros, os quaes igualmente faziam tiros com zargunchos estreitos, como se foram dardos.
Os mais nobres cingiam espada--de que raras vezes se serviam--com empunhadura dourada ou de prata, e bainha de velludo ou de outra sêda. Alguns traziam tambem adaga.
Os cavalleiros com sáia de malha--que poucos eram--não se curavam de rodella, porque os embaraçava, e usavam de capacete.
Sem ordem alguma de formatura, as batalhas começavam e acabavam no primeiro choque, fugindo uns, e seguindo os outros a victoria.
Para a guerra iam os cavalleiros montados em mulas, muito mansas, grandes e bem feitas, e levavam os cavallos á dextra, porque estes, como não tinham ferraduras, depréssa ficavam despeados. Os homens, descalços mettiam nos estribos sómente o dedo pollegar de cada pé.
Além da gente de armas, era muita mais a que seguia o arraial e a bagagem d'elle. Iam familias inteiras, e eram necessarias muitas mulheres, para fazerem as _ápas_ e o hydromel. Muitos não levavam matalotagem, e, quando se acabava a dos outros, não pediam todos elles mantimentos aos camponezes, por cujas habitações passavam, mas invadiam estas e roubavam-n'as com uma furia verdadeiramente selvagem.
Como não corria moeda no paiz, nem o Préste a mandava cunhar, as compras effectuavam-se por troca de ladrilhos de sal gemma, chamados _amalé_, cortados a machado em perpetuos e inexhaustos jazigos.
Sem embargo de haver no paiz abundante minerio de ouro, prata, cobre e estanho, os habitantes não sabiam proceder á extracção d'esses metaes, e aproveitavam-se unicamente d'aquelles, que as chuvas descobriam nas regueiras com a corrente das aguas.
A carencia absoluta de salinas, e o desconhecimento completo da metallurgia, explicam talvez, por que aos abexins servia de moeda o sal gemma; e, como a natureza lhes prodigalizava quanto precisavam para trocar pelos productos importados de outros paizes, prescindiam ou não sentiam falta da moeda.
A egreja, outros edificios, e o grande numero de altos obeliscos, em Aquaxumo, denotavam a existencia de uma antiga civilisação mais adeantada.
Junto de um immenso _daro_ elevava-se o templo christão, que era de formosa fabrica de cantaria bem lavrada, com cinco largas naves, todas abobadadas, sete capellas, côro alto, abobadado ao modo dos nossos, e denominava-se egreja de Santa Maria de Syon.
Nos obeliscos, cada um dos quaes de uma só pedra granitica, não se viam hieroglyphos, como em todos os dos egypcios, mas cobriam as suas quatro faces esculturas, que revelavam um cinzel grego.
N'este lugar de Aquaxumo, conforme a tradição dos abexins, fundou-se a christandade da Ethiopia Oriental, e gloriavam-se elles muito de serem os primeiros christãos, que no mundo houve, e de que n'elles se cumprira a prophecia de David.
Sem embargo de tão respeitaveis preeminencias, innumeros eram os erros da sua religião, cheia de superstições grosseiras, e fortemente impregnada de judaismo, com traços de budhismo.
Além de muitos conventos de religiosos, por todo o imperio havia numerosas egrejas, todas com grandes rendas, de que seus ministros viviam.
Em geral, as egrejas, architectonicamente consideradas, estavam de harmonia com as habitações. Situadas em lugares altos, á sombra de copadas arvores, e sómente por excepção em subterraneos, tinham muitas a fórma circular, e as suas portas nos quatro pontos cardinaes. Reconhecia-se facilmente, que não deixaram discipulos os artistas, que trabalharam nos monumentos de Aquaxumo, e ainda outros lugares, sendo attribuidas aos egypcios todas essas obras.
Tinham as egrejas duas cortinas: uma encobria o altar, e d'ella para dentro sómente passavam os sacerdotes; a outra, a meio do templo, limitava o espaço comprehendido entre ambas, reservado para assistirem de lá aos officios divinos o imperador e mais pessoas gradas. Ao povo era defeso entrar na egreja. Ficava á porta fronteira do altar a ouvir missa, e o celebrante não só d'alli lhe ministrava a communhão, que todos os fieis, antes de começar o santo sacrificio, deviam receber, senão tambem lhes lia as epistolas e evangelhos em gheez, que era a lingua lithurgica.
O imperador e os grandes tomavam as ordens de diacono, para poderem ser admittidos no interior dos templos, e haviam de descalçar-se antes do ingresso. Por tal motivo o imperador trazia na mão uma pequena cruz, não como sceptro ou insignia do imperio, senão em signal de ser diacono. De sceptro nunca elle usava, corôa tambem a não punha, nem sahia de cruz alçada, como erradamente se affirmava.
Os frades eram celibatarios, não os clerigos; e até os filhos dos conegos tinham o privilegio de pertencerem á collegiada dos páes.
O matrimonio, porém, não se considerava sacramento, e toda a gente o contrahia com o tacito ou expresso consentimento de se poderem apartar os conjuges, tomando estes logo para isso fiadores, e assim evitavam o espectaculo nada edificante, e as mais das vezes asqueroso, das causas de divorcio.
As cruzes não tinham a imagem de Christo, porque os abexins se julgavam indignos de ver o Redemptor crucificado. Tambem se não mostrava ao povo a hostia consagrada. O vinho para a missa era feito de summo de passas de uvas, deitadas de molho em agua, durante dez ou doze dias, enxugavam-as depois, pisavam-as e expremiam-n'as em um panno. Para a celebração da missa, as vestimentas consistiam em umas como que grandes camisas brancas, na estola furada pelo meio e mettida pela cabeça, e não usavam de manipulo, amicto, nem cordão para se cingirem. Os frades celebravam com o capello na cabeça, e todo o clero a trazia rapada, deixando, porém, crescer as barbas.
Tinham os abexins tanta reverencia pelas egrejas, que nenhum passava a cavallo por deante das portas d'ellas. Apeavam-se, e só tornavam a montar, quando iam já distantes.
A veneração geral tributada á Egreja e cousas d'ella, contribuia, para ser muito poderosa a influencia do clero no governo do Estado, por isso o soberano não podia considerar-se completamente absoluto.
E havia uma hierarchia ecclesiastica bem organisada: arcyprestes--_komosats_; conegos--_debterats_; curas--_kasis_; vigarios--_nefk-kasis_; diaconos--_diakons_; e sub-diaconos--_nefk-diakons_.
Pero da Covilhan, cuja illustração e talento o elevavam muito acima do nivel moral do povo inculto, no meio do qual se via obrigado a viver, tornou-se dentro em pouco o apoio precioso dos principes, que se succediam no throno. Com repetidas instancias pedia ao imperador Alexandre lhe désse seu despacho, e a resposta ás cartas de D. João II; mas o Préste, respondendo sempre, que o mandaria á sua terra com muita honra, ia dilatando o cumprimento da promessa. E, dizendo mais, que não podia por emquanto prescindir da sua companhia, prezenteou Pero da Covilhan com uma vivenda principesca, vastas campinas e florestas, cavallos, mulas e gados, grande numero de vassallos, um senhorio immenso emfim.
A imperial munificencia pôz o nosso explorador na desconfiança, de que o soberano abexim procurava tenta-lo com benesses e regalias de grande senhor, e distrahi-lo do proposito de voltar á patria.
Tomou Pero da Covilhan pósse de seus dominios, mais por mostrar-se obediente ás deliberações imperiaes, do que pelo prazer de goza-los. Como, porém, tinha de viver na côrte, confiou ao cuidado de feitores a importante administração da sua casa.
Quantas vezes embrenhado em um bosque, deixando-se perder na obscuridade d'elle, parava a ouvir os ruidos profundos e melancolicos do espesso arvoredo, dos grandes seres insensiveis que o cercavam!...
Não eram accentuações distinctas; mas um murmurio confuso, como o de um povo, que celebra ao longe uma festa por acclamações, ou o de uma grande cidade tambem distante!...
E, quando á linguagem mysteriosa da floresta se unia o gorgeio magico do rouxinol, que do seu ninho endereçava saudações maviosas e votos reconhecidos ao Eterno, Pero da Covilhan abandonava a sua alma commovida ás gratissimas recordações da patria, e confiava aos inanimados companheiros da sua solidão os segredos ineffaveis do seu amor a Maria Thereza, engrandecido pelos desejos ardentes de a vêr!...
Que momentos de infinda saudade não seriam aquelles!...
A occiosidade repugnava ao espirito de Pero da Covilhan, e, como se via a miude consultado pelo imperador Alexandre sobre os negocios publicos, tratou de estudar a fundo os costumes e a historia do paiz.
Nos archivos dos conventos encontrou uma rica litteratura escripta em gheez, a par de missaes illuminados e coloridos com arte, mas sem desenho quasi e sem perspectiva.
Aquella lingua conservava já algumas fórmas archaicas. Dirivava-se o alfabeto ethiopico do das inscripções himyariticas, ás quaes os missionarios budhistas juntaram certo numero de signaes diacriticos para indicar as vogaes. Era uma influencia estrangeira, igualmente devida á intervenção da escriptura, que outr'ora ia da direita para a esquerda, ou de cima para baixo, como a maior parte das semiticas, e que tomou a direcção da grega, da esquerda para a direita.
O gheez foi substituido pelo tigreano, dialecto derivado mais proximo; e o amharico, mais afastado do arabe, com o seu vocabulario em grande parte tirado do gheez, tornou-se a lingua official, mas tendo a grammatica do agaou, tão aparentado com o egypcio antigo.
Não tardou, que Pero da Covilhan conhecesse melhor os monumentos litterarios dos abexins, do que o proprio clero e naturaes da terra, mas não fazia d'isso alardo, porque não tinha o irrisorio despejo dos pedantes. Todos lhe reconheciam a superioridade, sem elle a impôr; e a sua prudencia, a sua modestia, o seu respeito emfim ao soberano, ás leis e aos costumes do paiz, conquistaram-lhe tamanha estima, tal ascendencia no animo de toda a gente, que nobres e plebeus á porfia procuravam conhecer e servir o _novo senhor_. O seu procedimento, porém, tão regrado, de tão salutar exemplo para aquelles povos semi-civilisados concorreu, para que o Préste se lhe affeiçoasse ao ponto de dizer-lhe um dia: «Não posso dispensar-vos. Casai, e quando tiverdes filho ou filha, que nos deixeis em penhor, mandar-vos-ei com nossas cartas a Portugal. Quem nos vem buscar, mister nos ha; não é razão, que se retirem, nem nós os deixamos ir. E não vos agasteis, porque tendes em nós um amigo.»
Pero da Covilhan, a quem este discurso tão claro, quanto conciso, feriu profundamente no coração, apenas respondeu com imperturbavel serenidade: «Obedeço ás vossas determinações, pois para isso fui mandado á vossa presença pelo meu rei e senhor; e farei a diligencia por corresponder á vossa amisade.»
Não quiz evadir-se, podendo faze-lo. Mediu bem as consequencias d'esse passo. Preferiu, pois, tomar o partido, a que a necessidade o obrigava, tratou de casar-se, e não pensou mais, d'alli em diante, senão em que havia de acabar os seus dias n'aquelle captiveiro. Mandou dois homens seus, que se encorporassem nas caravanas do Egypto, fossem ao Cairo, e d'aqui trabalhassem por passar a Portugal, a fim de levarem a D. João II umas cartas, que lhes entregou.
Foi o Préste, quem escolheu a noiva de Pero da Covilhan. Muitas o queriam; mas coube a sorte a uma formosa morena de sangue real, chamada Helena. No dia do noivado receberam os conjuges riquissimos prezentes do imperador, mórmente sêdas da India, colchas da China, e arreios de cavallos.