Pero da Covilhan: Episodio Romantico do Seculo XV

Chapter 11

Chapter 113,754 wordsPublic domain

No segundo dia punha-se em marcha, atravessava _Elmeschar-el-haram_--o lugar consagrado, dobrava rapidamente, e em confusão enorme, o apertado valle _Onadi-monhassar_--o valle maldito, e chegava de novo a Miná. Atiravam todos para traz das costas, junto do _Djamrat-el-Agabé_, sete pedras do tamanho de uma ervilha cada uma, em signal de despreso pelo demonio, e gritando antes do arremesso: _Bismillah!_--Em nome de Deus!

Os sete seixinhos, que tomavam o nome de _Hassiato-Aljemar_, eram expressamente apanhados em Monzdelifat.

Depois de todas essas ceremonias podia cada peregrino sacrificar a victima, que trouxesse.

A caravana regressava a Mecca para visitar a _kaaba_, fazia nova romaria a Miná, e tratava logo de sair da cidade _santa_, antes de commetter algum peccado; mas não partia, sem voltar pela terceira e ultima vez á _kaaba_, a fim de celebrar os _Thonaf-wida_--procissões da despedida; ao pôço de Zemzem onde bebia agua e de onde trazia alguma, como piedosa recordação; e retirava-se finalmente pela porta do adeus--_Bab-el-wida_.

Mecca extendia-se em um largo valle, ou, melhor, sobre o sólo deseccado de um _uâdi_, que se inclinava suavemente do norte ao sul, e por onde raro corriam as aguas das chuvas, mas produziam ás vezes grandes inundações, indo depois perder-se nas areias, sem chegarem ao mar.

As montanhas escalvadas e tristes, que lhe ficavam a cavalleiro, lembravam sentinellas sombrias e mal ataviadas, a cuja guarda estavam confiados, por singular contraste, os thezouros da graça, que vão alli procurar os sectarios do islamismo. As suas ruas não eram, como em geral as das outras cidades arabes, estreitas e tortuosas, mas sim largas e traçadas com certa regularidade, ladeando-as casaria alta, construida de granito vulgar dos montes suburbanos, o que lhe imprimia um aspecto monotono.

Era abundante de agua, e a melhor para o consumo geral vinha dos tanques, cisternas e póços de Arafat, por um aqueducto, attribuido á bella sultana Zabaida, predilecta do principe dos crentes, o famoso califa Harun-al-Raschid.

Durante as peregrinações era a patria de Mahomet um centro de commercio muito rico, e de certo o mais variado de todo o Oriente, pois que em seus bazares accumulavam-se as producções de todos os paizes sujeitos á lei do propheta, e faziam-se negocios importantes.

No mercado diario, sempre fornecido de pão, fructas, hortaliças, legumes e carne, encontrou Pero da Covilhan rapazinhos orfãos, e desvalidos, que, mediante uma paga certa de pequenas moedas de cobre, denominadas _foluzes_, e do valor de quatro a seis ceitis cada uma, conduziam em duas alcôfas de differente tamanho, chamadas _Magtalá_, as compras feitas pelas pessoas, que quizessem utilisar-se d'esse serviço.

O pão não se assimilhava ao nosso. Com farinha diluida em agua sem fermento, e algumas vezes com pouquissimo, preparavam uns bolos mal cosidos e molles, como pasta, a que chamavam _hops_.

De alguns valles distantes vinham fructas e hortaliças; mas o que verdadeiramente abastecia o mercado era o porto de Djiddah.

Como a Pero da Covilhan parecesse extraordinaria a venda de pós aromaticos, mórmente nas immediações da mesquita, investigou a causa d'esse facto, e soube, que por costume andavam os meccanos sempre perfumados; mas nos mezes da peregrinação chegavam a fazer tão extraordinario uso dos perfumes, que muitas mulheres se privavam até de parte do seu alimento para compra-los, e, quando ellas vistosamente ornadas íam girar ao redor da _kaaba_, o aroma expirado por seus vestidos predominava de tal modo sob as arcadas da mesquita, que muito tempo depois de retirarem, permanecia alli o seu vestigio fragrantissimo.

Não menos interessante era o cuidado, com que as musulmanas se pintavam. A muitas d'ellas não satisfazia a côr natural dos seus cabellos, por isso os tingiam, velhas e moças, com o _kohl_, que do mesmo modo empregavam nas pestanas, bem como nas sobrancelhas, que não só ennegreciam, mas ampleavam e arqueavam graciosamente. Com a mesma tintura, applicada ás palpebras, esbatiam os olhos formosissimos; sem embargo, porém, d'esta affectação, consideravam o _kohl_ um verdadeiro collyrio, e um remedio soberano contra as ophtalmias tão frequentes n'aquelles climas. Faziam signaes pretos na cara e nas mãos com um certo pó, que introduziam na pelle por meio de uma agulha despolida de ferro ou de prata; e ás mãos e pés davam uma côr rubro-alaranjada, servindo-se para isso de uma erva denominada _elhene_.

As pedras mais ou menos preciosas eram para as mulheres de todas as classes um amuleto, e talvez secundariamente um enfeite. Formavam como que uma pharmacopea talismanica muito curiosa e muito extensa.

Os trajos, posto que não fossem identicos em todas as partes da Africa, do Egypto, da Syria e Arabia, tinham na sua pequena variedade de fórmas uma grande similhança, ficando sempre reduzidos a uma especie de tunica e capa--o que sómente bastaria, á falta de outras provas, para demonstrar quão poderosa é a força das tradições na raça arabe.

As variantes do vestuario repetidas, no mesmo seculo, por outros povos, são o symptoma da mobilidade das suas idéas, e dos caprichos alternativos do seu gosto.

O trajo das mulheres apresentava alguma variedade unicamente nas classes abastadas. Nas outras classes, que são ainda hoje as mais numerosas, compunha-se geralmente de uma larga tunica--_farmla_, atada na cintura com o _samla_ ou _foutah_, e um véo--_tarbah_, que cobria a cabeça e quasi todo o semblante.

Em algumas regiões a tunica era singelissima, sem signal de corpete nem de espartilho, artificios desconhecidos no Oriente, e cuja falta não sacrificava o pórte altivo e magestoso das mulheres das margens do Nilo, por exemplo, as quaes recordavam na sua elegancia, no seu peito saliente e nos hombros desempenados, as deusas da Grecia antiga.

Algumas mulheres deixavam vêr os olhos, e uma parte da testa; outras sómente um dos olhos; e ainda em outras o mysterio era absoluto, por isso pareciam verdadeiras estatuas ambulantes. Em compensação havia formosas musulmanas, que, muito embóra usassem a capa até aos pés, deixavam ás vezes cair artificiosamente o véo, regalando os olhos de quem as via.

Pero da Covilhan reprezentava um papel muito difficil; pois não podia esquecer-se, de que era christão, e, ao mesmo tempo, de que não deviam sequér desconfiar de tal aquelles que o rodeavam.

Quando ao apontar da aurora o muezzino, do alto de um minarete da mesquita, gritava: «vinde á oração, vinde ao templo da salvação; a oração deve ser preferida ao somno!» Pero da Covilhan extendia o seu tapete, sobre o qual ajoelhava voltado para a mesquita, e, fechando os olhos, fitava os da sua alma na Cruz Redemptora, symbolo augusto da sua fé catholica. Mas não havia preceito do Corão, que elle ignorasse e não cumprisse publicamente.

Apromptou-se a caravana para passar a Medina, em cuja mesquita repousam as cinzas de Mahomet. Os mercadores--_gellabys_, carregaram de provisões os seus camêlos. Os açacaes abasteceram-se de agua, e acondicionaram os seus tanques de pelles de bufalos, sem olvidarem o _kyrba_, ou gancho indispensavel para tirar pelo caminho a agua dos póços. Para os que por impossibilidade physica não estavam nas circumstancias de vencer o caminho, nem de apagar aluguer de transporte, havia dromedarios de sobejo e não lhes faltava tambem o alimento nem o remedio, pois a todas essas necessidades occorriam as esmólas dos ricos. Sobre o dorso de muitos animaes viam-se grandes caldeirões de cobre, chamados _arraçuato_, para cozinhar a comida nos aduares, os quaes eram illuminados por lanternas immensas, que serviam igualmente para as marchas, durante a noite. Em varios _meharas_ enfeitados com collares de sêda, e o _henné_ ou apparelho coberto com magnificos brocados, sobresaíam os _attatouch_, ou palanquins, para commodamente se recostarem as mulheres opulentas.

O alfange, o punhal--_khamtscher_, a faca,--_bitschak_, a lança, a alabarda e a maça, eram as armas defensivas da caravana.

A cidade do propheta _Medinet-el-Nebi_, distava de Mecca onze dias de jornada, atravéz de vastas planicies de areia, rochedos alcantilados e extensos, a par de rarissimos valles que permittiam a custo a cultura. E a toda essa immensa região, ingrata e bravia, em que estavam situadas Mecca e Medina, davam os arabes o pomposo nome de territorio sagrado, _houdoud-el-haram_.

Muito tempo antes de chegarem os romeiros a Medina, era-lhes annunciada a sua approximação pela alta cupula dourada, em que terminava o monumento funerario do propheta. Apenas entraram a cidade, dirigiram-se á grandiosa mesquita, sustentada por quatrocentas columnas e constantemente illuminada por trezentas lampadas.

O recinto venerado, que encerrava não só os restos de Mahomet, mas tambem os de seus successores immediatos, Abu-Bekr e Omar, denominava-se El-Hdjra. Composto de arcadas abertas, sobre columnas, era vedado até dois terços da altura por uma grade de ferro com intervallos estreitissimos.

O ataúde do propheta estava velado por um tecido de sêda bordado a ouro, sob um docel de brocado, seguro no vão de uma pequena torre adornada de laminas de prata. Esta torre, igualmente coberta com um panno de sêda e ouro, elevava-se sobre columnas de marmore preto finissimo, cingindo-a uma balaustrada de prata, em cima da qual ardiam continuamente perfumes em vasos do mesmo metal. Uma lua de prata, em quarto crescente, artisticamente lavrada e cravejada de pedras preciosas, encimava emfim o sepulchro do fundador do islamismo.

Em uma das faces do El-Hdjra existia um prégo de prata, junto do qual paravam os peregrinos, para fazerem a saudação competente defronte da face do enviado.

Ao pulpito da mesquita andava ligada uma tradição, a que todos os islamitas tributavam grande respeito. Dizia-se, que Mahomet prégava na mesquita junto do tronco de uma palmeira, e que depois fabricára o pulpito. No primeiro dia, em que subiu a este, inclinou-se o tronco para o novo lugar occupado pelo propheta, e com tal affecto, que podia comparar-se ao amor da camêla para o seu filhinho. Então Mahomet abraçou o tronco, exclamando: «se te não abraçasse, suspiraria inconsolavel até ao dia de juizo!»

O pulpito era feito de tamargueira.

Do mesmo modo que Mecca, Medina ia procurar longe os recursos, que lhe faltavam. Valia-lhe o seu porto, que era Yambo, situado mui distante ao sudoeste d'ella, no mar Vermelho.

Ao norte saía-se para um pomar de palmeiras, plantado por Fatima, filha do propheta, e pérto amontoavam-se as escorralhas de lava saídas da cratéra de Ohod, a montanha famosa, que deve, segundo a crença dos musulmanos, ser transportada um dia para o paraizo, como theatro, que foi, da victoria alcançada por Mahomet sobre os seus inimigos. A léste e a oeste elevavam-se tambem alguns picos, um dos quaes era o de Aïra, onde o propheta esteve préstes a morrer de sêde, e que será precipitado no inferno, conforme a crença. Ao sul prolongava-se a planicie a perder de vista. Raros pomares e renques de palmeiras juntos de póços, cujas aguas fossem sufficientes para as regar, moderavam de longe em longe a monotonia d'essa extensão pardacenta, onde as argilas alternavam com as areias e a greda.

Terminada a romaria, Pero da Covilhan retirou para Yambo, d'onde, embarcando em um zambuco, passou a Tor. Estava pérto do Sinai, que percorreu, e, voltando a Tor, d'aqui se dirigiu a Zeila.

Chegou emfim ás portas da Abyssinia.

XII

_NA ABYSSINIA_

Ao cabo de tres annos de trabalhosas e arrojadas viagens, entrava finalmente Pero da Covilhan nos encantados dominios do legendario Préste João. Parece, que Deus lhe inspirára acinte aquella digressão, pelas regiões desertas da Arabia, para retemperar-lhe o animo, e tornar-lhe mais attrahente a paizagem deslumbrante do novo paiz que demandava. Ao passo, que foi o primeiro a mostrar, em uma carta maritima, a derrota, que as nossas caravelas deviam seguir para a India, ia agora tambem levantar o véo, que trazia occulta aos olhos da Europa a historia da Abyssinia.

Em mil narrativas exaggeradas e phantasticas, acolhidas pela curiosidade credula, havia sómente um fundo de verdade: a existencia de um povo christão no seio da Africa, defendendo gloriosamente a sua independencia contra o islamismo.

Mas onde e quem se esforçava com tanto denodo?--Ninguem sabia responder; pois até mesmo no Oriente o reino do Préste João era quasi desconhecido, talvez por estar tão remontado ao trato e commercio das gentes.

Póde considerar-se essa vasta região ethiopica um immenso planalto, elevado entre a bacia do Mediterraneo e o Oceano Indico, e limitado ao Norte pela Nubia, a Oeste pelo Sennaar, ao Sul por paizes do sertão africano oriental, a Léste pelo mar Vermelho. E abrange tres zonas distinctas: a inferior, ou o _Kolla_, em que a temperatura varia de 20 a 40° centigrados, encontrando-se, n'esta região verdadeiramente tropical, a fauna e a flora especiaes da Africa, e produzindo abundantemente o solo sem cultura; a media, ou o _Onaïna Déga_, com a temperatura de 15 a 30°, sendo a parte mais fertil e mais propria para o amanho da terra; a superior, ou o _Déga_, cuja temperatura varia de 5 a 15°, e cáe abaixo de zero nas mais altas montanhas.

As serranias, que em differentes direcções córtam este massiço, parece formarem um systema á parte na orographia geral do continente negro. O numero d'ellas, a sua fragura, e o effeito permanente das nuvens condensadas em volta dos lanceolados pincaros de algumas, causam temor a quem as vê, quanto mais a quem as passa. E raramente se faz jornada, em que não haja necessidade impreterivel de as collear e transpôr; por isso talvez alguns exploradores, antes de Pero da Covilhan, se houvessem abeirado d'ellas, e, sem animo de se expôrem a tão invios caminhos, voltassem para traz.

Pero da Covilhan não desfalleceu; admirou taes montanhas, que se lhe afiguravam degraus, ou escadas gigantes, amontoadas por Titans, para escalar o Céo. Maravilharam-n'o esses alcantis de granito e quartzo, com agudas arestas a desafiar as tempestades, e em cujas quebradas os diluvios do tropico tinham cavado corregos profundos. Lá do cume as torrentes, no periodo annual das chuvas, despenham-se com violencia nos valles estreitos, indo engrossar os numerosos cursos de agua, que serpeiam nas campinas, caudalosas e arrogantes.

Então o Tacazé ou _Nilo negro_, que na bacia hydrographica septentrional recebe grande numero de tributarios, saindo do Tigré, a quem banha, vae, sob o nome de Albára, ao occidente lançar-se no Nilo com dobrado impeto. E na bacia do Sul, em Amhara, que contém na sua parte central o grande lago Tana, onde desaguam muitissimas correntes, o Abaï ou _Nilo azul_, atravessando uma parte d'esse lago e recebendo depois o Djamma, cujo extenso e tortuoso valle sulca o reino de Chôa, adquire um tal volume, que aos proprios indigenas enche de pavor. Ao norte encontram-se igualmente alguns lagos sobre o vertice das montanhas.

Com os aspectos severos alternam, porém, as perspectivas risonhas.

Nas veigas açoitadas pelo vento, as corôas-de-rei douradas, os trevos purpurinos e as verdes grammineas, formam ondulações matizadas, como se fôra em mar brandamente agitado de flores e verdura. Ao mesmo tempo o sussurro das florestas proximas é um fundo de concerto, que faz sobresair o canto alegre das aves, como a doce verdura é o fundo da côr, sobre que se destaca o brilho das flores e dos fructos.

Como deve ser opulenta a flora d'este paiz tão accidentado e humido, aquecido pelos raios verticaes do sol, e em que a temperatura tanto varía, determinada pelas grandes differenças de nivel!

A propria natureza parece gostar de se oppôr a si propria, pois reune todas as estações no mesmo tempo, todos os climas no mesmo lugar, terrenos contrarios no mesmo solo.

O botanico encontra ahi as plantas mais raras; ao zoologo é facil apanhar insectos tão variados, como a vegetação que os nutre; o geologo vê massas centraes do globo desentranharem-se, e furarem a superficie, para se lhe mostrarem; o meteorologista emfim póde a cada instante observar a formação das nuvens, penetrar no seu interior, ou elevar-se acima d'ellas.

Como em todos os paizes situados na zona torrida, a presença da agua accusa as riquezas de uma vegetação luxuriante e vigorosa.

Ao saír-se da garganta de uma montanha, alegra de repente a vista uma extensa planicie, em que o trigo, o milho e a cevada attingem proporções extraordinarias, bem como o _teff_, coberto de flôres purpurinas, e cujo grão oblongo dá uma farinha saborosa.

O pão abunda por toda a parte. E, quando nuvens de gafanhotos, vindos do Sudão, devastam as ceáras, o _enséte_, que é uma especie de bananeira, cujo fructo se não aproveita, offerece no seu caule, uma vez que não esteja completamente desenvolvido, farto e delicado alimento.

Outros flagellos dos campos são as manadas de vaccas bravas, e o numero infinito de bugios ou cynocéphalos. Estes, por serem tão damninhos, obrigam a vigiar as ceáras, para que não as destruam, temendo-se a sua invasão unicamente de sol a sol, pois de noite não sáem a comer.

O agigantado _baobah_, o sycomoro sempre verde, o tamarindo, a palmeira excelsa, o _kuara_ com as suas bellas flôres coralinas, a _mimosa_, o _cusco_, o _wansey_, cujas flôres alvissimas abrem todas a um tempo, o _daro_, que escolhe, para os abrigar com a sua sombra benefica, os sitios mais pittorescos, emfim todas estas e outras arvores egualmente frondosas, formam immensas florestas, ou, antes, verdadeiros massiços de folhagem, que, sendo arregaçada pelo vento, apresenta os mais singulares e formosos cambiantes.

No mesmo solo humedecido, e alcatifado de flôres odoriferas, crescem elegantes arbustos, emquanto que as trepadeiras, o cipó flexivel, os pampanos carregados de uvas pretas, se abraçam ao tronco das arvores protectoras, revestindo-os de gala, subindo até se suspenderem de seus ramos, e formarem grinaldas graciosas.

E em todas essas florestas e campinas, innumeros animaes, que teem o seu retiro á sombra dos pavilhões de verdura, e raro são perturbados pelos passos do homem. Fazem d'estas vastas solidões um grande e magnifico quadro, uma scena animada e grandiosa, uns pela belleza da sua pélle, vivacidade de seus movimentos, agilidade de seu andar; outros pela frescura de suas pennas, graça de seu todo, rapidez de seu vôo, melodia de seus trinados; todos emfim pela immensa variedade de suas fórmas. O esmalte das flôres mistura-se com o brilho das folhas, e são apagados ambos pelas côres mais brilhantes ainda da plumagem das aves, mórmente da do _sonis-manga_, ou _cynnirus splendidus_, conforme a denominação scientifica moderna.

Nas regiões mais aridas, o _cactus_, a especie de euphorbio, denominada _kolquall_, a palmeira anã, o _kautuffa_ coberto de espinhos, dão signal de vida vegetativa em terreno ingratissimo, e são testemunhas das perseguições dos chacaes e das hyenas aos bandos de gazellas, corças, e outros antilopes, como o _beni-israil_, igualmente elegantes, que logram escapar, por causa da ligeireza dos movimentos e rapidez da carreira, a esses crueis inimigos.

Em algumas das montanhas, os zambujeiros e os cedros altissimos servem de asylo aos leões, aos lynces, ás pantheras, aos leopardos, aos girátacácheus, a todos esses monstros ferozes, de que é como que patria o continente negro.

Á beira das lagoas e das ribeiras, a canna, o bambú, e o papyro alto, garridamente empennachado, banham seu pé nas aguas limpidas, mas suas hastes elegantes e frageis são muitas vezes partidas á passagem do rhinoceronte bicorneo, ou do pesado hippopotamo. Além d'isso os crocodilos infestam os rios, em cujas margens vôam innumeras aves aquaticas.

No meio d'essa exhuberancia de vegetação emfim, até os mais humildes musgos se encontram occultos debaixo das neves eternas. O mangericão, e muitas outras plantas da familia das labiadas, alcatifam e aromatizam deliciosamente os montes. E para corôa d'esta prodigiosa flóra, nas maiores altitudes sobresáem o _Kousso-Brayera anthelmintica_, e o _Gibarra_--Rhynchopetalum, que se elevam descommunalmente.

Pero da Covilhan, depois de ter caminhado por estreitos passos e á beira de medonhos precipicios, sobre o dorso de montanhas cortadas a pique entre valles tão profundos, que não chegam os olhos a vêr-lhes o fim, apartou-se da caravana, em que vinha, e dirigiu-se á côrte do Préste João.

Reinava o imperador Escander ou Alexandre. A sua residencia era amovivel, por isso Pero da Covilhan em vez de avistar ao longe edificios, que lhe dessem a idéa de uma povoação, viu numerosas tendas armadas em um grande campo, as quaes constituiam a capital do imperio. E convinha-lhes o nome de cidade, não só pela multidão de gente n'ellas abrigada, senão pela boa ordem, como as tinham dispostas.

Ao approximar-se do arraial, deparou Pero da Covilhan, ainda a certa distancia, com quatro leões amarrados por grossas cadeias de ferro, e separados uns dos outros. Logo atraz d'elles prolongava-se uma larga rua, orlada com symetria por vinte arcos de madeira de cada lado, nos quaes estavam enrolados alternadamente pannos de algodão brancos e rôxos. Grande numero de cavallos á mão, morzellos, pombos, castanhos, russos, russo-rodados, meládos, fouveiros e outros, todos de boa raça, com as garupas contra os arcos, e bem arreados, tendo cellas muito leves, estribos á bastarda e lóros muito compridos, formavam duas fileiras uma em frente da outra, voltadas para o centro da rua. Quatro d'esses cavallos, com arreios riquissimos, eram cobertos com excellentes colchas de brocado. Na rectaguarda de todos viam-se postados cem homens com azorragues. Mais de vinte mil pessoas de differentes classes se agglomeravam de um e outro lado da rua, ao cabo da qual se destacava uma grande tenda rôxa, seguindo-se após ella, em diversos arruamentos milhares de outras, todas brancas.

Este apparato era proprio do dia festivo, em que Pero da Covilhan, surgiu, por mero acaso, na côrte abyssinia. A sua presença produziu a mais desusada sensação no ajuntamento.

Saiu-lhe ao encontro um homem ricamente vestido, e perguntou-lhe ao que vinha. Pero da Covilhan, mostrando-lhe as cartas, que levava de D. João II para o soberano da Abyssinia, respondeu-lhe em puro amharico--já n'esse tempo a lingua da côrte--que fôra encarregado pelo rei de Portugal, seu senhor, de entregar pessoalmente aquellas cartas a sua alteza, o mui alto e poderoso imperador da Ethiopia, e desejava por isso ter a honra de lhe ser apresentado. O seu interlocutor levou esta mensagem ao soberano, e pouco depois conduziu á presença d'elle Pero da Covilhan.

Logo na primeira sala da grande tenda roxa, forrada de finas sedas, sobre um catre coberto com tres colchas da China, de modo a conhecer-se pelas suas barras de cotonia de seda o numero d'ellas, estava sentado o imperador, rodeado da sua côrte.

Á entrada Pero da Covilhan, ao vêr o Préste, abaixou a mão direita até ao chão, e com ella tocou em seguida o alto da cabeça, consoante lhe fôra, a seu pedido, ensinado pelo introductor. Adeantando-se depois, ajoelhou em frente do soberano, a quem deu as cartas de D. João II, as quaes eram escriptas em arabe. O Préste mandou-o levantar, fez-lhe algumas perguntas ácerca da sua viagem, e principalmente a respeito de D. João II; despedindo-o depois com muito agrado, disse-lhe, que fosse descançar, para mais tarde conversarem largamente, como desejava.

Esta recepção amavel poz logo em boas relações Pero da Covilhan com os grandes da côrte, e muito mais depois de constar, qual foi o assumpto das cartas, que trouxera. Egualmente contribuiu, para elle lograr a sympathia publica, o preconisar, desde logo, com enthusiasmo a magnificencia da côrte, e a riqueza do vasto imperio, que teve a fortuna de visitar.