Pero da Covilhan: Episodio Romantico do Seculo XV

Chapter 10

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--Da de voss'alteza: quereis dizer...--ponderou Contreiras.

--Pois seja de ambos nós--tornou D. Leonor,--ou melhor: de Deus será esse arbusto, que vamos plantar, e que se fará--assim o espero da protecção divina--arvore frondosa, cuja sombra abrigará muitas miserias...

--Tenho fé, em que succederá, como voss'alteza espera... O terreno, em que váe fazer-se o plantio, é feracissimo, e a cultura não podia o Senhor confia-la de melhores mãos...

--Mãos de peccadora...

--Purificadas nas boas obras...--atalhou Contreiras.

--Se o Redemptor nos ensinou a enchugar as lagrimas, a dar allivio ás miserias, remedio ás necessidades, amparo e consôlo ás fraquezas, porque não hade aproveitar-nos essa lição?... Porque não seguir o exemplo do Divino Mestre?...

--Até, porque Elle nos promette a recompensa, permittindo-nos um santo interesse nas acções boas que praticamos. «Bemaventurados os misericordiosos, porque elles alcançarão misericordia».

--Antes de vós chegardes, estava eu meditando essas e outras palavras do Evangelho de S. Matheus, cuja leitura me aconselhastes...

--E viu decerto voss'alteza, em todo esse quadro tão singelamente traçado pelo apostolo, quanto Jesus Christo aprecia e recommenda a misericordia...

--Vi. Nem careço de outro estimulo, para prestar todo o meu auxilio á santa instituição, que projectamos...

--Bemdito seja o Senhor, que vos inspira!...

--Sem duvida pensástes já na ordenança, que devem seguir os fieis, que em nome da caridade christã vamos congregar...

--Uni-los-ha um compromisso a que dei principio, e submetterei, depois de concluido, á censura e approvação de voss'alteza...

--Trazei-mo, sim. Muito folgarei de lê-lo, que, para o approvar, bastava ser traça vossa...

--Beijo as mãos de voss'alteza, minha Senhora e rainha, que tão grande mercê me fazeis...

A uma das portas da sala, onde D. Leonor conversava com fr. Miguel de Contreiras, appareceu Maria Thereza, a qual ia para retirar-se, mas a rainha, dando por ella, mandou-a entrar e despediu o seu confessor.

Com o donaire e o miudo pisar das andorinhas correu Maria Thereza para sua ama, foi ajoelhar junto d'ella, e disse-lhe no tom mais doce e affectuoso:

--Venho pedir a voss'alteza uma grande mercê...

--Muito grande, muito grande?... Então dize lá!...--volveu carinhosamente a rainha.

--Voss'alteza sabe quanto desejo estudar e comprehender as sciencias, e o cuidado que ponho em instruir-me... Ora, se eu fosse ouvir, durante algum tempo, as lições de meu tio, lente de Canones na Universidade... Mas... agradará porventura a voss'alteza, que me auzente do paço, ainda mesmo para tal fim?...

A rainha ficou surprehendida. Fitou Maria Thereza um momento, e disse-lhe para lhe fazer gosto, e vêr o fructo de tão singular lembrança:

--Tens a minha approvação. Eu mesma te levarei a Lisboa, depois das festas do casamento.

Maria Thereza beijou com o mais vivo reconhecimento as mãos da rainha; mas, não a satisfazendo inteiramente a resposta, insistiu:

--E se eu fosse já?...

--Que trigança é essa?...

--Perdôe-me voss'alteza!... Preferia não assistir ás festas...

--Creança!... Como alcançaste a minha licença, já está a pular-te o pé!... Olha, que não é bom, ser-se impaciente...

--Se eu não agastasse a vossa'alteza!...

--O que me dirás tu, que possa enfadar-me?!...

--Não sei, como confessar a voss'alteza... tudo quanto penso e sinto... e, todavia, não devo occultar, a quem para mim é mais do que mãe, qualquer segredo da minha alma... Eu, minha Senhora...

Maria Thereza não poude concluir. Tapou com as mãos os olhos, e ainda mais os escondeu, inclinando a cabeça no regaço da rainha.

D. Leonor afagou-a, e, tomando logo um fingido ar de soberana, exclamou:

--Eya sus!... Quero saber todos esses segredos!...

Maria Thereza ergueu a cabeça, retirou as mãos dos olhos, e baixando-os, respondeu:

--Amo Pero da Covilhan, minha Senhora!...

--Acceitaste por tanto os galanteios d'esse homem?!...--perguntou a rainha, accentuando com grande admiração as suas palavras.

--Sim, minha Senhora--replicou Maria Thereza um pouco tranquillizada e parecendo-lhe, que tinha tirado de cima do coração um enorme pêso.

--Antes, porém, de o admittires... como teu servidor... não reparáste na differença de nascimentos, nem te occorreu, que nunca permittirei o teu casamento, com quem não possa fazer a tua felicidade?...

--O que trago sempre em lembrança, minha Senhora, é o dever, de não dar um passo, que não seja do real agrado de voss'alteza. O amor, que Pero da Covilhan me inspirou, não apaga do meu coração o que consagro a voss'alteza, como do coração da esposa nunca se apaga--creio--o amor da filha. Até este mais santifica e robustece o outro...

--Assim é; e muito me alegra, que d'esse modo penses. Mas em que fundas tu as tuas esperanças, de Pero da Covilhan se tornar digno do meu prásme?...

--Pero da Covilhan é já cavalleiro da casa d'el-rei, meu Senhor, e, se elle não fôra de bons costumes e manhas, não lhe teria sua alteza feito tantas honras e mercês, como até aqui. Dos seus serviços nas terras do Oriente, por onde anda, houve já tão boas novas, que sua alteza a miude os gaba, e não esconde o contentamento, que lhe causaram. Ora, quando elle voltar, tendo cumprido fielmente os mandados d'el-rei, meu Senhor, não lhe faltará o cuidado, que sua alteza sóe haver com aquelles que bem o servem...

--Sim, el-rei nunca se esquece de seus bons e leaes servidores--affirmou gravemente a rainha; e, como se o seu pensamento estivesse estillando as palavras, que docemente proferia, continuou:--pois bem... mandarei dizer a teu tio, que venha buscar-te... Comprehendo agora a razão, por que desejas fugir ás festas... e faço-te a vontade...

Esta bondosa condescendencia sensibilisou extremamente Maria Thereza, que, não podendo logo articular uma palavra, cobriu de beijos e lagrimas as mãos da rainha. Momentos depois, á luz do seu espirito scintillante, mediu a grandeza do sacrificio, que estava deliberada a fazer, o de se apartar embóra temporariamente d'aquella, a quem tanto amava, e exclamou com a firmeza caracteristica das intenções puras:

--Nunca soffri dôr igual, á que me está causando a idéa, de deixar por algum tempo a companhia de voss'alteza!...

--Pobre creança!...--interrompeu a rainha, dando-lhe um beijo na testa. Mandou-a depois levantar, e concluiu, passando-lhe a mão carinhosamente pela cara:

--Váe! Espéro, que tires muito proveito dos teus estudos. Quando voltáres, não encontrarás preenchido o lugar, que deixas vasio junto de mim...

XI

_PEREGRINAÇÃO_

Do golfo persico voltou Pero da Covilhan ao mar Vermelho, e foi desembarcar em Djiddah. Genuino mercador mouro no aspecto, mas sincera e profundamente catholico do coração, d'aquella cidade do Hedjaz dirigiu-se a Mecca, incorporando-se em uma numerosa caravana de peregrinos, e, affectando o recolhimento de um crente da religião de Mafoma, sem mostrar, todavia, como os musulmanos seus companheiros, o semblante macerado e consumido pelo ardor fanatico.

Tentar uma visita a Mecca, sendo-se christão, em todos os tempos se considerou infructuoso, ou ao menos de um exito muito problematico; realisa-la, porém, mórmente no seculo XV, embóra se tivesse envergado o _ihram_ do peregrino, era um acto de assignalada temeridade.

Os raros europeus, que no seculo actual lográram vêr Mecca, dão testemunho do perigo, a que se expõem os christãos, que se afoitam a violar a lei que lhes prohibe, com pena de morte, o seu ingresso no velho santuario arabe.

Mas, para quem teve o seu baptismo de sangue em Toro, e atravessou o Oceano indico, lidando sempre com homens de diversas raças, religiões e costumes, nada havia já, que o intimidasse, fazendo-o renunciar um dever, a cujo cumprimento sacrificava a propria vida.

É peculiar da alma portugueza, arrostar os perigos e retemperar-se na adversidade; e Pero da Covilhan era portuguez de lei. Affeito aos labores improbos da sua viagem de exploração, já nem por elles dava; e, no seu resignado soffrer, punha constantemente o seu valor á prova, e robustecia cada vez mais a confiança, que em si proprio depositava.

Lá se pôz a caminho pelo Hedjaz fóra.

O Hedjaz, uma das provincias menos extensas e mais inferteis da Arabia, tem importancia e celebridade por ser o berço do islamismo, e pela influencia, que recebe de Mecca e Medina, situadas no seu territorio. A sua aridez, quasi geral, augmenta a fadiga, de quem por ella caminha. Cortam a immensa solidão das suas planicies arenosas, que se extendem para a margem do mar Vermelho, pouquissimos valles cultivados e montanhas cobertas de rochedos, que se vão tornando cada vez mais abruptas á medida que os viandantes se internam no paiz. As estradas são regueiras enxutas, que nas épocas das grandes chuvas se transformam em rios caudalosos. Caminha-se por esses _uâdis_, e na falta d'elles seguem-se as direcções rigorosamente determinadas pela situação de póços e cisternas, sem cuja agua a vida seria impossivel no deserto.

Eram tres os inimigos de que necessitava defender-se a caravana, que percorria estas regiões malfadadas: a falta de agua, os nomadas e o _simoun_.

Para combater o primeiro, iam os açacaes--_sakka_--encarregados de conduzir sobre camêlos a agua contida em ôdres, e pelo caminho faziam novas provisões da dos depositos, que encontravam.

Contra os nomadas, ou tribus arabes, que vagueavam no deserto e viviam exclusivamente da rapina, vêr-se-ia a caravana obrigada a pegar em armas. Os nomadas eram sempre temiveis nos seus assaltos mui frequentes, pois que taes bandidos orgulhavam-se tanto de haverem roubado uma caravana, como um general europeu de ter bombardeado e conquistado uma praça de guerra; e, se não erguiam uma estatua ao scheick, por elles muito venerado, e que os conduzia á victoria, é porque na Arabia, a ninguem se fazia essa consagração.

O terceiro inimigo era talvez o mais perigoso e terrivel.

Quando o horisonte se avermelhava ao longe, tornando-se pouco depois todo o Céo plumbeo, a ponto de embaciar o disco do sol, que tomava então um aspecto sanguineo, e seguidamente a atmosphera se cobria de uma areia finissima, arrebatada pelo vento, como a espuma das ondas do mar embravecido, era preciso fugir a toda a pressa!

Rompia de subito a furia do simoun, agitando tudo!

O infindo areal do deserto cavava-se profundamente, açoitado pela mais turbulenta borrasca. Os viandantes, com o peito opprimido, os olhos sangrentos, os labios sêccos e abrazados, mal respiravam. Os camêlos, esses pacientes _navios do deserto_, desarvoravam, partiam á desfilada, zombando da vigilancia dos cameleiros, e guiando-se unicamente pelo instincto de conservação, paravam emfim, e occultavam a cabeça debaixo das areias movediças.

Se apesar do medonho remoinho causado pelo tufão, a caravana podia abrigar-se nas sinuosidades de algum rochedo, onde esperasse com segurança a calma da tempestade, salvava-se; se não tivesse refugio, e ficasse entregue á mercê da tormenta, homens e animaes perdiam toda a sua energia, toda a esperança de sobreviver os abandonava!

Suffocados pelo calor ardentissimo, e surprehendidos pela syncope, desfalleciam, caíam inanimes n'aquelle oceano de areia, que logo lhes servia de mortalha e tumulo, até que novo temporal viesse descobrir as ossádas d'essas victimas numerosissimas do implacavel e deshumano simoun!

De como Pero da Covilhan effectuou a sua peregrinação simulada, elle proprio fez a narrativa a D. João II em carta, que lhe enviou do Cairo.

Ao cabo de dois dias e meio, que seriam bastantes para vencer a distancia, que separa Djiddah de Mecca, assentaram o seu aduar no sopé de um dos montes, que cercavam a _mãe das cidades_, a Om-el-Kora dos arabes.

A todos os peregrinos, conforme os paizes, de onde partem, foi designada pelo _propheta_ a estação, em que devem parar, antes da chegada a Mecca, para se prepararem a cumprir os ritos impostos ao bom musulmano.

Foi em Ras-Onardan, que fez alto a caravana, por vir de um porto do mar Vermelho. Era um valle comprehendido no recinto previlegiado, que se extendia á roda de Mecca a algumas leguas de distancia e denominado Beled-el-Haram.

N'esse verdadeiro oasis, alcatifado de verdura, regado pela agua que corre de suas nascentes, e onde a palmeira, vergando ao pêso de seus cachos de tamaras, sobresaía no meio de outras arvores fructiferas, como sendo o caracteristico predominante das paizagens orientaes, os homens da caravana fizeram uma ablução geral, chamada _ghort_, substituiram os seus trajos de viagem pelo _ihram_, o calçado pelas chinelas--_besmak_--, e perfumaram-se. As musulmanas tambem purificadas, cobriram-se com o seu grande véo, branco como o _ihram_, e denominado _yaschmak_.

Antes d'essa purificação o peregrino tinha o nome de _hadji_, depois d'ella era tratado pelo de _mohrim_; e as suas vestes ficavam santificadas pelo uso durante a romaria, sendo, ao termo d'esta, cuidadosamente guardadas, para servirem de mortalha ao seu possuidor.

A caravana assim preparada pôz-se logo em marcha, recitando pelo caminho--os homens em voz alta e as mulheres em voz baixa--muitas orações, terminando pelo _Tebiya_ ou _Lebbeika_.

Entraram em Mecca e dirigiram-se processionalmente á mesquita, continuando as preces. Quasi ao pôrem o pé no immenso atrio do templo, e depois de deixarem atraz de si uma espessa floresta de columnas, que sustentavam arcadas numerosas, pronunciaram o _tekbir_ e o _tehlil_, que consistem em dizer: _Allah Akbar_--Deus é grande; _Lá lla illá lla_--não ha outro Deus senão Deus; e ouviram exclamar a um dos pregoeiros--_almuadens_ ou _muezzinos_, voltado para a _kaaba: observai, observai a casa de Deus, a prohibida!_ E logo irromperam descalços, foram passar por baixo de uma especie de arco triumphal, approximaram-se da _pedra-negra_--_Hadjar elaswad_, para fazer o _touaf_, isto é, para dar sete giros em volta da _kaaba_, offerecendo sempre o lado esquerdo a este santuario, que se elevava no meio do atrio, e, conforme a crença arabe, o mais antigo templo consagrado ao verdadeiro Deus.

A mesquita--_mesgid_, _guma'a_, lugar de reunião, e tambem _Beïttallah_, casa de Deus, reduzia-se a um claustro--_sakhn-el-gama_, ou pateo aberto, formando um parallelogrammo perfeitamente regular, ladeado de porticos levantados sobre quatrocentas e noventa e uma columnas, umas de granito outras de marmore, e para o qual davam accesso dezenove portas, destituidas de bandeiras, dispostas sem ordem, irregulares emfim na sua construcção, pois terminavam umas em ogiva, outras em arco de volta inteira.

As arcadas d'onde pendiam lampadas, que todas as noites se accendiam, eram cobertas exteriormente por pequenas cupulas, a cima das quaes se elevavam sete minaretes, sendo quatro collocados nos quatro angulos do edificio, e tres de um modo irregular no comprimento das galerias formadas pelas arcadas.

A fórma e architectura da notabilissima _kaaba_ não desmentiam, com effeito, a sua alta antiguidade. Era um cubo de uns doze metros de altura, com paredes do granito ordinario de Mecca, e na face voltada para o Norte uma pequena porta, cujo limiar ficava a uns dois metros a cima do sólo. Este templo apenas estava patente ao publico na sexta-feira de cada semana, dia guardado pelo muslim, ou de reunião--_iom el guma'a_, e tambem quando se celebrava o anniversario natalicio do propheta. Ao scheick dos anciãos, ou _xaibins_, pertencia abrir a porta. Para isto subia a uma especie de pulpito, que corria sobre quatro roldanas, em que terminavam os seus pés de madeira, e dois ostiarios levantavam a cortina, chamada _Albarcá_, especie de véo de purpura, que se extendia sobre a porta, e esta era, como a soleira, forrada de laminas de prata.

O povo, ao invadir a _kaaba_, rompia, de braços abertos e mãos erguidas ao Céo, na seguinte exclamação: «Abre-nos, ó Deus, as portas da tua misericordia e do teu perdão, ó maior dos misericordiosos!»

O interior do santuario era uma grande sala, cujo tecto sustentavam dois pilares, assentes sobre o pavimento lageado de bellos marmores brancos e pretos, dispostos em xadrez; as paredes forradas do mesmo modo, tendo por ornato apenas arabescos com letras de ouro e prata esmaltadas de um tom negro bronzeado. Numerosas lampadas de ouro massiço serviam para a illuminação. O exterior estava coberto por um immenso véo de seda preta, chamado _Kesoua_, que sómente deixava ver o sócco do edificio, durante os primeiros dias da peregrinação, e para isso suspendiam-n'o em fórma de grinalda por meio de cordões tambem de seda da mesma côr. Ao meio da altura de todo o véo sobresaiam lettras de ouro bordadas sobre uma larga fita igualmente preta, nas quaes se liam inscripções piedosas e textos do Corão.

Esta cobertura era renovada annualmente; e, como fluctuava em compridas dobras, os peregrinos tinham a crença de ser essa agitação devida ás das azas dos anjos, que voavam em torno da _kaaba_, e que levarão um dia o sagrado véo deante do throno de Allah.

A _pedra-negra_ era o unico ponto da _kaaba_, permanentemente offerecido á devoção dos fieis. Perto da porta, no angulo voltado para nórdéste, achava-se encravada na parede exterior, e os seus lados embutidos em chapas de prata.

Esta famosa pedra tinha uma tradição veneranda. Muito tempo antes de Mahomet, beijavam e prestavam culto a essa piedosa reliquia todas as tribus arabes. Conforme as suas crenças, fôra trazida do Céo pelos anjos, e collocada junto de Abraham, para servir-lhe de escabello, quando o velho _páe dos crentes_ estava construindo a _kaaba_. A Pero da Covilhan, porém, pareceu um fragmento de lava, contendo parcellas de uma substancia amarellada; ou ainda um aerolitho, formando um oval irregular de um vermelho carregado, que podia passar por negro.

Ella não tinha já a sua côr primitiva, no dizer dos arabes, pois no momento, em que tão milagrosamente desceu á terra, nenhum jacintho mais brilhante e de mais bella transparencia existia no mundo; mas os beijos de tantos homens maculados de iniquidades de toda a especie a tinham assim metamorphoseado.

No páteo da mesquita, e pérto da _kaaba_, elevava-se outra construcção quadrada, apparentemente massiça, mas de menores dimensões, do que o santuario. Cobria o manancial de Agar, mostrado por um anjo á pobre e afflicta escrava de Sara, errante no deserto, no momento, em que ella ia a tapar os olhos, para não vêr seu filho Ismael morrer de sêde, e denominado pôço de Zemzem, por designar esta palavra a fonte que bróta com suave murmurio. A sala, em que estava o pôço sagrado, era revestida de marmore branco, e de todos os lados recebia ar e luz por oito janellas. Um estrado de marmore cercava a fonte, d'onde se tirava a agua santa para a purificação.

Junto da _pedra-negra_ começavam e terminavam os giros, durante os quaes os peregrinos iam recitando preces. No fim de cada giro beijavam a pedra, se isto lhe não fosse impedido pela affluencia dos crentes, pois no caso contrario tocavam-lhe com a mão, levando depois esta aos labios. Seguia-se beijar o nobre _Alcamamo_ ou _maquam d'Ibrahim_, o qual consistia em uma pedra, onde se conservavam as pégadas de Abraham, e, por ultima ceremonia dentro da mesquita, bebiam agua no pôço de Zemzem.

Os peregrinos saíam finalmente pela porta de Safa, subiam á collina d'este nome, voltavam-se para a _kaaba_ e recomeçavam as suas orações. Desciam depois lentamente ao valle Bathu-Onadi, situado entre aquella collina e a de Meroua, para executarem alli a marcha, chamada _saï_, que fazia parte dos ritos. Pronunciando estas palavras, voltados para a _kaaba_: «Ó meu Deus, sê misericordioso; perdôa os meus peccados, ó Senhor santo e clemente,» andavam em differentes direcções, para recordar a marcha incerta de Agar e de Ismael, expulsos por Abraham.

Cumpridas estas formalidades, regressavam á cidade, para esperar a festa, com que terminava a peregrinação.

Ahi, como em toda a parte afinal, o muslim cria estar sempre na presença de Deus, ainda que não entrasse na mesquita, e não deixava de rezar as orações quotidianas. Eram cinco: a primeira ao romper d'alva, e chamava-se _Sabah Namazy_; a segunda, _Oilah Namazy_, ao meio-dia; a terceira, _Akindy Namazy_, entre o meio-dia e o pôr do sol; a quarta, _Acham Namazy_, ao sol posto; e a quinta _Yatzu Namazy_, ao serrar da noite.

Precedia sempre as orações uma ablução parcial--_woudou'_, que consistia em lavar a cara, as mãos e braços até o cotovêlo, e os pés até o artelho. Antes de começar a reza, o crente extendia no chão o seu tapete quadrado, collocava-se de pé sobre elle, voltava-se para a _kaaba_, estando em Mecca, ou para esta, em outra parte, conforme a _quebla_ estabelecida por Mahomet; repetia o pedido de perdão--_istigfar_, elevava depois as mãos abertas, ficando os pollegares á altura e quasi em contacto da parte inferior das orelhas, e recitava a prece preliminar chamada _tekbir_. Passava ao _fatihah_, e pronunciava ao menos tres versiculos, ou _ayat_, d'esta oração, que é a primeira sura do Corão, collocando ambas as mãos sobre o ventre, a direita por cima da esquerda, e cravando os olhos no chão. Declamava o _tesbihk_, inclinando o corpo e a cabeça, e pondo as mãos nos joelhos. Endireitava-se, retomava a posição do _fatihah_, e assim se conservava um instante. Succedia-se uma prosternação--_soudjoud_, durante a qual repetia o _tekbir_ e tres vezes o _tesbihk_, tendo a face voltada para a terra, os dedos das mãos e pés muito unidos, e a ponta do nariz a tocar no sólo. Erguia-se, ficava um momento assentado sobre os joelhos, as mãos nas côxas, os dedos abertos, e repetia o _tekbir_. Depois de uma prosternação ultima, saudava para a direita e para a esquerda os dois anjos da guarda, que, durante a oração, estiveram sempre em sua companhia, embora elle os não visse.

A serie d'estes movimentos e genuflexões constituia um _rick'ah_.

Quando eram muitos a orar, collocavam-se em filas, como soldados em frente do inimigo, porque realmente os musulmanos criam, ser a oração um combate contra o espirito das trevas.

No mez de _schewal_, que é o decimo do anno da hegira, e o primeiro dos mezes da peregrinação, accendiam-se as lanternas, as lampadas, e as velas da mesquita, bem como os candieiros das torres, illuminando-se igualmente o eirado do edificio, na noite do apparecimento da lua nova. Na manhã seguinte celebrava-se a oração da paschoa, pois que no mez anterior, o _ramadhan_, era a quaresma, durante a qual nenhum musulmano comia, nem bebia, senão de noite, isto é, desde o pôr do sol até o romper d'alva.

Chegado o primeiro dia do mez de _doulkaadah_, que era o undecimo, tocavam os tambores e timbales ao amanhecer e ao sol posto, em signal do abençoado ajuntamento dos peregrinos em Mecca, e assim se continuava até ao dia da subida a Arafat. No setimo dia o _iman_ pronunciava do alto do mimbar na mesquita a _khotbat-el-hadjï_, isto é, uma allocução, em que explicava aos crentes as cerimonias, que sobre aquella montanha iam celebrar-se. No oitavo dia a caravana santa dirigia-se de madrugada ao valle de Miná. Este dia chamava-se de reflexão--_Ianm terwia_, alludindo á incerteza de Abraham, o qual, tendo recebido em sonhos a ordem de immolar seu filho, ignorava se tal sonho seria uma inspiração divina, se uma suggestão diabolica. Passava-se a noite no valle, e no dia immediato, depois da oração matutina, a caravana subia á montanha de Arafat, onde existia uma capella--_turben_, a qual santificava o sitio, em que pelo anjo Gabriel fôra ensinada ao páe commum dos homens a primeira invocação. Conforme o ritual, os crentes, depois de uma oração feita na propria _kubba_, armada no acampamento, iam esperar o pôr do sol, e entretanto o _iman_ erguia os braços ao Céo, para invocar a benção sobre a multidão alli reunida, exclamando por fim milhares de vózes unisonas; _Lebeïk Allahouma Lebeïk!_ Nós estamos ás tuas ordens, ó Deus!

Em seguida a turba immensa, que continuava vestida de branco, ao descer a _Djebel Farkh_, depois de ter passado em Monzdelifat, parecia uma catarata de espuma!