Pátria

Part 9

Chapter 9 1,736 words Public domain Markdown

«O sustentamento da justiça e a rigorosa aplicação das leis são o fundamento moral de toda a sociedade bem organizada; a pública administração tem de ser necessáriamente económica e modesta; a política precisa de se mostrar, agora e sempre, evidentemente elevada e respeitável nos seus intentos e nos seus caracteres dominantes. Êstes salutares princípios que a digna vereação municipal do Pôrto me relembra na sua mensagem, professo-os eu como verdades fundamentais, e tenho-os para normas inquebrantáveis da minha magistratura constitucional. Diz-me a consciência que lhes tenho sido fiel; e se ainda não pude mostrar toda a minha profunda dedicação pela nossa pátria, tem sido isso devido ao pouco tempo da minha vida de rei, desgraçadamente assombrada por acontecimentos de que me não cabe a responsabilidade, mas de que sinto, como os que muito a sentem, a triste e dolorosa significação.»

Que quer isto exprimir? Que a câmara do Pôrto, com o aplauso de D. Carlos, justificou a revolta de 31 de janeiro. Embora lhe desaprovassem a forma, justificavam-lhe a essência. Mas a braveza dum acto, quando a razão o determina, desculpa-se bem. Há um julgador que diz a um réu: «A lei condena-te, mas a verdade absolve-te.» Que faz êsse juiz, quando êle é um rei? Perdoa.

Volveram anos. Os grandes criminosos, a que se referia a mensagem do município do Pôrto, onde é que estão? Nas mais altas dignidades, rodeando o trono.

E o tenente Coelho, meu senhor? onde é que está êle? Apodrecendo em África.

_Viagem do Snr. D. Carlos ao Pôrto, depois do 31 de janeiro_: Mais dum ano decorrera, antes de sua majestade se abalançar à viagem. Serenados os ânimos, mete-se a caminho. Os estudantes, em Coímbra, assobiam-no. Chega ao Pôrto. Desfila o cortejo. Ao lado do carro de sua majestade seguia um chefe de esquadra, a pé, durindana ao vento. Entala-se-lhe o gládio numa das rodas, partindo-se em bocados. O monarca desembaínha, veloz, a sua espada de comandante em chefe, e bizarramente lha entrega com donairosa cortesia. Lá está na esquadra.

_Baile do ministro inglês, em Sintra_: No verão de 1892 dava o ministro inglês uma festa pomposa em honra do Snr. D. Carlos. Sua majestade aceitou-o. O ministro inglês, naquele instante, era a Inglaterra. O soberano de Portugal era a nação portuguesa. Pois o rosto que levára a bofetada sangrenta ia ver-se aos espelhos do animalejo que lha dera! Ia limpar os escarros ao guardanapo de quem lhos atirou!

Um rei que a fatalidade inexorável, que o destino impiedoso submetesse, algemado, a similhante vergonha, choraria de raiva lágrimas de sangue, a não guardar no íntimo da alma, como D. Carlos, o retrato de D. João VI, num pataco falso. Desejaria eu ver, em lance de tal ordem, a grande e melancólica figura de D. Pedro V. Que trágica altivez e que dorida nobreza não exprimiria o seu olhar! E D. Carlos? D. Carlos, em toda aquela noite pavorosa, jogou descuidadamente o _bleuff_, espécie de batota, com dois casquilhos elegantes do mundanismo que se diverte. Verifiquem, lendo o _Jornal do Comércio_, que relatou o baile. Acrescento mais: quem o relatou assistiu a êle.

_Dissolução das côrtes_. _Primeiro golpe de estado_: O Snr. D. Carlos, um belo dia, farto de atirar às perdizes, alveja à queima-roupa o código político da nação. Com que fim? Salvar-nos, salvar a pátria. Era a vida da pátria, que, em risco iminente, o constrangia à ditadura. Espesinhava os códigos, para manter a nacionalidade, sacrificando (com que mágoa!) o juramento do rei à existência do reino. Acto solene, acto grandioso. D'ora-avante quatro milhões de espíritos do seu espírito viveriam. Escultor dum povo, cinzelador duma raça, ia fazer história, fazer humanidade. Como Deus, trabalhava em almas. Um rei idealista, que em tal momento, no fogo divino duma obra de arte,--quadro ou estátua, música ou poema,--quisera sublimar-se, escolheria naturalmente uma obra elevada, de essência religiosa, de feitio heróico. Guilherme, o visionário, escutaria o _Lohengrin_. Carlos, o gordo, foi ao _Brasileiro Pancrácio_. Os jornais o disseram. Textual: ao _Pancrácio_. Perfeito, simbólico.

_Regresso da expedição à Guiné_: Vai um bando de homens, filhos da miséria, a terras inóspitas e distantes jogar a vida pela pátria. Chegam, cumprido o dever, exaustos e dizimados. Quem lhes sai ao encontro? O rei? O rei, àquela hora, ou andava às lebres ou palitava os dentes. Galardoou-os com meia dúzia de crachás. Eram poucos. Muito bem: que os rifassem. E rifaram-nos!

_Pândega a Paris_: Vinte e quatro dias no cérebro do mundo. Que trouxe de lá sua majestade? Recibos e gravatas.

_Viagem à Inglaterra_: Quando em 30 de Janeiro de 1891 compunha eu êste verso,--_A desonra, a abjecção, o trono... e a Jarreteira_--, envolvia a Jarreteira, em último logar, a máxima ignomínia. Tão grande, que parecia hiperbólica. Vaticinei, adivinhei. Ei-la, a insígnia infamante, na perna esquerda do Snr. D. Carlos. Na outra, já a raínha Vitória, no dia 11 de Janeiro, lhe havia soldado uma grilheta.

_Viagem à Alemanha_: Dias antes do roubo de Keonga houve baile no Paço. Na quadrilha real, em frente da Snr.^a D. Amélia, quem? O ministro alemão. Não bastava. Deveria D. Carlos envergar, de joelhos, uma libré prussiana. E foi envergá-la. Contam os jornais que lha improvisaram numa noite, em dôze horas. Escudeiro novo de senhor tão grande, queria logo vesti-la.

_O entêrro de João de Deus_: Reinou alguns anos o Snr. D. Carlos, sem se lembrar um minuto de que João de Deus existia. Compreende-se. Da _Heresta_ a uma férra a distância é larga. Sobrevem,--justiça imanente!--a apoteose nacional do grande lírico. A alma da pátria, num vago desejo de renascer, contrapunha a soberania do espírito à soberania da carne; a pureza, vestida de beleza, à traficância, vestida de impudor; a idealidade mística dum génio ao crasso materialismo visceral da imunda récua dos governantes. E eis logo o Snr. D. Carlos a admirar o poeta e a visitá-lo em sua casa, deitando-lhe à garganta, a ver se o prende, uma coleira qualquer de S. Tiago. O intuito evidenciava-se: erigir a glória de João de Deus em pára-raios da monarquia. Mas a homenagem, tardiamente hipócrita, não iludiu o senso íntimo da juventude, radiosa origem espontânea daquela consagração de amor e de verdade. Na festa de D. Maria gelou-se à volta de D. Carlos um silêncio de morte. Nem um viva. Aclamava um povo o seu maior génio, a suprema flor da idealidade duma raça, e o chefe dêsse povo era afastado, como um intruso, que ninguêm convidára, que ninguêm ali conhecia.

Volvido um ano morre João de Deus. As Necessidades e o Terreiro do Paço afectam, decorativamente, pungidoras mágoas. O snr. Hintze, lúgubre e solene, banhado em pranto, de joelhos, rouqueja trémulo, fitando o cadáver, esta despedida angustiosa: _Adeus, Mestre_! Como se o João de Deus houvera sido alfaiate, barbeiro ou sapateiro, únicas mestranças que a estética do Snr. Hintze poderia aquilatar devidamente.

Quarenta mil homens, _a pé_, seguiram o féretro. Na cauda, _em três côches_, três paquidermes do ministério, espapaçados e sonolentos, a ruminar asneiras.

E o Snr. D. Carlos, que os meus olhos buscaram, em vão, ansiosamente, durante quatro horas, onde é que estava, onde estaria êle? Duas gazetas o disseram no mesmo dia, em telegrama indêntico, de Mafra. Ei-lo: _Mafra, 15, às 8 da noite. O Snr. D. Carlos retirou hoje às 5 e meia da tarde; o resultado da caçada foi: 10 galinholas, 5 gamos e 15 coelhos_. Por alma do sublime poeta do amor e das estrêlas, das florinhas e das aves, dos anjos e das crianças, rezou o Snr. D. Carlos, inconsolavelmente, uns trinta tiros de espingarda. Dez Padre-Nossos na grelha, cinco Avè-Marias de escabeche e quinze Salvè-Raínhas, à Colete Encarnado, em môlho de vilão.

_A cultura intelectual de sua majestade_: Transcrevo, duma publicação comemorativa do centenário Henriquino, êste famoso documento do Snr. D. Carlos. É um autógrafo. Diz assim:

«_Para celebrar a imorredoura memória, do Infante D. Henrique, nada encontro melhor, do que, transcrever, a estância de Camões, que serve de epígrafe à excelente e benemérita, tradução, do notável livro de Major_».

Leram? Que indigência de frase e que pontuação! Um estudantinho imberbe não escreveria aquilo.

E eis aí, a ligeiros traços, a vera efígie de sua majestade o Snr. D. Carlos. Quem a olhar, exclamará por fôrça: Viva a República! Nesta agudíssima crise nacional a república é mais do que uma simples forma de govêrno. É o último esfôrço, a última energia, que uma nação moribunda opõe à morte. Viva a República! é hoje sinónimo de--Viva Portugal!

Notas:

[1] Há excepções individuais, claramente. A fisionomia geral, no entanto, é aquela.

[2] Se o Nazareno, entre ladrões, fôsse hoje crucificado em Portugal, ao terceiro dia, em vez do Justo, ressuscitariam os bandidos. Ao terceiro dia? que digo eu! Em 24 horas andavam na rua, sãos como pêros, de farda agaloada e grã-cruz de Cristo.

[3] Continuaria a haver algumas dúzias de republicanos, por coerência, brio pessoal ou teima doutrinária. O espírito republicano que alastrou no país, esse extinguia-se, ou antes não se tinha gerado.

[4] Um rei segundo a Carta, entende-se.

[5] É meia consciência por habitante. Talvez excessivo.

[6] Irresponsável segundo Lombroso, não segundo a Carta.

COLECÇÃO LUSITANIA

Cada volume, elegantemente enc. em percalina, $50 ctvs.

*Volumes publicados até Janeiro de 1919*:

1--_Amor de Salvação_, por C. C. Branco. 2--_Riquezas do pobre_, por C. C. Branco. 3--_Eusébio Macário_, por C. C. Branco. 4--_Corja_, por C. C. Branco. 5--_Cartas de Amor_, por Sóror Mariana. 6 e 7--_Nossa Senhora de Paris_, por V. Hugo. 8--_Amores do Diabo_, por C. C. Branco. 9--_Frei Luís de Sousa_, por A. Garrett. 10--_José Bálsamo_ e _Mata-a, ou ela te matará_, por C. C. Branco. 11 e 12--_Madame Bovary_, por Flaubert. 13--_Menina e Môça_, por Bernadim Ribeiro. 14--_Brasileira de Prasins_, por C. C. Branco. 15--_Camões_, por A. Garrett. 16--_Romance dum homem rico_, por C. C. Branco. 17--_Cartas do meu moínho_, por A. Daudet. 18--_Freira no subterrâneo_, por C. C. Branco. 19--_Viagens na minha terra_, por A. Garrett. 20--_Carrasco de Vítor Hugo José Alves_, por C. C. Branco. 21--_Rafael_, por Lamartine. 22--_Arco de Sant'Ana_, por A. Garrett. 23--_Mosaico e Silva_, por C. C. Branco. 24 e 25--_Noventa e três_, por V. Hugo. 26--_A Religiosa_, por Diderot. 27--_Livro de Consolação_, por C. C. Branco. 28--_Atala, René, o Ultimo Abencerragem_, por Chateaubriand. 29 e 30--_Ultimos dias de Pompeia_, por Lord Lytton. 31--_Mulheres da Beira_, por Abel Botelho. 32--_O Alfageme de Santarêm_ e _D. Filipa de Vilhena_, por Garrett. 33--_Fior d'Alisa_, por Lamartine. 34--_Maria da Fonte_, por C. C. Branco. 35--_O ilustre Dr. Mateus_, por Erkmann-Chatrian. 36--_Cláudio_, por Lamartine. 37--_Dama das Camélias_, por A. Dumas. 38--_No Bom Jesus do Monte_, por C. C. Branco. 39--_Manon Lescaut_, pelo Abade de Prévost. 40--_Contos escolhidos_, por J. Brandão. 41--_Os Sacrificados_, por J. Grave. 42--_O Senhor Deputado_, por J. L. Pinto. 43--_Eugénia Grandet_, por Balzac. 44--_Os que amam e os que sofrem_, por J. Grave. 45--_Infâmia de Frei Quintino_, por U. Loureiro