Part 8
Continuemos. A nação, mais do que de libras, carecia de alma. Quem lha daria? Quem a tivesse como o sol tem luz: infinita. Pobre D. Carlos! Que havia de êle dar,--mediocridade palúrdia, já aos 25 anos atascado no cebo dinástico, nas banhas brigantinas! Alma? Bem alma, não; quási, pequena diferença: lama. Uma inversão de duas letras. Ligeiro lapso, cuja emenda é esta: Viva a república!
O rei falhára. Nulo, insignificante. Pedir-lhe génio, heroismo, grandeza, sublimidade,--o mesmo que pedir astros a uma couve ou raios a uma abóbora.
A existência da pátria dependia da revolução. O rei não pôde, não soube, ou não quis fazê-la. Em suma, não a fez. Perdeu-se. Que restava? Fazê-la o povo. Não a fazendo, perdia-se tambêm.
O rei, em vez de cortar o cancro, identificou-se com êle. Chaga maior, operação mais grave. Já ninguêm suprimirá o cancro, sem suprimir a realeza.
O republicanismo não é aqui uma fórmula de direito público; é a fórmula extrema de salvação pública. No prédio em chamas há só uma janela aberta. Preferem os monárquicos morrer queimados, por a janela estar pintada de vermelho? Fôsse ela branca, que eu saltaria sem escrúpulos.
Republicano e patriota tornaram-se sinónimos. Hoje quem diz pátria, diz república. Não uma república doutrinária, estúpidamente jacobina, mas uma república larga, franca, nacional, onde caibam todos. Não dum partido, da nação. Presidente o melhor. Foi por acaso miguelista? Embora. Uma revolução por selecção de caracteres.
Tal movimento cívico, espiritualizado e grande, requeria pelo menos um homem. Existe? Existiu: José Falcão.
José Falcão! Alma tão nobre de patriota não a conhecerei jàmais. A ideia de pátria, feita verbo, nela encarnára divinamente. Hóstia sublime! Trigo de comunhão deu-nos a fé, e trigo de viático, na hora da nossa morte, dá-nos ainda a esperança.
À volta de mim vejo monturos, dentro de mim encaro cinza. Tudo acabou, não é verdade? Melancólicamente revolvo a cinza, poeira de quimeras, e uma flámula fulge, uma brasa crepita... É a alma dele... Não quer apagar-se. Mesmo dentro de nós, túmulos cerrados, continúa ardendo. Àmanhã de tais campas podem brotar ainda lavaredas.
Grande homem! Como o sangue em momento de pânico reflue de chofre ao coração, dir-se-ia que na hora suprema toda a alma da pátria naquela alma se ajuntára.
Em José Falcão a inteligência era robusta, a sciência enorme, mas a grandeza moral incomparável e soberana. Dizia o que pensava, fazia o que sentia. Um justo. Portanto, um solitário. Querendo viver puro, viveu em si mesmo. Isolou-se. Nem ambicioso, nem vaidoso. Nos altos píncaros, de gêlo e de luz, não há micróbios.
Egoista intelectual? Nunca. Ânimo generoso, os problemas sociais cativaram-no. A sociedade evitou-a. Livros e família: cérebro pensando, coração amando.
Mas o sentimento da pátria com tal furor e febre lhe girava no sangue, tão inato e profundo lhe ardia lá dentro, que aquele homem de ideias instantaneamente se volveu, como por milagre, em homem de acção. O ruído molestava-o; procurou o ruído. A turba incomodava-o; procurou a turba. Agitou-se três anos em movimento frenético. Pátria! Pátria! a visão constante, o sonho de toda a hora! Fogo sagrado, fogo devorador. Queimou-se, abrasou-se nele. Auto-de-fé dum corpo nas lavaredas duma crença.
O patriotismo tornára-se em José Falcão um misticismo. Compreende-se bem. Ideia tão inflamável, em tão candente natureza moral sublima-se, ilumina-se, perde-se no êxtase, no enlêvo, no transcendentalismo religioso. Aquele homem exalava de si o quer que fôsse de sobrenatural e de divino. Sentia-se que no grande momento arriscaria tudo: família e vida, fortuna e lar. Através do crente apercebia-se o herói. Por isso arrastava. A eloqùência vinha-lhe espontânea, dominadora, magnética. Não a eloqùência literária dos artistas. Eloqùência de alma, verbo interior, luz de uma chama.
Depois naquele homem tudo era português, sóbrio, simples, varonil, vernáculo: figura, gesto, palavra, intonação, modo de vestir, maneira de andar. Tudo beirão, tudo nosso. Nem um galicismo. Austero e risonho, violento e meigo,--a singeleza na grandeza. Lembrava ainda o Condestável. Como êle, espírito heróico, braço de ferro para o comando, bôca de santo para a piedade.
Extenuado e letárgico, pressentindo a morte, nunca desanimou. Pois a doença da pátria não era ainda bem mais grave? Por ela sim, desejaria viver, desejaria morrer. A fôrça física abandonava-o, só a vontade sôbre-humana o tinha de pé. Era já uma existência feita de ressurreições, um ideal galvanizando um cadáver.
Dizia-nos êle, quási no fim: Não duro muito; aproveitem-me.
Morria daí a meses.
Não há uma íntima e dolorosa afinidade entre a alma quebrantada dum povo, baldadamente, durante séculos, evocando um Messias, e a breve aparição dum redentor, miragem súbita, que mal se desenha se desfaz?
Tal a árvore-espectro, frutos de aurora sonhando, caveiras torvas produzindo, que um dia gerou, milagre de amor! o pomo de oiro deslumbrante, e o viu desprender, esbroando em cinza, do galho nú, do ramo estéril de esqueleto...
Árvore nocturna, a morte gira-te nas veias, e os frutos de Ideal que tu concebes já trazem no âmago, quando nascem, as larvas deletérias do sepulcro...
Desiludido, assim o creio por vezes. Depois a um golpe de sol, o Quichote revive, exalto-me de novo, de novo espero... Florinha azul, beijo de Deus,--divina Esperança...
* * * * *
Escrevi há ano e meio as páginas que aí ficam. Tencionava completá-las, documentando-as. Inútil. O inquérito definitivo à montureira circundante é a ferro e fogo, não a pena e a tinta, que deve executar-se.
Ampliarei ainda estas anotações com o protesto que foi dado a lume, quando o govêrno tolheu a homenagem a Guilherme Braga. É um rápido exame dos planos últimos da monarquia. Por isso o transcrevo. Ei-lo:
O govêrno proìbiu a manifestação anti-jesuítica, que hoje deveria realizar-se no cemitério de Agramonte em volta da campa do grande poeta Guilherme Braga.
Os jesuítas são o auxiliar da monarquia. Atacando-os, atacamos o Rei. O ministério não o permite. Não há que estranhar. É lógico.
Desde a crise do _ultimatum_ inglês, que tanto podia significar uma onda de vida nova como o estertor dum moribundo, resvala a nação, dia a dia, ao letargo estúpido da indiferença. Estará morta? Estará cataléptica? O futuro, breve talvez, o vai dizer.
Mas na opinião do mundo, já Portugal não existe. Dura, mas não existe. Dura geográficamente, mas não existe moralmente. A Europa já considera isto uma coisa defunta, espólio a repartir, iguaria a trinchar. Salva-nos da gula dos comensais a rivalidade dos apetites. No dia em que se harmonizem devoram-nos.
Como resistir? pela fôrça física? impossível. Não há balas nem libras, não há ouro nem ferro. Qual o meio então? Um único: a fôrça moral. Não vale tudo, mas vale alguma coisa. Na balança da realidade efémera, os canhões pesam como bronze, e o Direito e a Justiça pesam como ar. Sim; às vezes, não sempre.
Houve profetas que domaram leões: mártires que aterraram algozes. E quando um homem ou um povo sucumbem altivos em nome da verdade, êsse homem ressuscitará nas consciências, e êsse povo ressuscitará na História. O justo, expirando na Cruz, ao terceiro dia levanta-se do túmulo. O covarde, mergulhando em lôdo, em lôdo agoniza e em lôdo se transforma.
Qual era, pois, a grande missão de um govêrno em Portugal? Fazer de quatro milhões de espíritos um só espírito, juntar quatro milhões de vontades numa só vontade. Raios de luz divergentes, aquecem; convergentes abrasam. Um cento de meias abnegações individuais perdem-se, quási estéreis, na indiferença colectiva. Não mudam aos olhos da Europa a fisionomia portuguesa. Mas a abnegação e o sacrifício de todos, a comunhão unânime e grandiosa num ideal de Justiça, num ideal de Pátria, transfigurar-nos-ia por encanto, de povo de chatins em povo de heróis, de mortos com direito ao cemitério, em gente viva com direito ao pão, com direito à luz.
E o problema religioso, nada mais singelo: na esfera do pensamento, liberdade absoluta; na esfera dos actos, tolerância recíproca.
O povo dos campos mantêm a sua fé tradicional. Quando se dirige a Deus precisa ainda uma língua: o Padre. Faltando-lhe a hóstia, falta-lhe Cristo. Levando-lhe a igreja, levam-lhe o Céu.
O Catolicismo é roble caduco, mas nos galhos exangues, de verdura pálida, inúmeras aves inocentes gorgeiam ainda, fabricam o ninho em que adormecem. Não lancemos o machado ao tronco do roble, sem dar aos corações ingénuos, que o povoam, outra verdura calma onde se abriguem. O mundo róla no infinito; no infinito deve igualmente girar o espírito do homem. Ai dos que vivem só na terra, olhando o horizonte com o olhar da carne! Êsses não vivem. Andam kilómetros e contam horas, mas o Espaço é a jornada da alma e o Tempo a hora eterna que não finda. O homem sem o ideal sôbre-humano, regressa à bestialidade donde veio.
Se o cavador miserável não comunga em Cristo senão pela hóstia, que a hóstia lhe seja oferecida, mas cândida e branca, em mãos de misericórdia e de pureza. Organizem um clero nacional e cristão, evangelista pela virtude, embora católico pelo dogma. Varram da Igreja a estrumeira política; para bispos escolham santos, e a questão religiosa desaparece num momento. Spinosa ou Schopenhauer entender-se-iam muito bem com S. Francisco de Assis.
Porêm, os homens que há muito dirigem os destinos da Nação, últimas varreduras do constitucionalismo agonizante, quási sempre democratas vazios aos vinte anos, e cínicos redondos aos quarenta, são incapazes de um plano de govêrno, gerado numa filosofia superior, amoldado a uma razão prática luminosa e traduzido em factos, por uma vontade inabalável e contínua. Que êles, francamente, visam apenas salvar o seu interesse, o seu egoismo e as suas lantejoulas de medíocres.
Conservam a realeza no intuito de se conservarem a si próprios. Mas uma realeza moribunda só entre mortos alcançará reinar. Fazer do País um cemitério de almas, eis o problema. As associações protestam? Dissolvidas. Os clubes ameaçam? Trancados. As Côrtes incomodam, às vezes? Suprimem-se. Os jornais irritam? Cadeia. Todo o obstáculo, desfazê-lo: se é venalidade, pela compra; se é moralidade, pela tirania. Há consciências que se indignam? Prendam-nas. Há gente que se revolte? Fuzilem-a. Ordem! muita ordem! Quer dizer: Silêncio! Digerir e calar. O País inteiro uma campina raza, e nela manobrando, ovante e livre, o general Queirós. Olhai: galopa de Norte a Sul e nem um montículo para surpresas, uma ravina para emboscadas. Planura perfeita: bem chã, bem unida e bem morta. Vivos, a municipal e a polícia.
Receio, pois, de quem? da burguesia liberal? Por via de regra o burguês, liberal ou não, traz nos intestinos um polícia ingénito: o mêdo. Anda guardado.
Receio do operário? O operário português é sofredor e humilde. A grande indústria concentra-se em Lisboa e Pôrto, onde a polícia usa revólvers e a municipal Kropatcheks. Contudo, a maré do socialismo invade, formidável, os parlamentos europeus. À cautela, proteger S. Bento. Decreta-se uma lei, inutilizando o voto ao operário: eleitor, às vezes; elegível, nunca.
Receio do exército? Lisongeá-lo... e diminuí-lo. O exército é a municipal.
Óptimo. Só fica uma nuvem negra: os campos, a plebe da enxada. Horda infinita. Na alucinação da miséria, quem a há-de conter? O Queirós? O Graça? Não chegam. Só um Queirós em cada aldeola, um Graça em cada freguesia. O perigo, enorme, vem daí. Meio milhão de esfarrapados com êste general--a Fome, tornam-se invencíveis. Existe apenas um recurso: Deus. Muito bem. Trate-se com Deus.
_Il y avec le ciel des accommodements_. Há efectivamente. Mas conforme o céo, e conforme o Deus. O Deus dos Evangelhos, por exemplo, é um Deus esquisito, não presta. Leva à submissão, nunca à ignomínia. Capaz de gerar um mártir, nunca um hipócrita. Depois, a sua doutrina igualitária, em certos temperamentos, cria alucinados, produz rebeldes. O Niilismo é filho bastardo de Jesus. E êle, o próprio Deus, numa crise de cólera, não desatou às chicotadas? Com o Deus do Calvário, abrigo de humildes, redentor de plebes, um homem de estado, espelho de cordura, não deve entrar em negócios. Arrisca-se.
Quer-se um Deus maleável, arguto, scéptico, inteligente: o Deus da Companhia de Jesus. Ora aí está um Deus civilizado, sem preconceitos, útil a um govêrno. Instruído e metódico, ambicioso e cauteloso. Boa educação, boas maneiras, limpeza de roupas, latim excelente.
Sabe catequizar uma duquesa ou fanatizar uma peixeira. Dispõe de infernos com lavaredas de fogo ou lavaredas de gaze, de céus confortáveis para gente rica e céus de quinto andar para a canalha. Harmoniza o lausperene com a quermesse, S. Carlos com Santo Inácio, um sermão com um baile, e o Espírito-Santo da Igreja de S. Luís com o tiro aos pombos na tapada da Ajuda.
Por isso a monarquia firmou aliança com o Jesuíta, e o Jesuíta vai esburacando o sub-solo moral da pátria portuguesa. Alastrou, minou, furou sem ninguêm ver. Debaixo da terra. Agora aparece. Caminhou na sombra, de joelhos, como um larápio. Agora mostra-se. Mostra-se e desafia. A rêde escura da sua influência abrange a área da nação. Colégios e conventos em todas as cidades, em todas as províncias. Levantou baluartes, estratégicamente, escolhendo o terreno. Julga-se inexpugnável. Manobra à luz, desfila em batalhões, forma em revistas. É a guarda municipal da consciência portuguesa. O seu Deus corresponde-se com o ministério, tem entrada na côrte e verba no orçamento.
Perguntarão: Se o govêrno dispunha do clero, por que chamou o jesuíta? Se havia de casa o abade, por que recorreu ao missionário? É que o abbade, desmoralizado pelo constitucionalismo em sessenta anos de tranquibérnia eleitoral, perdeu, lentamente, aos olhos do camponês, o carácter augusto de intermediário de Jesus. O missionário, ainda não.
E eis aí porque o govêrno pactuou com o jesuíta, e nos inibe de responder, como desejávamos, àquela entrudada grotesca de Santo António, que durante semanas emporcalhou as ruas de Lisboa. Carnaval sacrílego! A humildade, a virtude e a pureza do sublime franciscano, enxovalhadas e calcadas em correrias de titeriteiros e de bêbedos! O discípulo cândido da mais angélica alma que ventre materno deu à luz, exposto a glorificações mercenárias, a apoteoses aviltantes! Para celebrar a dôr, foguetórios e músicas! Para celebrar a mansidão, toiradas e baionetas! Para celebrar a renúncia, jogos e toiros, galopes e clarins! Um banquete suntuoso, uma raínha constelada de jóias, convivas em fardalhões auriluzentes, damas cobertas de brocado, na mesa opulenta uma hecatombe luculiana, e um burguês anafado e ventrudo, ao dessert, copo de champagne na mão, erguendo um brinde (com arrotos), à doçura, à singeleza evangélica do amigo do _Poveréllo_, de Santo António de Lisboa! E não fulminou Deus o animalejo estercorário!
E, por fim, aquela debandada de entremez eclesiástico, em que os padres de Jesus, loucos de terror, cegos de covardia, largavam da mão as coroas e as insígnias, para melhor se escapulirem, desordenados e fedorentos.
Iremos a Agramonte, iremos silenciosos, a um e um, esconder em flores o túmulo modesto dêsse belo poeta, a quem a sociedade, em troca do Génio, doou amarguras e vilipêndios. Tardia romagem da nossa indesculpável ingratidão. E, emquanto a protestos ruidosos, só um a fazer. Mas êsse deve fazê-lo a nação inteira, e sem pedir licença aos governantes. Protesto único e definitivo, donde resulte uma sociedade virtuosa e nobre, equitativa e harmónica, impregnada, nas leis e nos costumes, da moral sublime de Jesus, e refractária, portanto, à moral ambígua do Jesuíta.
* * * * *
Eis aí, em síntese, a obra do rei e do govêrno. Obra de estupidez, obra efémera. Imbecis. Conhecem, da Eternidade, o minuto em que jantam, e, do Espaço, as dôze cabeças de comarca onde fazem bulha. Raciocinam com os pés, com as mãos, com os olhos, com os ouvidos, com o estômago. No crânio, farelos. Supõem-se grandes, e não existem. Mandam, decretam, dão ordens, e não existem. Só espiritualmente se existe, vivendo no infinito, e êles, espiritualmente, moram no vão duma escada.
E julgam, os idiotas, salvar o rei! Por que forma? Já o disse: tornando o país um cemitério de almas. Dinastias agonizantes querem vasalos defuntos. Entre quatro milhões de cadáveres um ventre com duas pernas, dois braços, uma abóbora nos ombros e uma espada na mão, a distância, movendo-se, ilude ainda: parece gente. Rodeiam-no baionetas, cavaleiros o guardam. Contra quem? contra os mortos. Invencível então, não é verdade? Perdido, inteiramente perdido. Se os mortos ressurgem, êle evapora-se. Se tudo é findo, se os Lázaros se não levantam, quando chegarem os corvos, principiarão por êle o seu banquete. Ou devorado pela nação, ou devorado pelo estrangeiro. A nação acorda? É o exílio. Submete-se? É que está morta, e, das nações que morrem, as nações vivas se alimentam.
Mas, por emquanto, folga. O dia de hoje pertence-lhe. O estado é o rei. Cidadão há um único: D. Carlos. Os deveres são nossos, os direitos, dele. É dele o meu pensamento, é dele a minha bôlsa, é dele a minha vida. Estrangula-me as ideias, arromba-me a gaveta, ou corta-me o pescoço, conforme queira. A justiça é um relógio que êle atrasa, adianta ou faz parar, segundo lhe dá na vontade. Decreta a Lei e nomeia o Juiz. O parlamento é o seu capricho. Entre uma toirada e uma ferra, escreve ordenações com uma navalha. O país é D. Carlos. Seja. E quem é D. Carlos? Aí vai um retrato que é um libelo:
_Tôrre do Outão_. Esta primeira fantasia régia de sua majestade importou em duzentos contos de réis, ou mais, subtraídos ao tesouro. Jurídicamente, um crime. Artísticamente, uma indecência.
_Exéquias de D. Luís, mandadas celebrar pelo município de Lisboa, capital do reino_: Sua majestade, apesar de convidado, não quis assistir. Foi-se aos coelhos para o Alfeite. Se vagueiam no ar as almas dos que morrem, a de D. Luís I, nesse dia, chumbou-a porventura, ao levantar da hóstia nas exéquias, a filial escopeta do Snr. D. Carlos.
_Ultimatum inglês_: Roubados e insultados. O país protesta, num vigoroso movimento de indignação e de cólera. Uma criatura houve que ficou impassível: o rei. Não teve aquela mão um gesto de furor, não encontrou aquela bôca uma palavra de altivez. No dia seguinte, em carro descoberto, charuto a arder, expunha D. Carlos, na Avenida, aos transeúntes atónitos, a inconsciência lôrpa da sua figura habitual.
_Convénio inglês_: O art. 75.^o da constituìção do reino diz o seguinte: _O rei é o chefe do poder executivo e o exercita pelos seus ministros de Estado. São suas principais atribuìções_: § 8.^o _Fazer tratados_. Bem. De duas, uma: ou o rei conhecia o convénio que o Snr. Barjona negociava em Londres, ou não o conhecia. Naquela hipótese, todas as injúrias, todos os doestos, toda a lama aviltante, que a nação, às mãos ambas, arremessou ao convénio, cáem, de chofre, em sua majestade. Se era alheio ao convénio, alheio e indiferente a um acto nacional, de vida ou de morte para a honra da pátria, então ou sua majestade é um miserável ou sua majestade é um irresponsável[6]. Daqui não há fugir.
Chegam a Lisboa as bases do convénio. O Snr. D. Carlos em 21 de Agosto de 1890, ao procurar nos jornais o anúncio dos teatros, viu-as naturalmente, viu-as de-certo. Ignorância, agora, não a pode alegar. Conhecia o crime. Que fez? Abram as _Novidades_ de 22 de Agosto. No artigo editorial, violentíssimo, há êstes períodos:
«Na história da nossa decadência, levantou-se um novo e ruìnoso padrão. O tratado do Snr. Hintze Ribeiro segue-se nesta série lamentosa ao tratado de Methwen, e deixa-o no escuro.
Em nossa honra e consciência, diremos alto e bom som: o tratado firmado em nome de Portugal com a Inglaterra é um padrão de imperecível ignomínia, e o dia, em que o seu texto completo fôr publicado no _Diário do Govêrno_, deverá ser considerado por todos os cidadãos amantes do seu país como um verdadeiro dia de luto nacional.»
E mais adiante, na 3.^a coluna, sob o título--_As festas em Sintra_, _o Rally paper_, _o Baile_,--escreve ainda o mesmo jornal:
«Conforme estava anunciado, realizou-se ontem em Sintra, nos terrenos da Granja do Marquês, o _Rally paper_. Perto das 3 horas chegaram el-rei e a raínha num _landeau_ à Daumont, acompanhados pela Snr.^a D. Josefa Sandoval, veador António de Vasconcelos e oficial às ordens A. de Serpa.»
Segue uma comprida nomenclatura de altos senhores e nobilíssimas damas, que, em volta do rei, tomaram parte na função.
E conclue a notícia:
«Na retirada, suas majestades vinham em carro descoberto, escoltados por todos os jogadores que tinham entrado na partida, e seguidos por mais de duzentas carruagens descobertas, conduzindo tudo o que há de mais elegante em Sintra.»
E eis aí como o rei de Portugal e tudo que há de mais elegante em Sintra encaravam a imperecível ignomínia do tratado de 20 de Agosto de 1890. Hipp, hipp, hurrah! God save the King! Viva Salisbury! Viva D. Carlos! Que imundície!
Sua majestade, ainda à última hora, doente, no castelo da Pena, queria a recomposição do gabinete Serpa, isto é, mantinha o convénio. Foi o Snr. João Crisóstomo quem determinou a queda do govêrno, afirmando ao rei que, se êle insistisse, a revolução era inevitável.
Sintetizando: O tratado de 20 de Agosto, no juízo da imensa maioria do país, quási a unanimidade, significava a última das afrontas, a última das vergonhas. Pois o Snr. D. Carlos deixou-o negociar, no dia que êle chegou a Lisboa celebrou uma festa, sustentou-o meses contra a vontade clara da nação, largando-o apenas, humilhado, diante das baionetas e da revolta.
O país, rasgando-o, rasgou-lho na cara.
_Revolta do Pôrto_: O Verbo era de luz. Encarnou mal. Daí o desastre. A lava purpúrea, não abrindo cratera, rompeu, angustiosa, por uma fenda. Colem o ouvido na montanha: há trovões lá dentro. Um dia dêstes será vulcão. Adiante...
O município do Pôrto, em 12 de Fevereiro de 91, dirigiu ao rei uma mensagem. Copio dela estas frases:
«Não basta repelir e condenar os factos, é mister, mais que tudo, inquirir das causas que os tornam possíveis e mesmo fáceis. E a consciência nacional, interrogada, responde sem hesitar que erros de muitos anos; abusivas tolerâncias em toda a espécie de deveres sociais e públicos; quebras freqùentes de disciplina, tanto na classe militar como em toda a ordem de serviços públicos; relaxação no cumprimento das obrigações de cada um; irresponsabilidade freqùente para faltas de toda a ordem; deploráveis complacências acobertadas com o que abusivamente se chama a doçura dos nossos costumes, tais parecem as causas gerais que permitiram e facilitaram tão deploráveis acontecimentos. E a câmara municipal do Pôrto, neste momento intérprete dos sentimentos da cidade, entende que faltaria ao seu dever, se não chamasse a atenção de V. M. sôbre êstes males, que é dever de todos os cidadãos, desde a mais elevada gerarquia à mais humilde condição, combater e destruir a todo o custo, se quisermos salvar a nossa pátria do inevitável naufrágio das nações que chegam a semelhante estado.».
(Extracto da representação da Câmara do Pôrto ao Rei, em 12 de fevereiro de 91.)
Eis agora o extracto da resposta do Snr. D. Carlos: