Part 5
E entram degolados, arquejando arrancos, Três fantasmas, vêde-os! com sudários brancos!...
SCENA XVIII
O ESPECTRO DE D. MARIA I, _louca, furiosa, delirando_:
Meu pai!... meu pai!... meu pai!... meu pai!... Castigo eterno, chamas do inferno!... Meu pai!... meu pai!... Olha os diabos... olha os diabos... Coriscos os cornos, serpentes os rabos!... Ui! o marquês!... ui! o marquês!... Num caldeirão em brasa, a derreter em chumbo, a ferver em pez! Vão-me coser! já estou a arder! já estou a arder!... Kyrie Eleyson! Kyrie Eleyson! Kyrie Eleyson! Miserere nobis! ora pro nobis! Jesus! Jesus! Jesus! Jesus! Levem a purga!... levem a seringa!... não me quero purgar! Não me quero purgar... não tenho ventre... sou feita de ar... D. Rosa! D. Rosa! ó D. Rosa!!... Acode depressa! anda depressa, que me deitam ao mar!...
Desaparece.
O DOIDO, _na escuridão_:
Satanás, zombando, fez um rei de espadas, Fez um rei de espadas com um cão tinhoso; Com o cão tinhoso fez um sapo coxo; Com o sapo coxo fez um porco bravo; Com o porco bravo fez um bode d'oiro; Com o bode d'oiro fez um corvo negro; Com o corvo negro uma galinha doida... Ko-ko-ro-có! Ka-ka-ra-cá?!... A galinha doida que é que parirá?!...
SCENA XIX
O ESPECTRO DE D. JOAO VI:
Toca a sentar! deixa sentar esta carcassa, Já roída do bicho e comida da traça! Um corpo que pesou talvez seus dois quintais, Ou mais, Hoje é isto! olha lá, mira-me bem em tôrno: Uns vinte arráteis d'osso e outros tantos de corno! P'ra que diabo é que Deus fez a alma imortal, Não me dirão?! O corpo, acho eu natural Que engordasse e medrasse em paz na eterna glória; Mas a alma! ora cebo! Uma alma incorpórea, Sem bôca, sem nariz, sem barriga, sem nada, Que não come um leitão, nem funga uma pitada, Deus me perdôe a asneira, uma indrómina assim, Inda que êle a engenhou, não me convêm a mim! A morrer por morrer, antes a alma; em suma, O desgôsto era leve, a perda era nenhuma. E o corpo desalmado, escorreito e perfeito, Êsse é que Deus com todo o geito O devia levar, dando-lhe a eternidade, P'ra comer como um porco e roncar como um frade. Neste mundo em que'stou, nesta vida infinita, Grande falta me faz a barriga, acredita! Os miolos, já não... E, caso estranho, agora Penso muito melhor do que pensava outrora... Dão-me ideias! que espiga!... Atribuo tais factos A andar-me na caveira uma porção de ratos. Ideias!... Qual a ideia humana, por sublime, Que se compare ou se aproxime Dum peru com arroz, bem gordo e bem tostado?! Que é a vida? jantar! E a morte? ser jantado! Comer ou não comer, eis a eterna questão. Mas comer com descanso e com satisfação. Comer em paz; sem um remorso e sem fadigas. Nada de inquietações mortais, nada de brigas! Temor a Deus, mesa de abade, cama quente E rir a gente! Eu fui um infeliz como não há segundo, Um malaventurado aos tombos pelo mundo! A mulher uma cabra; os filhos um veneno; Sustos; o hemorroidal, vê lá, desde pequeno! E não parar! sempre em bolandas, sempre à tôa... Que vida! E como a vida, apesar disso, é boa! Oh, cantochões em Mafra!... oh, merendas no Alfeite!... Oh, séstas de Queluz em Junho!... Que deleite!... Manda ao demónio a guerra, a mulher e os cuidados! Enfardela-me aí cem milhões de cruzados Em peças d'oiro, assina o que tens de assinar, Veste o capote, leva a c'roa e põe-te a andar! Deixa os ingleses... Fracas bêstas!... raça vil!... Muda-te p'ró Brasil... Muda-te p'ró Brasil! Fruta maravilhosa e súbditos leais... Eu, no teu caso, até não voltava cá mais. E o povo, adeus!... que se governe... emfim, paciência... E cá lhe fica, que mais quer? a Providência!... ......................................................... Boas noites... É tarde... o sepulcro me chama... Vou-me deitar... Que fria e triste a minha cama! Gêlo e chumbo!... Os lençóis, farrapos com matéria, Nem me tapam sequer os ossos, que miséria! E depois sôbre mim, em cardumes, aos centos, Pulgas da eternidade, os vermes fedorentos! Ai, no jazigo escuro, a esfarelar-me em pó, Consola-me uma ideia única, uma só: Não tornar a sofrer (oh podridão calada!) Nem de hemorróidas, nem de gases, nem de nada!...
Desaparece.
O DOIDO, _na escuridão_:
Que noite escura! Que noite escura! Bramem as ondas cavernosas... A grande armada vai largar... Oh, a armada do rei!... oh, as naus pavorosas Na escuridão, turbilhonando, a baloiçar!... São esquifes mortuários, São féretros com velas de sudários, Tumbas negras nas ondas a boiar!... Ai que gemidos, que alaridos De multidões na praia, olhando o mar!... Lá vem o rei... lá vem a côrte... e luzes, luzes De brandões, de tocheiros a sangrar... Vai a embarcar?... vai a enterrar?... Não trazem cruzes, Nem há sinos por mortos a dobrar... Oh, a lúgubre, estranha comitiva A bandada de espectros singular!... É gente morta?... é gente viva?... Procissões de defuntos a marchar!... Cortesãos, cavaleiros e soldados, Tudo esqueletos descarnados, Olhos de treva e crânios de luar!... Ladeiam côches fúnebres doirados... São os côches d'El-Rei... vai a enterrar?... Lá se apeiam as damas das liteiras... Gestos de manequins, rir de caveiras... Fitas e plumas sôltas pelo ar... Olha a raínha, vem em braços, morta e doida. Morta e doida a clamar que a vão matar!... E o rei!... olhem o rei!... que rei de entrudo!... Um porco em pé, com manto de veludo E c'roa na cabeça, a andar, a andar! Mas reparem... tem cornos! é cornudo! Dois chavelhos de boi no seu logar! Um rei, que é porco e tem chavelhos! Um rei, que é porco e tem chavelhos! Que fantasia! enlouqueci... ando a sonhar!... Mas bem no vejo! eu bem no vejo, C'roa de rei, tromba de porco e chifres no ar!... ................................................. Cái de rastros, chorando, o povo inteiro, Beija-lhe a côrte as patas e o trazeiro... E êle a grunhir! e êle a roncar!... ................................................. Lá vão as naus... lá vai o rei com seus tesoiros... E lá ficam na praia, como agoiros, As multidões soturnas a ulular!... ................................................. ................................................. Olha uma águia rubra, uma águia bifronte, Incendiando o horizonte, A voar, a voar, a voar!... Ai dos rebanhos!... ai dos rebanhos!... Águia de extermínios, onde irás poisar?!
SCENA XX
O ESPECTRO DE D. MARIA II:
Inclina um rei perante um rei (somos iguais) A realeza. Perante um vassalo, jàmais! O monarca ao monarca (é irmão com irmão) Dobra o orgulho sem infâmia; o rei ao povo, não! Assina, e já! Príncipe vil, que se amedronte, Usa, mas sem direito, um diadema na fronte. Povo em rebelião, não é povo, é canalha. Beija-te os pés?--indulto. Ergue o braço?--metralha. Faltam soldados e clavinas? Pouco importa: El-Rei de Espanha os mandará; tem-los à porta
Desaparece.
O DOIDO, _na escuridão_:
Tremia a raínha de me ouvir cantar... Oh, loucura minha, desventura minha! Cantigas são asas, fazem-nos voar... Mandou-me prender, mandou-me espancar.
E eu desatei a rir, eu desatei a rir, E três dias cantei com mais três noites a seguir!...
Não dormia a raínha de me ouvir cantar... Oh, loucura minha, desventura minha! Cantigas são graças para não chorar... Mandou-me prender, mandou-me enforcar.
Chegaram as tropas e eu, desarmado, Zás! desbaratei-as com o meu cajado!
E pus-me a cantar! e pus-me a cantar!
Tremendo, a raínha disse então ao rei: «Emquanto o não matem não descansarei. Com teus cavaleiros vai-mo tu buscar, Traz-mo aqui de rastros para o degolar.»
Veio o rei à frente dum grande estadão, Zás! desbaratei-o com o meu bordão! É de temer, é de temer Um doido varrido com um pau na mão!...
E sempre a cantar! e sempre a cantar!
Então a raínha, vileza traiçoeira! Chamou inimigos d'alêm da fronteira... E tantos! e tantos!... Que havia de eu fazer?... Quebrei de raiva o meu bordão e deixei-me prender...
Levado de rastros aos pés da raínha, Cuspiu-me na cara! Oh, vergonha minha! por fortuna minha, Melhor me matara!... melhor me matara!... O gôsto que teve durou-lhe bem pouco... Foi ela que morreu!... foi ela que morreu!... Vi-a passar já no caixão, ia a enterrar... E sabeis o que eu fiz? (o que é ser louco!... o que é ser louco!...) Desatei a chorar!...
SCENA XXI
O ESPECTRO DE D. LUIS
Que remédio, meu filho! assina tudo... assina tudo... Glória, Pátria, Dever, Bom de dizer! Assina tudo e vai andando... vai andando... Do mister de reinar, que Deus te deu em sorte, Faz, como eu fiz, modo de vida e não de morte. E a vida é boa! A alegria do sangue, os regalos da C'roa, A mulher, o charuto, o livro, o leito, a mesa, Lista civil, paz e descanso... Com franqueza, A vida é boa, e vale a pena de a gozar, Como néctar precioso e raro,--devagar! Com um pouco de astúcia, um pouco de bondade, Covardia risonha e indolência de frade, Conseguirás viver alegríssimamente Até ser posto de escabeche em S. Vicente. E, se o destino te arrancar o scetro, vai-te embora Filosóficamente, sem demora, Dedicando no exílio uns ócios eruditos A traduzir em português os meus escritos...
Vae a saír e retrocede.
É verdade, Pedro faltou... faltou... não veio... Pedro! meu pobre irmão! Acordei-o, chamei-o, Quis levantar-se, ergueu a fronte, abriu o olhar, Exalou um suspiro... e tombou a chorar!...
Desaparece.
O DOIDO, _na escuridão_:
O reino é podre... o rei é podre... Oh, que fedor! oh, que fedor! Quando a planta apodrece, a podridão Germina em margaridas pelo chão... Quando apodrece a carne, a sepultura Touca-se de verdura... Lepras e pus, chagas e cancros Dão jasmineiros, dão lírios brancos... Mas do reino e do rei apodrecido, Oh, que fedor! oh, que fedor!... que tem nascido? Mais podridões a fermentar, Envenenando a terra, envenenando o ar. A gente morreu toda envenenada... É côr de sangue a lua, é de crepe a alvorada!... Desfolharam-se os bosques pelos montes, Há nas rochas gangrena, há peçonha nas fontes! Destruíram-se os ninhos E emigraram, chorando, os passarinhos! Vivo, só eu fiquei neste monturo De lôdo escuro! O reino é podre... o rei é podre... tudo é podre... Oh, que fedor! oh, que fedor!...
O REI, _volvendo a si, atónito e desordenado_:
Olho e custa-me a crer!... tonto!... a cabeça vária, À roda... Já nem sei... Que noite extraordinária!... Que noite!... aparições, visões, trovões, um pandemónio De inferneiras, de bruxarias do demónio!... Eu 'starei doido ou 'stou sonhando?!... Que aventura! oh que aventura Monstruosa!... Perco a razão... foge-me a vista... O ladrão do maluco e o diabo do cronista Deram-me volta à cachimónia, esfutricada Já de tanto banzé e de tanta noitada!... Quem pudesse dormir!...
Vendo o pergaminho:
Assinemos de vez Esta léria...
Assinando e chamando:
Marquês!
Aterrado, em altos gritos:
Marquês! marquês! marquês! Raios os partam! ninguêm ouve... tudo dorme!... Sòzinho!!...
O DOIDO, _na escuridão_:
Oh, que fedor!... oh, que fedor!...
O REI:
Ah, o mostrengo enorme, Eu lhe darei a cantilena!... Para agoiros, Quatro estoiros à queima-roupa! quatro estoiros!
Surge o espectro de Nunalvares, vestido de monge carmelita. O rei desfalece de novo. Os cães investem, mas, diante do olhar sôbre-humano do condestável, recuam trémulos, como obedecendo a um fluído mágico.
O ESPECTRO DE NUNALVARES:
Por teus avós chamaste. Um falta ainda, Falta a raíz da árvore de morte, Que em ti, vergôntea exausta, expira e finda.
Oh, miseranda, lastimosa sorte, A dêste coração desbaratado, Que outrora se julgou tão puro e forte!
Deu com êle a gangrêna do pecado, Qual um bicho escondido que apodrece Um deleitoso fruto embalsamado.
Nada valem tenções, nem vale a prece: É das obras que vem à criatura O galardão e a pena que merece.
Não acuso de ingrata a sorte dura; Volvo-me contra mim únicamente Em meu desassossêgo e má ventura.
Tamanino inda eu era, inda inocente, Alma cândida e pura, como a rosa Aberta junto d'água ao sol nascente
Quando uma noite uma visão fermosa Me aparece e me diz com voz divina, Ao mesmo tempo clara e misteriosa:
«Li numa estrêla d'oiro a vária sina Que a esforçadas, magnânimas empresas E a feitos não obrados te destina.
Mas que valem altíssimas grandezas, Mas que valem as pompas e as vitórias, Se a mundano desejo andarem presas?!
Só da fé, só do bem quedam memórias; Tudo o mais é poeira, um vão ruído, Uns tumultos de sombras ilusórias...
Cavaleiroso coração ardido A grande termo levará seus feitos, Quando ponha em Jesus alma e sentido.
Melhor que duro arnez, defendem peitos Virtude adamantina e graça clara, Com que Deus abroquela os seus eleitos.
Sê casto como a luz beijando a seara, Firme qual entre as ondas o rochedo, Manso como ovelhinha em pedra d'ara.
E, como o sol d'Abril veste o arvoredo, D'armas resplandecentes vestirás O teu corpo d'herói, viçoso e ledo.
Só pela Pátria e Deus batalharás. De tua larga mão caiam na terra, Num gesto grande a beatitude e a paz.
Seja neve dos píncaros da serra Teu limpo coração, bondoso e humano, Quer na tranqùilidade, quer na guerra.
A tirania ao fim pune o tirano. Contra o injusto volta-se a injustiça, E a maldade é aos maus que faz o dano.
Arreda para longe ódio e cubiça; Contra fero inimigo um bravo alento, Contra amargura e dor alma submissa.
Viva dentro da carne o pensamento, Na pureza da virgem confinada Dentro da cela branca dum convento.
E a carne exultará transfigurada, Qual a nuvem escura em céu ligeiro, Em lhe batendo a luz da madrugada.
De tal guisa, vencendo-te primeiro, A todos vencerás como um leão, Formidável e nobre cavaleiro.
E de Cristo e da Pátria em defensão Brilhará tua lança como um raio, Mandará tua voz como um trovão!»
Assim falou (se me abalou julgai-o!) A graciosa visão, que se desfez Pouco a pouco em suavíssimo desmaio.
Donzel eu era já, quando outra vez As mesmas falas ela, de improviso, Me repete co'a mesma candidez.
Todo cheio de lágrimas e riso, Num enlevo quedei, numa ansiedade, Mais que da terra já, do paraíso.
E à celeste, benéfica deidade Jurei suas razões maravilhosas Puramente cumprir e de vontade.
Jurei que nunca minhas mãos culposas Mulher manceba haviam de tocar, Feita que fôra de luar e rosas.
Jurei, unido em Cristo à luz do altar, Pôr batalha de morte a meus desejos E meus vícios da carne assossegar.
Anos do mundo, breves ou sobejos, Fadigações da vida tão mesquinha, Com seus ais, com seu pranto, com seus beijos,
Tudo votei sem pena e bem asinha À cruz do Redentor e à cruz da espada, Ao meu Deus verdadeiro e à pátria minha,
Jurando guardar sempre, e bem guardada, [~U]a alma pura em natureza pura, Qual em âmbula d'oiro hóstia sagrada.
Ai, de mim! ai, de mim! faltei à jura! Ai, de mim! ai, de mim! porque uma peste Logo te não queimou, língua perjura?!
Ah, donosa visão, visão celeste, Bem devera de ter descortinado Naquelas altas falas que me deste,
Que eu, em vício d'amor sendo gerado, Remiria na carne aborrecida Pela grã penitência o grã pecado.
Madre senhora! ó madre estremecida! Antes ficaras tu noiva e donzela, E eu não abrisse o olhar à luz e à vida!
Ó padre carinhoso! ó madre bela! Vossa culpa caíu no vosso fruto, E, com a culpa amarga, o nojo dela!
Queixa não hei de vós; a mim imputo Lástima e dano, que me só provêm Dêste bichoso coração corrupto.
Por vós criado fui, como ninguêm; Vós me guiastes com suave geito, Desde menino a alma para o bem.
Remidor dum pecado eu fôra eleito; Assim mo disse a cândida visão, E mo escreveu com lágrimas no peito.
Quando tu, padre meu, alto varão, Mulher me cometeste, logo ansioso Se me agastou, nublado, o coração.
E toda a noite o arcanjo luminoso Repetindo: Não deixes, filho meu, Glória celestial por triste gôzo!
E a miséria da carne me venceu! Ó padres! perdoai, chorai comigo, Que o vosso algoz tirânico fui eu!
Eis aqui vosso algoz, vosso inimigo; Por mim no purgatório estais sofrendo, E eu sofro, alêm do meu, vosso castigo.
Oh, destino cruel! oh, caso horrendo! A livrar-vos da falta me hei proposto, E sou o Judas negro que vos vendo!
Nem pára aqui meu transe e meu desgôsto. Como de olhar-me, ó sol deslumbrador, Não se te muda em noite a côr do rosto?
Como não gelas, dize, de pavor, Vendo que em fraco peito miserável Cabe tromenta assim de nojo e dôr?!
Ó terra triste! ó céu inexorável! Que ventre de mulher pariu um dia Desaventura a esta assemilhável?!
Nobres guerras armei, como cumpria, D'ânimo afoito a rudes castelhanos, Desbaratando-os Deus por minha via.
Contra seu vão furor, contra seus danos, Batalhei desde a alva alegradora, Ao derribado ocaso de meus anos.
Sangue de irmãos verti... Vertido fôra Novamente mil vezes, sem piedade, Que alma não é de irmão alma traidora.
Pátria minha gostosa, quem não há-de, Em risonho sabor, vida e fortuna Dar por teu livramento e majestade!
Como a de fogo altíssima coluna Vai do povo de Deus na dianteira, Afim que se não perca ou se desuna,
Tal na frente das hostes, sobranceira, Contra duro inimigo acovardado, Tremeu sempre no ar minha bandeira.
É que nela Jesus ia pregado, Jesus, rei das estrêlas, rei do mundo, Meu capitão fermoso e sublimado.
Ordenara, porêm, o céu profundo, Que em tal cometimento era mister Carne sem nódoa e coração jucundo.
E estas mãos (ai do feito em que as puser!) Tocado haviam já, tornadas lama, Com vil desejo, em corpo de mulher.
Fôsse a Virgem celeste a minha dama, Se, como Galaaz, herói invito, Alcançar me propunha honrada fama.
Deus castigou-me o coração maldito: Pois que sôbre êle ainda vem pesando O carrêgo mortal do meu delito.
Ó cidadela da pureza, quando Um vício te faz brecha, sem tardança, Prestes os mais acodem galopando.
Em minha carne, um dia honesta e mansa, Por onde entrou luxúria malfazeja, Entrou ira e soberba, entrou vingança.
Inda me sangue o peito lagrimeja da boa e má tenção, que, desvairadas, Armaram nele horrífica peleja.
Oh, pelejas da alma encarniçadas! São as outras uns jogos inocentes, Com o furor das tuas comparadas.
Anjos d'asas de luz resplandecentes, Séculos dia e noite a batalhar Com demónios, com tigres, com serpentes!
Ah, nem ouso de espanto relembrar Essa guerra feroz, que já não arde, Entre meu crime duro e meu pezar...
Tão animoso, nela fui covarde; Tão vencedor, a miúdo fui vencido, E a vitória, se a hei, me chegou tarde.
Uma noite em que mais me vi perdido, Com afincada raiva e crua sanha Dos demónios ardentes combatido.
A visão me ressurge em forma estranha, E em tão grande e mortal melancolia, Que nunca em mim a houve assim tamanha.
Um longo véu de dó ela vestia, Numa tal soledade e desconfôrto, Que a disséreis a Virgem na Agonia.
Meiga, sem me falar, o olhar absorto Pousou em mim então, como se fôsse [~U]a madre encarando um filho morto.
No seio me verteu, divina e doce, Lagrima d'oiro, e, com suspiro etéreo, Silenciosa esmaiando, evaporou-se.
Ó lágrima de dôr, por que mistério Súbitamente ao ânimo torvado Me deste paz, clareza e refrigério?...
Todo eu me senti purificado: Num ditoso sofrer o meu tromento, Numa pena bemvinda o meu cuidado...
Tal o mísero rei, que vai sangrento De perdida batalha, alfim se lança Em ditoso e profundo acostamento.
Descobrira que a dôr é irmã da esp'rança; E que ao alto perdão, no azul divino, Só a humildade, a rastros, se abalança.
Já liberto de espírito malino, Com as veras palavras de Jesus Assentei de acordar o meu destino.
De mundanários bens fácil dispuz; Que só virtude é oiro, e a mór grandeza Da terra são três pregos numa cruz.
Dentro de mim, numa fogueira acesa, Queimei glória e valor: não ficou nada Mais que melancolia e que tristeza.
Parti a lança; pendurei a espada; Com bordão de pastor ou de ceguinho, Bem andamos de noite esta jornada.
Fama grande do mundo tão mesquinho, Dando às trombetas com ardor, não vôa, Onde vôa, cantando, um passarinho.
E onde há, ó meu Jesus, se a dor te crôa, Se é teu vestido sangue e o vinho fel, Pena digna de nós, que bem nos dôa?!
Sem escudo, sem cota, sem laudel, Minha triste nudez arrecolhida Numa samarra triste de burel,
Determinei findar miséria e vida Lá em partes inóspitas, distantes, Entre gente comum desconhecida.
Êstes olhos, que arderam relumbrantes, Verteriam de dor sangue coalhado, Qual os olhos de Job verteram d'antes.
Êstes pés, que no vício hão caminhado, Manariam gangrêna, já desfeitos, Como os pés de Jesus Crucificado.
Êstes braços, altivos de seus feitos, De logar em logar, côdeas de pão Buscariam, rendidos e sujeitos.
E esta abatida alma de cristão, No cárcere da carne prisioneira, À mingoa mór, à mór tribulação,
Gostosa sorriria e prazenteira, Qual o bom lavrador, em vélha idade, Sorri festivalmente ao pão na eira.
E, já em Deus o espírito e a vontade, Me acolheria às solidões dum ermo, Na derradeira angústia e pouquidade.
Lá houvera afinal benigno termo, Se, em tão grande, humildosa desventura, Prouvera a meu Jesus de conceder-mo.
D'El-Rei me veio o embargo; e na clausura D'A que, chorando estrêlas, nos conforta, Em silêncio, escondi minha amargura.
Vida do mundo, junto dessa porta, Com o rouco fragor que tudo abala, Aos pés, em sombra vã, me caíu morta.
Dir-se-ia que o mar perdera a fala, E a terra se volvera em nuvemsinha, Bastando um ai de dor a evaporá-la.
Já diversa era ali a pátria minha; Que o trono do meu rei era uma cruz, E o chão, banhado em sangue, o da raínha.
Ó Raínha da Angústia! ó Rei Jesus! Venha a nós êsse império onde reinais, Todo amor, todo esp'rança e todo luz!
Venham a nosso peito os vossos ais! A nossas mãos, ó Cristo, os vossos cravos! Maria, à nossa alma os teus punhais!
Venham a nós as chagas, que são favos! Venham tua agonia e teu madeiro, A nós, ó Rei do Céu, a teus escravos!
Dias de soledade e de mosteiro Eu os vivi, na temerosa esp'rança Da alva do meu dia derradeiro.
Esta dôr, que abrandou, que se fez mansa, Ali chorou aos ais, como perdida Num deserto, de noite, uma criança.
E oh, alívio da alma arrependida! Quanto mais afincado era o tromento, Mais nos ombros ligeira a cruz da vida!
Como no ar o vento sôbre o vento, Como no mar a vaga sôbre a vaga, Só na dôr tem a dôr sossegamento.
E com a fôlha nua duma adaga Todo eu me prazia em revolvê-la Dentro do coração a hedionda chaga!
Qual as tuas, Jesus, quisera eu vê-la, De purpurina abrir-se numa rosa, De inflamada acender-se numa estrêla.
Toda imunda, porêm, toda verdosa, Só matéria escorria peçonhenta, Só gangrêna letal, cadaverosa.
E eu a escarnava com a mão cruenta, E eu lhe metia, para não sarar, Carvões a arder na bôca pestilenta.
Mas a Virgem tristíssima, a chorar, Lhe derramava, bálsamo divino, O lumioso perdão daquele olhar.
Era assim, irmãmente cristalino, O da visão angélica e suave, Que amistosa me foi desde menino.
E, a tão cândida luz, meu pezar grave Ia alvorando, como rocha bruta, Que pouco a pouco se fizesse em ave.
Já da úlcera ardente, quási enxuta, Manava um soro apenas, filho ainda, De podridão tão negra e tão corrupta.
Hora do livramento, hora bemvinda, Uma noite, em um sonho d'esplendor, Ma predizeu, chorando, a Virgem linda.
E, abraçando e beijando o Redentor, Sem angústia enfadosa, sem quexume, Dei a alma nas mãos do Criador.
Esbulhada de vício e de azedume, Às regiões celestes foi voando, Como pálida luz solta do lume.
Numa névoa, a boiar, quedou sonhando: Sonho de dôr feliz, dôr sem memória, Névoa d'ante-manhã que vem raiando.
Não era ainda ali perpétua glória; Mas falecera já da vida ausente A remembrança amarga e merencórea.
Sono d'alma levíssimo, inocente, Em músicas de estrêlas embalado, Quem o dormir pudera eternamente!
E um véu de lua cheia, engrinaldado, A Virgem desdobrou, em ar divino, Sôbre a encantada paz do meu cuidado.
Era uma graça, um bem que eu não defino... Jucundo enlêvo... candidez airosa... Num presepe, a sonhar, feito menino...
E uma luzinha ao longe, misteriosa, Cantando-me as canções que me cantava Minha madre no berço, em Frol da Rosa...
Oh, descuidado alívio!... não cuidava Que das culpas do mundo temeroso Esta essência revel jazia escrava.
Deus a espertou do sono deleitoso, E, por mais a punir, inda um momento A banhou, ao de leve, em claro gôzo.