# Pátria

## Part 4

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Senhor, Grande mimo de Deus para um rei caçador! Terra despovoada e morta, sem ninguêm, É terra inculta. Bem, perfeitamente bem. Ora uma terra inculta, (é, meu Senhor, um facto) Não dá vinho, nem pão, nem meloais,--dá mato. E o mato bravo e as brenhas virgens dão a caça Com mais fartura, variedade e doutra raça. Pelos jardins d'agora, em dez anos talvez, Andaremos ao lôbo e ao cabrito montês. Olivedos, vergeis, campos, lezírias, prados Criarão a raposa, aninharão veados. E onde hoje há couves e maçãs, El-Rei, feliz, Galopando a primor, monteará javalis!

Trovão formidando. Um relâmpago lívido abrasa as profundidades cavas do horizonte. As árvores, de súbito, aparecem nuas e hirtas, sem uma fôlha. Dos ramos, batidos do vento, pendem enforcados. Dir-se-iam esqueletos de árvores gente. Nuvens de abutres pairam em volta, crucitando.

O REI:

Pavoroso!

OPIPARUS:

Ora adeus! nada mais natural: A fome trás a morte, os mortos cheiram mal, E o cheirete dum morto, assim dependurado, Para um corvo é melhor que o dum faisão trufado.

O DOIDO, _na escuridão_:

Olha as macieiras que maçãs que dão: Gangrena por fora, dentro podridão!

Lavrador-còveiro, lavrador-còveiro, As maçãs escusam de ir ao madureiro...

Oh, que estranhos figos que há nos figueirais: Mordidos d'abutres!... Figos que dão ais!...

Lavrador-còveiro, lavrador-còveiro, Colhe-me essas bebras que já teem mau cheiro...

Se é fruta de embarque, vai pelo caminho Desfazer-se toda nos caixões de pinho...

Fruta de tal raça, cavador lunar, Só a quer a Morte para o seu jantar!...

O REI:

Dou às vezes razão ao tonto do cronista... Que lhe querem! não é agradável à vista, Por noite negra uma bandada de milhafres, Grasnando e devorando, à maneira de cafres, Uma ceia de carne podre...

CIGANUS:

Que limpeza! Deixe-os comer... deixe-os comer... Varrem a mesa. Mortos e mortos na floresta à dependura, Um açougue... Não há còveiro, nem há cura, Nem tochas, nem latim para tanta carcassa... Os corvos, meu senhor, enterram-nas de graça. Admiráveis glutões, em bambocha funérea Liquidam numa noite a questão da miséria. Jantam-na. Devorado o problema. Afinal Restam ossos; convêm: tem fosfato de cal, Bom adubo... E no entanto o país, meu Senhor, É uma beleza! uma beleza! encantador! Trinta portos ideais, um céu azul marinho, A melhor fruta, a melhor caça, o melhor vinho, Balsâmicos vergeis, serranias frondosas, Clima primaveral de mandriões e rosas, Uma beleza! Que lhe falta? Únicamente Oiro, vida, alegria, outro povo, outra gente. Raça estúpida e má, que por fortuna agora Torna habitável êste encanto... indo-se embora! Deixe morrer, deixe emigrar, deixe estoirar: Dois boqueirões de esgôto,--o cemitério e o mar. Que precisamos nós? Libras! libras, dinheiro! Libras d'oiro a luzir! Onde as há? No estrangeiro? Muito bem; o remédio é claríssimo, é visto: Obrigar o estrangeiro a tomar conta disto. Impérios d'alêm-mar, alquilam-se, ou então Sorteados,--em rifa, ou à praça,--em leilão. E o continente é dá-lo a um banqueiro judeu, Para um casino monstro e um bordel europeu. Fazer desta cloaca, onde a miséria habita, Um paraíso por acções,--cosmopolita. Dar jôgo ao mundo, ao globo! uma banca tremenda! Calculo eu daí uns mil milhões de renda. O comércio, dez mil... O trânsito, sem conta... Cifras, Senhor, de pôr uma cabeça tonta! De minuto a minuto, expressos e vapores, Sempre a golfar carregações de jogadores, Montões de malas, sacos d'oiro, (libras, luíses!) Nuvens de cortesãs, dançarinas e actrizes, Equipagens, _Barnoums_, _touristes_, saltimbancos, Vinte raças,--mongóis, negros, mestiços, brancos, Um ruidoso vaivêm humano que circula, Todo fausto, esplendor, alta luxúria e gula, O mylord, o nababo, a Rússia, a Índia, a América, Numa promiscuìdade esplêndida e quimérica! E todo êste país, éden de regabofe, Iluminado à noite a faróis Jablokoff! Que maravilha! que surpresa! que grandeza! E que tesoiros nesta rica natureza, Cultivando-a a primor! Em logar d'erva e searas, Plantas de luxo: coisas finas, coisas caras. Eu imagino, (dando os máximos descontos) Que o reino lucrará uns trezentos mil contos, Sómente a produzir, ao ar livre e em estufas, Ananazes, faisões, ópio, champagne e trufas.

Relâmpagos e trovões. Paisagem deserta. A nau fantasma, cortada a amarra, bamboleia nas ondas, prestes a largar. Uma sombra disforme, como de ave gigante, voa na escuridão.

O REI:

Um bacamarte! uma clavina! uma escopeta!... Cheguem daí... salta depressa uma escopeta! Salta depressa! que vão ver como rebento Às escuras aquela águia... É num momento Já duma ocasião, (que pontaria a minha!) Com um balásio matei oito: iam em linha. A escopeta, marquês!

CIGANUS:

Não lhe serve de nada; É a bandeira do castelo. Uma rajada Sem dúvida, Senhor, quebrou o mastro e leva Num frangalho o pendão errante pela treva.

OPIPARUS:

Óptimo! de manhã flutuará no baluarte Pendão novo. Tem cinco quinas o estandarte; Uma quina de mais; suprime-se, é evidente: Nos baralhos, Senhor, há quatro únicamente.

O navio fantasma, que levantou ferro, desaparece ao longe.

O DOIDO, _na escuridão_:

Ó nau gigante, ó nau soturna, Galera trágica e nocturna, Que levas, dize, no porão?...

O vento chora sôbre o mundo, Chora de raiva o mar profundo... Que levas, dize, no porão?...

A lua, aziaga e macilenta, Olha-te exânime e sangrenta... Que levas, dize, no porão?...

Asas carnívoras em bando Poisam nas vêrgas crucitando... Que levas, dize, no porão?...

Teu cavername exala miasmas, Teus marinheiros são fantasmas... Que levas, dize, no porão?...

Teu pendão negro vai a rastros, São cruzes negras os teus mastros... Que levas, dize, no porão?...

--Dentro do esquife, amortalhada, Levo uma pátria assassinada, No meu porão!...

O REI:

Êste ladrão do doido irrita-me! é demais! Não se cala, caramba! é demais! é demais! Já não posso... Marquês, se o diabo me enfernisa, Outra noite co'a lenga-lenga; uma camisa De fôrças, bom vergalho, e, sem dó nem piedade, Enxòvia ou masmorra onde grite à vontade.

Abre um relâmpago o horizonte. As carcassas nuas dos enforcados baloiçam ao vento nas árvores despidas. Nem viv'alma. No cêrro dum monte erguem os piratas uma cruz descomunal, manchada de sangue. Uivam os cães.

O REI:

Uma cruz negra alêm!...

CIGANUS:

Onde?... Não vejo nada...

O REI:

Uma cruz toda negra e toda ensangùentada!...

CIGANUS:

Foi decerto ilusão...

Rindo:

É calvário feroz Que espera alguêm...

OPIPARUS:

Nenhum de nós... nenhum de nós... Poderemos dormir tranqùilos, sem receio Dum calvário onde apenas haja a cruz do meio...

Uivam os cães sinistramente.

O DOIDO, _na escuridão_:

Em noite sem lua, numa nau sem leme, fui descobrir mundos, Mundos pelo mar... O vento sopra, o vento sopra... Quanta areia negra faz turbilhonar! --Mundos a voar... mundos a voar...

Por manhã doirada, galeão doirado vinha cheio d'oiro!... Rubins scintilantes, Pérolas, diamantes... Vinha cheio d'oiro... O vento sopra, o vento sopra... Que cinza de campas se alevanta ao ar... --Meu oiro a voar... meu oiro a voar... Castelos nas praias, galeras nas ondas, reinos d'alêm-mar!... O vento sopra, o vento sopra... Que bandos de nuvens!... vão-se a desmanchar!... Castelos... galeras... reinos d'alêm-mar...

Foi um sonho lindo... foi um sonho lindo... Como é bom sonhar!... Acordei sem alma... quem me encontra a alma... Quem ma torna a dar! Queimou-se o casebre... só tições escuros, só carvões escuros, Inda a fumegar... (Quem ma torna a dar!) Que bem dormiria debaixo dos muros... Tão quente!... debaixo das pedras do lar! Oh, que inverneira! oh, que inverneira! Crestou-me o vinhedo, secou-me o pomar! A terra levou-a... deixou-me só fragas... Deixou-me só fragas, para as eu calcar... Peguei na minha dor, botei-a às fragas... Não tinha mais que semear! O que viria, o que viria Da minha dor na primavera a rebentar?... Um tronco despido me brotou das fragas, (Que singular! que singular!) Um tronco despido, Sem ramos, sem fôlhas... um tronco no ar! Depois medrou tanto, como por encanto, Que andadas três luas era secular! E nem uma fôlha e nem um raminho, Onde um passarinho poisasse a cantar!... Um tronco no ar! Mas de repente, de repente Deitou dois braços, logo um par! Braços estendidos, abertos e nus, Como que a chamar... como que a chamar... Mas, oh Deus! que vejo! uma perfeita cruz, Uma cruz erguida sôbre um grande altar!... Minha dor nas fragas, entre uns estilhaços De rochedos duros no que veio a dar!... ............................................. Inda bem! Ora inda bem que já no mundo há braços, Para me abraçar!...

O REI:

Já 'stou farto de cantochões, de ventania E dos agoiros!... Passa das três; é quási dia... Vamos dormir...

Apontando o pergaminho:

Cá deixo esta léria assinada. Falaremos depois. _Rendez-vous_ na toirada.

SCENA XII

O REI, _só, ao fogão, olhando o pergaminho_:

Belo! toca a assinar o papelucho e cama. Vão-se os pretos! Adeus, pretangada e moirama! Inda bem! Já ninguêm desde hoje me seringa, Levantando questões dum cafre ou duma aringa. Durmo esta noite como um odre. Para insónias O remédio é mandar à tubúa as colónias. Que se governem! tudo ós quintos! tudo à fava!

Olhando os retratos da dinastia:

O que diriam disto os maganões?... Gostava Duma palestra com vocês... Vinha n'altura...

Trovão retumbante. Os cães ululam. Diante do rei, varado de assombro, ergue-se de improviso o fantasma de D. João IV. O rei quer falar, quer fugir, mas paralítico de mêdo, olhar atónito, nem um gesto, nem um ai, nem um grito. Desfalece, caíndo imóvel.

SCENA XIII

O ESPECTRO DE D. JOAO IV, _ar untuoso, manhoso, beato, falso e pusilânime_:

Tens mêdo de assinar? Pesa-te a assinatura? Vais ouvir meu conselho: Ânimo bravo e ardente, Em lacaios fieis predicado excelente. Num monarca já não... A fraqueza traiçoeira, D'olhos de lince e passos mortos de toupeira, Vence tudo... Precisa um rei de heroismo audaz? Serve-se dos heróis e fica êle em paz. Nada que nos perturbe a digestão e o sono; Para dar bom assento é que se fez o trono. Os reis são reis e os homens cães, em vário estado: Ou cães de caça ou cães de fila ou cães de gado... Mas tudo cães. Chicote a uns e a outros festa, Eis do govêrno a arte; é bem clara; só esta. Com os homens, assim. Com Deus, trato diverso. Tu és o rei dum povo, êle o rei do universo. Depois da morte há inferno e paraíso; então Lida sempre com Deus, como bom cortesão. Vale a pena. Medita as chamas infernais, As mil cobras de fogo em doudas aspirais, Enleiadas a nós!... que tortura! que horror! Ah, vale a pena servir Deus e ter-lhe amor! Não só a Deus; aos santos todos! E a Maria, À Virgem-Mãe, oh filho! a essa, noite e dia É rezar; é rezar de joelhos na capela! A nada atende Deus como a um pedido dela.

Firma o tratado. Firma-o de pronto e sem receio. Entre as hostes iguais a dúvida, no meio, Hesita, é bem de ver... Mas neste caso, em suma, Não encontra a razão hesitação alguma. O teu povo dum lado e o bretão do outro lado; Ora, entre um borrego e um leopardo esfaimado, Não há brio a atender, há vida a defender. O leopardo é o mais forte: assina... tem de ser. A fera vem bramindo e quer do teu jantar; Chicoteá-la? Não; pode-te estrangular. Dividirás com ela; e tu, quietinho e manso, Fica à mesa comendo o resto com descanso. Creio que para ti e para herdeiros teus Há-de ainda chegar talvez, graças a Deus. Graças a Deus e à Virgem-Mãe, a quem eu dei A tutela do reino e o coração do rei.

Desaparece.

O DOIDO, _na escuridão_:

Dum duque fiz um rei; e o rei me disse: Vamos Ouvir à igreja (era de noite) o meu Te-Deum laudamus. Era de noite... era de noite... na encruzilhada, Quando me viu, cantou um galo preto uma alvorada. Bonita festa, (disse eu entrando) bonita festa! Que igreja esta Tantos panos escuros... tantos panos escuros, Velando os muros! E um esquife sombrio Num catafalco... um grande esquife negro, inda vazio!... Mas coisa horrenda e de pasmar, O altar! o altar! Crucificado num madeiro um cordeirinho branco exangue E treze tochas de gangrena azul, chorando sangue!... Veio da sacristia a cleresia... Olhai, olhai O padralhame que aí vai! Raposas sarnentas e lôbos gordos ulcerados, --Dominus vobiscum!--todos paramentados e mitrados. E era um bode de andaina vermelha o sacristão, Um bode carcunda, ventrudo e lanzudo, galhetas na mão. E quem cantou a missa de pontifical Foi o rei! era o rei... tal e qual! tal e qual! Mas tinha rabo de raposa e tinha olhos de chacal! Cantava de papo, cantava de papo, E a bôca imunda, sem tirar nem pôr, uma bôca de sapo! O Espírito baixou então divinamente, Poisou no rei, e o rei lhe disse:--Olá! olá, Vicente-- E as dois órgãos ao fundo, que rouquidões! Grunhindo trovões por entre os cantochões! E toda a padralhada, no seu cartimpácio, --Oremus! Oremus! Santo Inácio e mais Santo Inácio!-- E ao levantar a Deus emfim, De hóstia e cálix na mão, o rei voltou-se para mim: --Êste vinho é o meu sangue. Êste pão negro é o meu corpo: Toma lá o meu sangue, toma lá o meu corpo.-- Cuspiu no cálix, deu-mo a beber, bebi... bebi... E a hóstia impura, nem sei de azêda como a enguli! E envenenado fiquei... envenenado fiquei Pelo corpo do rei, pelo sangue do rei! Envenenado e paralisado, Mas inda a ver, inda a sentir... como um dormir De defunto acordado... Então o rei pegou num cutelo, abriu-me o peito, Meteu as mãos... e tirou-me a alma com todo o geito! Era uma virgem, corpo de deusa, branca e nua, Como que feita, num sonho triste, do alvor da lua... A minha alma aquela! a minha alma aquela! Oh, nunca a imaginei assim, tão formosa e tão bela! Mas que ar de nojo e de amargura Envolvendo-a, pálida e branca, em noite escura! Deitaram-na ao caixão, pregaram-lhe a tampa às marteladas, E o rei,--Oremus! Oremus! Oremus!-- Às gargalhadas. E no madeiro o cordeiro manso, dolorido, Deu o seu último gemido... E expiraram no altar As treze velas bentas de rosalgar... E a cleresia pela noite, em chusma, como assombros, Debandando e levando o esquife, aos encontrões, nos ombros... E a mim deitaram-me a dormir num fraguedo deserto, Sem alma, com o peito um rasgão de sangue, todo aberto!... Ei-lo aqui... ei-lo aqui... Nunca o deixei cicatrizar... Que é para a alma, quando me volte, poder entrar... As almas não morrem... As almas não morrem... Nem Deus, tendo-as feito, é capaz de as matar!...

SCENA XIV

O ESPECTRO DE D. AFONSO VI, _que entra alucinado, hemiplégico, azorragando, furioso, uma matilha de cães imaginária_:

Ah, marotos! ladrões!... ladrões!... perros danados!... Vão inda perseguir-me à tumba êstes malvados! Assassinos! ladrões! Nem no sepulcro existe Repouso para um morto, alívio para um triste! Nem debaixo da terra emfim, víboras más, Me deixais, me deixais apodrecer em paz! Nem morto dormirei... coitada criatura! E como o sono eterno é bom, ó noite escura!... Ah, como é bom dormir... dormir... dormir... dormir!... Não ter alma, não ver, não gemer, não sentir!... Sem reino, sem mulher, sem irmão, sem cuidado, Dormir... dormir!... Que brando leito de noivado!... ..................................................... Mas foram-me acordar, os malditos!... Já sei... O que querem de mim... Já sei... Já sei... És tu, El-Rei? Foi mandado d'El-Rei... Já sei... lembro-me agora!... ..................................................... Assina tudo... assina tudo e sem demora. Tens mêdo de perder o trono, de o largar? Ah, deixa-o ir, deixa levar, deixa roubar!... Que leve trono e scetro e c'roa quem quiser... Para ti... para ti... guarda os cães e a mulher. Guarda a mulher... guarda a mulher! Bem conta nela! Tens irmão? Tens irmão!... Pobre de ti!... cautela!... Não há crer em irmãos, nem há fiar em mães! Que levem tudo, tudo... excepto a amante e os cães!... Oh, as noites d'amor!... oh, as manhãs de caça!...

Indo a saír e parando de repente, ao ver os cães:

Tens fracos cães... Adeus... Fracas ventas... má raça!...

O DOIDO, _na escuridão_:

Quem me roubou da fronte o meu diadema?... Quem ostenta na fronte o meu diadema?... --Teu irmão! Teu irmão!

Quem abraça a raínha no meu leito?... Alva, loira e mimosa no meu leito?... --Teu irmão! Teu irmão!

Quem bate as brenhas com meus cães de caça, Ao luzir d'alva com meus cães de caça?... --Teu irmão! Teu irmão!

Quem nesta campa me enterrou em vida?!... Quem nesta campa me enterrou em vida?!... --Teu irmão! Teu irmão!

Ai, arranca-me os olhos por piedade! Ai, arranca-me a vida por piedade! Irmão! irmão! irmão!!...

............................................

O ESPECTRO DE D. AFONSO VI, _assomando ao balcão_:

Um doido enorme! alêm... na escuridão... alêm... Doido sou eu tambêm... doido sou eu tambêm... Pobre doido!... infeliz... coitado! algum irmão Lhe roubou a mulher...

Ao rei:

Tens mulher?... Tens irmão?... Não há crer em irmãos, nem há fiar em mães... Guarda a mulher...

Desaparecendo:

Oh, que estupor de cães!... oh, que estupor de cães!...

SCENA XV

O ESPECTRO DE D. PEDRO II, _tipo de valentão de cavalhariças, brigão de estúrdias, sanguinário e crapuloso, sifilítico e bêbado_:

Tu sabes escrever? Assina. Porque não? Ora o grande poltrão, Que é preciso borrar-se e andar de nágoas sujas, P'ra lançar no papel, conho! três garatujas! Mêdo de quem? Do povo? O povo com que lidas É cavalo velhaco e de manhas sabidas. Monta-lo com temor? Adeus! cospe-te fóra. Mas, sentindo-te firme e nos ilhais a espora, Cai-te em breve a mão e a preceito o governas. E, se escabreia, ai dele! estoira-lo entre as pernas. Vamos nós a saber, diz-me lá sem rodeios: És homem? quer dizer:--tem-los bons?--tem-los cheios? Meu irmão não os tinha, E por isso ficou sem reino e sem raínha. Para inimigos forca; ou antes emboscadas, Despachando-os de vez a tiro e a cutiladas. Pedem tais aventuras Gente rija; hás mister de quadrilhas seguras: Mulatos, valentões, brigões, ralé feroz, Que te adivinhe o olhar, pronta à primeira voz. Tive-os duros de lei! homens sem embaraços Para estoirar, de frente, o diabo a clavinaços! À nobreza mercês e favor... mas cautela! Desconfia, vigia... e reparte com ela. Emfim, guarda bem paga, álerta e satisfeita, E atrás de cada muro um cão de lôbo à espreita. E nada mais, e nada mais! gozar, gozar À vontade e sem mêdo, até Deus te levar: Correr toiros, domar corceis, adestrar fôrças, Batidas pelo monte ao javali e às corças, Mesa opulenta, vinho antigo, cama vasta, E fêmeas boas e a granel, de toda a casta! Mulherio de truz, às dúzias, sejam elas Freiras ou barregãs, com marido ou donzelas. E agora, adeus. Assina. Os ingleses, que diabo! É quem nos vai guardando os fagotes, e ao cabo, A trôco duns sertões com negros de má raça, Mercam-nos inda a pinga e vestem-nos de graça!

Desaparece.

O DOIDO, _na escuridão_:

Era a raínha uma sereia, Corpo de neve... Ameia-a e desejei-a. Meu irmão era o rei; sem dor e sem abalo, Mandei matá-lo. Arranquei-lhe do peito o coração: Batia inda por ela... Dei-o a um cão. E fomos para a igreja iluminada Eu, meu irmão e a minha amada. Nós a casar, Êle a enterrar. Quem me casou a mim Disse-lhe a êle o último latim. A sepultura Tinha quarenta braças de fundura. Despenhado o caixão, entulhou-se o coval De pedra e cal. Boas noites, irmão!... Boas noites, irmão!... E fui-me alegremente, oh, que ventura a minha! A noivar co'a raínha. Deitamo-nos na cama, apagámos a luz, E ao irmos enlaçar, furiosos e nus, Como doidas serpentes, Os desejos ardentes Abraçámos, horror! na escuridão, Entre nós dois, amortalhado e morto, meu irmão! Meu irmão! meu irmão!... Era êle... apalpeio-o... Lá estava escancarada a facada no seio... Meti-lhe dentro a mão... Não achei coração... Era êle! era êle! era êle! Cuidei em no matar, sem me lembrar Que já morrera!... Louca, a raínha tremia... Quis atirá-lo ao chão... era de bronze! era de bronze, não podia. Quisemos-nos erguer, fugir, fugir!... e de repente Quedamo-nos os dois paralíticamente, Ali imóveis, sem um gesto, sem um grito, De sentinela toda a noite ao cadáver maldito!... Oh, noite imensa! Oh, noite imensa! Oh, noite imensa! Que eternidade!... Emfim, desmaiada e gelada, Eis a alvorada! Erguemo-nos do leito... E o morto, aconchegando o sudário no peito, Cravou em nós, indo-se embora, Aquele olhar nocturno e triste que apavora!... Fitamo-nos então os dois amantes: Oh, que semblantes! Nosso cabelo em desalinho, Alvo de arminho, Acusava dez séculos de dor! Brando leito d'amor!... brando leito d'amor!... Todas as noites depois dessa, todas, todas, Vem meu irmão às minhas bodas! Deita-se entre nós dois amortalhado Até ser dia... Que noivado!... oh, que noivado!... .................................................. Não te quero ver mais, ó meu algoz, ó meu espectro! Leva a raínha... leva a c'roa... leva o scetro... Leva-me tudo e deixa-me dormir, Dormir em paz!... dormir! dormir! dormir! dormir!...

SCENA XVI

O ESPECTRO DE D. JOAO V, _velho, asqueroso, idiota, meio paralítico. Tartamudeia desconexamente, embrulha a ladaínha com a Martinhada, engole uma hóstia santa, depois uma pastilha afrodisíaca, geme, chora, dá um arrôto, baba-se e desaparece_.

O DOIDO, _na escuridão_:

Mora num convento, com onze mil freiras, Um bode doirado, chamado Sultão: São môças as monjas, loiras ou trigueiras, E o bode frascário como um garanhão. Ao dar meia noite, com fúria insensata, Na tôrre da igreja dobra o carrilhão; Martelam nos sinos badalos de prata, De imunda, de horrível configuração!... Milheiros de luzes, brandões macerados Tremulam no templo... que imenso clarão! Faíscam diamantes, lampejam brocados, Incenso da Arábia vôa em turbilhão! Os santos e as santas, alfaias e altares, É tudo oiro virgem, que sintilação! Crepitando fogos de gemas solares, Topásios da Pérsia, rubins do Indostão. Debaixo dum pálio de lhama purpúrea Levanta-se um leito rútilo e pagão: O leito do bode, Senhor da Luxúria, Com mais pedrarias que o de Salomão. Já o órgão rebôa, frementes e nuas, As onze mil monjas vêm em procissão... Os olhos de chama, trazeiros de luas, Rezando palavras de abominação!... Mitra coruscando, sêdas fulgurosas. A cruz sôbre o peito, báculo na mão, Conduz a teoria das monjas ansiosas, Um bispo castrado, que é seu guardião. O bode rebrame no leito de pluma... Acercam-se as freiras... e o bispo capão Entrega-as ao bode, dá-lhas uma a uma, Com ar de respeito, com veneração... São onze mil noivas, são onze mil bodas... Formidavelmente gira o corrilhão... E o monstro lascivo padreia-as a todas, Num delírio tremens de fornicação! Depois do execrando, bruto cevadoiro, O bode, desfeito de devassidão, Toma um semicúpio numa concha d'oiro, Em água benzida pelo capelão. E, sinos calados, extintas as luzes, Entregues as freiras ao seu guardião, Persigna-se o bode, fazendo três cruzes, E em paz adormece como bom cristão. E ao cabo duns meses, final de tais contos, As monjas nas celas, com toda a razão, Parem arcebispos, mitrados e prontos, Exemplo mui alto de gran devoção!...

SCENA XVII

O ESPECTRO DE D. JOSÉ, _que vem de manso, desconfiado, olhando à volta, como temendo o quer que seja. Depois, baixinho, ao ouvido do rei_:

O marquês não está?... Vê lá... Guardas segrêdo? Então assina... Adeus... pode vir... tenho mêdo!...

Desaparece.

O DOIDO, _na escuridão_:

Diz o rei à amante: «Vem para os meus braços!» --Ardem nos teus braços nódoas do meu sangue!...

«Vem para os meus braços, dorme no meu peito...» --Ardem no teu peito nódoas do meu sangue!...

«Dorme no meu peito, junto dos meus lábios...» --Ardem nos teus lábios nódoas do meu sangue!...

«Oh, que ideias loucas, meu amor doirado!... Fui à caça aos lôbos, venho ensangùentado.»

Deitam-se na cama... Longe, ao pé do mar, Centos de martelos, truz! a martelar!...

--Ai, levantam forcas!... Pesadelo horrendo!... «Um bergantim d'oiro que te estão fazendo...»

Beija o rei a amante com lascivo ardor... Vem da noite funda gritos de estertor...

--Matam-me os parentes!... bem lhes oiço os ais!...-- «São as rôlas, filha, pelos pinheirais...»

Beijam-se um ao outro, presos por abraços, Sente-se nas trevas um mover de passos,

