Part 3
Tantas magicações, tanto grego e latim Turvaram-lhe a razão, deram com êle assim. Pobre cronista! anda na lua... As trapalhadas, As pandangas que êle arquitecta!... E bem armadas! Bem armadas!... com certo dedo... Francamente, Às vezes o ladrão quási embarrila a gente! Põe-se-me a fantasiar uns casos de mistério, Com tamanho palavriado e tanto a sério, Que fico bêsta!... Ora o ratão! ora a inzonice! Vejam lá, vejam lá, tudo que p'raí disse! Os maranhões, a lenga-lenga, a choradeira Sôbre um doido, coitado, a caír de lazeira!
Designando o doido:
Coitado! meio nu, faminto, vagabundo, De charneca em charneca, aos tombos pelo mundo, Sem ninguêm... vê-se bem que esta doida alimária É de família pobre, é de gente ordinária. E eu com receios e com mêdo! Visto ao longe, Tão alto, um vozeirão, as barbaças de monge, Era um horror! coitado! um maluco, afinal...
Aos guardas:
Deixem-no em liberdade e não lhe façam mal. Não o espanquem... Ninguêm lhe bata... ordens severas! Ninguêm bate num doido; os doidos não são feras. Tratem-no bem... com caridade... Para a ceia Uma côdea de pão e a gamela bem cheia. Desgraçado! E dormir... dorme perfeitamente Na estrebaria ao pé dos cães: é limpo e é quente. Roupa grossa... Avisai lá em baixo a canalha... Duas mantas de lã e três feixes de palha. Não se esqueçam! cumpram as ordens que lhes dei!
ASTROLOGUS, _curvando-se humildemente_:
Ó alma generosa! Oh magnánimo rei! Que agradável não é ser o cronista obscuro De espírito tão alto e coração tão puro!
O doido sai acompanhado dos guardas. Os cães perseguem-no, ladrando, até à porta. Desencadeia-se a tormenta. Raios, trovões, aguaceiros, ventanias lúgubres. O rei e os validos dirigem-se ao balcão. O cronista acaricia os cães, galhofeiramente, sorrindo amável.
O CRONISTA, _afagando Iago_:
Iago, meu bom amor! faz'as pazes comigo! Sabes quanto te quero e sei que és meu amigo... Não te zangues... perdão... congracemo-nos, vá! O doido foi-se embora e não torna a vir cá... Havia de eu perder afeições como a tua, Por causa dum maluco a divagar na lua?!... Anda, não sejas mau... faz'as pazes comigo... Meu protector... meu defensor... meu vélho amigo!...
Ameigando Judas:
E êste Judas!... tão bom... tão leal... tão sincero!... Como eu gosto de ti, Judas! como eu te quero!...
Pegando no Veneno ao colo:
E o meu Veneno! o meu _bijou_! a rica prenda!... Que amor de cão!... que perfeição!... Nem de encomenda!... É de apetite o meu Veneno, o meu tesoiro... Uma beijoca, vá, no focinhito loiro!...
Afagando os três cães simultaneamente:
E, para liquidar agravos duma vez, Disponho-me esta noite a cear com vocês!
O REI, _despedindo o cronista_:
Cronista, vai dormir... boa noite... Deus queira Que o sono te refresque um pouco a maluqueira...
O CRONISTA _sai, pensando_:
Na batalha da vida evidente se torna Que ou havemos de ser martelo ou ser bigorna. Conclusão natural do dilema singelo: Evitar a bigorna triste... e ser martelo. Monstruoso, feroz, horrível, mas em suma Ponderemos que a vida é curta,--e que há só uma!
SCENA IX
O REI, _sentando-se cómodamente ao fogão_:
Ora do doido estou eu livre! Agasalhei-o, Matei-lhe a fome, e agora quente, o ventre cheio, Cama bem farta, vai dormir e repousar, E não volta por certo esta noite a cantar...
Repotreando-se alegremente.
Uff! sinto-me bem! volto a mim...
Trincando um charuto e voltando-se para Ciganus:
Dá-me lume. Ia perdendo o vício... É da regra... é o costume... Em não fumando, mau negócio! ando esquisito... Pois àmanhã caçada e toirada, 'stá dito! Hei-de abater, e sem fazer lá grandes fôrças, Dôze toiros, trezentas lebres e cem corças.
OPIPARUS, _àparte_:
Já mente... Vai melhor!
Tiros ao longe. Clamor distante. Os cães ululam.
O REI, _sobressaltado_:
Ouvi... ouvi!... ouvi!... Tiros... detonações... é próximo daqui... Fusilaria!... Ouvi... Que demónio se passa?!...
CIGANUS:
São os guardas d'El-Rei, que andam de noite à caça...
O REI:
De noite à caça!
CIGANUS:
Montaria aos lôbos, meu Senhor...
O REI:
Dei cabo dum aqui há tempos... Que vigor, E que tamanho! Era de noite... foi na estrada... Caíu logo no chão à primeira mòcada! Tenho morto dúzias de lôbos e de lôbas, Nenhum assim: pesava umas quarenta arrobas.
OPIPARUS, _àparte_:
Sim senhor, eis El-Rei já no estado normal!
Ouvem-se marteladas cavas e repetidas nos subterrâneos profundos do palácio.
O REI:
Que barulho lá baixo!... Um estrondo infernal De marteladas!... Santo Deus! nem trinta diabos juntos, Pregando a toda a pressa esquifes de defuntos!
OPIPARUS, _rindo_:
Gente carpinteirando em tábuas e barrotes, Não para esquifes, meu Senhor; para caixotes! Mandei encaixotar (a providência é boa) Os milhões do tesoiro e as baixelas da c'roa. E em quanto à c'roa, Senhor meu, Ninguêm lha roubará, ninguêm!, defendo-a eu. O trono... o que é um trono? uma simples cadeira De veludo já gasto e de vélha madeira. É, pois, minha profunda e sábia opinião Deixá-lo ir sem resistência... A c'roa, não! A c'roa é d'oiro fino, esmeraldas, diamante, Turquezas e rubins... (uns dois milhões cantantes!) E portanto, Senhor, havemos de levá-la, Há-de ir connosco, ao pé de nós, dentro da mala!
CIGANUS, _pensando e rindo_:
C'roa de procissão... rica para um andor: Pedras falsas; troquei-lhas eu; vidros de côr.
OPIPARUS, _continuando_:
E comido o banquete e devorada a presa, Bem nos importa a nós erguermo-nos da mesa! Partiremos a rir, terminado o _dessert_, Levando cada qual na algibeira o talher... Com três milhões de renda, um pecúlio feliz, Grande vida a dum rei destronado em Paris!...
O REI:
É cínico, mas tem pilhéria êste demónio!...
OPIPARUS:
Bom estômago e ventre livre: um património! A vida é bôa ou má, faz rir ou faz chorar, Conforme a digestão e conforme o jantar. Pode crê-lo, Senhor, toda a filosofia, Ou tristonha ou risonha ou alegre ou sombria, Deriva em nós, tão orgulhosas criaturas, De gastro-intestinais combinações obscuras.
O REI:
E a moral?
OPIPARUS:
Rica farça a moral! Não me ilude. Examinem qualquer vendedor de virtude, Casto como um carvão, magro como um asceta: A abstinência é impotência, o jejum é dieta. O diabo, meu Senhor, já vélho e desdentado, Sifilítico, a abanar como um gato pingado, O trazeiro sarnoso, em gangrena a medula, Exaurido a chupões de luxúria e de gula, Sentindo-se perdido e rabiando, afinal Quis vingar-se do mundo... e inventou a moral!
O REI, _pensando_:
E, se eu ós pontapés desancasse esta corja, Ia às malvas... adeus! tinha banzé na forja!...
Fundeou na praia uma galera de corsários. Desembarcam.
O DOIDO, _na escuridão_:
A lua morta bóia nas nuvens toda amarela... Corvos marinhos, corvos daninhos poisam sôbre ela...
Tiram-lhe os olhos, comem-lhe a bôca, já com grangrena... Astros errantes, agonizantes, choram de pena...
Choram de pena, tremem de mágoa, morrem de dôr... Na noite escura canta a Loucura, grita o Pavor...
Lôbas tinhosas d'olhos d'enxofre saltam valados... Pobres dos gados!... pobres dos gados pelos montados!...
O REI:
Olha o doido!... Lá torna o doido... Eu logo vi... Canta p'raí até 'stoirar... canta p'raí!... Bom telhudo! em pelote e com êste nordeste, A ladrar cantochões à lua!... Que lhe preste!
CIGANUS:
Deixe lá! faz-lhe bem... faz-lhe bem... P'rá mania Não há nada melhor do que o vento e água fria.
Rebenta, fora, um grande tumulto. O rei e os validos assomam-se ao balcão. Vem debandando, clamorosa, a revolta vencida. Soldados, prisioneiros, feridos, moribundos em macas. Ais de estertor, pragas, vivas avinhados, gritos de mulheres, choros de crianças. Os cães, truculentos, ululam na varanda.
O REI:
Que é isto?!... que estardalhaço!... que chinfrineira!... Gritarias... um rodilhão... Temos asneira... Temos coisa... não há que ver, temo-la armada...
CIGANUS, _rindo_:
É a guarda d'El-Rei, de volta da caçada. Os monteiros são bons... a matilha é valente...
OS SOLDADOS, _em clamor_:
Viva El-Rei! viva El-Rei!
O REI:
Compreendo. Excelente! Ora que espiga! por um triz, hãn! por um triz, Não vou às malvas! Ando em sorte!... fui feliz!... Iam-me empandeirando! um cheque e mate ao rei! Ora a cáfila! ora a cambada!... Se eu o sei, Com mil bombas! que os desfazia!... Eu lhes diria! Oh, que porradaria! oh, que porradaria! Rebentava-os! dava-lhes conta do bandulho E dos cornos, mas à paulada! era a 'stadulho! Quando o trono cair, sem lenha é que não cai... Mostarda rija! O banazola de meu pai Tinha-os em mau costume... Isto agora é p'rigoso... Aqui há unhas p'ros coser... olá, se os coso!
Entra um cavaleiro, portador duma mensagem.
CIGANUS, _depois de a ler_:
Montaria real! Foi covil por covil: Feras mortas oitenta e prisioneiras mil.
O REI:
Dois gajões duma cana! Obra de lei!... Entrego Nas vossas mãos o meu destino, como um cego. Marquês, faço-te duque; e ao ducado acrescento Quinze milhões... Encaixa a história no orçamento... Opiparus, a ti, reinadio e marau, Pago-te os cães: trezentos contos...
OPIPARUS:
Não é mau; Recebendo eu o bôlo e fazendo a partilha; O meu grande credor sou eu. Quanto à matilha, Que se esfalfe a ganir... Não me incomoda nada...
O REI, _voltando-se para os cães_:
Iago, aboca! Olha o petisco: uma embaixada! Faço-te embaixador! hãn, que empanzinadelas!... Que vidinha!... Um sultão num harem de cadelas!... A êste Judas circunspecto que hei-de eu dar? O Conselho d'Estado; é próprio e é bom logar. Conselheiro, portanto. E o Veneno? O Veneno, Conde e ministro. Um felizardo o meu pequeno! Um catita!
Acendendo um charuto e indo à varanda:
Perfeitamente! Ora Deus queira Que abichemos um dia bom p'ra pagodeira! Um dia alegre! O tempo muda... ronda ao norte... Magnífico! hão-de ver dôze toiros de morte, Desembolados! Inauguro emfim a minha praça: Vai o Botas, o Pintassilgo e o Calabaça.
O DOIDO, _na escuridão_:
Ao luzir d'alva semeei de flores Uma encosta deserta ao pé do mar Cravos, lírios, jasmins, goivos, amores, Açucenas e rosas de toucar. Ao redor vinha verde e trepadeiras, Medronheiros, figueiras, romanzeiras... Lindo jardim! Lindo pomar! Como no monte não havia fonte, Desatei a chorar para o regar... Depois, oh meus feitiços! Enchi de abelhas d'ouro cem cortiços E dez pombais com pombas de luar... Olha o lindo jardim!... olha o lindo pomar!... E enxada ao ombro, já raiava a aurora, Abalei a cantar!... Foi há mil anos... Venho mesmo agora De ver a linda encosta à beira mar... Lindo jardim! lindo pomar! As açucenas deram-me gangrenas E os jasmins podridões a fermentar!... Os cravos deram cravos... mas de cruzes! E as roseiras espinhos de toucar... Sôbre as ervas no chão crepitam luzes, Fogos fátuos de larvas a bailar... Só dos goivos, Senhor, brotaram goivos, Destilando loucura e rosalgar... Olha o lindo jardim! olha o lindo pomar! Os figos das figueiras são caveiras E os medronhos são balas de matar... Oh, que lindas romãs nas romanzeiras! Corações fusilados a sangrar!... Inda bem, que em vez d'uvas nas videiras Há rosários de dor para eu rezar... Olha o lindo jardim! olha o lindo pomar! De dentro dos cortiços, que feitiços! Voam corvos e c'rujas pelo ar... E dos pombais, aos centos, Nuvens de abutres agoirentos, Que sôbre as romanzeiras vão poisar!... Olha o lindo jardim! olha o lindo pomar! ......................................... ......................................... É de encantar a natureza!... ai que beleza! Quantas florinhas para a minha mesa!... Deus, quanta fruta para o meu jantar!... Lindo jardim... lindo pomar!...
SCENA X
*Os mesmos e Magnus*, que entra majestoso e solene.
O REI:
Chega ao calhar... Então, meu duque, a trabuzana Foi bôa... Por um triz, iam-nos à pavana!
MAGNUS, _grandioso_:
Valeu-lhe, meu Senhor, (dôa isto a quem dôa!) Haver três homens, como nós, junto da C'roa, Para a salvar dum grande abismo!... A situação...
O REI:
Ganhou hoje, meu duque, o Elefante e o Pavão.
MAGNUS:
Nem sei como exprimir a Vossa Majestade A alegria que sinto!... É de mais! que bondade! A grã-cruz do Pavão!... Nunca o julguei... Em suma, Feliz!... morro feliz... Já não há mais nenhuma!
O REI, _a Ciganus_:
E agora?
CIGANUS:
Meu Senhor, é dormir sem cuidados! Os mortos cemitério e os vivos...
OPIPARUS:
Enforcados.
CIGANUS:
Talvez que sim, talvez que não... É conforme: o rigor, a clemência, o perdão, Tudo às vezes convêm, tudo tem seu logar... Enforco-os, claro está, se os puder enforcar. Não podendo, enxovia; e, se a nação revôlta Clama contra a prisão... deixá-los hei à solta. Enforcados, melhor. Eu, gente que deteste, Quero em vez de canhões a guardá-la um cipreste. Mas, se matando arrisco a própria vida, não: Converto-me, de algoz furioso em bom cristão... Reinar, eis o importante; o modo é secundário. É conforme se pode; é dia a dia; vário. Fica melhor um rei num corcel de batalha, O chicote na mão, contemplando a canalha. Inspira assim terror, incute mêdo e fé. Não há, porêm, cavalo? É governar a pé. E, se ainda precisa atitudes mais chatas, É governar de toda a forma,--até de gatas! O caso é governar, seja lá como fôr: Com manhas de toupeira ou vôos de condor, Por caminho sinuoso ou caminho direito... Eu, para governar, a tudo me sujeito, Indo de cara alegre até ao sacrifício De ser exemplarmente honesto... por ofício!
Continua a tormenta. Prosseguem os vivas. Os cães ladrando sempre.
MAGNUS, _sentencioso_:
Nas vistas do marquês há pontos em que abundo, Pontos em que discordo. O mal é mais profundo! Talhemos com firmeza o mal pela raíz! Nas circunstâncias desastrosas do país, Quando um vento de insánia brava nos arrasta, Quando abusos de toda a ordem, toda a casta, Andam impunes; quando a moral e o direito Já não levam sequer à noção de respeito, Á noção do dever, urge com brevidade Dar fôrça à C'roa e dar prestígio à autoridade! Eu com rude franqueza o digo: o caso é sério! Nós vivemos (se isto é viver!) num baixo império! Olhem bem ao redor: uma orgia! um entrudo! Abocanha-se tudo, emporcalha-se tudo, Nem o sacrário da família se venera, Não há reputação, ainda a mais austera, Que a não manchem... um lodaçal, um tremedal de escombros, E nós a vermos isto e a encolhermos os ombros! É de mais! é de mais! Vamos todos a pique! É necessário um termo! é necessário um dique! Sursum corda! Que El-Rei leve a bandeira em punho! E inda há gente... inda há gente! inda há homens de cunho! Inda há muita aptidão, muita capacidade E muita honra!... O que é mister é uma vontade! Obre El-Rei com firmeza! obre El-Rei sem demora! Qual o cancro que dia a dia nos devora? Toda a gente que vê, toda a gente que pensa Põe o dedo na chaga e conclue: a descrença! Se o mal vem da descrença, ataque-se a questão! Religião, Senhor e mais religião! Deus e mais Deus! tendo nós Deus e a fôrça armada, Não há receio algum; dormirá descansada A monarquia. Deus, embora neste meio, Queiram ou não, é sempre Deus!... é ainda um freio!
OPIPARUS, _galhofeiro_:
E o profeta, que nos censura e nos fulmina, Tem palácio, grande estadão, mesa divina, É _joisseur_ como dez banqueiros elegantes, E, facto escandaloso! a respeito de amantes Cultiva sobretudo (às vezes com seus p'rigos...) Esta especialidade: a mulher dos amigos!
MAGNUS, _furioso_:
Safa! que língua! que veneno!...
O REI:
E o duque atomatado! Como se não pudesse um ministro d'estado Regalar-se com vinhos bons ou fêmea alheia! Deixe-os morder de raiva. É tudo inveja, creia. Gosto dum vélho assim, danado e atiradiço... Um vélho folgazão... Simpatiso com isso. É cá dos meus... é cá dos meus...
MAGNUS, _risonho e vaidoso_:
Na juventude, Rapaz... como rapaz... vamos! fiz o que pude!... A crónica inda o lembra... Hoje o caso é diverso... Aos sessenta já custa a endireitar um verso!
O REI:
Maganão!
MAGNUS:
Hoje não!... Só em pequenas dozes... Falta o melhor... São mais as vozes do que as nozes...
O REI, _gracejando_:
Mas o que a mim me espanta, e não entra na bola, É sair-nos o duque um perfeito carola! Se a raínha estivesse, inda d'acôrdo, admito... Mas entre homens prègar sermões acho esquisito, Meu caro duque... Estou a vê-lo qualquer ano, Entrapado em burel, frade varatojano!
MAGNUS, _solene_:
Distingo, meu Senhor, distingo: sou cristão, Co'as rédeas do govêrno e do poder na mão. Católico e de lei, sob o ponto de vista Administrativo, e nada mais. Como estadista, Eu considero a Igreja uma pedra angular Da ordem! Quero o trono achegado ao altar! A Igreja tem prestígio! a Igreja é um sustentáculo! Convêm ao scetro ainda a amizade do báculo! O homem público em mim, o defensor da C'roa, É desta opinião. Sustento-a e julgo-a bôa. Mas cá dentro, no fôro interno, a sós comigo, Eu, o particular e o filósofo, digo-o Alto e bom som, digo-o de cara e sem temor: Não há ninguêm! ninguêm! mais livre pensador! Eu admiro Voltaire!... Eu encontro-me em dia Com a marcha do globo e da filosofia.
O REI, _galhofando_:
Se a Raínha lhe sente ideas desordeiras...
MAGNUS:
Leio Voltaire, mas quero os frades!...
OPIPARUS:
E eu as freiras...
CIGANUS:
Por mim desejo tropa, em logar de irmandades. Mas, se a raínha quer os frades, venham frades. Com certo geito e condições, inda afinal Se atamanca de Deus um bom guarda rural...
Trovão retumbante. A caverna da noite incendeia-se de oiro, abrasada a relâmpagos. Ais e lamentos. Gritos ferozes de soldados. Uivam os cães. Sente-se ao longe um rumor imenso de multidões que debandam.
MAGNUS, _meditando_:
Que demónio!... cheira a chamusco... Volta a dança... Olha que brincadeira!... Isto, se a coisa avança, Vai tudo raso, vai tudo em cacos pelo ar! Não me sinto aqui bem... Nada! ponho-me a andar!... Uma história qualquer...
Ao rei:
Meu Senhor, a duquesa... (Foi dêste abalo repentino, esta surpresa...) Achou-se mal, deu-lhe um febrão... em tal estado, Que não gosto... não gosto... inspira-me cuidado... E se El-Rei o permite...
O REI:
Ignorava... Ora essa, Meu caro duque! Ande ligeiro, vá depressa... Boa noite... Dormir um pouco, e às cinco e meia Na toirada. Curro catita! É de mão cheia!
O rumor longínquo, de maré humana, avança, trágico, na escuridão profunda. Surge na praia uma nau gigante, embandeirada de negro. Uivam os cães.
SCENA XI
O REI:
Ouvi!
OPIPARUS:
O mar.
CIGANUS:
Não é o mar; a ventania.
O REI:
Tambêm não... Escutai... escutai...
OPIPARUS:
Dir-se-ia O confuso estridor, desordenado e vário Dum exército louco, em tropel tumultuário...
O rei com os validos assoma-se ao balcão. Hordas inúmeras de esfarrapados, multidões de mendigos, turbas espectrais, homens e mulheres, vélhos e crianças, ululando, gritando, praguejando, baixam a montanha em direcção à praia, numa torrente caudalosa, numa levada contínua de sofrimento e de miséria. E o porão tenebroso do navio-fantasma engulindo, aos cardumes, vertiginosamente, aquela humanidade enlouquecida. E a enxurrada sinistra, avolumando, alastrando, cada vez mais tumultuária e bramidora. Dir-se-ia um povo de malditos, debandando a um cataclismo inexorável! Povo imenso, não tem fim, mas o navio não tem fundo. Cabe tudo lá dentro. Os cães, na varanda, rosnam, sombrios e provocantes.
O REI:
Que quer isto dizer?! que chinfrineira é esta?!... Que balbúrdia!... que multidões sombrias!... temos festa!... Oh, com mil raios! temos festa... Há banzé novo... Que 'stardalhaço... Um mar de gente!... um mar de povo, A correr, a crescer... Gritos, uivos, bramidos... Era uma vez, marquês!... Pronto! estamos perdidos!...
CIGANUS, _fleumático, acendendo um charuto_:
Coisa vulgar, Senhor: emigrantes, miséria...
O REI:
Cuidei que era chinfrim de novo... Ora a pilhéria! Cuidei que era chinfrim... E antes o fôsse! Ao cabo, Zurzia-os duma vez a pontapés no rabo! Punha-os de môlho! A garotada jacobina Hei-de-lhe eu amolgar as trombas numa esquina! Chegando-me ó nariz os vinagres, cautela! Dá-me a fúria... e caramba! é d'alto lá com ela! Em Évora uma vez, há coisa de dois anos, Salta-me num caminho um bando de ciganos, Era de noite, mais escuro do que um prego, Atiro-me, arremeto às doidas como um cego, E esbandulhei quarenta e quatro!... Um bom chinfrim!...
OPIPARUS:
A canhão Krup?
O REI, _sacando, da algibeira, um navalhão de ponta e mola_:
A naifa!
Com um gesto esfaqueante:
Eu cá é isto: assim!
O DOIDO, _na escuridão_:
A fome e a Dor escaveiradas Ululam roucas nas estradas, Irmãs sinistras de mãos dadas... Misericórdia! Misericórdia! Na escuridão, entre lufadas, Que pavorosas debandadas De multidões desordenadas... Misericórdia! Misericórdia! Turbas gemendo esfarrapadas, Por ventanias e nevadas, Filhos ao colo, ao ombro enxadas, Sem luz, sem pão e sem moradas!... Misericórdia! Misericórdia! E em salas d'oiro, iluminadas, Há beijos, risos, gargalhadas... Misericórdia! Misericórdia! E, por outeiros e quebradas, Tombam choupanas arruìnadas... Mortas... desfeitas em ossadas... Misericórdia! Misericórdia! Misericórdia!
OPIPARUS:
Que bela voz! Dava um barítono estrondoso O diabo do maluco!...
O REI:
A mim faz-me nervoso, Não sei porque... Faz-me nervoso... Embirro, é doença... Mas quanto poviléu! que turbamulta imensa De esfaimados, de miseráveis no abandôno, Rafeiros a latir, sem albergue e sem dono! Vejam isto...
CIGANUS:
A miséria é lama, é sangue, e é pranto, A fermentar em crime e em veneno. Portanto Precisa esgôto; quer-se um esgôto e despejá-la Contínuamente num porão ou numa vala. Emigrar ou morrer; degrêdo ou cemitério. O hálito da pobreza imunda é deletério. De trapos de mendigo e lençóis de vilão Faz a anarquia flamejante o seu pendão. Curta distância vai da indigência à rapina, Da mão que implora à que estrangula e que assassina. Dorme em cada esfaimado um tigre. Há que evitar Na rua aglomerações de ventres sem jantar. A miséria despeja-a Deus, a Providência, Do seu vaso nocturno ao saguão da existência. Que fazer contra a lei de Deus, contra o Destino? Arredar para longe o excremente divino, Para bem longe, de maneira que a infecção Não nos perturbe a nós, Senhor, a digestão...
O REI:
É triste, mas emfim que remédio lhe dar?!
OPIPARUS:
Comer, beber, dormir, jogar, caçar, dançar! Festas, Senhor! Muitas e vãs, loucas e várias! Não há jantar? Função. Não há pão? Luminárias. A pobreza anda rôta, a canalha anda nua? Girândolas ao ar e músicas na rua. A fome e a dor bramem de noite, uivam nas eiras? Matinadas, clarins, vivas ao rei, bandeiras. Alegria! gozar! folgar! nada de luto! Bombas! Salvem canhões de minuto a minuto! E a cada grito de miséria ou de estertor O cantar dum Te-Deum e o rufar dum tambor. Dê-se à plebe faminta uma estrondosa orgia, Um banquete real, monstro,--em scenografia! Que bela idéa! Armar de improviso um galeão, --Tábuas, cinábrio, gêsso, andrinopla e cartão,-- Pô-lo em rodas, tirado a parelhas d'Alter, A côrte dentro, o patriarca, o chanceler, El-rei de c'roa d'oiro, a raínha taful, Asas novas de arcanjo, uma branca outra azul, Eu ao leme, pendões, músicas, auriflamas, Bispos e generais, o núncio, arautos, damas, Com brilhantes a arder em veludo e em brocado, --Tripulação emfim de baixel encantado, A navegar de rua em rua, e praça em praça, Atirando à miséria, à nudez, à desgraça, A carga inteira a plenas mãos: lôdo em confeitos, Gargalhadas, sermões de entrudo (alguns perfeitos!) Drogas de charlatães, ditos de saltimbanco, Cinza, areia, impudor, fome... e notas de banco! ................................................ E por último a rir sentamo-nos à mesa, A despejar champagne em favor da pobreza!
O REI:
Despovoa-se tudo!
CIGANUS:
Um êxodo...
OPIPARUS: