Part 2
O tratado... Uma léria... Enfastia-me já... Mais preto menos preto, a mim que se me dá?! Por via agora duma horrenda pretalhada Mil barafundas e alvorotos... Que massada! Que massada!... Fazem-me doido, não resisto...
Desenrolando o pergaminho:
É assiná-lo, e pronto! acabemos com isto!
Lendo alto:
«Eu, rei de Portugal, súbdito inglês, declaro Que à nobre imperatriz das Índias e ao preclaro Lord Salisbury entrego os restos duma herança Que dum povo ficou à casa de Bragança, Dando-me, em volta, a mim e ao príncipe da Beira A desonra, a abjecção, o trono... e a Jarreteira.» Cáspite! um pouco forte... Ora adeus!... uma história... Chalaças... Devo a c'roa à raínha Vitória!
O DOIDO, _na escuridão_:
Tive castelos, fortalezas pelo mundo... Não tenho casa, não tenho pão!... Tive navios... milhões de frotas... Mar profundo, Onde é que estão?... onde é que estão?!... Tive uma espada... Ah, como um raio, ardia, ardia Na minha mão!... Quem ma levou? quem ma trocou, quando eu dormia, Por um bordão?!... E tive um nome... um nome grande... e clamo e clamo, Que expiação! A perguntar, a perguntar como me chamo!... Como me chamo? Como me chamo?... Ai! não me lembro!... perdi o nome na escuridão!...
O REI, _desvairado, erguendo-se_:
O doido!... Aquela voz de fantasma titânico Gela-me o sangue e petrifica-me de pânico! Porque?... Ignoro... O mesmo instinto singular, Que faz ladrar os cães, mal o ouvem cantar... Parece-me um algoz, um carrasco sangrento D'alêm campa, a marchar no escuro a passo lento, Direito a mim!... Lá vem!... lá vem vindo... não tarda!... Quem me defende?... a minha côrte? a minha guarda? A minha guarda!... a minha côrte!... Ah, bons amigos, Como hei-de crer em saltimbancos e em mendigos,
Sentando-se ao fogão, junto dos cães:
Se nem mesmo nos cães tenho confiança já!...
Os três cães, agachando-se-lhe aos pés, acariciam-no e lambem-no.
O REI, _enxotando Iago bruscamente_:
Iago... Iago!... Então... basta de festas, vá!... Safado! cachorro imundo!... Olhem o odre De gordura, já meio leso e meio podre! Biltre! À fôrça de comesainas e de enchentes Emprenhou-te a barriga e caíram-te os dentes! As unhas foi meu pai quem tas cortou de vez... Já nem és cão... és porco; e inda em porco és má rês! E lembrar-me eu de o ver, canzarrão duro e bruto, O ventre magro, o olhar em sangue, o pêlo hirsuto, Capaz de trincar ferro e mastigar cascalho!... E ei-lo agora: poltrão! ventrudo-mór! bandalho!
Iago redobra de festas. O rei dá-lhe um pontapé.
O bandalho! o bandalho!...
E êste Judas esperto, Êste Judas, filho de lôba e cão incerto!... Um chacal remeloso e sarnento e pelado, Todo carcunda, esguio e vêsgo, a olhar de lado!... E acredita, o pandilha sorna, o safardana, Sempre a beijar-me os pés, sempre a tossir de esgana, Que me ilude!... Cachorro!... Ora diz lá, meu traste: Por quanto hás-de vender El-rei? já calculaste?... E um Veneno, que é tão pequeno e que é tão mau! Fraldiqueiro e feroz, pulgasita e lacrau! Com ganas de trincar a humanidade inteira, Vai trincando pasteis e barrigas de freira...
Erguendo-se:
E são três cães, três cães! Iago, Judas, Veneno, Um odre imundo, um chacal torto e um rato obsceno, O meu amparo! Que vergonha!... Ao que eu cheguei!... Três podengos de esquina a tutelar um rei! Mas, que demónio! sou injusto... a verdade, a verdade É que guardam o prédio e fazem-me a vontade... Por amor à ração e não amor ao dono? Inda bem.... inda bem... tem de salvar o trono, Se quiserem jantar... perdida a monarquia, Adeus o regabofe e adeus a conesia! Por isso estão, como dragões, de sentinela Junto do rei, junto da copa e da gamela. Defendem-me. E eu ainda os insulto!... coitados! Mandriões e glutões, gostam de bons bocados... Tambêm eu... Porque os hei-de, afinal, descompor? É da bílis, da inquietação, do mau humor Em que eu ando... Nem sei... que demónio! foi praga... Raios partam o doido e essa abantesma aziaga Do cronista!... Não há que ver, fazem-me tonto!...
Vendo o pergaminho:
Mais esta geringonça inda por cima!
Indo a assinar:
Pronto!
O DOIDO, _na escuridão_
Ai, a minh'alma anda perdida, anda perdida Ou pela terra, ou pelo ar ou pelo mar... Ai não sei dela... ai não sei dela... anda perdida, E eu há mil anos correndo o mundo sem na encontrar!... Pergunto às ondas, dizem-me as ondas: --Pergunta ao luar...-- E a lua triste, branca e gelada, Não me diz nada... não me diz nada... Põe-se a chorar! Pergunto aos lôbos, pergunto aos ninhos, E nem as feras, nem os passarinhos Me dizem onde habita, em que logar!... Sangram-me os pés das fragas dos caminhos... Não tenho alma, não tenho pátria, não tenho lar!... Ai, quanta vez! ai, quanta vez! Não passará talvez A minh'alma por mim sem me falar! Quem reconhece o cavaleiro antigo Neste mendigo Rôto e doido... quem há-de adivinhar?!... Adivinhava ela... adivinhava!... O cão no escuro, pela serra brava, Não vai direito ao dono a farejar? Adivinhava... É que está presa... é que está presa! Ontem sonhei... (lembro-me agora!) que está presa Naquela bruta fortaleza, Numa cova sem luz, num buraco sem ar, E que os carrascos esta noite, de surpresa, A vão matar! a vão matar! a vão matar!... ......................................... Por isso o mar anda a rezar!... Por isso a lua desmaiada, Sem dizer nada... sem dizer nada... A olhar p'ra mim, branca de dor, fica a chorar!...
Ribombam trovões, fusilam relâmpagos. Os cães, espavoridos, ululam sinistramente.
O REI, _alucinado, clamando_:
É demais! é demais!... Põe-me o caco do avesso!... Um frenesim... Que fúria!... irrita-me... endoideço... E anda às soltas êste ladrão dêste espantalho!... Eu já o ensino, já o arranjo... um bom vergalho... Marquês! marquês! marquês!
SCENA IV
*O rei, Opiparus e Ciganus*, acudindo
OPIPARUS:
Meu Senhor!...
CIGANUS:
Meu Senhor!...
O REI, _alucinado_:
Vão-no prender!... vão-no prender!... Um salteador... Tragam-mo aqui aos pés, de rastros, maniatado!... Tragam-no aqui!...
OPIPARUS, _à parte_:
El-rei endoideceu, coitado!
CIGANUS:
Meu Senhor! meu Senhor, que indignação!... Dizei, Alguem desacatou a pessoa d'el-rei, Por acaso?
O REI:
Um fantasma louco entre o arvoredo...
OPIPARUS:
Um fantasma?!... Ilusão... O ar atordôa...
CIGANUS:
Mêdo De que? de agoiros infantis, de sonhos vagos? Com ministros leais e escudeiros bem pagos, Que teme el-rei?!...
O REI:
Não foi vertigem, não foi sonho... Um brutamontes alienado, um gigante medonho Que me não deixa... Quero vê-lo... Ide prendê-lo... andai...
CIGANUS:
Mas que fantasma é êsse aterrador?
O REI, _levando-os ao balcão e apontando_:
Olhai! Alêm!... alêm!... alêm!...
CIGANUS:
Strambótica figura!... É singular... é singular...
OPIPARUS:
Crime ou loucura... Por certo um doido...
O REI:
Há já três noites, sem descanso, Uivando loas sôbre loas...
OPIPARUS:
Doido manso...
O REI:
Ide prendê-lo!... amordaçai-o, maniatai-o! Não me larga esta insónia há três noites!... Um raio Dum profeta a grunhir cantochões de defuntos!... Boa carga de pau... bom marmeleiro aos untos... Mas vejam lá que o diabo às vezes, com a telha, Não arme algum chinfrim... Peguem-no de cernelha!
SCENA V
O rei, inquieto, preocupado, senta-se ao fogão. Os cães abeiram-se, uivando medrosos. Redobra a tormenta. Pestanejam, contínuos, relâmpagos formidáveis.
O DOIDO, _no escuro, em voz plangente de embalar crianças_:
Os vivos tem mêdo aos mortos, Que andam de noite ao luar... Fantasmas de mortos São enganos mortos... Deixem-nos andar... deixem-nos andar!...
Os vivos tem mêdo aos mortos, Que andam sonhando a penar... Quimeras de mortos São desejos mortos... Deixem-nos sonhar... deixem-nos sonhar!...
Os vivos tem mêdo aos mortos, Que andam cantando a chorar... As canções dos mortos São suspiros mortos... Deixem-nos cantar... deixem-nos cantar!...
O REI:
O doido! o doido! o doido!
A MESMA VOZ, _na escuridão_:
Não lhes tenham mêdo... deixem-nos cantar...
SCENA VI
Entram Ciganus e Opiparus acompanhando o fantasma, em meio de escudeiros armados e com archotes. O doido aparece tal qual o descrevemos: enorme, cadavérico, envolto em farrapos, as longas barbas brancas flutuando. Numa das mãos o bordão. Na outra um vélho livro em pedaços. Lembra um doido e um profeta, D. Quixote e o rei Lear. O olhar, cavo e misterioso, é de sonâmbulo e de vidente. O rei empalidece como um sudário. Os cães ululam, furiosos e trémulos.
CIGANUS:
Eis o doido... É curioso êste Matusalem... Como se chama? onde nasceu? de onde vem? Ignora tudo... Canta e soluça...
OPIPARUS:
De resto, Não tem fúrias, nem anda armado: um doido honesto.
O REI:
Que estafermo!... que monstro!... Um espião, talvez...
OPIPARUS:
Deixou-se maniatar, prender, qual uma rês Submissa... Não, um doido...
CIGANUS:
Um doido extravagante... Quem és? Despacha a língua... olha que estás diante D'el-rei... Diz o teu nome...
OPIPARUS:
O teu nome, vilão!
O DOIDO, _absorto_:
Como me chamo... como me chamo?... Ai! não me lembro... perdi o nome na escuridão...
CIGANUS:
Sempre a mesma resposta inalterável...
O REI:
Diz De donde vens? onde nasceste? em que país? Nada temas... El-rei é bom, podes falar...
O DOIDO, _sonâmbulo_:
Não tenho alma... não tenho pátria... não tenho lar...
O REI:
Traz um livro na mão, reparai...
CIGANUS, _tomando o volume, que o doido entrega, pesaroso_:
Deixa ver... Deixa-mo ver... um livro antigo... Sabes ler? Tu sabes ler?
OPIPARUS:
Anda, responde, não te encolhas...
CIGANUS, _abrindo o livro_:
Nem princípio, nem fim; trapos todas as fôlhas.
Folheando e lendo:
«_Esta é a ditosa pátria minha amada... ........................................ Alguns traidores houve algumas vezes... ........................................ Porque essas honras vãs, êsse oiro puro Verdadeiro valor não dão... ........................................ A que novos desastres determinas De levar êstes reinos, esta gente?... ........................................ ..............apagada e vil triteza_...»
O REI:
Parece verso...
CIGANUS, _restituindo o livro_:
Um alfarrábio fedorento, Coisa de prègador, talvez... cheira a convento...
CIGANUS:
Quem sabe se algum vélho ermitão alienado, Dêsses que vivem sós, longe do povoado, Em ermos alcantis ou cavernas de fera...
OPIPARUS:
Onde dormes?
O DOIDO:
Dormir!... dormir!... Oh, quem me dera Dormir!... Oh, quem me dera esta cabeça vaga, Esta cabeça tonta, arrimá-la a uma fraga, E quedar-me p'ra sempre esquecido no chão!... E os mortos dormem... e eu morri... então... então Porque não durmo?!...
Vagueando os olhos esgazeados pelos retratos da dinastia de Bragança, e como que recordando-se gradualmente, em sonho, dum escuro passado, abolido e longínquo:
Olha os bandidos... os traidores!... Bem nos conheço!... fôram êles... subtilmente
Rosnam os cães, enfurecidos.
Com drogas más e com venenos de serpente, Sem eu saber, de noite e dia, a pouco a pouco, Me levaram a alma e me tornaram louco... Enlouqueceram-me, endoidaram-me os bandidos!... A minha alma!... a minha alma!... Ouço gemidos... São talvez dela... tem-na aqui encarcerada... Onde estás, onde estás, alma desamparada?!... Grita por mim!... onde é que estás?!... Ai, quero emfim Ver-te comigo... Onde é que estás?!...
Os cães, truculentos, investem com êle. Resignado e com desprêzo:
Ah, cães danados... cães d'el-rei... mordei, mordei Êste corpo sem alma!... Ah fôsse outrora... outrora!... E ai dos cachorros e do dono!... Assim... agora... Mordei, mordei, ladrai, despedaçai sem p'rigo A minha carne e os meus andrajos de mendigo!...
CIGANUS:
Coitado! um noitibó maluco e mansarrão...
OPIPARUS:
Delírio de tristeza e de perseguição...
O REI:
Astrologus talvez o conheça...
CIGANUS:
O farçante! Prègador, impostor, mágico, nigromante, Meio raposa e meio c'ruja...
O REI:
É tal e qual... perfeito... Mas o demónio do mostrengo tem seu geito Para enigmas... Quem sabe!... Ide-o chamar... talvez...
SCENA VII
Opiparus vai em procura do cronista. O doido, sonâmbulo, vagueia em tôrno do salão, contemplando os retratos. O rei ao lume, junto dos cães, segue-o com os olhos.
CIGANUS, _meditando_:
Bem complicado êste cronista!... Quem o fez Teve artes de engendrar singular criatura, Contraditória, ondeante, incerta, ambígua, obscura... Há duas almas no mostrengo: a que arquitecta Quimeras vãs e sonhos vãos, a do poeta Lunático, imbecil, místico, iluminado, Essa deixá-la andar, que me não dá cuidado!, Mas a outra, a ambiciosa, a gulosa, a mesquinha, A refalsada, (a verdadeira!) a igual à minha, Essa mais devagar, Saltamontes... cautela!... Ôlho nela... ôlho nela... O rei é tudo, o rei fraco... êste cronista Discursa bem... convem não o perder de vista... Inútil. Afinal as duas almas ao cabo Destroem-se uma à outra, é como Deus e o Diabo. E emquanto que ambas a ferver, drogas contrárias, Em mil combinações, imprevistas e várias, Se desagregam, eu, tranqùilo e resoluto, Como tenho uma só, imagino e executo. Ah, o cronista ambíguo e magro e macilento Não pasmarei de o ver ainda num convento... Bem capaz de morrer, jejuando, ermitão... A loucura subtil envolve-o... Que trovão! Que relâmpago!... Brada o vento... ulula o mar... E êste doido esquisito e singular, a olhar... A olhar... Que leve o demo a noite e a ventania...
O REI, _seguindo o doido com os olhos_:
Pois agora embirrou! não larga a dinastia...
O DOIDO, _absorto_:
Fantasmas de mortos São enganos mortos... Não lhes tenham mêdo... deixem-nos sonhar...
SCENA VIII
Entram Opiparus e Astrologus.
O REI, _ao cronista-mór_:
Conheces porventura Êste doido?
ASTROLOGUS:
Conheço.
O REI:
É doido?
ASTROLOGUS:
Na figura, Na voz, no olhar, em tudo o podeis ler, Senhor.
O REI:
E como endoideceu?
ASTROLOGUS:
De miséria e de dôr.
O REI:
Há muito?
ASTROLOGUS:
Vai fazer três séculos...
CIGANUS:
A vista Do espantalho endojou a mioleira ao cronista...
O REI:
Três séculos!... caramba! então que idade tem? Mil anos?...
ASTROLOGUS:
Quási...
OPIPARUS:
Pronto! endoideceu tambêm!
ASTROLOGUS:
A mil não chega ainda; oitocentos...
CIGANUS:
Coitado! Endoideceu! doido varrido e confirmado!
O REI:
Gracejas?
ASTROLOGUS:
Não perdi a razão, nem gracejo... Acaso, meu Senhor, não vedes, como eu vejo, Neste gigante, em seu aspecto e seu fadário, O quer que seja de extra-humano e de lendário? Maior que nós, simples mortais, êste gigante Foi da glória dum povo o semideus radiante. Cavaleiro e pastor, lavrador e soldado, Seu torrão dilatou, inóspito montado, Numa pátria... E que pátria! a mais formosa e linda Que ondas do mar e luz do luar viram ainda! Campos claros de milho moço e trigo loiro, Hortas a rir, vergeis noivando em frutos d'oiro, Trilos de rouxinóis, revoadas de andorinhas, Nos vinhedos pombais, nos montes ermidinhas, Gados nédios, colinas brancas, olorosas, Cheiro de sol, cheiro de mel, cheiro de rosas, Selvas fundas, nevados píncaros, outeiros D'olivais, por nogais frautas de pegureiros, Rios, noras gemendo, azenhas nas levadas, Eiras de sonho, grutas de génios e de fadas, Riso, abundância, amor, concórdia, juventude, E entre a harmonia virgiliana um povo rude, Um povo montanhês e heróico à beira-mar, Sob a graça de Deus, a cantar e a lavrar! Pátria feita lavrando e batalhando: Aldeias Conchegadinhas sempre ao torreão de ameias. Cada vila um castelo. As cidades defesas Por muralhas, bastiões, barbacãs, fortalezas. E a dar a fé, a dar vigor, a dar o alento, Grimpas de catedrais, zimbórios de convento, Campanários de igreja humilde, erguendo à luz, Num abraço infinito, os dois braços da cruz! E êle, o herói imortal duma empresa tamanha, Em seu tuguriosinho alegre na montanha Simples vivia,--paz grandiosa, augusta e mansa, Sob o burel o arnês, junto do arado a lança. Ao pálido esplendor do ocaso na arribana, Di-lo-íeis, sentado à porta da choupana, Ermitão misterioso, extático vidente, Olhos no mar, a olhar sonambólicamente... --«Águas sem fim! ondas sem fim!... Que mundos novos De estranhas plantas e animais, de estranhos povos, Ilhas verdes alêm... para alêm dessa bruma, Diademadas de aurora, embaladas de espuma!... Oh, quem fôra, através de ventos e procelas, Numa barca ligeira, ao vento abrindo as velas, A demandar as ilhas d'oiro fulgurantes, Onde sonham anões, onde vivem gigantes, Onde há topázios e esmeraldas a granel, Noites de Olimpo e beijos d'âmbar e de mel!» E scismava e scismava... As nuvens eram frotas Navegando em silêncio a paragens ignotas... --«Ir com elas... fugir... fugir!...»--[~U]a manhã, Louco, machado em punho, a golpes de titã Abateu impiedoso o roble familiar, Há mil anos guardando o colmo do seu lar. Fez do tronco num dia uma barca veleira, Um anjo à proa, a cruz de Cristo na bandeira... Manhã d'heróis... levantou ferro... e, visionário, Sôbre as águas de Deus foi cumprir seu fadário. Multidões acudindo ululavam de espanto. Vélhos de barbas centenárias, rosto em pranto, Braços hirtos de dor, chamavam-no... Jàmais! Não voltaria mais!... oh, jàmais... nunca mais!... E a barquinha, galgando a vastidão imensa, Ia como encantada e levada suspensa Para a quimera astral, a músicas de Orfeus... O seu rumo era a luz, seu piloto era Deus! Anos depois volvia à mesma praia emfim Uma galera d'oiro e ébano e marfim, Atulhando, a estoirar, o profundo porão Diamantes de Golconda e rubins de Ceilão. Naiades e tritões e ninfas, ao de leve, Moviam-na a cantar sôbre espáduas de neve. No estandarte uma cruz esquartelando a esfera; E Vénus, voluptuosa, à proa da galera
Com o anjo cristão, virgem risonha e nua, A mamar alvorada em seus peitos de lua!... O argonauta imortal, quimérico gigante, Voltava dos confins da epopeia radiante, Estasiados ainda os olhos vagabundos D'astros de novos céus, floras de novos mundos!
Epopeia inaudita! Herói, êle a viveu, Sonhador, a cantou: Éschilo e Prometeu! Inda em hinos de bronze, em estrofes marmóreas Vibra eterno o clangor dessas passadas glórias... Mas a glória entontece e mata... Deslumbrado, Trocou por armas d'oiro as armas de soldado, Vestiu veludo e sêda e lhamas rutilantes, Estrelou de rubins, aljófares, diamantes Sua espada de côrte e seu gibão de gala, E, em vez do catre duro e pão negro de rala, As molesas do Oriente e as orgias faustosas, Com baixelas d'Olimpo e emanações de rosas... Perdida a antiga fé, morta a virtude antiga, Seu ânimo d'herói, caldeado na fadiga De mil empresas, mil combates de titãs, Domaram-no por fim braços de cortesãs. Com o ferro vencera o oiro; em desagravo, O oiro, que é mau, venceu-o a êle, tornando-o escravo. Ingrato abandonara o teto paternal, Em cuja mesa à ceia aldeã, herói frugal, Eram de sua estreme e rústica lavoira O pão moreno, o vinho claro e a fruta loira. Deixou morrer o armento; e campos e vinhedos Cobriram-se de tojo, ortigas e silvedos. Em seus castelos e palácios rendilhados, Sôbre leitos de arminho e veludo e brocados, Entre beijos de harem e pompas de rajá, Desfalecera o velho herói, caduco já. Mas era bravo ainda, e por vezes nas veias, Acordava-lhe o sangue, alvorando epopeias... Num ímpeto de febre, aceso, arrebatado Na visão deslumbrante e fulva do passado, Ergueu-se um dia, louco e triste, alma quimerica, Olhos em brasa a arder na face cadavérica... Aparelhou galeões, velas brancas arfantes, Cavaleiros aos mil, juvenis e brilhantes, Galopando a cantar, descuidados e ledos Lanças na mão, a pluma ao vento, aneis nos dedos, Cada bôca uma flor, cada arma um tesoiro, Rodelas d'oiro, arnezes d'oiro, espadas d'oiro, Pedrarias astrais em setins e em veludos, Drapejar de pendões, reverberos de escudos, E as trombetas varando o céu leve de anil Co'o estridente clangor do seu furor febril! E, olhos em brasa a arder na face cadavérica, Lá partiu, lá partiu, alma errante e quimérica, À epopeia da glória, ao sonho aventureiro, Ao sonho lindo... oh, sonho triste o derradeiro!... Num mar d'areia, fogo em pó turbilhonando, Sob o vitríolo da luz redardejando, Entre as carnagens do combate desvairado, Já trucidado, espostejado, aniquilado Seu exército louco,--oh sonho louco e vão!-- O calmo herói, noite no olhar, gládio na mão, Negro de fumo e pó, rubro de chama e sangue, Os ilhais estoirando ao seu corcel exangue, Arrojou-se, como um destino, erecto e forte, À sangrenta hecatombe, à paz de Deus, à morte! E a morte não no quis: exânime e desfeito, De lançadas crivado o arnez, crivado o peito, Sob o corcel tombou, por milagre inda vivo! Levaram-no depois sem acôrdo e cativo. Meio século preso e débil... De repente, Num assomo de fúria e de cólera ardente, Partiu grilhões, abriu o ergástulo fatal E voltou livre, livre! ao seu torrão natal!... Mas então, oh tristeza, oh desonra, oh desgraça! Feras do mesmo sangue, homens da mesma raça Envenenaram-no!...
Iago atira-se furioso ao cronista.
O REI, _dando-lhe um pontapé_:
Silêncio! deixa ouvir... Tem cada uma êste cronista!...
Iago não obedece. Outro pontapé.
Deixa ouvir! E quem foi?... e quem foi?...
Rosnam os cães, fusilando os olhos ao cronista.
ASTROLOGUS, _embaraçado e perplexo_:
Quem foi?... Mistério obscuro... enigma que se esconde... Já li sôbre isso, não sei quando, nem sei onde, Uma lenda qualquer...
Os cães enfurecem-se.
O REI:
Iago! Judas!... caluda!
ASTROLOGUS:
Mas nesse ponto, meu Senhor, a história...
Os cães ameaçam, desvairados.
é muda!... .................................................... Envenenaram-no, eis o facto, eis a verdade. E às escuras, extinta a imortal claridade, Louco autómato errante, alma cega e funérea, Veio andando através do tempo e da miséria, Mendigo como um cão e mártir como um Cristo, Até chegar, meu Deus, vergonha eterna! a isto!!... Vêde-o bem, vêde-o bem, o rude herói d'outrora: Teve o mundo nas mãos, nos olhos d'águia a aurora. E hoje, oh destino atroz! sem amparo e sem lar, Tem andrajos no corpo e escuridões no olhar!... Não no mandeis prender, eu vo-lo peço e requeiro! É inofensivo... é manso e bom como um cordeiro... Causam-vos mêdo, porventura, umas baladas Que anda à noite a cantar, canções d'almas penadas?... É a doudice, hórrida e má, que tumultua Ou nas voltas do tempo ou nas fases da lua... Não afronta ninguêm... Deixem-no ir, coitado! Deixem-no com seu mal e seu negro cuidado, A trovar pelo escuro e a viver pelos montes De luz do sol, d'erva do campo e água das fontes... .................................................... Trás um livro na mão, reparai bem, Senhor: Um livro usado, um livro gasto e sem valor... Sem valor?!... Um tesoiro, uma história de encanto, Que êle escreveu com sangue e hoje rega com pranto... Não a larga da mão, anda-lhe tão afeito, Que até dorme com ela escondida no peito... Mas que miséria a sua e que destino o seu! Quer ler... e não soletra o livro que escreveu! Muitas vezes de tarde encontro-o a meditar Sôbre rocha escarpada e nua à beira-mar... Pega no livro então, abre-o sôfregamente, E fica olhando, olhando, atónito e demente, A epopeia d'outrora, a bíblia do passado, Que lágrimas de fogo em sec'los tem queimado... Mas ai! que serve olhar, se os olhos são janelas, E se a alma é quem vê, quem espreita por elas!... Fica a olhar... fica a olhar, hesitante e perplexo, Balbucia, articula umas coisas sem nexo, E, por fim, taciturno e torvo, aniquilado, Como quem vislumbreia, horror!, o seu estado, Fita as nuvens do azul... fita as ondas do mar... E desata, em silêncio, a chorar!... a chorar!... E depois vem a noite... e ali dorme ao relento, Desamparado, abandonado, ao frio, ao vento, Té que algum pescador, de manhã, pela mão O recolha ao seu lar e lhe dê do seu pão!... .............................................
CIGANUS:
Bem o dizia eu... bem o dizia eu... Êste cronista não regula... endoideceu! Que histórias que êle inventa, o mágico!...
OPIPARUS:
Perlendas De visionário tonto, inquiridor de lendas... Vagueiam-lhe no caco obscuro, entre miasmas, Lemures, avejões, duendes, monstros, fantasmas...
CIGANUS:
E no entanto calcula e discorre direito, Se lhe cheira a questão de ganância ou proveito...
O REI: