Part 1
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[Figura: Guerra Junqueiro]
GUERRA JUNQUEIRO
Nasceu em Freixo de Espada á Cinta em 12 de Setembro de 1850. Guerra Junqueiro é o nosso maior poeta vivo e um dos maiores poetas portugueses de todos os tempos. O seu génio profundo e vasto, a sua sensibilidade lírica verdadeiramente excepcional, o seu maravilhoso poder de expressão e de evocação, permitiram-lhe ser grande em todos os géneros de poesia. Desde as sátiras violentas que são a «_Velhice do Padre Eterno_» e a «_Morte de D. João_» até ao lirismo enternecido e humano dos «_Simples_», foi sempre um poeta original e forte, absolutamente incomparável; mas onde o seu génio se manifesta em toda a sua gloriosa expansão é na «_Pátria_», sátira e lirismo amalgamados na mais imprevista grandeza épica, grito de esperança dum povo, redimido emfim da sua decadência antiga. Depois de publicar a «_Pátria_», Junqueiro evolucionou para uma mais larga compreensão do mundo e da vida; daí as suas «_Orações_», dum intenso lirismo panteista e cristão, no mais nobre sentido desta palavra: daí tambêm «_A Unidade do Ser_», livro em que a sua prodigiosa e sempre moça imaginação se alia a um seguro conhecimento dos fenómenos biológicos.
*EÇA DE QUEIROZ*
_O Crime do Padre Amaro_, 1 vol. 1$20 _Primo Basílio_, 1 vol. 1$00 _O Mandarim_, 1 vol. $50 _Os Maias_, 2 vol. 2$00 _A Relíquia_, 1 vol. 1$00 _Correspondência de Fradique Mendes_ $60 _A Cidade e as Serras_, 1 vol. $80 _A Ilustre Casa de Ramires_, 1 vol. 1$00 _Prosas Bárbaras_, 1 vol. $60 _Contos_, 1 vol. $60 _Cartas de Inglaterra_, 1 vol. $50 _Ecos de Paris_, 1 vol. $50 _Cartas familiares e bilhetes postais de Paris_, 1 vol. $50 _As Minas de Salomão_ (tradução) $60 _Notas Contemporâneas_ (ideias sôbre literatura e arte), 1 vol. 1$00 _Ultimas páginas_, 1 vol 1$00
*COELHO NETO*
_Sertão_, 1 vol. $60 _A Bico de Pena_, 1 vol. $70 _Agua de Juventa_, 1 vol. $70 _Romanceiro_, 1 vol. $50 _Teatro_, vol. I $80 _Teatro_, vol. II $40 _Teatro_ vol. IV $50 _Fabulário_, 1 vol. $50 _Jardim das Oliveiras_, 1 vol. $50 _Esfinge_, 1 vol. $60 gravuras, 1 vol. $50 _Inverno em Flor_. 1 vol. $70 _Mistérios do Natal_, contos para crianças, 1 vol. $50 _Morto (O)_, memórias de um fuzilado $60 _Rei Negro (O)_, 1 vol. $80 _Miragem_, 1 vol. $60 _Capital Federal_, 1 vol. $60 _Apólogos_, contos para crianças, com _A Conquista_, 1 vol. $70 _A Tormenta_, 1 vol. $60 _Tréva_, 1 vol. $70 _Banzo_, 1 vol. $50 _Teatro_, vol. V. $50 _O Turbilhão_ $70
[Figura: _Guerra Junqueiro_]
GUERRA JUNQUEIRO
_PÁTRIA_
_Esta é a ditosa pátria minha amada_.
Camões.
TERCEIRA EDIÇÃO
PORTO Livraria Chardron, de Lélo & Irmão, editores--Rua das Carmelitas, 144
1915
Todos os direitos reservados
DO MESMO AUTOR
(Edições de LÉLO & IRMÃO)
_A Velhice do Padre Eterno_ (edição profusamente ilustrada por Leal da Câmara), 1 vol. br. 1$00 _A Vitória da França_ $10 _Pátria_, 3.^a edição, 1 vol. br. $80 _Finis Patriae_ $30 _O Crime_ $20 _Lágrima_ $10 _Oração ao Pão_ $12 _Oração à Luz_ $20 _Marcha do ódio_ $30
A ENTRAR NO PRÉLO:
_Oração à Flor_.--_Oração ao Homem_.
A SAIR BREVEMENTE:
_Unidade do Sêr_ (estudo filosófico e scientífico).
PROPRIEDADE DOS EDITORES
_A propriedade literária e artística está garantida em todos os países que aderiram á Convenção de Berne--(Em Portugal, pela lei de 18 de Março de 1911. No Brasil, pela lei n.^o 2577 de 17 de Janeiro de 1912)_.
Porto--Imprensa Moderna
_Á alma do meu amigo
Dr. José Falcão_
_Aos meus amigos
Basílio Teles
José Pereira de Sampaio_
ACTORES
Um doido. O rei. Magnus, duque de S. Vicente de Fóra. Opiparus, príncipe d'Oiro Alegre. Ciganus, marquês de Saltamontes. Astrologus, cronista-mór de el-rei. Iago, antigo cão de fila, dentes pôdres, obeso, gordura flácida. Judas, cão mestiço de lôbo, carcunda, sarnento, olhar falso, injectado de bílis. Veneno, fraldiqueirito anão, ladrinchador e lambareiro.
*PÁTRIA*
Noite de tormenta. Céu caliginoso, mar em fúria, ventanias trágicas, relâmpagos distantes. O castelo do rei à beira-mar. Sala de armas. Nos muros, entre panóplias, os retratos em pé da dinastia de Bragança. Agachados ao lume, os três cães familiares de el-rei,--Iago, Judas, Veneno. Entram Opiparus, Magnus e Ciganus. Sentam-se, afagando os cães. Magnus poisa na mesa um pergaminho com o sêlo rial. É o tratado com a Inglaterra.
SCENA I
CIGANUS, _apontando o pergaminho e rindo_:
Necrológio a assinar pelo defunto!
MAGNUS, _com gravidade_:
É urgente: Salvamo-nos...
OPIPARUS, _acendendo um charuto_:
Perdendo a honra... felizmente! Inda bem! inda bem! vai-se a _ária das Quinas_...
MAGNUS, _convicto_:
Glorioso pendão sôbre um castelo em ruínas...
OPIPARUS:
O pendão! o pendão!... um trapo bicolor, A que hoje o mundo limpa o nariz... por favor.
CIGANUS:
Emquanto a mim, que levem tudo, o reino em massa, Pouco importa; o demónio é que o levem de graça. Mas agora acabou-se!... e, em logar de protesto, Vejamos antes se o ladrão nos compra o resto... Um bom negócio... hein?!... manobrado com arte...
OPIPARUS, _soprando o fumo do charuto_:
Dou por cem libras, quem na quer? a minha parte...
MAGNUS, _grandioso_:
Quando d'ânimo leve o príncipe assim fala, Não se queixem depois que a dinamite estala, Nem se admirem de ver o país qualquer dia Na mais desenfreada e tremenda anarquia! Prudência! haja prudência, ao menos, meus senhores... É grave a ocasião... gravíssima!... Rumores De medonha tormenta andam no ar... Cuidado! Não desanimo, é certo... Um povo que deu brado, Uma nação heróica entre as nações do mundo, Há-de viver... É longo o horizonte e é fecundo!... Creio ainda no meu país, na minha terra!... Guardo a esp'rança...
OPIPARUS:
Bem sei, no Banco de Inglaterra... A esp'rança e dois milhões em oiro, tudo à ordem... Não é isto?...
MAGNUS, _embaraçado_:
Exagêro... exagêro... Concordem... Sim, concordem... pouco me resta e pouco valho... Mas o suor duma vida inteira de trabalho... Economias... bagatela... um nada... era mister... No dia d'àmanhã, com filhos, com mulher... Entendem, claro está... era preciso, emfim, Segurança... Não me envergonho... Emquanto a mim, Posso falar de cara alta... o meu passado...
OPIPARUS:
Se é mesmo a profissão do duque o ser honrado! É o seu modo de vida, o seu ofício... Creio Que é daí... que é daí que a fortuna lhe veio: Ninguêm lho nega... O duque é dos bons, é dos puros... E a virtude a render, a dignidade a juros Acumulados... Francamente, eu noto, eu verifico Que era caso de estar muitíssimo mais rico... O duque foi modesto: a honra de espartano Não a deu nem talvez a dois por cento ao ano!
MAGNUS, _sorrindo constrangido_:
Má língua!...
CIGANUS, _com seriedade irónica_:
O nosso duque a ofender-se... que asneira! O príncipe graceja... histórias... brincadeira... À honradez do duque, inteiriça e macissa, Todo o mundo lhe faz a devida justiça... Mas vamos ao que importa,--ao bom pirata inglês...
MAGNUS:
El-rei assinará?... o que julga, marquês?
OPIPARUS:
El-rei nesse tratado é rei como Jesus, E, portanto, vão ver que o assina de cruz.
CIGANUS:
Sem o ler. Quem duvída? Assinatura pronta! Paris vale uma missa e Lisboa uma afronta. E, em suma, concordemos nós que um mau reinado, Por um bom pontapé, fica de graça, é dado. A el-rei àmanhã nem lhe lembra. Tranqùilo, Dormirá, jantará, pesará mais um kilo. Uma bóia de enxúndia; um zero folgazão, Bispote português com toucinho alemão,
OPIPARUS:
Sensualismo e patranha, indif'rença e vaidade, Gabarola balofo e glutão, sem vontade, Às vezes moralista, (acessos de moral, Que lhe passam jantando e não nos fazem mal) Eis el-rei. Um egoismo obeso, alegre e loiro, Unto já de concurso e de medalha d'oiro. Termina a dinastia; e Deus, que a fez tamanha, Põe-lhe um ponto final de oito arrobas de banha... Laus Deo!
MAGNUS:
Que má língua! El-rei, coitado! uma criança, Nem leve culpa tem nos encargos da herança... Não se aprende num dia a governar um povo... E em casos tais, em tal momento, um homem novo, Habituado á lisonja, habituado ao prazer... Maravilhas ninguêm as faz... não pode ser!... El-rei é bom! El-rei é um espírito culto, Ilustrado... Não digo, emfim, que seja um vulto, Um talento, uma coisa grande de espantar; Mostra, porêm, cordura, o que não é vulgar... Cordura e senso... Eu falo e falo com razão... Não minto... sou cortês, nunca fui cortesão! Duque e plebeu... vim do trabalho honrado que magôa... Não lisonjeio o povo e não adulo a C'roa. Os defeitos d'el-rei?... Não me custa o dizê-lo: Eu quisera maior int'resse... maior zêlo... Mais idade, afinal... Deixem correr os anos, E hão-de ver o arquetipo exemplar dos sob'ranos.
OPIPARUS, _sorrindo_:
Ingénua hipocrisia, duque... Olhe que el-rei Conhece-nos a nós, como nós a el-rei...
CIGANUS:
Sabem? Dá-me cuidado el-rei... dá-me cuidado... Melancolia... um ar de nojo... um ar de enfado... Sem comer, sem dormir, não repousa um minuto, E é raríssima a vez que êle acende um charuto.
OPIPARUS:
Indício bem pior: ha já seguramente Três dias que não vai à caça e que não mente. Ora, se el-rei não mente e não fuma e não caça, É que não anda bom, não anda...
MAGNUS:
Que desgraça! Pudera! hão-de afligi-lo, e com toda a razão, As tremendas calamidades da nação. Cada hora um desastre, um infortúnio... Eu scismo, Eu olho... e vejo perto o cairel dum abismo!
OPIPARUS:
Oh, nunca abismo algum tolheu el-rei, meu amo De aldravar uma pêta ou de caçar um gamo.
CIGANUS:
E depois o cronista-mór, tonto e velhaco, A insinuar-lhe, a embeber-lhe endróminas no caco, Telepatias, bruxarias, judiarias Do _Livro das Visões, Sonhos e Profecias_. O que vale é que el-rei, um gordo hereditário, Pesa de mais para profeta ou visionário. Não me assusta...
MAGNUS, _confidencial_:
Marquês... dum amigo a um amigo! Entre nós... fale franco: a ordem corre p'rigo?... O mal-estar... desassocêgo... uma aventura... Os quarteis... Diga lá: julga a C'roa segura?...
CIGANUS:
Segura e bem segura. Equivocar-me hei, No entretanto, parada feita: jógo ao rei! Neste lance... No outro... A inspiração é vária, E bem posso mudar para a carta contrária.
OPIPARUS:
De maneira que apenas eu, sublime idiota, Guardo fidelidade ao rei nesta batota! Alapardou-se em mim o dever e a virtude! Quando o trono de Afonso Henriques se desgrude, Eu cá vou com el-rei... Isto da pátria e lar É boa fêmea, bom humor e bom jantar, O ditoso torrão da pátria!... que imbecis! No globo não há mais que uma pátria: Paris. A nossa então, que choldra! Infecta mercearia, Guimarães, Policarpo, Antunes, Braga & C.^a! Um horror! um horror! Não temam que proteste, Se emigrando me vejo livre de tal peste. Fico por lá... não torno mais... fico de vez... O que é preciso é bago... Ora, você, marquês, Adorável canalha e salteador galante, Não me deixa embarcar el-rei como um tunante, El-rei que vai viver por côrtes estrangeiras, Sem duas dúzias de milhões nas algibeiras... Eu sou trinchante-mór, e conservo o lugar, Havendo, claro está, faisões para trinchar!...
MAGNUS, _imponente_:
Incrível! No momento grave em que a Nação Dorme (ou finge dormir!) à beira dum vulcão, Nesta hora tremenda, hora talvez fatal, Há quem graceje como em pleno carnaval! E assim vamos alegremente, que loucura! Cavando a todo o instante a própria sepultura... No dia d'àmanhã ninguêm pensa, ninguêm! Os resultados vê-los hão... caminham bem... Divertem-se com fogo... Olhem que o fogo arde... E extingui-lo depois (creiam-me) será tarde... Já não é tempo... As lavaredas da fogueira Abrasarão connosco a sociedade inteira! A mim o que me indigna e ruborisa as faces É ver o exemplo mau partir das altas classes, Sem se lembrarem (doida e miserável gente!) Que as vítimas seremos nós... infelizmente! Não abalemos, galhofando, assim à tôa, A égide do Scetro, o prestígio da C'roa! Quando a desordem tudo infama e tudo ameaça, A Rialeza é um penhor...
CIGANUS:
Destinado a ir à praça. Questão d'anos, questão de mês ou questão d'hora, Segundo ronde a ventania lá por fora... Observemos o tempo... anda brusco, indeciso... Não arme o diabo algum ciclone d'improviso!... O trono, defendê-lo emquanto nos convenha; Depois... trono sem pés já não é trono, é lenha. Queima-se; e no braseiro alegre a chamejar Cozinhamos os dois, meu duque, um bom jantar!... O duque a horrorizar-se!... Eu conspiro em segrêdo... Pode ouvir, pode ouvir... duque, não tenha mêdo! A república infame, a república atroz, Uma bela manhã será feita por nós, Meu caro duque!... E o presidente... Ora quem... ora quem, duque de S. Vicente?!... O duque! Não há outro, escusado é lembrar!... Um prestígio europeu... a independência... o ar... Não há outro!... d'arromba!... à verdadeira altura!... Todas as condições, todas... até figura! Parece um rei! que nem já sei como se move Com as trinta gran-cruzes...
MAGNUS, _lisonjeado_:
Upa!... trinta e nove!
CIGANUS:
Trinta e nove gran-cruzes, hãn! no mesmo peito... Caramba, duque!... é bem bonito... é de respeito! E o povo gosta, deixe lá... De mais a mais Duque e plebeu...
MAGNUS, _com dignidade_:
Não me envergonho de meus pais! Filho dum alfaiate... Honra-me a origem!...
CIGANUS:
Sei... E nobreza tão nobreza é que a não dá el-rei. Nobreza d'alma! Emfim, meu duque, nem pintado Se encontraria igual para chefe do Estado! Queira ou não queira, pois, o meu ilustre amigo...
MAGNUS, _solene_:
Eu lhe digo, marquês... eu lhe digo... eu lhe digo... Devagar... devagar... Um problema importante, Que exige reflexão, maturação bastante... Sou monárquico... Fui-o sempre!... Inda hoje creio O trono liberal o mais sólido esteio Do Progresso e da Paz e a melhor garantia Da justa, verdadeira e sã Democracia. Não precisamos outras leis... Há leis à farta! Executem-nas!... Basta executar a Carta! Cumpram as leis!... Dentro da Carta, realmente, Cabem inda à vontade o futuro e o presente... É êste o meu critério... e já agora não mudo!... Honrosas convicções, filhas dalgum estudo E muitas brancas... Mas, emfim, se as loucuras alheias... Desvairamentos... circunstâncias europeias... Derem de si em conclusão regímen novo, Acatarei submisso os ditames do Povo! Monárquico e leal... no entretanto, marquês, Antes de tudo, sou e serei português!! Ao bem da Pátria em caso urgente, em horas críticas Não duvido imolar opiniões políticas! Darei a vida até, quando preciso fôr!!
CIGANUS:
El-rei que chega...
MAGNUS, _curvando-se_:
Meu Senhor!
CIGANUS:
Meu Senhor!
OPIPARUS:
Meu Senhor!
SCENA II
*Os mesmos e o rei*
Os três cães acodem festivos ao monarca
O REI, _sombrio e melancólico, repelindo os cães_:
Que noite!
CIGANUS:
Vendaval furioso!
OPIPARUS:
Noite rara Para uma ceia de champagne e mulher cara...
O REI:
Faz-me nervoso a noite...
MAGNUS:
É da atmosfera espessa... Eléctrica... Atordôa e desvaira a cabeça...
O REI, _apontando o pergaminho_:
O tratado?
CIGANUS:
O tratado.
MAGNUS:
Um pouco duro... El-rei...
O REI, _indiferente_:
Seja o que fôr... seja o que fôr... assinarei...
Vai ao balcão, ficando abstracto, a olhar a noite.
MAGNUS:
Não há dúvida; el-rei anda enfêrmo... é evidente...
OPIPARUS:
Galhofeiro, jovial, bom humor permanente, Scéptico, dando ao demo as paixões e a tristeza, Caçador, toireador, conviva heróico à mesa... Pobre do rei... quem o diria!... que mudança! Oxalá que a loucura, a vir, lhe venha mansa...
CIGANUS:
O ratão do cronista é que o tem posto assim, Com mistérios em grego e aranzeis em latim...
Trovão formidável.
O REI, _voltando do balcão_:
Que noite!
MAGNUS:
Uma trovoada enorme!... Causa horror!...
Ciganus desdobra o pergaminho e vai ler o tratado.
O REI:
Leitura inútil... Deixa lá... Seja o que fôr... Seja o que fôr... adeus!... assinarei...
CIGANUS:
Perfeito. Não há balas? Resignação; não há direito. Se entra no Tejo de surpresa um coiraçado, Quem vai metê-lo ao fundo, quem? A nau do Estado Com bispos, generais, bachareis, amanuenses, Pianos, pulgas, mangas d'alpaca e mais pertences? A esquadra? vai a esquadra rial, um meio cento De alcatruzes, bidés e banheiras d'assento? Sacrificar a vida à honra? Acho coragem, Mas a honra sem vida é de pouca vantagem; Não se goza, não vale a pena. A vida é boa... Defendamos a vida... e salvemos a C'roa.
MAGNUS, _eloqùente_:
E salvemos a C'roa! A vida eu da-la-ia Pela honra da Pátria e pela Monarquia! Somos filhos de heróis! mas nesta conjuntura A resistência é um crime grave, uma loucura! Um país decadente, isolado na Europa, Sem recursos alguns, sem marinha e sem tropa, Tendo no flanco, àlerta, o velho leão de Espanha, Arrojar doidamente a luva à Gran-Bretanha, Oh, pelo amor de Deus! digam-me lá quem há-de Assumir uma tal responsabilidade?!!... A pátria de Albuquerque, a pátria de Camões Abolida era emfim do mapa das nações! Guardemos nobremente uma atitude calma! Recolhamos a dôr ao íntimo da alma, E o castigo do insulto, o prazer da vingança A nossos netos o leguemos, como herança! Que Deus há-de punir (é justiceiro e é bom) A moderna Cartago, a triunfante Albion! Saiba, porêm, El-rei que o brio português O defendemos nós ante o leopardo inglês, À fôrça de critério e sisuda energia, No campo do direito e da diplomacia! Com as Instituìções por norte e por escudo, Fizemos tudo quanto era possível!--tudo!!
OPIPARUS, _ao rei, galhofando_:
Quer o duque dizer que ambiciona o colar Do Elefante Vermelho e do Pavão Solar...
MAGNUS, _com indignação e nobreza_:
Não requeiro mercê tão grandiosa e tão alta, Conquanto seja ela a que ainda me falta. O Elefante e o Pavão! Um colar e uma cruz A que sómente os reis e os príncipes tem jus! Não ouso... Mas, se um dia a gran munificência Da C'roa houver por bem, (florão duma existência!) Conceder-ma!................................... Que, deixem-mo explicar: eu, medalhas e fitas, Não é por ser vaidoso ou por serem bonitas, Que as ostento... Plebeu nasci, de bom quilate... Não o escondo a ninguêm: meu pai era alfaiate. Ora, num peito humilde e franco uma medalha, Como que atesta e diz ao homem que trabalha, Ao povo que moireja em seu ofício duro, Que hoje na monarquia é dado ao mais obscuro Guindar-se à posição mais alta e mais egrégia, Por direito,--que é nosso! e por mercê,--que é régia! Escritura de luz que em vivo amplexo abarca O Povo e a Sob'rania augusta do Monarca!
CIGANUS:
Meu caro duque, muito bem... Vamos agora, Resolvida a questão, assinar sem demora O pergaminho...
O REI:
Assinarei... Deixem ficar.
CIGANUS:
E emquanto às convulsões do leão popular, Como diria o nobre duque, afoitamente Respondo pelo bicho: um cão ladrando à gente: Dobrei guardas, minei as pontes à cautela, E fica a artilharia em volta à cidadela. Não há p'rigo nenhum. Durma El-rei sem temor. Boa noite, Senhor...
MAGNUS, _curvando-se até ao chão_:
Meu Senhor!
OPIPARUS:
Meu Senhor...
Saem os três.
MAGNUS, _vai pensando_:
Ora, se o filho do alfaiate qualquer dia Inaugurava ainda a quinta dinastia!... Eu sentado no trono!... Eu rei de Portugal!!... Que, rei ou presidente, emfim é tudo igual... Muita finura agora e muita vigilância, Observando e aguardando as coisas a distância!... Magnus! lume no ôlho e não te prejudiques... Eu suceder, caramba! a D. Afonso Henriques!!...
SCENA III
*O rei, só*
O temporal aumenta. Relâmpagos e trovões.
O REI:
Não me lembra de ver uma tormenta assim!... Que demónio de noite!... Ando fora de mim, Desvairado... Um veneno oculto me afogueia, Que há três dias que trago uma cabeça alheia Nestes ombros... Que inferno!... É esquisito... é esquisito!... Foi beberagem má... droga horrenda... acredito! Uns vágados de louco, um frenesim medonho... Sonharei, porventura, e será tudo um sonho?!... Acordado ando eu, acordado a valer, Que há três noites não pude ainda adormecer!... Peçonha?... não!... A causa disto... a causa é o doido O raio do fantasma, êsse maldito doido Que me persegue!... tenho mêdo... e vergonha em dizê-lo!... E depois o cronista-mór, um pesadelo Ambulante, um maluco agoireiro e scismático, Com aquelas visões estranhas de lunático, Faz-me mal... faz-me mal... Que o leve o diabo... O certo É que há dentro de mim desarranjo encoberto... Uma insónia danada... um nervoso... um fastio... Misantropia tal que não bebo, nem rio, Nem de toiros me lembro emfim, nem de ir à caça! Mau sangue... Árvore má... Podre... podre... É de raça!...
UMA VOZ TRAGICA, _na escuridão_:
Ai, na batalha destroçado, Ai, na batalha destroçado, Rôta a armadura, ensangùentado, Debaixo duma árvore funesta Fui-me deitar, fui-me deitar... dormir a sésta... Fui-me deitar... dormi... dormi... Endoudeci, enlouqueci Debaixo duma árvore funesta!...
Uivam os cães, espavoridos e furiosos.
O REI:
O doido! o doido! o doido!... Há três noites a fio Que êste vélho alienado, horroroso e sombrio, À volta do palácio, ave negra d'azar, Anda a cantar!... anda a cantar!... anda a cantar!...
Indo ao balcão:
Ei-lo!
(Ao clarão dum relâmpago, destaca-se, de súbito, fronteiro ào castelo o vulto trágico do doido. Um gigante. Rôto, cadavérico, longa barba esquálida, olhos profundos de alucinado, agitando no ar um bordão em círculos de agoiro, cabalísticos. O manto esvoaça-lhe tumultuoso, restos duma bandeira vélha ou dum sudário).
Morro de mêdo!... Há não sei que de extravagante, De inquietador, na voz, nas feições, no semblante Dêste doido... Será um doido porventura?... Mal a sua voz acorda, rouca, a noite escura, Logo os cães a ladrar, a ladrar e a gemer, Como se entrasse a morte aqui sem eu a ver!... Que raio de fantasma!... É coisa de bruxedo... Não ando em mim... não ando bom, tremo de mêdo... Esquisito!...
Sentando-se ao fogão:
Ora adeus! É do tempo... é da lua... Nervoso... Passa... Mas, se o diabo continua Com as trovas de agoiro, eu forneço-lhe o mote, Mandando-o escorraçar a cacete e a chicote.
Vendo o pergaminho sôbre a mesa: