Paródia ao primeiro canto dos Lusíadas de Camões por quatro estudantes de Évora em 1589

Part 2

Chapter 22,862 wordsPublic domain

Comendo alegremente perguntavam, Com lingua onde as palavras se detinham, D'onde era o licor branco que gostavam E se vermelho entre elle tambem tinham. De Castella os marranos lhe tornavam Que si, e suas mercês de donde vinham? Disse um d'elles: De junto a Benavente, Vimos a Evora a beber sómente.

LI.

De Riba-tejo temos já provado Os vinhos, e as adegas temos visto, Caparica deixamos esgotado _Molto sudando nel glorioso acquisto_. E de um bebado somos tão amado, Tão querido de todos e bem quisto, Que não no largo mar com leda fronte, Mas de vinho entraremos n'uma fonte.

LII.

E por mandado seu buscando vamos A terra que Louredo em torno rega, Depois que os quartos todos esgotamos Da Telha, Lavradio, Aldea-gallega. Mas já razão parece que saibamos, Se entre vós a verdade se não nega, Quem sois, que vinho é este que buscaes, E se tendes do d'Evora alguns signaes.

LIII.

Somos, um dos do vinho lhe tornou, Estrangeiros na terra e na nação, Que os proprios são aquelles que criou A terra que sovado come o pão. A lei cega tivemos que ensinou Aquelle descendente de Abrahão, Que vinho não bebeu quente nem frio; _Intendami chi può, che m'intend'io_.

LIV.

Esta pequena venda aonde estamos É de nossa passagem certa escala, Onde ás vezes taes vinhos nós gostamos, Que acontece ficar homem sem falla. E por ser terra esteril procuramos, Cada vez que passamos, visital-a. Comem aqui e bebem tanto a pique, Que prometto que o Fuentes cedo enrique.

LV.

E pois que tantos odres despejaes Se d'Evora buscaes o vinho ardente, Guiando-vos irei, té que sejaes Postos em Monte-mór seguramente, Onde será bem feito que vejaes O tridentino André que é o bebente Que essa terra governa, e que vos veja, Para que d'alguns vinhos vos proveja.

LVI.

Dizendo isto o Mourisco carregou Os seus odres, deixando a companhia, D'ella e do vendeiro se apartou; Bebe cada um sua vez por cortezia; Os novos companheiros acceitou Com mostras de prazer e d'alegria, Dizendo a cada um que caminhasse, E quem beber quizesse que o tomasse.

LVII.

A noite se passou na leda frota Com estranha alegria não cuidada, Por acharem em terra tão remota A venda nova d'elles desejada. Disse o Mourisco alli: Venga la bota! Na castelhana lingua d'elle usada. Elles que no beber tanto se esmeram, A seu mandado logo obedeceram.

LVIII.

Do vinho alegres côres rutilavam Pelas taças de vidro crystallino; As velhas azeitonas que lhes davam Festejam mais que flôres e boninas, Da venda os taverneiros s'espantavam Do cheiro e do sabor das agoas finas, Porém a demais gente não provava O bom licor que entre esta se brindava.

LIX.

Mas assi como a Aurora marchetada As fermosas borrachas lhe mostrou Áquella gente meia atordoada, Cada qual d'elles sua vez tomou. Começa a embebedar-se a camarada, Que de fermosos frascos se adornou, Para beber com festa e alegria C'o bebedor da terra que partia.

LX.

Partia alegremente, desejando De beber já com gentes tão ufanas, Que por charnecas sêccas caminhando, Vem a beber em terras Transtaganas. A borracha que traz vem empinando Do licor que se vende não com canas. Já chega, mas sem gota o Tridentino; E quem sem gota está é bem mofino.

LXI.

Recebem-no alli alegremente, O Mourisco com sua companhia, E dá-lhe d'azeitonas um presente, Que para tal effeito já trazia. Dá-lhe sardinha frita; salta o ardente Licor, com que elle tem tanta alegria. Tudo o Marques contente bem recebe, Mas triste está com ver que ninguem bebe.

LXII.

Estava o Granadino mui confuso Com ver que não tem já de vinho nada, Com que brinde ao bebente, como é uso, Que para o receber fez tal jornada. Reprende o companheiro seu abuso, Pois sequer não deixára uma canada Para enxaugoar a boca ao que trazia Do fresco Monte-mór a alegre via.

LXIII.

Porque em chegando diz que ver deseja Do vinho os instrumentos; que não crê Que tão honrada gente alli esteja, Sem terem pelo menos agoa-pé. Mas os outros a quem nada sobeja Do licor da boa planta de Noé, Aos vendeiros pedem que alli 'stavam, Das fundagens que para si guardavam.

LXIV.

E disse um d'elles: pois que em tal sazão Viemos que entre nós nem gota havia, Quero-vos dar alguma informação De nós, em quanto o vinho lá se avia. Posto que granadino é de nação Este homem que nos serve aqui de guia, Perto está de Lisboa a patria nossa, Buscamos Peramanca amada vossa.

LXV.

Deixamos esgotado todo o imperio Que Baccho em nossas terras tem visivel; Vimos correndo agora este hemispherio, Porque beber por lá não é soffrivel: E posto que sofframos vituperio, Por um largo beber tudo é soffrivel: Que melhor é vergonha em quem bebeu, Que a dôr por não soffrer q'outrem soffreu.

LXVI.

Porque bastava só vinho infinito, Que não ha nem gota já na companhia, Que é tal, e no beber tem tal esp'rito, Que inda um Tejo de vinho esgotaria. Se as vasilhas quer ver como tem dito, Cumprido esse desejo te seria: Vasias as verás, que eu me obrigo Que sempre assi 'starão, s'imos comtigo.

LXVII.

Isto dizendo mostram diligentes Os vasos com que apagam as seccuras; Mostram fermosos frascos e as pendentes Borrachas que em caminhos são seguras: Os odres nas medidas differentes, Cobertos d'encouradas vestiduras: Outras borrachas trazem por aljavas, De còrno copos grandes, taças bravas.

LXVIII.

Chega n'isto o vendeiro diligente Com as suas fundagens saborosas; Bebe d'ellas André alegremente, Desafiando as gentes tão famosas. Mas d'entre elles um bebado valente Responde-lhe que as gentes valerosas Não sahiam a um; e com razão, Que é fraqueza entre ovelhas ser leão.

LXIX.

Mas d'isto que André Marques bem notou E de tudo o que ouviu no copo attento, Um odio certo n'alma lhe ficou Uma vontade má de pensamento. Nas obras e no gesto o não mostrou, Mas com risonho e ledo fingimento Tratal-os brandamente determina, Até que mostrar possa o que imagina.

LXX.

Piloto lhe pedia o capitão Por quem podesse a Evora ser levado, Polo qual lhe daria um borrachão De vinho de Valbom que é extremado. André lh'o prometteu, mas com tenção De peito venenoso e tão danado, Que a morte, se podesse, n'este dia Em logar de piloto lhe daria.

LXXI.

Tal odio lhe ficou e má vontade Da resposta que aquelle lhe tornou, Que agoa lhe ordena dar com falsidade Em logar do licor que Noé deixou. Oh que caso cruel! oh que maldade! Que de uma só palavra que soltou D'este que elle buscava como amigo O faz ficar seu perfido inimigo!

LXXII.

Partiu-se n'isto André, sem companhia Dos bebados que tinha despedido, Com engano seu e grande cortezia, O gesto ledo a todos e fingido. Já sobre seu asninho se subia Com vinho de que ia apercebido, E quando se desceu no aposento Não levava a borracha mais que vento.

LXXIII.

Da rua das adegas o Thebano, Que da parternal coxa foi nascido, Olhando o ajuntamento tão ufano, Ser do seu bom André aborrecido, No pensamento cuida um falso engano Com que seja de todo destruido. E em quanto isto n'alma imaginava Um borrachão tomando assi fallava.

LXXIV.

Está do Fado já determinado Que em tantas bebedices tão famosas Se tenham d'estes bebados achado, As suas taças sempre victoriosas; E eu Baccho tão sublime e tão honrado Bebado, e mais de partes tão honrosas, Hei de soffrer que o Fado favoreça Outrem por quem meu copo se escureça?

LXXV.

Já quizeram os Fados que tivesse Esta genta victoria n'esta parte, Cujos campos o Tejo reverdece; E que com tanto vinho não se farte! Pois não se ha de soffrer que o Fado desse A tão poucos tamanho esforço e arte, Que venham beber vinho transtagano, Abatendo o gran nome do Thebano.

LXXVI.

Não será assi: porque antes que chegado Seja Vasco Bagulho, astutamente Lhe será tanto engano fabricado, Que nunca beba d'Ev'ra o vinho ardente. A Monte-mór irei, e o indignado Peito rovolverei do bom bebente: Porque sempre per via irá direita Aquelle que no vinho agoa não deita.

LXXVII.

Isto dizendo irado e quasi insano N'esse Monte-mór fresco se desceu, Onde tomando a fórma e gesto humano, Para onde estava o Marques se moveu: E por melhor tecer o astuto engano, No gesto natural se converteu De Talha-manco muito seu valido, Um Taverneiro velho conhecido.

LXXVIII.

Estando assi bebendo co'elle a horas Á sua falsidade accommodadas, Lhe diz como eram gentes roubadoras. Estas que ora de novo são chegadas, Que das gentes nas vendas moradoras Correndo a Fama veio que roubadas Foram por estes homens que passavam, Que sob capa de paz sempre ancoravam.

LXXIX.

E sabe mais, lhe diz, como entendido D'estes bebados tenho bagulhentos, Que deixam Riba-tejo destruido Em beber com incendios violentos: E trazem já de longe o engano urdido Contra nós; que todos seus intentos São para os nossos vinhos esgotarem, E pipas, toneis, quartos, despejarem.

LXXX.

E tambem sei que tem determinado Da virem buscar vinho aqui mui cedo, Mas ter-lhe-hemos um tal ardil traçado Que não cheguem a ver o de Louredo. Á justiça darás logo recado Que estes galantes prenda, que sem medo Pelo caminho roubam, pela estrada, E só com furtos bebem na jornada.

LXXXI.

E se assi não tivermos d'este feito Impedido o caminho totalmente, Eu tenho imaginado no conceito Outra manha e ardil que te contente. Manda-lhe aqui dar guia que de geito Seja astuto no engano e tão prudente, Que os leve adonde sejam submergidos, Onde a agoa dê fim a seus sentidos.

LXXXII.

Tanto que estas palavras acabou, O Tridentino André, bebado velho, Os braços ao pescoço lhe lançou, Agradecendo muito o tal conselho. Em se apartando d'elle concertou Para os poder prender todo o apparelho, Com que em puro desgosto lhe tornassem D'Evora o vinho puro que buscassem.

LXXXIII.

E busca mais para o cuidado engano Um homem que d'alli com elle mande, Sagaz, astuto, sabio em todo o dano, De quem fiar se possa um quarto grande. Diz-lhe que acompanhando o Alcochetano Por ribeiras, por charcos com elle ande, Que se d'aqui passar, que lá adiante Vá cahir onde nunca se levante.

LXXXIV.

Já o carro d'Apollo caminhava Pelo nosso horizonte, quando erguido O bom Vasco c'os seus determinava De vir por vinho á terra apercebido. Os borrachões a gente desatava, Corre-se cada qual não ter bebido; E do que á venda veio novamente Beberam todos logo em continente.

LXXXV.

Assi se vem chegando junto á terra Para tomar o vinho necessario; Mas o Marques o vinho todo encerra Só pelo não beber o seu contrario. Porém Vasco Bagulho que não erra Em não se fiar d'este adversario, Apercebido vem como podia E entra em Monte-mór com alegria.

LXXXVI.

O grão Marques que o vê logo desmaia, Diz á Justiça que ande apparelhada De pistolete, chuça e azagaia, De rodela, de casco e boa espada; E que em dando recado logo saia, Porque tome esta gente atordoada. E para que melhor isto se faça Vae-se beber com elles per negaça.

LXXXVII.

Bebendo André co'a gente sequiosa, Andam os beleguins fóra espreitando, E co'a chuça e azagaia perigosa Ao Marques se entraram acenando. Mas a gula que estava desejosa De beber, sem recado vão entrando. Qualquer se lança ao copo tão ligeiro, Que nenhum dizer póde que é primeiro.

LXXXVIII.

Qual pobre ajuntamento d'estudante De quatro, cinco ou seis de camarada Que vê que é pouco o vinho e não bastante, Que ha para todos só uma canada; Qualquer d'elles pertende andar diante, Por lhe não tocar vez esfarrapada: Tal pressa ha nos de fóra e nos da terra, Mas todos se vão já chegando á serra.

LXXXIX.

Eis no estomago o fumo se levanta Da furiosa e quente companhia, Que de tal modo bebem que se encanta O vendeiro que o vinho lhes vendia. A multidão dos fumos era tanta Do vinho que á cabeça lhes subia, Que logo o Alcaide foge de medroso, De que o Marques ficou mui desgostoso.

XC.

Não deixam os que ficam sua empreza, Mas o muito que bebem mal os trata, Que se o beber tomavam por defeza, Esse mesmo beber os desbarata. Alegres ficam todos sem tristeza, Já julgam a amizade por barata, E trocam seus enganos á porfia Pelo amor que do vinho lhes nascia.

XCI.

Vae-se cada um a casa retirando, Porque quer vomitar muito apressado; Quem arrota, e alli vae engulhando, Na boca mette a mão desatinado. O vendeiro fugiu, desamparando A venda, do beber amedrontado; Gloriam-se os que ficam do seu braço Que a tantos afugenta em breve espaço.

XCII.

Uns deixam por alli suas espadas, Dos outros quem a leva não o sente; Quem se deixa cair ás tres passadas, Quem bebe o vinho e o deita juntamente. Arrombam as medidas ás pancadas, Á parede se arruma o mais valente; Assim que a gente d'antes inimiga Com tão alto beber se torna amiga.

XCIII.

Passando isto, fica a camarada Com gosto de haver feito tal empreza; Manda logo fazer de vinho agoada, Porque d'alli não quer outra riqueza. Ficou a alma do Marques magoada, No odio antigo mais que nunca acceza; E vendo sem vingança tanto dano, Sómente estriba no segundo engano.

XCIV.

Torna-se a elles, tendo-a já cozido, Levando alguns refrescos que ha na terra, Com um frasco de vinho mui comprido, Mas sob capa de paz armado em guerra. Piloto lhe offerece conhecido, Dizendo que em taes vias jámais erra, Com o qual se fizesse o que esperava, Que a Evora os levaria confiava.

XCV.

O gran Vasco Bagulho, a quem convinha Fazer já seu caminho desejado, Que Borrachões não poucos cheos tinha, Para buscar Louredo tão amado; Recebendo o piloto que lhe vinha, Foi d'elle alegremente agasalhado. Despede-se com gran contentamento, C'o guia, sem saber o falso intento.

XCVI.

Dest'arte despedida a gente honrada, Começou a seguir o falso guia. Não tinham meia legoa bem andada, Quando do bom caminho se desvia. O bom Vasco que não cahia em nada Do grande engano que este tal lhe urdia, D'elle mui largamente se informava A que parte Louredo lhe ficava.

XCVII.

Mas o guia instruido nos enganos Que o malvado do Marques lh'ensinára, Leva-os por partes onde crueis danos E morte em fim em agoas lhe prepara. Diz-lhes que vão contentes, vão ufanos, Que mui prestes verão a terra cara; Porque elle caminhava por tal via, Que cedo a Peramanca os levaria.

XCVIII.

E diz-lhes mais, com falso pensamento, Que esta via por mais breve tomou, Posto que um rio tem, mas sem tormento E sem perigo sempre se passou. O Bagulho que a tudo estava attento, Muito com estas novas se alegrou; E com grandes copadas lhe rogava Os levasse por donde o porto estava.

XCIX.

O falso guia, porque determina Dar-lhe porto, mas não qual elle pede, Posto em Rio Marinho lh'o imagina N'um pégo que em altura os mais excede. Aqui o engano e a morte lhe maquina, Para que tal beber com pressa véde; E para o porto verem logo os chama Onde lhe arma perderem vida e fama.

C.

Já para lá inclina a leda frota E em chegando ao rio da cilada, Um descalça o sapato, o outro a bota, Para ir buscar a morte não cuidada. Chega um bebado n'isto, que remota Lhe parece esta gente e enganada, E com duras palavras reprehendia D'entrarem em tal pégo a ousadia.

CI.

Mas o malvado guia conhecendo Ser manifesto o engano, n'um instante, Se vae por uns outeiros acolhendo, Corrido de não ir a sua ávante. Os outros que ficavam 'stão tremendo, Cuidando qu'inda o engano era diante; Mas o que os tirou d'elle, mui contente Lhes diz que irá com elles juntamente.

CII.

Ficam todos então com alegria, Bebem e dão de beber ao que os guiava. Um olha para o ceo, e diz que via Mais luas do que d'antes costumava. Duas luas a mi, Senhor, dizia, Ao Mouro, ao infiel que vos aggrava. Outro a um tronco diz; bebei, Senhora, Senão deitar-vos-hei os olhos fóra.

CIII.

E tendo esta ribeira já passada, Onde os quiz afogar o falso guia, A torre appareceu n'uma assomada Onde matou Giraldo a má vigia. Á mão direita fica situada Uma povoação de que bebia A gente principal da nossa idade, Peramanca é o nome da cidade.

CIV.

E sendo o capitão aqui chegado Estranhamente ledo, porque espera De ser alli mui bem agasalhado Dos refrescos que ha n'aquella terra: Eis vem frascos de vinho com recado De Diogo que sabe a gente que era, Porque Baccho já d'antes o avisára Que de bom vinho alli os regalára.

CV.

Agasalha-os a todos como amigos; Preza-se já cada um de fallar certo, Dando conta de todos os perigos, Que em caminho passaram tão desertos. Não curam de lhe dar uvas nem figos, Mas o licor que deixa o olho esperto. Quer imitar cada um o gran Barbança Que pôz n'este licor sua esperança.

CVI.

Aqui já vem tomar, livre d'engano Anda esta gente pouco conhecida, E debaixo de um vil e pobre panno Tão alta bebedice anda escondida, Quem bebe vinho velho, quem d'este anno, D'um e d'outro s'entorna sem medida. E assi favoreceu o Ceo sereno A quem deixou por vinho o seu terreno.

FIM.