Papeis Avulsos

Part 9

Chapter 94,015 wordsPublic domain

Tudo andou assim depressa. Certidões passadas, banhos corridos, marcou-se o dia do casamento; seria vinte e quatro horas depois de recebida a resposta do desembargador. Que alegria a da boa mãe! que actividade no preparo do enxoval, no plano e nas encommendas da festa, na escolha dos convidados, etc.! Ella ia de um lado para outro, ora a pé, ora de carro, fizesse chuva ou sol. Não se detinha no mesmo objecto muito tempo; a semana do enxoval não era a do preparo da festa, nem a das visitas; alternava as cousas, voltava atraz, com certa confusão, é verdade. Mas ahi estava a filha para supprir as faltas, corrigir os defeitos, cercear as demazias, tudo com a sua habilidade natural. Ao contrario de todos os noivos, este não as importunava; não jantava todos os dias com ellas, segundo lhe pedia a dona da casa; jantava aos domingos, e visitava-as uma vez por semana. Matava as saudades por meio de cartas, que eram continuas, longas e secretas, como no tempo do namoro. D. Benedicta não podia explicar uma tal esquivança, quando ella morria por elle; e então vingava-se da exquisitice, morrendo ainda mais, e dizendo delle por toda a parte as mais bellas cousas do mundo.

--Uma perola! uma perola!

--E um bonito rapaz, accrescentavam.

--Não é? De truz.

A mesma cousa repetia ao marido nas cartas que lhe mandava, antes e depois de receber a resposta da primeira. A resposta veiu; o desembargador deu o seu consentimento, accrescentando que lhe doia muito não poder vir assistir ás bodas, por achar-se um tanto adoentado; mas abençoava de longe os filhos, e pedia o retrato do genro.

Cumpriu-se o accordo á risca. Vinte e quatro horas depois de recebida a resposta do Pará effectuou-se o casamento, que foi uma festa admiravel, esplendida, no dizer de D. Benedicta, quando a contou a algumas amigas. Officiou o conego Roxo, e claro é que D. Maria dos Anjos não esteve presente, e menos ainda o filho. Ella esperou, note-se, até á ultima hora um billhete de participação, um convite, uma visita, embora se abstivesse de comparecer; mas não recebeu nada. Estava attonita, revolvia a memoria a ver se descobria alguma inadvertencia sua que podesse explicar a frieza das relações; não achando nada, suppoz alguma intriga. E suppoz mal, pois foi um simples esquecimento. D. Benedicta, no dia do consorcio, de manhã, teve ideia de que D. Maria dos Anjos não recebera participação.

--Eulalia, parece que não mandamos participação a D. Maria dos Anjos? disse ella á filha, almoçando.

--Não sei; mamãe é quem se incumbiu dos convites.

--Parece que não, confirmou D. Benedicta. João, dá cá mais assucar.

O copeiro deu-lhe o assucar; ella, mexendo o chá, lembrou-se do carro que iria buscar o conego, e reiterou uma ordem da vespera.

Mas a fortuna é caprichosa. Quinze dias depois do casamento, chegou a noticia do obito do desembargador. Não descrevo a dôr de D. Benedicta; foi dilacerante e sincera. Os noivos, que devaneavam na Tijuca, vieram ter com ella; D. Benedicta chorou todas as lagrymas de uma esposa austera e fidelissima. Depois da missa do setimo dia, consultou a filha e o genro ácerca da ideia de ir ao Pará, erigir um tumulo ao marido, e beijar a terra em que elle repousava. Mascarenhas trocou um olhar com a mulher; depois disse á sogra que era melhor irem juntos, porque elle devia seguir para o Norte dahi a tres mezes em commissão do governo. D. Benedicta recalcitrou um pouco, mas aceitou o prazo, dando desde logo todas as ordens necessarias á construcção do tumulo. O tumulo fez-se; mas a commissão não veiu, e D. Benedicta não pôde ir.

Cinco mezes depois, deu-se um pequeno incidente na familia. D. Benedicta mandara construir uma casa no caminho da Tijuca, e o genro, com o pretexto de uma interrupção na obra, propoz acabal-a. D. Benedicta consentiu, e o acto era tanto mais honroso para ella, quanto que o genro começava a parecer-lhe insupportavel com a sua excessiva disciplina, com as suas teimas, impertinencias, etc. Verdadeiramente, não havia teimas: nesse particular, o genro de D. Benedicta contava tanto com a sinceridade da sogra que nunca teimava; deixava que ella propria se desmentisse dias depois. Mas pode ser que isto mesmo a mortificasse. Felizmente, o governo lembrou-se de o mandar ao Sul; Eulalia, gravida, ficou com a mãe.

Foi por esse tempo que um negociante, viuvo, teve ideia de cortejar D. Benedicta. O primeiro anno da viuvez estava passado D. Benedicta acolheu a ideia com muita sympathia, embora sem alvoroço. Defendia-se comsigo; allegava a edade e os estudos do filho, que em breve estaria a caminho de S. Paulo, deixando-a só, sosinha no mundo. O casamento seria uma consolação, uma companhia. E comsigo, na rua ou em casa, nas horas disponiveis, aprimorava o plano com todos os floreios da imaginação vivaz e subita; era uma vida nova, pois desde muito, antes mesmo da morte do marido, pode-se dizer que era viuva. O negociante gozava do melhor conceito: a escolha era excellente.

Não casou. O genro tornou do Sul, a filha deu á luz um menino robusto e lindo, que foi a paixão da avó durante os primeiros mezes. Depois, o genro, a filha e o neto foram para o Norte. D. Benedicta achou-se só e triste; o filho não bastava aos seus affectos. A ideia de viajar tornou a rutilar-lhe na mente, mas como um phosphoro, que se apaga logo. Viajar sosinha era cansar e aborrecer-se ao mesmo tempo; achou melhor ficar. Uma companhia lyrica, adventicia, sacudiu-lhe o torpor, e restituiu-a á sociedade. A sociedade incutiu-lhe outra vez a ideia do casamento, e apontou-lhe logo um pretendente, desta vez um advogado, tambem viuvo.

--Casarei? não casarei?

Uma noite, volvendo D. Benedicta este problema, á janella da casa de Botafogo, para onde se mudara desde alguns mezes, viu um singular expectaculo. Primeiramente uma claridade opaca, especie de luz coada por um vidro fosco, vestia o espaço da enseada, fronteiro á janella. Nesse quadro appareceu-lhe uma figura vaga e transparente, trajada de nevoas, toucada de reflexos, sem contornos definidos, porque morriam todos no ar. A figura veiu até ao peitoril da janella de D. Benedicta; e de um gesto somnolento, com uma voz de criança, disse-lhe estas palavras sem sentido:

--Casa... não casarás... se casas... casarás... não casarás... e casas... casando...

D. Benedicta ficou atterrada, sem poder mexer-se; mas ainda teve a força de perguntar á figura quem era. A figura achou um principio de riso, mas perdeu-o logo; depois respondeu que era a fada que presidira ao nascimento de D. Benedicta: Meu nome é Velleidade, concluiu; e, como um suspiro, dispersou-se na noite e no silencio.

FIM DE D. BENEDICTA

O SEGREDO DO BONZO[1]

CAPITULO INEDITO DE FERNÃO MENDES PINTO

Atraz deixei narrado o que se passou n'esta cidade Fucheo, capital do reino de Bungo, com o padre mestre Francisco, e de como el-rey se houve com o Fucarandono e outros bonzos, que tiveram por acertado disputar ao padre as primazias da nossa santa religião. Agora direi de uma doutrina não menos curiosa que saudavel ao espirito, e digna de ser divulgada a todas as republicas da christandade.

Um dia, andando a passeio com Diogo Meirelles, n'esta mesma cidade Fucheo, n'aquelle anno de 1552, succedeu deparar-se-nos um ajuntamento de povo, á esquina de uma rua, em torno a um homem da terra, que discorria com grande abundancia de gestos e vozes. O povo, segundo o esmo mais baixo, seria passante de cem pessoas, varões sómente, e todos embasbacados. Diogo Meirelles, que melhor conhecia a lingua da terra, pois alli estivera muitos mezes, quando andou com bandeira de veniaga (agora occupava-se no exercicio da medicina, que estudara convenientemente, e em que era eximio) ia-me repetindo pelo nosso idioma o que ouvia ao orador, e que em resumo, era o seguinte:--Que elle não queria outra cousa mais do que affirmar a origem dos grillos, os quaes procediam do ar e das folhas de coqueiro, na conjuncção da lua nova; que este descobrimento, impossivel a quem não fosse, como elle, mathematico, physico e philosopho, era fructo de dilatados annos de applicação, experiencia e estudo, trabalhos e até perigos de vida; mas emfim, estava feito, e todo redundava em gloria do reino de Bungo, e especialmente da cidade Fucheo, cuja filho era; e, se por ter aventado tão sublime verdade, fosse necessario aceitar a morte, elle a aceitaria alli mesmo, tão certo era que a sciencia valia mais do que a vida e seus deleites.

A multidão, tanto que elle acabou, levantou um tumulto de acclamações, que esteve a ponto de ensurdecer-nos, e alçou nos braços o homem, bradando: Patimau, Patimau, viva Patimau que descobriu a origem dos grillos. E todos se foram com elle ao alpendre de um mercador, onde lhe deram refrescos e lhe fizeram muitas saudações e reverencias, á maneira d'este gentio, que é em extremo obsequioso e cortezão.

Desandando o caminho, vinhamos nós, Diogo Meirelles e eu, fallando do singular achado da origem dos grillos, quando, a pouca distancia d'aquelle alpendre, obra de seis credos, não mais, achámos outra multidão de gente, em outra esquina, escutando a outro homem. Ficámos espantados com a semelhança do caso, e Diogo Meirelles, visto que tambem este fallava apressado, repetiu-me da mesma maneira o teor da oração. E dizia este outro, com grande admiração e applauso da gente que o cercava, que emfim descobrira o principio da vida futura, quando a terra houvesse de ser inteiramente destruida, e era nada menos que uma certa gota de sangue de vacca; d'ahi provinha a excellencia da vacca para habitação das almas humanas, e o ardor com que esse distincto animal era procurado por muitos homens á hora de morrer; descobrimento que elle podia affirmar com fé e verdade, por ser obra de experiencias repetidas e profunda cogitação, não desejando nem pedindo outro galardão mais que dar gloria ao reino de Bungo e receber d'elle a estimação que os bons filhos merecem. O povo, que escutára esta falla com muita veneração, fez o mesmo alarido e levou o homem ao dito alpendre, com a differença que o trepou a uma charola; alli chegando, foi regalado com obsequios eguaes aos que faziam a Patimau, não havendo nenhuma distincçao entre elles, nem outra competencia nos banqueteadores, que não fosse a de dar graças a ambos os banqueteados.

Ficámos sem saber nada d'aquillo, porque nem nos parecia casual a semelhança exacta dos dous encontros, nem racional ou crivel a origem dos grillos, dada por Patimau, ou o principio da vida futura, descoberto por Langurú, que assim se chamava o outro. Succedeu, porém, costearmos a casa de um certo Titané, alparqueiro, o qual correu a fallar a Diogo Meirelles, de quem era amigo. E, feitos os cumprimentos, em que o alparqueiro chamou as mais galantes cousas a Diogo Meirelles, taes como--ouro da verdade e sol do pensamento,--contou-lhe este o que viramos e ouviramos pouco antes. Ao que Titané acudiu com grande alvoroço:--Póde ser que elles andem cumprindo uma nova doutrina, dizem que inventada por um bonzo de muito saber, morador em umas casas pegadas ao monte Coral. E porque ficassemos cubiçosos de ter alguma noticia da doutrina, consentiu Titané em ir comnosco no dia seguinte ás casas do bonzo, e accrescentou:--Dizem que elle não a confia a nenhuma pessoa, se não ás que de coração se quizerem filiar a ella; e, sendo assim, podemos simular que o queremos unicamente com o fim de a ouvir; e se fôr boa, chegaremos a pratical-a á nossa vontade.

No dia seguinte, ao modo concertado, fomos ás casas do dito bonzo, por nome Pomada, um ancião de cento e oito annos, muito lido e sabido nas letras divinas e humanas, e grandemente aceito a toda aquella gentilidade, e por isso mesmo mal visto de outros bonzos, que se finavam de puro ciume. E tendo ouvido o dito bonzo a Titané quem eramos e o que queriamos, iniciou-nos primeiro com varias ceremonias e bugiarias necessarias á recepção da doutrina, e só depois d'ella é que alçou a voz para confial-a e explical-a.

Haveis de entender, começou elle, que a virtude e o saber, tem duas existencias parallelas, uma no sugeito que as possue, outra no espirito dos que o ouvem ou contemplam. Se puzerdes as mais sublimes virtudes e os mais profundos conhecimentos em um sujeito solitario, remoto de todo contacto com outros homens, é como se elles não existissem. Os fructos de uma larangeira, se ninguem os gostar, valem tanto como as urzes e plantas bravias, e, se ninguem os vir, não valem nada; ou, por outras palavras mais energicas, não ha expectaculo sem expectador. Um dia, estando a cuidar n'estas cousas, considerei que, para o fim de allumiar um pouco o entendimento, tinha consumido os meus longos annos, e, aliás, nada chegaria a valer sem a existencia de outros homens que me vissem e honrassem; então cogitei se não haveria um modo de obter o mesmo effeito, poupando taes trabalhos, e esse dia posso agora dizer que foi o da regeneração dos homens, pois me deu a doutrina salvadora.

N'este ponto, afiámos os ouvidos e ficámos pendurados da boca do bonzo, o qual, como lhe dissesse Diogo Meirelles que a lingua da terra me não era familiar, ia fallando com grande pausa, porque eu nada perdesse. E continuou dizendo:--Mal podeis adivinhar o que me deu idéa da nova doutrina; foi nada menos que a pedra da lua, essa insigne pedra tão luminosa que, posta no cabeço de uma montanha ou no pincaro de uma torre, dá claridade a uma campina inteira, ainda a mais dilatada. Uma tal pedra, com taes quilates de luz, não existiu nunca, e ninguem jámais a viu; mas muita gente crê que existe e mais de um dirá que a viu com os seus proprios olhos. Considerei o caso, e entendi que, se uma cousa póde existir na opinião, sem existir na realidade, e existir na realidade, sem existir na opinião, a conclusão é que das duas existencias parallelas a única necessaria é a da opinião, não a da realidade, que é apenas conveniente. Tão depressa fiz este achado especulativo, como dei graças a Deus do favor especial, e determinei-me a verifical-o por experiencias; o que alcancei, em mais de um caso, que não relato, por vos não tomar o tempo. Para comprehender a efficacia do meu systema, basta advertir que os grillos não podem nascer do ar e das folhas de coqueiro, na conjuncção da lua nova, e por outro lado, o principio da vida futura não está em uma certa gotta de sangue de vacca; mas Patimáu e Langurú, varões astutos, com tal arte souberam metter estas duas idéas no animo da multidão, que hoje desfructam a nomeada de grande physicos e maiores philosophos, e tem comsigo pessoas capazes de dar a vida por elles.

Não sabiamos em que maneira déssemos ao bonzo as mostras do nosso vivo contentamento e admiração. Elle interrogou-nos ainda algum tempo, compridamente, ácerca da doutrina e dos fundamentos d'ella, e depois de reconhecer que a entendiamos, incitou-nos a pratical-a, a divulgal-a cautelosamente, não porque houvesse nada contrario ás leis divinas ou humanas, mas porque a má comprehensão d'ella podia damnal-a e perdel-a em seus primeiros passos; emfim, despediu-se de nós com a certeza (são palavras suas) de que abalavamos d'alli com a verdadeira alma de pomadistas; denominação esta que, por se derivar do nome d'elle, lhe era em extremo agradavel.

Com effeito, antes de cair a tarde, tinhamos os tres combinado em pôr por obra uma idéa tão judiciosa quão lucrativa, pois não é só lucro o que se póde haver em moeda, senão tambem o que traz consideração e louvor, que é outra e melhor especie de moeda, comquanto não dê para comprar damascos ou chaparias de ouro. Combinamos, pois, á guisa de experiencia, metter cada um de nós, no animo da cidade Fucheo, uma certa convicção, mediante a qual houvessemos os mesmos beneficios que desfructavam Patimau e Langurú; mas, tão certo é que o homem não olvida o seu interesse, entendeu Titané que lhe cumpria lucrar de duas maneiras, cobrando da experiencia ambas as moedas, isto é, vendendo tambem as suas alparcas: ao que nos não oppuzemos, por nos parecer que nada tinha isso com o essencial da doutrina.

Consistiu a experiencia de Titané em uma cousa que não sei como diga para que a entendam. Usam n'este reino de Bungo, e em outros d'estas remotas partes, um papel feito de casca de canella moida e gomma, obra mui prima, que elles talham depois em pedaços de dois palmos de comprimento, e meio de largura, nos quaes desenham com vivas e variadas côres, e pela lingua do paiz, as noticias da semana, politicas, religiosas, mercantis e outras, as novas leis do reino, os nomes das fustas, lancharas, balões e toda a casta de barcos que navegam estes mares, ou em guerra, que a ha frequente, ou de veniaga. E digo as noticias da semana, porque as ditas folhas são feitas de oito em oito dias, em grande copia, e distribuidas ao gentio da terra, a troco de uma esportula, que cada um dá de bom grado para ter as noticias primeiro que os demais moradores. Ora, o nosso Titané não quiz melhor esquina que este papel, chamado pela nossa lingua _Vida e claridade das cousas mundanas e celestes_, titulo expressivo, ainda que um tanto derramado. E, pois, fez inserir no dito papel que acabavam de chegar noticias frescas de toda a costa de Malabar e da China, conforme as quaes não havia outro cuidado que não fossem as famosas alparcas d'elle Titané; que estas alparcas eram chamadas as primeiras do mundo, por serem mui solidas e graciosas; que nada menos de vinte e dous mandarins iam requerer ao imperador para que, em vista do explendor das famosas alparcas de Titané, as primeiras do universo, fosse creado o titulo honorifico de «alparca do Estado», para recompensa dos que se distinguissem em qualquer disciplina do entendimento; que eram grossissimas as encommendas feitas de todas as partes, ás quaes elle Titané ia acudir, menos por amor ao lucro do que pela gloria que d'alli provinha á nação; não recuando, todavia, do proposito em que estava e ficava de dar de graça aos pobres do reino umas cincoenta corjas das ditas alparcas, conforme já fizera declarar a el-rey e o repetia agora; emfim, que apezar da primazia no fabrico das alparcas assim reconhecida em toda a terra, elle sabia os deveres da moderação, e nunca se julgaria mais do que um obreiro diligente e amigo da gloria do reino de Bungo.

A leitura d'esta noticia commoveu naturalmente a toda a cidade Fucheo, não se fallando em outra cousa durante toda aquella semana. As alparcas de Titané, apenas estimadas, começaram de ser buscadas com muita curiosidade e ardor, e ainda mais nas semanas seguintes, pois não deixou elle de entreter a cidade, durante algum tempo, com muitas e extraordinarias anedoctas ácerca da sua mercadoria. E dizia-nos com muita graça:--Vêde que obedeço ao principal da nossa doutrina, pois não estou persuadido da superioridade das taes alparcas, antes as tenho por obra vulgar, mas fil-o crer ao povo, que as vem comprar agora, pelo preço que lhes taxo. Não me parece, atalhei, que tenhaes cumprido a doutrina em seu rigor e substancia, pois não nos cabe inculcar aos outros uma opinião que não temos, e sim a opinião de uma qualidade que não possuimos; este é, ao certo, o essencial d'ella.

Dito isto, assentaram os dous que era a minha vez de tentar a experiencia, o que immediatamente fiz; mas deixo de a relatar em todas as suas partes, por não demorar a narração da experiencia de Diogo Meirelles, qne foi a mais decisiva das tres, e a melhor prova d'esta deliciosa invenção do bonzo. Direi somente que, por algumas luzes que tinha de musica e charamella, em que aliás era mediano, lembrou-me congregar os principaes de Fucheo para que me ouvissem tanger o instrumento; os quaes vieram, escutaram e foram-se repetindo que nunca antes tinham ouvido cousa tão extraordinaria. E confesso que alcancei um tal resultado com o só recurso dos ademanes, da graça em arquear os braços para tomar a charamella, que me foi trazida em uma bandeja de prata, da rigidez do busto, da uncção com que alcei os olhos ao ar, e do desdem e ufania com que os baixei á mesma assembléa, a qual neste ponto rompeu em um tal concerto de vozes e exclamações de enthusiasmo, que quasi me persuadiu do meu merecimento.

Mas, como digo, a mais engenhosa de todas as nossas experiencias, foi a de Diogo Meirelles. Lavrava então na cidade uma singular doença, que consistia em fazer inchar os narizes, tanto e tanto, que tomavam metade e mais da cara ao paciente, e não só a punham horrenda, senão que era molesto carregar tamanho peso. Comquanto os physicos da terra propuzessem extrahir os narizes inchados, para allivio e melhoria dos enfermos, nenhum d'estes consentia em prestar-se ao curativo, preferindo o excesso á lacuna, e tendo por mais aborrecivel que nenhuma outra cousa a ausencia daquelle orgão. N'este apertado lance mais de um recorria á morte voluntaria, como um remedio, e a tristeza era muita em toda a cidade Fucheo. Diogo Meirelles, que desde algum tempo praticava a medicina, segundo ficou dito atraz, estudou a molestia e reconheceu que não havia perigo em desnarigar os doentes, antes era vantajoso por lhes levar o mal, sem trazer fealdade, pois tanto valia um nariz disforme e pesado como nenhum; não alcançou, todavia, persuadir os infelizes ao sacrificio. Então occorreu-lhe uma graciosa invenção. Assim foi que, reunindo muitos physicos, philosophos, bonzos, autoridades e povo, communicou-lhes que tinha um segredo para eliminar o orgão; e esse segredo era nada menos que substituir o nariz achacado por um nariz são, mas de pura natureza metaphysica, isto é, inacessivel aos sentidos humanos, e comtudo tão verdadeiro ou ainda mais do que o cortado; cura esta praticada por elle em varias partes, e muito aceita aos physicos de Malabar. O assombro da assembléa foi immenso, e não menor a incredulidade de alguns, não digo de todos, sendo que a maioria não sabia que acreditasse, pois se lhe repugnava a metaphysica do nariz, cedia entretanto á energia das palavras de Diogo Meirelles, ao tom alto e convencido com que elle expoz e definiu o sem remedio. Foi então que alguns philosophos, alli presentes, um tanto envergonhados do saber de Diogo Meirelles, não quizeram ficar-lhe atraz, e declararam que havia bons fundamentos para uma tal invenção, visto não ser o homem todo outra cousa mais do que um producto da idealidade transcendental; donde resultava que podia trazer, com toda a verosimilhança, um nariz metaphysico, e juravam ao povo que o effeito era o mesmo.

A assembléa acclamou a Diogo Meirelles; e os doentes começaram de buscal-o, em tanta copia, que elle não tinha mãos a medir. Diogo Meirelles desnarigava-os com muitissima arte; depois estendia delicadamente os dedos a uma caixa, onde fingia ter os narizes substitutos, colhia um e applicava-o ao logar vasio. Os enfermos, assim curados e suppridos, olhavam uns para os outros, e não viam nada no lugar do orgão cortado; mas, certos e certissimos de que alli estava o orgão substituto, e que este era inacessivel aos sentidos humanos, não se davam por defraudados, e tornavam aos seus officios. Nenhuma outra prova quero da efficacia da doutrina e do fructo d'esse experiencia, senão o facto de que todos os desnarigados de Diogo Meirelles continuaram a prover-se dos mesmos lenços de assoar. O que tudo deixo relatado para gloria do bonzo e beneficio do mundo.

[1]Como se terá visto, não ha aqui um simples _pastiche_, nem esta imitação foi feita com o fim de provar forças, trabalho que, se fosse só isso, teria bem pouco valor. Era-me preciso, para dar a possivel realidade á invenção, collocal-a a distancia grande, no espaço e no tempo; e para tornar a narração sincera, nada me pareceu melhor do que attribuil-a ao viajante escriptor que tantas maravilhas disse. Para os curiosos accrescentarei que as palavras: _Atraz deixei narrado o que se passou nesta cidade Fucheo,_--foram escriptas com o fim de suppor o capitulo intercalado nas _Peregrinações_, entre os caps. CCXIII e CCXIV.