Papeis Avulsos

Part 8

Chapter 83,999 wordsPublic domain

Deixemol-as almoçar á vontade; descancemos nessa outra sala, a de visitas, sem aliás inventariar os moveis della, como o não fizemos em nenhuma outra sala ou quarto. Não é que elles não prestem, ou sejam de máu gosto; ao contrario, são bons. Mas a impressão geral que se recebe é exquisita, como se ao trastejar daquella casa houvesse presidido um plano truncado, ou uma successão de planos truncados. Mãe, filha e filho almoçaram. Deixemos o filho, que nos não importa, um pirralho de doze annos, que parece ter oito, tão mofino é elle. Eulalia interessa-nos, não só pelo que vimos de relance no capitulo passado, como porque, ouvindo a mãe fallar em D. Maria dos Anjos e no Leandrinho, ficou muito séria e, talvez, um pouco amuada. D. Benedicta percebeu que o assumpto não era aprazivel á filha, e recuou da conversa, como alguem que desanda uma rua para evitar um importuno; recuou e ergueu-se; a filha veiu com ella para a sala de visitas.

Eram onze horas menos um quarto. D. Benedicta conversou com a filha até depois de meio dia, para ter tempo de descançar o almoço e escrever a carta. Sabem que a mala fecha ás duas horas. De facto, alguns minutos, poucos, depois do meio dia, D. Benedicta disse á filha que fosse estudar piano, porque ella ia acabar a carta. Saiu da sala; Eulalia foi á janella, relanceou a vista pelo Campo, e, se lhes disser que com uma pontasinha de tristeza nos olhos, podem crer que é a pura verdade. Não era todavia, a tristeza dos debeis ou dos indecisos; era a tristeza dos resolutos, a quem dóe de antemão um acto pela mortificação que hade trazer a outros, e que, não obstante, juram a si mesmos pratical-o, e praticam. Convenho que nem todas essas particularidades podiam estar nos olhos de Eulalia, mas por isso mesmo é que as historias são contadas por alguem, que se incumbe de preencher as lacunas e divulgar o escondido. Que era uma tristeza mascula, era;--e que dahi a pouco os olhos sorriam de um signal de esperança, tambem não é mentira.

--Isto acaba, murmurou ella, vindo para dentro.

Justamente nessa occasião parava um carro á porta, apeava-se uma senhora, ouvia-se a campainha da escada, descia um moleque a abrir a cancella, e subia es escadas D. Maria dos Anjos. D. Benedicta, quando lhe disseram quem era, largou a penna, alvoroçada; vestiu-se á pressa, calçou-se, e foi á sala.

--Com este tempo! exclamou. Ah! isto é que é querer bem á gente!

--Vim sem esperar pela sua visita, só para mostrar que não gosto de cerimonias, e que entre nós deve haver a maior liberdade.

Vieram os comprimentos de estylo, as palavrinhas doces, os afagos da vespera. D. Benedicta não se fartava de dizer que a visita naquelle dia era uma grande fineza, uma prova de verdadeira amisade; mas queria outra, accrescentou dahi a um instante, que D. Maria dos Anjos ficasse para jantar. Esta desculpou-se allegando que tinha de ir a outras partes; demais, essa era a prova que lhe pedia,--a de ir jantar á casa della primeiro. D. Benedicta não hesitou, prometteu que sim, naquella mesma semana.

--Estava agora mesmo escrevendo o seu nome, continuou.

--Sim?

--Estou escrevendo a meu marido, e fallo da senhora. Não lhe repito o que escrevi, mas imagine que fallei muito mal da senhora, que era antipathica, insupportavel, massante, aborrecida... Imagine!

--Imagino, imagino. Pode accrescentar que, apezar de ser tudo isso, e mais alguma cousa, apresento-lhe os meus respeitos.

--Como ella tem graça para dizer as cousas! commentou D. Benedicta olhando para a filha.

Eulalia sorriu sem convicção. Sentada na cadeira fronteira á mãe, ao pé da outra ponta do sophá em que estava D. Maria dos Anjos,--Eulalia dava á conversação das duas a somma de attenção que a cortezia lhe impunha, e nada mais, Chegava a parecer aborrecida; cada sorriso que lhe abria a bocca era de um amarello pallido, um sorriso de favor. Uma das tranças,--era de manhã, trazia o cabello em duas tranças caidas pelas costas abaixo,--uma dellas servia-lhe de pretexto a alheiar-se de quando em quando, porque puxava-a para a frente e contava-lhe os fios do cabello,--ou parecia contal-os. Assim o creu D. Maria dos Anjos, quando lhe lançou uma ou duas vezes os olhos, curiosa, desconfiada. D. Benedicta é que não via nada; via a amiga, a feiticeira, como lhe chamou duas ou tres vezes,--«feiticeira como ella só.»

--Já!

D. Maria dos Anjos explicou que tinha de ir a outras visitas; mas foi obrigada a ficar ainda alguns minutos, a pedido da amiga. Como trouxesse um mantelete de renda preta, muito elegante, D. Benedicta disse que tinha um egual, e mandou buscal-o. Tudo demoras. Mas a mãe do Leandrinho estava tão contente! D. Benedicta enchia-lhe o coração; achava nella todas as qualidades que melhor se ajustavam á sua alma e aos seus costumes, ternura, confiança, enthusiasmo, simplicidade, uma familiaridade cordial e prompta. Veiu o mantelete; vieram offerecimentos de alguma cousa, um doce, um licor, um refresco; D. Maria dos Anjos não aceitou nada mais do que um beijo e a promessa de que iriam jantar com ella naquella semana.

--Quinta-feira, disse D. Benedicta.

--Palavra?

--Palavra.

--Que quer que lhe faça se não fôr? Hade ser um castigo bem forte.

--Bem forte? Não me falle mais.

D. Maria dos Anjos beijou com muita ternura a amiga; depois abraçou e beijou tambem a Eulalia, mas a effusão era muito menor de parte a parte. Uma e outra mediam-se, estudavam-se, começavam a comprehender-se. D. Benedicta levou a amiga até o patamar da escada, depois foi á janella para vel-a entrar no carro; a amiga, depois de entrar no carro, poz a cabeça de fóra, olhou para cima, e disse-lhe adeus, com a mão.

--Não falte, ouviu?

--Quinta-feira.

Eulalia já não estava na sala; D. Benedicta correu a acabar a carta. Era tarde: não relatára o jantar da vespera, nem já agora podia fazel-o. Resumiu tudo; encareceu muito as novas relações; emfim, escreveu estas palavras:

«O conego Roxo fallou-me em casar Eulalia com o filho de D. Maria dos Anjos; é um moço formado em direito este anno; é conservador, e espera uma promotoria, agora, se o Itaborahy não deixar o ministerio. Eu acho que o casamento é o melhor possivel. O Dr. Leandrinho (é o nome delle) é muito bem educado; fez um brinde a você, cheio de palavras tão bonitas, que eu chorei. Eu não sei se Eulalia quererá ou não; desconfio de outro sujeito que outro dia esteve comnosco nas Larangeiras. Mas você que pensa? Devo limitar-me a aconselhal-a, ou impor-lhe a nossa vontade? Eu acho que devo usar um pouco da minha autoridade; mas não quero fazer nada sem que você me diga, O melhor seria se você viesse cá.»

Acabou e fechou a carta; Eulalia entrou nessa occasião, ella deu-lh'a para mandar, sem demora, ao correio; e a filha saiu com a carta sem saber que tratava della e do seu futuro, D. Benedicta deixou-se cair no sophá, cançada, exhausta. A carta era muito comprida apezar de não dizer tudo; e era-lhe tão enfadonho escrever cartas compridas!

III

Era-lhe tão enfadonho escrever cartas compridas! Esta palavra, fecho do capitulo passado, explica a longa prostração de D. Benedicta. Meia hora depois de cair no sophá, ergueu-se um pouco, e percorreu o gabinete com os olhos, como procurando alguma cousa. Essa cousa era um livro. Achou o livro, e podia dizer achou os livros, pois nada menos de tres estavam alli, dous abertos, um marcado em certa pagina, todos em cadeiras. Eram tres romances que D. Benedicta lia ao mesmo tempo. Um delles, note-se, custou-lhe não pouco trabalho. Deram-lhe noticia na rua, perto de casa, com muitos elogios; chegara da Europa na vespera. D. Benedicta ficou tão enthusiasmada, que apezar de ser longe e tarde, arrepiou caminho e foi ella mesmo compral-o, correndo nada menos de tres livrarias. Voltou anciosa, namorada do livro, tão namorada que abriu as folhas, jantando, e leu os cinco primeiros capitulos naquella mesma noute. Sendo preciso dormir, dormiu; no dia seguinte não pôde continuar, depois esqueceu-o. Agora, porém, passados oito dias, querendo lêr alguma cousa, aconteceu-lhe justamente achal-o á mão.

--Ah!

E eil-a que torna ao sophá, que abre o livro com amor, que mergulha o espirito, os olhos e o coração na leitura tão desastradamente interrompida. D. Benedicta ama os romances, é natural; e adora os romances bonitos, é naturalissimo. Não admira que esqueça tudo para lêr este; tudo, até a licção de piano da filha, cujo professor chegou e saiu, sem que ella fosse á sala. Eulalia despediu-se do professor; depois foi ao gabinete, abriu a porta, caminhou pé ante pé até o sophá, e acordou a mãe com um beijo.

--Dorminhoca!

--Ainda chove?

--Não, senhora; agora parou.

--A carta foi?

--Foi; mandei o José a toda a pressa. Aposto que mamãe esqueceu-se de dar lembranças a papae? Pois olhe, eu não me esqueço nunca.

D. Benedicta bocejou. Já não pensava na carta; pensava no collete que encommendára á Charavel, um collete de barbatanas mais molles do que o ultimo. Não gostava de barbatanas duras; tinha o corpo mui sensivel. Eulalia fallou ainda algum tempo do pae, mas calou-se logo, e vendo no chão o livro aberto, o famoso romance, apanhou-o, fechou-o, pol-o em cima da mesa. Nesse momento vieram trazer uma carta a D. Benedicta; era do conego Roxo, que mandava perguntar se estavam em casa naquelle dia, porque iria ao enterro dos ossos.

--Pois não! bradou D. Benedicta; estamos em casa, venha, póde vir.

Eulalia escreveu o bilhetinho de resposta. D'ahi a tres quartos de hora fazia o conego a sua entrada na sala de D. Benedicta. Era um bom homem o conego, velho amigo daquella casa, na qual, além de trinchar o perú nos dias solemnes, como vimos, exercia o papel de conselheiro, e exercia-o com lealdade e amor. Eulalia, principalmente, merecia-lhe muito; vira-a pequena, galante, travessa, amiga delle, e criou-lhe uma affeição paternal, tão paternal que tomára** a peito casal-a bem, e nenhum noivo melhor do que o Leandrinho, pensava o conego, Naquelle dia, a idéa de ir jantar com ellas era antes um pretexto; o conego queria tratar o negocio directamente com a filha do desembargador. Eulalia, ou porque adivinhasse isso mesmo, ou porque a pessoa do conego lhe lembrasse o Leandrinho, ficou logo preoccupada, aborrecida.

Mas, preoccupada ou aborrecida, não quer dizer triste ou desconsolada. Era resoluta, tinha têmpera, podia resistir, e resistiu, declarando ao conego, quando elle naquella noute lhe fallou do Leandrinho, que absolutamente não queria casar.

--Palavra de moça bonita?

--Palavra de moça feia.

--Mas, porque?

--Porque não quero.

--E se mamãe quizer?

--Não quero eu.

--Máu! isso não é bonito, Eulalia.

Eulalia deixou-se estar. O conego ainda tornou ao assumpto, louvou as qualidades do candidato as esperanças da familia, as vantagens do casamento; ella ouvia tudo, sem contestar nada. Mas quando o conego formulava de um modo directo a questão, a resposta invariavel era esta:

--Já disse tudo.

--Não quer?

--Não.

O desconsolo do bom conego era profundo e sincero. Queria casal-a bem, e não achava melhor noivo. Chegou a interrogal-a discretamente, sobre se tinha alguma preferencia em outra parte. Mas Eulalia, não menos discretamente, respondia que não, que não tinha nada; não queria nada; não queria casar. Elle creu que era assim, mas receiou tambem que não fosse assim; faltava-lhe o trato sufficiente das mulheres para lêr atravez de uma negativa. Quando referiu tudo a D. Benedicta, esta ficou assombrada com os termos da recusa; mas tornou logo a si, e declarou ao padre que a filha não tinha vontade, faria o que ella quizesse, e ella queria o casamento.

--Já agora nem espero resposta do pae, concluiu; declaro-lhe que ella ha de casar. Quinta-feira vou jantar com D. Maria dos Anjos, e combinaremos as cousas.

--Devo dizer-lhe, ponderou o conego, que D. Maria dos Anjos não deseja que se faça nada á força.

--Qual força! Não é preciso força.

O conego reflectiu um instante:--Em todo caso, não violentaremos qualquer outra affeição que ella possa ter, disse elle.

D. Benedicta não respondeu nada; mas comsigo, no mais fundo de si mesma, jurou que, houvesse o que houvesse, acontecesse o que acontecesse, a filha seria nora de D. Maria dos Anjos. E ainda comsigo, depois de sair o conego:--Tinha que ver! um tico de gente, com fumaças de governar a casa!

A quinta-feira raiou. Eulalia,--o tico de gente, levantou-se fresca, lepida, loquaz, com todas as janellas da alma abertas ao sopro azul da manhã. A mãe acordou ouvindo um trecho italiano, cheio de melodia; era ella que cantava, alegre, sem affectação, com a indifferença das aves que cantam para si ou para os seus, e não para o poeta, que as ouve e traduz na lingua immortal dos homens. D. Benedicta afagara muito a idéa de a vêr abatida, carrancuda, e gastára uma certa somma de imaginação em compôr os seus modos, delinear os seus actos, ostentar energia e força. E nada! Em vez de uma filha rebelde, uma creatura gárrula e submissa. Era começar mal o dia; era sair apparelhada para destruir uma fortaleza, e dar com uma cidade aberta, pacifica, hospedeira, que lhe pedia o favor de entrar e partir o pão da alegria e da concordia. Era começar o dia muito mal.

A segunda causa do tedio de D. Benedicta foi um ameaço de enxaqueca, ás tres horas da tarde; um ameaço, ou uma suspeita de possibilidade de ameaço. Chegou a transferir a visita, mas a filha ponderou que talvez a visita lhe fizesse bem, e em todo caso, era tarde para deixar de ir. D. Benedicta não teve remedio, aceitou o reparo. Ao espelho, penteando-se, esteve quasi a dizer que definitivamente ficava; chegou a insinual-o á filha.

--Mamãe veja que D. Maria dos Anjos conta com a senhora, disse-lhe Eulalia.

--Pois sim, redarguiu a mão, mas não prometti ir doente.

Emfim, vestiu-se, calçou as luvas, deu as ultimas ordens; e devia doer-lhe muito a cabeça, porque os modos eram arrebitados, uns modos de pessoa constrangida ao que não quer. A filha animava-a muito, lembrava-lhe o vidrinho dos saes, instava que saissem, descrevia a anciedade de D. Maria dos Anjos, consultava de dous em dous minutos o pequenino relogio, que trazia na cintura, etc. Uma amofinação, realmente.

--O que tu estás é me amofinando, disse-lhe a mãe.

E saiu, saiu exasperada, com uma grande vontade de esganar a filha, dizendo comsigo que a peior cousa do mundo era ter filhas. Os filhos ainda vá: criam-se, fazem carreira por si; mas as filhas!

Felizmente, o jantar de D. Maria dos Anjos aquietou-a; e não digo que a enchesse de grande satisfação, porque não foi assim. Os modos de D. Benedicta não eram os do costume; eram frios, seccos, ou quasi seccos; ella, porém, explicou de si mesma a differença, noticiando o ameaço da enxaqueca, noticia mais triste do que alegre, e que, aliás, alegrou a alma de D. Maria dos Anjos, por esta razão fina e profunda: antes a frieza da amiga fosse originada na doença do que na quebra do affecto. Demais, a doença não era grave. E que fosse grave! Não houve naquelle dia mãos presas, olhos nos olhos, manjares comidos entre caricias mutuas; não houve nada do jantar de domingo. Um jantar apenas conversado; não alegre, conversado; foi o mais que alcançou o conego. Amavel conego! As disposições de Eulalia, naquelle dia, cumularam-n'o de esperanças; o riso que brincava nella, a maneira expansiva da conversa, a docilidade com que se prestava a tudo, a tocar, a cantar, e o rosto affavel, meigo, com que ouvia e fallava ao Leandrinlio, tudo isso foi para a alma do conego uma renovação de esperanças. Logo hoje é que D. Benedicta estava doente! Realmente, era caiporismo.

D. Benedicta reanimou-se um pouco, á noite, depois do jantar. Conversou mais, discutiu um projecto de passeio ao Jardim Botanico, chegou mesmo a propor que fosse logo no dia seguinte; mas Eulalia advertiu que era prudente esperar um ou dous dias até que os effeitos da enxaqueca desapparecessem de todo: e o olhar que mereceu á mãe, em trocado conselho, tinha a ponta aguda de um punhal. Mas a filha não tinha medo dos olhos maternos. De noite, ao despentear-se, recapitulando o dia, Eulalia repetiu consigo a palavra que lhe ouvimos, dias antes, á janella:

--Isto acaba.

E, satisfeita de si, antes de dormir, puxou uma certa gaveta, tirou uma caixinha, abriu-a, aventou um cartão de alguns centimetros de altura,--um retrato. Não era retrato de mulher, não só por ter bigodes, como por estar fardado; era, quando muito, um official de marinha. Se bonito ou feio, é materia de opinião. Eulalia achava-o bonito; a prova é que o beijou, não digo uma vez, mas tres. Depois mirou-o, com saudade, tornou a fechal-o e guardal-o.

Que fazias tu, mãe cautellosa e rispida, que não vinhas arrancar ás mãos e á boca da filha um veneno tão subtil e mortal? D. Benedicta, á janella, olhava a noite, entre as estrellas e os lampeões de gaz, com a imaginação vagabunda, inquieta, roida de saudades e desejos. O dia tinha-lhe saido mal, desde manhã. D. Benedicta confessava, naquella doce intimidade da alma consigo mesma, que o jantar de D. Maria dos Anjos não prestára para nada, e que a propria amiga não estava provavelmente nos seus dias de costume. Tinha saudades, não sabia bem de que, e desejos, que ignorava. De quando em quando, bocejava ao modo preguiçoso e arrastado dos que caem de somno; mas se alguma cousa tinha era fastio,--fastio, impaciencia, curiosidade. D. Benedicta cogitou seriamente em ir ter com o marido; e tão depressa a idéa do marido lhe penetrou no cerebro, como se lhe apertou o coração de saudades e remorsos, e o sangue pulou-lhe n'um tal impeto de ir ver o desembargador que, se o paquete do Norte estivesse na esquina da rua e as malas promptas, ella embarcaria logo e logo. Não importa; o paquete devia estar prestes a sair, oito ou dez dias; era o tempo de arranjar as malas. Iria por tres mezes sómente, não era preciso levar muita cousa. Eil-a que se consola da grande cidade fluminense, da similitude dos dias, da escassez das cousas, da persistencia das caras, da mesma fixidez das modas, que era um dos seus arduos problemas:--porque é que as modas hão de durar mais de quinze dias?

--Vou, não ha que ver, vou ao Pará, disse ella a meia voz.

Com effeito, no dia seguinte, logo de manhã, communicou a resolução á filha, que a recebeu sem abalo. Mandou ver as malas que tinha, achou que era preciso mais uma, calculou o tamanho, e determinou compral-a. Eulalia, por uma inspiração subita:

--Mas, mamãe, nós não vamos por tres mezes?

--Tres... ou dous.

--Pois, então, não vale a pena. As duas malas chegam.

--Não chegam.

--Bem; se não chegarem, pode-se comprar na vespera. E mamãe mesmo escolhe; é melhor do que mandar esta gente que não sabe nada.

D. Benedicta achou a reflexão judiciosa, e guardou o dinheiro. A filha sorriu para dentro. Talvez repetisse comsigo a famosa palavra da janella:--Isto acaba. A mãe foi cuidar dos arranjos, escolha de roupa, lista das cousas que precisava comprar, um presente para o marido, etc. Ah! que alegria que elle ia ter! Depois do meio dia sairam para fazer encommendas, visitas, comprar as passagens, quatro passagens; levavam uma escrava comsigo. Eulalia ainda tentou arredal-a da idéa, propondo a transferencia da viajem; mas D. Benedicta declarou peremptoriamente que não. No escriptorio da Companhia de Paquetes disseram-lhe que o do Norte saia na sexta-feira da outra semana. Ella pediu as quatro passagens; abriu a carteirinha, tirou uma nota, depois duas, reflectiu um instante.

--Basta vir na vespera, não?

--Basta, mas pode não achar mais.

--Bem; o senhor guarde os bilhetes: eu mando buscar.

--O seu nome?

--O nome? O melhor é não tomar o nome; nós viremos tres dias antes de sair o vapor. Naturalmente ainda haverá bilhetes.

--Pode ser.

--Hade haver.

Na rua, Eulalia observou que era melhor ter comprado logo os bilhetes; e, sabendo-se que ella não desejava ir para o Norte nem para o Sul, salvo na fragata em que embarcasse o original do retrato da vespera, hade suppor-se que a reflexão da moça era profundamente machiavelica. Não digo que não. D. Benedicta, entretanto, noticiou a viagem aos amigos e conhecidos, nenhum dos quaes a ouviu espantado. Um chegou a perguntar-lhe se, enfim, daquella vez era certo. D. Maria dos Anjos, que sabia da viagem pelo conego, se alguma cousa a assombrou, quando a amiga se despediu della, foram as attitudes geladas, o olhar fixo no chão, o silencio, a indifferença. Uma visita de dez minutos apenas, durante os quaes D. Benedicta disse quatro palavras no principio: Vamos para o Norte. E duas no fim:--Passe bem. E os beijos? Dous tristes beijos de pessoa morta.

IV

A viagem não se fez por um motivo supersticioso. D. Benedicta, no domingo á noute, advertiu que o paquete seguia na sexta-feira, e achou que o dia era máu. Iriam no outro paquete. Não foram no outro; mas desta vez os motivos escapam inteiramente ao alcance do olhar humano, e o melhor alvitre em taes casos é não teimar com o impenetravel. A verdade é que D. Benedicta não foi, mas iria no terceiro paquete, a não ser um incidente que lhe trocou os planos.

Tinha a filha inventado uma festa e uma amizade nova. A nova amizade era uma familia do Andarahy; a festa não se sabe a que proposito foi, mas deve ter sido explendida, porque D. Benedicta ainda fallava della tres dias depois. Tres dias! Realmente, era demais. Quanto á familia, era impossivel ser mais amavel; ao menos, a impressão que deixou na alma de D. Benedicta foi intensissima. Uso este superlativo, porque ella mesma o empregou: é um documento humano.

--Aquella gente? Oh! deixou-me uma impressão intensissima.

E toca a andar para Andarahy, namorada de D. Petronilha, esposa do conselheiro Beltrão, e de uma irmã della, D. Maricota, que ia casar com um official de marinha, irmão de outro oflicial de marinha, cujos bigodes, olhos, cara, porte, cabellos, são os mesmos do retrato qu e o leitor entreviu ha tempos na gavetinha de Eulalia. A irmã casada tinha trinta e dous annos, e uma seriedade, umas maneiras tão bonitas, que deixaram encantada a esposa do desembargador. Quanto á irmã solteira era uma flor, uma flor de cera, outra expressão de D. Benedicta, que não altero com receio de entibiar a verdade.

Um dos pontos mais obscuros desta curiosa historia é a pressa com que as relações se travaram, e os acontecimentos se succederam. Por exemplo, uma das pessoas que estiveram em Andarahy, com D. Benedicta, foi o official de marinha retratado no cartão particular de Eulalia, 1o tenente Mascarenhas, que o conselheiro Beltrão proclamou futuro almirante. Vede, porém, a perfídia do official: vinha fardado; e D. Benedicta, que amava os expectaculos novos, achou-o tão distincto, tão bonito, entre os outros moços á paisana, que o preferiu a todos, e lh'o disse. O official agradeceu commovido. Ella offereceu-lhe a casa; elle pediu-lhe licença para fazer uma visita.

--Uma visita? Vá jantar comnosco.

Mascarenhas fez uma cortezia de acquiescencia.

--Olhe, disse D. Benedicta, vá amanhã.

Mascarenhas foi, e foi mais cedo. D. Benedicta fallou-lhe da vida do mar; elle pediu-lhe a filha em casamento. D. Benedicta ficou sem voz, pasmada. Lembrou-se, é verdade, que desconfiára delle, um dia,** nas Larangeiras; mas a suspeita acabara. Agora não os vira conversar nem olhar uma só vez. Em casamento! Mas seria mesmo em casamento? Não podia ser outra cousa; a attitude séria, respeitosa, implorativa do rapaz dizia bem que se tratava de um casamento. Que sonho! Convidar um amigo, e abrir a porta a um genro: era o cumulo do inesperado. Mas o sonho era bonito; o official de marinha era um galhardo rapaz, forte, elegante, sympathico, mettia toda a gente no coração, e principalmente parecia adoral-a, a ella, D. Benedicta. Que magnifico sonho! D. Benedicta, voltou do pasmo, e respondeu que sim, que Eulalia era sua. Mascarenhas pegou-lhe na mão e beijou-a filialmente.

--Mas o desembargador? disse elle.

--O desembargador concordará commigo.