Part 7
1.--Então Noé disse a seus filhos Japhet, Sem e Cham:--«Vamos sair da arca, segundo a vontade do Senhor, nós, e nossas mulheres, e todos os animaes. A arca tem de parar no cabeço de uma montanha; desceremos a ella.
2.--«Porque o Senhor cumpriu a sua promessa, quando me disse: Resolvi dar cabo de toda a carne; o mal domina a terra, quero fazer perecer os homens. Faze uma arca de madeira; entra nella tu, tua mulher e teus filhos.
3.--«E as mulheres de teus filhos, e um casal de todos os animaes.
4.--«Agora, pois, se cumpriu a promessa do Senhor, e todos os homens pereceram, e fecharam-se as cataractas do céu; tornaremos a descer á terra, e a viver no seio da paz e da concordia.»
5.--Isto disse Noé, e os filhos de Noé muito se alegraram de ouvir as palavras de seu pae; e Noé os deixou sós, retirando-se a uma das camaras da arca.
6.--Então Japhet levantou a voz e disse:--«Aprazivel vida vai ser a nossa. A figueira nos dará o fructo, a ovelha a lan, a vacca o leite, o sol a cladade e a noite a tenda.
7.--«Porquanto seremos unicos na terra, e toda a terra será nossa, e ninguem perturbará a paz de uma familia, poupada do castigo que feriu a todos os homens.
8.--«Para todo o sempre.» Então Sem, ouvindo falar o irmão, disse:--«Tenho uma ideia.» Ao que Japhet e Cham responderam:--«Vejamos a tua ideia, Sem.»
9.--E Sem falou a voz de seu coração, dizendo:--«Meu pae tem a sua familia; cada um de nós tem a sua familia; a terra é de sobra; podiamos viver em tendas separadas. Cada um de nós fará o que lhe parecer melhor: e plantará, caçará, ou lavrará a madeira, ou fiará o linho.»
10.--E respondeu Japhet:--«Acho bem lembrada a idea de Sem; podemos viver em tendas separadas. A arca vai descer ao cabeço de uma montanha; meu pae e Chain descerão para o lado do nascente: eu e Sem para o lado do poente. Sem occupará duzentos covados de terra, eu outros duzentos.»
11.--Mas dizendo Sem:--«Acho pouco duzentos covados»--, retorquiu Japhet: «Pois sejam quinhentos cada um. Entre a minha terra e a tua haverá um rio, que as divida no meio, para se não confundir a propriedade. Eu fico na margem esquerda e tu na margem direita;
12.--«Ea minha terra se chamará a terra de Japhet, e a tua se chamará a terra de Sem; e iremos ás tendas um do outro, e partiremos o pão da alegria e da concordia.»
13.--E tendo Sem approvado a divisão, perguntou a Japhet: «Mas o rio? a quem pertencerá a agua do rio, a corrente?
14.--«Porque nós possuimos as margens, e não estatuimos nada a respeito da corrente.» E respondeu Japhet, que podiam pescar de um e outro lado; mas, divergindo o irmão, propôz dividir o rio em duas partes, fincando um pau no meio. Japhet, porem, disse que a corrente levaria o pau.
15.--E tendo Japhet respondido asssim, acudiu o irmão:--«Pois que te não serve o pau, fico eu com o rio, e as duas margens; e para que não haja conflicto, podes levantar um muro, dez ou doze covados, para lá da tua margem antiga.
16.--«E se com isto perdes alguma cousa, nem é grande a differença, nem deixa de ser acertado, para que nunca jamais se turbe a concordia entre nós, segundo é a vontade do Senhor.»
17.--Japhet porém replicou:--«Vae bugiar! Com que direito me tiras a margem, que é minha, e me roubas um pedaço de terra? Por ventura és melhor do que eu.
18.--«Ou mais bello, ou mais querido de meu pae? que direito tens de violar assim tão escandalosamente a propriedade alheia?
19.--«Pois agora te digo que o rio ficará do meu lado, com ambas as margens, e que se te atreveres a entrar na minha terra, matar-te-hei como Caim matou a seu irmão.»
20.--Ouvindo isto, Cham atemorisou-se muito, e começou a aquietar os dous irmãos,
21.--Os quaes tinham os olhos do tamanho de figos e cor de braza, e olhavam-se cheios de colera e desprezo.
22.--A arca, porém, boiava sobre as aguas do abysmo.
CAPITULO B
1.--Ora, Japhet, tendo curtido a colera, começou a espumar pela boca, e Okam fallou-lhe palavras de brandura,
2.--Dizendo:--«Vejamos um meio de conciliar tudo; vou chamar tua mulher e a mulher de Sem.»
3.--Um e outro, porém, recusaram dizendo, que o caso era de direito e não de persuasão.
4.--E Sem propoz a Japhet que compensasse os dez covados perdidos, medindo outros tantos nos fundos da terra delle. Mas Japhet respondeu:
5.--«Por que me não mandas logo para os confins do mundo? Já te não contentas com quinhentos covados; queres quinhentos e dez, e eu que fique com quatrocentos e noventa.
6.--«Tu não tens sentimentos moraes? não sabes o que é justiça? não ves que me esbulhas descaradamente? e não percebes que eu saberei defender o que é meu, ainda com risco de vida?
7.--«E que, se é preciso correr sangue, o sangue hade correr já e já,
8.--«Para te castigar a soberba e lavar a tua iniquidade?»
9.--Então Sem avançou para Japhet; mas Cham interpoz-se, pondo uma das mãos no peito de cada um;
10.--Emquanto o lobo e o cordeiro, que durante os dias do diluvio, tinham vivido na mais doce concordia, ouvindo o rumor das vozes, vieram espreitar a briga dos dous irmãos, e começaram a vigiar-se um ao outro.
11.--E disse Cham:--«Ora, pois, tenho uma ideia maravilhosa, que ha de accommodar tudo;
12.--«A qual me é inspirada pelo amor, que tenho a meus irmãos. Sacrificarei pois a terra que me couber ao lado de meu pae, e ficarei com o rio e as duas margens, dando-me vós uns vinte covados cada um.»
13.--E Sem e Japhet riram com desprezo e sarcasmo, dizendo:--«Vae plantar tamaras! Guarda a tua ideia para os dias da velhice.» E puxaram as orelhas e o nariz de Cham; e Japhet, mettendo dous dedos na boca, imitou o silvo da serpente, em ar de surriada.
14.--Ora, Cham envergonhado e irritado, espalmou a mão dizendo:--«Deixa estar!» e foi d'alli ter com o pae e as mulheres dos dous irmãos.
15.--Japhet porém disse a Sem:--«Agora que estamos sós, vamos decidir este grave caso, ou seja de lingua ou de punho. Ou tu me cedes as duas margens, ou eu te quebro uma costella.»
16.--Dizendo isto, Japhet ameaçou a Sem com os punhos fechados, emquanto Sem, derreando o corpo, disse com voz irada: «Não te cedo nada, gatuno!»
17.--Ao que Japhet retorquiu irado: «gatuno és tu!»
18.--Isto dito, avançaram um para o outro e atracaram-se. Japhet tinha o braço rijo e adestrado; Sem era forte na resistencia. Então Japhet, segurando o irmão pela cinta, apertou-o fortemente, bradando: «De quem é o rio?»
19.--E respondendo Sem:--«É meu!» Japhet fez um gesto para derrubal-o; mas Sem, que era forte, sacudiu o corpo e atirou o irmão para longe, Japhet, porém, espumando de colera, tornou a apertar o irmão, e os dous luctaram braço a braço,
20.--Suando e bufando como touros.
21.--Na lucta, cairam e rolaram, esmurrando-se um ao outro; o sangue saía dos narizes, dos beiços, das faces; ora vencia Japhet,
22.--Ora vencia Sem; porque a raiva animava-os egualmente, e elles luctavam com as mãos, os pés, os dentes e as unhas; e a arca estremecia como se de novo se houvessem aberto as cataratas do céu.
23.--Então as vozes e brados chegaram aos ouvidos de Noé, ao mesmo tempo que seu filho Cham, que lhe appareceu clamando: «Meu pae, meu pae, se de Caim se tomará vingança sete vezes, e de Lamech setenta vezes sete, o que será de Japhet e Sem?»
24.--E pedindo Noé que explicasse o dito, Cham referiu a discordia dos dous irmãos, e a ira que os animava, e disse:--«Correi a aquietal-os.» Noé disse:--«Vamos.»
25.--A arca, porém, boiava sobre as aguas do abysmo.
CAPITULO C
1.--Eis aqui chegou Noé ao logar onde luctavam os dous filhos,
2.--E achou-os ainda agarrados um ao outro, e Sem debaixo do joelho de Japhet, que com o punho cerrado lhe batia na cara, a qual estava roxa e sangrenta.
3.--Entretanto, Sem, alçando as mãos, conseguiu apertar o pescoço do irmão, e este começou a bradar: «Larga-me, larga-me.»
4.--Ouvindo os brados, as mulheres de Japhet e Sem acudiram tambem ao logar da lucta, e, vendo-os assim, entraram a soluçar e a dizer: «O que será de nós? A maldição cahiu sobre nós e nossos maridos.»
5.--Noé, porém, lhes disse: «Calai-vos, mulheres de meus filhos, eu verei de que se trata, e ordenarei o que fôr justo .» E caminhando para os dous combatentes,
6.--Bradou: «Cessae a briga. Eu, Noé, vosso pae, o ordeno e mando.» E ouvindo os dous irmãos o pae, detiveram-se subitamente, e ficaram longo tempo atalhados e mudos, não se levantando nenhum d'elles.
7.--Noé continuou: «Erguei-vos, homens indignos da salvação e merecedores do castigo que feriu os outros homens.»
8.--Japhet e Sem ergueram-se. Ambos tinham feridos o rosto, o pescoço e as mãos, e as roupas salpicadas de sangue, porque tinham luctado com unhas e dentes, instigados de odio mortal.
9.--O chão tambem estava alagado de sangue, e as sandalias de um e outro, e os cabellos de um e outro,
10.--Como se o peccado os quizera marcar com o sello da iniquidade.
11.--As duas mulheres, porém, chegaram-se a elles, chorando e acariciando-os, e via-se-lhes a dor do coração. Japhet e Sem não attendiam a nada, e estavam com os olhos no chão, medrosos de encarar seu pae.
12.--O qual disse: «Ora, pois, quero saber o motivo da briga.»
13.--Esta palavra accendeu o odio no coração de ambos. Japhet, porém, foi o primeiro que falou e disse:
14.--«Sem invadiu a minha terra, a terra que eu havia escolhido para levantar a minha tenda, quando as aguas houverem desapparecido e a arca descer, segundo a promessa do Senhor;
15.--«E eu, que não tolero o esbulho, disse a meu irmão: «Não te contentas com quinhentos covados e queres mais dez? «E elle me respondeu: «Quero mais dez e as duas margens do rio que ha de dividir a minha terra da tua terra.»
16.--Noé, ouvindo o filho, tinha os olhos em Sem; e acabando Japhet, perguntou ao irmão: «Que respondes?»
17.--E Sem disse: «--Japhet mente, porque eu só lhe tomei os dez covados de terra, depois que elle recusou dividir o rio em duas partes; e propondo-lhe ficar com as duas margens, ainda consenti que elle medisse outros dez covados nos fundos das terras delle,
18.--«Para compensar o que perdia; mas a iniquidade de Caim fallou nelle, e elle me feriu a cabeça, a cara e as mãos.»
19.--E Japhet interrompeu-o dizendo: «Porventura não me feriste tambem? Não estou ensanguentado como tu? Olha a minha cara e o meu pescoço; olha as minhas faces, que rasgaste com as tuas unhas de tigre.»
20.--Indo Noé fallar, notou que os dous filhos de novo pareciam desafiar-se com os olhos. Então disse: «Ouvi!» Mas os dous irmãos, cegos de raiva, outra vez se engalfinharam, bradando:--«De quem é o rio?»--«O rio é meu.»
21.--E só a muito custo puderam Noé, Cham e as mulheres de Sem e Japhet, conter os dous combatentes, cujo sangue entrou a jorrar em grande copia.
22.--Noé, porém, alçando a voz, bradou:--Maldito seja o que me não obedecer. Elle será maldito, não sete vezes, não setenta vezes sete, mas setecentas vezes setenta.
23.--«Ora, pois, vos digo que, antes de descer a arca, não quero nenhum ajuste a respeito do logar em que levantareis as tendas.»
24.--Depois ficou meditabundo.
25.--E alçando os olhos ao céu, porque a portinhola do tecto estava levantada, bradou com tristeza:
26.--«Elles ainda não possuem a terra e já estão brigando por causa dos limites. O que será quando vierem a Turquia e a Russia?»
27.--E nenhum dos filhos de Noé pôde entender esta palavra de seu pae.
28.--A arca, porém, continuava a boiar sobre as aguas do abysmo.
D. BENEDICTA
UM RETRATO
I
A cousa mais ardua do mundo, depois do officio de governar, seria dizer a edade exacta de D. Benedicta. Uns davam-lhe quarenta annos, outros quarenta e cinco, alguns trinta e seis. Um corretor de fundos descia aos vinte e nove; mas esta opinião, eivada de intenções occultas, carecia daquelle cunho de sinceridade que todos gostamos de achar nos conceitos humanos. Nem eu a cito, senão para dizer, desde logo, que D. Benedicta foi sempre um padrão de bons costumes. A astucia do corretor não fez mais do que indignal-a, embora momentaneamente; digo momentaneamente. Quanto ás outras conjecturas, oscillando entre os trinta e seis e os quarenta e cinco, não desdiziam das feições de D. Benedicta, que eram maduramente graves e juvenilmente graciosas. Mas, se alguma cousa admira é que houvesse supposições neste negocio, quando bastava interrogal-a para saber a verdade verdadeira.
D. Benedicta fez quarenta e dous annos no domingo desenove de setembro de 1869. São seis horas da tarde; a meza da familia está ladeada de parentes e amigos, em numero de vinte ou vinte e cinco pessoas. Muitas dessas estiveram no jantar de 1868, no de 1867 e no de 1866, e ouviram sempre alludir francamente á edade da dona da casa. Além disso, vêem-se alli, á meza, uma moça e um rapaz, seus filhos; este é, de certo, no tamanho e nas maneiras, um tanto menino; mas a moça, Eulalia, contando dezoito annos, parece ter vinte e um, tal é a severidade dos modos e das feições.
A alegria dos convivas, a excellencia do jantar, certas negociações matrimoniaes incumbidas ao conego Roxo, aqui presente, e das quaes se fallará mais abaixo, as boas qualidades da dona da casa, tudo isso dá á festa um caracter intimo e feliz. O conego levanta-se para trinchar o perú. D. Benedicta acatava esse uso nacional das casas modestas de confiar o perú a um dos convivas, em vez de o fazer retalhar fóra da meza por mãos servis, e o conego era o pianista daquellas occasiões solemnes. Ninguem conhecia melhor a anatomia do animal, nem sabia operar com mais presteza. Talvez,--e este phenomeno fica para os entendidos,--talvez a circumstancia do canonicato augmentasse ao trinchante, no espirito dos convivas, uma certa somma de prestigio, que elle não teria, por exemplo, se fosse um simples estudante de mathematicas, ou um amanuense de secretaria. Mas, por outro lado, um estudante ou um amanuense, sem a lição do longo uso, poderia dispor da arte consummada do conego? É outra questão importante.
Venhamos, porém, aos demais convivas, que estão parados, conversando; reina o borborinho proprio dos estomagos meio regalados, o riso da natureza que caminha para a repleção; é um instante de repouso.
D. Benedicta falla, como as suas visitas, mas não falla para todas, senão para uma, que está sentada ao pé della. Essa é uma senhora gorda, sympathica, muito risonha, mãe de um bacharel de vinte e dous annos, o Leandrinho, que está sentado defronte dellas. D. Benedicta não se contenta de fallar á senhora gorda, tem uma das mãos desta entre as suas; e não se contenta de lhe ter presa a mão, fita-lhe uns olhos namorados, vivamente namorados. Não os fita, note-se bem, de um modo persistente e longo, mas inquieto, miudo, repetido, instantaneo. Em todo caso, ha muita ternura naquelle gesto; e, dado que não a houvesse, não se perderia nada, porque D. Benedicta repete com a boca a D. Maria dos Anjos tudo o que com os olhos lhe tem dito:--que está encantada, que considera uma fortuna conhecel-a, que é muito sympathica, muito digna, que traz o coração nos olhos, etc., etc., etc. Uma de suas amigas diz-lhe, rindo, que está com ciumes.
--Que arrebente! responde ella, rindo tambem.
E voltando-se para a outra:
--Não acha? ninguém deve metter-se com a nossa vida.
E ahi tornavam as finezas, os encarecimentos, os risos, as offertas, mais isto, mais aquillo,--um projecto do passeio, outro de theatro, e promessas de muitas visitas, tudo com tamanha expansão e calor, que a outra palpitava de alegria e reconhecimento.
O perú está comido. D. Maria dos Anjos faz um signal ao filho; este levanta-se e pede que o acompanhem em um brinde:
--Meus senhores, é preciso desmentir esta maxima dos francezes:--_les absents on tort._Bebamos a alguem que está longe, muito longe, no espaço, mas perto, muito perto, no coração de sua digna esposa:--bebamos ao illustre desembargador Proença.
A assembléa não correspondeu vivamente ao brinde; e para comprehendel-o basta ver o rosto triste da dona da casa. Os parentes e os mais intimos disseram baixinho entre si que o Leandrinho fora estouvado; emfim, bebeu-se, mas sem estrepito; ao que parece, para não avivar a dor de D. Benedicta. Vã precaução! D. Benedicta, não podendo conter-se, deixou rebentarem-lhe as lagrimas, levantou-se da meza, retirou-se da sala. D. Maria dos Anjos acompanhou-a. Succedeu um silencio mortal entre os convivas. Eulalia pediu a todos que continuassem, que a mãe voltava já.
--Mamãe é muito sensivel, disse ella, e a ideia de que papae está longe de nós...
O Leandrinho, consternado, pediu desculpa a Eulalia. Um sujeito, ao lado delle, explicou-lhe que D. Benedicta não podia ouvir fallar do marido sem receber um golpe no coração--e chorar logo; ao que o Leandrinho acudiu dizendo que sabia da tristeza della, mas estava longe de suppor que o seu brinde tivesse tão mau effeito.
--Pois era a cousa mais natural, explicou o sujeito, porque ella morre pelo marido.
--O conego, acudiu Leandrinho, disse-me que elle foi para o Pará ha uns dous annos...
--Dous annos e meio; foi nomeado desembargador pelo ministerio Zacharias. Elle queria a relação de S. Paulo, ou da Bahia; mas não pôde ser e aceitou a do Pará.
--Não voltou mais?
--Não voltou.
--D. Benedicta naturalmente tem medo de embarcar...
--Creio que não. Já foi uma vez á Europa. Se bem me lembro, ella ficou para arranjar alguns negocios de familia; mas foi ficando, ficando, e agora...
--Mas era muito melhor ter ido em vez de padecer assim... Conhece o marido?
--Conheço; um homem muito distincto, e ainda moço, forte; não terá mais de quarenta e cinco annos. Alto, barbado, bonito. Aqui ha tempos disse-se que elle não teimava com a mulher, porque estava lá de amores com uma viuva.
--Ah!
--E houve até quem viesse contal-o a ella mesma. Imagine como a pobre senhora ficou! Chorou uma uma noute inteira, no dia seguinte não quiz almoçar, e deu todas as ordens para seguir no primeiro vapor.
--Mas não foi?
--Não foi; desfez a viagem d'ahi a tres dias.
D. Benedicta voltou nesse momento, pelo braço de D. Maria dos Anjos. Trazia um sorriso envergonhado; pediu desculpa da interrupção, e sentou-se com a recente amiga ao lado, agradecendo os cuidados que lhe deu, pegando-lhe outra vez na mão.
--Vejo que me quer bem, disse ella.
--A senhora merece, disse D. Maria dos Anjos.
--Mereço? inquiriu ella entre desvanecida e modesta.
E declarou que não, que a outra é que era boa, um anjo, um verdadeiro anjo; palavra que ella sublinhou com o mesmo olhar namorado, não persistente e longo, mas inquieto e repetido. O conego, pela sua parte, com o fim de apagar a lembrança do incidente, procurou generalisar a conversa, dando-lhe por assumpto a eleição do melhor doce. Os pareceres divergiram muito. Uns acharam que era o de coco, outros o de cajú, alguns o de laranja, etc. Um dos convivas, o Leandrinho, autor do brinde, dizia com os olhos,--não com a boca,--e dizia-o de um modo astucioso, que o melhor doce eram as faces de Eulalia, um doce moreno, corado; dito que a mãe delle interiormente approvava, e que a mãe della não podia ver, tão entregue estava á contemplação da recente amiga. Um anjo, um verdadeiro anjo!
II
D. Benedicta levantou-se, no dia seguinte, com a ideia de escrever uma carta ao marido, uma longa carta em que lhe narrasse a festa da vespera, nomeasse os convivas e os pratos, descrevesse a recepção nocturna, e, principalmente, désse noticia das novas relações com D. Maria dos Anjos. A mala fechava-se ás duas horas da tarde, D. Benedicta accordára ás nove, e, não morando longe (morava no Campo da Acclamação), um escravo levaria a carta ao correio muito a tempo. Demais, chovia; D. Benedicta arredou a cortina da janella, deu com os vidros molhados; era uma chuvinha teimosa, o céu estava todo brochado de uma côr pardo-escura, malhada do grossas nuvens negras. Ao longe, viu fluctuar e voar o panno que cobria o balaio que uma preta levava á cabeça: concluiu que ventava. Magnifico dia para não sair, e, portanto, escrever uma carta, duas cartas, todas as cartas de uma esposa ao marido ausente. Ninguem viria tental-a.
Emquanto ella compõe os babadinhos e rendas do roupão branco, um roupão de cambraia que o desembargador lhe dera em 1862, no mesmo dia anniversario, 19 de Setembro, convido a leitora a observar-lhe as feições. Vê que não lhe dou Venus; tambem não lhe dou Meduza. Ao contrario de Meduza, nota-se-lhe o alisado simples do cabello, preso sobre a nuca. Os olhos são vulgares, mas tem uma expressão bonachã. A bocca é daquellas que, ainda não sorrindo, são risonhas, e tem esta outra particularidade, que é uma bocca sem remorsos nem saudades: podia dizer sem desejos, mas eu só digo o que quero, e só quero fallar das saudades e dos remorsos. Toda essa cabeça, que não enthusiasma, nem repelle, assenta sobre um corpo antes alto do que baixo, e não magro nem gordo, mas fornido na proporção da estatura. Para que fallar-lhe das mãos? Ha de admiral-as logo, ao travar da penna e do papel, com os dedos afilados e vadios, dous delles ornados de cinco ou seis anneis.
Creio que é bastante ver o modo porque ella compõe as rendas e os babadinhos do roupão para comprehender que é uma senhora pichosa, amiga do arranjo das cousas e de si mesma. Noto que rasgou agora o babadinho do punho esquerdo, mas é porque, sendo tambem impaciente, não podia mais «com a vida deste diabo.» Essa foi a sua expressão, acompanhada logo de um «Deus me perdôe!» que inteiramente lhe extrahiu o veneno. Não digo que ella bateu com o pé, mas adivinha-se, por ser um gesto natural de algumas senhoras irritadas. Em todo caso, a colera durou pouco mais de meio minuto. D. Benedicta foi á caixinha de costura para dar um ponto no rasgão, e contentou-se com um alfinete. O alfinete caiu no chão, ella abaixou-se a apanhal-o. Tinha outros, é verdade, muitos outros, mas não achava prudente deixar alfinetes no chão. Abaixando-se, aconteceu-lhe ver a ponta da chinela, na qual pareceu-lhe descobrir um signal branco; sentou-se na cadeira que tinha perto, tirou a chinela, e viu o que era: era um roidinho de barata. Outra raiva de D. Benedicta, porque a chinela era muito galante, e fora-lhe dada por uma amiga do anno passado. Um anjo, um verdadeiro anjo! D. Benedicta fitou os olhos irritados no signal branco; felizmente a expressão bonachã delles não era tão bonachã que se deixasse eliminar de todo por outras expressões menos passivas, e retomou o seu logar. D. Benedicta entrou a virar e revirar a chinela, e a passal-a de uma para outra mão, a principio com amor, logo depois machinalmente, até que as mãos pararam de todo, a chinela caiu no regaço, e D. Benedicta ficou a olhar para o ar, parada, fixa. Nisto o relogio da sala de jantar, começou a bater horas, D. Benedicta logo ás primeiras duas, estremeceu:
--Jesus! Dez horas!
E, rapida, calçou a chinela, concertou depressa o punho do roupão, e dirigisse á escrevaninha, para começar a carta. Escreveu, com effeito, a data, e um:--«Meu ingrato marido»; emfim, mal traçára estas linhas:--Você lembrou-se hontem de mim? Eu...» quando Eulalia lhe bateu á porta, bradando:
--Mamãe, mamãe, são horas de almoçar.
D. Benedicta abriu a porta, Eulalia beijou-lhe a mão, depois levantou as suas ao céu:
--Meu Deus! que dorminhoca!
--O almoço está prompto?
--Ha que seculos!
--Mas eu tinha dito que hoje o almoço era mais tarde... Estava escrevendo a teu pae.
Olhou alguns instantes para a filha, como desejosa de lhe dizer alguma cousa grave, ao menos difficil, tal era a expressão indecisa e séria dos olhos. Mas não chegou a dizer nada; a filha repetiu que a almoço estava na mesa, pegou-lhe do braço e levou-a.