Papeis Avulsos

Part 6

Chapter 63,899 wordsPublic domain

--Podes e deves; é um modo de convocar a attenção publica. Quanto á materia dos discursos, tens á escolha:--ou os negocios miudos, ou a metaphysica politica, mas prefere a metaphysica. Os negocios miudos, força é confessal-o, não desdizem d'aquella chateza de bom tom, propria de um medalhão acabado; mas, se poderes, adopta a metaphysica;--é mais facil e mais attrahente. Suppõe que desejas saber porque motivo a 7a companhia de infantaria foi transferida de Uruguayana para Cangussú; serás ouvido tão sómente pelo ministro da guerra, que te explicará em dez minutos as razões d'esse acto. Não assim a metaphysica. Um discurso de metaphysica politica apaixona naturalmente os partidos e o publico, chama os apartes e as respostas. E depois não obriga a pensar e descobrir. N'esse ramo dos conhecimentos humanos tudo está achado, formulado, rotulado, encaixotado; é só prover os alforges da memoria. Em todo caso, não transcedas nunca os limites de uma invejavel vulgaridade.

--Farei o que puder. Nenhuma imaginação?

--Nenhuma; antes faze correr o boato de que um tal dom é infimo.

--Nenhuma philosophia?

--Entendamo-nos: no papel e na lingua alguma, na realidade nada. «Philosophia da historia,» por exemplo, é uma locução que deves empregar com frequencia, mas prohibo-te que chegues a outras conclusões que não sejam as já achadas por outros. Foge a tudo que possa cheirar a reflexão, originalidade, etc., etc.

--Também ao riso?

--Como ao riso?

--Ficar serio, muito serio...

--Conforme. Tens um um genio folgasão, prasenteiro, não has de sofreal-o nem eliminal-o; pódes brincar e rir alguma vez. Medalhão não quer dizer melancolico. Um grave póde ter seus momentos de expansão alegre. Sómente,--e este ponto é melindroso...

--Diga. [added part of sentence]--**Somente não deves empregar a ironia, esse movimento ao canto da boca cheio do mysterios, inventado por algum grego da decadencia, contrahido** por Luciano, transmittido a Swift e Voltaire, feição propria dos scepticos e desabusados. Não. Usa antes a chalaça, a nossa boa chalaça amiga, gorducha, redonda, franca, sem biocos, nem véus, que se mette pela cara dos outros, estala com uma palmada, faz pular o sangue nas veias, e arrebentar de riso os suspensorios. Usa a chalaça. Que é isto?

--Meia noite.

--Meia noite? Entras nos teus vinte e dois annos, meu peralta; estás definitivamente maior. Vamos dormir, que é tarde. Rumina bem o que te disse, meu filho. Guardadas as proporções, a conversa d'esta noite vale o_ Principe_ de Machiavelli. Vamos dormir.

FIM DA THEORIA DO MEDALHÃO

A CHINELA TURCA[1]

Vede o bacharel Duarte. Acaba de compor o mais teso e correcto laço de gravata que appareceu naquelle anno de 1850, e annunciam-lhe a visita do major Lopo Alves. Notai que é de noite, e passa de nove horas. Duarte estremeceu e tinha duas razões para isso. A primeira era ser o major, em qualquer occasião, um dos mais enfadonhos sujeitos do tempo. A segunda é que elle preparava-se justamente para ir ver, em um baile, os mais finos cabellos louros e os mais pensativos olhos azues, que este nosso clima, tão avaro delles, produzira. Datava de uma semana aquelle namoro. Seu coração, deixando-se prender entre duas valsas, confiou aos olhos, que eram castanhos, uma declaração em regra, que elles pontualmente transmittiram á moça, dez minutos antes da ceia, recebendo favoravel resposta logo depois do chocolate. Tres dias depois, estava a caminho a primeira carta, e pelo geito que levavam as cousas não era de admirar que, antes do fim do anno, estivessem ambos a caminho da egreja. Nestas circumstancias, a chegada de Lopo Alves era uma verdadeira calamidade. Velho amigo da familia, companheiro de seu finado pae no exercito, tinha jus o major a todos os respeitos. Impossivel despedil-o ou tratal-o com frieza. Havia felizmente uma circumstancia attenuante; o major era aparentado com Cecilia, a moça dos olhos azues; em caso de necessidade, era um voto seguro.

Duarte enfiou um chambre e dirigiu-se para a sala, onde Lopo Alves, com um rolo debaixo do braço e os olhos fitos no ar, parecia totalmente alheio á chegada do bacharel.

--Que bom vento o trouxe a Catumby a semelhante hora? perguntou Duarte, dando á voz uma expressão de prazer, aconselhada não menos pelo interesse que pelo bom tom.

--Não** sei se o vento que me trouxe é bom ou mau, respondeu o major sorrindo por baixo do espesso bigode grisalho; sei que foi um vento rijo. Vai sahir?

--Vou ao Rio Comprido.

--Já sei; vae á casa da viuva Menezes. Minha mulher e as pequenas já lá devem estar: eu irei mais tarde, se puder. Creio que é cedo, não?

Lopo Alves tirou o relogio e viu que eram nove horas e meia. Passou a mão pelo bigode, levantou-se, deu alguns passos na sala, tornou a sentar-se e disse:

--Dou-lhe uma noticia, que certamente não espera. Saiba que fiz... fiz um drama.

--Um drama! exclamou o bacharel.

--Que quer? Desde creança padeci destes achaques litterarios. O serviço militar não foi remedio que me curasse, foi um palliativo. A doença regressou com a força dos primeiros tempos. Já agora não ha remedio se não deixal-a, e ir simplesmente ajudando a natureza.

Duarte recordou-se de que effectivamente o major fallava n'outro tempo de alguns discursos inauguraes, duas ou tres nenias e boa somma de artigos que escrevera ácerca das campanhas do Rio da Prata. Havia porém muitos annos que Lopo Alves deixára em paz os generaes platinos e os defuntos; nada fazia suppôr que a molestia volvesse, sobre tudo caracterisada por um drama. Esta circumstancia explical-a-hia o bacharel, se soubesse que Lopo Alves algumas semanas antes, assistira á representação de uma peça do genero ultra-romantico, obra que lhe agradou muito e lhe suggeriu a idéa de affrontar as luzes do tablado. Não entrou o major nestas minuciosidades necessarias, e o bacharel ficou sem conhecer o motivo da explosão dramatica do militar. Nem o soube, nem curou disso. Encareceu muito as faculdades mentaes do major, manifestou calorosamente a ambição que nutria de o ver sahir triumpliante naquella estréa, prometteu que o recommendaria a alguns amigos que tinha no _Correio Mercantil_, e só estacou e empallideceu quando viu o major, tremulo de bem-aventurança, abrir o rolo que trazia comsigo.

--Agradeço-lhe as suas boas intenções, disse Lopo Alves, e acceito o obsequio que me promette; antes delle, porém, desejo outro. Sei que é intelligente e lido; ha de me dizer francamente o que pensa deste trabalho. Não lhe peço elogios, exijo franqueza e franqueza rude. Se achar que não é bom, diga-o sem rebuço.

Duarte procurou desviar aquelle calix de amargura; mas era difficil pedil-o, e impossivel alcançal-o. Consultou melancholicamente o relogio, que marcava nove horas e cincoenta e cinco minutos, emquanto o major folheava paternalmente as cento e oitenta folhas do manuscripto.

--Isto vai depressa, disse Lopo Alves; eu sei o que são rapazes e o que são bailes. Descanse que ainda hoje dansará duas ou tres valsas com _ella_, se a tem, ou com ellas. Não acha melhor irmos para o seu gabinete?

Era indifferente, para o bacharel, o lugar do supplicio; accedeu ao desejo do hospede. Este, com a liberdade que lhe davam as relações, disse ao moleque que não deixasse entrar ninguem. O algoz não queria testemunhas. A porta do gabinete fechou-se; Lopo Alves tomou logar ao pé da mesa, tendo em frente o bacharel, que mergulhou o corpo e o desespero n'uma vasta poltrona de marroquim, resoluto a não dizer palavra para ir mais depressa ao termo.

O drama dividia-se em sete quadros. Esta indicação produziu um calafrio no ouvinte. Nada havia de novo naquellas cento e oitenta paginas, senão a lettra do autor. O mais eram os lances, os caracteres, as _ficelles_ e até o estylo dos mais acabados typos do romantismo desgrenhado. Lopo Alves cuidava pôr por obra uma invenção, quando não fazia mais do que alinhavar as suas reminiscencias. N'outra occasião, a obra seria um bom passatempo. Havia logo no primeiro quadro, especie de prologo, uma creança roubada á familia, um envenenamento, dous embuçados, a ponta de um punhal e quantidade de adjectivos não menos afiados que o punhal. No segundo, quadro dava-se conta da morte de um dos embuçados, que devia ressuscitar no terceiro, para ser preso no quinto, e matar o tyranno do septimo. Além da morte apparente do embuçado, havia no segundo quadro o rapto da menina, já então moça de desesete annos, um monologo que parecia durar igual praso, e o roubo de um testamento.

Eram quasi onze horas quando acabou a leitura deste segundo quadro. Duarte mal podia conter a colera; era já impossivel ir ao Rio Comprido. Não é fóra de proposito conjecturar que, se o major expirasse naquelle momento, Duarte agradecia a morte como um beneficio da Providencia. Os sentimentos do bacharel não faziam crer tamanha ferocidade; mas a leitura de um máu livro é capaz de produzir phenomenos ainda mais espantosos. Accresce que, emquanto aos olhos carnaes do bacharel apparecia em toda a sua espessura a grenha de Lopo Alves, fulgiam-lhe ao espirito os fios de ouro que ornavam a formosa cabeça de Cecilia; via-a com os olhos azues, a tez branca e rosada, o gesto delicado e gracioso, dominando todas as demais damas que deviam estar no salão da viuva Menezes. Via aquillo, e ouvia mentalmente a musica, a palestra, o sôar dos passos, e o ruge-ruge das sedas; emquanto a voz rouquenha e sensaborona de Lopo Alves ia desfiando os quadros e os dialogos, com a impassibilidade de uma grande convicção.

Voava o tempo, e o ouvinte já não sabia a conta dos quadros. Meia noite soára desde muito; o baile estava perdido. De repente, viu Duarte que o major enrolava outra vez o manuscripto, erguia-se, impertigava-se, cravava nelle uns olhos odientos e máus, e saia arrebatadamente do gabinete. Duarte quiz chamal-o, mas o pasmo tolhera-lhe a voz e os movimentos. Quando pôde dominar-se, ouviu o bater do tacão rijo e colerico do dramaturgo na pedra da calçada. Foi á janella; nada viu nem ouviu; autor e drama tinham desapparecido.

--Porque não fez elle isso ha mais tempo? disse o rapaz suspirando.

O suspiro mal teve tempo de abrir as azas e sair pela janella fóra, em demanda do Rio Comprido, quando o moleque do bacharel veiu annunciar-lhe a visita de um homem baixo e gordo.

--A esta hora! exclamou Duarte.

--A esta hora, repetiu o homem baixo e gordo, entrando na sala. A esta ou a qualquer hora, póde a policia entrar na casa do cidadão, uma vez que se trata de um delicto grave.

--Um delicto!

--Creio que me conhece...

--Não tenho essa honra.

--Sou empregado na policia.

--Mas que tenho eu com o senhor? de que delicto se trata?

--Pouca cousa: um furto. O senhor é accusado de haver subtrahido uma chinela turca. Apparentemente não vale nada ou vale pouco a tal chinela. Mas ha chinela e chinela. Tudo depende das circumstancias.

O homem disse isto com um riso sarcastico, e cravando no bacharel uns olhos de inquisidor. Duarte não sabia sequer da existencia do objecto roubado. Concluiu que havia equivoco de nome, e não se zangou com a injuria irrogada á sua pessoa, e de algum modo á sua classe, attribuindo-se-lhe a ratonice. Isto mesmo disse ao empregado da policia, accrescentando que não era motivo, em todo caso, para incommodal-o a semelhante hora.

--Hade perdoar-me, disse o representante da autoridade. A chinela de que se trata vale algumas dezenas de contos de réis; é ornada de finissimos diamantes, que a tornam singularmente preciosa. Não é turca só pela forma, mas tambem pela origem. A dona, que é uma de nossas patricias mais viajeiras, esteve, ha cerca de tres annos no Egypto, onde a comprou a um judeu. A historia, que este alumno de Moysés referiu ácerca daquelle producto da industria musulmana, é verdadeiramente miraculosa, e, no meu sentir, perfeitamente mentirosa. Mas não vem ao caso dizel-a. O que importa saber é que ella foi roubada e que a policia tem denuncia contra o senhor.

Neste ponto do discurso, chegára-se o homem á janella; Duarte suspeitou que fosse um doudo ou um ladrão. Não teve tempo de examinar a suspeita, porque dentro de alguns segundos, viu entrar cinco homens armados, que lhe lançaram as mãos e o levaram, escada abaixo, sem embargo dos gritos que soltava e dos movimentos desesperados que fazia. Na rua havia um carro, onde o metteram á força. Já lá estava o homem baixo e gordo, e mais um sujeito alto e magro, que o receberam e fizeram sentar no fundo do carro. Ouviu-se estalar o chicote do cocheiro e o carro partiu á desfilada.

--Ah! ah! disse o homem gordo. Com que então pensava que podia impunemente furtar chinelas turcas, namorar moças louras, casar talvez com ellas... e rir ainda por cima do genero humano.

Ouvindo aquella allusão á dama dos seus pensamentos, Duarte teve um calafrio. Tratava-se, ao que parecia, de algum desforço de rival supplantado. Ou a allusao seria casual e extranha á aventura? Duarte perdeu-se n'um cipoal de conjecturas, em quanto o carro ia sempre andando a todo galope. No fim de algum tempo, arriscou uma observação.

--Quaesquer que sejam os meus crimes, supponho que a policia...

--Nós não somos da policia, interrompeu friamente o homem magro.

--Ah!

--Este cavalheiro e eu fazemos um par. Elle, o senhor e eu faremos um terno. Ora, terno não é melhor que par; não é, não póde ser. Um casal é o ideal. Provavelmente não me entendeu?

--Não, senhor.

--Ha de entender logo mais.

Duarte resignou-se á espera, enfronhou-se no silencio, derreou o corpo, e deixou correr o carro e a aventura. Obra de cinco minutos depois estacavam os cavallos.

--Chegámos, disse o homem gordo.

Dizendo isto, tirou um lenço da algibeira e offereceu-o ao bacharel para que tapasse os olhos. Duarte recusou, mas o homem magro observou-lhe que era mais prudente obedecer que resistir. Não resistiu o bacharel; atou o lenço e apeou-se. Ouviu, d'ahi a pouco, ranger uma porta; duas pessoas,--provavelmente as mesmas que o acompanharam no carro,--seguraram-lhe as mãos e o conduziram por uma infinidade de corredores e escadas. Andando, ouvia o bacharel algumas vozes desconhecidas, palavras soltas, phrases truncadas. Afinal pararam; disseram-lhe que se sentasse e destapasse os olhos. Duarte obedeceu; mas ao desvendar-se, não viu ninguem mais.

Era uma sala vasta, assaz illuminada, trastejada com elegancia e opulencia. Era talvez sobre posse a variedade dos adornos; comtudo, a pessoa que os escolhera devia ter gosto apurado. Os bronzes, charões, tapetes, espelhos,--a copia infinita de objectos que enchiam a sala, era tudo da melhor fabrica. A vista daquillo restituiu a serenidade de animo ao bacharel; não era provavel que alli morassem ladrões.

Reclinou-se o moço indolentemente na ottomana... Na ottomana! esta circumstancia trouxe á memoria do rapaz o principio da aventura e o roubo da chinela. Alguns minutos de reflexão bastaram para ver que a tal chinela era já agora mais que problematica. Cavando mais fundo no terreno das conjecturas, pareceu-lhe achar uma explicação nova e definitiva. A chinela vinha a ser pura metaphora; tratava-se do coração de Cecilia, que elle roubára, delicto de que o queria punir o já imaginado rival. A isto deviam ligar-se naturalmente as palavras mysteriosas do homem magro: o par é melhor que o terno; um casal é o ideal.

--Ha de ser isso, concluiu Duarte; mas quem será esse pretendente derrotado?

Neste momento abriu-se uma porta do fundo da sala e negrejou a batina de um padre alvo e calvo. Duarte levantou-se, como por effeito de uma mola. O padre atravessou lentamente a sala, ao passar por elle deitou-lhe a benção, e foi sair por outra porta rasgada na parede fronteira. O bacharel ficou sem movimento, a olhar para a porta, a olhar sem ver, estupido de todos os sentidos. O inesperado daquella apparição baralhou totalmente as ideias anteriores a respeito da aventura. Não teve tempo, entretanto, de cogitar alguma nova explicação, porque a primeira porta foi de novo aberta e entrou por ella outra figura, desta vez o homem magro, que foi direito a elle e o convidou a seguil-o. Duarte não oppoz resistencia. Sairam por uma terceira porta, e, atravessados alguns corredores mais ou menos alumiados, foram dar a outra sala, que só o era por duas velas postas em castiçaes de prata. Os castiçaes estavam sobre uma meza larga. Na cabeceira desta havia um homem velho que representava ter cincoenta e cinco annos; era uma figura athletica, farta de cabellos na cabeça e na cara.

--Conhece-me? perguntou o velho, logo que Duarte entrou na sala.

--Não, senhor.

--Nem é preciso. O que vamos fazer exclue absolutamente a necessidade de qualquer apresentação. Saberá em primeiro logar que o roubo da chinela foi um simples pretexto...

--Oh! de certo! interrompeu Duarte.

--Um simples pretexto, continuou o velho, para trazel-o a esta nossa casa. A chinela não foi roubada; nunca sahiu das mãos da dona. João Rufino, vá buscar a chinella.

O homem magro saiu, e o velho declarou ao bacharel que a famosa chinela não tinha nenhum diamante, nem fôra comprada a nenhum judeu do Egypto; era, porém, turca, segundo se lhe disse, e um milagre de pequenhez. Duarte ouviu as explicações, e, reunindo todas as forças, perguntou resolutamente:

--Mas, senhor, não me dirá de uma vez o que querem de mim e o que estou fazendo nesta casa?

--Vae sabel-o, respondeu tranquillamente o velho.

A porta abriu-se e appareceu o homem magro com a chinela na mão. Duarte, convidado a approximar-se da luz, teve occasião de verificar que a pequenez era realmente miraculosa. A chinela era de marroquim finissimo; no assento do pé, estufado e forrado de seda cor azul, rutilavam duas lettras bordadas a ouro.

--Chinela de creança, não lhe parece? disse o velho.

--Supponho que sim.

--Pois suppõe mal; é chinela de moça.

--Será; nada tenho com isso.

--Perdão! tem muito, porque vae casar com a dona.

--Casar! exclamou Duarte.

--Nada menos. João Rufino, vá buscar a dona da chinela.

Saiu o homem magro, e voltou logo depois. Assomando á porta, levantou o reposteiro e deu entrada a uma mulher, que caminhou para o centro da sala. Não era mulher, era uma sylphide, uma visão de poeta, uma creatura divina. Era loura; tinha os olhos azues, como os de Cecilia, extaticos, uns olhos que buscavam o céu ou pareciam viver delle. Os cabellos, deleixadamente penteados, faziam-lhe em volta da cabeça, um como resplendor de santa; santa sómente, não martyr, porque o sorriso que lhe desabrochava os labios, era um sorriso de bem-aventurança, como raras vezes hade ter tido a terra. Um vestido branco, de finissima cambraia, envolvia-lhe castamente o corpo, cujas fórmas aliás desenhava, pouco para os olhos, mais muito para a imaginação.

Um rapaz, como o bacharel, não perde o sentimento da elegancia, ainda em lances daquelles. Duarte, ao ver a moça, compoz o chambre, apalpou a gravata e fez uma ceremoniosa cortezia, a que ella correspondeu com tamanha gentileza e graça, que a aventura começou a parecer muito menos atterradora.

--Meu caro doutor, esta é a noiva.

A moça abaixou os olhos; Duarte respondeu que não tinha vontade de casar.

--Tres cousas vae o senhor fazer agora mesmo, continuou impassivelmente o velho: a primeira, é casar; a segunda, escrever o seu testamento; a terceira engolir certa droga do Levante...

--Veneno! interrompeu Duarte.

--Vulgarmente é esse o nome; eu dou-lhe outro: passaporte do céu.

Duarte estava pallido e frio. Quiz fallar, não pôde; um gemido, sequer, não lhe saiu do peito. Rolaria ao chão, se não houvesse alli perto uma cadeira em que se deixou cair.

--O senhor, continuou o velho, tem uma fortunasinha de cento e cincoenta contos. Esta perola será a sua herdeira universal. João Rufino, vá buscar o padre.

O padre entrou, o mesmo padre calvo que abençoara o bacharel pouco antes; entrou e foi direito ao moço, ingrolando somnolentamente um trecho de Nehemias ou qualquer outro proplieta menor; travou-lhe da mão e disse:

--Levante-se!

--Não! não quero! não me casarei!

--E isto? disse da meza o velho apontando-lhe uma pistola.

--Mas então é um assassinato?

--É; a differença está no genero de morte: ou violenta com isto, ou suave com a droga. Escolha!

Duarte suava e tremia. Quiz levantar-se e não pôde. Os joelhos batiam um contra o outro. O padre chegou-se-lhe ao ouvido, e disse baixinho:

--Quer fugir?

--Oh! sim! exclamou, não com os labios, que podia ser ouvido, mas com os olhos em que poz toda a vida que lhe restava.

--Vê aquella janella? Está aberta; embaixo fica um jardim. Atire-se d'alli sem medo.

--Oh! padre! disse baixinho o bacharel.

--Não sou padre, sou tenente do exercito. Não diga nada.

A janella estava apenas cerrada; via-se pela fresta uma nesga do céu, já meio claro. Duarte não hesitou, colligiu todas as forças, deu um pulo do logar onde estava e atirou-se a Deus misericordia por alli abaixo. Não era grande altura, a quéda foi pequena; ergueu-se o moço rapidamente, mas o homem gordo, que estava no jardim, tomou-lhe o passo.

--Que é isso? perguntou elle rindo.

Duarte não respondeu, fechou os punhos, bateu com elles violentamente nos peitos do homem e deitou a correr pela jardim fóra. O homem não caiu; sentiu apenas um grande abalo; e, uma vez passada a impressão, seguiu no encalço do fugitivo. Começou então uma carreira vertiginosa. Duarte ia saltando cercas e muros, calcando canteiros, esbarrando arvores, que uma ou outra vez se lhe erguiam na frente. Escorria-lhe o suor em bica, alteava-se-lhe o peito, as forças iam a perder-se pouco a pouco; tinha uma das mãos ferida, a camisa salpicada do orvalho das folhas, duas vezes esteve a ponto de ser apanhado, o chambre pegara-se-lhe em uma cerca de espinhos. Emfim, cançado, ferido, offegante, caiu nos degraos de pedra de uma casa, que havia no meio do ultimo jardim que atravessára. Olhou para traz; não viu ninguem; o perseguidor não o acompanhara até alli. Podia vir, entretanto; Duarte ergueu-se a custo, subiu os quatro degráos que lhe faltavam, e entrou na casa, cuja porta, aberta, dava para uma sala pequena e baixa.

Um homem que alli estava, lendo um numero do _Jornal do Commercio_, pareceu não o ter visto entrar. Duarte cahiu n'uma cadeira. Fitou os olhos no homem. Era o major Lopo Alves. O major, empunhando a folha, cujas dimensões iam-se tornando extremamente exiguas, exclamou repentinamente:

--Anjo do ceu, estás vingado! Fim do ultimo quadro.

Duarte olhou para elle, para a mesa, para as paredes, esfregou os olhos, respirou á larga.

--Então! Que tal lhe pareceu?

--Ah! excellente! respondeu o bacharel, levantando-se.

--Paixões fortes, não?

--Fortissimas. Que horas são?

--Deram duas agora mesmo.

Duarte acompanhou o major até a porta, respirou que muitas vezes, apalpou-se, foi até á janella. Ignora-se o que pensou durante os primeiros minutos; mas, ao cabo de um quarto de hora, eis o que elle dizia consigo:--Nympha, doce amiga, fantasia inquieta e fertil, tu me salvaste de uma ruim peça com um sonho original, substituiste-me o tedio por um pesadelo: foi um bom negocio. Um bom negocio e uma grave licção: provaste-me que muitas vezes o melhor drama está no espectador e não no palco.

[1]Este conto foi publicado, pela primeira vez, na _Epocha_, n. 1, de 14 de Novembro de 1875. Trazia o pseudonymo de _Manassés_, com que assignei outros artigos daquella folha ephemera. O redactor principal era um espirito eminente, que a politica veiu tomar ás lettras: Joaquim Nabuco. Posso dizel-o sem indiscrição. Eramos poucos e amigos. O programma era não ter programma, como declarou o artigo inicial, ficando a cada redactor plena liberdade de opinião, pela qual respondia exclusivamente. O tom (feita a natural reserva da parte de um collaborador) era elegante, litterario, attico. A folha durou quatro numeros.

FIM DA CHINELA TURCA

NA ARCA

TRES CAPITULOS INEDITOS DO GENESIS

CAPITULO A