Papeis Avulsos

Part 5

Chapter 53,756 wordsPublic domain

Outro doente, tambem modesto, oppoz a mesma rebeldia á medicação; mas não sendo escriptor, (mal sabia assignar o nome) não se lhe podia applicar o remedio da matraca. Simão Bacamarte lembrou-se de pedir para elle o lugar de secretario de Academia dos Encobertos estabelecida em Itaguahy. Os logares de presidente e secretarios eram de nomeação regia, por especial graça do finado rei D. João V, e implicavam o tratamento de Excellencia e o uso de uma placa de ouro no chapéu. O governo de Lisboa recusou o diploma; mas representando o alienista que o não pedia como premio honorifico ou distincção legitima, e sómente como um meio therapeutico para um caso difficil, o governo cedeu excepcionalmente á supplica; e ainda assim não o fez sem extraordinario esforço do ministro de marinha e ultramar, que vinha a ser primo do alienado. Foi outro santo remedio.

--Realmente, é admiravel! dizia-se nas ruas, ao ver a expressão sadia e enfunada dos dois ex-dementes.

Tal era o systema. Imagina-se o resto. Cada belleza moral ou mental era atacada no ponto em que a perfeição parecia mais solida; e o effeito era certo. Nem sempre era certo. Casos houve em que a qualidade predominante resistia a tudo; então, o alienista atacava outra parte, applicando á therapeutica o methodo da estrategia militar, que toma uma fortaleza por um ponto, se por outro o não póde conseguir.

No fim de cinco mezes e meio estava vazia a Casa Verde; todos curados! O vereador Galvão tão cruelmente affligido de moderação e equidade, teve a felicidade de perder um tio; digo felicidade, porque o tio deixou um testamento ambiguo, e elle obteve uma boa interpretação, corrompendo os juizes, e embaçando os outros herdeiros. A sinceridade do alienista manifestou-se nesse lance; confessou ingenuamente que não teve parte na cura: foi a simples _vis medicatrix_ da natureza. Não aconteceu o mesmo com o padre Lopes. Sabendo o alienista que elle ignorava perfeitamente o hebraico e o grego, incumbiu-o de fazer uma analyse critica da versão dos Setenta; o padre aceitou a incumbencia, e em boa hora o fez; ao cabo de dous mezes possuia um livro e a liberdade. Quanto á senhora do boticario, não ficou muito tempo na cellula que lhe coube, e onde aliás lhe não faltaram carinhos.

--Porque é que o Crispim não vem visitar-me? dizia ella todos os dias.

Respondiam-lhe** ora uma cousa, ora outra; afinal disseram-lhe a verdade inteira. A digna matrona, não pôde conter a indignação e a vergonha. Nas explosões da colera escaparam-lhe** expressões soltas e vagas, como estas:

--Tratante!... velhaco!... ingrato!... Um patife que tem feito casas á custa de unguentos falsificados e pôdres... Ah! tratante!...

Simão Bacamarte advertiu que, ainda quando não fosse verdadeira a accusação contida nestas palavras, bastavam ellas para mostrar que a excellente senhora estava emfim restituida ao perfeito desequilibrio das faculdades; e promptamente lhe deu alta.

Agora, se imaginaes que o alienista ficou radiante ao ver sair o ultimo hospede da Casa Verde, mostraes com isso que ainda não conheceis o nosso homem. _Plus ultra!_ era a sua divisa. Não lhe bastava ter descoberto a theoria verdadeira da loucura; não o contentava ter estabelecido em Itaguahy o reinado da razão. _Plus ultra!_ Não ficou alegre, ficou preoccupado, cogitativo; alguma cousa lhe dizia que a theoria nova tinha, em si mesma, outra e novissima theoria.

--Vejamos, pensava elle; vejamos se chego enfim á ultima verdade.

Dizia isto, passeando ao longo da vasta sala, onde fulgurava a mais rica bibliotheca dos dominios ultramarinos de Sua Magestade. Um amplo chambre de damasco, preso á cintura por um cordão de seda, com borlas de ouro (presente de uma Universidade) envolvia o corpo magestoso e austero do illustre alienista. A cabelleira cobria-lhe uma extensa e nobre calva adquirida nas cogitações quotidianas da sciencia. Os pés, não delgados e femininos, não graudos e mariolas, mas proporcionados ao vulto, eram resguardados por um par de sapatos cujas fivelas não passavam de simples e modesto latão. Vede a differença:--só se lhe notava luxo naquillo que era de origem scientifica; o que propriamente vinha delle trazia a côr da moderação e da singelleza, virtudes tão ajustadas á pessôa de um sabio.

Era assim que elle ia, o grande alienista, de um cabo a outro da vasta bibliotheca, mettido em si mesmo, estranho a todas as cousas que não fosse o tenebroso problema da pathologia cerebral. Subito, parou. Em pé, deante de uma janella, com o cotovello esquerdo apoiado na mão direita, aberta, e o queixo na mão esquerda, fechada, perguntou elle a si:

--Mas deveras estariam elles doudos, e foram curados por mim,--ou o que pareceu cura, não foi mais do que a descoberta do perfeito desequilibrio do cerebro?

E cavando por ahi abaixo, eis o resultado a que chegou: os cerebros bem organisados que elle acabava de curar, eram tão desequilibrados como os outros. Sim, dizia elle comsigo, eu não posso ter a pretenção de haver-lhes incutido um sentimento ou uma faculdade nova;uma e outra cousa existiam no estado latente, mas existiam.

Chegado a esta conclusão, o illustre alienista teve duas sensações contrarias, uma de gozo, outra de abatimento. A de gozo foi por vêr que, ao cabo de longas e pacientes investigações, constantes trabalhos, lucta ingente com o povo, podia affirmar esta verdade:--não havia loucos em Itaguahy; Itaguahy não possuia um só mentecapto. Mas tão depressa esta idéa lhe refrescara a alma, outra appareceu que neutralisou o primeiro effeito; foi a idéa da duvida. Pois que! Itaguahy não possuiria um unico cerebro concertado? Esta conclusão tão absoluta, não seria por isso mesmo erronea, e não vinha, portanto, destruir o largo e magestoso edificio da nova doutrina psychologica?

A afflicção do egregio Simão Bacamarte é definida pelos chronistas itaguahyenses como uma das mais medonhas tempestades moraes que tem desabado sobre o homem. Mas as tempestades só atterram os fracos; os fortes enrijam-se contra ellas e fitam o trovão. Vinte minutos depois allumiou-se a physionomia do alienista de uma suave claridade.

--Sim, ha de ser isso, pensou elle.

Isso é isto. Simão Bacamarte achou em si os caracteristicos do perfeito equilibrio mental e moral; pareceu-lhe que possuia a sagacidade, a paciencia, a perseverança, a tolerancia, a veracidade, o vigor moral, a lealdade, todas as qualidades emfim que pódem formar um acabado mentecapto. Duvidou logo, é certo, e chegou mesmo a concluir que era illusão; mas sendo homem prudente, resolveu convocar um conselho de amigos, a quem interrogou com franqueza. A opinião foi affirmativa.

--Nenhum defeito?

--Nenhum, disse em côro a assembléa.

--Nenhum vicio?

--Nada.

--Tudo perfeito?

--Tudo.

--Não, impossivel, bradou o alienista. Digo que não sinto em mim essa superioridade que acabo de ver definir com tanta magnificencia. A sympathia é que vos faz fallar. Estudo-me e nada acho que justifique os excessos da vossa bondade.

A assembléa insistiu; o alienista resistiu; finalmente o padre Lopes explicou tudo com este conceito digno de um observador.

--Sabe a razão porque não vê as suas elevadas qualidades, que aliás todos nós admiramos? É porque tem ainda uma qualidade que realça as outras:--a modestia.

Era decisivo. Simão Bacamarte curvou a cabeça, juntamente alegre e triste, e ainda mais alegre do que triste. Acto continuo, recolheu-se á Casa Verde. Em vão a mulher e os amigos lhe disseram que ficasse, que estava perfeitamente são e equilibrado: nem rogos nem suggestões nem lagrimas o detiveram um só instante. A questão é scientifica, dizia elle; trata-se de uma doutrina nova, cujo primeiro exemplo sou eu. Reuno em mim mesmo a theoria e a pratica.

--Simão! Simão! meu amor! dizia-lhe a esposa com o rosto lavado em lagrimas.

Mas o illustre medico, com os olhos accesos da convicção scientifica, trancou os ouvidos á saudade da mulher, e brandamente a repelliu. Fechada a porta da Casa Verde, entregou-se ao estudo e á cura de si mesmo. Dizem os chronistas que elle morreu dalli a dezesete mezes, no mesmo estado em que entrou, sem ter podido alcançar nada. Alguns chegam ao ponto de conjecturar que nunca houve outro louco, além delle, em ltaguahy; mas esta opinião, fundada em um boato que correu desde que o alienista expirou, não tem outra prova, senão o boato; e boato duvidoso, pois é attribuido ao padre Lopes, que com tanto fogo realçara as qualidades do grande homem. Seja como fôr, effectuou-se o enterro com muita pompa e rara solemnidade.

THEORIA DO MEDALHÃO

DIALOGO

--Estás com somno?

--Não, senhor.

--Nem eu; conversemos um pouco. Abre a janella. Que horas são?

--Onze.

--Sahiu o ultimo conviva do nosso modesto jantar. Com que, meu peralta, chegaste aos teus vinte e um annos. Ha vinte e um annos, no dia 5 de agosto de 1854, vinhas tu á luz, um pirralho de nada, e estás homem, longos bigodes, alguns namoros...

--Papai...

--Não te ponhas com denguices, e fallemos como dous amigos sérios. Fecha aquella porta; vou dizer-te cousas importantes. Senta-te e conversemos. Vinte e um annos, algumas apolices, urn diploma, pódes entrar no parlamento, na magistratura, na imprensa, na lavoura, na industria, no commercio, nas lettras ou nas artes. Ha infinitas carreiras diante de ti, Vinte e um annos, meu rapaz, formam apenas a primeira syllaba do nosso destino. Os mesmos Pitt e Napoleão, apezar de precoces, não foram tudo aos vinte e um annos. Mas, qualquer que seja a profissão da tua escolha, o meu desejo é que te faças grande e illustre, ou pelo menos notavel, que te levantes acima da obscuridade commum. A vida, Janjão, é uma enorme loteria; os premios são poucos, os mallogrados innumeros, e com os suspiros de uma geração é que se amassam as esperanças de outra. Isto é a vida; não ha planger, nem imprecar, mas aceitar as cousas integralmente, com seus onus e precalços, glorias e desdouros, e ir por diante.

--Sim, senhor.

--Entretanto, assim como é de boa economia guardar um pão para a velhice, assim tambem é de boa pratica social acautellar um officio para a hypothese de que os outros falhem, on não indemnisem sufificientemente o esforço da nossa ambição. É isto o que te aconselho hoje, dia da tua maioridade.

--Creia que lhe agradeço; mas que officio, não me dirá?

--Nenhum me parece mais util e cabido que o de medalhão. Ser medalhão foi o sonho da minha mocidade; faltaram-me, porém as instrucções de um pai, e acabo como vês, sem outra consolação e relevo moral, alem das esperanças que deposito em ti. Ouve-me bem, meu querido filho, ouve-me e entende. És moço, tens naturalmente o ardor, a exhuberancia, os improvisos da idade; não os rejeites, mas modera-os de modo que aos quarenta e cinco annos possas entrar francamente no regimen do aprumo e do compasso. O sabio que disse: «a gravidade é um mysterio do corpo», definiu a compostura do medalhão. Não confundas essa gravidade com aquella outra que, embora resida no aspecto, é um puro reflexo ou emanação do espirito; essa é do corpo, tão sómente do corpo, um signal da natureza ou uin geito da vida. Quanto á edade de quarenta e cinco annos...

--É verdade, porque quarenta e cinco annos?

--Não é, como podes suppôr, ura limite arbitrario, filho do puro capricho; é a data normal do phenomeno. Geralmente, o verdadeiro medalhão começa a manifestar-se entre os quarenta o cinco e cincoenta annos, comquanto alguns exemplos se dêm eutre os cincoenta e cinco e os sessenta; mas estes são raros. Ha-os tambem de quarenta annos, e outros mais precoces, de trinta e cinco e de trinta; não são, todavia, vulgares. Não fallo dos de vinte e cinco annos: esse madrugar é privilegio do genio.

--Entendo.

--Venhamos ao principal. Uma vez entrado na carreira, deves pôr todo o cuidado nas idéas que houveres de nutrir para uso alheio e proprio. O melhor será não as ter absolutamente; cousa que entenderás bem, imaginando, por exemplo, um actor defraudado do uso de um braço. Elle pode, por um milagre de artificio, dissimular o defeito aos olhos da platéa; mas era muito melhor dispor dos dous. O mesmo se dá com as idéas; póde-se, com violencia, abafal-as, escondel-as até á morte; mas nem essa habilidade é commum, nem tão constante esforço conviria ao exercicio da vida.

--Mas quem lhe diz que eu....

--Tu, meu filho, se me não engano, pareces dotado da perfeita inopia mental, conveniente ao uso deste nobre officio. Não me refiro tanto á fidelidade com que repetes numa sala as opiniões ouvidas n'uma esquina, e vice-versa, porque esse facto, posto indique certa carencia de idéas, ainda assim póde não passar de uma traição da memoria. Não; refiro-me ao gesto correcto e perfilado com que usas expender francamente as tuas sympathias ou antipathias ácerca do córte de um collete, das dimensões de um chapéu, do ranger ou calar das botas novas. Eis ahi um symptoma eloquente, eis ahi uma esperança. No entanto, podendo acontecer que, com a edade, venhas a ser affligido de algumas idéas proprias, urge apparelhar fortemente o espirito. As idéas são de sua natureza expontaneas e subitas; por mais que as sofremos, ellas irrompem e precipitam-se. Dahi a certeza com que o vulgo, cujo faro é extremamente delicado, distingue o medalhão completo do medalhão incompleto.

--Creio que assim seja; mas um tal obstaculo é invencivel.

--Não é; ha um meio; é lançar mão de um regimen debilitante, ler compendios de rhetorica, ouvir certos discursos, etc. O voltarete, o dominó e o whist são remedios approvados. O whist tem até a rara vantagem de acostumar ao silencio, que é a fórma mais accentuada da circumpecção. Não digo o mesmo da natação, da equitação e da gymnastica, embora ellas façam repousar o cerebro; mas por isso mesmo que o fazem repousar, restituem-lhe as forças e a actividade perdidas. O bilhar é excellente.

--Como assim, se tambem é um exercicio corporal?

--Não digo que não, mas ha cousas em que a observação desmente a theoria. Se te aconselho excepcionalmente o bilhar é porque as estatisticas mais escrupulosas mostram que tres quartas partes dos habituados do taco partilham as opiniões do mesmo taco. O passeio nas ruas, mormente nas de recreio e parada é utilissimo, com a condição de não andares desacompanhado, porque a solidão é officina de idéas, e o espirito deixado a si mesmo, embora no meio da multidão, póde adquirir uma tal ou qual actividade.

--Mas se eu não tiver á mão um amigo apto e disposto a ir commigo?

--Não faz mal; tens o valente recurso de mesclar-te aos pasmatorios, em que toda a poeira da solidão se dissipa. As livrarias, ou por causa da atmosphera do logar, ou por qualquer outra razão que me escapa, não são propicias ao nosso fim; e, não obstante, ha grande conveniencia em entrar por ellas, de quando em quando, não digo ás occultas, mas ás escancaras. Pódes resolver a difficuldade de um modo simples: vai alli fallar do boato do dia, da anecdota da semana, de um contrabando, de uma calumnia, de um cometa, de qualquer cousa, quando não prefiras interrogar directamente os leitores habituaes das bellas chronicas de Mazade: 75 por cento desses estimaveis cavalheiros repetir-te-hão as mesmas opiniões, e uma tal monotonia é grandemente saudavel. Com este regimen, durante oito, dez, dezoito mezes--supponhamos dous annos,--reduzes o intellecto, por mais prodigo que seja, á sobriedade, á disciplina, ao equilibrio commum. Não trato do vocabulario, porque elle está sub-entendido no uso das idéas; ha de ser naturalmente simples, tibio, apoucado, sem notas vermelhas, sem cores de clarim...

--Isto é o diabo! Não poder adornar o estylo, de quando em quando....

--Podes; podes empregar umas quantas figuras expressivas, a hydra de Lerna, por exemplo, a cabeça de Meduza, o tonel das Danaides, as azas de Icaro, e outras, que romanticos, classicos e realistas empregam sem desar, quando precisam d'ellas. Sentenças latinas, ditos historicos, versos celebres, brocardos juridicos, maximas, é de bom aviso trazel-os comtigo para os discursos de sobremesa, do felicitação, ou de agradecimento. _Caveant, consules_ é um excellente fecho de artigo politico; o mesmo direi do _Si vis pacem para bellum._ Alguns costumam renovar o sabor de uma citação intercalando-a n'uma phrase nova, original e bella, mas não te aconselho esse artificio: seria desnaturar-lhe as graças vetustas. Melhor do que tudo isso, porem, que afinal não passa de mero adorno, são as phrases feitas, as locuções convencionaes, as formulas consagradas pelos annos, incrustadas na memoria individual e publica. Essas formulas têm a vantagem de não obrigar os outros a um esforço inutil. Não as relaciono agora, mas fal-o-hei por escripto. De resto, o mesmo officio te irá ensinando os elementos d'essa arte difficil de pensar o pensado. Quanto á utilidade de um tal systema, basta figurar uma hypothese. Faz-se uma lei, executa-se, não produz effeito, subsiste o mal. Eis ahi uma questão que póde aguçar as curiosidades vadias, dar ensejo a um inqurrito pedantesco, a uma collecta fastidiosa de documentos e observações, analyse das causas provaveis, causas certas, causas possiveis, um estudo infinito das aptidões do sujeito reformado, da natureza do mal, da manipulação do remedio, das circumstancias da applicação; materia, enfim, para todo nm andaime de palavras, conceitos, e desvarios. Tu poupas aos teus semelhantes todo esse immenso aranzel, tu dizes simplesmente: Antes das leis, reformemos os costumes!--E esta phrase synthetica, transparente, limpida, tirada ao peculio commum, resolve mais depressa o problema, entra pelos espiritos como um jorro subito de sol.

--Vejo por ahi que vosmecê condemna toda e qualquer applicação de processos modernos.

--Entendamo-nos. Condemno a applicação, louvo a denominação. O mesmo direi de toda a recente terminologia scientifica; deves decoral-a. Com quanto o rasgo peculiar do medalhão seja uma certa attitude de deus Termino, e as sciencias sejam obra do movimento humano, como tens de ser medalhão mais tarde, convém tomar as armas do teu tempo. E de duas uma:--ou ellas estarão usadas e divulgadas d'aqui a trinta annos, ou conservar-se-hão novas: no primeiro caso, pertencem-te de fôro proprio; no segundo, podes ter a coquetice de as trazer, para mostrar que tambem és pintor. De outiva, com o tempo, irás sabendo a que leis, casos e phenomenos responde toda essa terminologia; porque o methodo de interrogar os proprios mestres e officiaes da sciencia, nos seus livros, estudos e memorias, além de tedioso e cançativo, traz o perigo de inocular ideas novas, e é radicalmente falso. Accresce que no dia em que viesses a assenhoriar-te do espirito d'aquellas leis e formulas, serias provavelmente levado a empregal-as com um tal ou qual comedimento, como a costureira--esperta e afreguezada,--que, segundo um poeta, classico,

Quanto mais panno tem, mais poupa o córte, Menos monte alardea de retalhos;

e este phenomeno, tratando-se de um medalhão, é que não seria scientifico.

--Upa, que a profissão é difficil.

--E ainda não chegamos ao cabo.

--Vamos a elle.

--Não te fallei ainda dos beneficios da publicidade. A publicidade é uma dona loureira e senhoril, que tu deves requestar á força, de pequenos mimos, confeitos, almofadinhas, cousas miudas, que antes exprimem a constancia do affecto do que o atrevimento e a ambição. Que D. Quixote solicite os favores della mediante acções heroicas ou custosas, é um sestro proprio d'esse illustre lunatico. O verdadeiro medalhão tem outra politica. Longe de inventar um _Tratado scientifico da creação dos carneiros_, compra um carneiro e dá-o aos amigos sob a fórma de um jantar, cuja noticia não pode ser indifferente aos seus concidadãos. Uma noticia traz outra; cinco, dez, vinte vezes põe o teu nome ante os olhos do mundo. Commissões ou deputações para felicitar um agraciado, um benemerito, um forasteiro, tem singulares merecimentos, e assim as irmandades e associações diversas, sejam mythologicas, cynegeticas ou coreographicas. Os successos de certa ordem, embora de pouca monta, podem ser trazidas a lume, comtanto que ponham em relevo a tua pessoa. Explico-me. Se caires de um carro, sem outro damno, além do susto, é util mandal-o dizer aos quatro ventos, não pelo facto em si, que é insignificante, mas pelo effeito de recordar um nome caro ás affeições geraes. Percebeste?

--Percebi.

--Essa é publicidade constante, barata, facil, de todos os dias; mas ha outra. Qualquer que seja a theoria das artes, é fora de duvida que o sentimento da familia, a amisade pessoal e a estima publica instigam á reproducção das feições de um homem amado ou benemerito. Nada obsta a que sejas objecto de uma tal distincção, principalmente se a sagacidade dos amigos não achar em ti repugnancia. Em semelhante caso, não só as regras da mais vulgar polidez mandam aceitar o retrato ou o busto, como seria desasado impedir que os amigos o expuzessem em qualquer casa publica. Dessa maneira o nome fica ligado á pessoa; os que houverem lido o teu recente discurso (supponhamos) na sessão inaugural da União dos Cabellereiros, reconhecerão na compostura das feições o autor dessa obra grave, em que a «alavanca do progresso» e o «suor do trabalho», vencem as «fauces hiantes» da miseria. No caso de que uma commissão te leve á casa o retrato, deves agradecer-lhe o obsequio com um discurso cheio de gratidão e um copo d'agua: é uso antigo, razoavel e honesto. Convidarás então os melhores amigos, os parentes, e, se fôr possível, uma ou duas pessoas de representação. Mais. Se esse dia é um dia de gloria ou regosijo, não vejo que possas, decentemente, recusar um lugar á mesa aos _reporters_ dos jornaes. Em todo o caso, se as obrigações desses cidadãos os retiverem n'outra parte, podes ajudal-os de certa maneira, redigindo tu mesmo a noticia da festa; e, dado que por um tal ou qual escrupulo, aliás desculpavel, não queiras com a propria mão annexar ao teu nome os qualificativos dignos delle, incumbe a noticia a algum amigo ou parente.

--Digo-lhe que o que vosmecê me ensina não é nada facil.

--Nem eu te digo outra cousa. É difficil, como tempo, muito tempo, leva annos, paciencia, trabalho, e felizes os que chegam a entrar na terra promettida! Os que lá não penetram, engole-os a obscuridade. Mas os que triumpham! E tu triumpharás, crê-me. Verás cahir as muralhas de Jerichó ao som das trompas sagradas. Só então poderás dizer que estás fixado. Começa nesse dia a tua phase de ornamento indispensavel, de figura obrigada, de rotulo. Acabou-se a necessidade de farejar occasiões, commissões, irmandades; ellas virão ter contigo, com o seu ar pesadão e crú de substantivos desadjectivados, e tu serás o adjectivo dessas orações opacas, o _odorifero_ das flores, o _anilado_ dos _céus_, o _prestimoso_ dos cidadãos, o _noticioso_ e _succulento_ dos relatorios. E ser isso é o principal, porque o adjectivo é a alma do idioma, a sua porção idealista e metaphysica. O substantivo é a realidade nua e crua, é o naturalismo do vocabulario.

--E parece-lhe que todo esse officio é apenas um sobresalente para os _deficits_ da vida?

--De certo; não fica excluida nenhuma outra actividade.

--Nem politica?

--Nem politica. Toda a questão é não infringir as regras e obrigações capitaes. Podes pertencer a qualquer partido, liberal ou conservador, republicano ou ultramontano, com a clausula unica de não ligar nenhuma idéa especial a esses vocábulos, e reconhecer-lhe sómente a utilidade do _scibboleth_ biblico.

--Se for ao parlamento, posso occupar a tribuna?