Part 4
--Onze mortos e vinte e cinco feridos! repetiu duas ou trez vezes o alienista.
E em seguida declarou que o alvitre lhe não parecia bom, mas que elle ia catar algum outro, e dentro de poucos dias lhe daria resposta. E fez-lhe varias perguntas ácerca dos successos da vespera, ataque, defeza, adhesão dos dragões, resistencia da camara, etc., ao que o barbeiro ia respondendo com grande abundancia, insistindo principalmente no descredito em que a camara cahira. O barbeiro confessou que o novo governo não tinha ainda por si a confiança dos principaes da villa, mas o alienista podia fazer muito nesse ponto. O govemo, concluiu o barbeiro, folgaria se pudesse contar, não já com a sympathia, senão com a benevolencia do mais alto espirito de Itaguahy, e seguramente do reino. Mas nada disso alterava a nobre e austera physionomia daquelle grande homem, que ouvia calado, sem desvanecimento, nem modestia, mas impassivel como um deus de pedra.
--Onze mortos e vinte e cinco feridos, repetiu o alienista, depois de acompanhar o barbeiro ate á porta. Eis ahi dous lindos casos de doença cerebral. Os symptomas de duplicidade e descaramento deste barbeiro são positivos. Quanto á toleima dos que o acclamaram não é preciso outra prova além dos onze mortos e vinte e cinco feridos.--Dous lindos casos!
--Viva o illustre Porfirio! bradaram umas trinta pessoas que aguardavam o barbeiro á porta.
O alienista espiou pela janella, e ainda ouviu este resto de uma pequena falla do barbeiro ás trinta pessoas que o acclamavam.
--... porque eu vélo, podeis estar certos disso, eu vélo pela execução das vontades do povo. Confiai em mim; e tudo se fará pela melhor maneira. Só vos recommendo ordem. A ordem, meus amigos, é a base do governo...
--Viva o illustre Porfirio! bradaram as trinta vozes, agitando os chapéos.
--Dous lindos casos! murmurou o alienista.
X
A RESTAURAÇÃO
Dentro de cinco dias, o alienista metteu na Casa Verde cerca de cincoenta acclamadores do novo governo. O povo indignou-se. O governo, atarantado, não sabia reagir. João Pina, outro barbeiro, dizia abertamente nas ruas, que o Porfirio estava «vendido ao ouro de Simão Bacamarte,» phrase que congregou em torno de João Pina a gente mais resoluta da villa. Porfirio, vendo o antigo rival da navalha á testa da insurreição, comprehendeu que a sua perda era irremediavel, se não désse um grande golpe; expediu dous decretos, um abolindo a Casa Verde, outro desterrando o alienista. João Pina mostrou claramente, com grandes phrases, que o acto de Porfirio era um simples apparato, um engodo, em que o povo não devia crer. Duas horas depois cahia Porfirio ignominiosamente, e João Pina assumia a difficil tarefa do governo. Como achasse nas gavetas as minutas da proclamação, da exposição ao vice-rei e de outros actos inauguraes do governo anterior, deu-se pressa em os fazer copiar e expedir; accrescentam os chronistas, e aliás sub entende-se, que elle lhes mudou os nomes, e onde o outro barbeiro fallára de uma camara corrupta, fallou este de «um intruso eivado das más doutrinas francesas, e contrario aos sacrosantos interesses de Sua Magestade, etc.»
Nisto entrou na villa uma força mandada pelo vice-rei, e restabeleceu a ordem. O alienista exigiu desde logo a entrega do barbeiro Porfirio, e bem assim a de uns cincoenta e tantos individuos, que declarou mentecaptos; e não só lhe deram esses, como afiançaram entregar-lhe mais desenove sequazes do barbeiro, que convaleciam das feridas apanhadas na primeira rebellião.
Este ponto da crise de Itaguahy marca tambem o grau maximo da influencia de Simão Bacamarte. Tudo quanto quiz, deu-se-lhe; e uma das mais vivas provas do poder do illustre medico achamol-a na promptidão com que os vereadores, restituidos a seus logares, consentiram em que Sebastião Freitas tambem fosse recolhido ao hospicio. O alienista, sabendo da extraordinaria inconsistencia das opiniões desse vereador, entendeu que era um caso pathologico, e pediu-o. A mesma cousa aconteceu ao boticario. O alienista, desde que lhe fallaram da momentanea adhesão de Crispim Soares á rebellião dos Cangicas, comparou-a á approvação que sempre recebera delle, ainda na vespera, e mandou captural-o. Crispim Soares não negou o facto, mas explicou-o dizendo que cedera a um movimento de terror, ao ver a rebellião triumphante, e deu como prova a ausencia de nenhum outro acto seu, accrescentando que voltára logo á cama, doente. Simão Bacamarte não o contrariou; disse, porém, aos circumstantes que o terror tambem é pae da loucura, e que o caso de Crispim Soares lhe parecia dos mais caracterisados.
Mas a prova mais evidente da influencia de Simão Bacamarte foi a docilidade com que a camara lhe entregou o proprio presidente. Este digno magistrado tinha declarado em plena sessão, que não se contentava, para laval-o da affronta dos Cangicas, com menos de trinta almudes de sangue; palavra que chegou aos ouvidos do alienista por boca do secretario da camara, enthusiasmado de tamanha energia. Simão Bacamarte começou por metter o secretario na Casa Verde, e foi d'alli á camara, á qual declarou que o presidente estava padecendo da «demencia dos touros», um genero que elle pretendia estudar, com grande vantagem para os povos. A camara a principio hesitou, mas acabou cedendo.
Dahi em diante foi uma collecta desenfreada. Um homem não podia dar nascença ou curso á mais simples mentira do mundo, ainda daquellas que aproveitam ao inventor ou divulgador, que não fosse logo mettido na Casa Verde. Tudo era loucura. Os cultores de enigmas, os fabricantes de charadas, de anagrammas, os maldizentes, os curiosos da vida alheia, os que põem todo o seu cuidado na tafularia, um ou outro almotacé enfunado, ninguem escapava aos emissarios do alienista. Elle respeitava as namoradas e não poupava as namoradeiras, dizendo que as primeiras cediam a um impulso natural, e as segundas a um vicio. Se um homem era avaro ou prodigo ia do mesmo modo para a Casa Verde; dahi a allegação de que não havia regra para a completa sanidade mental. Alguns chronistas crêem que Simão Bacamarte, nem sempre procedia com lisura, e citam em abono da affirmação (que não sei se póde ser aceita) o facto de ter alcançado da camara uma postura autorisando o uso de um anel de prata no dedo pollegar da mão esquerda, a toda a pessoa que, sem outra prova documental ou tradiccional, declarasse ter nas veias duas ou tres onças de sangue godo. Dizem esses chronistas que o fim secreto da insinuação á camara foi enriquecer um ourives, amigo e compadre delle; mas, comquanto seja certo que o ourives viu prosperar o negocio depois da nova ordenação municipal, não o é menos que essa postura deu á Casa Verde uma multidão de inquilinos; pelo que, não se póde definir, sem temeridade, o verdadeiro fim do illustre medico. Quanto á razão determinativa da captura e aposentação na Casa Verde de todos quantos usaram do annel, é um dos pontos mais obscuros da historia de Itaguahy; a opinião mais verosimil é que elles foram recolhidos por andarem a gesticular, á tôa, nas ruas, em casa, na egreja. Ninguem ignora que os doudos gesticulam muito. Em todo caso é uma simples conjectura; de positivo nada ha.
--Onde é que este homem vae parar? diziam os principaes da terra. Ah! se nós tivessemos apoiado os Cangicas...
Um dia de manhã,--dia em que a camara devia dar um grande baile,--a villa inteira ficou abalada com a noticia de que a propria esposa do alienista fôra mettida na Casa Verde. Ninguem acreditou; devia ser invenção de algum gaiato. E não era: era a verdade pura. D. Evarista fôra recolhida ás duas horas da noite. O padre Lopes correu ao alienista e interrogou-o discretamente ácerca do facto.
--Já ha algum tempo que eu desconfiava, disse gravemente o marido. A modestia com que ella vivera em ambos os matrimonios não podia conciliar-se com o furor das sedas, velludos, rendas e pedras preciosas que manifestou, logo que voltou do Rio de Janeiro. Desde então comecei a observal-a. Suas conversas eram todas sobre esses objectos; se eu lhe fallava das antigas côrtes, inquiria logo da fórma dos vestidos das damas; se uma senhora a visitava, na minha ausencia, antes de me dizer o objecto da visita, descrevia-me o trajo, approvando umas cousas e censurando outras. Um dia, creio que Vossa Reverendissima hade lembrar-se, propôz-se a fazer annualmente um vestido para a imagem de Nossa Senhora da matriz. Tudo isto eram symptomas graves; esta noite, porém, declarou-se a total demencia. Tinha escolhido, preparado, enfeitado o vestuario que levaria ao baile da camara municipal; só hesitava entre um collar de granada e outro de saphyra. Ante-hontem perguntou-me qual delles levaria; respondi-lhe que um ou outro lhe ficava bem. Hontem repetiu a pergunta, ao almoço; pouco depois de jantar fui achal-a calada e pensativa.--Que tem? perguntei-lhe.--Queria levar o collar de granada, mas acho o de saphyra tão bonito!--Pois leve o de saphyra.--Ah! mas onde fica o de granada?--Emfim, passou a tarde sem novidade. Ceamos, e deitamo-nos. Alta noite, seria hora e meia, accordo e não a vejo; levanto-me, vou ao quarto de vestir, acho-a diante dos dous collares, ensaiando-os ao espelho, ora um, ora outro. Era evidente a demencia; recolhi-a logo.
O padre Lopes não se satisfez com a resposta, mas não objectou nada. O alienista, porém, percebeu e explicou-lhe que o caso de D. Evarista era de «mania sumptuaria,» não incuravel, e em todo caso digno de estudo.
--Conto pôl-a boa dentro de seis semanas, concluiu elle.
A abnegação do illustre medico deu-lhe grande realce. Conjecturas, invenções, desconfianças, tudo cahiu por terra, desde que elle não duvidou recolher á Casa Verde a propria mulher, a quem amava com todas as forças da alma. Ninguem mais tinha o direito de resistir-lhe,--menos ainda o de attribuir-lhe intuitos alheios á sciencia. Era um grande homem austero, Hippocrates forrado de Catão.
XI
O ASSOMBRO DE ITAGUAHY
E agora prepare-se o leitor para o mesmo assombro em que ficou a villa, ao saber um dia que os loucos da Casa Verde iam todos ser póstos na rua.
--Todos?
--Todos.
--É impossivel; alguns, sim, mas todos...
--Todos. Assim o disse elle no officio que mandou hoje de manhã á camara.
De facto, o alienista officiára á camara expondo:--1°, que verificára das estatisticas da villa e da Casa Verde, que quatro quintos da população estavam aposentados naquelle estabelecimento; 2°, que esta deslocação de população levára-o a examinar os fundamentos da sua theoria das molestias cerebraes, theoria que excluia do dominio da razão todos os casos em que o equilibrio das faculdades, não fosse perfeito e absoluto; 3°, que desse exame e do facto estatistico resultára para elle a convicção de que a verdadeira doutrina não era aquella, mas a opposta, e portanto que se devia admittir como normal e exemplar o desequilibrio das faculdades, e como hypotheses pathologicas todos os casos em que aquelle equilibrio fosse ininterrupto; 4°, que á vista disso, declarava á camara que ia dar liberdade aos reclusos da Casa Verde e agazalhar nella as pessoas que se achassem nas condições agora expostas; 5°, que tratando de descobrir a verdade scientifica, não se pouparia a esforços de toda a natureza, esperando da camara egual dedicação; 6°, que restituia á camara e aos particulares a somma do estipendio recebido para alojamento dos suppostos loucos, descontada a parte effectivamente gasta com a alimentação, roupa, etc.; o que a camara mandaria verificar nos livros e arcas da Casa Verde.
O assombro de Itaguahy for grande; não foi menor a alegria dos parentes e amigos dos reclusos. Jantares, dansas, luminarias, musicas, tudo houve para celebrar tão fausto acontecimento. Não descrevo as festas por não interessarem ao nosso proposito; mas foram esplendidas, tocantes e prolongadas.
E vão assim as cousas humanas! No meio do regosijo produzido pelo officio de Simão Bacamarte, ninguem advertia na phrase final do § 4°, uma phrase cheia de experiencias futuras.
XII
O FINAL DO** § 4°
Apagaram-se as luminarias, reconstituiram-se as familias, tudo parecia reposto uos antigos eixos. Reinava a ordem, a camara exercia outra vez o governo, sem nenhuma pressão externa; o proprio presidente e o vereador Freitas tornaram aos seus logares. O barbeiro Porfirio, ensinado pelos acontecimentos, tendo «provado tudo,» como o poeta disse de Napoleão, e mais alguma cousa, porque Napoleão não provou a Casa Verde, o barbeiro achou preferivel a gloria obscura da navalha e da tesoura ás calamidades brilhantes do poder; foi, é certo, processado; mas a população da villa implorou a clemencia de Sua Magestade; dahi o perdão. João Pina foi absolvido, attendendo-se a que elle derrocára um rebelde. Os chronistas pensam que deste facto é que nasceu o nosso adagio:--ladrão que furta a ladrão, tem cem annos de perdão;--adagio immoral, é verdade, mas grandemente util.
Não só findaram as queixas contra o alienista, mas até nenhum resentimento ficou dos actos que elle praticára; accrescendo que os reclusos da Casa Verde, desde que elle os declarara plenamente ajuizados, sentiram-se tomados de profundo reconhecimento e férvido enthusiasmo. Muitos entenderam que o alienista merecia uma especial manifestação, e deram-lhe um baile, ao qual se seguiram outros bailes e jantares. Dizem as chronicas que D. Evarista a principio tivera ideia de separar-se do consorte, mas a dôr de perder a companhia de tão grande homem venceu qualquer resentimento de amor-proprio, e o casal veiu a ser ainda mais feliz do que antes.
Não menos intima ficou a amizade do alienista e do boticario. Este concluiu do officio de Simão Bacamarte que a prudencia e a primeira das virtudes em tempos de revolução, e apreciou muito a magnanimidade do alienista que, ao dar-lhe a liberdade, ostendeu-lhe a mão de amigo velho.
--É um grande homem, disse elle á mulher, referindo aquella circumstancia.
Não é preciso fallar do albardeiro, do Costa, do Coelho, do Martim Brito e outros, especialmente nomeados neste escripto; basta dizer que puderam exercer livremente os seus habitos anteriores. O proprio Martim Brito, recluso por um discurso em que louvára emphaticamente D. Evarista, fez agora outro em honra do insigne medico--«cujo altissimo genio, elevando as azas muito acima do sol, deixou abaixo de si todos os demais espiritos da terra.»
--Agradeço as suas palavras, retorquiu-lhe o alienista, e ainda me não arrependo de o haver restituido á liberdade.
Entretanto, a camara, que respondera ao officio de Simão Bacamarte, com a resalva de que opportunamente estatuiria em relação ao final do § 4°, tratou emfim de legislar sobre elle. Foi adoptada, sem debate, uma postura autorisando o alienista a agazalhar na Casa Verde as pessoas qne se achassem no gozo do perfeito equilibrio das faculdades mentaes. E porque a experiencia da camara tivesse sido dolorosa, estabeleceu ella a clausula, de que a autorisação era provisoria, limitada a um anno, para o fim de ser experimentada a nova theoria psychologica, podendo a camara, antes mesmo daquelle prazo, mandar fechar a Casa Verde, se a isso fosse aconselhada por motivos de ordem publica. O vereador Freitas propôz tambem a declaração de que em nenhum caso fossem os vereadores recolhidos ao asylo dos alienados: clausula que foi aceita, votada o incluida na postura, apezar das reclamações do vereador Galvão. O argumento principal deste magistrado é que a camara, legislando sobre uma experiencia scientifica, não podia excluir as pessoas dos seus membros das consequencias da lei; a excepção era odiosa e ridicula. Mal proferira estas duras palavras, romperam os vereadores em altos brados contra a audacia e insensatez do collega; este, porém, ouviu-os e limitou-se a dizer que votava contra a excepção.
--A vereança, concluiu elle, não nos dá nenhum poder especial nem nos elimina do espirito humano.
Simão Bacamarte aceitou a postura com todas as restricções. Quanto á exclusão dos vereadores, declarou que teria profundo sentimento se fosse compellido a recolhel-os á Casa Verde; a clausula, porém, era a melhor prova de que elles não padeciam do perfeito equilibrio das faculdades mentaes. Não acontecia o mesmo ao vereador Galvão, cujo acerto na objecção feita, e cuja moderação na resposta dada ás invectivas dos collegas mostravam da parte delle um cerebro bem organisado; pelo que, rogava á camara que lh'o entregasse. A camara, sentindo-se ainda aggravada pelo proceder do vereador Galvão, estimou o pedido do alienista, e votou unanimamente a entrega.
Comprehende-se que, pela theoria nova, não bastava um facto ou um dito, para recolher alguem á Casa Verde; era preciso um longo exame, um vasto inquerito do passado e do presente. O padre Lopes, por exemplo, só foi capturado trinta dias depois da postura, a mulher do boticario quarenta dias. A reclusão desta senhora encheu o consorte de indignação. Crispim Soares sahiu de casa espumando de colera, e declarando ás pessoas a quem encontrava que ia arrancar as orelhas ao tyranno. Um sujeito, adversario do alienista, ouvindo na rua essa noticia, esqueceu os motivos de dissidencia, e correu á casa de Simão Bacamarte a participar-lhe o perigo que corria. Simão Bacamarte mostrou-se grato ao procedimento do adversario, e poucos minutos lhe bastaram para conhecer a rectidão dos seus sentimentos, a boa fé, o respeito humano, a generosidade; apertou-lhe muito as mãos, e recolheu-o á Casa Verde.
--Um caso destes é raro, disse elle á mulher pasmada. Agora esperemos o nosso Crispim.
Crispim Soares entrou. A dôr vencera a raiva, o boticario não arrancou as orelhas ao alienista. Este consolou o seu privado, assegurando-lhe que não era caso perdido; talvez a mulher tivesse alguma lesão cerebral; ia examinal-a com muita attenção; mas antes disso não podia deixal-a na rua. E parecendo-lhe vantajoso reunil-os, porque a astucia e velhacaria do marido poderiam de certo modo curar a belleza moral que elle descobrira na esposa, disse Simão Bacamarte:
--O senhor trabalhará durante o dia na botica, mas almoçará e jantará, com sua mulher, e cá passará as noites, e os domingos e dias santos.
A proposta collocou o pobre boticario na situação do asno de Buridan. Queria viver com a mulher, mas temia voltar á Casa Verde; e nessa luta esteve algum tempo, até que D. Evarista o tirou da difficuldade, promettendo que se incumbiria de vêr a amiga e transmittir os recados de um para outro. Crispim Soares beijou-lhe as mãos agradecido. Este ultimo rasgo do egoismo pusillanime pareceu sublime ao alienista.
Ao cabo de cinco mezes estavam alojadas umas dezoito pessoas; mas Simão Bacamarte não afrouxava; ia de rua em rua, de casa em casa, espreitando, interrogando, estudando; e quando colhia um enfermo, levava-o com a mesma alegria com que ontrora os arrebanhava ás duzias. Essa mesma desproporção confirmava a theoria nova; achára-se enfim a verdadeira pathologia cerebral. Um dia, conseguiu metter na Casa Verde o juiz de fóra; mas procedia com tanto escrupulo, que o não fez senão depois de estudar minuciosamente todos os seus actos, e interrogar os principaes da villa. Mais de uma vez esteve prestes a recolher pessoas perfeitamente desequilibradas; foi o que se deu com um advogado, em quem reconheceu um tal conjuncto de qualidades moraes e mentaes, que era perigoso deixal-o na rua. Mandou prendel-o; mas o agente, desconfiado, pediu-lhe para fazer uma experiencia; foi ter com um compadre, demandado por um testamento falso, e deu-lhe de conselho que tomasse por advogado o Salustiano; era o nome da pessoa em questão.
--Então, parece-lhe...?
--Sem duvida: vá, confesse tudo, a verdade inteira, seja qual fôr, e confie-lhe a causa.
O homem foi ter com o advogado, confessou ter falsificado o testamento, e acabou pedindo que lhe tomasse a causa. Não se negou o advogado, estudou os papeis, arrazoou longamente, e provou a todas as luzes que o testamento era mais que verdadeiro. A innocencia do réu foi solemnemente proclamada pelo juiz, e a herança passou-lhe ás mãos. O distincto jurisconsulto deveu a esta experiencia a liberdade. Mas nada escapa a um espirito original e penetrante. Sirnão Bacamarte, que desde algum tempo notava o zelo, a sagacidade, a paciencia, a moderação daquelle agente, reconheceu a habilidade e o tino com que elle levára a cabo uma experiencia tão melindrosa e complicada, e determinou recolhel-o immediatamente á Casa Verde; deu-lhe, todavia, um dos melhores cubiculos.
Os alienados foram alojados por classes. Fez-se uma galeria de modestos, isto é, os loucos em quem predominava esta perfeição moral; outra de tolerantes, outra de veridicos, outra de simplices, outra de leaes, outra de magnanimos, outra de sagazes, outra de sinceros, etc. Naturalmente, as familias e os amigos dos reclusos bradavam contra a theoria; e alguns tentaram compellir a camara a cassar a licença. A camara, porem, não esquecera a linguagem do vereador Galvão, e se cassasse a licença, vel-o-hia na rua, e restituido ao logar; pelo que, recusou. Simão Bacamarte officiou aos vereadores, não agradecendo, mas felicitando-os por esse acto de vingança pessoal.
Desenganados da legalidade, alguns principaes da villa recorreram secretamente ao barbeiro Porfirio e afiançaram-lhe todo o apoio de gente, dinheiro e influencia na côrte, se elle se puzesse á testa de outro movimento contra a camara e o alienista. O barbeiro respondeu-lhes que não; que a ambição o levara da primeira vez a transgredir as leis, mas que elle se emendára, reconhecendo o erro proprio e a pouca consistencia da opinião dos seus mesmos sequazes; que a camara entendera autorisar a nova experiencia do alienista, por um anno: cumpria, ou esperar o fim do praso, ou requerer ao vice-rei, caso a mesma camara rejeitasse o pedido. Jámais aconselharia o emprego de um recurso que elle viu falhar em suas mãos, e isso a troco de mortes e ferimentos que seriam o seu eterno remorso.
--O que é que me está dizendo? perguntou o alienista quando um agente secreto lhe contou a conversação do barbeiro com os principaes da villa.
Dous dias depois o barbeiro era recolhido á Casa Verde.--Preso por ter cão, preso por não ter cão! exclamou o infeliz.
Chegou o fim do praso, a camara autorisou um praso supplementar de seis mezes para ensaio dos meios therapeuticos. O desfecho deste episodio da chronica itaguahyense, é de tal ordem, e tão inesperado, que merecia nada menos de dez capitulos de exposição; mas contento-me com um, que será o remate da narrativa, e um dos mais bellos exemplos de convicção scientifica e abnegação humana.
XIII
PLUS ULTRA!
Era a vez da therapeutica. Simão Bacamarte, activo e sagaz em descobrir enfermos, excedeu-se ainda na diligencia e penetração com que principiou a tratal-os. N'este ponto todos os chronistas estão de pleno accordo: o illustre alienista fez curas pasmosas, que excitaram a mais viva admiração em Itaguahy.
Com effeito, era difficil imaginar mais racional systema therapeutico. Estando os loucos divididos por classes, segundo a perfeição moral que em cada um d'elles excedia ás outras, Simão Bacamarte cuidou em attacar de frente a qualidade predominante. Supponhamos um modesto. Elle applicava a medicação que pudesse incutir-lhe o sentimento opposto; e não ia logo ás dóses maximas,--graduava-as, conforme o estado, a edade, o temperamento, a posição social do enfermo. Ás vezes bastava uma casaca, uma fita, uma cabelleira, uma bengala, para restituir a razão ao alienado: em outros casos a molestia era mais rebelde; recorria então aos aneis de brilhantes, ás distincções honorificas, etc. Houve um doente, poeta, que resistiu a tudo. Simão Bacamarte começava a desesperar da cura, quando teve ideia de mandar correr matraca, para o fim de o apregoar como um rival de Garção e de Pindaro.
--Foi um santo remedio, contava a mãe do infeliz a uma comadre; foi um santo remedio.