Papeis Avulsos

Part 3

Chapter 33,889 wordsPublic domain

Não eram gritos na rua, eram suspiros em casa mas não tardava a hora dos gritos. O terror crescia: avisinhava-se a rebellião. A idéa de uma petição ao governo para que Simão Bacamarte fosse capturado e deportado, andou por algumas cabeças, antes que o barbeiro Porfirio a expendesse na loja, com grandes gestos de indignação. Note-se,--e essa é uma das laudas mais puras desta sombria historia,--note-se que o Porfirio, desde que a Casa Verde começára a povoar-se tão extraordinariamente, viu crescerem-lhe os lucros pela applicação assidua de sanguesugas que dalli lhe pediam: mas o interesse particular, dizia elle, deve ceder ao interesse publico. E accrescentava:--é preciso derrubar o tyranno! Note-se mais que elle soltou esse grito justamente no dia em Simão Bacamarte fizera recolher á Casa Verde um homem que trazia com elle uma demanda, o Coelho.

--Não me dirão em que é que o Coelho é doudo? bradou o Porfirio.

E ninguem lhe respondia; todos repetiam qne era um homem perfeitamente ajuizado. A mesma demanda que elle trazia com o barbeiro, ácerca de uns chãos da villa, era filha da obscuridade de um alvará, e não da cobiça ou odio. Um excellente caracter o Coelho. Os unicos desafeiçoados que tinha eram alguns sujeitos que, dizendo-se taciturnos, ou allegando andar com pressa, mal o viam de longe dobravam as esquinas, entravam nas lojas, etc. Na verdade, elle amava a boa palestra, a palestra comprida, gostada a sorvos largos, e assim é que nunca estava só, preferindo os que sabiam dizer duas palavras, mas não desdenhando os outros. O padre Lopes, que cultivava o Dante, e era inimigo do Coelho, nunca o via desligar-se de uma pessoa que não declamasse e emendasse este trecho:

La bocca solevò dal fero pasto Quel _seccatore..._

mas uns sabiam do odio do padre, e outros pensavam que isto era uma oração em latim.

VI

A REBELIÃO

Cerca de trinta pessoas ligaram-se ao barbeiro, redigiram e levaram uma representação á camara. A camara recusou aceital-a, declarando que a Casa Verde era uma instituição publica, e que a sciencia não podia ser emendada por votação administrativa, menos ainda por movimentos de rua.

--Voltai ao trabalho, concluiu o presidente, é o conselho que vos damos.

A irritação dos agitadores foi enorme. O barbeiro declarou que iam d'alli levantar a bandeira da rebellião, e destruir a Casa Verde; que ltaguahy não podia continuar a servir de cadaver aos estudos e experiencias de um despota; que muitas pessoas estimaveis, algumas distinctas, outras humildes mas dignas de apreço, jaziam nos cubiculos da Casa Verde; que o despotismo scientifico do alienista complicava-se do espirito de ganancia, visto que os loucos, ou suppostos taes, não eram tratados de graça: as familias, e em falta dellas a camara, pagavam ao alienista...

--É falso, interrompeu o presidente.

--Falso?

--Ha cerca de duas semanas recebemos um officio do illustre medico, em que nos declara que, tratando de fazer experiencias de alto valor psychologico, desiste do estipendio votado pela camara, bem como nada receberá das familias dos enfermos.

A noticia deste acto tão nobre, tão puro, suspendeu um pouco a alma dos rebeldes. Seguramente o alienista podia estar em erro, mas nenhum interesse alheio á sciencia o instigava; e para demonstrar o erro era preciso alguma cousa mais do que arruaças e clamores, isto disse o presidente, com applauso de toda a camara. O barbeiro, depois de alguns instantes de concentração, declarou que estava investido de um mandato publico, e não restituiria a paz a Itaguahy antes de vêr por terra a Casa Verde,--«essa Bastilha da razão humana»,--expressão que ouvira a um poeta local, e que elle repetiu com muita emphasis. Disse, e a um signal todos sairam com elle.

Imagine-se a situação dos vereadores; urgia obstar ao ajuntamento, á rebellião, á luta, ao sangue. Para accrescentar ao mal, um dos vereadores, que apoiara o presidente, ouvindo agora a denominação dada pelo barbeiro á Casa Verde--«Bastilha da razão humana»,--achou-a tão elegante, que mudou de parecer. Disse que entendia de bom aviso decretar alguma medida que reduzisse a Casa Verde; e porque o presidente, indignado, manifestasse em temos energicos o seu pasmo, o vereador fez esta reflexão:

--Nada tenho que ver com a sciencia; mas se tantos homens em quem suppomos juizo são reclusos por dementes, quem nos aflirma que o alienado não é o alienista?

Sebastião Freitas, o vereador dissidente, tinha o dom da palavra, e fallou ainda por algum tempo com prudencia, mas com firmesa. Os collegas estavam attonitos; o presidente pediu-lhe que, ao menos, désse o exemplo da ordem e do respeito á lei, não aventasse as suas idéas na rua, para não dar corpo e alma á rebellião, que era por ora um turbilhão de atomos dispersos. Esta figura corrigiu um pouco a effeito da outra: Sebastião Freitas prometteu suspender qualquer acção, reservando-se o direito de pedir pelos meios legaes a reducção da Casa Verde. E repetia com sigo, namorado:--Bastilha da razão humana!

Entretanto, a arruaça crescia. Já não eram trinta, mas trezentas pessoas que acompanhavam o barbeiro, cuja alcunha familiar deve ser mencionada, porque ella deu o nome á revolta; chamavam-lhe o Cangica,--e o movimento ficou celebre com o nome de revolta dos Cangicas. A acção podia ser restricta,--visto que muita gente, ou por medo, ou por habitos de educação, não descia á rua; mas o sentimento era unanime, ou quasi unanime, e os trezentos que caminhavam para a Casa Verde,--dada a diferença de Paris a Itaguahy,--podiam ser comparados aos que tomaram a Bastilha.

D. Evarista teve noticia da rebellião antes que ella chegasse; veiu dar-lh'a uma de suas crias. Ella provava nessa occasião um vestido do seda,--um dos trinta e sete que trouxera do Rio de Janeiro,--e não quiz crer.

--Hade ser alguma patuscada, dizia ella mudando a posição de um alfinete. Benedicta, vê se a barra está boa.

--Está, sinhá, respondia a mucama de cocaras no chão, está boa. Sinhá vira um bocadinho. Assim, Está muito boa.

--Não é patuscada, não, senhora; elles estão gritando:--Morra o Dr. Bacamarte! o tyranno! dizia o moleque assustado.

--Cala a hoca, tolo! Benedicta, olha ahi do lado esquerdo; não parece qne a costura está um pouco enviezada? A risca azul não segue até abaixo; está muito feio assim; é preciso descozer para ficar egualzinho e...

--Morra o Dr. Bacamarte! morra o tyranno! uivaram fóra trezentas vozes. Era a rebellião que desembocava na rua Nova.

D. Evarista ficou sem pinga de sangue. No primeiro instante não deu um passo, não fez um gesto; o terror petrificou-a. A mucama correu instinctivamente para a porta do fundo. Quanto ao moleque, a quem D. Evarista, não dera credito, teve um instante de triumpho, um certo movimento subito, imperceptivel, entranhado, de satisfação moral, ao ver que a realidade vinha jurar por elle.

--Morra o alienista! bradavam as vozes mais perto.

D. Evarista, se não resistia facilmente ás commoções de prazer, sabia entestar com os momentos de perigo. Não desmaiou; correu á sala interior onde o marido estudava. Quando ella alli entrou, precipitada, o illustre medico escrutava um texto de Averróes, os olhos delle, empanados pela cogitação, subiam do livro ao tecto e baixavam do tecto ao livro, cégos para a realidade exterior, videntes para os profundos trabalhos mentaes. D. Evarista chamou pelo marido duas vezes, sem que elle lhe désse attenção; á terceira, ouviu e perguntou-lhe o que tinha, se estava doente.

--Você não ouve estes gritos? perguntou a digna esposa em lagrimas.

O alienista attendeu então; os gritos approximavam-se, terriveis, ameaçadores; elle comprehendeu tudo. Levantou-se da cadeira de espaldar em que estava sentado, fechou o livro, e, a passo firme e tranquillo, foi deposital-o na estante. Como a introducção do volume desconcertasse um pouco a linha dos dous tomos contiguos, Simão Bacamarte cuidou de corrigir esse defeito minimo, e, aliás, interessante. Depois disse á mulher que se recolhesse, que não fizesse nada.

--Não, não, implorava a digna senhora, quero morrer ao lado de você...

Simão Bacamarte teimou que não, que não era caso de morte; e ainda que o fosse, intimava-lhe em nome da vida que ficasse. A infeliz dama curvou a cabeça, obediente e chorosa.

--Abaixo a Casa Verde! bradavam os Cangicas.

O alienista caminhou para a varanda da frente, e chegou alli no momento em que a rebellião tambem chegava e parava, defronte, com as suas trezentas cabeças rutilantes de civismo e sombrias de desespero.--Morra! morra! bradaram de todos os lados, apenas o vulto do alienista assomou na varanda. Simão Bacamarte fez um signal pedindo para fallar; os revoltosos cobriram-lhe a voz com brados de indignação. Então, o barbeiro agitando o chapéo, afim de impôr silencio á turba, conseguiu aquietar os amigos, e declarou ao alienista que podia fallar, mas accrescentou que não abusasse da paciencia, do povo como fizera até então.

--Direi pouco, ou até não direi nada, se fôr preciso. Desejo saber primeiro o que pedis.

--Não pedimos nada, replicou fremente o barbeiro; ordenamos que a Casa Verde seja demolida ou pelo menos despojada dos infelizes que lá estão.

--Não entendo.

--Entendeis bem, tyranno; queremos dar liberdade ás victimas do vosso odio, capricho, ganancia...

O alienista sorriu, mas o sorriso desse grande homem não era cousa visivel aos olhos da multidão; era uma contracção leve de dous ou tres musculos, nada mais. Sorriu e respondeu:

--Meus senhores, a sciencia é cousa seria, e merece ser tratada com seriedade. Não dou razão dos meus actos de alienista a ninguem, salvo aos mestres e a Deus. Se quereis emendar a administração da Casa Verde, estou prompto a ouvir-vos; mas se exigis que me negue a mim mesmo, não ganhareis nada. Poderia convidar alguns de vós, em commissão dos outros, a vir ver commigo os loucos reclusos; mas não o faço, porque seria dar-vos mão do meu systema, o que não farei a leigos, nem a rebeldes.

Disse isto o alienista, e a multidão ficou attonita; era claro que não esperava tanta energia e menos ainda tamanha serenidade. Mas o assombro cresceu de ponto quando o alienista, cortejando a multidão com muita gravidade, deu-lhe as costas e retirou-se lentamente para dentro. O barbeiro tornou logo a si, e, agitando o chapéo, convidou os amigos á demolição da Casa Verde; poucas vozes e frouxas lhe responderam. Foi nesse momento decisivo que o barbeiro sentiu despontar em si a ambição do governo; pareceu-lhe então que, demolindo a Casa Verde, e derrocando a influencia do alienista, chegaria a apoderar-se da camara, dominar as demais autoridades e constituir-se senhor de Itaguahy. Desde alguns annos que elle forcejava por ver o seu nome incluido nos pellouros para o sorteio dos vereadores, mas era recusado por não ter uma posição compativel com tão grande cargo. A occasião era agora ou nunca. Demais fôra tão longe na arruaça, que a derrota seria a prisão, ou talvez a forca, ou o degredo. Infelizmente, a resposta do alienista diminuira o furor dos sequazes. O barbeiro, logo que o percebeu, sentiu um impulso de indignação, e quiz bradar-lhes:--Canalha! covardes!--mas conteve-se, e rompeu deste modo:

--Meus amigos, lutemos até o fim! A salvação de ltaguahy está nas vossas mãos dignas e heroicas. Destruamos o carcere de vossos filhos e paes, de vossas mães e irmãs, de vossos parentes e amigos, e de vós mesmos. Ou morrereis a pão e agua, talvez a chicote, ua masmorra daquelle indigno.

A multidão agitou-se, murmurou, bradou, ameaçou, congregou-se toda em derredor do barbeiro. Era a revolta que tomava a si da ligeira syncope, e ameaçava arrazar a Casa Verde.

--Vamos! bradou Porfirio agitando o chapéo.

--Vamos! repetiram todos.

Deteve-os um incidente: era um corpo de dragões que, a marche-marche, entrava na rua Nova.

VII

O INESPERADO

Chegados os dragões em frente aos Cangicas, houve um instante de estupefacção; os Cangicas não queriam crer que a força publica fosse mandada contra elles; mas o barbeiro comprehendeu tudo e esperou. Os dragões pararam, o capitão intimou á multidão que se dispersasse; mas, comquanto uma parte della estivesse inclinada a isso, a outra parte apoiou fortemente o barbeiro, cuja resposta consistiu nestes termos alevantados:

--Não nos dispersaremos. Se quereis os nossos cadaveres, podeis tomal-os; mas só os cadaveres; não levareis a nossa honra, o nosso credito, os nossos direitos, e com elles a salvação da Itaguahy.

Nada mais imprudente do que essa resposta do barbeiro; e nada mais natural. Era a vertigem das grandes crises. Talvez fosse tambem um excesso de confiança na abstenção das armas por parte dos dragões; confiança que o capitão dissipou logo, mandando carregar sobre os Cangicas. O momento foi indescriptivel. A multidão urrou furiosa; alguns, trepando ás janellas das casas, ou correndo pela rua fóra, conseguiram escapar; mas a maioria ficou, bufando de colera, indignada, animada pela exhortação do barbeiro. A derrota dos Cangicas estava imininente, quando um terço dos dragões,--qualquer que fosse o motivo, as chronicas não o declaram,--passou subitamente para o lado da rebellião. Este inesperado reforço deu alma aos Cangicas, ao mesmo tempo que lançou o desanimo ás fileiras da legalidade. Os soldados fieis não tiveram coragem de atacar os seus proprios camaradas, e, um a um, foram passando para elles, de modo que ao cabo de alguns minutos, o aspecto das cousas era totalmente outro. O capitão estava de um lado, com alguma gente, contra uma massa compacta que o ameaçava de morte. Não teve remedio, declarou-se vencido e entregou a espada ao barbeiro.

A revolução triumphante não perdeu um só minuto; recolheu os feridos ás casas proximas, e guiou para a camara. Povo e tropa fraternisavam, davam vivas a el-rei, ao vice-rei, a Itaguahy, ao «illustre Porfirio.» Este ia na frento, empunhando tão destramente a espada, como se ella fosse apenas uma navalha um pouco mais comprida. A victoria cingia-lhe a fronte de um nimbo mysterioso. A dignidade de governo começava a enrijar-lhe os quadris.

Os vereadores, ás janellas, vendo a multidão e a tropa, cuidaram que a tropa capturára a multidão, e sem mais exame, entraram e votaram uma petição ao vice-rei para que mandasse dar um mez de soldo aos dragões, «cujo denodo salvou Itaguahy do abysmo a que o tinha lançado uma cáfila de rebeldes.» Esta phrase foi proposta por Sebastião Freitas, o vereador dissidente, cuja defeza dos Cangicas tanto escandalisára os collegas. Mas bem depressa a illusão se desfez. Os vivas ao barbeiro, os morras aos vereadores e ao alienista vieram dar-lhes noticia da triste realidade. O presidente não desanimou:--Qualquer que seja a nossa sorte, disse elle, lembremo-nos que estamos ao serviço de Sua Magestade e do povo.--Sebastião Freitas insinuou que melhor se poderia servir á corôa e á villa sahindo pelos fundos e indo conferenciar com o juiz de fóra, mas toda a camara rejeitou esse alvitre.

D'ahi a nada o barbeiro, acompanhado de alguns de seus tenentes, entrava na sala da vereança, e intimava á camara a sua queda. A camara não resistiu, entregou-se, e foi dalli para a cadeia. Então os amigos do barbeiro propozeram-lhe que assumisse o governo da villa, em nome de Sua Magestade. Porfirio aceitou o encargo, embora não desconhecesse (accrescentou) os espinhos que trazia; disse mais que não podia dispensar o concurso dos amigos presentes; ao que elles promptamente annuiram. O barbeiro veiu á janella, e communicou ao povo essas resoluções, quo o povo ratificou, acclamando o barbeiro. Este tomou a denominação de--«Protector da villa em nome de Sua Magestade e do povo.»--Expediram-se logo varias ordens importantes, communicações officiaes do novo governo, uma exposição minuciosa ao vice-rei, com muitos protestos de obediencia ás ordens de Sua Magestade; finalmente, uma proclamação ao povo, curta, mas energica:

«Itaguahyenses!

Uma camara corrupta e violenta conspirava contra os interesses de Sua Magestade e do povo. A opinião publica tinha-a condemnado; um punhado de cidadãos, fortemente apoiados pelos bravos dragões de Sua Magestade, acaba de a dissolver ignominiosamente, e por unanime consenso da villa, foi-me confiado o mando supremo, até que Sua Magestade se sirva ordenar o que parecer melhor ao seu real serviço. Itaguahyenses! não vos peço se não que me rodeeis de confiança, que me auxilieis em restaurar a paz e a fazenda publica, tão desbaratada pela camara que ora findou ás vossas mãos. Contai com o meu sacrificio, e ficai certos de que a coroa será por nós.

O Protector da villa em nome de Sua Magestade e do povo

Porfirio Caetano das Neves.»

Toda a gente advertiu no absoluto silencio desta proclamação ácerca da Casa Verde; e, segundo uns, não podia haver mais vivo indicio dos projectos tenebrosos do barbeiro. O perigo era tanto maior quanto que, no meio mesmo desses graves successos, o alienista mettera na Casa Verde umas sete ou oito pessoas, entre ellas duas senhoras, sendo um dos homens aparentado com o Protector. Não era um repto, um acto intencional; mas todos o interpretaram dessa maneira, e a villa respirou com a esperança de que o alienista dentro de vinte e quatro horas estaria a ferros, e destruido o terrivel carcere.

O dia acabou alegremente. Emquanto o arauto da matraca ia recitando de esquina em esquina a proclamação, o povo espalhava-se nas ruas e jurava morrer em defeza do illustre Porfirio. Poucos gritos contra a Casa Verde, prova de confiança na acção do governo. O barbeiro fez expedir um acto declarando feriado aquelle dia, e entabolou negociações com o vigario para a celebração de um _Te-Deum_, tão conveniente era aos olhos delle a conjuncção do poder temporal com o espiritual; mas o padre Lopes recusou abertamente o seu concurso.

--Em todo caso, Vossa Reverendissima não se alistará entre os inimigos do governo? disse-lhe o barbeiro dando á physionomia um aspecto tenebroso.

Ao que o padre Lopes respondeu, sem responder:

--Como alistar-me, se o novo governo não tem inimigos?

O barbeiro sorriu; era a pura verdade. Salvo o capitão, os vereadores e os principaes da villa, toda a gente o acclamava. Os mesmos principaes, se o não acclamavam, não tinham saido contra elle. Nenhum dos almotacés deixou de vir receber as suas ordens. No geral, as familias abençoavam o nome daquelle que ia emfim libertar Itaguahy da Casa Verde e do terrivel Simão Bacamarte.

VIII

AS ANGUSTIAS DO BOTICARIO

Vinte e quatro horas depois dos successos narrados no capitulo anterior, o barbeiro saiu do palacio do governo--foi a denominação dada á casa da camara--, com dous ajudantes de ordens, e dirigiu-se á residencia de Simão Bacamarte. Não ignorava elle que era mais decoroso ao governo mandal-o chamar; o receio, porém, de que o alienista não obedecesse, obrigou-o a parecer tolerante e moderado.

Não descrevo o terror do boticario ao ouvir dizer que o barbeiro ia á casa do alienista.--Vae prendel-o, pensou elle. E redobraram-lhe as angustias. Com effeito, a tortura moral do boticario naquelles dias de revolução excede a toda a descripção possivel. Nunca um homem se achou em mais apertado lance:**--a privança do alienista chamava-o ao lado deste, a victoria do barbeiro attrahia-o ao barbeiro. Já a simples noticia da sublevação tinha-lhe sacudido fortemente a alma, porque elle sabia a unanimidade do odio ao alienista; mas a victoria final foi tambem o golpe final. A esposa, senhora mascula, amiga particular de D. Evarista, dizia que o lugar delle era ao lado de Simão Bacamarte; ao passo que o coração lhe bradava que não, que a causa do alienista estava perdida, e que ninguem, por acto proprio, se amarra a um cadaver. Fel-o Catão, é verdade, _sed victa Catoni_, pensava elle, relembrando algumas palestras habituaes do padre Lopes; mas Catão não se atou a uma causa vencida, elle era a propria causa vencida, a causa da republica; o seu acto, portanto, foi de egoista, de um miseravel egoista; minha situação é outra. Insistindo, porém, a mulher, não achou Crispim Soares outra sahida em tal crise senão adoecer; declarou-se doente, e metteu-se na cama.

--Lá vai o Porfirio á casa do Dr. Bacamarte, disse-lhe a mulher no dia seguinte á cabeceira da cama; vai acompanhado de gente.

--Vai prendel-o, pensou o boticario.

Uma idéa traz outra; o boticario imaginou que, uma vez preso o alienista, viriam tambem buscal-o a elle, na qualidade de complice. Esta idéa foi o melhor dos visicatorios. Crispim Soares ergueu-se, disse que estava bom, que ia sahir; e apesar de todos os esforços e protestos da consorte, vestiu-se e sahiu. Os velhos chronistas são unanimes em dizer que a certeza de que o marido ia collocar-se nobremente ao lado do alienista consolou grandemente a esposa do boticario; e notam, com muita perspicacia, o immenso poder moral de uma illusão; porquanto, o boticario caminhou resolutamente ao palacio do governo, não á casa do alienista. Alli chegando, mostrou-se admirado de não ver o barbeiro, a quem ia apresentar os seus protestos de adhesão, não o tendo feito desde a vespera por enfermo. E tossia com algum custo. Os altos funccionarios que lhe ouviam esta declaração, sabedores da intimidade do boticario com o alienista, comprehenderam toda a importancia da adhesão nova, e trataram a Crispim Soares com apurado carinho; affirmaram-lhe que o barbeiro não tardava; Sua Senhoria tinha ido á Casa Verde, a negocio importante, mas não tardava. Deram-lhe cadeira, refrescos, elogios; disseram-lhe que a causa do illustre Porfirio era a de todos os patriotas; ao que o boticario ia repetindo que sim, que nunca pensára outra cousa, que isso mesmo mandaria declarar Sua Magestade.

IX

DOUS LINDOS CASOS

Não se demorou o alienista em receber o barbeiro; declarou-lhe que não tinha meios de resistir, e portanto estava prestes a obedecer. Só uma cousa pedia, é que o não constrangesse a assistir pessoalmente á destruição da Casa Verde.

--Engana-se Vossa Senhoria, disse o barbeiro depois de alguma pausa, engana-se em attribuir ao governo intenções vandalicas. Com razão ou sem ella, a opinião crê que a maior parte dos doudos alli mettidos estão era seu perfeito juizo, mas o governo reconhece que a questão é puramente scientifica, e não cogita em resolver com posturas as questões scientificas. Demais, a Casa Verde é uma instituição publica; tal a aceitamos das mãos da camara dissolvida. Ha, entretanto,--por força que ha de haver um alvitre intermedio que restitua o socego ao espirito publico.

O alienista mal podia dissimular o assombro; confessou que esperava outra cousa, o arrazamento do hospicio, a prisão delle, o desterro, tudo, menos...

--O pasmo de Vossa Senhoria, atalhou gravemente o barbeiro, vem de não attender á grave responsabilidade do governo. O povo, tomado de uma céga piedade, que lhe dá em tal caso legitima indignação, póde exigir do governo certa ordem de actos; mas este, com a responsabilidade que lhe incumbe, não os deve praticar, ao menos integralmente, e tal é a nossa situação. A generosa revolução que hontem derrubou uma camara villipendiada e corrupta, pediu em altos brados o arrazamento da Casa Verde; mas pode entrar no animo do governo eliminar a loucura? Não. E se o governo não a pode eliminar, está ao menos apto para discriminal-a, reconhecel-a? Tambem não; é materia de sciencia. Logo, em assumpto tão melindroso, o governo não póde, não deve, não quer dispensar o concurso de Vossa Senhoria. O que lhe pede é que de certa maneira demos alguma satisfação ao povo. Unamo-nos, e o povo saberá obedecer. Um dos alvitres aceitaveis, se Vossa Senhoria não indicar outro, seria fazer retinir da Casa Verde aquelles enfermos que estiverem quasi curados, e bem assim os maniacos de pouca monta, etc. Desse modo, sem grande perigo, mostraremos alguma tolerancia e benignidade.

--Quantos mortos e feridos houve hontem no conflicto? perguntou Simão Bacamarte, depois de uns tres minutos.

O barbeiro ficou espantado da pergunta, mas respondeu logo que onze mortos e vinte e cinco feridos.