Papeis Avulsos

Part 2

Chapter 23,874 wordsPublic domain

--Trata-se de cousa mais alta, trata-se de uma experiencia scientifica. Digo experiencia, porque não me atrevo a assegurar desde já a minha idéa; nem a sciencia é outra cousa, Sr. Soares, se não uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiencia, mas uma experiencia que vai mudar a face da terra. A loucura, objecto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.

Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticario. Depois explicou compridamente a sua idéa. No conceito delle a insania abrangia uma vasta superficie de cerebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocinios, de textos, de exemplos. Os exemplos achou-os na historia e em ltaguahy; mas, como um raro espirito que era, reconheceu o perigo de citar todos os casos de Itaguahy, e refugiou-se na historia. Assim, apontou com especialidade alguns personagens celebres, Socrates, que tinha um demonio familiar, Pascal, que via um abysmo á esquerda, Mahomet, Caracalla, Domiciano, Caligula, etc., uma enfiada de casos e pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridiculas. E porque o boticario se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma cousa, e até accrescentou sentenciosamcnte:

--A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a serio.

--Gracioso, muito gracioso! exclamou Crispim Soares lovantando as mãos ao céu.

Quanto á ideia de ampliar o territorio da loucura, achou-a o boticario extravagante; mas a modestia, principal adorno de seu espirito, não lhe sofreu confessar outra cousa além de um nobre enthusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acerescentou que era «caso de matraca.» Esta expressão não tem equivalente no estylo moderno. Naquelle tempo, Itaguahy, que como as demais villas, arraiaes e povoações da colonia, não dispunha de imprensa, tinha dous modos de divulgar uma noticia: ou por meio de cartazes manuscriptos e pregados na porta da camara e da matriz;--ou por meio de matraca. Eis em que consistia este segundo uso. Contractava-se um homem, por um ou mais dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão. De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e elle annunciava o que lhe incumbiam,--um remedio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo eeclesiastico, a melhor thesoura da villa, o mais bello discurso do anno, etc. O systema tinha inconvenientes para a paz publica; mas era conservado pela grande energia de divulgação que possuia. Por exemplo, um dos vereadores,--aquelle justamente que mais se oppuzera á creação da Casa Verde,--desfructava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e aliás nunca domesticára um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a matraca todos os mezes. E dizem as chronicas que algumas pessoas affirmavam ter visto cascaveis dansando no peito do vereador; affirmação perfeitamente falsa, mas só devida á absoluta confiança no systema. Verdade, verdade; nem todas as instituições do antigo regimen, mereciam o desprezo do nosso seculo.

--Ha melhor do que annunciar a minha ideia, é pratical-a, respondeu o alienista á insinuação do boticario.

E o boticario, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que era melhor começar pela execução.

--Sempre haverá tempo de a dar á matraca, concluiu elle.

Simão Bacamarte reflectiu ainda um instante, e disse:

--Suppondo o espirito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso extrahir a perola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da razão e da loucura. A razão é o perfeito equilibrio de todas as faculdades; fora dahi insania, insania, e só insania.

O vigario Lopes, a quem elle confiou a nova theoria, declarou lisamente que não chegava a entendel-a, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo collossal que não merecia principio de execução.

--Com a definição actual, que é a de todos os tempos, accrescentou, a loucura e a razão estão perperfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que transpor a cerca?

Sobre o labio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso, em que o desdem vinha casado á commiseração; mas nenhuma palavra sahiu de suas egregias entranhas. A sciencia contentou-se em estender a mão á theologia,--com tal segurança, que a theologia não soube emfim se devia crêr em si ou na outra. Itaguahy e o universo ficavam á beira de uma revolução.

V

O TERROR

Quatro dias depois, a população do Itaguahy ouviu consternada, a noticia de que um certo Costa fôra recolhido á Casa Verde.

--Impossivel!

--Qual impossivel! foi recolhido hoje de manhã.

--Mas, na verdade, elle não merecia... Ainda em cima! depois de tanto que elle fez...

Costa era um dos cidadãos mais estimados de Itaguahy. Herdára quatrocentos mil cruzados em boa moeda de el-rei D. João V, dinheiro cuja renda bastava, segundo lhe declarou o tio no testamento, para viver «até o fim do mundo.» Tão depressa recolheu a herança, como entrou a dividil-a em emprestimos, sem usura, mil cruzados a um, dous mil a outro, trezentos a este, oitocentos áquelle, a tal ponto que, no fim de cinco annos, estava sem nada, Se a miseria viesse de chofre, o pasmo de Itaguahy seria enorme; mas veiu de vagar; elle foi passando da opulencia á abastança, da abastança á mediania, da mediania á pobreza, da pobreza á miseria, gradualmente. Ao cabo daquelles cinco annos, pessoas que levavam o chapeu ao chão, logo que elle assomava no fim da rua, agora batiam-lhe no hombro, com intimidade, davam-lhe piparotes no nariz, diziam-lhe pulhas. E o Costa sempre lhano, risonho. Nem se lhe dava de ver que os menos cortezes eram justamente os que tinham ainda a divida em aberto; ao contrario, parece que os agazalhava com maior prazer, e mais sublime resignação. Um dia, como um desses incuraveis devedores lhe atirasse uma chalaça grossa, e elle se risse della, observou um desaffeiçoado, com certa perfidia:--«Você supporta esse sujeito para ver se elle lhe paga.» Costa não se deteve um minuto, foi ao devedor e perdoou-lhe a divida.--«Não admira, retorquiu o outro; o Costa abriu mão de uma estrella, que está no céu.» Costa era perspicaz, entendeu que elle negava todo o merecimento ao acto, attribuindo-lhe a intenção de rejeitar o que não vinham metter-lhe na algibeira. Era tambem pundonoroso e inventivo; duas horas depois achou um meio de provar que lhe não cabia um tal labéo: pegou de algumas dobras, e mandou-as de emprestimo ao devedor.

--Agora espero que...--pensou elle sem concluir a phrase.

Esse ultimo rasgo do Costa persuadiu a credulos e incredulos; ninguem mais pôz em duvida os sentimentos cavalheirescos daquelle digno cidadão. As necessidades mais acanhadas sahiram á rua, vieram bater-lhe á porta, com os seus chinellos velhos, com as suas capas remendadas. Um verme, entretanto, roia a alma do Costa: era o conceito do desaffecto. Mas isso mesmo acabou; trez mezes depois veiu este pedir-lhe uns cento e vinte cruzados com promessa de restituir-lh'os dahi a dous dias; era o residuo da grande herança, mas era tambem uma nobre desforra: Costa emprestou o dinheiro logo, logo, e sem juros. Infelizmente não teve tempo de ser pago; cinco mezes depois era recolhido á Casa Verde.

Imagina-se a consternação de Itaguahy, quando soube do caso. Não se fallou em outra cousa, dizia-se que o Costa ensandecera, ao almoço, outros que de madrugada; e contavam-se os accessos, que eram furiosos, sombrios, terriveis,--ou mansos, e até engraçados, conforme as versões. Muita gente correu á Casa Verde, e achou o pobre Costa, tranquillo, um pouco espantado, faltando com muita clareza, e perguntando porque motivo o tinham levado para alli. Alguns foram ter com o alienista. Bacamarte approvava esses sentimentos de estima e compaixão, mas accrescentava que a sciencia era a sciencia, e que elle não podia deixar na rua um mentecapto. A ultima pessoa que intercedeu por elle (porque depois do que vou contar ninguem mais se atreveu a procurar o terrivel medico) foi uma pobre senhora, prima do Costa. O alienista disse-lhe confidencialmente que esse digno homem não estava no perfeito equilibrio das faculdades mentaes, á vista do modo como dissipára os cabedaes que...

--Isso, não! isso não! interrompeu a boa senhora com energia. Se elle gastou tão depressa o que recebeu, a culpa não é delle.

--Não?

--Não, senhor. Eu lhe digo como o negocio se passou. O defuncto meu tio não era máu homem; mas quando estava furioso era capaz de nem tirar o chapéo ao Santissimo. Ora, um dia, pouco tempo antes de morrer, descobriu que um escravo lhe roubára um boi; imagine como ficou. A cara era um pimentão; todo elle tremia, a boca escumava; lembra-me como se fosse hoje. Então um homem feio, cabelludo, em mangas de camiza, chegou-se a elle e pediu agua. Meu tio (Deus lhe falle n'alma!) respondeu que fosse beber ao rio ou ao inferno. O homem olhou para elle, abriu a mão em ar de ameaça, e rogou esta praga:--«Todo o seu dinheiro não hade durar mais de sete annos e um dia, tão certo como isto ser o _sino salamão!_» E mostrou o sino salamão impresso no braço. Foi isto, meu senhor; foi esta praga daquelle maldito.

Bacamarte espetára na pobre senhora um par de olhos agudos como punhaes. Quando ella acabou, estendeu-lhe a mão polidamente, como se o fizesse á propria esposa do vice-rei, e convidou-a a ir fallar ao primo. A misera acreditou; elle levou-a á Casa Verde e encerrou-a na galeria dos allucinados.

A noticia desta aleivosia do illustre Bacamarte lançou o terror á alma da população. Ninguem queria acabar de crer, que, sem motivo, sem inimizade, o alienista trancasse na Casa Verde uma senhora perfeitamente ajuizada, que não tinha outro crime senão o de interceder por um infeliz. Commentava-se o caso nas esquinas, nos barbeiros; edificou-se um romance, umas finezas namoradas que o alienista outr'ora dirigira á prima do Costa, a indignação do Costa e o desprezo da prima. E dahi a vingança. Era claro. Mas a austeridade do alienista, a vida de estudos que elle levava, pareciam desmentir uma tal hypotbese. Historias! Tudo isso era naturalmente a capa do velhaco. E um dos mais credulos chegou a murmurar que sabia de outras cousas, não as dizia, por não ter certeza plena, mas sabia, quasi que podia jurar.

--Você, que é intimo delle, não nos podia dizer o que ha, o que houve, que motivo...

Crispim Soares derretia-se todo. Esse interrogar da gente inquieta e curiosa, dos amigos attonitos, era para elle uma consagração publica. Não havia duvidar; toda a povoação sabia emfim que o privado do alienista era elle, Crispim, o boticario, o collaborador do grande homem e das grandes cousas; dahi a corrida á botica. Tudo isso dizia o carão jocundo e o riso discreto do boticario, o riso e o silencio, porque elle não respondia nada; um, dous, trez monosyllabos, quando muito, soltos, seccos, encapados no fiel sorriso, constante e miudo, cheio de mysterios scientificos, que elle não podia, sem desdouro nem perigo, desvendar a nenhuma pessoa humana.

--Ha cousa, pensavam os mais desconfiados.

Um desses limitou-se a, pensal-o, deu de hombros e foi embora. Tinha negocios pessoaes. Acabava de construir uma casa sumptuosa. Só a casa bastava para deter e chamar toda a gente; mas havia mais,--a mobilia, que elle mandara vir da Hungria e da Hollanda, segundo contava, e que se podia ver do lado de fóra, porque as janellas viviam abertas,--e o jardim, que era uma obra-prima de arte e de gosto. Esse homem, que enriquecera no fabrico de albardas, tinha tido sempre o sonho de uma casa magnifica, jardim pomposo, mobilia rara. Não deixou o negocio das albardas, mas repousava delle na contemplação da casa nova, a primeira de Itaguahy, mais grandiosa do que a Casa Verde, mais nobre do que a da camara. Entre a gente illustre da povoação havia choro e ranger de dentes, quando se pensava, ou se fallava, ou se louvava a casa do albardeiro,--um simples albardeiro, Deus do céu!

--Lá está elle embasbacado, diziam os transeuntes, de manhã.

De manhã, com effeito, era costume do Matheus estatelar-se, no meio do jardim, com os olhos na casa, namorado, durante uma longa hora, até que vinham chamal-o para almoçar. Os visinhos, embora o comprimentassem com certo respeito, riam-se por traz delle, que era um gosto. Um desses chegou a dizer que o Matheus seria muito mais economico, e estaria riquissimo, se fabricasse as albardas para si mesmo; epigramma inintelligivel, mas que fazia rir ás bandeiras despregadas.

--Agora lá está o Matheus a ser contemplado, diziam á tarde.

A razão deste outro dito era que, de tarde, quando as familias sahiam a passeio (jantavam cedo) usava o Matheus postar-se á janella, bem no centro, vistoso, sobre um fundo escuro, trajado de branco, attitude senhoril, e assim ficava duas e tres horas até que anoitecia de todo. Pode crer-se que a intenção do Matheus era ser admirado e invejado, posto que elle não a confessasse a nenhuma pessoa, nem ao boticario, nem ao padre Lopes, seus grandes amigos. E entretanto não foi outra a allegação do boticario, quando o alienista lhe disse que o albardeiro talvez padecesse do amor das pedras, mania que elle Bacamarte descubrira e estudava desde algum tempo. Aquillo de contemplar a casa...

--Não, senhor, acudiu vivamente Crispim Soares.

--Não?

--Hade perdoar-me, mas talvez não saiba que elle de manhã examina a obra, não a admira; de tarde, são os outros que o admirara a elle e á obra.--E contou o uso do albardeiro, todas as tardes, desde cedo até o cahir da noite.

Uma volupia scientifica alumiou os olhos de Simão Bacamarte. Ou elle não conhecia todos os costumes do albardeiro, ou nada mais quiz, interrogando o Crispim, do que confirmar alguma noticia incerta ou suspeita vaga. A explicação satisfel-o; mas como tinha as alegrias proprias de um sabio, concentradas, nada viu o boticario que fizesse suspeitar uma intenção sinistra. Ao contrario, era de tarde, e o alienista pediu-lhe o braço para irem a passeio. Deus! era a primeira vez que Simão Bacamarte dava ao seu privado tamanha honra; Crispim ficou tremulo, atarantado, disse que sim, que estava prompto. Chegaram duas ou tres pessoas de fóra, Crispim mandou-as mentalmente a todos os diabos; não só atrazavam o passeio, como podia acontecer que Bacamarte elegesse alguma dellas, para acompanhal-o, e o dispensasse a elle. Que impaciencia! que afflicção! Emfim, sahiram. O alienista guiou para os lados da casa do albaideiro, viu-o á janella, passou cinco, seis vezes por diante, devagar, parando, examinando as attitudes, a expressão do rosto. O pobre Matheus, apenas notou que era objecto da curiosidade ou admiração do primeiro vulto de ltaguahy, redobrou de expressão, deu outro relevo ás attitudes... Triste! triste! não fez mais do que condemnar-se; no dia seguinte, foi recolhido á Casa Verde.

--A Casa Verde é um carcere privado, disse um medico sem clinica.

Nunca uma opinião pegou e grassou tão rapidamente. Carcere privado: eis o que se repetia de norte a sul e de leste a oéste de ltaguahy,--a medo, é verdade, porque durante a semana que se seguiu á captura do pobre Matheus, vinte e tantas pessoas,--duas ou tres de consideração,--foram recolhidas á Casa Verde. O alienista dizia que só eram admittidos os casos pathologicos, mas pouca gente lhe dava credito. Succediam-se as versões populares. Vingança, cobiça de dinheiro, castigo de Deus, monomania do proprio medico, plano secreto do Rio de Janeiro com o fim de destruir em Itaguahy qualquer germen de prosperidade que viesse a brotar, arvorecer, florir, com desdouro e mingua daquella cidade, mil outras explicações, que não explicavam nada, tal era o producto diario da imaginação publica.

Nisto chegou do Rio de Janeiro a esposa do alienista, a tia, a mulher do Crispim Soares, e toda a mais comitiva,--ou quasi toda,--que algumas semanas antes partira de Itaguahy. O alienista foi recebel-a, com o boticario, o padre Lopes, os vereadores, e varios outros magistrados. O momento em que D. Evarista poz os olhos na pessoa do marido é considerado pelos chronistas de tempo como um dos mais sublimes da historia moral dos homens, e isto pelo contraste das duas naturezas, ambas extremas, ambas egregias. D. Evarista soltou um grito, balbuciou uma palavra, e atirou-se ao consorte, de um gesto que não se pode melhor definir do que comparando-o a uma mistura de onça e rola. Não assim o illustre Bacamarte; frio como um diagnostico, sem desengonçar por um instante a rigidez scientifica, estendeu os braços á dona, que caiu nelles, e desmaiou. Curto incidente; ao cabo de dons minutos, D. Evarista recebia os comprimentos dos amigos, e o prestito punha-se em marcha.

D. Evarista era a esperança de Itaguahy; contava-se com ella para minorar o flagello da Casa Verde. Dahi as acclamações publicas, a immensa gente que atulhava as ruas, as flammulas, as flores e damascos ás janellas. Com o braço apoiado no do padre Lopes,--porque o eminente Bacamarte confiára a mulher ao vigario, e acompanhava-os a passo meditativo,--D. Evarista voltava a cabeça a um lado e outro, curiosa, inquieta, petulante. O vigario indagava do Rio de Janeiro, que elle não vira desde o vice-veinado anterior; o D. Evarista respondia, enthusiasmada, que era a cousa mais bella que podia haver no mundo. O Passeio Publico estava acabado, um paraiso, onde ella fôra muitas vezes, o a rua das Bellas Noites, o chafariz das Marrecas... Ah! o chafariz das Marrecas! Eram mesmo marrecas,--feitas de metal e despejando agua pela bocca fóra. Uma cousa galantissima. O vigario dizia que sim, que o Ro de Janeiro devia estar agora muito mais bonito. Se já o era neutro tempo! Não admira, maior do que Itaguahy, e de mais a mais séde do governo... Mas não se pode dizer que Itaguahy fosse feio; tinha bellas casas, a casa do Matheus, a Casa Verde....

--A proposito de Casa Verde, disso o padre Lopes escorregando habilmente para o assumpto da occasião, a senhora vem achal-a muito cheia de gente.

--Sim?

--É verdade. Lá está o Matheus...

--O albardeiro?

--O albardeiro; está o Costa, a prima do Costa, e Fulano, e Sicrano, e...

--Tudo isso doudo?

--Ou quasi doudo, obtemperou o padre.

--Mas então?

O vigario derreou os cantos da boca, á maneira de quem não sabe nada, ou não quer dizer tudo; resposta vaga, que se não póde repetir a outra pessoa, por falta de texto. D. Evarista achou realmente extraordinario que toda aquella gente ensandecesse; um ou outro, vá; mas todos? Entretanto, custava-lhe duvidar; o marido era um sabio, não recolheria ninguem á Casa Verde sem prova evidente de loucura.

--Sem duvida... sem duvida... ia pontuando o vigario.

Tres horas depois, cerca de cincoenta convivas sentavam-se em volta da mesa de Simão Bacamarte; era o jantar das boas-vindas. D. Evarista foi o assumpto obrigado dos brindes, discursos, versos de toda a casta, metaphoras, amplificações, apologos. Ella era a esposa do novo Hippocrates, a musa da sciencia, anjo, divina, aurora, caridade, vida, consolação; trazia nos olhos duas estrellas, segundo a versão modesta de Crispim Soares, e dous sóes, no conceito de um vereador. O alienista ouvia essas cousas um tanto enfastiado, mas sem visivel impaciencia. Quando muito dizia ao ouvido da mulher, que a rhetorica permittia taes arrojos sem significação. D. Evarista fazia esforços para adherir a esta opinião do marido; mas, ainda descontando tres quartas partes das louvaminhas, ficava muito com que enfunar-lhe a alma. Um dos oradores, por exemplo, Martim Brito, rapaz de vinte e cinco annos, pintalegrete acabado, curtido de namoros e aventuras, declamou um discurso em que o nascimento de D. Evarista era explicado polo mais singular dos reptos. «Deus, disse elle, depois de dar ao universo o homem e a mulher, esse diamante e essa perola da corôa divina (e o orador arrastava triumphalmente esta phrase de uma ponta a outra da mesa) Deus quiz vencer a Deus, e creou D. Evarista.»

D. Evarista baixou os olhos com exemplar modestia. Duas senhoras, achando a cortezanice excessiva e audaciosa, interrogaram os olhos do dono da casa; e, na verdade, o gesto do alienista pareceu-lhes nublado de suspeitas, de ameaças, e, provavelmente, de sangue. O atrevimento foi grande, pensaram as duas damas. E uma e outra pediam a Deus que removesse qualquer episodio tragico,--ou que o adiasse, ao menos, para o dia seguinte. Sim, que o adiasse. Uma dellas, a mais piedosa, chegou a admittir, comsigo mesma, que D. Evarisla não merecia nenhuma desconfiança, tão longe estava de ser attrahente ou bonita. Uma simples agua-morna. Verdade é que, se todos os gostos fossem eguaes, o que seria do amarello? E esta ideia fel-a tremer outra vez, embora menos; menos, porque o alienista sorria agora para o Martim Brito, e, levantados todos, foi ter com elle e fallou-lhe do discurso. Não lhe negou que era era improviso brilhante, cheio de rasgos magnificos. Seria delle mesmo a ideia relativa ao nascimento de D. Evarista, ou tel-a-hia encontrado em algum autor que...? Não, senhor; era delle mesmo; achou-a naquella occasião e parecera-lhe adequada a um arroubo oratorio. De resto, suas ideias eram antes arrojadas do que ternas ou jocosas. Dava para o épico. Uma vez, por exemplo, compôz uma ode á queda do marquez de Pombal, em que dizia que esse ministro era o «dragão asperrimo do Nada,» esmagado pelas «garras vingadoras do Todo»; e assim outras, mais ou menos fóra do commum; gostava das ideias sublimes e raras, das imagens grandes e nobres...

--Pobre moço! pensou o alienista. E continuou comsigo:--Trata-se de um caso do lesão cerebral; phenomeno sem gravidade, mas digno de estudo...

D. Evarista ficou estupefacta quando soube, tres dias depois, que o Martim Brito fôra alojado na Casa Verde. Um moço que tinha idéas tão bonitas! As duas senhoras attribuiram o acto a ciumes do alienista. Não podia ser outra cousa; realmente a declaração do moço fôra audaciosa de mais.

Ciumes? Mas como explicar que, logo em seguida, fossem recolhidos José Borges do Couto Leme, pessoa estimavel, o Chico das Cambraias, folgazão emerito, o escrivão Fabricio, e ainda outros? O terror accentuou-se. Não se sabia já quem estava são, nem quem estava doudo. As mulheres, quando os maridos saiam, mandavam accender uma lamparina a Nossa Senhora; e nem todos os maridos eram valorosos, alguns não andavam fóra sem um ou dous capangas. Positivamente o terror. Quem podia, emigrava. Um desses fugitivos, chegou a ser preso a duzentos passos da villa. Era um rapaz de trinta annos, amavel, conversado, polido, tão polido que não cumprimentava alguem sem levar o chapéu ao chão; na rua, acontecia-lhe correr uma distancia de dez a vinte braças para ir apertar a mão a um homem grave, a uma senhora, ás vezes a um menino, como acontecera ao filho do juiz de fóra. Tinha a vocação das cortezias. De resto, devia as boas relações da sociedade, não só aos dotes pessoaes, que eram raros, como á nobre tenacidade com que nunca desanimava deante de uma, duas, quatro, seis recusas, caras feias, etc. O que acontecia era que, uma vez entrado n'uma casa, não a deixava mais, nem os da casa o deixavam a elle, tão gracioso era o Gil Bernardes. Pois o Gil Bernardes, apezar de se saber estimado, teve medo quando lhe disseram um dia, que o alienista o trazia de olho; na madrugada seguinte fugiu da villa, mas foi logo apanhado e couduzido á Casa Verde.

--Devemos acabar com isto!

--Não pode continuar!

--Abaixo a tyrania!

--Despota! violento! Golias!