Papeis Avulsos

Part 11

Chapter 113,825 wordsPublic domain

--Quem é? perguntou elle de repente, olhando para a porta da rua.

Estava á porta, parado na soleira, um homem que elle não conheceu logo, e mal póde reconhecer dahi a pouco. Vaz Nunes pediu-lhe o favor de entrar; elle obedeceu, comprimentou-o, estendeu-lhe a mão, e sentou-se na cadeira ao pé da mesa. Não trazia o acanho natural a um pedinte; ao contrario, parecia, que não vinha alli senão para dar ao tabellião alguma cousa preciosissima e rara. E, não obstante, Vaz Nunes estremeceu e esperou.

--Não se lembra de mim?

--Não me lembro...

--Estivemos juntos uma noite, ha alguns mezes, na Tijuca... Não se lembra? Em casa do Theodorico, aquella grande ceia de Natal; por signal que lhe fiz uma saude... Veja se se lembra do Custodio.

--Ah!

Custodio endireitou o busto, que até então inclinara um pouco. Era um homem de quarenta annos. Vestia pobremente, mas escorado, apertado, correcto. Usara unhas longas, curadas com esmero, e tinha as mãos muito bem talhadas, macias, ao contrario da pelle do rosto, que era agreste. Noticias minimas, e aliás necessarias ao complemento de um certo ar duplo que distinguia este homem, um ar de pedinte e general. Na rua, andando, sem almoço e sem vintem, parecia levar após si um exercito. A causa não era outra mais do que o contraste entre a natureza e a situação, entre a alma e a vida. Esse Custodio nascera com a vocação da riqueza, sem a vocação do trabalho. Tinha o instincto das elegancias, o amor do superfluo, da boa chira, das bellas damas, dos tapetes finos, dos moveis raros, um voluptuoso, e, até certo ponto, um artista, capaz de reger a villa Torloni ou a galeria Hamilton. Mas não tinha dinheiro; nem dinheiro, nem aptidão ou pachorra de o ganhar; por outro lado, precisara viver. _Il faut bien que je vive_, dizia um pretendente ao ministro Talleyrand. _Je n'en vois pas la necessité_, redarguiu friamente o ministro. Ninguem dava essa resposta ao Custodio; davam-lhe dinheiro, um dez, outro cinco, outro vinte mil reis, e de taes esportulas é que elle principalmente tirava o albergue e a comida.

Digo que principalmente vivia d'ellas, porque o Custodio não recusava metter-se em alguns negocios, com a condição de os escolher, e escolhia sempre os que não prestavam para nada. Tinha o faro das catastrophes. Entre vinte emprezas, adivinhava logo a insensata, e mettia hombros a ella, com resolução. O caiporismo, que o perseguia, fazia com que as dezenove prosperassem, e a vigesima lhe estourasse nas mãos. Não importa; apparelhava-se para outra.

Agora, por exemplo, leu um annuncio de alguem que pedia um socio, com cinco contos de reis, para entrar em certo negocio, que promettia dar, nos primeiros seis mezes, oitenta a cem contos de lucro, Custodio foi ter com o annunciante. Era uma grande idéa, uma fabrica de agulhas, industria nova, de immenso futuro. E os planos, os desenhos da fabrica os relatorios de Birmingham, os mappas de importação, as respostas dos alfaiates, dos donos de armarinho, etc., todos os documentos de um longo inquerito passavam diante dos olhos de Custodio, estrellados de algarismos, que elle não entendia, e que por isso mesmo lhe pareciam dogmaticos. Vinte e quatro horas; não pedia mais de vinte e quatro horas para trazer os cinco contos. E saiu d'alli, cortejado, amimado pelo annunciante, que, ainda á porta, o afogou n'uma torrente de saldos. Mas os cinco contos, menos doceis ou menos vagabundos que os cinco mil reis, saccudiam incredulamente a cabeça, e deixavam-se estar nas arcas, tolhidos de medo e de somno. Nada. Oito ou dez amigos, a quem fallou, disseram-lhe que nem dispunham agora da somma pedida, nem acreditavam na fabrica. Tinha perdido as esperanças, quando aconteceu subir a rua do Rozario e ler no portal de um cartorio o nome de Vaz Nunes. Estremeceu de alegria; recordou a Tijuca, as maneiras do tabellião, as phrases com que elle lhe respondeu ao brinde, e disse comsigo, que este era o salvador da situação.

--Venho pedir-lhe uma escriptura...

Vaz Nunes, armado para outro começo, não respondeu: espiou por cima dos oculos e esperou.

--Uma escriptura de gratidão, explicou o Custodio; venho pedir-lhe um grande favor, um favor indispensavel, e conto que o meu amigo...

--Se estiver nas minhas mãos...

--O negocio é excellente, note-se bem; um negocio magnifico. Nem eu me mettia a incommodar os outros sem certeza do resultado. A cousa está prompta; foram já encommendas para a Inglaterra; e é provavel que dentro de dois mezes esteja tudo montado, é uma industria nova. Somos tres socios; a minha parte são cinco contos. Venho pedir-lhe esta quantia, a seis mezes,--ou a tres, com juro modico...

--Cinco contos?

--Sim, senhor.

--Mas, Sr. Custodio, não posso, não disponho de tão grande quantia. Os negocios andam mal; e ainda que andassem muito hem, não poderia dispôr de tanto. Quem é que póde esperar cinco contos de um modesto tabellião de notas?

--Ora, se o senhor quizesse...

--Quero, de certo; digo-lhe que se se tratasse de uma quantia pequena, accommodada aos meus recursos, não teria duvida em adiantal-a, Mas cinco contos! Creia que é impossivel.

A alma do Custodio cahiu de bruços. Subira pela escada de Jacob até o céu; mas em vez de descer como os anjos no sonho biblico, rolou abaixo e cahiu de bruços. Era a ultima esperança; e justamente por ter sido inesperada, é que elle suppoz que fosse certa, pois, como todos os corações que se entregam ao regimen do eventual, o do Custodio era supersticioso. O pobre diabo sentiu enterrarem-se-lhe no corpo os milhões de agulhas que a fabrica teria de produzir no primeiro semestre. Calado, com os olhos no chão, esperou que o tabellião continuasse, que se compadecesse, que lhe désse alguma aberta; mas o tabellião, que lia isso mesmo na alma do Custodio, estava tambem calado, girando entre os dedos a boceta de rapé, respirando grosso, com um certo chiado nazal e implicante. Custodio ensaiou todas as attitudes; ora pedinte, ora general. O tabellião não se mexia. Custodio ergueu-se.

--Bem,disse elle, com uma pontasinha de despeito, ha de perdoar o incomodo...

--Não ha que perdoar; eu é que lhe peço desculpa de não poder servil-o, como desejava. Repito: se fosse alguma quantia menos avultada, muito menos, não teria duvida; mas...

Estendeu a mão ao Custodio, que com a esquerda pegara machinalmente no chapéu. O olhar empanado do Custodio exprimia a absorpção da alma d'elle, apenas convalecida da quéda, que lhe tirára as ultimas energias. Nenhuma escada mysteriosa, nenhum céu; tudo voara a um piparote do tabellião. Adeus, agulhas! A realidade veio tomal-o outra vez com as suas unhas de bronze. Tinha de voltar ao precario, ao adventicio, ás velhas contas, com os grandes zeros arregalados e os cifrões retorcidos á laia de orelhas, que continuariam a fital-o e a ouvil-o, a ouvil-o e a fital-o, alongando para elle os algarismos implacaveis de fome. Que quéda! e que abysmo! Desenganado, olhou para o tabelião com um gesto de despedida; mas, uma idéa subita clareou-lhe a noute do cerebro. Se a quantia fosse menor, Vaz Nunes poderia servil-o, e com prazer; porque não seria uma quantia menor? Já agora abria mão da empreza; mas não podia fazer o mesmo a uns alugueis atrazados, a dous ou tres credores, etc., e uma somma razoavel, quinhentos mil réis, por exemplo, uma vez que o tabellião tinha a boa vontade de emprestar-lh'os, vinham a ponto. A alma do Custodio impertigou-se; vivia do presente, nada queria saber do passado, nem saudades, nem temores, nem remorsos. O presente era tudo. O presente eram os quinhentos mil réis, que elle ia ver surdir da algibeira do tabellião, como um alvará de liberdade.

--Pois bem, disse elle, veja o que me póde dar, e eu irei ter com outros amigos... Quanto?

--Não posso dizer nada a este respeito, porque realmente só uma cousa muito modesta.

--Quinhentos mil réis?

--Não; não posso.

--Nem quinhentos mil réis?

--Nem isso, replicou firme o tabellião. De que se admira? Não lhe nego que tenho algumas propriedades; mas, meu amigo, não ando com ellas no bolso; e tenho certas obrigações particulares... Diga-me, não está empregado?

--Não, senhor.

--Olhe; dou-lhe cousa melhor do que quinhentos mil réis; fallarei ao ministro da justiça, tenho relações com elle, e...

Custodio interrompeu-o, batendo uma palmada no joelho. Se foi um movimento natural, ou uma diversão astuciosa para não conversar do emprego, é o que totalmente ignoro; nem parece que seja essencial ao caso. O essencial é que elle teimou na supplica. Não podia dar quinhentos mil réis? Aceitava duzentos; bastavam-lhe duzentos, não para a empreza, pois adoptava o conselho dos amigos: ia recusal-a. Os duzentos mil réis, visto que o tabellião estava disposto a ajudal-o, eram para uma necessidade urgente,--«tapar um buraco.» E então relatou tudo, respondeu á franqueza com franqueza: era a regra da sua vida. Confessou que, ao tratar da grande empreza, tivera em mente acudir tambem a um credor pertinaz, um diabo, um judeu, que rigorosamente ainda lhe devia, mas tivera a aleivosia de trocar de posição. Eram duzentos e poucos mil réis; e dez, parece; mas aceitava duzentos...

--Realmente, custa-me repetir-lhe o que disse; mas, emfim, nem os duzentos mil réis posso dar. Cem mesmo, se o senhor os pedisse, estão acima das minhas forças n'esta occasião. N'outra póde ser, e não tenho duvida, mas agora...

--Não imagina os apuros em que estou!

--Nem cem, repito. Tenho tido muitas difficuldades n'estes ultimos tempos. Sociedades, subscripções, maçonaria... Custa-lhe crêr, não é? Naturalmente: um proprietario. Mas, meu amigo, é muito bom ter casas: o senhor é que não conta os estragos, os concertos, as pennas d'agua, as decimas, o seguro, os calotes, etc. São os buracos do pote, por onde vai a maior parte da agua...

--Tivesse eu um pote! suspirou Custodio.

--Não digo que não. O que digo é que não basta ter casas para não ter cuidados, despezas, e até credores... Creia o senhor que tambem eu tenho credores.

--Nem cem mil réis!

--Nem cem mil réis, peza-me dizel-o, mas é a verdade. Nem cem mil réis. Que horas são?

Levantou-se, e veiu ao meio da sala. Custodio veiu tambem, arrastado, desesperado. Não podia acabar de crer que o tabellião não tivesse ao menos cem mil réis. Quem é que não tem cem mil réis consigo? Cogitou uma scena pathetica, mas o cartorio abria para a rua; seria ridiculo. Olhou para fóra. Na loja fronteira, um sujeito apreçava uma sobrecasaca, á porta, porque entardecia depressa, e o interior era escuro. O caixeiro segurava a obra no ar; o freguez examinava o panno com a vista e com os dedos, depois as costuras, o forro... Este incidente rasgou-lhe um horizonte novo, embora modesto; era tempo de aposentar o paletó que trazia. Mas nem cincoenta mil réis podia dar-lhe o tabellião. Custodio sorriu;--não de desdem, não de raiva, mas de amargura e duvida; era impossivel que elle não tivesse cincoenta mil réis. Vinte, ao menos? Nem vinte. Nem vinte! Não; falso tudo; tudo mentira.

Custodio tirou o lenço, alisou a chapéu devagarinho; depois guardou o lenço, concertou a gravata, com um ar mixto de esperança e despeito. Viera cerceando as azas á ambição, pluma a pluma; restava ainda uma pennugem curta e fina, que lhe mettia umas velleidades de voar. Mas o outro, nada. Vaz Nunes cotejava o relogio da parede com o do bolso, chegava este ao ouvido, limpava o mostrador, calado, transpirando por todos os poros impaciencia e fastio. Estavam a pingar as cinco; deram, emfim, e o tabellião, que as esperava, desengatilhou a despedida. Era tarde; morava longe. Dizendo isto, despiu o paletó de alpaca, e vestiu o de casimira, mudou de um para outro a boceta de rapé, o lenço, a carteira... Oh! a carteira! Custodio viu esse utensilio problematico, apalpou-o com os olhos, invejou a alpaca, invejou a casimira, quiz ser algibeira, quiz ser o couro, a materia mesma do precioso receptaculo. Lá vae ella; mergulhou de todo no bolso do peito esquerdo; o tabellião abotoou-se. Nem vinte mil réis! Era impossivel que não levasse alli vinte mil réis, pensava elle; não diria duzentos, mas vinte, dez que fossem...

--Prompto! disse-lhe Vaz Nunes, com o chapéu na cabeça.

Era o fatal instante. Nenhuma palavra do tabellião, um convite ao menos, para jantar; nada; findára tudo. Mas os momentos supremos pedem energias supremas. Custodio sentiu toda força d'este logar-commum, e, subito, como um tiro, perguntou ao tabellião se não lhe podia dar ao menos dez mil réis.

--Quer ver?

E o tabellião desabotoou o paletó, tirou a carteira, abriu-a, e mostrou-lhe duas notas de cinco mil réis.

--Não tenho mais, disse elle; o que posso fazer é repartil-os com o senhor; dou-lhe uma de cinco, e fico com a outra; serve-lhe?

Custodio aceitou os cinco mil réis, não triste, ou de má cara, mas risonho, palpitante, como se viesse de conquistar a Asia Menor. Era o jantar certo. Estendeu a mão ao outro, agradeceu-lhe o obsequio, despediu-se até breve,--um _até breve_ cheio de affirmações implicitas. Depois sahiu; o pedinte esvaiu-se á porta do cartorio; o general é que foi por alli abaixo, pisando rijo, encarando fraternalmente os inglezes do commercio que subiam a rua para se transportarem aos arrabaldes. Nunca o céu lhe pareceu tão azul, nem a tarde tão limpida; todos os homens traziam na retina a alma da hospitalidade. Com a mão esquerda no bolso das calças, elle apertava amorosamente os cinco mil réis, residuo de uma grande ambição, que ainda ha pouco sahira contra o sol, n'um impeto de aguia, e ora habita modestamente as azas de frango rasteiro.

FIM DO EMPRESTIMO

A SERENISSIMA REPUBLICA[1]

(CONFERENCIA DO CONEGO VARGAS)

Meus senhores,

Antes de communicar-vos uma descoberta, que reputo de algum lustre para o nosso paiz, deixai que vos agradeça a promptidão com que acudistes ao meu chamado. Sei que um interesse superior vos trouxe aqui; mas não ignoro tambem,--e fora ingratidão ignoral-o,--que um pouco de sympathia pessoal se mistura á vossa legitima curiosidade scientifica. Oxalá possa eu corresponder a ambas.

Minha descoberta não é recente; data do fim do anno de 1876. Não a divulguei então,--e, a não ser o _Globo_, interessante diario d'esta capital, não a divulgaria ainda agora,--por uma razão que achará facil entrada no vosso espirito. Esta obra de que venho fallar-vos, carece de retoques ultimos, de verificações e experiencias complementares. Mas o _Globo_ noticiou que um sabio inglez descobriu a linguagem phonica dos insectos, e cita o estudo feito com as moscas. Escrevi logo para a Europa e aguardo as respostas com anciedade. Sendo certo, porém, que pela navegação aerea, invento do padre Bartholomeo, é glorificado o nome estrangeiro, emquanto o do nosso patricio mal se póde dizer lembrado dos seus naturaes, determinei evitar a sorte do insigne Voador, vindo a esta tribuna, proclamar alto e bom som, á face do universo, que muito antes d'quelle sabio, o fóra das ilhas britannicas, um modesto naturalista descobriu cousa identica, e fez com ella obra superior.

Senhores, vou assombrar-vos, como teria assombrado a Aristoteles, se lhe perguntasse: Credes que se possa dar um regimen social ás aranhas? Aristoteles responderia negativamente, com vós todos, porque é impossivel crer que jámais se chegasse a organisar socialmente esse articulado arisco, solitario, apenas disposto ao trabalho, e difficilmente ao amor. Pois bem, esse impossivel fil-o eu.

Ouço um riso, no meio do sussuro de curiosidade. Senhores, cumpre vencer os preconceitos. A aranha parece-vos inferior, justamente porque não a conheceis. Amais o cão, prezaes o gato e a gallinha, e não advertis que a aranha não pula nem ladra como o cão, não mia como o gato, não cacareja como a gallinha, não zune nem morde como o mosquito, não nos leva o sangue e o somno como a pulga. Todos esses bichos são o modelo acabado da vadiação e do parasitismo. A mesma formiga, tão gabada por certas qualidades boas, dá no nosso assucar e nas nossas plantações, e funda a sua propriedade roubando a alheia. A aranha, senhores, não nos afflige nem defrauda; apanha as moscas, nossas inimigas, fia, tece, trabalha e morre. Que melhor exemplo de paciencia, de ordem, de previsão, de respeito e de humanidade? Quanto aos seus talentos, não ha duas opiniões. Desde Plinio até Darwin, os naturalistas do mundo inteiro formam um só côro de admiração em torno d'esse bichinho, cuja maravilhosa teia a vassoura inconsciente do vosso creado destroe em menos de um minuto. Eu repetiria agora esses juizos, se me sobrasse tempo; a materia, porém, excede o prazo, sou constrangido a abrevial-a. Tenho-os aqui, não todos, mas quasi todos; tenho, entre elles, esta excellente monographia de Buchner, que com tanta subtileza estudou a vida psychica dos animaes. Citando Darwin e Buchner, é claro que me restrinjo á homenagem cabida a dois sabios de primeira ordem, sem de nenhum modo absolver (e as minhas vestes o proclamam) as theorias gratuitas e erroneas do materialismo.

Sim, senhores, descobri uma especie araneida que dispõe do uso da falla; colligi alguns, depois muitos dos novos articulados, e organisei-os socialmente. O primeiro exemplar d'essa aranha maravilhosa appareceu-me no dia 15 de dezembro de 1876. Era tão vasta, tão colorida, dorso rubro, com listras azues, transversaes, tão rapida nos movimentos, e ás vezes tão alegre, que de todo me captivou a attenção. No dia seguinte vieram mais tres, e as quatro tomaram posse de um recanto de minha chacara. Estudei-as longamente; achei-as admiraveis. Nada, porém, se póde comparar ao pasmo que me causou a descoberta do idioma araneida, uma lingua, senhores, nada menos que uma lingua rica e variada, com a sua estructura syntaxica, os seus verbos, conjugações, declinações, casos latinos e fórmas onomatopaicas, uma lingua que estou grammaticando para uso das academias, como o fiz summariamente para meu proprio uso. E fil-o, notai bem, vencendo difficuldades asperrimas com uma paciencia extraordinaria. Vinte vezes desanimei; mas o amor da sciencia dava-me forças para arremetter a um trabalho, que hoje declaro, não chegaria a ser feito duas vezes na vida do mesmo homem.

Guardo para outro recinto a descripção technica do meu arachnide, e a analyse da lingua. O objecto d'esta conferencia é, como disse, resalvar os direitos da sciencia brazileira, por meio de um protesto em tempo; e, isto feito, dizer-vos a parte em que reputo a minha obra superior á do sabio de Inglaterra. Devo demonstral-o, e para este ponto chamo a vossa attenção.

Dentro de um mez tinha commigo vinte aranhas; no mez seguinte cincoenta e cinco; em Março de 1877 contava quatrocentas e noventa. Duas forças serviram principalmente á empreza de as congregar:--o emprego da lingua d'ellas, desde que pude discernil-a um pouco, e o sentimento de terror que lhes infundi. A minha estatura, as vestes talares, o uso do mesmo idioma, fizeram-lhes crer que era eu o deus das aranhas, e desde então adoraram-me. E vede o beneficio d'esta illusão. Como as acompanhasse com muita attenção e miudeza, lançando em um livro as observações que fazia, cuidaram que o livro era o registro dos seus peccados, e fortaleceram-se ainda mais na pratica das virtudes. A flauta tambem foi um grande auxiliar. Como sabeis, ou deveis saber, ellas são doudas por musica.

Não bastava associal-as; era preciso dar-lhes um governo idoneo. Hesitei na escolha; muitos dos actuaes pareciam-me bons, alguns excellentes, mas todos tinham contra si o existirem. Explico-me. Uma fórma vigente de governo ficava exposta a comparações que poderiam amesquinhal-a. Era-me preciso, ou achar uma fórma nova, ou restaurar alguma outra abandonada. Naturalmente adoptei o segundo alvitre, e nada me pareceu mais acertado do que uma republica, á maneira de Veneza, o mesmo molde, e até o mesmo epitheto. Obsoleto, sem nenhuma analogia, em suas feições geraes, com qualquer outro governo vivo, cabia-lhe ainda a vantagem de um mecanismo complicado,--o que era metter á prova as aptidões politicas da joven sociedade.

Outro motivo determinou a minha escolha. Entre os differentes modos eleitoraes da antiga Veneza, figurava o do sacco e bolas, iniciação dos filhos da nobreza no serviço do Estado. Mettiam-se as bolas com os nomes dos candidatos no sacco, e extrahia-se annualmente um certo numero, ficando os eleitos desde logo aptos para as carreiras publicas. Este systema fará rir aos doutores do suffragio; a mim não. Elle exclue os desvarios da paixão, os desazos da inepcia, o congresso da corrupção e da cobiça. Mas não foi só por isso que o aceitei; tratando-se de um povo tão eximio na fiação de suas teias, o uso do sacco eleitoral era de facil adaptação, quasi uma planta indigena.

A proposta foi acceita. Serenissima Republica pareceu-lhes um titulo magnifico, roçagante, expansivo, proprio a engrandecer a obra popular.

Não direi, senhores, que a obra chegou á perfeição, nem que lá chegue tão cedo. Os meus pupillos não são os solarios de Campanella ou os utopistas de Morus; formam um povo recente, que não póde trepar de um salto ao cume das nações seculares. Nem o tempo é operario que ceda a outro a lima ou o alvião; elle fará mais e melhor do que as theorias do papel, validas no papel e mancas na pratica. O que posso affirmar-vos é que, não obstante as incertezas da idade, elles caminham, dispondo de algumas virtudes, que presumo essenciaes á duração de um Estado. Uma d'ellas, como já disse, é a perseverança, uma longa paciencia de Penelope, segundo vou mostrar vos.

Com effeito, desde que comprehenderam que no acto eleitoral estava a base da vida publica, trataram de o exercer com a maior attenção. O fabrico do sacco foi uma obra nacional. Era um sacco de cinco polegadas de altura e tres de largura, tecido com os melhores fios, obra solida e espessa. Para compol-o foram acclamadas dez damas principaes, que receberam o titulo de mães da republica, além de outros privilegios e fóros. Uma obra-prima, podeis crel-o. O processo eleitoral é simples. As bolas recebem os nomes dos candidatos, que provarem certas condições, e são escriptas por um official publico, denominado «das inscripções». No dia da eleição, as bolas são mettidas no sacco e tiradas pelo official das extracções, até perfazer o numero dos elegendos. Isto que era um simples processo inicial na antiga Veneza, serve aqui ao provimento de todos os cargos.

A eleição fez-se a principio com muita regularidade; mas, logo depois, um dos legisladores declarou que ella fora viciada, por terem entrado no sacco duas bolas com o nome do mesmo candidato. A assembléa verificou a exactidão da denuncia, e decretou que o sacco, até alli de tres pollegadas de largura, tivesse agora duas; limitando-se a capacidade do sacco, restringia-se o espaço á fraude, era o mesmo que supprimil-a. Aconteceu, porém, que na eleição seguinte, um candidato deixou de ser inscripto na competente bola, não se sabe se por descuido ou intenção do official publico. Este declarou que não se lembrava de ter visto o illustre candidato, mas aecrescentou nobremente que não era impossivel que elle lhe tivesse dado o nome; neste caso não houve exclusão, mas distracção. A assembléa, diante de um phenomeno psychologico ineluctavel, como é a distracção, não pôde castigar o official; mas, considerando que a estreiteza do sacco podia dar logar a exclusões odiosas, revogou a lei anterior e restaurou as tres pollegadas.